Gira o mundo, Elza!

Nesses tempos absolutamente macambúzios, tristonhos, é comum que a gente se sinta sem nada a dizer…

Esses momentos do nada a dizer são broca na moringa. Eles martelam. E como aquele gosto de ontem, depois do fogo destemperado, mas sem a glória de um evento qualquer. Um guarda chuva imenso, chuva ácida.

A gente acaba, sempre e sempre, esquecendo que o mundo gira, naquela antiga anotação: sempre a girar. Nesse giro é sempre um buscar. Não quero com isso tirar destas irresignações, desta raiva, deste inconformismo, desta tristeza, a sua intensidade brutal. Não é relativizar. Mas o mundo de ontem sempre foi pior, as fogueiras, as forcas. Desde que alguém patenteou o fogo ou resolveu escolher um deus em detrimento doutros estamos nessa lama destruindo rio. Talvez nunca superemos esse egoísmo, essa latrina da acumulação, a meritocracia – a verdadeira bazófia do planeta. Talvez…

Aí, nesse cantinho e noutros por aí, a gente acaba tendo aquela coceira de continuar a crer, acreditar, militar. Sou daqueles que acho que isso é mais gostoso se for melado, molhado, ereto, bolinante, em sussurros, gemidos, tesões, olhares. Trocas: de fluídos, de ideias, de corpos, de linhas, de comida com cheiro de refogar.

Tá… deve o texto estar naquele pretensioso, falso otimista e tal e lal lousa mariposa. Ok, vamos aos finalmentes, entrementes: O disco novo da Elza Soares. Um colosso.

Elza encontrou os meninos de São Paulo, Rodrigo Campos, Kiko Dinucci, Rômulo Fróes, Marcelo Cabral. Nos versos cortantes do Passo Torto, na guitarra de Kiko que parece cortar, Elza – pra variar – se reinventa. A grande dama. A mulher do fim do mundo. A mulher excepcional. Desta vida e deste mundo que gira. E segue. Corre lá. São quarenta minutos de disco. Sairemos todos novos. É necessário: combustível. E como sexo, vital.

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Ciranda

Há um mês perdi uma tia muito querida, de maneira inesperada. Embora até já tenha adquirido um pouco de casca, essa morte me pegou de um jeito muito profundo, me deixando essa tristeza que ainda não consegui elaborar. Aí, me lembrei deste texto, que escrevi um ano atrás e que ainda não tinha publicado. Publico hoje, porque quero deixar registrado o quanto cresci cercada de mulheres incríveis! <3

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Minha família materna é enorme. Entre dois casamentos, meu avô teve 30 filhos! E, desse total, mulheres, muitas, muitas mulheres. Lindas, valentes, amorosas, debochadas, desbocadas, contraditórias (ô), gentis e com muito senso de humor. Mais que tudo, humanas.

Sob muitos aspectos, mulheres muito inspiradoras para todas nós, filhas e sobrinhas. Ainda que a figura do meu avô-que-mais-parece-personagem-de-livro seja mitificada entre a gente, sempre penso na minha como uma família na qual as protagonistas são elas e, mesmo em suas próprias famílias, elas parecem ser o centro no qual todo o mundo orbita.

Nos fins de semanas, essas irmãs costumavam se juntar para um lanche, hábito que ainda persiste, embora já com alguns desfalques (mortes e mudanças…) e, agora, pode ser em qualquer dia. E na prosa iam coando café e cosendo comidas, confissões, bolos, queixas, beiju, mágoas, cuscuz, conquistas, belezas e um levar-não-levar muito a sério a vida toda. Das gostosuras, só podíamos lamber o cheiro, com permissão pra comer depois, no rescaldo do fim da tarde.

Aquele era o momento delas. Quando muito, um prato nos era passado pelo buraco da fechadura. Ficávamos pelo quintal, brincando e espichando a orelha, porque nossa fome mesmo era do confessado. A minha, pelo menos, que sempre fui criança de curiar conversa de adulto.

Não me aguentava de vontade de me esgueirar pela fresta da porta, mas só me cabia mesmo imaginar o que elas tanto falavam naquelas confabulações vespertinas. O que me era impossível, obviamente. O que eu sabia da vida naquele então pra imaginar algo mais além que os dramas de “Pollyana”?

O “lanche das tias” era misterioso e meio intangível…

Um dia sai de lá e o evento virou um folclore delicado em mim. Até que, anos depois, numas férias na casa da minha mãe, elas apareceram, se enfiaram na cozinha, me convidaram e fecharam a porta. E, entre um causo e outro, em algum momento me distanciei da situação.

Foi quando me veio aquela compreensão quase das veias.

