#KDMulheres: questionamento e ocupação

Foto de arquivo da página do "Kd Mulheres?"

Foto de arquivo da página do “Kd Mulheres?”

Vi o “KD Mullheres?” nascer. Estive com Laura Folgueira e Martha Lopes, suas criadoras, na praça da Matriz de Paraty no ano passado, questionando por que tão poucas escritoras participavam das mesas principais da Flip-Feira Literária Internacional de Paraty. Em 2014, apenas 15% dos debates na Tenda dos Autores contavam com mulheres. De todas as edições da Flip, apenas uma escritora brasileira foi homenageada até hoje: Clarice Lispector.

E, mais uma vez, estive com elas esse ano fazendo a mesma pergunta. Dessa vez, na Flip Zona (destinada a um público mais jovem), quando Laura e Martha participaram de um debate, junto com a cantora Karina Buhr, sobre a presença da mulher na literatura.

Que lógica é essa que faz com que menos mulheres sejam publicadas, resenhadas e premiadas? Por que o perfil do autor mais publicado no Brasil é homem, branco, que mora nas grandes cidades? Por que isso não nos surpreende? Por que mulheres são mais inseguras pra mostrar seus escritos e se assumirem escritoras? A representatividade importa?

Que lógica é essa que faz com que, ano após ano, menos de 20% das mesas principais de um evento como a Flip sejam ocupadas por mulheres, mesmo quando o próprio evento abre sua programação pra discutir o assunto?

Sigo com a provocação de Martha Lopes martelando na cabeça: quantos livros de homens e quantos de mulheres você tem em sua estante? E fico com a constatação de Laura Folgueira: quanto mais a hierarquia sobe, menos mulheres ocupam postos de comando. Isso em praticamente qualquer indústria. Na do mercado editorial parece não ser diferente.

Portanto, é preciso mais mulheres liderando editoras e curadorias de feiras literárias, é preciso mais mulheres selecionando “livros do ano” em jornais e revistas (ou o que venha depois disso, quando os jornais e revistas deixarem de existir). Quem sabe, assim, as coisas começam a se ajustar.

Falo mais sobre o debate, aqui, no Blogueiras Feministas.

Abaixo, prosa minha publicada no zine do “KD Mulheres?”, que abriu um concurso para autoras e ilustradoras participarem da publicação que elas produziram pra Flip 2015. Foram selecionados 16 contos e poesias e três ilustrações, incluindo essa sereia maravilhosa da capa, gorda e com mamilos! <3

Prado

E tem essa agonia. Esse desejo, essa pulsão. Palavras a eleger. E essa malquerença da escolha. O que é de certeza, o que é passageiro, o que morre. E esse medo (da morte) sem transcendência. E se ninguém gostar, se ninguém quiser, se ninguém lembrar. Se ninguém lembrar. Se ninguém lembrar. Bate como eco. Badalando na cabeça, naquele barulho seco e contínuo. Tum, tum, tum. Se ninguém quiser. Tum, tum, tum. Se ninguém lembrar. A vontade de não ser apenas pó. Falo nem de vaidade. Mentira. Falo, sim. Que tanto transitórias somos. Que são palavras se não plasmadas? Se guardadas, existem? E soltas por aí. Emprestadas. Se em fuga. São nossas? E se me canso antes mesmo de sabê-las. E chupá-las. Com limão e tequila. No ácido da casca. Lá, onde se pode chorar. Lambendo o que escorre pelo punho até o cotovelo. Aff. Quem alcança o cotovelo? E a palavra ali, do cotovelo pingando pro chão. E eu querendo prendê-la na axila. Apelando pra mesóclise, dar-lhe-ando perfumes embaixo do sovaco. Mas, a palavra, essa malina, corre ali pro canto da mesa. ‘Inda me precipito por ela e bato o dedinho na quina da cadeira. E paro no meu desassossego. Merda. Que sei eu sobre dor virar poesia? Se nem de clichê a encontro. A palavra me acena de longe. Debochada. E me mostra a língua. Mal educada. Faz orelha de burro e tatibiteia lá-lá-lá-lá-lá. Desgraçada. Quantas vezes não quis que fossem minhas “Mulher é desdobrável. Eu sou.” Quanto já não quis ser Adélia. Que ainda quero. Acendo vela pra ela, faço reza pra ela. Promessa. Sinal da cruz. Ajoelho nos pés dela. Sã Adélia. Te devoto minha sanha. A palavra volta. Sirirca. Falsa! Mas. Deixa-me usá-la. Numa ênclise. Adélia, minha santinha. O milagre!

Amém.

Frida Kahlo e a intensidade do sentir

Por *Bia Cardoso, Biscate Convidada.

Hoje é aniversário de Frida Kahlo. Nascida em 06 de julho de 1907 no México, Frida sempre foi para mim aquela pessoa que gostaria imensamente de ser amiga. O fillme “Frida” (2002) só reforçou essa imagem de que ela era uma mulher única e incrível, uma biscate com a qual todos gostaríamos de flertar.

Com uma vida marcada por doenças, acidentes e limitações físicas, a intensidade com a qual vivia e produzia é o que mais me chama atenção em sua trajetória. Sendo considerada uma mulher feia socialmente, subverte essas questões fazendo de sua imagem a representação mais forte de seu trabalho. Ao mesmo tempo, sua intensidade transborda em cada foto que vemos dela, trazendo consigo uma sensualidade e atração. Frida nos convida com o olhar e nos provoca a conhecê-la.

Frida Kahlo fotografada por Nickolas Murray em 1946. Imagem do Museu Frida Kahlo.

