O amor natural

‘O amor natural’ é uma arte que nem todos dominam. Drummond sabia como ninguém o que era isso. Aquela coisa que transcende a alma e ganha o corpo, os suspiros, o suor, os gemidos, entre outras coisas.

olha a carinha!

olha a carinha!

O que me deixou intrigada mesmo foi descobrir que um moço lá de Itabira gosta muito. Se faz bem, eu não sei. O importante é que adora escrever sobre. Aquele mesmo rapaz que escreveu sobre a pedra no caminho, a vida besta e a flor que nasceu na rua também tinha suas preferências…

A língua lambe as pétalas vermelhas
da rosa pluriaberta; a língua lavra
certo oculto botão, e vai tecendo
lépidas variações de leves ritmos.
 
E lambe, lambilonga, lambilenta,
a licorina gruta cabeluda,
e, quanto mais lambente, mais ativa,
atinge o céu do céu, entre gemidos,
 
entre gritos, balidos e rugidos
de leões na floresta, enfurecidos.

 

É de boca e de buceta que ele  gosta. Quando pode juntar os dois faz coisas assim:

 Sugar e ser sugado pelo amor
no mesmo instante boca milvalente
o corpo dois em um o gozo pleno
Que não pertence a mim nem te pertence
um gozo de fusão difusa transfusão
o lamber o chupar o ser chupado
no mesmo espasmo
é tudo boca boca boca boca
sessenta e nove vezes boquilíngua.

E aquele moço tão tímido olhando Copacabana eternamente era também doido por uma bunda.

No mármore de tua bunda gravei o meu epitáfio.
Agora que nos separamos, minha morte já não me pertence.
Tu a levaste contigo.

ilustração de 'O amor natural'

ilustração de ‘O amor natural’

E por gostar de bunda, adorava outras coisas também:

Quando desejos outros é que falam
e o rigor do apetite mais se aguça,
despetalam-se as pétalas do ânus
à lenta introdução do membro longo.
Ele avança, recua, e a via estreita
vai transformando em dúlcida paragem.

Mulher, dupla mulher, há no teu âmago
ocultas melodias ovidianas.

Drummond é também erotismo. Convido todas e todos a ler ‘O amor natural’.

Bisca Millet

Há alguns anos atrás, quando li “A vida sexual de Catherine M” (“La vie sexuelle de Catherine M.”, no original), autobiografia erótica da crítica de arte francesa Catherine Millet, confesso que fiquei chocado e excitado. Não precisa nem dizer que a publicação do livro foi um escândalo no meio artístico e intelectual francês, pois, imagine, a renomada figura de um dos círculos mais odiados do mundo das artes (a crítica) estava ali, em seu oitavo livro, abrindo o ventre para quem quisesse ver. Best seller imediato, lógico!

Eu fico só imaginando a cara de todos aqueles artistas novinhos, alvos da caneta ferina de Catherine Millet que, talvez tarde demais, descobriram que todos aqueles “va te faire foutre” e “va te faire encouler” dispensados à nossa biscatona foram, na verdade, muito bem recebidos… elogiosos, inclusive. O “mon cul” coletivo deve ter sido impagável! O ahazo daquelas poucas páginas, pelo que li das resenhas à época, serviram para mostrar que o ambiente moderninho da arte francesa do início do novo milênio não era capaz de digerir uma respeitável profissional de meia idade expondo aventuras sexuais que iam da suruba a escatologias ao ar livre em ambientes parnasianos.

É bem possível que essa diva não tenha sido a primeira, mas certamente há um quê de pioneirismo na sua narração. Começando pela completa fusão entre autor e eu-lírico, em uma narrativa em primeira pessoa e sem voltas. Aquele distanciamento que, por vezes, aparece em livros de memórias, aquele sentimento de “não fui eu, foi o meu eu-lírico” não aparece nesse livro. O “La vie” (para os íntimos) é uma prosa sincera, direta, divertida e do tipo do “graças a deus que existe pecado do lado de cima do equador só pra gente fazer mais um”.