As minhas tias e a minha mãe me estavam dando a credencial para o mundo delas! O mundo das mulheres adultas da família. Naquele instante, naquele lanche, virei uma delas. Claro que em minha lógica de mulher sabida e estudada, que se outorga emancipada e senhora de si, eu já me tinha feito há bem mais tempo. Mas, estar no “lanche das tias”, falando de assuntos de tantas de nós, sendo acolhida por elas como uma igual, me emocionou um bocado. Agigantou-me.

Foi um encontro com aquela parte de mim torneada pelas histórias de vida daquelas mulheres tão formidáveis. Seus anseios, frustrações, dúvidas, desejos, renúncias, conquistas, crenças também diziam respeito a mim. Porque de mim dizem.

Numa metáfora bem obvia e super clichê, mas tão precisa, foi como se elas estivessem me entregando um retalhinho pra que eu também fosse aumentando o quadrado da colcha que sempre as manteve unidas e fortalecidas ao largo das dificuldades, agruras, quebrantos e bem-aventuranças. Foi um momento de muita alegria!

Lá estava eu, naquela espécie de maçonaria às avessas, na qual somente mulheres são bem vindas, sem grandes segredos seculares para esconder, mas ao mesmo tempo, sim. Algo só delas. Algo só nosso.

Do Útero ao Túmulo

Por Fred Caju*, Biscate Convidado

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caju*Fred Caju é nordestino. Poeta. Letras sumarentas que nos escorrem pelo canto da boca e, vez ou outra, deixam um travo, como a fruta que evoca. Editor do Castanha Mecânica. Curador do Cronisias. Pra gente não esquecer que letra é vida. Querendo mais, tem disponível na net o audiolivro do Arremedos de um dado viciado e os livros pro kindle: Arremedos de um dado viciado e Sumo de ranço.

