Mais e Menos

Ainda bem menina do juízo ouvi falar de Freud e da ideia de que viver é um estado permanente de incompletude. De que a possibilidade de ser/existir advém justamente dessa impossibilidade de ser-todo que nos estrutura. E para mim isso fez – e continua fazendo – todo sentido. Além, isso me proporcionou uma bem vinda liberdade, especialmente no que tange a relacionamentos.

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Saber que não é possível a metade da laranja, a tampa da panela, o encaixe perfeito, o sapato velho pro pé cansado (qualquer que seja a alegoria preferida), me fez lidar de maneira mais solta com as idealizações, demandas e expectativas tão disseminadas na cultura a respeito do amor romântico.

Não importa o quão bom seja o relacionamento, não importa o tanto que o moço ou moça nos faça bem, não importa o quanto a gente se acerte, se ajeite, se curta, vai ser menos do que o que nos completa (ainda bem). Reconhecer isso geralmente me garante duas frentes:

1) ter a monogamia como algo irrelevante nos meus vínculos: saber a minha incompletude é, também, reconhecer e respeitar a das outras pessoas. Sentir que ninguém vai ser capaz de me completar (inclusive ninguéns, porque não é uma questão de quantidade) me faz lidar de forma leve com o fato de que eu também não sou “o que basta” pra alguém. Que o que falta ao outro, para além de mim, se encontre ora em um disco, em uma caminhada, em um programa de tv ou em sexo onde eu não estou envolvida não implica na diminuição, aviltamento, whatever, do que a pessoa sente e vive comigo.

2) amenizar aquele momento pós lua de mel dos afetos: a gente se encontra, se esbarra, se roça, se enrosca, se encanta, mergulha. A pele arde, o corpo pede, palpitação, falta de ar, deslumbramento. Gozo. Muitas vezes se pensa: agora vai, é essa “A” pessoa. E quando o desassossego encontra o cantinho dele no peito que lhe é de direito (seja primeiro no nosso, seja primeiro no do outro), sem a ideia da incompletude ali na mesinha de cabeceira, a desilusão com a outra pessoa, com a gente, com os relacionamentos de maneira geral cai na cabeça que nem piano em desenho animado da infância.

Lembrar que a impossibilidade da completude é o que nos define e nos possibilita viver me ajuda a reconhecer meu desejo e lidar com ele. Seja para partir em busca do coração em descompasso e da sensação de inebriante bebedeira de um começo outro com outro pequeno vislumbre do encontro perfeito, seja para respirar, puxar o cobertor mais um pouquinho pro meu lado, encaixar no abraço e seguir.

É que, penso eu, não há garantias. Não há escolha certa. Saber o não-toda tem uma beleza silenciosa que é acolher, em antecipações, o que vem. O que faremos de nós. O que nos acontecerá e o que faremos com isso. Vem, vida. Sentir que amor e felicidade não vivem uma relação causal, que felicidade é nas horinhas de descuido, alivia.

Então eu falto, eu falho, eu tropeço, eu manco. Eu não-toda. Buracos. Espaços. Às vezes úmidos de lágrimas. Mal não há, o molhado faz o fértil, tantes vezes. Então o mais, o além, o depois, o também. Então o desconforto, o desassossego, o desmantelo, a demanda. Então o repouso, o morno, a certeza, o descanso. Então os encontros, as marés, as danças, os ritmos. Tudo menos do que. Bonito. Gostoso. O vão, a brecha, o intervalo, lacuna. Os outros. E a voz da Elza Soares no peito:

É Dia de Renata Lins

Hoje é aniversário da nossa bisca Renata Lins e eu vim escrever um post fora do calendário. Extraordinário. Gosto dele ser assim, porque assim combina com ela, que é uma pessoa fora do comum, fora da norma, fora da curva, fora da risca.

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Poderia dizer que a Renata é como o futebol: uma caixinha de surpresas. E a piada seria boa, mas não seria tudo. Como uma taurina da gema ela é segurança, conforto, estabilidade. A gente sabe que pode chegar que vai ter: colo, afeto, calor.

Sabe aqueles bordados que a gente vê e parecem simples? Elegante, bem desenhado, cores definidas, poucos elementos e tal? Aí você chega perto e descobre que arranjo daqueles tem um incrível trabalho por trás, tudo muito sofisticado, intrincado, complexo e diversificado? É ela.

Quando penso em Renata, penso primeiro em corpo: a Renata é em unhas coloridas, em lábios que riem, em mãos que tocam, em cabelos que esvoaçam, em colo que acolhe cores e colares. Em voz. Quando leio a Renata, é como se a escutasse. Sempre foi assim, antes mesmo de nos encontrarmos e eu saber sua voz. Suas letras são concretas, materiais, se fazem próximas. E é engraçado, porque corpo é um lance tão transitório, né, ele muda. Ele está sempre mudando, até que deixa de ser. Deixa de ser um corpo e tudo e tal. E a segunda coisa que penso, quando penso na Renata, é permanência. Ela tem um jeitinho de chegar que parece que sempre esteve. E um jeitinho de ficar que faz sentir que sempre estará. Mesmo no depois de tudo. De qualquer coisa.

É engraçado fuçar os arquivos do blog pra encontrar o dia exato em que ela caiu na rede. Veio com o Wando, foi ficando, a gente enlinhando, ficou. Está. É. O BiscateSC é quem é, do jeito que é, também pela sua constância. Pela sua presença. A gente pode contar. E pela sua imprevisibilidade e sacadas geniais.

Se eu fosse resumir, diria assim: Renata não deixa a peteca cair. E com que graciosidade a mantém em movimento!

Procuro as coisas mais gostosas pra lhe desejar nesse dia e penso em coisas gostosas e lembro dela mesma. Então, que seja: querida, que seu dia seja em renatas. Um aniversário feliz e biscate. Biscatemente feliz.