Pra mim, o que faz o “La vie” tão incrível e arrrojado é o fato de que, como em toda boa obra literária, o estilo de Catherine nos insere na história e nos induz a compartilhar do ambiente de liberdade e liberalidade sexual que ela experimentou. A ânsia de conhecimento do corpo, da sexualidade e do prazer se transpõe da autora para o livro para o leitor como uma paixão em cadeia e fulminante, que vem da constatação de um pequeno detalhe da relação: que o se percebe em si e no outro é aquilo o que transforma uma relação sexual em algo a mais.

Catherine Millet não parou por aí, recentemente publicou um novo livro de memórias “A outra vida de Catherine M.” (“L’autre vie de Catherine M.”, no original), no qual aborda as contradições da liberação sexual a dois, em particular o ciúme (veja entrevista no vídeo abaixo). Eu ainda não li, mas já tá na pilha de livros que se amontoa na minha cabeceira. Afinal, não é todo dia em que alguém está disposto a pegar esse conjuntinho de preceitozinhos sociais (conservadores e libertários, sim, ambos com seus pré-conceitozinhos) e praticar a modalidade olímpica de arremesso de merda no ventilador, escancarando pra quem quiser a receita do desejeXse liberteXgoze… Dá-lhe, Bisca Millet!

Fogueira

Leitor

Eu pensei em fazer um post chic, descritivo e erudito sobre uma autora que gosto muito, M. Yourcenar, e um dos seus livros que mais me tocam: Fogos. Eu sempre acho bem difícil escrever sobre livros. Complicado mesmo. Fico meio ensimesmada: se é pra falar mal do livro ou do autor, não me dou ao trabalho. Se é porque gostei e quero dizer isso, fico pensando: como posso dizer melhor o que já está lá tão bem dito? Dá vontade de assinalar apenas: vai lá! Porque alguém vai perder tempo lendo o que eu tenho a dizer sobre um livro ao invés de ler o próprio livro? Eu sei que não é o enredo que conta – ou não só. É a própria forma como se escolhe escrever, o estilo, o ritmo, a forma.

fogueira

Marguerite Yourcenar, pseudônimo de Marguerite Cleenewerck de Crayencour, 1903-1987

Autora

M. Yourcenar é uma autora incrível, ela mesma vivendo sempre no limite do que a nossa sociedade insiste em chamar de biscate: um amor homossexual, duas paixões platônicas por jovens homossexuais, uma vida sexualmente ativa com homens com os quais ela escolheu não casar, uma negação consciente da maternidade, uma vida de viagens e descobertas intelectuais, o não-conformismo diante do mundo posto…Uma mulher inteligente, sensual e livre. E uma grande escritora, primeira mulher a participar da Academia Francesa de Letras. Entre suas obras, destacam-se: Memórias de Adriano (1951), A Obra em Negro (1968), O Labirinto do Mundo (1974-77), Mishima ou A Visão do Vazio (1981) e O Tempo, Esse Grande Escultor (1983).

Livro

Passeando nesse impasse, perguntei-me porque Fogos…e logo eu soube, Fogos é uma bela coleção de biscates. Como mais seriam classificadas, hoje, uma mulher que se apaixona pelo enteado, um homem travestido de mulher, uma moça que desobedece a família e o Estado e insiste em um comportamento autônomo, uma concubina, um jovem em um triângulo homossexual, uma outra que mantem como amante um jovem primo do marido enquanto este viaja e a própria Maria Madalena?

