Bolhas

Às vezes me dá um pouco de cansaço. De não entender porque as pessoas não entendem. Que seria tão melhor – acho – que ninguém regulasse a vida do outro pelo seu umbigo. Que não, não interessa o seu pecado, a sua crença, a sua teoria, o seu deus, o seu medo, o seu desejo, pra o outro tomar as decisões dele. Que a diferença do outro não é liberação pra ser morto de fome, de dor, de procedimentos mal feitos, espancado, de solidão, queimado na rua, baleado por engano, esfaqueado por ciúme. De desesperança ou desilusão. Às vezes me dá um pouco de cansaço. A insensibilidade pesa. A do outro, que não se acanha de verbalizar seu ódio, sua crueldade e se ofende se a gente apenas diz: mas isso é tão cruel. A minha insensibilidade pesa, porque estou aqui, ocultando status pra não saber se gente que eu quero bem é capaz dessa falta de sensibilidade aí. Às vezes me dá um pouco de cansaço de estar sempre vasculhando as entrelinhas, de perguntar de onde vem o riso, de me inquietar com as concordâncias imediatas. De tentar ser quem eu espero ser. De percorrer as distâncias. Eu disse cansaço? Devia dizer tristeza.

Esses dias em que existir tem sido difícil. Tanto desprezo, tanto ódio, tanta crueldade em relação às mulheres. A forma como nossos poucos direitos vão sendo dissipados, nossos corpos violentados e nossos desejos ignorados. Vamos garantindo que as mulheres que não são boas o suficiente (e nunca somos), morram, por dentro e de fato, algumas vezes. A gente não pode trepar. Fecha as perninhas. Se comporte. Se oriente. Só com a bênção do papa da vez, seja qual for sua doutrina, que seja decente. Incluindo aí, sua militância. Uma militância de perninha fechada. Sem riso e sem gozo. Sem gosto. A não ser por um pouquinho de sangue.

Dói e eu quase. Quase me fecho ali, na bolha confortável que é a ilusão que meus privilégios me protegerão. Aí recebo seu inbox, amigo, me falando do que aprendemos juntos. Aí tem o Blogueiras Feministas e a resistência. Aí tem a conversa livre com a amiga, que escuta, fala, pondera e permite. Aí tem o convite pra falar de feminismo – eu, biscate. E tem esse clube. Essas pessoas que fazem esse clube. Essas ideias e anseios e risos e trocas e gozos, liga que nos une, que mantém o blog no ar, que mantém a esperança no ar, que sustenta minha luta. Uso a ponta afiada da dor e estouro a bolha. O único modo de seguir que conheço é esse.

bolha

Da exigência de respeito à monogamia alheia

poliamor-300x219

De maneira recorrente vejo apelos para que mulheres não fiquem com homens comprometidos porque isso ia trazer sofrimento para outra mulher. Esse apelo feito em nome do feminismo, sororidade e quetais. Acho que há muita, muita coisa complicada nesse tipo de discurso, mas vou falar só de duas (por exemplo, vou passar ao largo da questão: mulher com mulher a fidelidade é automaticamente garantida? Porque não tem um apelo pra mulheres não ficarem com mulheres comprometidas? A homossexualidade feminina e a bissexualidade foram esquecidas ou mulheres são automaticamente fiéis se estão juntas?).

Mas, dizia eu, vou ficar só em dois pontos. O primeiro deles se refere a uma certa noção do desejo como voluntário. Sim, a forma como o desejo é constituído pode e deve ser problematizada. Os discursos mainstream sobre beleza e atratividade, a estrutura machista que supervaloriza a ação como masculina e implica em uma passividade dita feminina, a cultura que legitima que coisas como crime contra a honra ainda existam no imaginário das pessoas, tudo isso pode e deve ser questionado. Mas isso não significa que o desejo constituído possa (ou deva) ser normatizado. O desejo é subversivo. O desejo escapa. O desejo irrompe. A ideia de que se possa definir, a priori, que relações devem existir, como o desejo deve operar, é ingênua. Ou moralista, caso se aceite que o desejo exista mas que se deve reprimi-lo. Devemos ser responsáveis pelo nosso desejo. Essa frase é de uma ambiguidade linda: indica que respondemos por ele mas também implica que é de nossa alçada e de mais ninguém cuidar desse desejo. Inclusive de suas parciais satisfações.

O segundo é o próprio horizonte de relações presente nas entrelinhas: a ideia de que a monogamia é um modelo desejável de relacionamento. Ou, pelo menos, de que é um modelo de relacionamento a ser preservado. Parte-se da ideia, nesse apelo, de que todos compactuam dessa visão e desejo (por exemplo, sempre que ficamos com um homem comprometido ferimos nossa própria vontade e sonho de um relacionamento saudável., sim, eu li algo assim). Sem reparar (espero) lança-se o apelo a partir de uma suposição de moralidade comum. Mas e se a gente não tem o anseio por um “relacionamento saudável” ou não deseja que os “relacionamentos sejam saudáveis”? Ou se, mais longe, a gente não tem modelo e cada relacionamento pode ser do jeito que for? Se a gente levar às últimas consequências a ideia de que ninguém pode nem deve definir como alguém exerce sua afetividade e sua sexualidade, nem Igreja, nem Estado nem os parceiros? E se a gente não compactuar com o direito de posse intrínseco à idéia de monogamia?

Eu não. Não à culpa. Não a religiosidade dogmática do discurso pode ou não pode, fode ou não fode. Não às identificações fraternas e suas implicações. Não à conversão. E não, não, não, uma negativa sistemática à noção de que eu ou alguém saibamos o que é melhor pros outros e outras no que se refere ao usufruto do seu próprio corpo.

PS1, Minha questão não é que não existem pessoas que são comprometidas, ficam com outras pessoas E são escrotas. Minha questão é que elas não são escrotas ou sacanas PORQUE ficam com outras pessoas, não é uma relação causal e sim de concomitância (idem para quem é o “terceiro”, não significa que esse terceiro não possa ser um sacana, mas não é sacana porque é o terceiro).