Por partos e mulheres livres


Recentemente temos assistido uma grande polêmica envolvendo o parto domiciliar. Casos de partos fora do ambiente hospitalar que tem motivado uma série de debates sobre a liberdade da mulher parir onde bem entender, e como bem entender. Médicxs, juízes, juízas, promotores de justiça, gente da medicina e do direito vem se debatendo para barrar, tolher, regulamentar esse tipo de parto. Para entender até onde a mulher pode ser livre para dispor do seu corpo e da sua gravidez como quiser.
É preciso que se diga que esse é um debate um tanto elitista, pois se resume àqueles casos de partos domiciliares daquelas mulheres e famílias que puderam arcar com o que significa ter um parto domiciliar bem assistido hoje em dia: pagar umx médicx ou uma parteira, uma doula, umx neonatologista para ir em casa. Não estamos falando as mulheres pobres que pariram em casa por falta de opção ou por morarem num lugar inacessível a qualquer Hospital. Dessas não se fala, nem se preocupam os doutos magistrados e médicos. Essas são as invisíveis, excluídas, e não aparecem na mídia vendendo notícia. Estamos falando do parto domiciliar que não é para todas. É para quem tem acesso, muitas vezes, a círculos privilegiados e com dinheiro em estoque para arcar com isso. É para quem pode pagar. Mas, ainda assim: é um direito de quem pode. Como é um direito privilegiado de quem pode pagar um plano de saúde ter seu parto na suíte master do Hospital estrela mais mais. Ou daquelas que pagam um plano de saúde com muito custo e acabam nos protocolos de hospitais que, nem sempre, ou melhor, quase nunca, garantem seus direitos na hora de parir.
Infelizmente, a saúde capitalizada em nosso país como um bem de consumo. Temos o SUS para nos salvar e para continuarmos brigando por um sistema universal de saúde que reverta essa lógica. Mas ainda temos muito chão pela frente. O SUS tem incentivado a criação de casas de parto e a realização de partos naturais e humanizados, mas estamos longe de termos respeito às mulheres na hora de parir nos hospitais públicos. Basta que ver na pesquisa feita pelo Ministério da Saúde para avaliar a Rede Cegonha, seu programa integrado de promoção do parto humanizado, 62% de mulheres não conseguem sequer terem um acompanhante na hora do parto, direito legalmente garantido e que deveria pressuposto básico de todos os partos. Mas não é.
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Queria ressaltar, com todas as ênfases, que esse tipo de parto domiciliar não é a mesma coisa que um parto desassistido. O parto domiciliar é um parto onde existe uma equipe de saúde que atende à mulher, mas uma equipe que foge da lógica medicalizada e centrada no poder biomédico que existe nas instituições de saúde. Uma equipe que vai acolher a mulher no melhor lugar do mundo para que sua cria venha ao mundo: na sua casa. Parto que pode ter todo mundo peladx na banheira, parto com massagem, parto com a avó passando um café na cozinha, parto com respeito ao momento e a hora de parir, parto com música, parto com beijo, parto com amor. Mas, e se der algo errado? Bom, nos partos domiciliares existe sempre um plano B e um hospital de referência para seguir caso algo não saia como o esperado. Porque sempre é possível que algo não saia como o esperado, em hospitais ou em casa. Com ou sem médico. A vida sempre escapa de certezas. Mas o mito de que o parto domiciliar é menos seguro é o que querem vender como certeza.
Não temos estatísticas para evidenciar o número de partos domiciliares com qualquer tipo de intercorrência, mas sabe-se que são muito poucas, pois quando um caso surge, contra-hegemônico, cai o mundo na imprensa e nos fóruns de debates médicos e jurídicos, como assistimos nessas últimas semanas aqui no Distrito Federal. Um único caso. E o que temos do outro lado? Sabemos que a mortalidade materna no Brasil é enorme nos ambientes tão “seguros” dos hospitais. A Pesquisa “Nascer no Brasil” feita pela Fundação Oswaldo Cruz em 2014 trouxe o alarmantes dado de que a mortalidade materna no Brasil atinge o patamar de 69 mulheres a cada 100.000 nascidos vivos. É. Isso tudo. Temos ainda o Relatório da CPI da Mortalidade Materna de 2000 que apurou que 68% da mortalidade materna ocorre durante os partos e que em 98%  dos casos as mortes são evitáveis. Hum. Será que sair de casa e ir parir no Hospital é mais seguro mesmo?
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Mas aí vem algo que aprendi e vivenciei durante um Fórum sobre Parto que participei como debatedora pela Artemis na Associação Médica de Brasília: a mulher não é o foco de preocupação dos médicxs. Dane-se a mulher. O que importa é se o bebê vem ao mundo vivo e saudável. Não importa se a mulher pariu na posição de frango assado, se ela foi cortada sem necessidade por episiotomia ou numa cesárea desnecessária, se rasparam seus pelos pubianos para ficar “mais fácil” e “mais higiênico”, se ela passou horas desconfortável e sem a menor assistência.
O mundo machista acostumou-se a usar o corpo feminino e dele dispor sempre em benefício de outrem. Ou em prol da “família” ou em prol dos desejos do homem ou, ainda, para facilitar o serviço médico. Não é dado à mulher falar, reclamar, argumentar, não querer. “O que importa é a criança que carregas em teu ventre, mulher!. Fica quieta e aguenta”. Aguenta a violência, tão real e tão simbólica, e tão naturalizada na sociedade. Como nos mostra o Dossiê da Parto do Princípio é “normal” as mulheres passarem por violências das mais diversas ao parir, desde físicas até morais. Falas como: “na hora de fazer você não reclamou né? agora fica quieta” são corriqueiras, assim como cortes e invasões desnecessárias e sem o devido consentimento da mulher. Marcas que ficam, e seguem, no corpo e na mente de tantas de nós. Sim, eu também fui vítima de violência obstétrica.

Sabemos que o Brasil é campeão de cesarianas. Na rede pública vamos para um número parecido com 52% desse tipo de parto, enquanto o índice recomendado pela OMS é de 15%. Na rede privada, pasmem, o índice sobe para 83%, podendo até chegar a mais de 90% em algumas maternidades. A cesárea, obviamente, pode salvar vidas. Como é bom poder ter esse recurso. Mas, como toda cirurgia, devia ser usada para casos de necessidade. Tem que ter indicação correta. o que não acontece, por certo, nos 80% dos casos de cesárea de uma maternidade.

Ademais, se formos ainda olhar pelo “bem do bebê”, as cesarianas fora de hora podem acarretar males bem preocupantes para os bebês, como diz Melânia Amorim: “diversos estudos apontam que taxas de cesariana superiores a 15%-20% não resultam em redução das complicações e da mortalidade materna e neonatal e, ao contrário, podem estar associadas a resultados prejudiciais tanto para a mãe como para o concepto”.

Mas não, é o parto domiciliar, com sua liberdade e não enquadramento no poder médico e machista que querem tolher e problematizar. É o parto da mulher protagonista que querem apagar com falsos medos, é o parto onde a mulher tem voz e que tem vez que querem calar e abafar em uma dita normatividade científica e biomédica que de dados científicos não tem nada. É o parto da mulher que não se curva, que não se deixa deitar como é melhor para o outro, que não fica quieta e que assume as rédeas de seu corpo que querem culpar e colocar cabresto.