Frida Kahlo fotografada por Nickolas Murray em 1946. Imagem do Museu Frida Kahlo.

Bissexual, revolucionária e autêntica. Se vivesse nos dias atuais, provavelmente Frida Kahlo seria questionada até mesmo entre as feministas. Por que usar vestidos que remetem a uma cultura indígena que enxerga a mulher tão feminina? Por que o desejo de ser mãe e agradar o marido é tão importante? Por que manter por tantos anos uma relação tão conturbada com Diego Rivera?

Em meus devaneios, penso que Frida responderia apenas que estava vivendo. Sentindo e absorvendo cada ação, tempo e espaço que lhe cabia no mundo. Preenchendo o vazio com o existencial complexo e dialético do amor. Misturando às suas tintas a falta de respostas óbvias que há quando perguntamos para nós mesmas: o que quero?

O querer de Frida passa pelo desejo de autonomia, de ação, de construção, de provocação. Seja por meio da arte, da política ou da própria existência. Sua imagem nos remete a força e autenticidade, mas sua obra e seus escritos retratam fragilidade, medos e inseguranças. Como pode uma mulher tão livre cair em ciúmes por um marido infiel a quem parece implorar o amor? Como vemos nesse trecho de uma carta escrita por Frida a Diego Rivera em 23/07/1935:

[…] uma certa carta que descobri por acaso num certo paletó de um certo cavalheiro e que provinha de uma certa senhorita que mora na distante e feia Alemanha e que, imagino, deve ser aquela dama que Willi Valentiner achou por bem mandar se aventurar por aqui com fins “científicos, artísticos e arqueológicos”… me deixou absolutamente furiosa e, a bem da verdade, ciumenta… Por que sou tão suscetível e limitada e não consigo compreender que as cartas, os casos com o primeiro rabo de saia que aparece, as professoras… de inglês, as modelos ciganas, as assistentes cheias de “boa vontade”, as aprendizes interessadas “na arte de pintar” e as “enviadas plenipotenciárias de regiões distantes” não passam de aventuras sem futuro e que, no fundo, eu e você, nós nos amamos ao extremo e, mesmo quando sofremos com os inúmeros pecadilhos um do outro, as portas batendo, os piores insultos e as solicitações internacionais, continuamos a nos amar. Creio que o problema é que sou um pouco brutal e um tantinho maliciosa, pois todas essas coisas que aconteceram  e se repetiram ao longo dos sete anos em que vivemos juntos e todas as cóleras que senti me levaram a compreender melhor que o amo mais que minha própria pele, inclusive se você não me amar do mesmo jeito: de todo modo, você me ama um pouquinho… não é mesmo? E se isso não for verdade, sempre me resta a esperança de que venha a ser, e isso me basta. Ama-me um pouquinho. Eu te adoro. (1 – pg. 115).

Será tão fácil explicar Frida Kahlo? Será que essa intensidade não é justamente o seu dínamo pessoal para produzir uma obra tão instigante, expressiva e questionadora? Talvez sim, talvez não. Talvez o melhor de Frida esteja justamente na maneira como suas dualidades e ambiguidades evidenciam nossas imperfeições e fraquezas. Não há respostas simples para os relacionamentos humanos, especialmente os amorosos. Não há cartilhas feministas que deem conta das complexidades internas e externas das mulheres, de seus desejos e atitudes. Por isso, mais do que determinar o que é certo ou errado nos comportamentos humanos, podemos aprender com Frida Kahlo a ampliar os horizontes de possibilidades, sem tantos julgamentos, mas rindo ou chorando juntas e apoiando quando for necessário.

Frida Kahlo com a cantora Chavela Vargas.

Frida Kahlo com a cantora Chavela Vargas.

Referência

(1) BURRUS, Christina. Frida Kahlo: pinto a minha realidade. Tradução Eliana Aguiar. Rio de Janeiro: Editora Objetiva, 2010.

Quer mais de Frida?

Também tem texto meu nas Blogueiras Feministas: Frida Kahlo: imagem, corpo e feminismo. Aqui no Biscate tem Frida, romance e receita no: E a Biscate Mexicana Enfeitiçou Trotsky.

foto_bia*Bia Cardoso é feminista e lambateira tropical.

Uma onda colorida

Foi bonita a festa, pá. O tapete multicolorido em que se transformou minha TL do feicebuque ontem. Um a um, meus amigos iam ficando cobertos pelo arco-íris. E eu me alegrava, “curtia” até ficar com o dedo doendo, sorria e, ocasionalmente, ficava com os olhos cheios de lágrimas.

Voltava aos meus afazeres e, quando ia lá de novo, mais uma ruma de amigos tinha se transformado e entrado debaixo do arco-íris.

Celebrando. Celebrando o quê? Celebrando o fato de que uma pá de gente no mundo passou a ter seus direitos garantidos, num país pro qual todo mundo olha, que exporta seus jeitos e suas modas pro mundo todo, ou pelo menos pra boa parte do mundo.

Celebrando a solidariedade, o fato de que gente é pra brilhar, celebrando a alegria do outro, a festa do outro, comemorando junto com o outro, junto com a outra.

Dia do Orgulho Alheio, disse a Lena, e eu pego emprestado: orgulho e alegria dos amigos que não precisam ser gays para saber que isso muda a vida, a deles, a nossa que passamos a viver num mundo melhor e mais justo.

Casamento? É besteira, você diz? Intromissão do Estado nas relações privadas? Tinha que acabar, é? Ué, mas quem está discutindo casamento? A gente tá celebrando é a conquista do direito. Pra que os gays, as sapatas também possam dizer que é besteira, que não querem casar. Não querem, mas podem. Ou querem, e também podem.

