Os bons são maioria, e daí?

Os bons são maioria. De vez em quando passa essa frase pela minha TL, geralmente associada a uma reportagem ou imagem de algum gesto generoso, de cuidado, de solidariedade. Eu mesma já devo ter reproduzido. É tentador em vários aspectos, destaco dois: o primeiro é achar que é uma questão de amplitude da visão, que os bons estão em algum lugar, fazendo coisas boas, a mídia é que não conta, tal como a dor da gente, a bondade não sai no jornal. Nesta perspectiva a bondade da maioria silenciosa redimiria a humanidade. O segundo, e de maior impacto, é dividir de forma binária as pessoas em bons e maus. E, claro, colocarmo-nos alinhados do lado dos bons. Do Bem. Faz bem pra autoestima, né.

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Depois de um tempo, desisti. Os bons não são maioria. Nem minoria. Não divido mais o mundo em bons e maus. As pessoas vivem, interage, fazem coisas. Algumas delas, boas. Consideradas boas. Alguém recolhe animais na rua, cuida deles e é um escroto com os vizinhos. Outro é excelente amigo e bate na mulher. Gente que mantém projetos sociais e não paga a pensão alimentícia dos filhos. Pessoa que, num impulso, diante de um acidente, arrisca sua vida pela dos outros mas no dia a dia é mesquinho e homofóbico.  Mulheres valentes que lutam por creches e dizem que mulheres trans são homens disfarçados e podem morrer que não fazem falta. Somos caleidoscópio. Dependendo de onde o raio de sol bata, refletimos diferenças.

Conecta-se com o que a Renata disse: “a casca: o que se faz. Como se age. Não quero saber daquilo que se chama “alma”: das intenções, dos propósitos ocultos, dos sentimentos nos bastidores. De uma suposta essência, enfim. Se a gente abandonar a ideia de alma, o que resta é ação. Atitude. São gestos. E, afinal, esse é que é o ponto mesmo, não? Não quero saber se você ama seus filhos, lá no fundo. Se tem afeto pelos seus amigos. Se você, em pensamento, lá dentro do seu coração, é bacana, bom caráter, bem intencionado. Se tem vontade mesmo de fazer “o bem”.  Não é essa a questão aqui. O propósito não é julgar “o bem”, “o mal”. A questão, de novo, é o que se faz.” 

Conecta-se, disse eu, mas queria dizer mais uma coisa: as coisas boas que se faz não são assinatura em folha em branco. Não legitima nem minimiza o resto do que somos e fazemos. Nem o contrário. Não é porque se comete um erro, uma escrotice ou um crime que as bondades outras não valem mais. Quando meu pai fez vestibular era assim: uma questão errada anulava uma certa. Não é assim na vida real. Um erro é um erro. Um acerto é um acerto. Uma bondade é uma bondade que não apaga, compensa ou justifica mais nada além dela mesma. E vice-versa.

A bondade não é a essência de alguém ou alguéns. É relacional. Processual. Circunstancial. Construída e sustentada pelo olhar de outrem. Não são raros os casos em que identificado algum tipo de “monstro” se sucedam os depoimentos de “mas ele era ótimo pai”, “nunca pensei, um vizinho tão bom”, “imagina isso, sempre tão gentil com as crianças”. É do humano a plasticidade, somos múltiplos, capazes de atos de generosidade e mesquinharia. De enormes gentilezas e da mais aguçada crueldade. Avançaremos quando deixarmos a bondade de lado, como forma de dar estrelinha pros que confirmam nossas idéias e aspirações. Avançaremos quando abarcamos nossa complexidade. Avançaremos quando pararmos de nos desligar dos erros alheios, quando pararmos de apontar dedos, de cobrar coerências, de insistir em uma pureza, retidão e bondade absolutas. Avançaremos quando entendermos o que já afirmava o filósofo: nada do que é humano me é estranho.

Então, Luciana, se perdoa tudo? Nopes. Não se perdoa nada. Ou ainda: não é matéria de perdão, mas de reconhecimento. Somos humanos e isso não é um dado natural, mas uma condição, uma possibilidade, somos candidatos à humanidade. O que é transformador não é a bondade, é o compromisso – individual, mas não só, também coletivo – ético, deliberado, insistente e intencional com um projeto de humanidade, de relações, de sociedade. De existência.

Sylvia Plath e um batom vermelho demais

Sylvia Plath. Entre seus livros, sonhos cor-de-rosa, suas palavras brancas e o sofrido desejo de ser melhor e melhor, Sylvia se construiu e construiu belas e sofridas formas de dizer a dor, a solidão, o amor, a excelência, as perdas. Ela tentou se matar algumas vezes, mas quem não tenta? Com amores infelizes, trabalhos estressantes, falsas amizades, comida enlatada, prática de esportes, maus livros, todas estas escolhas são formas cotidianas de se aniquilar um pouquinho. Mais adiante, ela conseguiu. É muito mais do que se pode dizer de muitos de nós. Ela e Alfredo abriram o gás (aquele Alfredo que ninguém sabe de quê). Não sei se eles eram tão sós como se sentiam. Talvez todos sejamos e eles apenas reconhecessem mais rápido.