PS2. Não foi intenção desmerecer os sentimentos pessoais. Somos quem podemos ser. A sociedade nos educou pra entender que se a pessoa com quem estamos estiver com mais alguém é porque fomos insuficientes de alguma forma. E isso dói. Caso não compremos o discurso da insuficiência tem também a idéia de que se a pessoa com quem estamos estiver com mais alguém é porque ela não presta, e isso dói também, como assim escolhemos errado? Então entendo e acolho quem vive como pode viver, se respeitando e ao seu ciúme e tal. Mas entendendo que isso é um jeito próprio e possível de viver bem, não uma bandeira. E que existe a possibilidade de uma vida em sociedade menos dolorida, possível se baseada na separação entre respeito e exclusividade.

Vai e Vem

Que seja fácil. Sem perguntar o porquê nem o quando. Sem procurar uma norma. Sem modelo. Suave. Borboleta no peito. Não se sabe direito quando chega nem quando vai. O corpo solto. Não controla. Não promete. Vai ficando. Arranca as páginas do calendário e faz tapete. Tira a bateria do relógio. Que seja em diminutivos. Fica pra um cafezinho. Dá um abracinho. Leve. Deixa chover, deixa a chuva molhar, cantarola uma canção sem pejo. Afasta os móveis, afasta os medos, ensaia um bolero. Só dá bola pro amanhã quando for um hoje. Aprende o adeus. Tudo que vem, vem, volta, cantarola outra vez. Lembra do Kronk e cria sua própria trilha sonora. Abre a janela e deixa o vento embaralhar cabelos e sonhos. Aqui pode. Aqui sim. Aqui e aqui também. Vem. Vai. Sem razões, sem justificativas, sem explicações. Vontade. Tesão. A ponta da língua. A pele. Sem linha, sem pauta, sem regra. Desse jeito, apenas. Primeira vez. Única. Singular. Toca. Abre. Cuida. Solta. Lembra. Esquece. A beleza de esquecer. Suspira. Eu. Você. Sem nós. Mais. Quem chegar. Como chegar. Recebo.

borboletanapele

Chega. Abre a porta, os braços, meu zíper. Encosta teu corpo no meu. Me abraça. Geme no pé do ouvido. Lambe aquele caminho debaixo da orelha até o vão do pescoço. Esfrega o pau duro nas minhas coxas. Me encosta na parede, na máquina de lavar, no encosto do sofá, no que estiver mais perto. Enche as mãos com a minha bunda. Aperta. Roça. Morde o ombro, o queixo, o lábio. Aproxima o nariz do meu e manda eu abrir os olhos. Bitoca. Procura o sutiã e ri baixinho de não encontrar. Uma mão na curva das costas, a outra apertando mamilo. Belisca. Me deixa mole. Com a boca aberta deixa saliva no meu rosto todo. Me vira. Me curva. Usa o joelho pra afastar minhas pernas. Segura minha cabeça, mais escuto que vejo sua calça descer.  Encaixa a mão na minha buceta, move a calcinha pro lado. Enfia um dedo. Outro. Sussurra o que vai fazer. Faz. Vem. Volta. Pau. Dedo. Pau. Dedo. Me dá a mão pra eu lamber. Geme. Desce. Senta no chão, levanta a cabeça. Lambe. Suga. Se toca. Me chupa. Deixa o rosto me sustentar enquanto a língua me prova. Fraquejo. Deslizo. É uma almofada? É. Puxo. Levanto o quadril, apoio no macio. Sinto a língua espalhar o gosto minha buceta pela pele arrepiada. Ia dizer me fode, digo eu te amo.

Um Certo Moço Não Precisa Ser o “Moço Certo”

Obrigada, moço, por chegar. Pelo riso. Pelo bom. Pelo simples. Pelo cigarro, a cerveja, o tesão. Obrigada pela conversa fácil. Pelo antes. Pela fome. Pelo desejo direto. Pelo acolhimento da minha vontade. Por pedir. Por dar. Pelo movimento. Obrigada pela ausência de disfarce, de medo, de reserva. Pela malícia. Pela saliva. Pelo depois. Pelos filmes, pelo bocejo, pelo cansaço e a modorra. Pela piada da câmera. Por falar das borboletas, não como quem sabe, mas como quem se importa. Obrigada por não esperar certezas. Por não pedir promessa. Por não afirmar. Por não dizer futuros, mas indicar um amanhã possível em qualquer dia de corpo quente. Obrigada pela pergunta que me vê. Pela piscadinha de olho. Pelo beijo estalado. Obrigada por chegar. E partir.

tumblr_lpp2jl6J0E1qaqzjo

(depois daqui deve ter spoiler de Private Practice e de uma temporada bem antiga de Grey´s Anatomy, mas ainda é spoiler anos depois?)

E aí eu lembrei do Sloan e do vínculo dele com a Addison. Eu não sei se vocês assistiram Private Practice, provavelmente não, mas não tem importância, eu conto o que interessa pra vocês. Tem a Addison, uma mulher por volta de 40 anos, profissional de sucesso, vida amorosa agitada depois de um divórcio conturbado. Tem o Sloan, um dos melhores amigos da Addison. Eles tiveram um relacionamento enquanto ela era casada, terminaram, ficaram um tempo afastados, reconstruíram a amizade. Ele tem por volta de 50 anos e acabou de terminar um namoro com uma outra mulher, bem mais jovem que ele, porque tinham planos de curto prazo diferentes.

Daí tem essa cena de Private Practice em que está tudo bagunçado na vida da Addison e na do Mark Sloan e eles estão se sentindo velhos e tristes e perdidos. Ela acabou de descobrir que grande parte das coisas que acreditava sobre sua família, seus pais, coisas que norteavam seu comportamento e relações, estava equivocado. Ele teve uma guinada afetiva, acabou de reconstruir um vínculo com a filha e passou a ter planos mais estáveis e definitivos pra vida, mas por isso acabou se separando da pessoa com quem estava envolvido e que, nessas voltas e ironias dos processos, foi justamente quem o inspirou a ser uma pessoa mais entregue, comprometida e disponível.