PS. Essa musiquinha sempre me faz bem. É que nem você na minha vida <3

Nua

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Imagem daqui

Eu gosto de estar nua. Gosto, especialmente, de andar nua. Não foi sempre assim, lembro que com doze, treze anos, pra trocar de blusa na frente de alguém, nem que fosse, sei lá, minha mãe e mesmo que eu estivesse de sutiã, virava as costas pra pessoa. Aí o tempo passou e eu fui aprendendo sobre meu corpo, vivendo sua gostosura, apreciando senti-lo e deixando as roupas cada vez mais tempo em seus cabides. Hoje em dia tenho que me lembrar de me vestir pra sair e muitas vezes assusto as visitas começando a tirar a roupa na sua frente até me tocar e ir pro quarto ou algo assim.

Sim, eu gosto de estar nua pelos óbvios motivos biscates. Gosto de tomar banho, água quente na nuca, espuma na pele, gosto de me esfregar com vagar e deixar o corpo gozar de ser tocado. Gosto de estar nua ao me masturbar. Gosto de me despir na frente do (s) moço (s) e ver seu olho me vendo. Gosto de ir deixando pele nua encostar em pele nua. Gosto de mãos espalmadas no meu corpo. Gosto de línguas umedecendo carne. Gosto do roçar, do calor que vem de dentro pra fora, gosto do suor escorrendo na nuca, dos mamilos endurecidos, dos pelinhos se eriçando.

Mas tem mais nisso de gostar de estar nua, mais do que deixar meu corpo nu em outro corpo nu (e isso não é pouco). Gosto do meu corpo nu por ele mesmo. Pelo que me conta. Pelo que diz de mim pra mim. Gosto de levantar os braços e ver os seios subindo, as aureólas mudando de lugar. Gosto de deitar e vê-los escorrendo pro lado. Gosto de pressionar os braços e ver aquele vale a la espartilho antigão se formando. De olhar minha mão e reparar que os dedos do cotoco são meio curvados pro lado enquanto os outros são tão retinhos. De cutucar os pelos nascendo na perna, macios, alguns encravando depois de uns dias da depilação com lâmina. Não gosto muito do cotovelo, daí todo dia, depois do banho, fico na frente do espelho olhando pra eles um bom pedaço, dizendo pra mim mesma que, ué, são esquisitinhos, coitados, mas são meus. Gosto de colocar reparo se meu tornozelo está caminhando em direção a se tornar membro da família do meu avô ou se é impressão causada pelas coxas grossas. Gosto do meu totó, corcundinha de estimação. Gosto dos inexplicáveis arranhões que consigo fazer nas costas, em uma flexibilidade noturna que nunca consigo repetir acordada. Do sinalzinho de carne que tenho na parte interna da coxa. De fazer ponta e sentir o esticadinho que dá do dedão até a coxa. Gosto.

E de andar nua, já disse né? Tudo isso, mas em movimento. Gosto de sentir o peso alternando de um pé para o outro, a palma toda encostada ao chão. Do movimento da bunda, o sobe e desce. Do peso da barriga, o ondular ao mover-me. Do roçar dos braços nos lados do peito. Das coxas no encontro, desencontro, encontro, desencontro. Do respirar e sentir o ar levinho, fugindo, entre os lábios. Sentir o corpo meio cortando o vento, o tempo, as coisas que o negam ou definem.

Andar nua na frente do outro: bônus.

Ficar nua, estar nua, ser nua na vida. Como metáfora, mas, principalmente, como materialidade. Não ter vergonha. Meu corpo não tem erros, tem história. Estar nua me lembra as alegrias, as dores, os desassossegos, os prazeres, os soluços, o parto, os abraços, a amamentação. Estar nua me conta infâncias de rua, asfalto, quedas e brincadeiras. Estar nua me diz de adolescência em flertes, livros e amassos. Estar nua me recorda amores, rugas, rusgas, encontros, viagens, praias e cobertores e risos e riscos, cicatrizes, caminhadas, repouso em camas e corpos outros. Envelheci. Engordei. Enruguei. Eu. Estar nua me lembra que o aqui é tudo que sou, que me fiz ser, que pude me fazer. Queria contar isso para vocês: é bem bom estar nua. É bem bom estar.

Eu gosto de estar nua.  E vocês?

 

Festa de São João

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Eu sempre cantarolei Foguete. Porque eu nem acredito, mas já te sabia em mim. Ou quero acreditar que sim. Por enquanto. A fogueira na pele. As cores. O balanço gostoso. Cantarolo com mais vigor. Desafino. Rio. Um quase rodopio e me deixo quieta num sorriso, há certas belezas que se pedem discretas, uma mulher e um segredo. Então, abro as janelas e aqueço o peito pro abraço. Azul é o dia em antecipações. Pode-se viver no quase e é quase o bastante. Refogo cebolas, para que o cheiro seja de intimidade. Um dia aprendi: é preciso abrir o apetite. Afofo as almofadas e estico bem o lençol da cama. A saudade faz barulho, reconheço, com surpresa, o peito em descompasso. Se eu tivesse a coragem de morrer de amor, encheria a casa de flores, penso, corro ao espelho e tento reconhecer-me. Não tenho sequer a vontade, prefiro viver o bom. Estendo no banheiro a mais colorida das toalhas para compensar. Arrasto os móveis, diz a Bethania na radiola, faço eu, é preciso espaço para o desejo. Varro a casa com vassoura fina, faço eco com as canções. Foram elas que me ensinaram sobre o que desejo. Enquanto me dispo, te respondo em pensamento, eu sei, eu sei, não é vitrola, é cd e é no computador, mas me deixa ser antiga, e quase vejo o sacudir nos ombros e os olhos espantados. Que a gente não saiba o outro ainda me encanta e assusta. De quem você gosta, se sabe tão pouco de mim, já pensei em perguntar, desisto sempre porque vislumbro a sombra dolorida que mancharia seus olhos. Esses olhos em que mergulho e dos quais desconheço a cor, se fosse preencher uma ficha… de que cor são os olhos? Morno. Cor de voltar pra casa. Cor de lua crescente. Cor de doce de caju. Cor de maresia. Morno. Teu olho é morno. Gosto do barulho da água corrente. Deixo o quente da água embaçar espelho e pensamentos. Me umedeço pra você. Shampoo de manga, sabonete de maracujá, quem precisa de metáfora? A escada te antecipa. Aproveito, de olhos fechados, os ruídos que mais adivinho que escuto: chave, maçaneta, mochila no chão. As mãos ávidas, a pele arisca, as roupas desnecessárias. Uma vida assim: feito festa de São  João.