 Uma vez, quando parecia que eu sofria de amor, uma amiga me escreveu: não lembre de Sylvia Plath, não lembre de Sylvia Plath. Bom, eu não a esqueço. Não a esqueci em nenhum momento, nem mesmo quando a vida doeu, de verdade,  porque sempre soube que ela era grande e que morrer – de amor? – não a fez maior, apenas fez mais breve seu tempo de escrita.

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 Ela escrevia. Era isso que ela fazia. Talvez mais, era isso que ela era. Cedo chamou seus diários de Mar de Sargaços. Vai na Wikipédia, está lá a descrição, mais ou menos assim: um lugar quente, cercado por correntes oceânicas, um cemitério dos navios. Também lá está a comparação com a descrição de Rufo Avieno sobre as Colunas de Hércules*: “muitas algas crescem em meio às ondas, as quais retardam o navio como se fossem arbustos (…) Aqui, as bestas marinhas movem-se vagarosamente de um lado para o outro, e grandes monstros nadam languidamente entre os navios que se arrastam“. Para cortar caminho, apressado para realizar mais um dos seus tantos trabalhos, Hércules abriu espaço com seus fortes ombros, rasgando um estreito marítimo, hoje conhecido como estreito de Gilbratar. E não é isso o amor, ou o viver?, insistindo nas perdas, expandindo cisões, aumentando fraturas, ampliando vazios que, a seguir, se enchem de lágrimas mornas, fértil espaço para memórias-algas, saudades bestiais, contraditoriamente encalhando sonhos e alegrias?

Já adulta, escreveu: “talvez eu nunca seja feliz, mas hoje estou contente”. É de uma sabedoria ofuscante: o odor do café, um lençol macio, uma gargalhada infantil entreouvida pela janela, um beijo displicente, um bom livro pra ler. Miudezas. Uma pena não ser, sempre, suficiente.

 “Morrer é uma arte, como tudo mais”, escreveu ela. E o que mais seria? Viver é trazer a morte como possibilidade. É experenciar a finitude, todo dia, de forma solente, irreverente ou iludida. E disse também, complementando: que eu pratico surpreendentemente bem. E o que mais é escrever senão procrastinar em suicidas bilhetes? Quando não mais praticou bem a arte, foi quando abriu o gás.

Ler os tantos textos publicados sobre ela revelam como é difícil simplesmente aceitar a alteridade. Busca-se uma resposta fácil, um culpado, um motivo evidente para não encontrar o nosso desejo de um dia a mais na clara renúncia alheia de todos os dias outros. Num viés moralizante, a infidelidade se torna alvo fácil e tentamos dar nome ao que ela – e tantos – decidiram deixar no silêncio.

Sylvia era obsessiva em seu trabalho, as minúcias a atormentavam, a busca pela alinhavada precisa entre palavra e sentido – isso a consumia. Uma pálida beleza com um batom demasiado vermelho. Ela era forte, mas parecia saber disso apenas em dias alternados. Ela era bela. E ela era triste. Entre homens fortes e suas abelhas e seus ferrões ela só pôde morrer. Eu posso mais, porque posso lê-la.

Passado, Futuro e Um Pássaro no Peito

“O amor é um pássaro rebelde”

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E tem aqueles abismos no peito. Eu não tenho ciúmes das histórias passadas, mas tenho um tanto de inveja dos romances futuros. As histórias antigas estão nesse você que desejo, que admiro, esse você de quem gosto. Tanto. Mais além: as histórias passadas são esse você. Seus anseios, medos, amores, o tesão que sentiu e saciou, as noites em claro, os sonos e os sonhos compartilhados. Todas as palavras de afeto que ouviu, todos os gestos de carinho que realizou, os amores que sentiu e os que provocou, estão e são, você. Você que eu gosto tanto, que me põe em febre e riso. Daí que não só não tenho ciúmes das histórias que você viveu como tenho um certo chamego por elas. São as suas histórias e as minhas histórias, são seus amores passados e os meus amores passados, que, presentes, possibilitam que esse amor seja.