Com afeto e cumplicidade, conversam sobre coisas/momentos que poderiam funcionar para amortizar a dor. Porque é preciso sentir, mas também é preciso descanso. Repouso. Conforto. Aí ele vai e tira a roupa e se oferece pra ela. Porque, diz ele, não sabe muitas formas de amenizar o que ela sente, mas isso eles podem fazer juntos. Porque é divertido. E eles fazem sexo porque é divertido e bom e amigável. E acolhem um ao outro na medida do possível. Sloan, que saudades de você.

Eu gosto imenso da sinceridade com que eles falam um com o outro, da forma como ele se coloca disponível e aponta seu desejo de encontro, da lucidez e da cumplicidade com que sabem que o sexo pode ser transitoriamente reconfortante. Algo que adormece a dor, o mal-estar, a tristeza. Não como resposta, que resposta não há. Como respiro. Como intervalo possível. E depois eles riem. Eles riem juntos. Eles gargalham.

Addison, que mulher! Vale a pena conhecê-la. Vale a pena ver a série e encontrar uma médica ginecologista e obstetra que de forma ativa se coloca do lado da escolha das mulheres no que se refere ao seu próprio corpo, seja uma gestação, um relacionamento ou um aborto. Vale a pena ver como ela se pergunta, se inquieta, mas segue insistindo, coerente com a fome que a move. Gosto de como a atriz a interpreta, colocando força, inteligência e sensualidade sem precisar disfarçar, justificar ou validar que uma mulher deseje, pense, trabalhe.

Pra terminar com alegria, um vídeo da Addison se divertindo um bocado (e me lembrando que legal a liberdade sexual da personagem sem que sejam feitos juízos negativos de valor sobre sua integridade, sua capacidade profissional, etc)

Velha

Lá pelos meus dezessete, dezoito, eu comecei a dizer que não tinha medo de envelhecer, dizia mesmo que queria envelhecer. E a resposta mais comum que eu recebia era: “espera chegar aos 40, aí você vai ver”. Bom, eu cheguei e minha relação com a velhice não mudou, ela continua bem vinda, estou curtindo. O que mudou foi a resposta que escuto: “espera chegar aos 50, espera chegar aos 60”.

Eu entendo o desconforto das pessoas, especialmente das mulheres, com a velhice. Como não entenderia? Primeiro porque os corpos velhos nos recordam a finitude. Findamos, o que nos apetece esquecer e que o tempo não cessa de nos recordar. Recusamo-nos, como sociedade, a lidar com a morte que, indiferente, chega. Essa amarra se agrava porque não é só a morte que negamos, mas a diversidade. Em uma sociedade como a nossa, tão rigorosa na vigilância dos corpos, tão atenta ao encaixe nos modelos de beleza, ter um corpo fora do padrão é difícil. O corpo que envelhece não é bem vindo, não é bem visto pela sociedade. Ser bonita é ser jovem, por princípio (e branca e magra e cis, mas aqui vou falar de um padrão específico, certo?). Parecer velho é ser feio e se, eventualmente, alguém velho ainda consegue escapar do carimbo e nos parecer bonito, não há dúvida: é porque parece mais jovem do que é. É preciso disfarçar as evidências, escamotear os indícios de que se viveu. E isso é das coisas que mais me fazem curtir o envelhecimento: eu gosto da vida. Eu gosto da minha vida.

O tempo passa, eu passo nele, ele passa por mim, ele passa em mim e eu não pareço mais jovem, nem mais velha, pareço mais eu. Legal se a gente pudesse ir sendo, apenas. Que os anos fossem. Que a pele narrasse. Que as caixinhas de adolescente, criança, terceira idade, jovem, não nos definissem, não nos limitassem, não nos explicassem.

terceira_idade_3

Velho, velha, velhice, envelhecer. Eu escrevo, eu afirmo, acho que há, nisso, uma resistência preciosa. São, penso, muitas as transversalidades relevantes nesse tema. Tem a aceitação do tempo. Da transitoriedade da vida. Tem a desconstrução da norma de beleza. E tem, acho, o reconhecimento de que somos e podemos ser. Que não há nada inerente nem às pessoas nem aos momentos da vida das pessoas. Não somos mais ou menos curiosos na infância que na velhice. Tem quem é mais em uma etapa que em outra. Tem quem é sempre. Tem quem é nunca. Não somos mais ou menos dispostos na velhice que na juventude (proporcionalmente à capacidade física, of course). Há crianças que preferem ler do que correr e velhos que curtem bater uma bola com os netos. Não somos mais isso ou aquilo, não precisamos ser mais isso ou aquilo sendo jovens ou velhos. Não devíamos precisar seguir uma forma para sermos reconhecidos, aceitos, amados. Estar. Estar criança, adolescente, adulto, jovem, velho. E, em cada estar, ser, construir-se, reconhecer-se, fazer-se.

Vou sendo, vamos sendo, o que vivemos. O que gozamos. O que sofremos. O que escolhemos. Mas o que vivemos, gozamos, sofremos, escolhemos não é solto no ar, não vivemos a parte de um discurso social. Não são “as mulheres” que se cobram, que não se conformam com o envelhecimento, não é natural essa dor, a angústia, o desassossego. Como não é natural o comportamento de se aceitar como é, de não dar tanta importância pra opinião alheia, de viver tranquila com cabelos brancos, manchas, rugas e todas as marcas do tempo na pele. Não são “os velhos” que desistem, que param de sonhar, que deixam de sair, que não se relacionam, que são rabugentos, que não sabem sonhar. Não é natural a pessoa velha encolher-se, afastar-se, definhar. Como não é natural a pessoa velha afirmar-se, viajar, dançar, interagir, ansiar, planejar, gozar. Não se trata de questionar, julgar, validar ou hierarquizar as opções pessoais (pintar o cabelo não deveria ser, em si, melhor ou pior que acolher os brancos, por exemplo nem sair pra pedalar é intrinsecamente melhor do que ficar tricotando) mas entender que as escolhas são qualificadas e localizadas em relação ao discurso homogeneizante e prevalente na sociedade. Envelhecemos em um contexto que diz, diariamente, que não podemos, não conseguimos, não servimos, ficamos obsoletos. Somos humanos, somos humanas, esses comportamentos são construídos. Somos as possibilidades e o que fazemos com elas e o que elas fazem da gente. Estar ou sair da norma tem seu preço e ele é cobrado diretamente do nosso desejo, da nossa liberdade, da nossa autonomia, do nosso prazer.

