Marielle, Anderson e o Brasil com “s”

Há, no assassinato de Marielle e de Anderson, uma dimensão que não podemos esquecer.

As duas mortes simbolizam, acima de tudo, a morte de um Brasil, com “ s “. Um Brasil negro, periférico, pobre, que luta, sorri, cria filho, trabalha, dança, faz política.

Esse Brasil é odiado por um outro Brazil, com “ z “. Um país vassalo, aculturado, branco, iludido com a concessão ao café da manhã. Mas este Brazil com “ z “ odeia também admitir que odeia o Brasil com “ s “. E finge ser. Finge que a empregada doméstica é da família, finge que “office boy” tem a oportunidade e que não a aproveita por responsabilidade própria, finge que não se incomoda com o FGTS do empregado doméstico, finge que os vestibulares selecionam os mais aptos, independentemente do trajeto anterior. Finge, porque no fundo no fundo tem vergonha.

Odeiam, outros, este Brasil com “ s “ por sadismo. Uma estranha máquina de ato reflexo o faz ter um gozo com a desgraça de quem não consegue, considerando que conseguiu algo por ser melhor que o outro. Num mundo onde haja flanelinha no farol há sempre aquela satisfação do ego: eu venci e ele, não. Independentemente da miséria que é este “vencer”.

Odeiam, outros e muitos, porque tem medo. O medo, sabemos, é uma praga que se prolifera na água: medo do gozo, medo do amor, medo da entrega, medo do torpor, medo de perder o emprego, medo de ser igual. Nasce deste medo o fascista. O fascista odeia o Brasil com “ s “.

Sugiro, sempre e sempre, que essa gente que odeia o Brasil, com “ s” , que ouça Argemiro Patrocínio, Nélson Sargento, que beba cachaça, que ame sem roupas, que leia Machado, Ferrez, Mano Brown, que coma dobradinha, que cheire loló. Que saiba de Grande Otelo, de Pele, Garrincha e Didi. De Zumbi. De Milton Santos. De Dona Menininha. De Clementina. De Abdias. De Luiz Gama.

Sugiro, sempre e sempre, que dê chance ao samba, ao choro, ao Pixinguinha e à mandioca. E que tome banho pelado em rio. Que ande pelado.

Este Brasil com “ s “ é nossa única chance civilizatória. É ele que nos molda, nos aponta, nos sapienta.

Esse Brasil morreu mais um pouco. Foi executado. Assassinado. Nosso silêncio é gatilho também.

O assassino não é só quem deu os disparos. Este Brazil com “ z “, arrogante, subalterno, mesquinho, covarde e medroso alimentou esse gatilho.

Basta. Não à toa, palavra que tem o “ s “ bem ali, ao centro de tudo.

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Marielle Franco

“Sentimos que nunca acaba
de caber mais dor no coração”

É difícil, pra mim, neste momento, falar sobre Marielle, sobre seu assassinato, sobre sua ausência. Eu não a conhecia pessoalmente. Sequer sou do Rio de Janeiro. Mas eu conheço e amo gente que a conhecia e a amava. E ainda, conheço e amo as idéias que ela defendia e, suponho, amava também. Acompanhei sua campanha, acompanhava seu trabalho como vereadora. Admirava, encantada, como ela conseguia ser o que parece impossível. A perda de Marielle cala fundo, mas o blog não podia silenciar sobre. Escrevo.

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Pra começar, dizer que penso que não devemos abrir mão de uma leitura interseccional do mundo, das violências, das vivências – incluindo esta execução. A execução de Marielle Franco. Por exemplo, entendo que ser negra e socialista tem relação indissociável neste assassinato. Acho bem fácil uma outra figura negra proeminente, porém não ativista, ser vítima de racismo, incluindo danos decorrentes de ações da policia, por exemplo – ignorantes da sua identidade. Mas acho bem difícil essa pessoa vir a ser executada, da forma como Marielle foi, por ordem de quem foi (tão mais parecido, o crime, com o assassinato da juíza Patrícia Acioli) sem defender as idéias que ela defendia, sem lutar como ela lutava, sem se posicionar quando e como ela se posicionava: a partir das bandeiras do seu partido, o PSOL.

Compreendo que Marielle foi assassinada por ser quem era. Isso inclui sua negritude. Inclui suas idéias socialistas. Inclui sua atuação parlamentar. Inclui sua personalidade vibrante. Inclui o tipo de família que formou. Inclui as pautas que abraçava, os trabalhos que fazia, os lugares que frequentava. Inclui seus sorriso luminoso, sua presença hipnótica, sua clareza de argumentação. Inclui o fato de ela se definir e se alinhar com pessoas vistas como esquerda. Sabe aquela frase do Montaigne sobre o amor: “porque era ele, porque era eu”? Ela foi assassinada, penso, para não ser mais. Porque ela era imensa. E acho triste (e improdutivo), depois de termos perdido tanto, perder um aspecto que seja dessa mulher tão grande.

Essa dolorida compreensão me faz lembrar e afirmar sua existência única e irrepetível. Por mais bonito e confortador que seja a idéia de transformar este momento de perda e dor em inspiração e resistência, eu recordo e reafirmo a vida própria de Marielle. Ser um símbolo não é melhor que seguir vivendo. Vejo esta tirinha abaixo e me dói.

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Quando eu tinha 16 anos e participava de grupos de Pastoral da Juventude do Meio Popular, me comovia com a frase de Dom Oscar Romero: “se me matarem, ressuscitarei nas lutas de meu povo”. Eu era jovem e boba, desconhecia que isso não basta. Não devíamos ter ou ser mártires, devíamos ter e ser companheiros. Vivos.

Porque por mais que se insista na permanência dela em nossa própria vida, a vida que era dela, a vida que era ela, não mais. A vida dela. Dela. A filha dela, a namorada dela, os desejos, sonhos, o mestrado, as cervejas dela. A fome dela, as roupas dela, a risada dela, o abraço dela. As dores dela, as dúvidas dela, as alegrias e conquistas dela. Dela. Ela. E nunca mais. Nunca mais nada disso. Ah, luciana, mas é no aspecto político. Pois também não. Quanto tempo leva pra surgir um quadro como Marielle? quantas mulheres são eleitas? quantas mulheres negras? quantas mulheres negras, de esquerda? quantas mulheres negras, de esquerda, bissexual ou lésbica?