“(…) eu sei, ah, eu sei que o meu amor por você é feito de todos os amores que eu já tive, e você é a filha dileta de todas as mulheres que eu amei; e que todas as mulheres que eu amei, como tristes estátuas ao longo da aléia de um jardim noturno, foram passando você de mão em mão, de mão em mão até mim, cuspindo no seu rosto e enfeitando a sua fronte de grinaldas; foram passando você até mim entre cantos, súplicas e vociferações – porque você é linda, porque você é meiga e sobretudo porque você é uma menina com uma flor”. (Vinícius de Moraes)

Porém. Pois é. Ali, escondidinha e meio embaraçada por existir, a inveja de quem virá. Porque eu sei a voz rouca de desejo, a mão carinhosa entre os fios do cabelo, conheço a perna que descansará, pesada, entre as que não serão minhas, o conforto do abraço e a fome que há no beijo. Tenho inveja das tardes que passarão ouvindo música, da intimidade na cozinha, dos pequenos acordos verbais que se transformam em brincadeira. Inveja dos momentos em que verão seu franzir da testa e estreitar dos olhos, seu acordar preguiçoso, sua concentração cozinhando. Sinto inveja dos abraços. Das conversas arrastadas. Das mensagens trocadas à distância. Dos pequenos mimos. Tenho inveja das coisas que nosso relacionamento deixou em você. O olhar mais terno. O silêncio mais cúmplice. As manhãs preguiçosas de pernas enroscadas. Os filmes na cama.

Sinto inveja da alegria que se sente quando a gente percebe o gostoso de ser gostada por você. Inveja, digo eu, podia dizer saudade.

“Há um pássaro azul no meu coração que quer sair mas eu sou demasiado esperto, só o deixo sair à noite por vezes quando todos estão a dormir. Digo-lhe, eu sei que estás aí, por isso não estejas triste. Depois, coloco-o de volta, mas ele canta um pouco lá dentro, não o deixei morrer de todo e dormimos juntos assim, com o nosso pacto secreto e é bom o suficiente para fazer um homem chorar, mas eu não choro, e tu?” (Bukowski)

Aparências

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A gente passa metade do tempo militante lutando para ninguém julgar ninguém pela aparência. E a outra metade julgando e disparando mágoa e animosidade nas pessoas que tem uma determinada aparência.

Não é a existência da pessoa dita bonita que sustenta o padrão de beleza excludente. Não é a existência de alguém que sustenta uma situação estrutural. Ela, no máximo, reproduz. No caso da aparência física, isso nem mesmo é uma opção.

A sustentação da exclusão e marginalização se dá via mecanismos materiais alinhados a um discurso naturalizador. Cobrar posturas individuais, culpa e autoflagelação não muda a estrutura. Nem faz cócegas nela. No máximo satisfaz parcialmente nossa fome de um sofrimento alheio que se equipare ao nosso.

Quando eu era criança, meus pais (?) me ensinaram a prestar atenção quando estou apontando o dedo. É um pra lá, um meio confuso e três pra mim. Bobo, né? E, no entanto. Poucas coisas mais verdadeiras (diferente do “nem escuto a zoada da mutuca”, que é mais a enunciação de uma intenção que de um fato, mas divago).

Eu acho que cheguei estragada para a militância feroz. E para a militância sentida, magoada. E, mais que tudo, para a militância que não se pergunta sobre ela mesma. Coloco (contente) na conta de dois barbudinhos, Freud e Horkheimmer. Eu já escrevi umas mil vezes (mas aprendi também que tem um gozo na repetição) que o caminho é tão importante quanto o local de chegada. Que ele determina o local de chegada. Que temos que nos inquirir sobre nossos processos, nossas motivações, nossas chaves e nossas falhas e nunca, nunquinha, supor os processos, motivações, chaves e falhas internas alheias.

Acho que a gente acabou entendendo errado o negócio do privilégio. Ou fui eu que entendi na contramão, forçando o conceito pra meu horizonte de referências. Eu sempre entendi que privilégio era algo pra gente ir dando conta dos nossos em relação a. Tem duas coisas embutidas aí: o privilégio dos outros não é da minha conta, não sou eu quem tem que apontar, identificar, qualificar, analisar, questionar, whatever, isso porque (aí vem o loutro lance, mais importante) o privilégio (o meu e o de qualquer outro) não é absoluto nem cristalizado. Privilégios são em relação. São forças, dinâmicas. Não rótulos estanques. Ninguém (acho eu) deveria ser “acusado” de um determinado privilégio. Mas, claro, reconheço que eu posso ter forçado o conceito pra poder compartilhar dele. Se não for isso, se rpivilégio é alguma coisa que a pessoa tem, absoluta, definível, identificável a priori e sem contexto, estou desde agora parando de usar e deixando de achar útil na militância.

Sair da modo-culpa-de-funcionamento, seja nossa, seja demandando a alheia, penso que seria um passo importante para uma dinâmica de relacionamentos interpessoais bem mais, na mais superficial das hipóteses, divertida.

Vivemos numa sociedade excludente. Sim. Um dos aspectos em que isso se evidencia é na questão da aparência física. Sim. Nesse quesito unem-se preconceitos vários como racismo, gordofobia, transfobia, preconceito contra deficientes físicos, etc. Sim. Isso fica material na hora de sentar na cadeira do avião, de tirar foto pra documento, de ler uma vaga de emprego que fala em boa aparência? Sim. Isso também aparece na hora que você vai pra balada e sua amiga magra, loira e malhada parece ter mais olhares desejosos do que você, baixinha, gorda e meio índia? Sim. Mas. Enquanto dá pra gente discutir novos tamanhos de cadeira no avião, demandar novos softwares de leitura de imagem e fiscalizar a equidade nos processos seletivos, não tem ação externa que dê conta do desejo (e nem é pra ter mesmo).

