Não obituário

Por Niara de Oliveira

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Tanta coisa para escrever e dizer… Sobre cenário eleitoral, sobre luta pela legalização do aborto, sobre cenário eleitoral e luta pela legalização do aborto. Ainda sobre ditadura e da luta por memória, verdade e justiça — esses substantivos todos, todos femininos –, e sobre o aniversário da Lei da Anistia e a luta pela sua revisão…

Mas há dias em que seria melhor não estar, e calar. Não estar no corpo, não estar atenta e forte, não tomar conhecimento. Não dá. É preciso dizer, mesmo quando faltam as palavras. É preciso lidar com as dores e perdas. Embora a morte, essa biscate, não deva ser temida, ela está aí e chega pra todo mundo.

Nem tinha acordado e já estava mais pobre, já estava menos eu. E pensando aqui que deveríamos escrever mais obituários. Obituários não apenas para pessoas, mas para tudo cuja perda teve relevância na nossa vida. Relacionamentos, objetos perdidos. Já perdi até casa. Deveria ter escrito obituário para ela (a casa), para os óculos escuros esquecidos numa lanchonete do dia do impeachment do Collor, para as fotografias do Calvin levadas num assalto em Fortaleza… Tanta coisa. Tem até sonho que merecia um registro fúnebre.

Mas dureza mesmo é escrever o tradicional obituário sobre pessoas queridas. É uma arte que não domino. Tanto que estou dizendo isso tudo para evitar de cumprir a tarefa. Desculpaê, não dá. É a dor suplantando a abnegação de dar o reconhecimento, o devido espaço na memória para alguém muito querido.

Se alguém aí for bom em escrever obituários, escreva um desse texto, e outro desse dia. 🙁

A gente estancou de repente…

O dia depois, seguinte. Aquele dia em que o mundo cresce e enquanto tudo não parece parar, vem a dor. Aquela hora em que a vida derrama-se, esgota-se o peito, amargura e horror. Aquele instante mediato, midiatizado, o pavor.

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Como erguer-se? Como sustentar-se? Como acreditar-se capaz de se manter, de não duvidar, de segurar forte, de não doer, de só amar e do amor recriar? Como velar?

Não tem razão. Não tem questão. Não tem senão. É a mácula. É a dúvida. É a miragem de uma alcunha devida, repetida, exigida, implorada e encarnada. Impregnada de vida, é o que queria. O mundo à frente, é o que teria. Um ser patente, é o que seria.

Uma flor que jamais desabrochará, Um sonho que jamais vingará. Uma folha que já, a mais, cairá. A falta da última desdita. A falta da última ferida. A falta da última despedida. Sem cor. Sem sorriso. Só lágrima. Dormindo na incômoda fileira. Sofrendo a interna trincheira. Provando da horrorosa maneira.

É a dor e não é assim. É a tragédia e não tem fim. É uma roda vida e não bonfim. Atitude? Consolo. Atitude? Decoro. Atitude? Atitude. Atitude… Não tem fim, sequer sim, dor assim, no dia seguinte.

#Luto #SantaMaria

 

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