Que lutemos as lutas de Marielle. Que apoiemos outras mulheres negras na política. Que não esqueçamos sua morte. Que balancemos suas bandeiras. Que sonhemos, juntos, seus sonhos. Mas Marielle, mesmo, nunca mais. Por mais presente que ela esteja na vida de quem a amou, de quem sonhou com ela, de quem lutou com ela, por mais presente que esteja em quem a respeitava, admirava, quem compartilhava pautas e utopias, Marielle, mesmo, nunca mais.

Não podemos, acho, não devemos, penso, esquecer disso: a perda é insuperável.

É essa vida que não vai ser vivida que dói tanto que não deve ser esquecida. Que a morte de Marielle seja inspiradora me parece muito triste. Não quero inspiração, quero-nos vivas.

Os bons são maioria, e daí?

Os bons são maioria. De vez em quando passa essa frase pela minha TL, geralmente associada a uma reportagem ou imagem de algum gesto generoso, de cuidado, de solidariedade. Eu mesma já devo ter reproduzido. É tentador em vários aspectos, destaco dois: o primeiro é achar que é uma questão de amplitude da visão, que os bons estão em algum lugar, fazendo coisas boas, a mídia é que não conta, tal como a dor da gente, a bondade não sai no jornal. Nesta perspectiva a bondade da maioria silenciosa redimiria a humanidade. O segundo, e de maior impacto, é dividir de forma binária as pessoas em bons e maus. E, claro, colocarmo-nos alinhados do lado dos bons. Do Bem. Faz bem pra autoestima, né.

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Depois de um tempo, desisti. Os bons não são maioria. Nem minoria. Não divido mais o mundo em bons e maus. As pessoas vivem, interage, fazem coisas. Algumas delas, boas. Consideradas boas. Alguém recolhe animais na rua, cuida deles e é um escroto com os vizinhos. Outro é excelente amigo e bate na mulher. Gente que mantém projetos sociais e não paga a pensão alimentícia dos filhos. Pessoa que, num impulso, diante de um acidente, arrisca sua vida pela dos outros mas no dia a dia é mesquinho e homofóbico.  Mulheres valentes que lutam por creches e dizem que mulheres trans são homens disfarçados e podem morrer que não fazem falta. Somos caleidoscópio. Dependendo de onde o raio de sol bata, refletimos diferenças.

Conecta-se com o que a Renata disse: “a casca: o que se faz. Como se age. Não quero saber daquilo que se chama “alma”: das intenções, dos propósitos ocultos, dos sentimentos nos bastidores. De uma suposta essência, enfim. Se a gente abandonar a ideia de alma, o que resta é ação. Atitude. São gestos. E, afinal, esse é que é o ponto mesmo, não? Não quero saber se você ama seus filhos, lá no fundo. Se tem afeto pelos seus amigos. Se você, em pensamento, lá dentro do seu coração, é bacana, bom caráter, bem intencionado. Se tem vontade mesmo de fazer “o bem”.  Não é essa a questão aqui. O propósito não é julgar “o bem”, “o mal”. A questão, de novo, é o que se faz.” 

Conecta-se, disse eu, mas queria dizer mais uma coisa: as coisas boas que se faz não são assinatura em folha em branco. Não legitima nem minimiza o resto do que somos e fazemos. Nem o contrário. Não é porque se comete um erro, uma escrotice ou um crime que as bondades outras não valem mais. Quando meu pai fez vestibular era assim: uma questão errada anulava uma certa. Não é assim na vida real. Um erro é um erro. Um acerto é um acerto. Uma bondade é uma bondade que não apaga, compensa ou justifica mais nada além dela mesma. E vice-versa.

A bondade não é a essência de alguém ou alguéns. É relacional. Processual. Circunstancial. Construída e sustentada pelo olhar de outrem. Não são raros os casos em que identificado algum tipo de “monstro” se sucedam os depoimentos de “mas ele era ótimo pai”, “nunca pensei, um vizinho tão bom”, “imagina isso, sempre tão gentil com as crianças”. É do humano a plasticidade, somos múltiplos, capazes de atos de generosidade e mesquinharia. De enormes gentilezas e da mais aguçada crueldade. Avançaremos quando deixarmos a bondade de lado, como forma de dar estrelinha pros que confirmam nossas idéias e aspirações. Avançaremos quando abarcamos nossa complexidade. Avançaremos quando pararmos de nos desligar dos erros alheios, quando pararmos de apontar dedos, de cobrar coerências, de insistir em uma pureza, retidão e bondade absolutas. Avançaremos quando entendermos o que já afirmava o filósofo: nada do que é humano me é estranho.

Então, Luciana, se perdoa tudo? Nopes. Não se perdoa nada. Ou ainda: não é matéria de perdão, mas de reconhecimento. Somos humanos e isso não é um dado natural, mas uma condição, uma possibilidade, somos candidatos à humanidade. O que é transformador não é a bondade, é o compromisso – individual, mas não só, também coletivo – ético, deliberado, insistente e intencional com um projeto de humanidade, de relações, de sociedade. De existência.

Da Força Que Nunca Seca

Por Fran Nepomuceno, Biscate Convidada

No sertão do Ceará, na cidade de Morada Nova, nasceste. Segundo a medicina e a sociedade, eras um menino. Nunca te identificaste como tal, tanto que, quando começaste a se relacionar afetivamente, aos 11 anos, era a meninos que te afeiçoavas sem se sentir vivendo uma relação homoafetiva. Aos 14 anos, abandonaste todos os rótulos que deram a ti. Desabrochou Kyara. E, à época, de tudo que existia dentro da tua caixinha, o ser mulher era o que mais se aproximava do teu desejo.