O desejo, os afetos, os amores, os relacionamentos, são atravessados por construções sociais? Não. Eles mesmos são construções sociais. Nem por isso são voluntários, domesticáveis, moldáveis conforme a disposição política e militante.

A dinâmica de transformação da realidade social é dialética, vamos mudando o dentro e lutando no fora e ao mudar o fora vamos redimensionando o dentro. Demora? Sim. Vai continuar doendo ir pra balada e não pegar as pessoas todas que a gente nem queria pegar mas queria que quisessem nos pegar? Sim (ou não, vai que a gente aprende também a não ficar olhando o que não tem e aproveitar melhor o beijo na boca disponível). Mas a transformação do quem e como se deseja nunca será por imposição ou vontade consciente.

A única coisa que pode resultar da fiscalização do tesão e dos relacionamentos alheios é moralismo. Imposição. Doutrinação. Culpa. Pecado. Ou seja.

O que a gente pode ir construindo é um território onde os desejos e relacionamentos que não são no “padrão” não sejam ridicularizados, escanteados ou causem temor e vergonha. Isso é um passo. O que a gente pode tentar é desenvolver comportamentos e discursos com menos foco na aparência física. Isso é um passo. O que a gente pode ir fazendo é lutar por representatividade. Outro passo. O que a gente pode ir incentivando é mais generosidade com nossas nomeadas imperfeições, sem esquecer que o lugar de onde essa limitação vem não tem relação com o corpo em si, com o que ele faz e oferece, mas com uma dinâmica que busca criar a insatisfação. Mais um passo. O que a gente pode ir fazendo é lembrar que o mundo que a gente tem de horizonte ainda vai ter esta gente toda que habita neste (a não ser que, mas então nem estamos do mesmo lado da trincheira), eles sendo do jeito que a gente quer ou não. E que a gente não deveria achar que tem o direito de determinar que alguém seja de algum jeito (mas sim que a sociedade funcione de determinada forma).

O que a gente pode ir fazendo é gozar. E deixar gozar. Abrir mão da culpa. Nossa. Do outro. É parar de exigir enquadramento, seja ele qual for. Vamos gozar. O prazer é subversivo.

Super Sincera?

Patati, patatá, rala e rola, rola e rala e pá: gosto de tudo contigo. Huumm, lambelambe, cheiracheira, esfregaesfrega, sim, sim, sim. Gostas de tudo comigo? chupchup, sleptslept, nhaminhami, uma reflexão breve: até agora, ventos a favor. Pode até acontecer um: aí não, ainda não, agora não, assim não. Pode. Mas não aconteceu ainda e tá tão bom… sim, sim, sim, gosto de tudo contigo. E mais vuco-vuco, mãonaquilo, bocanaquilo, aquilonaquilo, tudonaquiloaomesmotempoagora, aaaiiii, seriãoquenegózibom, sou todo teu. Ops. Todo? Meu? Possessivos sendo empregados assim tão a sangue-frio? Ui. Mas, né, seriãoquenegózibom, quegostoso, quedelícia, seriãoquenegózibom, é dele ele dá pra quem quiser: ok. Meu, meu, meu, mais, mais, mais, hhhuuuummm, isso é até legal. Estou gostando. És toda minha? uóoonnn, uóoooonnn, alerta vermelho, alerta vermelho, todos os sistemas são suspensos automaticamente. És toda minha, querida? [pausa] [silêncio] [e agora: dizer que sim só pra não bagunçar a brincadeira que está tão boa? abraçar a causa da liberdade e reafirmar posição dizendo não, sou toda minha, quem você pensa que é? propor um meio termo razoável: escolha aí duas ou três partes pro seu usufruto exclusivo e o resto eu uso como me aprouver?] suspira, geme, geme, enche a boca pra disfarçar, fim da pausa, reinício do patati, patatá, rala e rola, rola e rala, lambelambe, cheiracheira, esfregaesfrega, vuco-vuco, mãonaquilo, bocanaquilo, aquilonaquilo, tudonaquiloaomesmotempoagora… é tudo meu, mas você pode gozar do que conseguir agarrar agora.

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Vermelho

O batom.

Os lábios. Grandes e pequenos.

E até os do rosto.

O pano na tourada. Provocação. Convite.

O vinho encorpado.

A rosa do menino príncipe. Ternura.

As paredes de Bergman, em Gritos e Sussurros.

O Boi Garantido e a voz da Fafá. Potência.

Os olhos injetados de desejo, de raiva, da ressaca da noite mal dormida e bem vivida.

O calor em um abraço.

O envolvimento de quem se quer.

A mestra do cordão encarnado. Dança e festa.

A pincelada de Caravaggio.