Nem Tão Silenciosa Assim

Porque nos reencontramos, reencontrei o desejo que eu já nem sabia. Você falava e eu quis, como na canção, rodar as horas pra trás e ficar no tempo em que eu vadiava em seu dizer. Mais: em que seu dizer vadiava em meu corpo. E não só ele. Voltar a uma tarde que não ficara, em mim, tão silenciosa como eu imaginava.

Trouxe o desejo pra casa, comigo. Como quem sabe o bom, esperei deitar-me pra sentir o querer inteiro. Queria sim. Queria assim. Queria, outra vez, essa risada que me distrai, assim, pertinho, ao pé do ouvido. Fazer reais, úmidos e curiosos os beijos educados que se espalham nas palavras que trocamos. Sem nenhum talvez, confesso: queria renovar o estoque de vinho. Queria voltar a saber mãos, pele, olho. Língua, queria sabê-la. Queria aquela força com que me colocaste de bruços no sofá. A mordida, queria. Queria que você sentisse agora, como eu sentia – mesmo ali, naquele espaço tão cheio de gentes e assuntos outros – que as roupas nos atrapalhavam, como sentimos antes. Queria o dedo duro molhando-se na minha cona. Queria os apelidos engraçados que no esfregar das peles se fizeram tesão. Queria ter a boca ocupada de você. Queria outra vez aquele choque de te ter percorrendo sem dúvida o que eu nem pensava que viesses a demandar. Queria aquela dor que gozei, cada vez mais e cada vez melhor. Queria o peito molhado da tua agonia quase riso. Queria o sem jeito do depois. Os olhos enevoados. O sutiã na maçaneta da porta. O telefonema antecipado. O adeus apressado. O banho corrido. E a rua, aquela esquina e tanta vida que seria.

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Do Que é Preciso ou Pollyanna, Eduardo e Outras Crianças

Se o Pequeno Príncipe não é muito bem visto, imagine a Pollyanna. Paciência, é com eles que sigo. Mas o que a Pollyanna veio fazer no meio da biscatagem? É que tenho lembrado muito dela e do seu jogo do contente. O jogo do contente consiste em procurar ver uma situação desfavorável por um ângulo mais animador. Pollyanna passa o livro inteiro ensinando esse jogo para todas as pessoas que conhece, procurando facilitar-lhes as vidas e garantindo que é mais gostoso viver desse jeito. Aí um dia morre uma pessoa e o amigo dela diz: olha, pelo menos a gente tal e tal (não lembro o que é, se é ficar sem ir a escola ou algo assim). E a Pollyanna explica que o jogo do contente tem essa ressalva, excepcionalmente não funciona no que tange a mortes. A morte é pra ser vivida completa e absolutamente. É preciso sentir o quando, o onde, o porquê. É preciso saber a perda. É preciso sofrer a perda. É preciso chorar a perda.

Não há nada que justifique desviar os olhos da morte do menino Eduardo Ferreira Calei. Não há nada que justifique não acrescentar: do assassinato. Não há nada a aprender. Nada a tergiversar. Nada a amenizar, a minimizar. O menino Eduardo Ferreira Calei, dez anos, foi assassinado. É preciso saber: assassinado. É preciso sentir: uma criança foi morta porque morava em uma favela, era preto, pobre. É preciso chorar porque não sabemos o bastante, não sofremos o bastante. É preciso saber: não foi o único. É preciso sofrer: jovens pretos pobres são mortos apenas por existirem. É preciso engasgar em choro: nós somos cúmplices. Não há horizonte possível, não há humanidade possível, não há jogo do contente possível: o menino Eduardo Ferreira Calei foi assassinado. Ele era, não é mais. E nós, nós todos somos menos, por isso.

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Política de Extermínio: crianças mortas vítimas da violência no Rio entre 2007 e 2009 – Levantamento Rio de Paz

Nem Mais Nem Menos

Essa quinzena, lembramos o dia internacional da mulher do nosso jeitinho biscate: luta, celebração e inquietação, tudo junto, arfante e misturado…

 #nãomedeemflores #diainternacionaldamulher

Nós passamos essa quinzena aproveitando o mote do Dia Internacional da Mulher escrevendo com recortes, olhares e abordagens variadas. E, acho, variadas é um termo importante. Penso que ver o Outro, respeitar sua alteridade e conviver com ele é um bom caminho pra uma sociedade com menos dor.