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Mesmo se sentindo realizada por assumir essa “identidade feminina” e construir tua realidade nessa condição, ainda sentias que te faltava algo. Embora seja uma sensação que nunca ganha sossego, aquilo te incomodava visceralmente.

Tempos depois, já iniciada a transição, sentias que sempre estava no começo de tudo, pois se ser homem não bastava, ser mulher não estava dando conta também em te definir.

Tanta clareza tinhas dessa incerteza que acaso te perguntassem: Quem és tu? Certamente devolveria a mesma infame pergunta: E tu, quem és? Pois já havia percebido que tua identidade não era mais limitada ao binarismo de gênero, e sim, feita de muitas possibilidades.

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Porém continuavas a ser mulher trans que, por questões políticas, reivindicava-se travesti, sabendo que, no fundo, essas questões de gênero são meras construções fadadas a repetições. Sabias que poderias ser livre sem ter um gênero. Sabias ser um ser humano que pensava, respirava e sentia e isso bastava.

Não reivindicavas apenas ser travesti por questões políticas, mas também gorda e baixa. Tu dizias: “minhas medidas não cabem num padrão e é isso que eu acho lindo: não caber em um padrão”.

Em meio a tantas exposições de si, da forma e com a beleza que se expressava, além de tua facilidade de agregar pessoas, construías. Vieram os movimentos construídos em praça pública, ali na tua cidadezinha. Vieram os coletivos auto-gestionários. Veio a escrita (tua tão magnífica escrita), a ideia da biografia. Transformavas a tua (e nossa) dor em luta e arte.

Tu eras linda Kyara!

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Mas somos mistura. Em meio a tudo isso, veio também a depressão.

Tantos foram os remédios. “[…] perdendo a essência, a dignidade e a memória…” brincavas com tua própria tragédia. “Seria os remédios que está limitando a minha escrita?”, reclamavas também. Além de expressar toda tua angústia nos episódios depressivos, nas crises de ansiedade, nas ideações suicidas, no sono precário, no tempo que corria mais do que o teu ritmo permitia…

Ser biscate é uma mistura entre o reivindicar-se livre e lutar, mas também conviver com as dores produzidas num mundo que quer te por em uma forma, em uma gaiola.

Chegou o fatídico mês de dezembro. Crise. Pânico. Incertezas. Insegurança. Sufoco. Sentias que toda aquela instabilidade estava aos poucos acabando contigo e que os remédios produziam uma felicidade sintética. O que desejavas não cabia numa pílula. E já passavas a se sentir incomodada, fracassada e inútil.

Esses mesmos remédios serviram de instrumento para estancar a tua dor. Tiveste coragem querida amiga. Tua decisão não foi fácil. Partiste. E não se esperaria menos de alguém que queria tanto ser livre.

E tua partida doeu, mas tão brevemente aceitei. Não seria justo te acusar, porque tu foste minha força, foste uma força para muita gente e eras um braço forte de luta. Em tuas falas, era o sujeito Kyara que falava e não coletivo X ou Y, ou em nome dele.

Hoje, continuas sendo a nossa força e a gente se nutre das boas lembranças, das tuas palavras, dos teus textos, da tua imagem! E espero que estejas, enfim, no teu tão merecido repouso.

Descanses em paz, amiga. Apenas descanse. Fostes a maior biscate que conheço!

*Fran Nepomuceno: Musa, deusa, cantora, bailarina, modelo e travesti.

Um Sol Sem Graça

Cara, cês já viram médic@s terem que brigar para afirmar sua profissão como importante? É isso que artistas e (quase) todas as pessoas que trabalham na cadeira produtiva da Cultura (e nisso incluo @s professor@s) tem que fazer todos os dias. TODOS OS DIAS! Para família, amig@s, empregador@s e principalmente, para si mesm@s. É que no Brasil ainda somos considerad@s profissionais substituíveis, sabe? Nas escolas ou somos encarad@s como meros “decorador@s” para festas ou de nós é exigido o domínio (teoria e práxis) de TODAS as especialidades de “nosso” campo (música, teatro, dança e artes visuais), mesmo com cursos universitários e pesquisas na área sendo entendidos como coisa de vagabund@. Da galera que tá fora de sala de aula, a maioria não consegue sequer pagar as contas no final do mês, mesmo produzindo e “vivendo” arte e cultura 24 h por dia…

Então, se isso já era difícil de lidar com um Ministério específico pra nossa área, imagina sem um?

Ah, esqueci… talvez você e eu desaprendamos a imaginar. Porque né? Imaginar não é útil em diante da tal crise que está aí, nem tampouco contribui para o crescimento de nosso País nos ditames da tal “Ordem e Progresso”.

“Olha não tem ninguém na praça/

Só tem um sol sem graça/

Não tem ninguém para ver e contar…”

“Ah, mas só foi uma transferência, Raquel…”

O único só para mim nessa história é que Cultura é um babado do campo simbólico, Brasil. Portanto, atrelar Cultura a Educação é um desserviço que ecoará na produção artística de toda uma geração. Quer praticamente dizer que toda obra ou trabalho terá que ter uma “moral da história”. E no caso desse governo específico, cara, quero nem pensar em qual seria.

Ah, eu imagino sim.  Ainda?

Peças de teatro com conteúdo bíblico? Imitações de “estaltas” gregas com saia abaixo do joelho? Cinema com mensagens edificantes sobre ser “bela, recatada e do lar”?

Num vai “dar bom” isso não…

E (ainda) por falar em Cultura, muitas, muitas mulheres, em sua maioria pobres, fizeram e fazem cultura em nosso país. No intervalo do cuidar dos filhos, da casa, depois da lida na roça, cansando olhos, costas e coração.

Para ajudar num orçamento quase inexistente, insistiram na renda de bilro, no crochê, no ponto cruz. Para continuarem vivas e darem de comer as filhas e filhos a baiana montou seu tabuleiro e a paneleira acendeu seu forno de queima de cerâmica.