 

A culpa, o samba, os relacionamentos 2*

11219120_539436909538754_8118445173701942392_n (1)

Um casal (famoso ou não) se separa e as especulações começam. Se há suspeita (e sempre há, quando não por indícios “reais”, por pura inferência) de um triângulo amoroso, não resta dúvida: a “culpa” é da mulher. Ou das mulheres, com gradação. Primeiro a culpa da “traída”, porque não soube segurar seu homem, não deu atenção, deve ser fria, trabalha demais e tal e coisa e coisa e tal. E, com mais vigor, as recriminações à que é descrita como causa, motivo, razão da separação. A outra, a rameira, fácil, destruidora de lares e mais uma coleção de xingamentos que relacionam atividade sexual com pouco caráter e/ou ética questionável. Em uma vibe aparentemente menos virulenta, mas ainda com uma demanda de rotulação e culpabilização da mulher, chegam os argumentos de “cadê sororidade?”, “tem que respeitar o relacionamento da outra mulher pra ser respeitada”, “mulheres tem que se apoiar e não tomar o companheiro da outra”, etc.

Um questionamento válido que muitas pessoas acrescentam são reflexões e indagações sobre a participação dos homens envolvidos na relação. Afinal não são eles os comprometidos no casamento/noivado/namoro/whatever? Não são adultos, responsáveis pelos seus desejos e ações? Não são eles que “quebram” os votos, as promessas, os vínculos? A “culpa” não é deles?

Nessa vibe, uma manchete que responsabilizava a babá pelo fim do casamento entre Ben Affleck e e Jennifer Gardner foi transformada em: Ben Affleck é pivô da separação entre Ben Affleck e Jennifer Gardner. Parece bom? Parece. Mas. Pois, esta biscate tem mania de mas. A manchete modificada traz a ideia de que uma separação, o fim de um relacionamento, tem um responsável, um culpado. E, aqui entre nós, penso que não existe pivô de uma separação. Um casal se separa porque chegou ao ponto em que não dá mais. Porque sim. Porque assim é melhor. E se é pra um dos dois, é para os dois. Quem convive com suas razões, e apenas estes, podem explicá-las a quem lhes é de interesse, aos outros melhor seria ocuparem-se de seus próprios nós. A vida íntima alheia (de célebres ou não) não deveria motivar tanta preocupação e, principalmente, julgamentos baseados em julgamentos do comportamento sexual das mulheres.

E tem outro mas. Ai tem? Tem. Porque o buraco, penso eu, é bem mais embaixo. O bafafá e quiprocó sobre separa-não-separa, foi-por-causa-do-quê-de-outra-não-de-homi-que-não-presta só acontece inserido em uma lógica de a) exclusividade afetivo-sexual e b) imperdoabilidade (existe essa palavra?) de relacionamentos sexuais com outras pessoas.

A nossa sociedade construiu e tenta sustentar (ao mesmo tempo que se sustenta, também, nela) uma ideia de que relacionamentos certos são capazes de – e devem – suprir todas as demandas, faltas e necessidades dos envolvidos. Mas, sei eu e, aposto, sabe você, somos seres de incompletude. Nada, ninguém, relacionamento nenhum vai nos deixar inteiros. Ah, mas a gente não precisa atender a todos os nossos desejos, porque essas pessoas não se controlam? Eu mudo a pergunta: porque é preciso o controle sobre o corpo e o desejo? O que se garante, garantindo esse controle? A quem interessa regrar o sexo alheio?

Vamos combinar: o que há de realmente grave no fato da pessoa com quem trepamos trepar com outra pessoa? Ou ainda, o que há de mais grave nisso do que ela ir ao cinema com outra pessoa? Do que ela gostar de conversar sobre vinis antigos com outra pessoa? O que há de realmente mais grave no fato da pessoa com quem trepamos participar de uma suruba do que participar de um grupo que faz degustação de vinho ou escalada? Porque achamos que é uma imposição nos afastarmos de quem beijou outra boca que não a nossa mas não de quem passa horas jogando videogame com outro alguém que não a gente? Parece-me que nada – afinal tem prazer envolvido, tem tempo envolvido, tem desejo envolvido em todas essas outras atividades, assim como no sexo – a não ser o local em que colocamos o sexo na nossa pudica sociedade. E como o usamos para cercear, reprimir e hierarquizar situações, pessoas e desejos.

Não estou dizendo que não dói, que não mexe, que não balança a gente saber que a boca que encostou na minha boca anda sugando línguas outras. Afinal somos todos inscritos em um discurso de posse, exclusividade, que nos ensina que isso é pra doer, que isso é prova de desamor, que se perdoa quase tudo, mas isso, ah, isso não. Não estou, também, dizendo que, ok, agora entendi, então vamos todos nos tornar não-monogâmicos. Não estou dizendo que ah, coitadinhos, deixa os homens treparem à vontade. Estou dizendo nada disso. Estou, mal e mal, tentando circunscrever esses discursos de posse, separação, traição. Tentando discutir que essa dor de “ser traída” não é um dado natural inevitável, mas resultante de uma construção social que pode ser desconstruída, devagar e sempre (incluindo a noção de traição) rumo a uma sociedade que nos reprima menos e onde se goze mais. Tentando conversar sobre o quanto intimidamos e magoamos outras pessoas ao reforçarmos discursos onde a exclusividade sexual se torna tema central e inquestionável (quantas vezes não ouvi as pessoas dizendo “mas é CLARO que ela devia se separar, imagina, ele transava com outra pessoa há meses”) dificultando que as pessoas afirmem seu desejo de continuidade “apesar de” ou, mesmo, “por causa de”.

