Poesia que transborda no corpo

Por Martha Lopes*, Biscate Convidada

livromarthaQuando eu tinha uns 13, 14 anos escrevia poesia, assim, compulsivamente. Escrevia principalmente para expurgar as paixões que me aconteciam e tudo aquilo que eu não conseguia entender. O tempo passou, eu virei jornalista e o impulso para escrever ficção, prosa e poesia foi ficando de lado. Foi só em um momento difícil, de profundo sufocamento, que resgatei esse jeito de transbordar.

O resultado são os 28 poemas reunidos no meu primeiro livro, “Em Carne Viva”, pela Kayá Editora, especializada em publicar literatura produzida por mulheres e livros que abordem questões de gênero e feminismo. São poemas que falam sobre fatias diferentes da vida: o trabalho, o amor, o tesão, a maternidade, o cotidiano. Mas, quando olho para todos eles, percebo algo que os une: o corpo. É ainda para essa superfície, para esse espaço das sensações, que levo tudo do que não é possível falar.

*******

Que coisa louca

eu desejar você

assim

como Lilith montada sobre Adão

e agarrar-te pelos cabelos

buscar a tua boca

no meio desse mar de gente

buscar só a tua boca

louca, louca

te amar nesse recôncavo

e saborear todos os licores

guardados no seu reconvexo.

********

Noturna

ontem em sonho te vi

com os cabelos soltos

quase escondiam seu rosto

seu tão perfeito rosto

então ávida,

eclipse

com sede de você

– e sabendo da sua sede de mim –

afastei seus cabelos

encontrasse com a minha

e deixei que a sua boca

que a sua boca

se colasse com a minha

e que a gente vivesse um amor

profundo e desejoso

um amor perfeito

como são os amores feitos em sonho

que fazem a gente acordar molhada

no dia seguinte

mas principalmente morta de

vergonha

depois quando encontra a pessoa

em carne e tesão tão concretos.

eu_perfil copy (1)*Martha Lopes nasceu em São Paulo, capital, em 1984. Formou-se em Jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero, na mesma cidade, em 2006. Escreve poesia e prosa desde a adolescência. É uma das diretoras da ONG feminista Casa de Lua e idealizadora do #kdmulheres, movimento que questiona a pouca visibilidade feminina no mundo da literatura e das artes em geral.

 

Dicas de leitura: escritoras pop da atualidade

Tess Gerritsen, Gillian Flynn, Liane Moriarty.

Duas estadunidenses, uma australiana. Todas, mulheres escritoras pop da atualidade.

 As obras das três tem me cativado nos últimos meses. De um estilo mais pop, menos lírico, todas me surpreenderam positivamente.

 Tess Gerritsen é autora de thrillers de suspense médico-policial, uma linha que gerou inúmeras séries de TV, de relativo sucesso, como Bones, Crossing Jordan e Body of Proof. A dupla detetive/legista de Tess Gerritsen, Jane Rizolli e Maura Isles, também virou série. Já falei sobre os livros e a série no Blogueiras Feministas.

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 Além das obras com a dupla Rizolli&Isles, Tess escreveu várias outras obras, suspenses médicos, que tem em comum o fato de apresentarem as mulheres sob uma perspectiva forte – seja positivamente ou seja como vilãs bem construídas. Nos últimos livros da dupla eu senti que ela anda ‘escorregando’, não está sendo fácil manter o nível, mas ainda vale a leitura.

 Um dos meus favoritos é “O Jardim de Ossos”, de 2007, publicado no Brasil em 2009.

Gillian-Flynn_crédito-Heidi-Jo-Brady

 Gillian Flyn, autora de “Garota Exemplar” – Gone Girl, e outros três livros, tem um estilo mais marcante, mais sombrio. Não à toa, Gone Girl virou filme, pelas mãos de David Fincher, com estréia prevista para 03 de outubro (mal posso esperar, a escolha de elenco  me pareceu fantástica! Rosamund Pike se encaixa perfeitamente na minha imagem da Amazing Amy, e Ben Affleck, bem, ele pode surpreender )

 As personagens, boas ou más, são mulheres, que falam sobre outras coisas além de homens e relacionamento – mas também sobre. Há acusações de misoginia (cuidado! o link contém spoilers) quanto ao enredo de “Garota Exemplar” – eu não vou dar spoiler, o livro é muito bom e merece ser lido até o final, para que cada um pense por si. A autora falou sobre isso aqui, e apenas digo que EU não senti isso na obra.