Well done, tio Zucka. O arco-íris foi bem sacado que só.

E quando a gente celebra e faz festa junto por mais um direito adquirido, que já existia aqui, mas não lá, quando os juízes da Suprema Corte lá garantem o direito porque reconhecem que é um direito constitucional, isso muda coisas. Não é mera burocracia. Não é a mera permissão para os estados de celebrar o casamento gay: é a obrigação, visto que é direito constitucional, e o embasamento é a 14ª emenda, que fala da igualdade de todos os cidadãos diante da lei. Entendeu-se, pois – em votação apertada, 5 a 4 – que isso abrange o direito dos cidadãos de casar. A discussão toda faz diferença, do ponto de vista dos direitos. E vai bem além dos Estados Unidos.

Abraços, risos, lágrimas: foi dia de festa, em meio a tantas dores de todo dia. E meu coração se alegra com os amigos e amigas de cujos sofrimentos sei tão pouco, de que só ouço ecos: o de sair do armário (ou não), o de contar para os pais, para os irmãos, para a família toda, o de ser apontado como “aquele ou aquela que….” . E é tão lindo e tão raro quando a reação é “eu quero que minha filha seja feliz” e ponto. Tantas vezes é dor, é incompreensão, é um “não criei filho meu para…”, é choro e ranger de dentes, apenas porque o desejo da gente é o que é e a gente não tem controle disso. Não sei dessa dor que deve ser você ser motivo de tristeza para seus pais, simplesmente por ser quem é. A dor de escolher não contar, por ser mais fácil, para não confrontar. O dia-a-dia de quem assume, o dia-a-dia de quem disfarça: dores que não conheço, eu, cis e hétero.

Então quando tem um dia assim, em que a linha do tempo do fêice se transforma em tapete multicolorido, meus olhos se enchem de lágrimas e, sem achar que a revolução foi feita, permito-me acreditar que um passo foi dado na direção certa. A da gente juntos. A da gente gente. Em direção ao dia em que isso não será mais questão nem motivo de sofrimento: Ana namora Luciana, Claudio namora Ricardo, Mariana namora Paulo, Fábia namora Stella. Mônica namora Max. Fabi namora Rita. Dodô namora todo mundo, claro. E a gente vai dançar ciranda, todo mundo junto, rodar até perder o fôlego e cair na areia da praia.

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Qual república vai cair?

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Anunciaram e garantiram que a República iria se acabar nesta segunda-feira. Mas que república? Uma grande questão sobre a nossa sociedade e a atual situação de grupos vulneráveis e minorias é, certamente: Que República?

Desde que decidimos, por um golpe militar, implantar uma República no Brasil, fizemos a instituição de um estado estratificado, desigual, patriarcal e patrimonial. O que eu quero dizer com isso? É que fizemos um estado do “meu” e não um estado “de todos”.

A nossa concepção de política, de liberdade, de igualdade e de fraternidade simplesmente se resume a: o quão livre eu posso ser no meu grupo de privilégios; o quanto de igualdade eu posso conceder sem permitir que todos os meus privilégios decaiam; e, como conter os ideais de alteridade pelo simples fomento do ódio.

É isso o resumo do que somos. Somos uma sociedade heteronormativa, que busca manter-se como tal. Que, às vezes, faz concessões por vias de enfrentamento (decisões judiciais, protocolos administrativos, etc) e que, quando estamos muito descontentes, nos ensinam que emitir um mugido de revolta, mandando nosso opositor procurar uma rola (ou coisa melhor, às vezes), é a melhor solução.

Nosso grande “esquecimento” é que a condição de igualdade, formando a base republicana, só se dá quando reconhecemos no outro a nossa própria liberdade. Isso mesmo! A nossa verdadeira liberdade só se realiza na liberdade do outro. Na sua igualdade e no seu reconhecimento.

A noção de “público” na República não é simplesmente algo que seja de todos indistintamente. Mas é algo que todos possam reconhecer o próprio gozo. Sim, GOZO, simbólico e material. Gozo, realizado mediante o entendimento de que gozo proveniente do desejo do outro é tão legítimo quanto o nosso gozo, quanto o nosso desejo.

A república que não temos é justamente a nossa incapacidade de aceitar que a “coisa” mais pública que temos que preservar é a não-intervenção no desejo alheio, na medida em que ele não pratique nenhuma opressão e, como tal, manifeste a integridade de um sujeito.

Quando chegarmos a esse patamar, o de reconhecer a plenitude do outro como um ser que merece gozar, desejar e ser e viver a delícia que é, que teremos uma república… E ela não cairá!

Mães dançando, filhos envergonhados

Alguém (que eu não conheço, é amiga de amigos) postou no feicebuque uma foto de mulheres dançando, com a legenda: “mães dançando, filhos envergonhados”.
E isso apenas deu o mote para um texto que já tava se escrevendo por aqui há um tempo. Porque tanta gente reconhece essa legenda. Tanta gente se identifica com ela. E acho que pouca gente para pra pensar no que está por trás.

“Filhos envergonhados” de quê? Mulheres dançando. Ué, os filhos dessas mulheres não dançam, será isso? Não gostam de dança? São contra a dança? Só gostam de contradanças?

Será?

Pois bem, até pode ser. Quem sabe. Até pode ser, às vezes. Mas não me parece que seja isso na maioria das vezes. Para a maioria dos “envergonhados”. Eles dançam, sim. Eles balançam seus corpos jovens, esguios, elegantes, modernos na pista de dança. Nas ruas durante o carnaval.
Eles dançam. Dançam porque podem.