Os sapatinhos. Casa. Dança. Sorte. Morte.

Audrey Hepburn, nas escadas, em ‘Funny Face’.

O churrasco quente e mal passado. Sabor.

Os morangos, ainda que mofados.

Os cortes. E, às vezes, as cicatrizes. Memórias.

O sol por trás do olho bem fechado inclinado pro céu ao meio dia. A coragem de.

O sangue derramado em luta. Dado a causas. Derramado por amor a outras gentes.

Meia bandeira do Mengo. Alegria.

Todo teu gosto na minha língua.

Pimenta.

A fraternidade, no filme. A liberdade, nas ruas.

Meu coração.

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Hoje tem

Era uma mesa grande, daquelas animadas, os amigos tinham vindo dar os parabéns, ele era amigo de uma amiga, se conheciam de FB, estou pensando em ir, vem, ele foi. Não se sabe bem como acabaram sentando um ao lado do outro. Não foi de princípio, não. Ele, o centro da mesa, rodeado de quem chegou mais cedo, acenando muito, rindo alto, esbarrando nos copos. O outro do lado da amiga, nem quina nem meio, olhos pequenos por trás da lente, gestos contidos, mais curiosidade que interesse.

Mas era um bar, era festa, muita gente chega, muita gente sai, gente levanta pra fumar, pra beijar, pra mijar. Olha, cabe mais uma cadeia aqui? “Fasta” pra cá. Vai mais pra lá. Vem aqui cumprimentar Fulana, Sicrano, Beltrano e o Edu, que fez a música. E ali estavam, um do lado do outro. Desculpa, ainda não tinha falado direito contigo. Magina, você estava ocupado. Umas impressões sobre a cidade. Gosto sempre de vir aqui. Pena a gente não ter se conhecido da outra vez quando passei mais tempo. O ombro esbarra no outro, a cerveja pula do copo. Desculpa, meio rindo, meio constrangido. Que nada, foi bom, meio safado. Trabalho, amigos em comum, a política, música, música, o céu, o nada. Os joelhos. O inclinar pra falar mais pertinho do ouvido. Muito barulho aqui, né?

As duas mãos em direção ao mesmo copo. Opa, esse é o seu? O copo esquecido, as mãos enlaçadas. Olho. No. Olho. Nu. E foi assim: ele pegou o indicador do outro, levou até os lábios entreabertos, enfiou num movimento rápido e sugou, firme. O outro, choque. Ele continuou a sugar, com a língua catou outro dedo. A mesa continuava, impávida em seu alvoroço de cervejas e tira-gostos, conversas e risadas. O outro semicerrou os olhos, estremeceu, a calça apertando o pênis que endurecia. Ele sorriu, como quem desafia: gosta? O outro inspirou, puxou a mão com uma certa violência, ele quase entristeceu, o outro e seus dedos úmidos puxaram-no pela nuca, a boca firme na boca ainda entreaberta, a língua, dura, invadindo, exigindo, amolecendo, convidando, percorrendo, provocando. A saliva. O tesão. As mãos por baixo da mesa, por cima das camisas, a língua na orelha, que buraco gostoso, o outro ri, desejo é alegria, cangote, lambida, deixa eu respirar, quero te engolir. Delícia. Beijinho na ponta do nariz. Mão na perna. A noite segue, sem pressa, os dois, a mesa, a conversa, o ruído, a cerveja no mesmo copo, a certeza. Hoje tem.

Hands toasting wine glasses

Hands toasting wine glasses

Oferta

O que eu te ofereço é uma cama de lençóis frios e um corpo quente. Um passeio de mãos dadas. Pés descalços descansando no teu colo. Um copo pros dois. Um sorvete provado nos teus lábios. Um abraço em que a gente se esquece nele. Mãos bandoleiras. Uma vitrola, um disco. Ou dois. Um despertar com desejo, um amanhecer de ternuras, demorar-se na cama em cafunés. Um café. Outro. Mais. Uma cerveja na esplanada, esquecendo o tempo. Uma conversa que não começa nem termina, com silêncios expressivos e gargalhadas ruidosas como pontuação.

O que te ofereço é viagem. Ausências. Uma saudade do que não teremos. Uma vontade de mais. Viver mais, trepar mais, saber mais, rir mais. Entontecer um pouco.

O que te ofereço é fazer supermercado junto, implicar com os gostos um do outro, brindar o possível, enroscar o teu cabelo entre os dedos enquanto nos recostamos no sofá e ouvimos música ou vemos um programa bobo na tv. Um telefonema no começo da noite só pra dizer: dá uma chegadinha na janela e olha a lua. Um cartão de aniversário feito de recortes de revista. Uma mensagem no celular com um trecho inteligível de Lacan. Uma carta sobre nada, só pelo prazer de tuas mãos tocarem o mesmo papel que as minhas.