Talvez, também, para insistir em belezas cotidianas no meio de tanta dor? Acredito que…

No entanto, apesar disso acontecer desde que fomos “descobertos”, muitas dessas mulheres, até hoje, se envergonham do que produzem e não sabem “botar preço” no próprio trabalho. Porque, talvez, ainda não o entendam como tal?

Aí o “gênio” da moda, o chef estrelado, a loja no shopping se apropriam de suas criações para que a madame e o senhor, que contribuem com essa injustiça e alienação, ao acharem exorbitante pagar R$ 50 num “paninho”, desembolssem contentes R$ 50.000 numa peça que quem produziu jamais conseguiria pagar. Essas mesmas pessoas não sabem porque se chama alta costura a alta costura. Artesanato, senhoras e senhores. E cultura!

O valor do humano ali na sua frente, materializando tempo, paciência e heranças.
No país do quartinho de empregadA ainda temos muito que aprender e deglutir.
Por exemplo: que não há beleza alguma na morte da representatividade (essa morte em vida), não há apaziguamento possível diante da tentativa de nos calarem.

Porque de tantas formas “eles” tentaram, que aprendemos a “falar” e nos fazer entender de formas que sequer imaginam, esses sinhozinhos… mesmo quando parece que estamos servindo. Invisíveis. De joelhos.

Também aprendemos a ver, porque aprendemos na porrada e com o olho roxo, o que é feio e vil. Ainda que chegue-nos disfarçado como suposto respeito e consideração.

Portanto, não é “favor” algum dar-nos, enquanto mulheres, UM cargo de fachada num ministério extinto. Somos metade desse país, porra! Então é isso! Vai ter LUTA, SEUS MERDAS!

E lembrem, somos biscates… “Com a nossa rapa você não é capaz!”

 

Brasil, 12 de Maio de 2016

Por Renata Correa, Biscate Convidada

Filha,

Falta um mês para o seu aniversário de quatro anos. Todos os dias antes de dormir a gente conversa sobre sua festa. Você já quis dinossauro, sereia, bailarina, baleia. Depois você me pede duas histórias e uma música para aceitar fechar os olhos. Daí você pega no sono entrelaçada no meu corpo e eu vou me desvencilhando de você para terminar de trabalhar, conversar com os amigos, tomar banho, ver as notícias.

Nos últimos meses eu tenho pensado muito nas histórias que eu vou te contar. Sua bisavó nasceu em 1930, e não votou para presidente até sua avó nascer. Sua vó nasceu em 1956 e não votou para presidente até depois do meu nascimento. Eu nasci no fim de uma ditadura militar e nas primeiras eleições para presidente eu já tinha sete anos. Já quando você nasceu eu já tinha votado para presidente três vezes e uma mulher era presidente da república.

Eu queria contar para você que, nós, essas quatro mulheres, vimos ano a ano uma democracia se fortalecer e estabelecer. Mas a verdade filha, é que a república do café com leite lá da época do nascimento de sua bisavó ainda está em vigor. E que as instituições que matavam, torturavam e desapareciam com pessoas na época da sua avó nunca foram punidas e continuaram em pleno fucionamento. E é por isso que estamos vivendo o que estamos vivendo hoje.

Imagina que hoje filha, alguns homens conseguiram, sem nenhuma justificativa, retirar uma presidente da república de seu mandato. Uma mulher que desfilou em carro aberto ao lado da sua filha também, quando foi tomar posse. Uma mulher que foi eleita pela maioria do povo brasileiro.

Desculpa filha. Quando eu comecei a pensar em política, achei que democracia era uma coisa dada, inabalável, um direito inalienável. Sua avó já tinha lutado por ela, bastava agora aperfeiçoá-la, incluir nesse sistema aqueles que nunca puderam usufruir plenamente dela. Errei.

Forças conservadoras sempre irão tentar esmagar subjetividades e impor retrocessos se isso representar poder. Queria te dizer para ficar sempre atenta e vigilante quando eu não puder estar. Nada está permanentemente conquistado, tudo está permanentemente em processo.

Eu gostaria de te prometer uma coisa: a mamãe vai continuar, tá? Agora um pouquinho mais calejada. Eu, assim como a sua bisa, e a sua avó, fizeram antes de mim, não vou desistir. De ter um País mas justo, igualitário, onde a disputa política não se converta em ódio, onde o cinismo não seja maior que o amor.

Espero que um dia você possa ler essa cartinha sem medo de ser agredida por suas opiniões. Sem medo de amar e ser amada. Sem medo de lutar as próprias batalhas. E claro, que também possa ter a tranquilidade de estar vivendo um sistema democrático pleno. Quero ter daqui uns anos uma história mais bonita pra te contar, filha. Não sei se vai acontecer. Mas eu prometo tentar.

Beijos da mamain.

renata-corrc3aaa1* Renata Corrêa é uma tijucana exilada em São Paulo, fotógrafa sem câmera, desenhista desistente, roterista praticante e feminista. Já fez livro pela internet, casou pela internet, fez amigos pela internet, compras pela internet, mas agora tá preferindo viver um pouquinho mais offline. Saiba mais dela no seu blog ou no seu tuíter @letrapreta.

Ocupem as escolas, ocupem tudo

Final de ano, me sinto mais ainda cansada que o normal e, convenhamos, 2015 não foi fácil. Cada dia uma porrada diferente, cada dia um 7 x 1 diferente na gente. Nem vou tentar começar a desfiar o festival de desgraças e tristezas pra não correr o risco de fazer competição de catástrofe. Não aguento mais nem me atualizar com as notícias. Tenho vontade de me refugiar só no quentinho das boas lembranças de um passado remoto quando ainda estava tudo mais ou menos bem.

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Mas, pra viver a gente precisa de ajuda para respirar esse ar pesado, para botar a cabeça fora d’água e puxar o ar de novo. E o que tem me animado a não desistir de olhar pra frente são os jovens. Pois é, 43 e já me considero velha. É que gente da minha geração já tem ou casa ou carro ou filhos ou um monte de contas a pagar por causa de algumas dessas coisas ou todas elas juntas e, aí, desiste de sonhar, de tentar mudar a si e ao mundo e aceita as coisas como estão e nos tornamos mais que realistas, nos tornamos pragmáticos, desiludidos e amargos.

