Um Sol Sem Graça

Cara, cês já viram médic@s terem que brigar para afirmar sua profissão como importante? É isso que artistas e (quase) todas as pessoas que trabalham na cadeira produtiva da Cultura (e nisso incluo @s professor@s) tem que fazer todos os dias. TODOS OS DIAS! Para família, amig@s, empregador@s e principalmente, para si mesm@s. É que no Brasil ainda somos considerad@s profissionais substituíveis, sabe? Nas escolas ou somos encarad@s como meros “decorador@s” para festas ou de nós é exigido o domínio (teoria e práxis) de TODAS as especialidades de “nosso” campo (música, teatro, dança e artes visuais), mesmo com cursos universitários e pesquisas na área sendo entendidos como coisa de vagabund@. Da galera que tá fora de sala de aula, a maioria não consegue sequer pagar as contas no final do mês, mesmo produzindo e “vivendo” arte e cultura 24 h por dia…

Então, se isso já era difícil de lidar com um Ministério específico pra nossa área, imagina sem um?

Ah, esqueci… talvez você e eu desaprendamos a imaginar. Porque né? Imaginar não é útil em diante da tal crise que está aí, nem tampouco contribui para o crescimento de nosso País nos ditames da tal “Ordem e Progresso”.

“Olha não tem ninguém na praça/

Só tem um sol sem graça/

Não tem ninguém para ver e contar…”

“Ah, mas só foi uma transferência, Raquel…”

O único só para mim nessa história é que Cultura é um babado do campo simbólico, Brasil. Portanto, atrelar Cultura a Educação é um desserviço que ecoará na produção artística de toda uma geração. Quer praticamente dizer que toda obra ou trabalho terá que ter uma “moral da história”. E no caso desse governo específico, cara, quero nem pensar em qual seria.

Ah, eu imagino sim.  Ainda?

Peças de teatro com conteúdo bíblico? Imitações de “estaltas” gregas com saia abaixo do joelho? Cinema com mensagens edificantes sobre ser “bela, recatada e do lar”?

Num vai “dar bom” isso não…

E (ainda) por falar em Cultura, muitas, muitas mulheres, em sua maioria pobres, fizeram e fazem cultura em nosso país. No intervalo do cuidar dos filhos, da casa, depois da lida na roça, cansando olhos, costas e coração.

Para ajudar num orçamento quase inexistente, insistiram na renda de bilro, no crochê, no ponto cruz. Para continuarem vivas e darem de comer as filhas e filhos a baiana montou seu tabuleiro e a paneleira acendeu seu forno de queima de cerâmica.

Talvez, também, para insistir em belezas cotidianas no meio de tanta dor? Acredito que…

No entanto, apesar disso acontecer desde que fomos “descobertos”, muitas dessas mulheres, até hoje, se envergonham do que produzem e não sabem “botar preço” no próprio trabalho. Porque, talvez, ainda não o entendam como tal?

Aí o “gênio” da moda, o chef estrelado, a loja no shopping se apropriam de suas criações para que a madame e o senhor, que contribuem com essa injustiça e alienação, ao acharem exorbitante pagar R$ 50 num “paninho”, desembolssem contentes R$ 50.000 numa peça que quem produziu jamais conseguiria pagar. Essas mesmas pessoas não sabem porque se chama alta costura a alta costura. Artesanato, senhoras e senhores. E cultura!

O valor do humano ali na sua frente, materializando tempo, paciência e heranças.
No país do quartinho de empregadA ainda temos muito que aprender e deglutir.
Por exemplo: que não há beleza alguma na morte da representatividade (essa morte em vida), não há apaziguamento possível diante da tentativa de nos calarem.

Porque de tantas formas “eles” tentaram, que aprendemos a “falar” e nos fazer entender de formas que sequer imaginam, esses sinhozinhos… mesmo quando parece que estamos servindo. Invisíveis. De joelhos.

Também aprendemos a ver, porque aprendemos na porrada e com o olho roxo, o que é feio e vil. Ainda que chegue-nos disfarçado como suposto respeito e consideração.

Portanto, não é “favor” algum dar-nos, enquanto mulheres, UM cargo de fachada num ministério extinto. Somos metade desse país, porra! Então é isso! Vai ter LUTA, SEUS MERDAS!

E lembrem, somos biscates… “Com a nossa rapa você não é capaz!”

 

Brasil, 12 de Maio de 2016

Por Renata Correa, Biscate Convidada

Filha,

Falta um mês para o seu aniversário de quatro anos. Todos os dias antes de dormir a gente conversa sobre sua festa. Você já quis dinossauro, sereia, bailarina, baleia. Depois você me pede duas histórias e uma música para aceitar fechar os olhos. Daí você pega no sono entrelaçada no meu corpo e eu vou me desvencilhando de você para terminar de trabalhar, conversar com os amigos, tomar banho, ver as notícias.