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O que te ofereço é uma companhia na cozinha, tempo e fogo, temperos, os sentidos se aguçando. Uma taça de vinho. Um cheiro no cangote. Um álbum de fotografias. Uma mordida no nariz. Encostar a cabeça em teu peito, enlaçar mãos e chamar pra dançar um bolero. Sem música.

Brincar com teus bichos. Ler teus livros. Esquecer um sutiã no teu armário. Bagunçar teu armário. Lavar a louça. Morder teu dedão. Cutucar. Te agarrar de repente. Te devorar lentamente. Mandar mensagens absolutamente banais em horas pouco apropriadas. Nudes. Da alma, quase sempre.

O que te ofereço são beijos. Molhados. Rápidos. Demorados. Na boca. Na pele. Sugando. Lambendo. Suave. Forte. Com pequenas mordidas. Ou grandes. Em despedida. Em reencontros. Em descobertas. Virtuais. De saudades. De promessas. De convites. Beijos.

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O que te ofereço é companhia no trânsito, um fim de semana na serra, um ombro encostado no teu ombro no cinema, uma pipoca dividida, a escuta das miudezas cotidianas, a acolhida das dores quase esquecidas que se fazem inesperadamente presentes e imensas.

O que te ofereço é termos uma canção. Ou duas. Um fim de semana. Ou dois. Ou mais. Um lance. Um romance. Um rala e rola. Um rolo. Um gozo. O relógio sem ponteiros.

O que te ofereço é um abismo. Um mergulho. Um vôo de trapezista. Sem rede. Também conhecido como primeiro encontro.

Fodidos

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Porquejánãoestádandocertoentrenóseeuachomelhor… ele falava rápido, meio sem fôlego, emendando palavras. Pra que eu não argumentasse, talvez. Pra convencer. Alguém. Eu. Ele mesmo. Nosso público imaginário. Eu lembro Verissimo. Quase rio. Temos sempre uma platéia por dentro. Dentro. Vazio.

Depoisdetantosanosjuntosprecisodescobrirmaiscoisassobremim… ele ainda fala. Eu aceno. Menos concordando do que incentivando que ele continue. Ele gagueja, na poltrona baixa, meio inclinado pra  frente, as mãos como em uma prece. Eu, retinha na cadeira da mesa de jantar. O ângulo de 45 graus lembrava uma sala de terapia. Ah, os pequenos hábitos. Ao Verissimo na minha cabeça se juntam Pedro Cardoso e Debora Bloch e colocam um meio sorriso na minha boca. Eu interrompo: nunca assistimos Veja essa Canção juntos. Ele me olha, confuso. Nãoqueromaistempo, ele diz, eu meneio, não era isso, eu não acompanho direito o que ele diz, ele não adivinha o que eu penso.

Ascoisasentrenósnãosãomaisasmesmas… entre nós. Entre lençóis. Entre. Venha. Penetre. Eu sempre fui capaz de pensar em sexo a partir das coisas mais corriqueiras. Ele fala, eu vejo os lábios, a ponta da língua e começo a sentir o bom e velho fogo na periquita. Fico úmida. Meladinha, era como diziam no tempo em que ele não passava tempo se despedindo de mim mas me fodendo.

Éclaroqueeuaindagostodevocêesperoqueagentepossaseramigo. Claro, eu digo e me levantando devagar, um passo, outro, ele levanta a cabeça, pode continuar falando, ele continua, amigosvamosseramigos, eu levanto a saia e tiro a calcinha. Oquevocêstáfazendo… um passo, outro passo, pernas abertas, me lambe. Encosto o corpo no rosto dele, ele inspira fundo meu cheiro de tesão. Ele ajoelha. Eu puxo os cabelos da nuca. Ele sopra. Ele sempre sopra, antes. Praafastaralabareda, ele dizia. Ele diz. Ainda diz. E sopra. E deixa a língua passear. Enche a boca de saliva. Molha. Lambe. Vai, vem, o nariz faz cócega, não é cócega depois dos 15, eu lembro, eu gargalho. Ele afasta a cabeça e diz: depoisdos15. Eu ainda escuto. Ele ainda adivinha. Uma mão, firme, na minha bunda. Tábua de salvação. A outra, vadia por baixo da blusa. Puxa o mamilo. Esfrega. A língua depois dos lábios grandes e pequenos, provoca o clitoris. Firme. Leve. Firme, firme, firme, leve. E deixa e vai brincar de esconder na fresta. Entra sem pedir licença, visita de muito tempo tem intimidades. Um gemido. É meu. Bom. Bom mesmo. Essa facilidade, que pena perder essa facilidade. O pensamento vagueia um pouco, até sentir aquele dedo médio explorando a entrada do cu. Sinto o vazio na hora que ele para de lamber e cospe nos próprios dedos. Aqui e ali e em todo buraco. Findo o vazio. Em todo buraco. Ao mesmo tempo. A perna fraqueja. Bambeio pra frente, ele enfia mais fundo. A língua. Mais. Mais. O dedo. A língua. O outro dedo. Os dedos. O gozo. Morno. Deslizo. O joelho bate no chão frio. A gente nunca comprou um tapete. Agentecompra, ele diz enquanto desabotoa a calça. Eu penso em responder: não mais, mas encho a boca com o pau duro. Faço um vácuo com a boca, ele suspira. Ritmo. Vou e venho, vou e venho, língua, lábios cobrindo os dentes. Estico o braço e enfio meu dedo na sua boca. Ele lambe, um de cada vez. Agora é o meu dedo molhado no cu dele enquanto chupo, firme, gosto como o pau pulsa na minha boca. Sinto o gosto salgado do momento de parar de chupar.