Disse antes e repito, não se trata do que sentimos, mas do que fazemos com o que sentimos. Trata-se de quem queremos ser e em que sociedade queremos ser quem queremos ser. Trata-se de ser responsável pelo meu desejo, pela minha falta e pelas minhas ações. Trata de amar no outro a sua incompletude. De amar, na vida, também os silêncios, os vazios, as distâncias. Trata-se de mais. Querer mais, ser mais, gozar mais. Trata de substituir a culpa pela responsabilidade. De afirmar o desejo. E de parar de se importar com quem os outros estão trepando, porque estão trepando, o que A ou B acham da trepada. Parar de criar regra pra trepada alheia, olha aí um bom mote.

*Texto desenvolvido a partir de uma postagem de Dai Dantas no FB que, aliás, está copiada (com autorização) praticamente sem mudanças no parágrafo em itálico no meio do texto.

Algumas ideias soltas sobre tudo isso que está aí

– Eu não sei para que o meu corpo foi feito. E, sinceramente, não me interessa. O que gosto e sei (ou vou descobrindo) não é para que ele foi feito (sai de mim, determinismo biológico, esse corpo não te pertence) mas o que faço com ele, o que ele pode fazer, o que gosto de fazer, o que gosto que façam com ele, o que não preciso fazer, o que não quero fazer e por aí ladeira abaixo e cama acima. Blá blá blá corpo feminino feito pra procriar/gestar/alimentar… Samuel tem 18 anos e já não mama, me mato agora? Meu corpo é e eu sou meu corpo e no meu corpo, mas não é apenas ele que me determina, nem a minha identidade, nem meu desejo ou possibilidades.

– Liberdade sexual é ser livre pra fazer sexo quando quiser, como quiser, com quem quiser – se a (s) outra (s) pessoa (s) envolvida (s) também quiserem. Primeiro, o óbvio: o “quando quiser” também comporta o nunca, o vez em quando, o só essa vez e todas as demais variáveis temporais… o quando não quer dizer sempre #ficadica. O “como quiser” não implica em dar de quatro ou não dar de quatro, nem se deu de quatro tem que dar sempre de quatro, etc, etc, etc… como as pessoas envolvidas quiserem não precisa ser pautado em regras externas de movimentos sociais, sejam eles legais como forem. O “com quem” compreende o dou pra todo mundo mas não pra qualquer um #leiladinizfeelings, o com quem quiser não significa com quem me quiser, embora eu possa usar isso como critério, se eu assim o desejar. Isso posto (eu que julgava desnecessário, mas parece que não é), acrescento que acredito que liberdade não é (apenas) um fenômeno individual. É um processo de construção coletiva. Liberdade não é uma condição estanque, é um processo relacional e dialético. Manifesta-se na individualidade mas se inscreve no contexto.

Sexo é busca de conexão emocional e não é suficiente sermos tocados por quem nos deseja, a gente quer ser amado blá blá blá não fomos feitos para transar a toda hora com qualquer um.  Olha, eu não sei quem é essa gente aí, mas me inclua fora dessa. Meus relacionamentos (e, suspeito, o de todos, mas nem vou meter o bedelho nos alheios) são únicos. Particulares. E dinâmicos. Sei lá eu o que vai ser. Sei o que está sendo e mal e mal. Sinto. E não, não espero o depois. Que, eventualmente, acontece. Porque a vida, a minha vida, é isso, dias que vão sendo e pessoas que vão estando nesses dias que são. E, vez em quando, olho pra estrada e vejo pegadas juntas que vem de longe. Outras, desvios, abraços de despedidas ou mudanças de rumo quase sem notar. Uma estrada hora mais movimentada, hora percorrida sozinha. Chato isso de pegar a sua demanda emocional e generalizar pro mundo e ainda rotular de superficial quem não sente como quem escreve sente. ZZZZzzzzz. E tem essa insistência no “não fomos feitos”, como se o ser humano fosse peça dessas de fazer casa pré-fabricada.

Sexo é melhor quando feito com sentimento. Não fomos feitos para relações vazias. – Ué, eu faço sexo casual com sentimento e o tempo não é nada vazio, ocupamos de maneiras bem divertidas e criativas… Mas, claro, respondo isso de zueira. Porque sei que quando se fala de sentimento, nesse contexto aí, está implícito o “duradouro”. E, quase sempre, vem junto a ideia de que isso “é coisa de mulher”, “qualidade (ou defeito, depende de onde o machismo fala) feminina”. Encontrar alguém na balada, em um aplicativo, na casa de um amigo, ter interesse mútuo e se jogar no rala e rola, onde mesmo que está o impedimento pras pessoas envolvidas nesse processo sentirem respeito, consideração, carinho pelo outro? Se eu respeito, considero e estou aberta ao contato com outras pessoas por elas serem gente, apenas, e não pelo que elas podem ou não me oferecer, não está suposto que também sentirei assim por alguém no vuco-vuco comigo? O que tem o sexo de tão degradante que alguém perderia automaticamente o carinho, respeito, consideração alguém só por ter trocado fluidos, se esfregado, chupado, lambido, sei lá o que mais o corpo da outra? E lá vem a dogmatização do “foi feito pra isso” novamente.

O “fomos feitos para” supõe uma intencionalidade externa a nós. Implica em uma passividade que não me atrai. Tem um deus ali disfarçado nas entrelinhas desse discurso, dá pra ver de relance. Um deus que, não nomeado nem definido, acaba se parecendo com a versão mais propagada e enlinhada na nossa sociedade. Esse mesmo, o que – pelo que dizem em nome dele – não curte que a gente goze. Não curte que a mulher trepe sem ser pra parir com dor. Esse mesmo no qual não acredito nem assino o conversê.

Muito pouco, quase nada

Daquilo que eu sei
Nem tudo me deu clareza…

11698933_10153406344178704_6364370884065739482_o

Eu sei de pouquinho, quase nada. Sei a tabuada do nove, a regra das paroxítonas terminadas em ditongo, a fórmula química da água, as capitais do nordeste. Sei de lugarzinhos pra morder: queixo, pontinha da orelha, bunda, ombro, calcanhar. Sei de deitar na rede de dois, mãe e filho, dois amigos, duas irmãs, dois amantes. E balançar, como se o vento fosse abraço. Sei de pouquinho, quase nada: água de coco para desidratação, maracujá pra dormir melhor, beterraba, fígado e feijão pra quem anda fraquinha, manga com leite pra dar susto no antigo. Sei que andar de mão dada sua a mão, mas caber na mão do outro sossega a alma.