O que tem nesse falso problema é um monte de medo da mulher fora da curva, da mulher que teve seu parto como quis, que deu uma banana para os senhores de jaleco branco e foi ter seu filho com outra mulher que lhe afagou os cabelos e lhe olhou nos olhos sem bisturi nem injeção em punho. Se querem culpabilizar a mulher pelo parto domiciliar que resultou em qualquer dano para o bebê, que culpabilizem também a mulher que escolheu uma cesárea eletiva que resultou em danos para o bebê. Mas de preferência que não culpabilizem ninguém. Que as mulheres possam dispor sobre seus corpos como quiserem. E que tenham suporte de saúde, de direito, e informações claras para decidir.

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Mulher, de histórias e existências

Essa quinzena, lembramos o dia internacional da mulher do nosso jeitinho biscate: luta, celebração e inquietação, tudo junto, arfante e misturado…

#8demarço #nãomedeemflores #diainternacionaldamulher

De repente me perdi e me achei no site do Museu da Pessoa, que criou um especial somente com historias de mulheres. Segundo o próprio site, “Mulheres guerreiras que com amor, fé, esperança, determinação e muita luta triunfaram sobre os mais diversos obstáculos impostos pela vida.” Puro encantamento, saberes tradicionais, conhecimento ancestral, orgulho, altivez, picardia, liderança, charme e sabedoria.

Acabei passando horas ouvindo os relatos dessas mulheres e lendo as informações mais detalhadas publicadas na própria página, num link logo abaixo. Como a historia de dona Raiumunda Nascimento, rezadeira, curandeira, descendente dos povos Tremembé, mas também reconhecida como uma liderança do povo Tapeba. “Não tenho vergonha da minha historia.” Também me perdi e me achei com a de Valdenice Santos, lavadeira, que embalava sua lida entoando cantigas que aprendeu dos mais velhos e, hoje, integra o grupo “As lavadeiras de Almenara”.

Pra mim, esse coral é uma escola e cantar no palco, no meio dos colegas, é como uma formatura. Hoje em dia eu dou valor a tudo o que eu fiz. Porque o que eu fiz não é nada perdido: trabalhar na roça, ser cozinheira, bom, graças a deus. Voltar a passar a ser lavadeira (…). Eu vou te falar que eu tenho uma felicidade muito chique.

Ou mesmo a de Maria José Carvalho, liderança que se destacou na ocupação de terrenos vazios no bairro onde mora, de Vila Maria, em São Paulo. Ela narra o processo de organização das ocupações e de negociação do movimento. “Não há cidadania sem luta”.

E dona Maria da Paz da Silva, que saiu de um relacionamento abusivo e se apaixonou outra vez? “Pretendo viver o resto da minha vida com ele.”

Coisa linda pra mim é mulher contando sua própria historia. Mulher se reconhecendo também como protgonista de suas conquistas e perdas e dores e afetos. Pra mim, toda historia é formidável e toda vida é uma biblioteca inteira de sentimentos, de amor, de terror, de frases transcendentes, de finais felizes ou inquietantes, de vários epílogos que se misturam, viram prólogos e ressignificam narrativas.

Foi bem nessa toada que me lembrei do MAMU – Mapa de coletivos de mulheres. Criado por Maria Carolina Machado, é um projeto de mapeamento de coletivos, organizações, movimentos, grupos e projetos brasileiros que têm como foco as mulheres, o feminino, o feminismo, nossos ciclos, ritmos, reivindicações e lugares na sociedade.

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Em seis meses de existência, o MAMU tem cerca de 190 pontos mapeados. “É fundamental perceber que ele nunca estará completo, não é a sua função”, me conta Carol. “A ideia é que o mapa seja dinâmico, aberto e vivo, pronto para incluir cada coletivo e projeto formado e encontrado.”

O foco é a mulher e suas demandas, seja a de um coletivo, um movimento social, um projeto, um espaço ou uma iniciativa individual. Carol recebe vários pedidos de inclusão, no entanto, como ainda executa e desenvolve o MAMU sozinha, reconhece que pode ser um processo lento. “O desejo é que, num futuro próximo, esse mapeamento seja participativo e, com apoio e incentivo, possamos contar também com uma equipe para que esse processo de pesquisa, mapeamento e inclusão seja mais rápido e acessível.”

A expectativa é que o MAMU não seja apenas uma plataforma de visualização de pontos. “Queremos que esses grupos, ao se reconhecerem espacialmente, percebam suas afinidades, diversidade e façam conexões entre si.” Por isso, ela prevê a criação de campanhas de sensibilização, articulação, encontros e cursos que fomentem discussões, redes de troca de serviços, escambos e desenvolvimento de projetos.