Na escrita (e na leitura, né, por que não?), com algum esforço, vamos sendo (e não me refiro especificamente, agora, a esse blog, mas as pessoas que militam à esquerda e nas frentes de luta de minorias) um tantinho mais inclusivos. Abandonamos ou tentamos abandonar, as generalizações que tornam invisíveis as pessoas que não correspondem ao padrão que ocupa nosso imaginário. Já não escrevemos: “as mulheres” porque sabemos que esse termo não contempla a variedade de pessoas que assim se identificam. “As mulheres” costuma acolher, de maneira geral, brancas, jovens, cisgêneras, magras, sem deficiência. Não somos todas assim, sabemos e escrevemos: mulheres negras, mulheres trans, mulheres velhas, mulheres gordas, mulheres com deficiência, mulheres pobres.

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Eita, Luciana, mas pra que tanta picuinha? O tempo que tu leva só pra escrever esse tanto de mulher isso e mulher aquilo já dava pra estar tratando dos temas realmente importantes. Então, pra mim e pra várias mulheres que não se vêem nem são vistas no espectro “as mulheres”, visibilidade, escuta, representação, reconhecimento são realmente importantes. De maneira geral, aliás, as pessoas, as mulheres, que menos se questionam sobre a necessidade de sim, nomear as diferenças, são aquelas que menos diferenças apresentam em relação ao padrão. Penso eu que, talvez, seja porque reconhecer (e a seguir, tentar abrir mão de) nossos  privilégios é difícil, mesmo (ou especialmente?) para quem tem poucos. Por isso muitas vezes, quando se aborda questões específicas, ora de mulheres negras, ora de mulheres com deficiência, muitas vezes ouvimos que é muito drama, exigência demais, demanda de perfeccionismo, etc. Porque não nos sentimos implicados na desumanização que promovemos, como sociedade, quando naturalizamos discursos e comportamentos excludentes, muitas vezes por causa de uma causa principal, necessidades prioritárias, um bem maior (e, como eu já disse, estou fora de Bem Maior).

E digo que não conseguiremos sair dessa espiral de exclusão sem escuta. Porque mesmo as pessoas que tentamos e escrevemos e talz, pisamos na bola. Porque, repito sempre, não é que sejamos (de forma estanque, cristalizada) transfóbicas, capacitistas, racistas, machistas, gordofóbicas, etc. É que nos construímos sujeitos em relação e a sociedade é estruturada de forma racista, capacitista, machista, gordofóbica, transfóbica, etc. E nós internalizamos e reproduzimos. E isso naturaliza e/ou invisibiliza uma série de dores.

Esses dias uma mulher contou como fez para escapar de uma situação de desconforto originada no comportamento machista: o assédio na rua. Narrou  que para deixar de ser assediada simulou uma expressão facial que ela chamou inicialmente de careta e, a seguir, disse que parecia que ela tinha uma doença ou uma deformidade. E aí, segundo a narrativa, os homens passaram a desviar o olhar e ela não se sentiu mais intimidada. Se você não encontrou o erro, se não sentiu o travo na boca, é disso que estou falando: de como somos forjados pra ignorar as dores dos que nos são diferentes. A mulher se sentiu menos ameaçada, menos assediada. Que bom pra ela. Mas não é bom que ela conte isso como uma vitória e, principalmente, acho eu, não é nada bom que pessoas militantes, grupos feministas aplaudam e disseminem o texto e a “estratégia” como válidos. Esse discurso é ofensivo para mulheres com deficiência de várias formas que nem sei dizer (e, aqui, não é um recurso de linguagem, não sei mesmo, reflito e imagino algumas nuances, mas quero mais é ouvir, ler, saber sobre o que elas pensam, por isso perguntei, por isso estou procurando mais). Uma delas é invisibilizar que assédio e suas gradações de violência, incluindo o estupro, não são situações apenas relacionadas à atratividade mas também – e muitas vezes preferencialmente – à vulnerabilidade. Este tipo de discurso esquece que pessoas com deficiência são vítimas também. Faz um eco doloroso, inclusive, com a piada do estupro de mulher feia é praticamente um favor. Não é. Outra coisa que me ocorre é que o pareamento “simulei uma deficiência = não sou mais assediada porque me tornei repulsiva ao olhar” é violento porque nega às pessoas com deficiência o potencial de causador de desejo. Criticar esses discursos não é desqualificar as pessoas que eventualmente os reproduzem, mas questionar porque aceitamos essas distinções, porque não nos inquietamos, porque não amarga na boca. Não estou querendo minimizar o desconforto da mulher que narra sua vivência de assédio, mas questionar de que lado a corda está rebentando.

A nossa sociedade e seus valores estruturantes nos ensinam que existem pessoas que são mais pessoas que outras. Existem pessoas e corpos que são mais. Mais adequados. Mais ajustados. Mais aceitáveis. Mais desejáveis. Mais amáveis. Essas pessoas podem mais. Merecem mais. O quê? Olhar. Proteção. Segurança. Apoio. Desejo. Narrativas complexas. Essa sociedade que faz uma cadeira estreita nos aviões e as pessoas, as mulheres gordas que emagreçam. Essa sociedade que diz “se vista como alguém da sua idade” e as mulheres velhas que se virem pra entender que seus corpos não merecem mais ser vistos. Essa sociedade que patologiza as pessoas transgênero e as mulheres trans que se escondam, se mascarem, se disfarcem para não serem mortas. Essa sociedade que questiona a legitimidade da autonomia e escolha da mulher pobre (olha aí, ganha o bolsa família pra comprar calça jeans de marca). Essa sociedade que dissemina “cabelo duro”, “cabelo ruim”, “cabelo de Bombril” e as mulheres negras que se virem para resgatar sua auto-estima e para protegerem suas filhas desse ataque constante e insidioso.  É essa sociedade, em que estamos e reproduzimos, que se estrutura para marginalizar e, preferencialmente, apagar, as mulheres com deficiência. Elas são menos, aprendemos. Menos potentes (e aí cada história de “superação” nos leva lágrimas aos olhos – porque estava subentendido que não era pra elas conseguirem, claro, sem essa suposição a comoção não se daria). Menos adequadas (aos empregos, ao lazer, ao olhar). Menos ajustadas (como se a sociedade fosse um dado da natureza, como se a escolha de fazer escadas e não rampas, por exemplo, não fosse uma construção social, política e cultural). Menos aptos ao desejo (além da suposição de que as pessoas com deficiência são “repulsivas” como na narrativa mencionada, também temos os discursos que infantilizam ou des-sexualizam suas demandas). Menos amáveis (e pululam suposições que “fulano só pode estar com ela por pena” ouveja essa mulher tão jovem sacrificando-se e casando com o namorado que teve aquele acidente horrível).