Sei de pouco, pouquinho, quase nada: do mar sei que não se bebe a água, que é cemitério bonito, que ensina a resistir no seu vai e vem, que acolhe o doce mas se faz sal, que convida a viagens, pra lá e pra dentro. Do mar, sei poesia. Do fogo, sei que baixo dá sabor e alto dá menino. Ou quase. Da lua, sei que míngua em mim, que brilha na letra do Vinícius e muda de cor na voz de Bethania. Dos ditados, sei que não se põe a mão na cumbuca, não se vai com muita sede ao pote e não se amostra com salto de égua véia. Mas vez ou outra, esqueço. Do sexo sei que sim – se forem dois ou mais querendo, e não – pra quem não quiser. Sei ainda, e compartilho com quem quiser saber, que o riso diminui a cama. Sei que babydoll de nylon combina com você e o abajur cor de carne não voltará a iluminar outras noites iguais. Sei muito pouco, quase nada, mas sei que o medo do ridículo é de se deixar pra trás, ou nós é quem ficamos.

Eu sei de muito pouco, quase nada, que não me dou ao respeito, que sou de todo mundo e todo mundo é de meu também, que sou rodada, rio alto, bebo e falo menos palavrão do que Marisa Monte, dou pra todo mundo mas não dou pra qualquer um. Sei que tenho o corpo da vida que levo e por tanto bem querer a essa, quero bem demais a ele. Sei sambar de ladinho. Sentar no pé da calçada. Beijar de língua. Que sou de Oxum. Sei abrir pernas, peito, caminhos. Do outro, sei a espera. Que o tempo do outro não é o meu, o desejo do outro não é o meu, que o como, quem, onde e quando do outro não tem resposta certa. E que tudo isso dói. E que tudo isso é vivo. E que tudo isso é vida.

Eu sei de muito pouco, quase nada: azeite com alho, queijo e goiabada, mostarda e mel, café com pão, tomate e ervas, farinha e, bom, farinha e a vida. Sei que refogar cebola pede tempo, que feijão pede molho, que carne pede ponto. Que é a estrada que ensina o passo, que lavar a burra é mais que deixar um bicho limpinho, que os pés de barro viram lama. Sei que viver é muito perigoso, mas que sempre há literatura como bálsamo. Ou forró.

Eu sei de pouco, nada, nandinha quase, sei que sou uma biscate qualquer, fácil, corpo desfrutável. Sei que nunca houve uma biscate como Gilda e que há jeitos de subverter a lei da oferta e da procura. Sei do tempo, dos afetos girassóis, que pra não envelhecer a opção é morrer. Sei de receitinhas pra depois do amor e que quando uma biscate sofre bom mesmo é ouvir Maysa. Sei do escurinho, da vida levada nas coxas, do moralismo sem bandeira política, do que não tem graça e se repete, mas sei também de noites porretas, da temperatura certa, das impressões do desejo e de que, ao fim e ao cabo, é divertido, gente! Sei de despedidas, que amar é dar o que não se tem, sei da dor, da culpa, do samba, dos relacionamentos e que as batatas são do vencedor. Sei das perguntas, sei dos espantos, dos labirintos, das máscaras, das escolhas e sei da escrita, de poder dizer: eu, Sardanapalo. Pouco, quase nada, mas me sustenta.

Sei de um nada, pouco, pouquinho: dançar arrochado, dois pra lá, dois pra cá, cheirar cangote, entrelaçar dedos, gemer baixinho, encaixar perna. Sei que é preciso ter o seguro: livro, comida, escuta. Que é preciso, vez ou outra, cair de boca, descer a lenha, bater o pino. Sei do café quente, da água de quartinha, do prato de alumínio, do milho assando na brasa, que eu já fui uma brasa, que minha vó já foi uma brasa, que a vó da minha avó também. Já fomos. Eu que sei de muito pouco, quase nada, sei disso: findamos.

Eu sei de pouquinho, quase nada: no por enquanto, eu vim aqui foi pra vadiar.

Em Amarelo

A rua tem cheiro de flor. Aqui, café e cuscuz. Felicidade em amarelo. São as pequenas alegrias, sabe. Aquele jeito de franzir a testa. A mão que nem percebe brincar com o meu decote. A carinha piscando na mensagem. Os cds com sua letra, os livros sem dedicatória. A pergunta: e vamos beber o quê? Aquele dia na represa. A flor roubada. A lua, enorme, pela janela. Os fogos na varanda. Todas as noites em que acordo no seu abraço. Sorrisos sem motivo e as coisinhas miúdas estão ali, feito jarrinho de girassol na janela, lembrando pra que lado fica o morno.

Mesmo eu que sou um oco do mundo, negros abismos, dores que antecipo. Minha mala é pesada não de passado mas de antigos futuros. Como quem anda à beira do abismo, acostumada a vertigens. Mesmo eu, já fui, em dias, a menina com uma flor, nas vozes dos que já me amaram. E, aqui, outra vez.

girassol

Aceito, no peito, o bem querer girassol. Grande demais pra ser o que é. Mas insiste. Colorido. Estabanado. Caloroso. Exuberante. Que só se sabe assim, voltando-se pro riso. Que se faz no repetir-se da cama bagunçada, do suor nos lençóis, da janela aberta, nesse quarto que é sempre noite mesmo em tempo de sol. Que se firma na forma como os corpos se sabem um momento antes do sono, no morno de estar junto muito tempo, nos sons que se fazem íntimos. Que se nutre nos afagos, no gostoso de caber na mão, do nariz no pescoço, do joelho entre joelhos, da ilusão. Que vinga exatamente no agora, espaço sendo tempo, tempo sendo gosto.