“Desejo também que seja inspirador e motivador para o encontro de mais e mais mulheres, e a formação de mais e mais grupos.”

Se você conhece e quer indicar algum coletivo, movimento etc, é só ir no Cadastro do site e preencher os dados. Eles servirão de base para o mapeamento.

Poesia que transborda no corpo

Por Martha Lopes*, Biscate Convidada

livromarthaQuando eu tinha uns 13, 14 anos escrevia poesia, assim, compulsivamente. Escrevia principalmente para expurgar as paixões que me aconteciam e tudo aquilo que eu não conseguia entender. O tempo passou, eu virei jornalista e o impulso para escrever ficção, prosa e poesia foi ficando de lado. Foi só em um momento difícil, de profundo sufocamento, que resgatei esse jeito de transbordar.

O resultado são os 28 poemas reunidos no meu primeiro livro, “Em Carne Viva”, pela Kayá Editora, especializada em publicar literatura produzida por mulheres e livros que abordem questões de gênero e feminismo. São poemas que falam sobre fatias diferentes da vida: o trabalho, o amor, o tesão, a maternidade, o cotidiano. Mas, quando olho para todos eles, percebo algo que os une: o corpo. É ainda para essa superfície, para esse espaço das sensações, que levo tudo do que não é possível falar.

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Que coisa louca

eu desejar você

assim

como Lilith montada sobre Adão

e agarrar-te pelos cabelos

buscar a tua boca

no meio desse mar de gente

buscar só a tua boca

louca, louca

te amar nesse recôncavo

e saborear todos os licores

guardados no seu reconvexo.

********

Noturna

ontem em sonho te vi

com os cabelos soltos

quase escondiam seu rosto

seu tão perfeito rosto

então ávida,

eclipse

com sede de você

– e sabendo da sua sede de mim –

afastei seus cabelos

encontrasse com a minha

e deixei que a sua boca

que a sua boca

se colasse com a minha

e que a gente vivesse um amor

profundo e desejoso

um amor perfeito

como são os amores feitos em sonho

que fazem a gente acordar molhada

no dia seguinte

mas principalmente morta de

vergonha

depois quando encontra a pessoa

em carne e tesão tão concretos.

eu_perfil copy (1)*Martha Lopes nasceu em São Paulo, capital, em 1984. Formou-se em Jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero, na mesma cidade, em 2006. Escreve poesia e prosa desde a adolescência. É uma das diretoras da ONG feminista Casa de Lua e idealizadora do #kdmulheres, movimento que questiona a pouca visibilidade feminina no mundo da literatura e das artes em geral.

 

Muchacha en la ventana: un culo. Una inspiración

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Tenho uma reprodução bastante digna desse quadro em casa. Tão boa que a emolduramos de um jeito lindo, dando a chiqueza que ela merece. Quem olha de longe (e não conhece a origem, obviamente) pensa até que é original. Rá!

“Muchacha en la ventana” (ou “Figura en una finestra” ou “Figura en una ventana”) é uma famosa pintura de Salvador Dalí, de 1925, e retrata Anna María, sua irmã e principal modelo por anos (até que ele conhecesse Gala, sua mulher e musa até a morte).

Eu gosto muito mesmo desse quadro (aí pelo texto botei uns links para algumas rápidas e boas análises artísticas da pintura). Mas, passei a ter um xodó maior ainda quando, uns 2 anos atrás, Lucas, meu filho caçula, afirmou, perguntando:

– Mamãe, é você?!

Na verdade, outras pessoas já me tinham dito isso antes e outras disseram depois: que acreditavam que a retratada fosse eu. Mas, vindo dele, me fez dar mais atenção.

Preciso nem dizer que fico mega envaidecida, ne? “Quem me dera” é o que costumo responder pra quem ainda faz esse comentário. Principalmente depois do comentário do Lucas, acabei indo atrás pra ver se encontrava mais informações sobre a modelo de “Muchacha en la ventana” e qual não foi meu prazer ao descobrir em Anna María uma mulher realmente interessantíssima, interlocutora sagaz e inteligente, de despertar paixões.

Em minhas andanças rápidas pelo Google, encontrei este post, que achei pura delícia, no qual o autor comenta o seguinte sobre “Muchacha en la ventana”:

“El culo es la parte más daliniana del cuerpo. Y este es el mejor culo pintado por Dalí, el de su hermana, en una mezcla misteriosa de belleza comestible y voluptuosidad incestuosa.”