Nos últimos meses eu tenho pensado muito nas histórias que eu vou te contar. Sua bisavó nasceu em 1930, e não votou para presidente até sua avó nascer. Sua vó nasceu em 1956 e não votou para presidente até depois do meu nascimento. Eu nasci no fim de uma ditadura militar e nas primeiras eleições para presidente eu já tinha sete anos. Já quando você nasceu eu já tinha votado para presidente três vezes e uma mulher era presidente da república.

Eu queria contar para você que, nós, essas quatro mulheres, vimos ano a ano uma democracia se fortalecer e estabelecer. Mas a verdade filha, é que a república do café com leite lá da época do nascimento de sua bisavó ainda está em vigor. E que as instituições que matavam, torturavam e desapareciam com pessoas na época da sua avó nunca foram punidas e continuaram em pleno fucionamento. E é por isso que estamos vivendo o que estamos vivendo hoje.

Imagina que hoje filha, alguns homens conseguiram, sem nenhuma justificativa, retirar uma presidente da república de seu mandato. Uma mulher que desfilou em carro aberto ao lado da sua filha também, quando foi tomar posse. Uma mulher que foi eleita pela maioria do povo brasileiro.

Desculpa filha. Quando eu comecei a pensar em política, achei que democracia era uma coisa dada, inabalável, um direito inalienável. Sua avó já tinha lutado por ela, bastava agora aperfeiçoá-la, incluir nesse sistema aqueles que nunca puderam usufruir plenamente dela. Errei.

Forças conservadoras sempre irão tentar esmagar subjetividades e impor retrocessos se isso representar poder. Queria te dizer para ficar sempre atenta e vigilante quando eu não puder estar. Nada está permanentemente conquistado, tudo está permanentemente em processo.

Eu gostaria de te prometer uma coisa: a mamãe vai continuar, tá? Agora um pouquinho mais calejada. Eu, assim como a sua bisa, e a sua avó, fizeram antes de mim, não vou desistir. De ter um País mas justo, igualitário, onde a disputa política não se converta em ódio, onde o cinismo não seja maior que o amor.

Espero que um dia você possa ler essa cartinha sem medo de ser agredida por suas opiniões. Sem medo de amar e ser amada. Sem medo de lutar as próprias batalhas. E claro, que também possa ter a tranquilidade de estar vivendo um sistema democrático pleno. Quero ter daqui uns anos uma história mais bonita pra te contar, filha. Não sei se vai acontecer. Mas eu prometo tentar.

Beijos da mamain.

renata-corrc3aaa1* Renata Corrêa é uma tijucana exilada em São Paulo, fotógrafa sem câmera, desenhista desistente, roterista praticante e feminista. Já fez livro pela internet, casou pela internet, fez amigos pela internet, compras pela internet, mas agora tá preferindo viver um pouquinho mais offline. Saiba mais dela no seu blog ou no seu tuíter @letrapreta.

Ocupem as escolas, ocupem tudo

Final de ano, me sinto mais ainda cansada que o normal e, convenhamos, 2015 não foi fácil. Cada dia uma porrada diferente, cada dia um 7 x 1 diferente na gente. Nem vou tentar começar a desfiar o festival de desgraças e tristezas pra não correr o risco de fazer competição de catástrofe. Não aguento mais nem me atualizar com as notícias. Tenho vontade de me refugiar só no quentinho das boas lembranças de um passado remoto quando ainda estava tudo mais ou menos bem.

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Mas, pra viver a gente precisa de ajuda para respirar esse ar pesado, para botar a cabeça fora d’água e puxar o ar de novo. E o que tem me animado a não desistir de olhar pra frente são os jovens. Pois é, 43 e já me considero velha. É que gente da minha geração já tem ou casa ou carro ou filhos ou um monte de contas a pagar por causa de algumas dessas coisas ou todas elas juntas e, aí, desiste de sonhar, de tentar mudar a si e ao mundo e aceita as coisas como estão e nos tornamos mais que realistas, nos tornamos pragmáticos, desiludidos e amargos.

Mas quem é que ajuda a impulsionar as mudanças de comportamento aqui e mundo a fora? Quem esteve em Paris 68? Quem foram os jovens que resistiram à Ditadura? Tem um chavão por aí que diz “não confie em ninguém com mais de 30 anos”. Trinta talvez não pra todas as pessoas, mas quarenta… com certeza.

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E hoje chego em casa e me deparo com essas meninas e meninos ocupando as escolas no estado de São Paulo. Nem terminaram o que na minha época a gente chamava de colegial e estão lá, lutando bravamente pelo direito de estudar contra uma reorganização sem objetivos claros, empurrada goela abaixo da comunidade escolar.

Sabem se organizar horizontalmente, distribuir tarefas. Estão arrumando as escolas, ao contrário do que a mídia, fazendo o papel de assessoria de imprensa do Estado e do governador, divulgou e… estão apanhando e sendo presos. Apanhando como se adultos fossem. Apanhando como se não existisse a proteção do ECA ou se como o Judiciário paulista não tivesse impedido a PM de forçar a invasão das escolas.