Gosto de girassóis. Eles têm a certeza dos dias, mas talvez não para eles. São demasiado. Demasiado exuberantes, demasiado coloridos, demasiado mortais. São estabanados demais para serem flores. Gosto desse sentir. Também, em meu peito, certezas de dias outros. Talvez não para nós, mas outros. Eu sou estabanada demais para o amor, mas insisto. Girassol que é, justamente porque finda. Murcha. Mas não hoje.

Aquele Abraço

Para Raquel e Sílvia,
sabendo que todos nós podemos nos chamar
Raquel e Sílvia
qualquer hora dessas.

coala1

Eu queria saber fazer, desse texto, um abraço. E deixar aqui, no blog, pra quando as coisas pesarem demais, estiverem difíceis demais, doídas demais.

Sim, nós somos do riso, nós somos do gozo, nós somos do bom. Somos do samba, da festa, das palmas. Somos das gargalhadas, das noites se fazendo dia, dos grupos. Sim, nós somos do sim.

Mas tem dia que o que a vida nos pede mais um tanto. Coragem e riso não bastam. Tem dia que dói. Tem dia de sofrer. De temer. De fraquejar. Tem dia que somos pranto, canto do quarto, medo, insegurança. Tem dia que o dia nos tolda os olhos.

Tem dia que a vida apaga a luz. Desmancha o riso. Anuvia o céu. Tem dia que todos os afetos não bastam. Que nenhuma coberta aquece. Que nenhuma comida sacia. Tem dia que não sabemos vivê-lo. Dias em que a paleta oferecida é solidão, angústia, receio.

Para esses dias, eu não trago nenhuma certeza. Eu não trago nenhum consolo. Eu desconheço como serão, como podem ser. Eu simplesmente fico aqui, disponível. Eu sou apenas o que for preciso ser. Um grande ombro ambulante. Um peito pra descansar a cabeça. Mãos em cafuné. Um sussurro feito cantiga de ninar.

Gosto muito quando Kundera fala de compaixão e nos conta da diferença quando a palavra é formada ora com o radical sofrimento ora com o substantivo sentimento. Compaixão pode ser “sentir com”. Compaixão é uma imaginação afetiva, é sentir com o outro o que ele sente, alegria, raiva, solidão, dor, medo, angústia.

É essa compaixão que deixo aqui, entre as letrinhas desse post. Uma disponibilidade para estar com. Pra sentir com. Pra doer com. Pra lutar com. Pra chorar com. Pra perder com. Pra sobreviver com.

Eu queria saber fazer deste post um abraço. Um abraço biscate, onde houvesse, potencial, o riso, o gozo, o bom. Um abraço biscate que nutrisse, acolhesse, aconchegasse, desse força, apoio, sustentação. Eu queria saber fazer desse post um descanso. E um mergulho. Vida, que seja do jeito que for, a gente junto, mar, amar, amor, dor, um peito repleto.

Sobre o Lugar da Rola na Utopia

Esse post é para dizer duas coisas: 1. Não tá de boa alguém mandar outro alguém procurar uma rola e 2. Não é preciso jogar fora o bebê com a água da bacia, os dedos com os anéis, ou seja, repudiar tudo porque alguém errou (errou feio, errou rude).

Quanto à rola, deixo de partida: eu gosto. É bom, divertido, dá prazer, etc. Mas, até onde se sabe, não tem efeitos de reparação de caráter, não redime comportamentos inaceitáveis, não é cura para homofobia nem para nenhum outro tipo de preconceito. Não é legítimo, desejável ou aceitável mandar alguém procurar uma rola, aliás não é legítimo, desejável ou aceitável, em qualquer situação, insinuarmos que a pessoa de quem divergimos age de maneira A ou B por falta de sexo. Essa é uma argumentação machista que tem sido usada reiteradamente contra as feministas, inclusive (mal-amada, mal-comida, e daí ladeira abaixo).

Como disse o Pedro: “nenhum problema de que se tenha notícia (quanto mais homofobia e machismo!) é causado por “falta de rola”. O tal argumento, antes, é que é efeito dos referidos males. Rolas abundam na humanidade, e ouso apontar que quanto mais rola, mais problema. A ofensa via de regra é proferida pelo projeto de machinho – daria pra se traduzir em: você (o feminino, a falta, a fraqueza) é o problema e eu (o falo, o patriarca, o poder) sou a solução. Desnecessário dizer que a frase “vai procurar uma rola, homofóbico” traz consigo no mínimo um ato falho. Uma contradição que prejudica o argumento. Óbvio, não sou neutro: entre Boechat e Malafaia, fecharia com o primeiro. Grandes merdas: fecharia até com o Diabo, mil vezes, antes daquele picareta execrável. Mas eu não preciso fechar com ninguém. Sobretudo não preciso fingir que tudo que se diga ou faça contra quem mais se abomina seja aceitável.”

A gente vive em uma sociedade que naturaliza discursivamente preconceitos. É um tal de “chupa, filho da puta, baitola, mal-comida, vá tomar no cu, histérica, vai dar meio dia de cu, biscate, vadia”, e outras coisas assim. Não tem nada de mau em alguém fazer sexo oral. Nem em ser filho de uma prostituta. Nem em trabalhar como prostituta, aliás. Não tem nenhum problema em fazer sexo anal, pode ser uma delícia, seja homem ou mulher. Não tem nada de errado em apresentar uma neurose. Mas tem muita coisa errada em uma sociedade que usa esses termos como ofensa. Tem muita coisa errada em tentar minimizar alguém insinuando, por exemplo, que ele deveria manter práticas homossexuais, como se a pessoa que tivesse esse comportamento fosse menos digno de escuta e respeito. A banalização displicente desse tipo de fala traz, em seu subtexto, a convicção de que algumas pessoas são menos dignas de cuidado e proteção que outras. E a gente, que milita por um mundo menos excludente, tamos ali, dia a dia, dizendo que não pode, não é legal, não, não, não, não. Não pode no estádio de futebol, não pode na mesa de bar, não pode na entrevista de emprego e não, não pode na rede de televisão mesmo contra um político execrável. E isso não significa que estou defendendo sermos complacentes com os políticos execráveis. É possível ser incisivo, direto, firme sem ser homofóbico e sexista. Passar a mão na cabeça, relevar, dizer que é tempestade em copo d´água, isso tudo só mostra como ainda somos adeptos da lógica os fins justificam os meios e/ou aos amigos, os favores; aos inimigos, a força da lei. A Renata Lins alertou aqui: xingamentos moldam ideias, sentimentos, vamos desnaturalizar o pensamento e a reação. Vamos?