Podem porque são jovens. Basicamente isso: porque são jovens. Aos jovens, tudo. Aos jovens, holofotes. Brilhos, fotografias, legendas aprovando. Jovens: corpos com selo de aprovação.

As “mães” da história: erradas. Erradas, já que não tão jovens. Motivo de vergonha para os filhos.

Sim, sim, claro que sei: era uma mezzo brincadeira. Os filhos só ficam meio com vergonha, nem reprimem, de fato. Mas não queria, mesmo, deixar passar. Não queria, mesmo, deixar pra lá. Queria fazer aquele papel de insuportável grilo falante, a enfiar dedos em feridas que se preferiria ignorar. Adiante.

E então. Essa sociedade, a nossa, tem uma hipervalorização da carne fresca. Carne jovem. Linda, elegante e sincera. De começo de era. E isso, como tantas vezes, subentende o lado B. O desprezo pelos não-jovens. Mulheres, então…. tão melhor quando se comportam de forma compatível com a idade. Tão sem-noção isso de se exibir assim, na pista de dança. De usar saia curta. Decote. Não se enxerga não? Será que tá faltando espelho em casa? Quem pensa que é, a sair por aí expondo-se aos olhares dos outros como se isso fosse aceitável? Um xale, talvez. A saia um pouco mais baixa, certamente. Um pouco mais de compostura, sem dúvida. É de senhoras que estamos falando. Onde está o comportamento compatível com a idade?
Coitados dos filhos delas. Todo mundo olhando. Na frente dos colegas todos. O que será que vão pensar.
Aff.

Cristina Hoyos, a maravilhosa

Cristina Hoyos, a maravilhosa

Além da piscadela…

Tem uma música do Caetano que diz em um de seus versos algo como “eu retribuo a piscadela do garoto de frete do Trianon, eu sei o que é bom.”. Durante os anos de colégio, colégio classe média mas bem na média de São Paulo, era comum os meninos caçoarem Caetano: “é gay.” Aliás, a ofensa comum era a associada ao gostar de alguém do mesmo sexo: gay, sapata, bichona, marica. Demorou muitos anos para que eu entendesse o “eu sei o que é bom” e que retribuir a piscadela do garoto do frete pode ter pouca cousa, mas bem pouca mesmo, a dizer sobre gostar de transar com homens ou mulheres. Tem a ver é com prazer, com empatia, com desejo e do reconhecer que o sexo deve ser gostoso, ainda que a gente não tenha a experiência ali na hora, no instante, no momento seguinte ou que nunca venha a ter, ou querer, nada além da piscadela.

Menino aprende desde cedinho a reprimir. Menino não acha menino bonito. Homem não acha homem bonito. Homem não beija homem. Retribuir a piscadela do garoto de frete, então, é atestado.  É um mundo obviamente equivocado aquele que consegue admitir que uma criança possa jogar um jogo eletrônico com o objetivo final de cortar a garganta do “inimigo”, com o sangue jorrando pela tela, mas não possa olhar outro menino e achá-lo… bonito.

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Este tipo perverso de repressão é que todo olhar passa a ser expressão da libido, de um desejo sexual. Um beijo nunca mais será só um beijo, uma expressão de se gostar, de prazer, de carinho. Perdemos a capacidade de sentir prazer, de gostar, e do carinho pelo que os outros sentem – o que importa é nossa percepção e só ela. Ali na piscadela, sabemos, há um convite, mas há sobretudo a possibilidade de prazer do outro. Um prazer que sabemos que deve ser bom, mesmo que não seja a expressão do meu desejo, do meu querer, do meu tesão.

Toda a repressão, desconfio, tem uma intenção egoísta, que nos afasta do coletivo. Tenho uma triste intuição que estamos naufragando numa sociedade onde o coletivo está sendo é formado por egoístas, um medonho paradoxo que resulta nisso que vemos todos os dias: o bullying sistemático com quem está fora da ordem.

Devíamos ouvir mais Caetano. Como cesta básica.

NOTA DA GERÊNCIA: E ler este texto de outra biscate que tá por aí, por aqui, falando de cuidar de meninos.

 caetanoveloso

Sem correntes

Eu sei, é um doce te amar

O amargo é querer-te pra mim

Do que eu preciso é lembrar, me ver

Antes de te ter e de ser teu, muito bem

Los Hermanos – Condicional

Demorei pra entender o que é amar, às vezes, acreditamos que amar é prender, isso é uma mentira! Nem sempre amar é compreender os atos dx outrx. As vezes, amar é dar espaço, mesmo quando dói se afastar. Amar é ser amiga quando se está apaixonada, pois sabe que carinho está além do tesão.

Amar é se encantar com as diferenças, é aprender com vivências diversas, é encontrar doçura no “dar espaço pra você respirar”. Muitas vezes, amar não significa lutar pra que dê certo, amar é deixar-se ir, é partir quando não se deseja, mas nos é pedido. É tomar a dolorosa decisão de não beijar quando seu maior desejo é beijar todo o tempo. Amor é respeito e compreensão, até quando respeitar x outrx dói no peito.