Mas quem é que ajuda a impulsionar as mudanças de comportamento aqui e mundo a fora? Quem esteve em Paris 68? Quem foram os jovens que resistiram à Ditadura? Tem um chavão por aí que diz “não confie em ninguém com mais de 30 anos”. Trinta talvez não pra todas as pessoas, mas quarenta… com certeza.

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E hoje chego em casa e me deparo com essas meninas e meninos ocupando as escolas no estado de São Paulo. Nem terminaram o que na minha época a gente chamava de colegial e estão lá, lutando bravamente pelo direito de estudar contra uma reorganização sem objetivos claros, empurrada goela abaixo da comunidade escolar.

Sabem se organizar horizontalmente, distribuir tarefas. Estão arrumando as escolas, ao contrário do que a mídia, fazendo o papel de assessoria de imprensa do Estado e do governador, divulgou e… estão apanhando e sendo presos. Apanhando como se adultos fossem. Apanhando como se não existisse a proteção do ECA ou se como o Judiciário paulista não tivesse impedido a PM de forçar a invasão das escolas.

Dá raiva, nojo, quando ouvimos os áudios ( aqui e aqui )  de gente ligada à Secretaria de Educação e ao governo do Estado chamando para ir para a guerra contra essa molecada. É uma guerra desigual e desonesta da PM invadindo com cassetetes, balas de borracha, gás lacrimogênio e bombas de efeito moral versus estudantes de camiseta de escola armados de palavras de ordem.

A grande justificativa é o tal do impedimento da via pública. Juro que queria entender qual o amor do paulistano ou do brasileiro em geral ao carro e ao trânsito acima das pessoas. Mas é um amor seletivo pois gente do MBL impediu o trânsito ontem na Av. Paulista e a polícia nem deu o ar da graça para tirar um selfies.

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“Tempos difíceis estão por vir…” , diria Dumbledore. E é por isso que tenho tentando manter nesse espaço o otimismo. E apesar do horror que a violência dos vídeos e fotos me causam, a esperança no futuro que outros vídeos, fotos e relatos de uma gente linda, inclusiva, honesta, elegante e sincera me causam com seus cantos e gritos de guerra.

E porque ninguém velho e amargo como nós é que iria vestir com tanta galhardia uma camiseta escrita à mão: “tenho em mim todos os sonhos do mundo”. Sigam em frente, a luta é de vocês, e é também nossa, estamos juntos por um mundo melhor. Obrigada por não nos deixarem esquecer que tudo ainda é possível. Força.

Para mais informações sobre o #OcupaEscola clique aqui:

https://www.facebook.com/naofechemminhaescola/?fref=photo

https://www.facebook.com/Ocupa-E-E-Diadema-1505790296409080/?fref=ts 

https://www.facebook.com/ocupacaosalvadorallende/?ref=ts&fref=ts

https://www.facebook.com/brasildefato/posts/998486000199364

https://www.facebook.com/jornalistaslivres/?fref=ts

Vamos Biscatear

Estou desde ontem tentando escrever esse post. O post de hoje. Da biscatagi. Ia falar de beijar na boca. Porque é bom. Porque beijei. Porque é caminho bom de biscatear. Sei lá que mais, eu ia trazer beijos e línguas pra humedecer as letras.

Mas no lugar de saliva achei as lágrimas. São elas que tem dado a cara dos dias. Lágrimas de tristeza. De raiva. De impotência. De pesar. De empatia. De mais raiva. De angústia.

Então o que trago hoje é um convite. Da gente usar esse cantinho como trampolim e se informar de tanta coisa dolorida, potente, desesperadora, inspiradora, combativa, transformadora que tem acontecido.

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Eu deixo três motes:

– o crime ambiental que aconteceu/está acontecendo em Minas e a cobertura jornalística desprezível.

– a ocupação das escolas públicas em São Paulo e a repressão belicoso, perigosa e criminosa feita pela PM.

– o #MulheresContraCunha que tem tomado as ruas de variadas cidades.

Não, não vou colocar nenhum link. Só dessa vez vou chamar assim: Vem. Vai. Vamos biscatear. Procura. Pergunta. Mexe. Remexe. Indaga. Espalha. Divulga. Perturba. Esse corpo que queremos livre, coloca na rua, na pauta, na luta.

Gênero, Prisão e Potência

Por Pedro Moraes*, Biscate Convidado

A invenção do sujeito
Um homem é uma invenção de si mesmo. Uma narrativa, uma personagem construída pra se comunicar com o mundo e lidar filosoficamente com a própria existência, com a vida nua. Essa construção é tanto menos livre quanto mais nos são impostas amarras sociais, e parte importante da luta por direitos humanos consiste em deslegitimar algumas dessas amarras, em afirmar que é possível e razoável ser outras coisas, sem prejuízo de direitos. Vou falar, no entanto, do mundo dos privilegiados: o que é que somos quando podemos ser tudo? Se tais barreiras normativas são brandas ou ausentes, o que é que resta por querer, o que é que se escolhe? Pretendo demonstrar que esse dever-ser majoritário, hegemônico, não é o melhor que a vida tem a oferecer, e é, também, uma prisão. Não me interessa se auto-imposta ou não: elencar culpados e beneficiários parece, nesse caso, uma operação ociosa e essencialista, que desastradamente anula a historicidade, a culturalidade e a chance de criticar no plano ideológico esse estado de coisas (se se tratasse mesmo da essência de alguém, combater o fenômeno seria uma operação fascista; pelo contrário, é pura ideologia e desconstruí-la é um gesto libertário). Isto não é um ato cínico, indiferente à dor de quem tem sua igualdade negada – pelo contrário: o que proponho é que é vantajoso libertar-se dessa prisão e que por efeito esse gesto será também, necessariamente, pela liberdade alheia.