Se eu tenho uma utopia é essa: que as pessoas não sejam mais nem menos. Que as mulheres não sejam mais nem menos. Que sejam vistas, ouvidas, desejadas, amadas, acolhidas em sua diferença e especificidade. Que nos libertemos do “tem que” e passemos a usar mais o verbo poder como opção e potência. Que o tempo e o espaço que passamos escrevendo, descrevendo, incluindo mulheres negras, mulheres trans, mulheres velhas, mulheres gordas, mulheres com deficiência seja um reflexo da nossa escuta e um aspecto consistente da nossa militância.

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Eu estava escrevendo esse texto e vi a tradução de um discurso da Shonda Rhimes que me comoveu e que trata de assuntos relevantes de uma forma com o qual me identifico. Diz ela, entre tantas lindezas:

“Você deveria poder ligar a TV e ver sua tribo. Sua tribo pode ser qualquer tipo de pessoa, qualquer um com quem você se identifique, qualquer um que sinta como você, que sinta como familiar, que sinta como verdade. Você deveria poder ligar a TV e ver sua tribo, ver sua gente, alguém como você lá fora, existindo. Para que você saiba no seu dia mais escuro que quando você corre (CORRE metafórica ou fisicamente) há um lugar, há alguém para quem correr. Sua tribo está esperando por você.

Você não está só.

O objetivo é que todo mundo possa ligar a TV e ver alguém que se pareça consigo e que ama da mesma forma. E, igualmente importante, todo mundo deveria poder ligar a TV e ver alguém que não se parece consigo e que não ama da mesma forma. Porque assim, talvez, essas pessoas aprenderão com essas personagens.

Assim, talvez, não irão isolá-las.

Marginalizá-las.

Apagá-las.

Talvez elas irão até mesmo se reconhecer nessas pessoas.

Talvez elas até aprendam a amá-las.”

Tenho cá pra mim que esse é um dos caminhos: ver mais, ouvir mais, saber mais. Amar mais.

Uma estrada em amarelo

Totó, acho que não estamos mais no Kansas.

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Uma coisa que eu tento não esquecer é que a vida está menos para uma sequência linear e progressiva de eventos do que para um caleidoscópio de vivências. Os momentos vão e vem e as pessoas são em suas diferenças, belezas, divergências, limitações e encantos. Eu sou intensa. Teimosa. Nem sempre respeito os argumentos contrários. Muitas vezes eles me causam raiva, vergonha pelo outro, aversão, etc. Mas tento sempre respeitar quem os emite. Porque, tento me lembrar, a pessoa é mais do que aquela ideia emitida naquele momento, daquela forma e a vida é mais e mais complexa que aquela desavença. Eu gosto da diversidade. Dela toda, não só da diversidade com a qual eu simpatizo. Então, faço o que posso. Um pouquinho mais perto do que sonho, espero. Um passo: as delicadezas no cotidiano. O olhar generoso. O gesto afetivo. O riso. Desmantelar as estruturas pelo prazer.

Procuro belezas, coleciono-as pra me lembrar: o bom, o belo, o justo, é isso que faz civilidade. Em pequenas pedras amarelas, reconstruo minha estrada. Eu choro, enterneço-me. E rio tão de leve como se tivesse desaprendido. Procuro palavras em mim e elas se amontoam como pira. Eu ardo. Mas faço soar música e há amanhã. Tenho gostos. E sou grata. Grata por todo momento que não é só dor. Grata. Pelas coisas pequenas, tão pequenas como o riso da menina vizinha, alegre em seus 2 anos de correr atrás de um gato. Seu grito alegre me atravessa. É bom. Grata pelas amizades, pela conversa fácil, pelo abraço morno, pelo riso solto. Grata porque o mundo que quero construir já vai sendo, em pequenos tijolos, em pedacinhos de estrada, em fragmentos. Momentos.

Sou grata por haver, ainda, pessoas no trabalho, gente fazendo sexo, meninos atirando de estilingue, idosos de mãos dadas em praças, partos, aniversários. Sou grata por haver, sei lá, a Austrália, e tanta gente que não sabe de mim. Sou grata porque a vida segue e não me espera. Sou grata porque, assim, nesse lugar de desconhecida, não preciso saber tudo, dizer tudo, me posicionar sobre tudo. Não preciso ter certezas nem verdades. Posso calar. Sumir. Descansar. Ouvir. Acolher. Aprender. Mudar.

Sou grata pela dinâmica, pela plasticidade, pela possibilidade. Pelas mudanças que podemos ser. Que podemos viver. Sou grata pelas pessoas que conheço com intimidade e pelas que  cruzo uma só vez na rua e que sorriem, tímidas ou expansivas. Sou grata pelos que já foram e pelas pessoas que serão. Sou grata porque ser humana é estar. Pela finitude que me permite saber-me. Sou grata pelo tantinho de paciência que o tempo construiu em mim.