Em uma situação atual, estou aprendendo que deixar livre quem se ama é a maior prova de amor que poderia dar. Sei que não é um adeus, sei que, mesmo com essa vontade enorme de não dar espaço e tempo, a única atitude que posso tomar é dar espaço pra que se respire novos ares. Amar é não ter gaiolas, correntes, nada que nos prenda, pra que não fique a força, se me doer sua partida, problema é meu, você já tem os seus problemas, receios, questões, não terá que lidar com a minha dor.liberdade

BDSM de 50 tons é uma (perturbadora) invenção baunilha

Essa quinzena, lembramos o dia internacional da mulher do nosso jeitinho biscate: luta, celebração e inquietação, tudo junto, arfante e misturado…

 #nãomedeemflores #diainternacionaldamulher

Por Divina, Biscate Convidada

Se uma protagonista feminista estereotipada surgisse no cinema, muita gente ia comprar a ideia. De antemão, é palatável aceitar o que dizem as más línguas sobre o Outro. Esse texto é destinado a  quem ficou atormentado com o filme e gostaria de saber na opinião de quem vivencia: É mesmo verdade que o pessoal do BDSM se comporta daquele jeito? As pessoas fazem aquelas coisas? Atenção, se não quiser saber detalhes do enredo, não prossiga a leitura.

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Anastasia Steele é uma estudante de literatura com visual ladylike, curiosa e declaradamente romântica (além de virgem), dirige um fusca e tem o hábito de morder os lábios. Christian Gray é um homem muito rico, com “gostos peculiares”, experiente sexualmente, órfão de uma mãe viciada em crack, abusado sexualmente quando mais jovem. Ao se conhecerem, Anastasia se sente intimidada pela figura de Christian, a jovem expressa muitos indícios de desconforto dada a coação nas coisas mais simples: “Coma isso, não beba aquilo”. Em determinada ocasião, bêbada numa danceteria, telefona e solta meia dúzia de verdades. Ao invés do Dominador sexualmente experiente aceitar que a moça semi-desconhecida não gosta da abordagem, o que ele faz? Vai procurar o que fazer já que é um ocupado homem de negócios? Não. Ele aparece no clube e a leva para a casa dele (sem perguntar se queria). Ao acordar na casa de Christian com uma camisa masculina, descobre que ele a trocou porque estava suja de vômito e de acordo com o sujeito, não aconteceu nada sexual entre eles. Esse é o princípio das incongruências do personagem, supostamente tão versado no BDSM mas completamente desestabilizado por uma mulher baunilha (baunilha = alguém que gosta de sexo dito convencional, sem conteúdo BDSM) e iniciante.

Se um homem te proíbe de ver amigos e família sem estar na presença dele, ou liga para saber com quem está e o que está fazendo, ele não é um Dominador no BDSM, na verdade, ele não passa de um homem inseguro, controlador e de postura abusiva. Se um homem se desfaz das suas coisas sem te perguntar, isso é violência patrimonial. Se um homem não deixa você transitar em nenhum espaço sem aparecer sorrateiramente (até na sua casa!), controlando o que você bebe e come, ele não está cuidando da sua saúde porque te ama,  está controlando o seu corpo porque assume que você é posse dele.  Se um homem não te deixa sair de casa  “nesse castelo que construiu para te guardar de todo mal”, ele não está te preservando, ele quer que viva somente em função dele sem projetos pessoais ou interação social. Se um parceiro proíbe e restringe seu contato com o mundo exterior ele está te fazendo prisioneira, no máximo concedendo uma liberdade assistida aqui e ali. Romantizar o cárcere emocional, financeiro e psicológico de mulheres é preocupante. Não interessa a justificativa dada por ele, você não precisa ser refém da insegurança alheia, nem tem a obrigação “salvar” um homem controlador. Essa é uma tendência romântica alarmante: Mulheres são ensinadas a aceitar o ciúmes e a possessão de seus parceiros, porque se sentem mães deles (sequer mães, tem a obrigação perpétua de responder pelos atos dos filhos). Mulheres não precisam ser as responsáveis por marmanjos capazes de limpar a própria bunda.

Entre os muitos abusos de Christian Gray, está coagir uma moça completamente alheia ao BDSM em embarcar nas preferências sexuais que não a contemplam. A negociação dos termos BDSM varia de pessoa para pessoa, há mesmo quem elabore contratos, outros preferem estabelecer os parâmetros verbalmente. Isso pode parecer um tanto estranho, mas se as pessoas conseguem pensar pragmaticamente ao casar com quem fica com a residência, o carro, a guarda das crianças e o cachorro, porque não fazer isso em uma união sexual? Não é uma obrigação, apenas um dos modos de operar em um acordo BDSM. Estranho um Dominador experiente como Christian, aparecer de contrato pronto com termos técnicos e pressionar tão insistentemente para que Anastasia o assine. A jovem é completamente baunilha, inexperiente sexualmente, seria no mínimo indelicado abordar qualquer pessoa virgem e sugerir um punho enfiado no cu, quem dirá impor a assinatura de um termo para alguém cuja expectativa de estreitamento afetivo, envolve chocolate e cinema sendo que a outra parte aspira açoitá-la. Como um Dom experiente não é seguro o bastante para ouvir um “Não”?  Como não tem auto-controle o bastante para se abalar com as perguntas (legítimas) de uma moça baunilha? Como proíbe o toque se a moça ainda nem assinou o contrato? Anastasia Steele não é a submissa de Christian Gray, em nenhum momento do primeiro filme ela assina o contrato. Como o tal Dominador experiente nega quando bem entende o uso do acordo, mas exige que a parte da submissa seja completamente cumprida se ela sequer assinou? Como não respeita o tempo e os limites de quem se envolve? Como antes da concordância da parte envolvida já parte para um flogger? Como um Dominador experiente não sabe lidar com uma simples virada de olho sem reagir punitivamente?