Dá raiva, nojo, quando ouvimos os áudios ( aqui e aqui )  de gente ligada à Secretaria de Educação e ao governo do Estado chamando para ir para a guerra contra essa molecada. É uma guerra desigual e desonesta da PM invadindo com cassetetes, balas de borracha, gás lacrimogênio e bombas de efeito moral versus estudantes de camiseta de escola armados de palavras de ordem.

A grande justificativa é o tal do impedimento da via pública. Juro que queria entender qual o amor do paulistano ou do brasileiro em geral ao carro e ao trânsito acima das pessoas. Mas é um amor seletivo pois gente do MBL impediu o trânsito ontem na Av. Paulista e a polícia nem deu o ar da graça para tirar um selfies.

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“Tempos difíceis estão por vir…” , diria Dumbledore. E é por isso que tenho tentando manter nesse espaço o otimismo. E apesar do horror que a violência dos vídeos e fotos me causam, a esperança no futuro que outros vídeos, fotos e relatos de uma gente linda, inclusiva, honesta, elegante e sincera me causam com seus cantos e gritos de guerra.

E porque ninguém velho e amargo como nós é que iria vestir com tanta galhardia uma camiseta escrita à mão: “tenho em mim todos os sonhos do mundo”. Sigam em frente, a luta é de vocês, e é também nossa, estamos juntos por um mundo melhor. Obrigada por não nos deixarem esquecer que tudo ainda é possível. Força.

Para mais informações sobre o #OcupaEscola clique aqui:

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https://www.facebook.com/Ocupa-E-E-Diadema-1505790296409080/?fref=ts 

https://www.facebook.com/ocupacaosalvadorallende/?ref=ts&fref=ts

https://www.facebook.com/brasildefato/posts/998486000199364

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Vamos Biscatear

Estou desde ontem tentando escrever esse post. O post de hoje. Da biscatagi. Ia falar de beijar na boca. Porque é bom. Porque beijei. Porque é caminho bom de biscatear. Sei lá que mais, eu ia trazer beijos e línguas pra humedecer as letras.

Mas no lugar de saliva achei as lágrimas. São elas que tem dado a cara dos dias. Lágrimas de tristeza. De raiva. De impotência. De pesar. De empatia. De mais raiva. De angústia.

Então o que trago hoje é um convite. Da gente usar esse cantinho como trampolim e se informar de tanta coisa dolorida, potente, desesperadora, inspiradora, combativa, transformadora que tem acontecido.

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Eu deixo três motes:

– o crime ambiental que aconteceu/está acontecendo em Minas e a cobertura jornalística desprezível.

– a ocupação das escolas públicas em São Paulo e a repressão belicoso, perigosa e criminosa feita pela PM.

– o #MulheresContraCunha que tem tomado as ruas de variadas cidades.

Não, não vou colocar nenhum link. Só dessa vez vou chamar assim: Vem. Vai. Vamos biscatear. Procura. Pergunta. Mexe. Remexe. Indaga. Espalha. Divulga. Perturba. Esse corpo que queremos livre, coloca na rua, na pauta, na luta.

Gênero, Prisão e Potência

Por Pedro Moraes*, Biscate Convidado

A invenção do sujeito
Um homem é uma invenção de si mesmo. Uma narrativa, uma personagem construída pra se comunicar com o mundo e lidar filosoficamente com a própria existência, com a vida nua. Essa construção é tanto menos livre quanto mais nos são impostas amarras sociais, e parte importante da luta por direitos humanos consiste em deslegitimar algumas dessas amarras, em afirmar que é possível e razoável ser outras coisas, sem prejuízo de direitos. Vou falar, no entanto, do mundo dos privilegiados: o que é que somos quando podemos ser tudo? Se tais barreiras normativas são brandas ou ausentes, o que é que resta por querer, o que é que se escolhe? Pretendo demonstrar que esse dever-ser majoritário, hegemônico, não é o melhor que a vida tem a oferecer, e é, também, uma prisão. Não me interessa se auto-imposta ou não: elencar culpados e beneficiários parece, nesse caso, uma operação ociosa e essencialista, que desastradamente anula a historicidade, a culturalidade e a chance de criticar no plano ideológico esse estado de coisas (se se tratasse mesmo da essência de alguém, combater o fenômeno seria uma operação fascista; pelo contrário, é pura ideologia e desconstruí-la é um gesto libertário). Isto não é um ato cínico, indiferente à dor de quem tem sua igualdade negada – pelo contrário: o que proponho é que é vantajoso libertar-se dessa prisão e que por efeito esse gesto será também, necessariamente, pela liberdade alheia.