Interlúdio
Se tratamos de fronteiras complexas como poder e potência, diferença e igualdade, é bom esclarecer de onde se parte: como bom comunista comedor de criancinhas, acredito na igualdade como um positivo. Ela não é, porém, um fim em si, um absoluto: ela é a condição em que as potências humanas podem melhor se realizar. Tratamos da horizontalidade da estrutura social. Tratamos, noutras palavras, da igualdade política, que já se pode inferir, em verdade, nas ideias de república ou democracia (para mim, dizer-se comunista é levar às últimas consequências – comme il faut – essas ideias clássicas, que de outro modo seriam apenas cavalos de troia). É a diferença (ou a diversidade de modos de vida, de fenômenos e experiências) que eu assumo como um fim em si, um bem em si. Do surgimento da vida e multiplicação das espécies à criação acelerada de sentido pela arte, o que acontece de extraordinário no mundo é produção de diferença. O avesso é o deserto, a repetição, a estéril paisagem lunar, a morte. Então, tomemos a distinção entre poder e potência em Deleuze e a valorização da diferença e (não paradoxalmente) da igualdade política como parâmetros.

Liberdade
O princípio da liberdade está na negação, na recusa, na revolta, e sua melhor antítese não está na prisão, no cárcere, mas na obediência. Constituir-se sujeito é tomar para si as rédeas da vida, assumir o próprio desejo, os riscos e as escolhas, em oposição ao que se possa esperar de cada um, em oposição ao poder e à alienação. E é assim que opera a heteronormatividade: ela não diz que não podemos ser alguma coisa (ela é mesmo muito anterior às identidades sexodivergentes que hoje reclamam aceitação – de modo que sequer poderia ser definida por sua recusa), o que ela diz é o que devemos ser. Não é só quem se desvia que está sob os efeitos, portanto, desse regime: quem não está sendo punido pelo desvio está também em sujeição, em obediência. As figuras prescritas num regime normativo não são opressor e oprimido mas, mais propriamente, desviante – quem se deve punir ou eliminar – e obediente – quem está ocupado em seguir as normas, e portanto deve ser aceito. E nem mesmo os papéis do fiscal e do fiscalizado são fixos: o desvio ou o cumprimento das regras são usados nas constantes disputas por superioridade moral e poder, e todos se fiscalizam mutuamente e esperam benefícios quando obedecem e prejuízo para seus competidores pegos em falta. (Obviamente, contudo, a vantagem é de quem já está em posição de ascendência social – este estará menos sujeito ao escrutínio e a punições, e poderá mais facilmente se aproveitar do desvio de um subalterno para reforçar sua inferioridade, sua submissão).

Insuficiência
Somos todos, em última instância, desviantes. Mesmo os mais obedientes ou mais adaptados a essa prisão ainda viverão sob o signo da falta, da insuficiência, sob o fantasma do deslize. Os papéis de gênero consagrados pela heteronormatividade estabelecem alguma interface com o natural, mas numa leitura engessada, simplista e caricata, enquanto esse natural é fluido e instável; refletem ainda uma divisão social do trabalho já há muito anacrônica e a ordem patriarcal da tradição judaico-cristã, com profunda assimetria entre o homem, concentrador de todo o poder, sóbrio e infalivelmente forte, e uma mulher pura, submissa e cuidadora. Esses não são apenas papéis inaceitáveis moralmente – são papéis impossíveis de desempenhar, e a malograda tentativa que todos levamos até algum ponto é um processo violento e trágico. Sempre falharemos: nunca machos o suficiente, nunca santas e maternais o suficiente; e sabemos o que acontece a quem é posto nessa situação: uma vez em dívida, estamos coagidos a obedecer mais ainda, a ceder mais terreno, mais liberdade, e propensos a cometer violências covardes em nome da ordem que é nossa credora.

Recusa e escolha
A recusa desses papéis, portanto, deve ser uma operação libertadora mesmo para quem não foi condenado, de saída, à subalternidade (como o são as mulheres), nem teve sua expressão sexual ou de gênero reprimida e sufocada. Falamos da renúncia a um poder triste, limitador da experiência, e da busca de potências em liberdade. Entre as expressões que costumamos atribuir à masculinidade existem potências que estimo e de que não me sinto ou sentiria constrangido a abdicar (a própria busca da autonomia, injustamente, é uma delas), entre outras manifestações que são pura barbárie e boçalidade, das quais busco me libertar – num processo que teve início tardio, o que lamento, mas que tem sido invariavelmente recompensador. De forma análoga, há expressões de um feminino arquetípico que me seriam negadas e de que eu busco, com grande prazer, me apropriar, tanto quanto me convenha. Se o machismo não é outra coisa, em sua operação mais fundamental, senão a hierarquização do masculino sobre o feminino, não acredito num antimachismo que não passe pela valorização do feminino – e isso num processo de deixar-se afetar, deixar-se envolver. Se sou capaz de postular que o Outro me é igual em valor, seria difícil explicar que não quisesse para mim nada, absolutamente, daquilo que o constitui. Como disse meu ídolo Gil: “Todo artista tem de aprender uma certa viadagem…” Ele o diz, ouso elaborar, porque muitas das potências que deve buscar um artista – citaria a abertura para a alteridade, a sutileza, a comunicação empática – estão, em nossa cultura, atribuídas a um feminino.

Contradição e coragem
Não raro, penso em quantos dos meus amigos mais próximos, pessoas muito inteligentes, são aberta e veementemente favoráveis à igualdade de gênero, ao reconhecimento e defesa dos transgêneros e das orientações sexuais divergentes e, no entanto, ainda constituem sua própria subjetividade num clichê conformista e não conseguem abandonar expressões anacrônicas do machismo – entre chavões, renúncias e piadas tacanhas. Não se deve cair no protesto banal que sugere que essas contradições anulam a opção política acertada, é importante dizer. No mínimo, essa opção tem resultado presumível na conquista de direitos para as minorias e serve para colocar quem quer que seja em xeque quanto a suas posturas: um machista convicto sendo machista não poderia sequer ser dito incoerente. Ou será que os movimentos identitários, tão afeitos a coerências, preferem um machista coerente a alguém trilhando um caminho cheio de contradições mas na direção certa? A escolha, me parece, deveria ser óbvia e não é – mas, assim caminha a humanidade. De todo modo, o que me interessa é provocar esses amigos, que tanto estimo: a fragilidade que demonstramos nessas expressões, nessas sobrevivências do machismo chega a ser melancólica. O medo de ser “visto como veado”, o medo de não dar conta da masculinidade que devemos ao mundo salta à vista, e é risível. Por isso os provoco, os chamo a exercer uma potência tida, nessa tradição anacrônica, como masculina: a coragem. Tenhamos a coragem de recusar esse papel e esse medo.