E vai mais além, porque não foi apenas o irmão que Anna María teria encantado. Em umas férias, ela teria conhecido o poeta García Lorca e a partir daí iniciado uma intensa troca de cartas com ele:

“El epistolario Lorca-Ana María es de una ternura deliciosa, con arrebatos atormentados de Lorca. ¿Hubo algo entre ellos? Yo apuesto a que sí. La admiración de Salvador por su hermana sólo fue superada por la del poeta granadino, que la tuvo como diosa de una nueva religión y musa de sus desvelos artísticos.”

Quando ela morreu, em 1989, o jornal “El País” publicou:

“Anna María compartió desde la infancia el universo de su hermano. Entendía sus gestos y excentricidades, e interpretaba su fantasía y tomaba parte en las bromas y juegos, a veces impenetrables, de Salvador. Fue compañera ideal, por su inteligencia aguda y penetrante, y su carácter alegre y divertido. Cuando la conoció Federico García Lorca, en la primavera de 1925, aquella camaradería fue una realidad insólita. En tiempos en que la mujer permanecía, social y culturalmente, marginada del mundo de los hombres, Anna María formaba parte del grupo de amigos y compañeros de su hermano. Fue atentísima testigo de la obra de Salvador y su más asidua modelo de la etapa plástica esencial del pintor de los años diez.”

Pode até parecer que ela ficava ali, orbitando ao redor de gênios, no único espaço que lhe era concedido e que, num primeiro olhar, não era o de protagonista. Mas, considerando o contexto da época e a intensidade de sentimentos e inspirações que essa mulher parece ter provocado, só consigo vê-la absolutamente fascinante – senhora de situações, com esse espírito biscate, moleque, de raiz, que a gente adora! E, finalmente, sendo eternizada por quadros como “Muchacha en la ventana”.

A pintura original está exposta no museu “La Reina Sofía”, em Madri.

PS: Se alguém quiser complementar esse texto, dando mais informações, vou adorar!

Mulheres rodadas: quem tá nessa roda?

Por Larissa Santiago*, Biscate Convidada.

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Essa semana, a poderosa internet nos agraciou com uma imagem que já era piada pronta: depois de ouvir os Bolsonaro da vida falar que a Dep. Maria do Rosário não merece ser estuprada, vimos um homem cis branco e [provavelmente] hetero exibir orgulhosamente um cartaz que diz: “Não mereço mulher rodada”.

Não me surpreende em nada essa declaração machista, depois de ter notícia da última pesquisa divulgada no Fórum Fale Sem Medo que aponta que 51% dos jovens defendem que a mulher tenha a sua primeira experiência sexual somente em um relacionamento sério; 41% afirmam que a mulher deve ficar com poucos homens; 38% garantem que a mulher que fica com muitos homens não serve para namorar e, difícil de acreditar, 25% dos jovens pensam que, se usar decote e saia curta, a mulher está se oferecendo.

Ora, a juventude aponta que a sociedade é machista e sexista e suas respostas corroboram com seus atos, justificando assim a dinâmica da sociedade patriarcal. Estamos falando de liberdade sexual e direito aos corpos também, e fica claro com essa pesquisa que a sociedade ainda acha que é ela quem manda nas mulheres.

Precisamos ter o aval de homens e instituições para resolvermos se queremos ou não nos relacionar, sair, transar. E seja lá qual for nossa “decisão”, teremos ônus.

Mas o que eu quero destacar nesse texto, além do machismo evidente, se resume a pergunta: De qual mulher estamos falando?

Fechem os seus olhinhos e imaginem a mulher rodada. Depois me contem nos comentários.

De largada lhes digo que essa mulher rodada tem independência financeira, no mínimo tem alto grau de escolaridade e provavelmente está no hall das “eleitas para um futuro”. Quero dizer com isso que algumas mulheres podem se dar ao luxo de serem rodadas, outras não. E mesmo que não exerçam sua liberdade sexual tal qual gostariam, serão taxadas de ““““prostitutas”””” [com muitas aspas, pois não há intenção de moralismo aqui] e sempre serão hipersexualizadas.

Queremos que ser rodada ou não seja uma escolha nossa, certo? Mas ainda temos os dedos do machismo em riste na cara, dizendo quem pode ser rodada e quem nem se quer pode andar na rua em paz, ou se sentar num bar com amigas de cor sem ser importunada pelos que se sentem no direito de invadir seu espaço e lhes cobrar atenção – e caso não role, ainda saem como as “““““vadias””””” [também com bastaaante aspas].