Fedra ou o Desespero – “…embriaga-se com o sabor do impossível, o único álcool que serviu, desde sempre, de base para todas as desgraças. No leito de Teseu, experimenta o prazer amargo de enganar de fato àquele que ama e, em imaginação, àquele que não ama. Ela é mãe: tem filhos como teria remorsos…”

Aquiles ou A Mentira – “…um dia essa grande beleza tornaria mais difícil sua obrigação de morrer…”

Maria Madalena ou A Salvação – “…amar sua inocência foi meu primeiro pecado…”

Clitemnestra ou O Crime – “…durante o dia lutava contra a angústia; à noite lutava contra o desejo e, ininterruptamente, contra o vazio, que é a forma mais covarde da desgraça…”

Eu, Personagem

Eu sou em labirintos. Escavo percursos pra me perder de mim. Planejo fugas e marco paredes com indicações de futuros que não percorrerei. Monstro encarcerado, sei minhas sombras. Sou besta e herói, fio e espera. Morro. Morro todas e tantas vezes: espada no peito, abandonada na ilha, caindo do penhasco. E nunca. Permaneço no oco de mim, desfiladeiros de histórias que se fazem em angústia. Sempre, sempre, sempre a solidão de uma cabeça cindida do corpo. O desejo de saber em desejos do outro e só encontrar os caminhos de volta. Esperar a oferenda de amores que morrem em minha mão, um após o outro. Morrem todos tão jovens e eu nunca sei o que poderiam ser. Lá fora, eu espero, o fio na minha mão indica o caminho da desilusão: quando voltar do espelho, verei a gratidão fazer morrer o que prometia ser eterno. Quando todas as histórias forem esquecidas, saberei: eu sou em labirintos.

Tu, Personagem

Quero. Quero que meus dedos sejam pincel e escrevam no teu corpo as letras do meu desejo. Quero fazer, da saliva, tinta, desenhando os indecifráveis signos da fome no ventre. Quero as narrativas sem sentido e as palavras cantadas como gemido na tua boca. Quero fazer do teu corpo mata-borrão do prazer que me sei dar. Quero deitar a cabeça no teu colo como se fosses livro e sugar-te como se ler fosse em quente sabor na língua. Quero as histórias do prazer em tatuagens passageiras pra começar a reinventar-nos logo a seguir do gozo. Quero esquecer os imperativos, a primeira pessoa, o verbo querer e deixar-me, pele, papel, pincel e letra, tudo eu, tudo teu. Até que, de novo, seja eu a escrever: quero.

"A vida era boa, bastava viver"

Este post não é meu.

É de Jorge.

Jorge Amado, que me soprou pelo ouvido: "Gabriela, biscate, cravo, canela..."

Eu só busquei os trechos. Ele me soprou pelo cangote, que essa quinta era dela.

“Era um gato vadio do morro, quase selvagem. O pêlo sujo de barro com tufos arrancados, a orelha despedaçada, corredor de gatas da vizinhança, lutador sem rival, visagem de aventureiro. Roubava em todas as cozinhas da ladeira, odiado pelas donas de casa e empregadas, ágil e desconfiado, jamais tinham conseguido pôr-lhe a mão. Como fizera Gabriela para conquistá-lo, obter que ele a acompanhasse miando, viesse deitar-se no regaço de sua saia”

Não me lembro da novela. Nem da cena do telhado. Menos ainda do filme.

Mas Gabriela me encanta desde que a conheci. Em papel cheirando a mofo.

Quem era aquela, aquela que se conhecia e se bastava?

“Estava contente com o que possuía, os vestidos de chita, as chinelas, os brincos, o broche, uma pulseira, dos sapatos não gostava, apertavam-lhe os pés. Contente com o quintal, a cozinha e seu fogão, o quartinho onde dormia, a alegria quotidiana do bar com aqueles moços bonitos – o professor Josué, seu Tonico, seu Ari – e aqueles homens delicados – seu Felipe, o Doutor, o Capitão – contente com o negrinho Tuísca seu amigo, com seu gato conquistado ao morro.
Contente com seu Nacib. Era bom dormir com ele, a cabeça descansando em seu peito cabeludo, sentindo nas ancas o peso da perna do homem gordo e grande, um moço bonito. Com os bigodes fazia-lhe cócegas no cangote. Gabriela sentiu um arrepio, era tão bom dormir com homem, mas não homem velho por casa e comida, vestido e sapato. Com homem moço, dormir por dormir, homem forte e bonito como seu Nacib.”