Esse filme poderia perfeitamente ser realizado nos anos noventa, nessa época filmes sobre relacionamentos abusivos ganharam destaque, por exemplo, “Dormindo com o Inimigo” e o reprisado muitas vezes na tv, “Medo”. A diferença é que em 50 tons de cinza a violência contra a mulher foi romantizada numa roupagem distorcida de BDSM. O BDSM é estruturado na tríade São, Seguro e Consensual. Assim, as pessoas envolvidas tem de ser adultas com discernimento suficiente para distinguir a encenação BDSM e a violência não consentida. E isso, em sobriedade. Perdi as contas das cenas do personagem bebendo, até mesmo oferecendo uma taça antes dela assinar o contrato. Se na sua cabeça não faz sentido se excitar com BDSM, não force, não é para você. Não há problema nenhum ser baunilha, você não é uma pessoa desinteressante ou menos liberta por gostar de sexo convencional.  Ao que parece, as cenas de 50 tons, envolvem camisinhas e aparatos novos (pela possibilidade de pequenos cortes e sangramentos, o instrumento deve ser de uso exclusivo e devidamente higienizado). Espantosamente, as práticas não foram consensuais, uma vez que o contrato não foi assinado e a moça não teve a segurança do que aconteceria entre eles. Um preceito básico do BDSM menosprezado no filme, é o aftercare, o cuidado após a sessão. Que tipo de dominador experiente não sabe fazer um aftercare, ainda mais com uma iniciante? Enquanto Domme, sei quais palavras excitam meu submisso e quais não devo usar por serem gatilho de experiências traumáticas. Além dessa consideração, tenho de estar atenta aos sinais do corpo para que não fira a integridade física e psicológica, no entanto, pode ser que um dia ele não esteja bem ou mesmo sem esperar, demande parar uma sessão. BDSM é um jogo de mútua atribuição, não apenas a figura dominante tem de ter auto-controle e saber se é hora de interromper, a parte submissa tem de conhecer os próprios sinais e indicar ao dominante que a sessão precisa de uma pausa (dominante não tem bola de cristal).

Anastasia sentiu prazer em um bondage brando, o uso de uma gravata para tornar uma coisa interessante aqui e ali. Ela não se sentiu bem com as cintadas no final. Por mais que uma pessoa baunilha tenha curiosidade em experimentar o BDSM, um dominador não pode ceder aos apelos de quem jura de pé junto que aquenta, ao mesmo passo que oferece todos os sinais de despreparo. Um dominador experiente sabe que até conhecer os limites de alguém, é preciso pegar muito, muito leve. Por mais que se implore, por mais que alguém diga ser corajoso, não se dá um mix de pimenta com quem reclama da ardência de agrião.

Christian Gray não faz Anastasia se sentir segura como um Dominador faria. Ele a deixa perdida e proíbe a moça até de declarar seu amor. Ele termina uma sessão e ao invés de cuidar, a abandona em um quarto sozinha. A proíbe de contar para qualquer pessoa sobre o que estão prestes a concretizar. Sabe-se que praticantes de BDSM criam pseudônimos para lidar com o preconceito, uma vez que a credibilidade profissional e até mesmo moral é posta em questão ao serem descobertos. Como um casal (ou uma casa, quando há um pequeno grupo), lidará com a relação do público e privado das identidades, é acordo mútuo. Assim como muitas pessoas vivem no armário por não serem hétero,  praticantes de BDSM tem de chegar em consenso com seus parceiros sobre quem será capaz de não os jogar no ostracismo, se assumirem a prática não baunilha. Em 50 tons de cinza, o clichê do relacionamento abusivo como sinônimo do amor possessivo e monogâmico, uniu-se ao que os baunilhas pensam ser práticas BDSM. É como um homem hétero com pouca experiência sexual descrevendo sexo lésbico. Passar gelo no corpo é tão baunilha quanto cobri-se de chantilly e morangos. Até as reações são cinematográficas demais, ao variar o lugar da estimulação por exemplo, o corpo dela (inexperiente) não se antecede em nenhum momento, não hesita, não tem contrações involuntárias. A única marca visível durante o filme é um erro de edição, antecede o primeiro contato da bunda com um chicote de hipismo (riding crop). Christian afirma que uma das vantagens em ser submisso é abrir mão do controle, não ter obrigações e responsabilidades, como afirmei algumas linhas acima, o submisso também tem responsabilidade e auto-controle durante a sessão. Se você ficou curiosa para saber mais sobre o BDSM e deseja experimentar, leia bastante sobre o assunto, procure referências da pessoa no meio fetichista, faça todas as perguntas, todas mesmo. Você não precisa forçar nenhum comportamento para se moldar ao gosto alheio. Você não precisa chamar fulano que nem conhece de “Senhor” porque ele te diz que é Mestre há não sei quantos anos. Se você tem vontade apenas de ser amarrada mas não de ser amordaçada, se você tem vontade de ser chamada de determinados nomes mas não de outros, se você quer experimentar uma dinâmica de dominação mas sem dor, cada um desses limites deve ser respeitado. É você que definirá se e como o BDSM será condizente com seu desejo, é o seu tempo, é o seu espaço, é o seu gozo. Para ser Domme não é preciso ser carrancuda, para ser submissa não precisa ser introvertida. BDSM é indissociável do livre-arbítrio nos dois lados do chicote.

 

AVATAR* Divina é uma biscate oblíqua e dissimulada, conversa sobre feminismo com as fetichistas e de fetiche com as feministas. É Domme,  sadista e aprecia homens amordaçados.