Liberdade e potência do não
Por fim, e numa tentativa de sintetizar minha proposta e expandir seu alcance, eu trato aqui de que o gesto radicalmente livre está na recusa peremptória das identidades – que são, impreterivelmente, um dever ser, um regime normativo. O espírito comunitário, destruído pela colonização ocidental/cristã/capitalista do mundo para que esta se afirmasse como poder único, precisa ser reconstruído sob um novo tipo de identificação, um encontro na diferença, e não na homogeneidade fascista. Reconheço ainda, é claro, que os oprimidos se orientam e se reúnem em vínculos identitários como forma de reagir a opressões sistêmicas e conquistar direitos. Isto tudo é, sim, legítimo, provou-se eficaz até certo ponto, e deve ser apoiado, em suas demandas legítimas, por quem quer que se pretenda libertário. Esses vínculos não podem ser, no entanto, o modelo final da ação política, pois, primeiro, não oferecem um caminho para a libertação de seu próprio conteúdo normativo: a tentativa de dar conta deste efeito colateral tem sido – o que é um evidente fracasso – a fragmentação sucessiva em novos agrupamentos identitários, numa espiral sectária que já beira a esquizofrenia; e então, sobretudo, porque não oferecem um caminho para o encontro entre os diferentes devires minoritários com que precisamos – e esse é o grande desafio da política contemporânea – constituir uma maioria política diversa, igualitária, libertária e antifascista.

Para além do fenômeno dessas identidades reativas, é certo que existe um encantamento, uma tentação em servir, obedecer, conformar-se: ser livre tem um custo terrível, não é nunca um processo indolor, nunca um processo de que saímos impunes, ao menos sem conhecer a solidão – o maior dos terrores, talvez, da condição humana. O pertencimento traz algum tipo de recompensa psíquica primordial e o buscamos mesmo nas mais estúpidas fontes, como atestam torcidas organizadas e outras seitas fascistóides que escancaradamente só existem para e pela nivelação e identidade de seus membros, sem nenhum conteúdo positivo, sem nenhuma intenção perceptível senão o estabelecimento de uma fronteira Nós/Outros e a consequente tentativa de destruição do Outro.

A liberdade não é panaceia ou éden, mas o inferno da alteridade, da experiência, do risco e do desconhecido; não o fim das dificuldades, mas seu começo – é sempre mais fácil obedecer. A liberdade é a dor inenarrável da recusa, o terror do enfrentamento que é dizer: Não. E o único terreno em que a vida pode verdadeira e radicalmente florescer.

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*Pedro Moraes, o moço à esquerda, é programador e editor da Revista Baderna. Os gritos de ódio devem ser encaminhados à seção de reclamações do site naofo.de

Do Útero ao Túmulo

Por Fred Caju*, Biscate Convidado

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caju*Fred Caju é nordestino. Poeta. Letras sumarentas que nos escorrem pelo canto da boca e, vez ou outra, deixam um travo, como a fruta que evoca. Editor do Castanha Mecânica. Curador do Cronisias. Pra gente não esquecer que letra é vida. Querendo mais, tem disponível na net o audiolivro do Arremedos de um dado viciado e os livros pro kindle: Arremedos de um dado viciado e Sumo de ranço.

O que espero para os próximos 8 de março?

Essa quinzena, lembramos o dia internacional da mulher do nosso jeitinho biscate: luta, celebração e inquietação, tudo junto, arfante e misturado…

 #nãomedeemflores #diainternacionaldamulher

Ontem, domingo, 8 de março. Dia internacional da mulher.

Moro nesta cidade grande que é São Paulo, com 3256326 de atos, eventos, debates acontecendo por todos os lados, para que a gente lembre (se bem que quem milita não se esquece) da importância desta data para as nossas lutas. Fiquei em casa, com o coração partido por não poder estar na rua, que era o que eu gostaria de fazer. Mas moro na periferia, longe do centro, longe de todo esse fervor. E meu pai doente e demandando cuidados me levou a passar boa parte da minha tarde ocupada com curativos e medicação.

Eis que depois vim pra internet, esse céu e inferno onde algumas pessoas sentem essa necessidade cabal de manifestar sua opinião sobre qualquer coisa. E por qualquer coisa, entendam aquilo que essas mesmas pessoas nunca viveram, nunca vão viver ou conhecer o bastante para dar pitacos, que às vezes elas defendem sem parar um minutinho sequer para refletir. Longe de mim, acreditar que só quem viveu determinada experiência pode opinar sobre ela.  Só que eu tenho essa coisa forte de respeitar as vivências dos outros. Certas vivências trazem delícias – e agruras – que só quem as teve sabe. E ser mulher numa sociedade machista como a nossa é para a maioria de nós, é uma luta quase diária.

Essa sou eu quando alguém diz que as mulheres reclamam demais...

Essa sou eu quando alguém diz que as mulheres reclamam demais, sendo que já têm “tudo”.

Pois bem. Nessa minha passada pela internet, vi um dos meus contatos do saite feice dizer que todas as chefes que ele teve na vida foram mulheres. E que a maior parte das colegas dele em Paris (sim, o moço estuda em Paris) eram mulheres. Até aí, legal né? Fiquei até feliz por isso. Aí, ele termina a fala dele com isso:

“Então parem de mimimi com o dia da mulher, nada tá tão difícil assim pra vcs. Comentários raivosos em 3,2,1…”

Ai, meu fiofó de asas.