Interlúdio
Se tratamos de fronteiras complexas como poder e potência, diferença e igualdade, é bom esclarecer de onde se parte: como bom comunista comedor de criancinhas, acredito na igualdade como um positivo. Ela não é, porém, um fim em si, um absoluto: ela é a condição em que as potências humanas podem melhor se realizar. Tratamos da horizontalidade da estrutura social. Tratamos, noutras palavras, da igualdade política, que já se pode inferir, em verdade, nas ideias de república ou democracia (para mim, dizer-se comunista é levar às últimas consequências – comme il faut – essas ideias clássicas, que de outro modo seriam apenas cavalos de troia). É a diferença (ou a diversidade de modos de vida, de fenômenos e experiências) que eu assumo como um fim em si, um bem em si. Do surgimento da vida e multiplicação das espécies à criação acelerada de sentido pela arte, o que acontece de extraordinário no mundo é produção de diferença. O avesso é o deserto, a repetição, a estéril paisagem lunar, a morte. Então, tomemos a distinção entre poder e potência em Deleuze e a valorização da diferença e (não paradoxalmente) da igualdade política como parâmetros.

Liberdade
O princípio da liberdade está na negação, na recusa, na revolta, e sua melhor antítese não está na prisão, no cárcere, mas na obediência. Constituir-se sujeito é tomar para si as rédeas da vida, assumir o próprio desejo, os riscos e as escolhas, em oposição ao que se possa esperar de cada um, em oposição ao poder e à alienação. E é assim que opera a heteronormatividade: ela não diz que não podemos ser alguma coisa (ela é mesmo muito anterior às identidades sexodivergentes que hoje reclamam aceitação – de modo que sequer poderia ser definida por sua recusa), o que ela diz é o que devemos ser. Não é só quem se desvia que está sob os efeitos, portanto, desse regime: quem não está sendo punido pelo desvio está também em sujeição, em obediência. As figuras prescritas num regime normativo não são opressor e oprimido mas, mais propriamente, desviante – quem se deve punir ou eliminar – e obediente – quem está ocupado em seguir as normas, e portanto deve ser aceito. E nem mesmo os papéis do fiscal e do fiscalizado são fixos: o desvio ou o cumprimento das regras são usados nas constantes disputas por superioridade moral e poder, e todos se fiscalizam mutuamente e esperam benefícios quando obedecem e prejuízo para seus competidores pegos em falta. (Obviamente, contudo, a vantagem é de quem já está em posição de ascendência social – este estará menos sujeito ao escrutínio e a punições, e poderá mais facilmente se aproveitar do desvio de um subalterno para reforçar sua inferioridade, sua submissão).

Insuficiência
Somos todos, em última instância, desviantes. Mesmo os mais obedientes ou mais adaptados a essa prisão ainda viverão sob o signo da falta, da insuficiência, sob o fantasma do deslize. Os papéis de gênero consagrados pela heteronormatividade estabelecem alguma interface com o natural, mas numa leitura engessada, simplista e caricata, enquanto esse natural é fluido e instável; refletem ainda uma divisão social do trabalho já há muito anacrônica e a ordem patriarcal da tradição judaico-cristã, com profunda assimetria entre o homem, concentrador de todo o poder, sóbrio e infalivelmente forte, e uma mulher pura, submissa e cuidadora. Esses não são apenas papéis inaceitáveis moralmente – são papéis impossíveis de desempenhar, e a malograda tentativa que todos levamos até algum ponto é um processo violento e trágico. Sempre falharemos: nunca machos o suficiente, nunca santas e maternais o suficiente; e sabemos o que acontece a quem é posto nessa situação: uma vez em dívida, estamos coagidos a obedecer mais ainda, a ceder mais terreno, mais liberdade, e propensos a cometer violências covardes em nome da ordem que é nossa credora.

Recusa e escolha
A recusa desses papéis, portanto, deve ser uma operação libertadora mesmo para quem não foi condenado, de saída, à subalternidade (como o são as mulheres), nem teve sua expressão sexual ou de gênero reprimida e sufocada. Falamos da renúncia a um poder triste, limitador da experiência, e da busca de potências em liberdade. Entre as expressões que costumamos atribuir à masculinidade existem potências que estimo e de que não me sinto ou sentiria constrangido a abdicar (a própria busca da autonomia, injustamente, é uma delas), entre outras manifestações que são pura barbárie e boçalidade, das quais busco me libertar – num processo que teve início tardio, o que lamento, mas que tem sido invariavelmente recompensador. De forma análoga, há expressões de um feminino arquetípico que me seriam negadas e de que eu busco, com grande prazer, me apropriar, tanto quanto me convenha. Se o machismo não é outra coisa, em sua operação mais fundamental, senão a hierarquização do masculino sobre o feminino, não acredito num antimachismo que não passe pela valorização do feminino – e isso num processo de deixar-se afetar, deixar-se envolver. Se sou capaz de postular que o Outro me é igual em valor, seria difícil explicar que não quisesse para mim nada, absolutamente, daquilo que o constitui. Como disse meu ídolo Gil: “Todo artista tem de aprender uma certa viadagem…” Ele o diz, ouso elaborar, porque muitas das potências que deve buscar um artista – citaria a abertura para a alteridade, a sutileza, a comunicação empática – estão, em nossa cultura, atribuídas a um feminino.