Gabriela ficou imortalizada com os traços de Sônia Braga, uma Sônia Braga jovem e cabocla, cabelos anelados ao vento, cangote moreno, pernas roliças. Uma Sônia-Gabriela.

Imortalizada na letra de Dorival Caymmi, na voz de Gal Costa.

Descrita por um homem, por um homem que amava as mulheres, por um homem que amava as biscates e que descreveu as maiores personagens femininas da literatura moderna brasileira (sim, eu amo, e sou parcial. Não gostou? )

Gabriela.

Gabriela, cravo e canela.

Flor no cabelo, Gabriela.

Quando Nacib partiu, ela sentou-se ante a gaiola. Seu Nacib era bom, pensava ela, tinha ciúmes. Riu, enfiando o dedo por entre as grades, o pássaro assustado a fugir. Tinha ciúmes, que engraçado… Ela não tinha, se ele sentisse vontade podia ir com outra. No princípio fora assim, ela sabia. Deitava com ela e com as demais. Não se importava. Podia ir com outra. Não pra ficar, só pra dormir. Seu Nacib tinha ciúmes, era engraçado. Que pedaço tirava se Josué lhe tocava na mão? Se seu Tonico, beleza de moço!, tão sério na vista de seu Nacib, nas suas costas tentava beijar-lhe o cangote? Se seu Epaminondas pedia um encontro, se seu Ari lhe dava bombons, pegava em seu queixo? Com todos eles dormia cada noite, com eles e com os de antes também, menos seu tio, nos braços de seu Nacib. Ora com um, ora com outro, as mais das vezes com o menino Bebinho e com seu Tonico. Era tão bom, bastava pensar.
Tão bom ir ao bar, passar entre os homens. A vida era boa, bastava viver. Quentar-se ao sol, tomar banho frio. Mastigar as goiabas, comer manga espada, pimenta morder. Nas ruas andar, cantigas cantar, com um moço dormir. Com outro moço sonhar.
Bié, gostava do nome. Seu Nacib, tão grande, quem ia dizer? Mesmo na hora, falava língua de gringo, tinha ciúmes… Que engraçado! Não queria ofendê-lo, era homem tão bom! Tomaria cuidado, não queria magoá-lo. Só que não podia ficar sem sair de casa, sem ir à janela, sem andar na rua. De boca fechada, de riso apagado. Sem ouvir voz de homem, a respiração ofegante, o clarão dos seus olhos. Peça não, seu Nacib, não posso fazer.
O pássaro se batia contra as grades, há quantos dias estaria preso? Muitos não eram com certeza, não dera tempo de acostumar-se. Quem se acostuma com viver preso? Gostava dos bichos tomava-lhes amizade. Gatos, cachorros, mesmo galinhas. Tivera um papagaio na roça, sabia falar. Morrera de fome, antes do tio. Passarinho preso em gaiola não quisera jamais. Dava-lhe pena. Só não dissera pra não ofender seu Nacib. Pensara lhe dar um presente, companhia pra casa, sofrê cantador. Canto tão triste, seu Nacib tão triste! Não queria ofendê-lo, tomaria cuidado. Não queria magoá-lo, diria que o pássaro tinha fugido.
Foi pro quintal, abriu a gaiola em frente à goiabeira. O gato dormia. Voou o sofrê, num galho pousou, para ela cantou. Que trinado mais claro e mais alegre! Gabriela sorriu. O gato acordou.

Gato ao sol. A vida é boa.

A vida é boa, basta viver.

[os trechos são de Gabriela, Cravo e Canela, obra de Jorge Amado, publicada em 1958. Não leu ainda? Está perdendo…]

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...