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Deito de lado, ele deita atrás, tão fácil, ensaiado, quase. A camisinha? Eu digo, ele diz, ele escuta, eu adivinho, a gente ri. A gente trepa rindo. A camisinha. A gente trepa. A gente trepa. A gente trepa. A gente trepa. A gente trepa. A gente trepa. A gente trepa até quase esquecer da gente, de tudo, do dito e do que ainda faltava dizer. Quase. A gente goza. Eu, uma, duas, eu gozo no plural. Ele goza. E eu, ainda. Denovo? Não? Simsimsimgozanaminhamãodenovo.

Uma coisa que sempre gostei: o jeito como o pau dele desliza, relutante, pra fora da minha buceta. Pra fora. Saindo. Você foi saindo de mim, devagar e pra sempre, eu canto baixinho. Ele enterra a cabeça no meu pescoço e chora. Não estou desafinando tanto assim, eu penso em brincar, mas calo. Ele chora, uma mão entre as minhas pernas, a outra no meu ombro. Ele escorre no meu pescoço em lágrimas mornas. Eu escorro o prazer passado entre as coxas. Eunãoseise. Sabe. Silêncio. Ainda lembro de dizer: Se você fosse o amor da minha vida e eu fosse o amor da sua vida, a galinha tinha dois pescoços. Ele ri. Verissimo é nossa Paris.

É hora de separar e estamos fodidos.

Tempos Verbais

No futuro do pretérito, escrevemos o desejo. Seriam tempos de quarto de hotel, palavras rudes e mãos rápidas. Uma certa violência. Seria tua boca, mordendo. Seria um gemido. Seria um encontro, uma conversa, um perder-me. Seria uma paixão sem calendário. Sem retrato, sem saudade, sem espera. Gostaríamos, claro, de nenhuma roupa, nenhum pejo, nenhuma restrição. Enroscaríamos as pernas pra dormir. Eu perguntaria muito. Você riria pouco. Aceitaríamos o enquanto. Sem tempo de nos aprender, adivinharíamos recantos, curvas, anseios. Fecharíamos a cortina e ignoraríamos a hora certa. Certas horas são apenas para o gozo, eu tentaria dizer, mas você me ocuparia a boca. Não conheceríamos nenhum adeus. Eu ficaria dormindo. Você sairia tranquilo. Só a carne é triste depois do sexo.

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Nós sempre soubemos que só há um tempo certo para o amor: o pretérito imperfeito – e nele inscrevemos nossa história. Já não procurávamos enganar o tempo fechando janelas e ignorando as horas, o agora é, ele mesmo, uma lembrança. Temos saudades do que estamos vivendo: beijava, tocava, falava, gozava. Pretérito. Eu, imperfeita. Acordava, abraçava, aceitava. Viver em rimas pobres. Também. E conjugo: mordia, ardia, queria. É que havia teus olhos enevoados, a covinha no canto da boca, as mãos enormes e o jeito certo do teu peito me servir de travesseiro, eu inventava teu corpo fazendo passado com o meu. Eu digo: lembra que nós enroscávamos as pernas pra dormir? E você quase lembra em pernas que se misturam às minhas. Você lembra como andávamos sempre nus? E banimos as roupas. Você lembra? Lembra? Lembra? Vamos forjando retratos e desvendando o segredo: a verdade é uma narrativa. Aceitávamos o enquanto, chamando-o de memória.

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Abre, cautelosa, a caixinha delicada onde guarda as palavras mágicas. Aquelas que coleciona para os dias de sofrer, que costumam chegar: menina, sal, adorável, perto, ontem, quente, sorriso, querida, logo, junto. Sorri, a contragosto, acha bonito o tempo do desassossego. Sabe que construiu as janelas todas para o nascente. Há estrelas de papel no teto e disso se ri. Brilham apenas no escuro e há nisso uma beleza que ela hesita em esclarecer pra si mesma. Com algum pudor, fala em voz alta, como quem confessa: longe é o outro jeito de dizer desejo. Desejo. Mais uma daquelas palavras que cabem, direitinho, na caixinha delicada.

Vamos Biscatear

Estou desde ontem tentando escrever esse post. O post de hoje. Da biscatagi. Ia falar de beijar na boca. Porque é bom. Porque beijei. Porque é caminho bom de biscatear. Sei lá que mais, eu ia trazer beijos e línguas pra humedecer as letras.