Sou grata por esse blogue, pelas pessoas que o escrevem, pelas pessoas que o lêem, pelos olhos e mãos desconhecidas que o divulgam. Sou grata por ele ser bebedouro de riso, alento, alimento. Sou grata por escrevermos assim: desejo, tesão, sexo, liberdade. Sou grata pelas perguntas. Pelas respostas que não temos. Pelas estradas que são muitas. Sou grata por dizermos: quero e mais. Sou grata por não escolhermos o caminho da resposta ácida, da pedra dura, das turbulências que separam. Por acolhermos nossos limites, fragilidades, mudanças. E por nos sabermos, ainda assim, gostosos, ávidos, disponíveis e interessantes.

Sou grata pela biscatagem. Biscatear amarela as pedras com que (nos) fazemos estrada. Biscatear avermelha os sapatos. Biscatear é nosso mágico de Oz particular, por aqui encontramos elementos com o que pensar, coração para sentir, coragem para resistir. Biscatear é ser nossa própria casa.

Grata pelo bonito que me diz: o humano também pode ser em ternuras. Obrigada. Porque eu quase esqueci. Uma pedra amarela de cada vez, reconstruindo a humanidade em mim. O mundo precisa de beleza. Eu preciso. Obrigada, você, que nem sabia do árido que era meu aqui dentro. Cada palavra de afeto, cada gesto de gentileza, cada pequena delicadeza, cada afago, cada gozo, cada gosto. Chuva. Humanidade. Esse caminho que fazemos biscateando. Mais uma pedra. Amarela, por favor.

Não Pode ou Um Dedo Sempre a Postos

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Não pode sentar de perna aberta.

Não pode dar de quatro.

Não pode andar de roupa curta.

Não pode gostar de ser chamada de cachorra na hora do sexo.

Não pode trepar sem ser casada.

Não pode estar em um relacionamento hetero e se sentir bem.

Não pode ter sexo casual, é coisa de vadia.

Não, não pode mesmo ter sexo casual, é coisa de mulher que agrada ao patriarcado sem saber.

Não pode sair sozinha pra beber.

Não pode estar em uma relação a três, a quatro, a muitos.

Não pode ter pau.

Não pode esconder seu pau e “fingir” ser mulher.

Não pode não ter peito.

Não pode colocar peito.

Não pode esquecer de cuidar do seu corpo.

Não pode ter prazer em mudar o seu corpo.

Não pode gostar muito de sexo.

Não pode gostar de dar o cu.

Não pode tocar sua buceta.

Não pode tocar o cu do parceiro.

Não pode gozar.

Não pode querer agradar.

Não pode gostar de dominar na cama.

Não pode gostar de ser submissa na cama.

Não pode gostar de variar, inclusive, quedê sua coerência?

Não pode, não faça, não pode, não seja. Escolha sua cartilha e se atenha a ela. Não, seu desejo não é desculpa. Não, sua vontade não é motivo. Não, seu querer não é legítimo. Estamos todos prontos pra te julgar. Lá e cá. Todos os dedos prontos pra apontar. Ei, pera, o que você está fazendo com meu dedo apontado? Para já de chupar meu dedo. Para, para de lamber meu dedo, assim, assim, sugando, chupando, mordendo. Para, para de se esfregar no meu dedo, ai, ai, para de enfiar gostoso meu dedo na buceta molhada, assim, um, dois, roça, roça, mais, mais…

Ela, Ele

coragem

Era uma vez uma coragem. Tantos contrários. O dia e a hora. Ele, menino ainda. Ela, já tanto. Ele, reserva. Ela, escândalo. Ele, pensamento e ela, um grito. Ele, a caminho. Ela, a própria estrada. Não era tempo, sabia-se. Porque eram deste tipo: de saber. Pensavam, claro. Ela dizia: não, não, não, em noites de querer tanto. Ele? Ela não adivinhava, mas ele dizia os miúdos e se perdia nela, sempre. Ela, rubor. Ele, velho tênis e calça desbotada. Não era agora. Claro que não era. Apesar das flores e das letras tantas. Ele, olhares distantes. Ela, olhares pra dentro. Mas, se havia o querer. E havia. E havia. E tantas palavras fazendo carícias. E letras como línguas. Ela se pôs a caminho. Ele se pôs, apenas. Em esperas? O branco macio do abraço quase ofusca. Ela não diga que não se assustou. Pois sim, quase corria. Mas era uma vez uma coragem e ela ficou. Ele, arisco. Ela, esquiva. Não era lugar. Mas havia o querer. E havia mão que encontrava outra. Não pode. Não deve. E o querer? Havia. E mãos que viravam bocas e também se sabiam. Queriam. E havia ainda o refúgio das palavras e eles faziam de conta que. Que não era nada. Que não era demais. Que não era querer. Que não era. Era uma vez. Uma vez não conta. Era uma vez. Uma vez não conta. E seguiram. Como se nada. Como se não tivesse existido a coragem. Mas as estradas ficaram mais largas. E os caminhos mais curtos. Ela, mais menina. Ele, mais um tanto. E a distância virando pergunta. E a pergunta virando desejo. E o desejo, de novo, coragem. A coragem pede andança. Nem sempre ela vai, às vezes ela é o próprio atalho. E se despe, lenta, peça por peça, enquanto escreve, descreve. Ela, nua. Ele?