10514692_688712994499967_3556146592688112508_n

Mas então, Luciana, vamos levantar a bandeira de homofóbico e jogar pedra no moço que mandou o outro moço procurar uma rola? Olha, eu vejo bem muito filme esquemático, tipo faroeste. É lá eu exercito o joguinho bem X mal. Na vida cá fora, um pouco mais de complexidade cai bem, acho eu. Para além do pensamento e das reações binárias tem um monte de outros caminhos. Como, por exemplo, o que prefiro: achar super legal o resto da conversa e dizer, “mas, opa, isso da rola não”. Sexo é bom consentido e por prazer, não forçado como resposta pra problemas de comportamento e ideologia. Nós e o moço da tv vivemos nessa sociedade. Fomos formados por ela. Isso implica em termos arraigados vários preconceitos. Isso significa que mesmo estando do lado das causas mais justas, mesmo militando contra a discriminação, mesmo querendo construir uma sociedade mais inclusiva e igualitária, a gente vai se valer, vez ou outra, de termos, comportamentos, análises que reproduzem justamente o que queremos desconstruir. Eu super entendo que a gente escorregue. Eu escorrego que só (tenho joelhos ralados pra provar). Mas a gente só sai do lugar reconhecendo os desacertos e fazendo melhor da próxima vez.

A sociedade que a gente quer construir vai sendo construída e determinada pelos meios e ferramentas que a gente usa para alcançá-la. No meu horizonte tem gozo e riso e aceitação. No meu horizonte tem rola sim. Tem gente procurando e achando rola, sim. Tem gente procurando e achando buceta, sim. Tem gente se esbaldando em rolas e bucetas, sim, sim, sim. Não como ofensa. Não como xingamento. Não para horror e espanto alheio. Como festa. E não, eu não acredito que é possível chegar aí sendo complacente com a reprodução de preconceitos, mesmo vindo de quem “tá do nosso lado”. Também não acredito que a gente chegue com a catalogação estática de pessoas (etiquetas com “homofóbico”, “racista”, “classista”, “libfem”) nem alijando aliados. A gente chega é afinando o instrumento, de dentro pra fora, de fora pra dentro. E, claro, com as rolas procuradas, aproveitadas, gozadas, por livre escolha e alegre consentimento.

15592_832980016739930_1577347550655525359_n

Mesa Pra Quantos

Acordar é em lentamente. Não abre o olho, não primeiro. Antes, deixa a ideia se espalhar. Alonga as pernas, faz pontinha nos dedos do pé. Um suspiro de bom lhe afasta os lábios. Sente o pegajoso entre as coxas. O dolorido gostoso no corpo. Gosto de vinho amanhecendo na língua. O cheiro de cigarro em quarto de janelas fechadas. Na sala, um cd em repeat murmura, cansado. Estica os braços e esbarra em lembranças. Move o corpo para a esquerda, tateia lençóis, um corpo. Como um filme antigo mal restaurado, os flashes. Roupas empilhadas. Um pé que esbarra na garrafa de vinho. Língua na orelha. Língua no pescoço. Um corpo que se estende no sofá. Uma boca que chupa um dedo do pé. Uma mão que se encaixa entre coxas. Morder uma bunda. Ser lambida. Tesão. Peles que se roçam. Pernas que tropeçam. Uma boca, um pau, uma bunda, outro pau, um peito, uma axila, um cotovelo, um pescoço, uma barriga, um pau, uma buceta, um joelho, um pescoço, um ombro, uma buceta, um pau. Bocas. Línguas se entrelaçando. Línguas invadindo orelhas, umbigo, cu. Uma mão em um pau, um pau em uma buceta, um pau esfregando em outro pau, uma boca chupando ombros, chupando seios, os seus, os outros, uma mão na nuca, uma mão em outra mão. Dentes. Dedos. Saliva. Um corpo sobre. Um corpo entre. Um corpo fora. Um entra e sai, um aqui dentro, agora, vem, vem. Mais. Um gemido seu em outra boca. Uma mordida quase sangue no lábio. Uma mordida na barriga. Uns olhos abertos, uns olhos fechados, umas pernas abertas, uns braços abertos, uma língua em mamilos, um saco, chupar, sugar, lamber e um dedo lhe tocando firme, rápido, leve, seios roçando em suas costas. O gosto dela em um pau, em um dedo, o suor na sua língua indo pra língua outra. Roça. Penetra. Volta. Ruídos. Risos. Gemidos. Sente um corpo que se estende em suas costas, seios e pau duro, mãos nos seus peitos, um pau que vai e vem na sua boca, mordidas na bunda, nas bundas, mãos viajantes, saliva, suor, o gosto de pele, de pêlo, seu coração batendo no peito alheio, seu sangue latejando no ouvido outrem, unhas cravadas nas costas já não se sabe de quem. Em cima, em baixo, ao lado. Fora. Olha. Uma água? Quero. Vai. Volta. Mergulha entre. Um corpo na frente, um corpo atrás, uma alegria em volta.

café

Sorri, agora já é dia no olho aberto, levanta, veste uma camiseta que não lembra de quem, chuta sapatos no caminho, abre janelas, muda do cd para o rádio, acende o fogo, espreguiça, a primeira xícara fumegante é só dela, gosta dessa solidão matinal, um tempo pra ir se ajustando a ela mesma, dança um pouco, ri um pouco, coloca a mesa pra três, xícara, pão, queijo, manteiga, esse gosta de açúcar, a outra fala baixo e toma café pingado meio encabulada, fé cega, faca amolada, ovos mexidos? ovos mexidos. Na bandeja as frutinhas que só ela come de manhã. Já desperta, repara que ainda cabe pelo menos mais um na mesa do café. Gargalha com a sintonia, é pensar e, no rádio, Roberto Carlos se equivocar na conta:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...