Mas no lugar de saliva achei as lágrimas. São elas que tem dado a cara dos dias. Lágrimas de tristeza. De raiva. De impotência. De pesar. De empatia. De mais raiva. De angústia.

Então o que trago hoje é um convite. Da gente usar esse cantinho como trampolim e se informar de tanta coisa dolorida, potente, desesperadora, inspiradora, combativa, transformadora que tem acontecido.

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Eu deixo três motes:

– o crime ambiental que aconteceu/está acontecendo em Minas e a cobertura jornalística desprezível.

– a ocupação das escolas públicas em São Paulo e a repressão belicoso, perigosa e criminosa feita pela PM.

– o #MulheresContraCunha que tem tomado as ruas de variadas cidades.

Não, não vou colocar nenhum link. Só dessa vez vou chamar assim: Vem. Vai. Vamos biscatear. Procura. Pergunta. Mexe. Remexe. Indaga. Espalha. Divulga. Perturba. Esse corpo que queremos livre, coloca na rua, na pauta, na luta.

Indo

Eu estava. Eu estou. Com essa vontade. Ou esse vazio. Com essas lágrimas. Com esse eco. Com essa dúvida. Eu não sou boa de escolhas, gosto quando vou vivendo a vida no fluxo. Mas a cama grande demais, o retrato em branco e preto e aquela pergunta que acompanha madrugadas insones vão atrapalhando o ritmo. Eu tropeço. As pessoas que me amam entendem, o que me surpreende um pouco, porque eu mesma mal consigo perceber relances dessa fome. Só sei que falta. Respiro. Tenho dificuldade de ser essa eu que estou sendo. Abro portas, janelas, aplicativos e peito. Se houvesse som no vazio, seria um riso de deboche. Mas nem. Sinto um pouco de inveja de quem tem fé, além daquela da canção. Eu não costumo encontrar respostas fora de mim. E, dentro, hoje, mal encontro as perguntas. Trago o corpo em desalinho. Dizem por aí que o mestre surge quando o aprendiz está pronto. Dizem, por outro lado, que a gente escuta o que quer ouvir. Uma coisa, outra ou as duas, fui ler a Fal* para lembrar que o bom, o belo e o justo sim, são possíveis. E eis que ela, além de tudo, se faz oráculo. Eu li. Leiam também:

Q: Fal, e quando você acha que achou o cara da sua vida, mas ele é quase 15 anos mais novo do que você? como faz?

Amolis, cê sabe que eu não sou uma florzinha, não sou uma pessoa boa, não creio numa energia-muito-linda, não creio na bondade, então creia, não tou te falando isso porque sou uma fofa. Tou te falando isso porque é a real: vai lá. Quinze anos mais novo, que odeia tatuagem, usando peruca, trinta anos mais velha, muito mais alta, muito mais gordo, magro de doer, bigodudo, torcendo pro time errado, com dez vezes mais grana do que você, atleta, tatuado, bicho grilo, careca, duma profissão que sua santa família considera abaixo “do nosso status social”, fumante, cadeirante, dum gênero que você jamais imaginou que rolaria, eleitor de partidos exóticos, pobre de doer, doutro país, artista, funcionário público, com cabelo esquisito, dono de boate, gótico, pagodeiro, sertanejo universitário, iéiéié: vai lá. Sempre. Só não vale quem não quer você, quem você não quer e dimenor. De resto, vai lá. Eu juro pra você que nada, nada, nada disso importa. Na-da. Não é papo “clube dos corações solitários”, é da vida, ouça a tia Fal: vai. Seja ele o cara da sua vida ou o cara dos próximos lindos 15 minutos (a gente nunca, nunca, nunca tem como saber): vai. Vai, vai, vai. O que a sua mãe acha, eu juro, não importa, porque ela dorme agarrada no seu pai e você, vivendo pela cartilha dela, vai ou dormir sozinha (nada contra, eu durmo, mas, né?) ou dormir com um ser que não é teu número. Quem não quiser te receber de fim de semana porque “ela se juntou com aquele cara estranho” e “ele casou com aquela esquisita”, pode ir capinar um lote, porque num sábado chuvoso e tristonho, eles têm com quem ver Netflix, você vê com o cão (eu vejo com o cão, nada contra, mas, né?). Eu já pensava isso antes de o A. morrer, mas depois que ele morreu, falo pra todo mundo, o tempo todo: vai. Porque é raro. É tão bom. E efêmero. Em um segundo a sua vida muda. E se você for quem tou pensando que você é: VAAAI!!!”

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* Se você não conhece a Fal, aproveita. Fal Azevedo é artífice de letras com sentimento. Autora de “Sonhei que a neve fervia”, “minúsculos assassinatos e alguns copos de leite”, “o nome da cousa” e alimenta tumblrs a rodo. É dela o “Drops da Fal”, maior preciosidade da internet.

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