 Já Liane Moriarty, autora australiana com poucas obras traduzidas no Brasil, entre elas “O Segredo do Meu Marido”, foi a mais recente descoberta, e da mesma forma que as outras escritoras, me conquistou por apresentar personagens complexos, nada maniqueístas, ainda que, obviamente, em um cenário muito restrito da alta classe média de Sydney, Austrália.

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Em “O segredo do meu marido” a autora liga três histórias em um final que é meio anticlimax, mas ainda assim, interessante.

Já em “As lembranças de Alice” (disponível aqui para download)  desta vez contado sob três perspectivas, a de Alice, dona-de-casa perfeita do subúrbio, sua irmã Elizabeth, que não é assim tão “perfeita’, e a avó postiça, Frannie. A história nos é apresentada gota a gota, e se no começo lembra muito algo bem “água com açúcar’, aos poucos se revela mais como o filme com a maravilhosa Juliette Binoche, “A vida de outra mulher”.

Como disse o Lucas Salgado sobre o filme, e serve também para o livro: “É sobre a vida de uma pessoa que toma rumos inesperados por ela própria. É sobre reencontrar o caminho desviado e reconstruir as relações perdidas.”

 Ainda assim, apesar da falta de diversidade em todos os livros – quase não há personagens negros, latinos, que dirá indígenas ou aborígenes, não há personagens homossexuais ou trans* – ainda são leituras interessantes.

 Aceito dicas de livros – especialmente que possam ser baixados no Kindle! Que possam suprir essa lacuna, bem como autoras brasileiras e latinas.

 Em outra oportunidade, vou falar sobre o que achei do livro da Maria Dueñas!

 Bem, por hoje é isso!

 Abraços para as biscas-leitoras!!!

Um conto de fadas que não acaba

Era uma vez uma menina que sonhava. Com grandes feitos, com lutas contra o mal.

Ela tinha ouvido histórias contadas pelos antigos. Histórias dessas lutas, e sabia que muita gente tinha sofrido, tinha sido presa e torturada por conta delas.

A menina com a cabeça cheia de sonhos alimentava esses sonhos com livros. Muitos muitos muitos livros. Os livros eram um mundo que a acolhia: quando o mundo daqui se tornava por demais doloroso e estranho, ela mergulhava sem escafandro nem garrafas de oxigênio no mundo dos livros.
Mas lá ela tinha guelras.
O mundo dos livros era familiar e mágico, aconchegante e estranho. Mas uma coisa – ela bem sabia – era certa: ele sempre estaria lá. Quando tudo mais não estivesse, sempre haveria o mundo dos livros. E para lá ela poderia fugir, lá ela podia se refugiar.

(esperem aí que eu vou buscar um café e conto mais.)

Pois então. Teve aquele dia. Em que um personagem do mundo dos livros apareceu no mundo de cá. E foi como Monteiro Lobato, que sabia das coisas, conta, quando os personagens do País das Fábulas resolveram visitar o Sítio do Picapau.
meio bagunçado.
De repente a fronteira se esgarçou, as brumas se afastaram e os dois mundos se encostaram.

Mas isso não pode.
(ou tão pouco).

A gente de verdade pode ir no mundo de lá – contanto que crie guelras.
Mas os personagens de lá…. é melhor, quem sabe, que fiquem lá.
Eles não fazem de propósito.
Eles acham que são gente como a gente.
Não são.

A gente torce para que tudo “dê certo”. Pra que caminhos que constroem novos sonhos e recuperam antigas esperanças se firmem e se concretizem no mundo de verdade.
A gente tá perto, olhando, querendo que dê.

Mas com cuidado.
Devagar.
Sem esquecer
que a gente é daqui.
Que eles são de lá.
E que os encontros podem até acontecer.
Mas tão pouco.

(e é por isso que o conto de fadas não acaba).

Henrietta, Gerda, Agatha: faces e imagens

Quem me conhece sabe que eu (re)leio Agatha Christie em tempos de crise. Proteção e aconchego. Livros com final. Reconfortantes. Familiares.