Rabo

Uma coisa que ela gosta: o cheiro na cama. Nos lençóis remexidos pelo sexo que se dorme a seguir. Odor do esperma. Do liquido morno que saiu da sua buceta em gozo. Suor, suor, suor. Saliva. Enfia o nariz, inspira a lembrança, exala desejo. Seu corpo vai acordando. Querendo. Ela se mexe e sente o corpo dele encostado em suas costas, o respirar compassado, a mão descansando embaixo de um seio. Ri um pouco, ele só com a camiseta do pijama, ela mesma nua. E tantos lençóis. Depois da cama, o mundo, o frio, o dia. Mas ainda não. Agora não. Agora ela esfrega a bunda nele. Roça, roça e sente. O pau lateja. Bom. De novo. Ele resmunga. Ela empurra a mão dele pelo corpo até que chegue entre suas coxas. Dedos entrelaçados brincam com seus pelos, separam os lábios, enfiam-se no úmido. Um gemido, ela não está bem certa de quem. Mexe o corpo pra facilitar o acesso. Mais fundo. Mais molhada. Os dedos, mais despertos que o resto dele, brincam. Passeiam. Tocam. Esfregam. Ritmo. A outra mão, como ignorante do que a direita faz, belisca os mamilos que alcança. Ela estende os braços sobre sua cabeça e puxa a dele pra si. Me lambe. Me morde. Ele lambe, do ombro ao pescoço. Morde a orelha. Volta ao pescoço alternando beijos, mordidas e pequenos sopros. Ela empina a bunda contra o pau duro enquanto impulsiona o tronco pra frente. Ele aproveita pra chupar, firme, suas costas. Ela sente tudo, o roçar áspero nos seios, a língua provando a pele, o pau pressionando o rabo, os dedos no vai e vem, dentro, mais, forte, sim, sim, sim. Pequenos estremecimentos. Ela arqueja, respira pela boca, os olhos mais abertos, o corpo mais mole, a buceta em pequenos espasmos. Prazer. Não há dúvida, agora, que estão acordados. Excitados. Ela sente o corpo entre a satisfação e a fome. Mais? Mais. Em um movimento ao mesmo tempo íntimo e brincalhão, ele enfia os dedos mais fundo e depois os retira, devagar, esfregando o molhado da buceta ao cu. Ela aproveita a posição do corpo, pernas entrelaçadas, quadris se esfregando e troncos distantes pra inclinar-se ainda mais em direção à gaveta da mesinha de cabeceira. Camisinhas, camisinhas, ela sussurra, eles riem, creme também – ele diz. A voz, as palavras, os sentidos implícitos, tesão, tesão, tesão. Ela pega a camisinha, não rasgue com os dentes, ela sempre se diz, mesmo que esteja com pressa, com vontade, ah, que vontade de ser enrabada. Agora é a intimidade construída e repetida feito movimento, camisinha que colocam juntos, o creme com que ele a prepara, as mãos levantando as nádegas, afastando, devagar – ele diz, sim, devagar – ela concorda, mas empurra o corpo em direção ao dele. Ele geme, o pau ocupando os espaços apertados que se moldam conforme o avanço. É quase dor, só não sabem de quem. Sabem tão pouco naquele momento. Quase não sabem a música que começa, repentina, no rádio despertador. Quase não sabem os ruídos abafados de alguém acordando no apartamento superior. Quase não sabem o sol sem calor que atravessa as cortinas. Quase não sabem os lençóis em desalinho já desnecessários. Sabem o gosto de pele, sabem os sons dos gemidos, sabem pedaços do outro entrevistos nos movimentos. Sabem em mãos que puxam, empurram, exploram, apertam, esfregam. Sabem em ritmo, suor, sons dos corpos que se atritam e se encaixam. Sabem em tesão no pau que lateja no ir e vir de ocupar o rabo e no rabo que se abre em aceitações. Ele para. Respira mais fundo. Ela geme um pequeno protesto, ele volta a deslizar as mãos sem rumo pelo corpo dela. Ela suspira. E se mexe. Mais. Assim eu vou gozar, é ele que protesta, como quem gosta. Ela firma as pernas segurando as dele, move o braço pra trás e crava as unhas na bunda dele, faz do corpo um arco, onde os pontos de encontro são o quadril e o pescoço – que ele suga já meio fora de ritmo. Eu te sinto. Duro. Dentro. Assim? Assim? Sim, sim. Vem forte. Vem mais. Goza. Goza. Goza. Gozam.

rabo

Sexo, Idade e o Absurdo

Há um momento em “E o vento levou” em que o galã, Reth Butler, meio agoniado de não conseguir a atenção da não tão mocinha Scarlett, pergunta: “Você já pensou em casar só pela diversão?” e ela, entre surpresa e desiludida, responde: “Besteira, diversão é só pra homens”. Vejam bem, essa fala veio de uma personagem mulher em um filme que retrata a Guerra da Secessão Americana e o período logo a seguir, ou seja, por volta de 1865. Uma mulher, nessa época, seria educada pra reprimir seus desejos, pra subestimar seu prazer. Além disso ela foi casada primeiro com um moço demasiado jovem e inexperiente e posteriormente com um personagem mais velho e aparentemente não muito atento a satisfação da esposa. Nada mais razoável do que uma personagem assim considerar a diversão e o prazer do sexo como exclusivos dos homens. Pra sorte dela, o moço Reth a ajuda a perceber que essa idéia é um equívoco e que devia ter gozo pra todos os envolvidos no rala e rola.

Desde 1865, vamos combinar, muita água já passou por baixo da ponte, tivemos o Relatório Kinsey, a pílula anticoncepcional, tem gente cantando alegremente: “a porra da buceta é minha”, a Marcha das Vadias está na rua, o aborto é legalizado em vários países, há uma compreensão maior do papel do clitóris no orgasmo, tem muita gente envolvida na busca do Ponto G, já se fala em pornografia direcionada às mulheres e por aí vai. Temos até um blog que tem BISCATE no nome, né? Dá pra imaginar que a fala da Scarlett, “diversão é só pra homens”, está totalmente superada, não? Claro, a gente sabe que sempre tem um ou outro mais antiquado, mas as pessoas bem informadas já ultrapassaram isso… Bom, detesto partir o coração de vocês, mas não, não superamos não.