Contradição e coragem
Não raro, penso em quantos dos meus amigos mais próximos, pessoas muito inteligentes, são aberta e veementemente favoráveis à igualdade de gênero, ao reconhecimento e defesa dos transgêneros e das orientações sexuais divergentes e, no entanto, ainda constituem sua própria subjetividade num clichê conformista e não conseguem abandonar expressões anacrônicas do machismo – entre chavões, renúncias e piadas tacanhas. Não se deve cair no protesto banal que sugere que essas contradições anulam a opção política acertada, é importante dizer. No mínimo, essa opção tem resultado presumível na conquista de direitos para as minorias e serve para colocar quem quer que seja em xeque quanto a suas posturas: um machista convicto sendo machista não poderia sequer ser dito incoerente. Ou será que os movimentos identitários, tão afeitos a coerências, preferem um machista coerente a alguém trilhando um caminho cheio de contradições mas na direção certa? A escolha, me parece, deveria ser óbvia e não é – mas, assim caminha a humanidade. De todo modo, o que me interessa é provocar esses amigos, que tanto estimo: a fragilidade que demonstramos nessas expressões, nessas sobrevivências do machismo chega a ser melancólica. O medo de ser “visto como veado”, o medo de não dar conta da masculinidade que devemos ao mundo salta à vista, e é risível. Por isso os provoco, os chamo a exercer uma potência tida, nessa tradição anacrônica, como masculina: a coragem. Tenhamos a coragem de recusar esse papel e esse medo.

Liberdade e potência do não
Por fim, e numa tentativa de sintetizar minha proposta e expandir seu alcance, eu trato aqui de que o gesto radicalmente livre está na recusa peremptória das identidades – que são, impreterivelmente, um dever ser, um regime normativo. O espírito comunitário, destruído pela colonização ocidental/cristã/capitalista do mundo para que esta se afirmasse como poder único, precisa ser reconstruído sob um novo tipo de identificação, um encontro na diferença, e não na homogeneidade fascista. Reconheço ainda, é claro, que os oprimidos se orientam e se reúnem em vínculos identitários como forma de reagir a opressões sistêmicas e conquistar direitos. Isto tudo é, sim, legítimo, provou-se eficaz até certo ponto, e deve ser apoiado, em suas demandas legítimas, por quem quer que se pretenda libertário. Esses vínculos não podem ser, no entanto, o modelo final da ação política, pois, primeiro, não oferecem um caminho para a libertação de seu próprio conteúdo normativo: a tentativa de dar conta deste efeito colateral tem sido – o que é um evidente fracasso – a fragmentação sucessiva em novos agrupamentos identitários, numa espiral sectária que já beira a esquizofrenia; e então, sobretudo, porque não oferecem um caminho para o encontro entre os diferentes devires minoritários com que precisamos – e esse é o grande desafio da política contemporânea – constituir uma maioria política diversa, igualitária, libertária e antifascista.

Para além do fenômeno dessas identidades reativas, é certo que existe um encantamento, uma tentação em servir, obedecer, conformar-se: ser livre tem um custo terrível, não é nunca um processo indolor, nunca um processo de que saímos impunes, ao menos sem conhecer a solidão – o maior dos terrores, talvez, da condição humana. O pertencimento traz algum tipo de recompensa psíquica primordial e o buscamos mesmo nas mais estúpidas fontes, como atestam torcidas organizadas e outras seitas fascistóides que escancaradamente só existem para e pela nivelação e identidade de seus membros, sem nenhum conteúdo positivo, sem nenhuma intenção perceptível senão o estabelecimento de uma fronteira Nós/Outros e a consequente tentativa de destruição do Outro.

A liberdade não é panaceia ou éden, mas o inferno da alteridade, da experiência, do risco e do desconhecido; não o fim das dificuldades, mas seu começo – é sempre mais fácil obedecer. A liberdade é a dor inenarrável da recusa, o terror do enfrentamento que é dizer: Não. E o único terreno em que a vida pode verdadeira e radicalmente florescer.

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*Pedro Moraes, o moço à esquerda, é programador e editor da Revista Baderna. Os gritos de ódio devem ser encaminhados à seção de reclamações do site naofo.de

Do Útero ao Túmulo

Por Fred Caju*, Biscate Convidado

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caju*Fred Caju é nordestino. Poeta. Letras sumarentas que nos escorrem pelo canto da boca e, vez ou outra, deixam um travo, como a fruta que evoca. Editor do Castanha Mecânica. Curador do Cronisias. Pra gente não esquecer que letra é vida. Querendo mais, tem disponível na net o audiolivro do Arremedos de um dado viciado e os livros pro kindle: Arremedos de um dado viciado e Sumo de ranço.

O que espero para os próximos 8 de março?

Essa quinzena, lembramos o dia internacional da mulher do nosso jeitinho biscate: luta, celebração e inquietação, tudo junto, arfante e misturado…

 #nãomedeemflores #diainternacionaldamulher

Ontem, domingo, 8 de março. Dia internacional da mulher.