Tem uns que eu reli mais vezes, claro: já falei de um deles aqui. E quando digo “livros”, na verdade são personagens: que eu já conheço, a quem já fui apresentada e que reencontro, feliz, a cada passagem-leitura. Aqui, são duas as personagens que me interessam, que formam um eixo: as duas mulheres do médico e pesquisador John Christow em “A Mansão Hollow”. Gerda, a esposa; Henrietta, a amante. As duas são mesmo um par que se complementa: uma é o avesso da outra e uma não existiria sem seu avesso.

Gerda Christow é, talvez, a personagem mais fascinante: no livro, ela é apresentada quando está numa dúvida cruel. Está na hora do almoço, John ainda não chegou do consultório, o rosbife já está na mesa e Gerda, sentada, angustia-se: o que fazer? Mandar o rosbife de volta para a cozinha para que não esfrie? Mas John é tão impaciente, ele vai reclamar se o rosbife não estiver na mesa quando chegar. Deixá-lo ali? Se ele se atrasar mais, o molho vai esfriar, a comida vai ficar ruim… Gerda se tortura durante alguns minutos com as alternativas. Para o leitor, fica evidente: não tem saída. Qualquer escolha será a errada. Porque é Gerda. Lenta, indecisa, pesada. Muito aquém do que se esperaria de uma mulher para o brilhante e bonito John Christow. Isso, inclusive, na sua própria opinião. Ela é imensamente grata a John por ter casado com ela, embora não entenda o motivo disso ter acontecido. E, por gratidão, aceita o mau humor, a rispidez, a impaciência dele. Ela é a errada, por necessidade. Ela é Gerda. O rosbife deixa claro.

Não falei de amor, apesar do livro fazê-lo: esse é meu jeito de contar essa história. Ela pode pensar que é amor, sem dúvida pensa: mas será? Essa aceitação embevecida de que o “ser superior” dignou-se a olhar para ela, condescendeu em casar com ela? Não me parece. Dependência demais, sentimento de inferioridade demais. Um tipo de amor, talvez? 

E agora, na contraface, a outra. A outra que é a outra: Henrietta Savernake, linda, livre, independente, artista. Henrietta é aquela por quem todos se encantam. E que no entanto entende que o posto de esposa já está tomado: não será dela, como teria gostado que fosse – ela será a amante e terá a intimidade de John, os sonhos de John, como Gerda não tem. No entanto, nada de todo dia: isso pertence a Gerda. Ela é a pessoa que tem mais paciência com Gerda, que tenta incluí-la nas conversas e fazê-la sentir-se à vontade. Não por fingimento: por compaixão genuína. Ou assim parece. Mas é, também, a pessoa que comete a maior crueldade: uma estátua inspirada em Gerda, uma estátua sem rosto, em que o que conta é o peso do pescoço e dos ombros: uma estátua a que dá o nome de “O Adorador”.  Ela percebe que isso é cruel, mas não consegue fazer diferente: a arte é o que a puxa para a vida. É o que lhe dá impulso. Ela é a amante, e  mesmo assim John se ressente porque ela não o coloca em primeiro lugar.

E aqui? É amor? Aqui é menos claro para mim. Acho que sim, que é amor. Que com John é entrega, mesmo que ele a acuse de não amá-lo o suficiente, de preferir-lhe sua arte. Arte é necessidade, é o que faz dela o que ela é e o que a torna livre para, sim, amá-lo. De igual para igual. A ele, as pesquisas médicas; a ela, as esculturas. Paixões paralelas e similares.

Gerda, Henrietta: um eixo. Formas de amar. Ou de achar que é amor. A entrega da adoradora Gerda, que não pede nada, mas no fundo espera algum reconhecimento do seu sacrifício permanente. A honestidade de Henrietta, sua incapacidade de fingir ser o que não é, embora fosse tão mais fácil, tão mais cômodo: ou eu estou aqui inteira, ou não estarei. Mesmo que isso me faça sofrer imensamente. Mesmo que estar inteira implique que o lugar do homem não é o primeiro.

Gerda e Henrietta, sementes. Arquétipos. Fios do novelo emaranhado que é o pensar o amor, nem que seja pelas beiradas. O nome do livro em inglês: “The Hollow”. Que é o nome do vale em que se encontra a mansão. E que quer dizer oco. Vazio.

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