Gente, por quê?

Queria pensar que foi ingenuidade do moço e que ele realmente não sabe quão discrepantes ainda são as condições de trabalho de homens e de mulheres. Ou que foi molecagem, sabe? O mocinho tá lá, no meio do inverno dos arredores da Sorbonne num dia de muito ócio, e aí ele queria atenção, esperando pelo menos uns comentários raivosos das feministas choronas e mimizentas que ele conhece…

Só que não.

Definitivamente não.

Quando se está bem do alto de uma posição privilegiada, é bem difícil desconstruir certas visões. O que o moço em questão expôs diz muito sobre ele, mas também muito sobre o quanto falta para que a gente realmente possa falar que existe igualdade efetiva entre homens e mulheres. Falta bastante. Tanto que as vezes o desânimo é inevitável.

Fiquei com vontade de ir lá registrar meu comentário raivoso. Porque a na verdade, para muitas de nós, o simples fato de sobreviver é um ato de resistência. Porque ao contrário do que algumas pessoas pensam e aí incluo o rapaz  branco, cis, hétero, de classe média e que pode estudar na França, tudo ainda é mais difícil pra gente. Ainda ganhamos menos. Ainda não temos pleno direito ao nosso próprio corpo. Ainda não temos representatividade forte na política, mesmo que sejamos a maioria da população de nosso país.

Diria a ele que ainda sofremos violência, discriminação e negligência pelo simples fato de sermos mulheres. Ainda exigem que estejamos sempre correspondendo a padrões estéticos que muitas vezes não se aplicam a boa parte de nós. Ainda somos julgadas como “essa é pra casar” e “essa é pra trepar”. Ainda dizem que não somos capazes de realizar certas tarefas porque somos “frágeis e pouco práticas”.

Bônus: ainda dizem que não podemos ser amigas umas das outras, porque somos traiçoeiras e não merecemos confiança. E ainda não podemos ocupar os espaços públicos na hora que quisermos, tendo companhia ou não, porque ainda existe a ideia de que mulher sozinha está disponível/pedindo para ser estuprada ou intimidada.

Eu poderia ir lá e enumerar muitas outras coisas que lembram o quão importante é a data de hoje, para todas nós. Mas adiantaria de quê? É só ele, o pobre moço que não entende por que as mulheres reclamam tanto (porque talvez pense que o mundo inteirinho é igual a Sorbonne e que todas as moças são exatamente iguais e têm as mesmas oportunidades do que as colegas dele de lá), que pensa assim? É claro que não. O mundo aqui fora não se resume às decepções (às vezes bem presumíveis) que tenho com as TLs alheias. Deletei o rapaz, problema resolvido. Mas e aí? O que muda pra mim e para as tantas outras companheiras que sofrem diariamente com a privação de tantos direitos?

Isto posto, fica aqui a minha esperança de que cada vez menos, o 8 de março seja entendido como um dia para dar rosas ou para fazer promoção de maquiagem ou de utensílios domésticos. Ou que seja um dia para que especialmente nós, mulheres militantes, sejamos julgadas e taxadas de choronas, mal amadas ou chatas pelo simples fato de não querermos ser tratadas como uma maçaroca homogênea, que basta ser um pouquinho paparicada (ou “homenageada”, a palavra fica a gosto do freguês) para que nos esqueçamos de todos os leões que matamos durante os outros 364 dias do ano…

Lutar contra a violência dói

Por Niara de Oliveira

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Já escrevi muito sobre violência contra a mulher, aqui inclusive. Causas, consequências, políticas públicas de prevenção da violência e cuidado com as vítimas, leis mais duras para punir agressores, mecanismos e estruturas que facilitem a denúncia e nos deem a real dimensão da violência sofrida (todos os números se baseiam na violência denunciada e estimativas), mecanismos que facilitem também a punição como delegacias, centros de referência, defensoria-promotoria-vara especializada, lei específica… Nada até agora parece ter sido suficiente.

🙁

Não, não é derrotismo puro e simples. É mais cansaço mesmo. É muito tempo lutando nessa mesma trincheira e cada vez que vou ao campo de batalha o cenário é o mesmo. Os relatos de como ocorreu, como foi a via crucis nessa estrutura legal que foi criada a partir da luta feminista nas últimas décadas, as marcas, a dor, a auto estima que não existe mais… O horror.

:'(

Não, não é derrotismo puro e simples. É cansaço. É constatação dos fatos. E é dor. O movimento feminista teve muitas vitórias ao longo das últimas décadas no Brasil, conseguiu quase tudo que queria em termos de estrutura para dar conta da recepção/tratamento da vítima e punição do agressor. Mas nada foi suficiente para coibir ou prevenir a violência. Os números aumentaram. Não só porque o número de denúncias aumentou, mas principalmente porque a população brasileira dobrou em 40 anos.

O machismo continua inabalável, intacto. E se antes éramos apontadas em mexericos nas conversas de esquina, bar, pátio do colégio e bastava não ligar para os comentários que atingiam a “reputação” ou incorporá-los, dependendo da personalidade de cada menina, agora ele se espalha pelas redes sociais, e esses comentários ganham provas materiais, e já não depende mais da personalidade de cada menina superar as difamações e mexericos. E elas se matam.

:'(

É tão perverso que esses homens (alguns tão meninos quanto suas vítimas) sequer precisem desferir um golpe para matar, basta enviar uma foto pelo celular ou publicá-la numa rede social. Solução? Vamos pensar em mais enquadramento legal, mais penas, mais estruturas e mecanismos para dar conta das vítimas que sobreviverem?

:-/

Faz tempo que penso que esse buraco é mais embaixo, e que talvez a única forma de prevenir a violência contra as mulheres seja pensarmos em educação antimachista. Ou continuaremos assistindo a secular manutenção da honra e caráter da mulher em sua sexualidade ser reforçada.

Continuaremos assistindo a secular manutenção da honra e caráter da mulher em sua sexualidade ser reforçada?

Hoje é mais desabafo mesmo. Dsclp!

:-(

:-(

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