Se tivéssemos superado não teríamos uma decisão, vinda de um Supremo Tribunal de um país teoricamente de Primeiro Mundo, “europeu e esclarecido”, deliberando que uma indenização destinada a uma mulher (por conta de um erro médico que a impede, entre outras coisas, de trepar) deve ser reduzida porque, ATENÇÃO, sexo não é uma coisa relevante para uma mulher de 50 anos. Eu reli pra ter a certeza de que não tinha entendido errado. Mas é isso mesmo: juízes decidiram reduzir uma indenização a ser paga por um hospital por causa de erro médico porque, no entender deles, mulher de 50 e tais anos não tem que ficar de saliência, afinal, nem vai ter mais filhos mesmo. MAS, GENTE, QUE ANO É HOJE?

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Leiam e chorem, amiguinhos: “O Supremo Tribunal Administrativo reduziu o valor da indenização que a Maternidade Alfredo da Costa tem de pagar a uma mulher que ficou impedida de voltar a ter relações sexuais com normalidade depois de ali ter sido operada há já 19 anos. Um dos argumentos invocados pelos juízes, com idades entre os 56 e os 64 anos, é o de que a doente “já tinha 50 anos e dois filhos”, isto é, “uma idade em que a sexualidade não tem a importância que assume em idades mais jovens, importância essa que vai diminuindo à medida que a idade avança”.

Tal decisão traz, inequivocamente, uma visão utilitarista da sexualidade feminina. Sexo, pra mulheres, deve ser para procriar. O corpo feminino serve, a princípio, a terceiros. Como incubadora, prioritariamente. Ecoa a fala da Scarlett: Diversão? É só para os homens. Como bônus, temos a acompanhar mais um elemento da visão machista sobre a sexualidade feminina: uma mulher não é pra se dar ao desfrute, imagine uma mulher velha! Afinal, sexo é uma coisa para corpos femininos jovens, que possam ser devidamente objetificados. Além de incubadora, um objetivo secundário: ser parque de diversão pros homens. Bobagem nossa achar que sexo tinha relação com o prazer que a pessoa, em seu corpo, com formato e idade que tivesse, podia obter no processo.

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Depois de ler essa notícia que me chocou, entristeceu e revoltou, fui fuçar no google. Sabe como é que é, coloquei, em diversas combinações, as palavras: sexo, mulher, velhice (só façam isso em casa se tiverem o estômago forte). Não, o choque, a tristeza e a revolta não foram embora. O que eu li foi uma sucessão de textos que naturalizavam, justificavam ou mesmo preconizavam a redução da vida sexual das mulheres com o passar dos anos sem nenhum questionamento do papel da cultura, da mídia, dos valores nesse processo (não estou falando dos artigos acadêmicos, mas de matérias de portais, posts em blogs e sites ditos femininos). Nenhuma interrogação. Alguma lamentação, muito conformismo, uma e outra dica. E, na minha cabeça, um monte de temas completamente ignorados nas publicações. As mulheres mais velhas fazem menos sexo  e, muitas vezes, quando o fazem, não aproveitam nem se satisfazem e isso não causa nenhuma coceirinha no juízo de vocês? Tipo autoimagem, autoestima, padrões de beleza, a mitificação da mulher como ser sem desejo, a supervalorização da relação entre sexo e amor para as mulheres, o desconhecimento do próprio corpo, a pouca prática da masturbação, a vinculação entre sexo e procriação… nada disso, sério mesmo, é sequer mencionado quando se fala em sexualidade feminina na terceira idade? Só diminuição da lubrificação, desconforto e bola pra frente, tem outras atividades que podem ocupar o tempo? Pronto, pra que falar mais sobre o assunto?

Então, eu não sei vocês, mas eu pretendo falar muito sobre o assunto. Perguntar. Me indignar. E continuar afirmando, em palavras e ações (de preferência mais ações que palavras #intençõesbiscates), que a relação entre idade e sexo não deve ser necessariamente de “quanto mais A, menos B”, seja em quantidade, qualidade ou, mesmo, vontade. Nossa sociedade imediatista, focada na juventude, machista, cristalizou a ideia de que as mulheres, ao envelhecerem não são mais desejáveis (e, claro, nunca desejantes, a não ser que sejam essas, essas, essas…biscates, que não se dão ao respeito) e é essa ideia que, acho eu, precisa ser desconstruída pra que absurdos como a decisão do Supremo Tribunal Administrativo português não continuem sendo regra no nosso cotidiano.

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PS. Para além do sexismo clamoroso eu suspeitava que a decisão compreendia, também, um forte componente de classe. Ali, escondidinho discretamente na matéria, temos a informação de que a vítima do erro médico era uma empregada doméstica. Sem mais elementos, não coloquei esta discussão no meu texto. Os elementos surgiram, (ieba) nesse texto que nos dá ainda mais pra pensar, “O sexo e a idade” de João Taborda da Gama: “em 1998, um “administrador de empresas” retirou a próstata na sequência de uma biopsia ter revelado cancro. Afinal não havia cancro nenhum e, além do susto, o “administrador” ficou incontinente e impotente. Ao senhor “administrador” “com quase 59 anos”, o tribunal atribuiu, em 2008, 224 500 euros de indemnização. Ainda há três meses o STJ fixou em 100 000 euros a indemnização a um homem “social e financeiramente bem-sucedido na vida” que, num caso idêntico, ficou incontinente e com as ereções reduzidas a 60%-70%. Tinha 55 anos. Quando uma vida vale em média 65 000 euros nos tribunais, a filosofia judicial é clara: antes morto que mortiço. Os tribunais sabem bem o valor do sexo depois dos cinquenta, mas sobretudo para homens que estão bem na vida. Na cabeça dos tribunais, um homem rico e uma mulher pobre são mesmo pessoas de sexo diferente.

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