 O dilema da liberdade sexual atinge as mulheres de diferentes modos, essa é a verdade das coisas. O machismo e o sexismo também. É óbvio que o mocinho se referiu a todas as mulheres quando as quis insultar, mas para algumas mulheres – como essa que vos fala –  ser rodada tem um preço bastante alto e que envolve variadas questões. Isso significa que eu quero abrir mão de ser rodada? Não. Isso quer dizer que eu prefiro o celibato? Muito menos. Só não posso negar o fato complexo que isso, ser rodada ou não, significa na minha vida e na vida de outas mulheres negras. Impossível fechar os olhos para o simples fato de que isso na maioria das vezes não é uma escolha pra nós: está implícito, graças ao machismo, o sexismo e o racismo.

Por enquanto, vamos juntas tentando desconstruir esse pensamento machistinha uó enraizado de que mulher boa mesmo é mulher que não transa no primeiro encontro, de que mulher tem que ficar em casa enquanto uzomi sai com os amigos (vide video da plateia Altas Horas) e que nenhum homem merece (sic) uma mulher rodada.

De verdade? Nenhuma mulher merece essas violências simbólicas e essas baixarias, seja na rua, seja na internet. Estamos todas fartas e isso sim deve estar na roda!

 

larissa*Larissa Santiago é baiana e publicitária.

 

O Que Aconteceu Com Renée Zellweger?*

com a leitura querida
de Patrícia Guedes e Liliane Gusmão

Circularam esses dias uns links sobre a aparência de Renée Zellweger, no estilo antes e depois e a pergunta, em diversos tons, dos mais maliciosos aos bem preocupados: o que aconteceu com ela? Engordou? Emagreceu? Anorexia? Botox? Bronzeamento artificial? Cirurgia? Doença terminal? Drogas? Os comentários nos links não foram menos diretos e não pouparam agressividade e virulência: ridículo, aterrorizante, doente, repulsivo foram termos usados para descrever seus rosto e devastada, mentalmente desequilibrada, enlouquecida, embarangada, plastificada, algumas das palavras usadas – das que tive estômago pra ler – que se referiam a ela integralmente.

Então agora, vou dizer tudo que eu acho que tem que se discutir sobre a aparência dela: (                                ). Pois é, um imenso, enorme, absoluto: NADA.

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Mas, como sou muito legal e para efeitos pedagógicos, vou até responder a inquietação dos mais bem-intencionados: o que aconteceu com ela tem nome. Vida. Em muitos sentidos.

Vida, porque é uma mulher de 40 e tantos anos que tem uma doença de pele (rosácea), que usou bastante maquiagem dados seus compromissos profissionais, que se expõe a forte iluminação artificial por causa das filmagens, uma mulher que engordou e emagreceu várias vezes por motivos vários – inclusive de trabalho. Vida porque é razoável supor que ela riu, chorou, teve dor de cotovelo, passou alguma noite em claro, divertiu-se, pegou sol, pegou brisa. Então, vida, ou como costuma ser apelidada: tempo.

Mas vida, também e principalmente, porque o que lhe aconteceu é o que tem nos acontecido, a nós, mulheres, por todo o tempo que passamos nessa bagaça: somos observadas, julgadas, avaliadas e rotuladas. O corpo, o rosto, a “moral” sob uma enorme lupa. Uma série de “tem que” dos quais é difícil escapar (e nunca sem alguma marca), inscritos na estrutura e que, no máximo, nos é apresentado como uma luta individual. Autoestima, amor próprio, ser mais independente… uma dose especial de crueldade tomar como responsabilidade pessoal um problema social que se espalha na cultura.

Essa lupa enorme e constante não deixa escapar nada. A mulher está sempre errada. Caso se submeta ao padrão (olha aí, não sabe envelhecer, tá usando botox; tá magra demais,deve ser anorexia) e caso o ignore (devia ter vergonha de ir a praia mostrando as pelancas; olha já dá pra ver cabelo branco, é muito desleixo). Uma mulher TEM QUE manter-se jovem, mas, atenção, não pode aparentar estar querendo se manter jovem. Tem que ficar jovem sem esforço e aí, se envelhecer (risível usar o “se” pois viver é sempre “quando”) desaparecer. Sabe coméqueé, velhice é feio, não é pra expôr assim.

Li um bocado de comentários dizendo que ela não soube envelhecer com dignidade, como se houvesse um jeito correto de viver, como se a uma mulher – especialmente famosa – não houvesse pressão sobre a aparência, como se não vivêssemos em uma cultura que glamouriza a juventude, como se não houvesse menos papéis nos filmes para mulheres maduras, como se não fôssemos bombardeados diariamente com a relação entre aparência jovem e saúde. Como se “envelhecer com dignidade” fosse um caminho reto individual sem relação alguma com contexto sócio-histórico. Como se, especialmente, pudéssemos julgar como alguém deve viver sua própria vida. Alguém, claro, uma mulher. Esse animal público.