Pequena Lista de Desejos e Um Grande Livro

Essa quinzena, lembramos o dia internacional da mulher do nosso jeitinho biscate: luta, celebração e inquietação, tudo junto, arfante e misturado…

#nãomedeemflores #diainternacionaldamulher

Por Adrianne Ogeda, Biscate Convidada 

Nigerian born, Chimamander Ngozi Adichie, author of the novel Purple Hibiscus.

Costumava fazer listas com os desejos e as fiz para muitos e muitos dos anos que já se foram. Nas listas, tem desde as coisas mais banais e triviais (cuidar da saúde, fazer atividades físicas e essas coisas) as mais subjetivas (focar nisso ou naquilo). Não tenho mais feito listas. Ou melhor, ainda as faço, mas são curtas. Singelas. Talvez porque nos últimos anos o meu desafio tenha sido lidar com aquilo que foge as listas, as previsões, ao controle. Aceitar mais o fluxo da própria vida. Imprevisível, surpreendente, dinâmico.  Da curta lista de desejos para 2015 um em especial: trazer a literatura para mais pertinho, bem pertinho. De tão bem me faz. De tão alargada que ficam as coisas quando novas formas de olhar surgem a cada livro que se abre. E quando o encontro é bom… ô, aí é demais.

Foi assim com “Americanah” de Chimamanda Ngozi Adichie. Essa jovem escritora nigeriana já tinha me tocado fundo com sua palestra para o TED em 2009, “O perigo da história única”, quando dizia tão bem dito o quanto enclausuramos pessoas e culturas ao conhecer apenas uma faceta de suas expressões em estereótipos que limitam a possibilidade de ver mais amplo. Com olhar mais aberto.

Seu livro trata disso. Trata das roupas que nos vestem sem que tenhamos a chance de ser mais do que aquilo que dizem que somos. E da dureza que é viver com essas roupas, apertadas que são. Em seu livro, essa questão está ali. Pulsando. Os personagens denunciam os lugares consagrados a que estão destinados. Ser negro, ser negro americano, ser negro nigeriano. Ser visto como negro e se ver como negro aos olhos de outros. Os desafios de jovens imigrantes africanos nos EUA e em Londres são o mote e uma deliciosa história de amor costura encontros, desencontros, reflexões. Personagens com nomes africanos dão um sabor especial ao romance, todo entrecruzado com o panorama cultural e político da África e dos países para os quais os personagens imigram.

Hoje acabei o livro. Li daquele jeito que livro bom é lido. Levando na bolsa para tudo que é canto, gostando até de fila de banco.  E já estou com saudades de Ifemelu, Obinze, Uju e tantos outros com os quais convivi esses dias. Meus amigos.

Sua palestra sobre feminismo, “Todos nós deveríamos ser feministas” também fala dessa mesma e mesmíssima história: as marcas da cultura em cada um de nós. Mas também do tanto que a gente é que a faz, e que por isso pode fazer diferente. Melhor. Mais bonito.

As palestras abaixo dão uma ideia da mulher forte, articulada, bonita e sensível que Chimamanda é. Leitura das boas.

https://www.youtube.com/watch…

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Adrianne* Adrianne Ogeda é pessoa sensível, sem qualquer fragilidade. Muita força. A luz brilha nos seus olhos, vinda de dentro dela e das marcas que deixa fora. Sua busca pelas ideias no que lê não é só a fonte dos saberes e vivências que semeou e ainda semeia dentro de muitas pequenas almas: é também e principalmente o resultado da sua paixão visceral pelas boas histórias e do desejo sincero e genuíno de propagar vida e conhecimento.

 

A gente aqui do Biscate

Biscates

Biscates. Foto de Toni Miotto

É isso, a gente aqui do Biscate. Eu de vez em quando faço essas paradas, pra comentar e pra me alegrar. O Biscate surgiu assim, quase como uma brincadeira, uma resposta da Niara e da Luciana a uma frase da Martha Medeiros que dizia “mais vale uma mulher incrível do que uma coleção de biscates”. Causou revolta essa afirmação, como pode se ver aqui. Como assim, uma coleção? Como assim, separar as mulheres desse jeito, com uma frase que até minha avó acharia antiquada? Como assim, biscates não podem ser mulheres incríveis? Pois é. O Biscate Social Club é uma resposta, um grito de revolta.

E o tempo passou, as biscates foram se chegando, se agregando, se aproximando. Se identificando. Dizendo “eu também sou”. “Eu também faço parte”. Que mané mulher incrível X biscate. Lavou tá novo, dou pra quem quiser, não dou quando não quiser, e isso não diz nada de mim como mulher. Não dou régua a homem nenhum para me medir.

Aliás, os homens. Porque tem as biscas e os biscos, né. Tem homem também nesse nosso clube, permanente ou convidado, sambando com a gente, dando seu ponto de vista, fazendo contrapontos. Biscateando junto. Sem se preocupar com réguas ou preconceitos antiquados.

O Biscate balança, o Biscate já sobreviveu a chuvas e temporais, a Niara entendeu que era hora de partir para novos caminhos, a gente já pensou até em fechar a bagaça, mas… tamos aqui. Biscateando todo dia. Encontrando leitores, trocando ideias, fazendo caminho. Aprendendo, se misturando, fazendo festa e virando pelo avesso. Viralateando.

Esse texto é isso, uma vontade de comemorar a existência desse espaço de acolhimento e de luta, de reafirmar pertencimento, de contar que a gente ainda tem tanta história pela frente. Que a gente já tem alguma história pra trás. Que esse bloguinho transformou a gente, com essa identidade-biscate que diz tanta coisa.