Moro nesta cidade grande que é São Paulo, com 3256326 de atos, eventos, debates acontecendo por todos os lados, para que a gente lembre (se bem que quem milita não se esquece) da importância desta data para as nossas lutas. Fiquei em casa, com o coração partido por não poder estar na rua, que era o que eu gostaria de fazer. Mas moro na periferia, longe do centro, longe de todo esse fervor. E meu pai doente e demandando cuidados me levou a passar boa parte da minha tarde ocupada com curativos e medicação.

Eis que depois vim pra internet, esse céu e inferno onde algumas pessoas sentem essa necessidade cabal de manifestar sua opinião sobre qualquer coisa. E por qualquer coisa, entendam aquilo que essas mesmas pessoas nunca viveram, nunca vão viver ou conhecer o bastante para dar pitacos, que às vezes elas defendem sem parar um minutinho sequer para refletir. Longe de mim, acreditar que só quem viveu determinada experiência pode opinar sobre ela.  Só que eu tenho essa coisa forte de respeitar as vivências dos outros. Certas vivências trazem delícias – e agruras – que só quem as teve sabe. E ser mulher numa sociedade machista como a nossa é para a maioria de nós, é uma luta quase diária.

Essa sou eu quando alguém diz que as mulheres reclamam demais...

Essa sou eu quando alguém diz que as mulheres reclamam demais, sendo que já têm “tudo”.

Pois bem. Nessa minha passada pela internet, vi um dos meus contatos do saite feice dizer que todas as chefes que ele teve na vida foram mulheres. E que a maior parte das colegas dele em Paris (sim, o moço estuda em Paris) eram mulheres. Até aí, legal né? Fiquei até feliz por isso. Aí, ele termina a fala dele com isso:

“Então parem de mimimi com o dia da mulher, nada tá tão difícil assim pra vcs. Comentários raivosos em 3,2,1…”

Ai, meu fiofó de asas.

Gente, por quê?

Queria pensar que foi ingenuidade do moço e que ele realmente não sabe quão discrepantes ainda são as condições de trabalho de homens e de mulheres. Ou que foi molecagem, sabe? O mocinho tá lá, no meio do inverno dos arredores da Sorbonne num dia de muito ócio, e aí ele queria atenção, esperando pelo menos uns comentários raivosos das feministas choronas e mimizentas que ele conhece…

Só que não.

Definitivamente não.

Quando se está bem do alto de uma posição privilegiada, é bem difícil desconstruir certas visões. O que o moço em questão expôs diz muito sobre ele, mas também muito sobre o quanto falta para que a gente realmente possa falar que existe igualdade efetiva entre homens e mulheres. Falta bastante. Tanto que as vezes o desânimo é inevitável.

Fiquei com vontade de ir lá registrar meu comentário raivoso. Porque a na verdade, para muitas de nós, o simples fato de sobreviver é um ato de resistência. Porque ao contrário do que algumas pessoas pensam e aí incluo o rapaz  branco, cis, hétero, de classe média e que pode estudar na França, tudo ainda é mais difícil pra gente. Ainda ganhamos menos. Ainda não temos pleno direito ao nosso próprio corpo. Ainda não temos representatividade forte na política, mesmo que sejamos a maioria da população de nosso país.

Diria a ele que ainda sofremos violência, discriminação e negligência pelo simples fato de sermos mulheres. Ainda exigem que estejamos sempre correspondendo a padrões estéticos que muitas vezes não se aplicam a boa parte de nós. Ainda somos julgadas como “essa é pra casar” e “essa é pra trepar”. Ainda dizem que não somos capazes de realizar certas tarefas porque somos “frágeis e pouco práticas”.

Bônus: ainda dizem que não podemos ser amigas umas das outras, porque somos traiçoeiras e não merecemos confiança. E ainda não podemos ocupar os espaços públicos na hora que quisermos, tendo companhia ou não, porque ainda existe a ideia de que mulher sozinha está disponível/pedindo para ser estuprada ou intimidada.

Eu poderia ir lá e enumerar muitas outras coisas que lembram o quão importante é a data de hoje, para todas nós. Mas adiantaria de quê? É só ele, o pobre moço que não entende por que as mulheres reclamam tanto (porque talvez pense que o mundo inteirinho é igual a Sorbonne e que todas as moças são exatamente iguais e têm as mesmas oportunidades do que as colegas dele de lá), que pensa assim? É claro que não. O mundo aqui fora não se resume às decepções (às vezes bem presumíveis) que tenho com as TLs alheias. Deletei o rapaz, problema resolvido. Mas e aí? O que muda pra mim e para as tantas outras companheiras que sofrem diariamente com a privação de tantos direitos?