O que me leva a pensar que vale um agradecimento à Martha Medeiros: obrigada, Martha, pois sem sua frase nonsense talvez o Biscate Social Club nunca tivesse existido. E a gente é que ia perder com isso.
Valeu, Martha!

De carnaval, de verdades e dores de cada um

“Fácil, não é? Você me conta tudo e assim se livra da culpa.  Isso é egoísta, eu ficaria muito melhor se você ficasse calado e guardasse a culpa para você. Mas tem essa história de verdade. A verdade é superestimada”.

(Norma, em “Felizes para sempre?”)

Achei espetacular essa fala aí, da personagem interpretada pela Selma Egrei, que é uma grande atriz, dita com um misto de raiva e desprezo pro marido. Porque toca em um ponto essencial: tem quem conta, tem quem ouve. O que a gente conta não tem a ver com o que o outro ouve, necessariamente. 

Me lembrou da primeira vez que eu tive contato com essa questão e seus meandros. Eu tinha 17 anos e um namorado que não gostava de carnaval. Fui pra Olinda e ele ficou aqui. Tomei duas doses de pau do índio (favor não fazerem isso) e fiquei com outro cara o carnaval inteiro.
Fiquei, e era carnaval.
Quando voltei pro Rio, a primeira coisa que fiz foi contar pro meu namorado. De supetão. Era uma história de carnaval, pra mim tava claro. Não era nada sério. Só brincadeira.
Aí eu vi que  a discussão da “verdade”, nessa história aí, não fazia sentido nenhum. Que o que eu tinha vivido não era o que ele escutava ou sentia, e que nada, nada justificava a dor que eu causava a ele, com a desculpa de “ser sincera”. Na minha percepção, eram várias dores, inclusive, em camadas: uma era o fato concreto, eu com outro cara, que ele ficava revivendo e com o qual se torturava. A outra era a dor dele ver que eu não estava penitente como ele esperava. Não era que eu não sofria: não queria estar causando aquela dor a uma pessoa de quem eu gostava, claro que não. Mas era isso, eu tinha ficado com um cara no carnaval. Não considerava aquilo tão grave, não me sentia tão culpada assim, sentia o abismo que havia entre a minha percepção e a dele, e que só aumentava a cada conversa.
E foi isso, um desentendimento só. Uma conversa e uma verdade que não existiam, verdades que se esbarravam e que se machucavam uma à outra.
Esse texto não pretende dar lições de moral a ninguém, claro. Cada um sabe dos seus acordos e das suas possibilidades. A intenção aqui é só pensar um pouquinho mais sobre esse assunto fugidio, a “verdade”, o que se diz, o que se cala, como um sente, como o outro recebe. O que é possível partilhar, compartilhar, viver junto. O que não é. O risco permanente que é viver no mundo, se expor no mundo, aparecer. As escolhas que se faz, as consequências dessas escolhas.
Não sei, de verdade, nem quero discutir, se se deve ou não contar, o que se deve ou não contar (porque, é claro, o buraco é muito mais embaixo, e a gente pode se encantar de forma plena por outra pessoa sem nunca ultrapassar os limites impostos pela moral vigente. Isso pode. Ninguém discute.). Acho mesmo que cada um sabe de si. Do que sente, do que faz. De como lida com isso. Mas estou convencida de que certas sinceridades servem apenas para tirar o fardo da culpa da pessoa que resolve ser sincera, e jogá-lo em cima da outra pessoa. E vale a pena pensar um pouco sobre isso. Tudo são escolhas, sempre. Narrativas, cada um tem a sua. É tão mais fácil classificar e categorizar. Fica parecendo tudo tão arrumadinho. Só que não.
Carnaval

Não Pode ou Um Dedo Sempre a Postos

não pode

Não pode sentar de perna aberta.

Não pode dar de quatro.

Não pode andar de roupa curta.

Não pode gostar de ser chamada de cachorra na hora do sexo.

Não pode trepar sem ser casada.

Não pode estar em um relacionamento hetero e se sentir bem.

Não pode ter sexo casual, é coisa de vadia.

Não, não pode mesmo ter sexo casual, é coisa de mulher que agrada ao patriarcado sem saber.

Não pode sair sozinha pra beber.

Não pode estar em uma relação a três, a quatro, a muitos.

Não pode ter pau.

Não pode esconder seu pau e “fingir” ser mulher.

Não pode não ter peito.

Não pode colocar peito.

Não pode esquecer de cuidar do seu corpo.

Não pode ter prazer em mudar o seu corpo.

Não pode gostar muito de sexo.

Não pode gostar de dar o cu.

Não pode tocar sua buceta.

Não pode tocar o cu do parceiro.

Não pode gozar.

Não pode querer agradar.

Não pode gostar de dominar na cama.

Não pode gostar de ser submissa na cama.

Não pode gostar de variar, inclusive, quedê sua coerência?

Não pode, não faça, não pode, não seja. Escolha sua cartilha e se atenha a ela. Não, seu desejo não é desculpa. Não, sua vontade não é motivo. Não, seu querer não é legítimo. Estamos todos prontos pra te julgar. Lá e cá. Todos os dedos prontos pra apontar. Ei, pera, o que você está fazendo com meu dedo apontado? Para já de chupar meu dedo. Para, para de lamber meu dedo, assim, assim, sugando, chupando, mordendo. Para, para de se esfregar no meu dedo, ai, ai, para de enfiar gostoso meu dedo na buceta molhada, assim, um, dois, roça, roça, mais, mais…

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