Isto posto, fica aqui a minha esperança de que cada vez menos, o 8 de março seja entendido como um dia para dar rosas ou para fazer promoção de maquiagem ou de utensílios domésticos. Ou que seja um dia para que especialmente nós, mulheres militantes, sejamos julgadas e taxadas de choronas, mal amadas ou chatas pelo simples fato de não querermos ser tratadas como uma maçaroca homogênea, que basta ser um pouquinho paparicada (ou “homenageada”, a palavra fica a gosto do freguês) para que nos esqueçamos de todos os leões que matamos durante os outros 364 dias do ano…

Lutar contra a violência dói

Por Niara de Oliveira

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Já escrevi muito sobre violência contra a mulher, aqui inclusive. Causas, consequências, políticas públicas de prevenção da violência e cuidado com as vítimas, leis mais duras para punir agressores, mecanismos e estruturas que facilitem a denúncia e nos deem a real dimensão da violência sofrida (todos os números se baseiam na violência denunciada e estimativas), mecanismos que facilitem também a punição como delegacias, centros de referência, defensoria-promotoria-vara especializada, lei específica… Nada até agora parece ter sido suficiente.

🙁

Não, não é derrotismo puro e simples. É mais cansaço mesmo. É muito tempo lutando nessa mesma trincheira e cada vez que vou ao campo de batalha o cenário é o mesmo. Os relatos de como ocorreu, como foi a via crucis nessa estrutura legal que foi criada a partir da luta feminista nas últimas décadas, as marcas, a dor, a auto estima que não existe mais… O horror.

:'(

Não, não é derrotismo puro e simples. É cansaço. É constatação dos fatos. E é dor. O movimento feminista teve muitas vitórias ao longo das últimas décadas no Brasil, conseguiu quase tudo que queria em termos de estrutura para dar conta da recepção/tratamento da vítima e punição do agressor. Mas nada foi suficiente para coibir ou prevenir a violência. Os números aumentaram. Não só porque o número de denúncias aumentou, mas principalmente porque a população brasileira dobrou em 40 anos.

O machismo continua inabalável, intacto. E se antes éramos apontadas em mexericos nas conversas de esquina, bar, pátio do colégio e bastava não ligar para os comentários que atingiam a “reputação” ou incorporá-los, dependendo da personalidade de cada menina, agora ele se espalha pelas redes sociais, e esses comentários ganham provas materiais, e já não depende mais da personalidade de cada menina superar as difamações e mexericos. E elas se matam.

:'(

É tão perverso que esses homens (alguns tão meninos quanto suas vítimas) sequer precisem desferir um golpe para matar, basta enviar uma foto pelo celular ou publicá-la numa rede social. Solução? Vamos pensar em mais enquadramento legal, mais penas, mais estruturas e mecanismos para dar conta das vítimas que sobreviverem?

:-/

Faz tempo que penso que esse buraco é mais embaixo, e que talvez a única forma de prevenir a violência contra as mulheres seja pensarmos em educação antimachista. Ou continuaremos assistindo a secular manutenção da honra e caráter da mulher em sua sexualidade ser reforçada.

Continuaremos assistindo a secular manutenção da honra e caráter da mulher em sua sexualidade ser reforçada?

Hoje é mais desabafo mesmo. Dsclp!

:-(

:-(

Luta, Coragem e Memória: Substantivos Femininos

Por Niara de Oliveira

O assunto aqui é sempre biscatagi, mas tem momentos que precisamos falar sério. Hoje é um desses dias. A nossa tão amada e louvada biscatice e a liberdade para biscatear não seria a mesma não fossem muitas mulheres que se privaram dos prazeres da vida para lutar pela liberdade de todos.

Além de pegarem em armas quando foi preciso na resistência à ditadura militar brasileira e aos horrores que ela impunha ao país, foram elas as grandes responsáveis pela Anistia. Sim, a tão questionada Anistia que era para ter sido ampla, geral e irrestrita — mas que só serviu até hoje para proteger o Estado e seus agentes criminosos, torturadores e violadores de direitos humanos — foi resultado direto da coragem e da luta das mulheres.

“A anistia sancionada por Figueiredo foi parcial, mesquinha e restrita. Não houve pacto. Houve imposição. De uma pequena maioria, num Congresso ainda emasculado pela legislação discricionária, associada à truculência habitual dos trogloditas do regime. Aos que estavam do lado dos perseguidos restou apenas se curvar à correlação de forças e aproveitar os elementos de avanço que a medida de qualquer forma representava (porque ninguém seria louco para se recusar a sair da prisão ou a voltar do exílio).” — observa  Chico Assis, em Os penduricalhos da mentira.

Era a luta possível e mesmo com assassinados ainda ocorrendo no país (vide o caso de Vladimir Herzog, assassinado em 1975, e a lista dos mortos oficiais a cada ano e ainda a lista dos desaparecidos políticos) não se intimidaram e foram à luta.

Foi a advogada Terezinha Zerbini que conseguiu entregar a uma autoridade norte-americana em visita oficial ao Brasil em 1974 uma carta onde denunciava as condições dos presos e exilados brasileiros.

“Paralelo a este trabalho de denúncia, havia um trabalho de assistencialismo aos presos políticos em várias regiões brasileira, realizado por grupos de mulheres, que possuíam familiares e amigos de presos ou exilados. Tais mulheres realizaram práticas políticas na assistência aos presos, naquela época.

A partir de 1975 – Ano Internacional da Mulher – com a fundação do Movimento Feminino pela Anistia no estado de São Paulo, mulheres de todo o Brasil iniciaram a campanha pela anistia política aos presos e exilados políticos.

Inicialmente, a campanha pela anistia assumiu uma forma mais amena, sendo as reuniões restritas a ambientes fechados.  Naquele momento era arriscado opôr-se ao regime militar, cuja legitimidade apesar de desgastada pela crise do Milagre Econômico, era imposta, ora pela força física, ora pela propaganda ideológica. Falar de oposição ao regime militar significava: ameaça de levante submisso e comunista  contra a defesa da ordem democrática.

Mas o clamor por anistia política, entoada por vozes femininas, de mães e esposas que imploravam, ao Estado, o perdão de seus entes queridos não podia ser ignorado. Aos olhos da sociedade, tratavam-se de mulheres dispostas a reconstituir seus lares desfeitos pela “ameaça comunista”.

Com esta justificativa, as mulheres brasileiras iniciaram a campanha pela anistia aos presos e exilados políticos, protegidas pelo papel da mulher na sociedade: defensora e protetora do lar. Naquele contexto, não havia como bloquear a ação daquelas mulheres.

Progressivamente a campanha ganhou fôlego e avançou no cenário nacional e  internacional, dando origem a vários movimentos e comitês pela anistia em todo o país.

No dia 4 junho de 1977, forças policiais cercaram o prédio da Escola de Medicina da UFMG,  e efetuaram várias prisões, minando o III Encontro Nacional dos Estudantes, em Belo Horizonte. O objetivo deste encontro era promover a reorganização da UNE (União Nacional dos Estudantes).

Neste mesmo dia, várias pessoas manifestaram seu descontentamento com as atitudes do governo militar em relação à sociedade civil. Entre elas, destacou-se o discurso de Helena Greco, assustada com as cenas que havia presenciado e preocupada com a situação política e civil daqueles jovens (homens e mulheres), que reivindicavam uma realidade democrática para o país e o fim de todas aquelas perseguições, censuras e torturas.  As mulheres que se esforçaram para formar o núcleo do Movimento Feminino pela Anistia em B.H., aproveitaram a ocasião para convidar todas as mulheres mineiras a participarem de um ato de protesto contra o governo, vendo na figura de D. Helena, a representante maior daquela proposta. No dia 30 daquele mês foi fundado o Movimento Feminino pela Anistia em Minas Gerais, presidido por  Helena Greco.

As propostas iniciais do Movimento eram a luta pela anistia política e contra a discriminação da mulher. O núcleo mineiro foi um dos mais numerosos do país, chegando a congregar um total de 300 mulheres. Naquele momento, afloravam, de forma mais explícita, denúncias sobre as perseguições políticas, a situação dos presos políticos, dos cassados, dos exilados, dos desaparecidos e de seus familiares.

O principal motivo de integração das mulheres mineiras foi o mesmo que levou à desintegração do MFPA. Ou seja, a maioria das mulheres que se integraram ao Movimento o fizeram porque este era o único canal de participação possível naquele momento.

O principal motivo que levou o pioneirismo feminino à campanha pela anistia deve-se ao apelo humanitário da campanha. Ou seja, tratava-se de mulheres cumprindo seu papel designado pela sociedade: o de mãe e esposa, transmissoras de valores sociais e protetoras de seus entes queridos.”

(artigo de Anna Flávia Arruda Lanna, MULHERES E ANISTIA: ENTRE BANDEIRAS E FUZIS sobre o Movimento Feminino pela Anistia em Minas Gerais no período de 1975 a 1980)

Se hoje nós podemos biscatear livremente por aí — ou nem tão livremente assim, mas vamos enfrentando as adversidades com alegria — devemos isso às mulheres que subverteram o papel que lhes era permitido e foram além, levantaram bandeiras em nome da liberdade.

Fica aqui o pequeno registro do Biscate Social Club sobre a luta dessas mulheres. E para que essas histórias sejam conhecidas precisamos desarquivar o Brasil e promover o encontro dessa nação com a verdade e sua memória. Precisamos contar oficialmente, e com orgulho, a história da resistência ao horror oficializado pelo Estado. Para que se conheça, para que não esqueça, para que nunca mais aconteça!

Continuamos daqui, levantando outras bandeiras em nome da mesma liberdade.

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E para que conheçamos mais a história dessas guerreiras, assista ao filme “Que Bom Te Ver Viva” — baseado em depoimentos de mulheres (elas estão presentes no filme) que lutaram na resistência à ditadura, foram presas, torturadas e sobreviveram — e baixe em pdf o livro “Luta: Substantivo Feminino — Mulheres torturadas, desaparecidas e mortas na resistência à ditadura“.

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Este texto faz parte da 5ª Blogagem Coletiva #desarquivandoBR, que se realiza de 28 de março a 02 de abril de 2012.

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