O fato é que nos sentimos no direito de avaliar e emitir impressões sobre a aparência das mulheres. Isso está tão naturalizado que nem nos questionamos sobre. Como se o corpo e o rosto da mulher existissem para o olhar dos terceiros e devessem a ele corresponder, agradar, submeter-se. Mesmo as pessoas que solene ou alegremente entoam: “meu corpo, minhas regras” às vezes escorregamos e estamos lá, dando nota mental pro corpo da coleguinha.

Então não, não devia interessar a aparência da Renée. Renée não existe pra enfeitar a vida de ninguém. Nenhuma de nós, aliás. Mesmo que você esteja falando com a melhor das intenções e super preocupado com a saúde dela, é bom prestar atenção no pronome possessivo. O corpo, a saúde, a aparência, tudo DELA. No lugar de apontar dedos pras coleguinhas, talvez seja melhor a gente desconstruir esses padrões que oprimem, machucam e demandam de todas nós um dolorido impossível. E, no “por enquanto” dessa demorada mudança de paradigma, todas as vezes que pensarmos em comentar a aparência de alguém – especialmente uma mulher, mais ainda uma mulher envelhecendo – vamos contar até 10. De preferência, em biscatês (um rala e rola, dois rala e rola, três rala e rôlas, OPS…). Distrai e faz sorrir.

PS. Não que cada uma de nós não tenhamos autonomia ou discernimento, não que sejamos conduzidas, moldadas e forjadas apenas pelo ambiente. Não. Mas ignorar esses fatores é cruel e deturpa o olhar. Não custa lembrar do Graciliano Ramos: “liberdade completa ninguém desfruta: começamos oprimidos pela sintaxe e acabamos às voltas com a Delegacia de Ordem Política e Social, mas, nos estreitos limites a que nos coagem a gramática e a lei, ainda nos podemos mexer”

PS2. Não por acaso a pergunta “o que aconteceu com Renée” leva-nos ao filme “O que aconteceu a Baby Jane” e à discussão sobre fama e aparência.

Cis e trans e o grupo LGBT: As diferenças entre sexualidade e identidade de gênero

Por Daniela Andrade*, Biscate Convidada

O que é cis ou cisgênero? Do latim, cis significa “do mesmo lado”. Cisgênero é um homem que nasceu com pênis e se expressa socialmente como homem (expressão de gênero), é decodificado socialmente como homem (papel de gênero) por vestir-se/comportar-se/aparentar com aquilo que a sociedade define próprios para um homem, e reconhece-se como homem (identidade de gênero), logo, é um homem (gênero).

Cisgênera é uma mulher que nasceu com vagina/vulva e se expressa socialmente como mulher (expressão de gênero), é decodificada socialmente como mulher (papel de gênero) por vestir-se/comportar-se/aparentar com aquilo que a sociedade define próprios para uma mulher, e reconhece-se como mulher (identidade de gênero), logo, é uma mulher (gênero).

Ao passo que transgênero é o contrário disso. Ou seja, são pessoas que apesar de terem nascido com pênis podem não possuir expressão de gênero e/ou papel de gênero e/ou identidade de gênero em consonância com aquilo que a sociedade espera para alguém que nasceu com um pênis e, logo, foi compulsoriamente designado como homem. Ou seja, é uma pessoa que apesar de ter um pênis, foge ao conceito de homem.

Assim como transgêneros são pessoas que apesar de terem nascido com vagina/vulva podem não possuir expressão de gênero e/ou papel de gênero e/ou identidade de gênero em consonância com aquilo que a sociedade espera para alguém que nasceu com uma vagina/vuvla e, logo, foi compulsoriamente designada como mulher. Ou seja, é uma pessoa que apesar de ter uma vagina/vulva, foge ao conceito de mulher.

Dentro do grupo das pessoas transgêneras há as pessoas travestis, transexuais, crossdressers, agêneras, bigêneras, genderfuck, e tantas outras classificações.

As definições não devem ser engessadas e nem limitar identidades, de forma que, a melhor definição para uma pessoa é aquela que ela própria lhe dá. De toda forma, é importante pensar nessas definições para que não se corra o risco de se achar que a palavra GAY dá conta de todas as identidades dentro do arco da diversidade identitária. Como uma palavra que diz respeito a uma pessoa que possui ORIENTAÇÃO SEXUAL diversa daquela legitimada socialmente vai refletir na identificação de pessoas que podem inclusive serem héteros? Ou seja, identidade de gênero (o gênero com o qual me identifico) NADA TEM A VER com orientação sexual (o gênero pelo qual me atraio). Uma pessoa pode ser travesti ou transexual e ser hétero, homo, bi, assexual (…), assim como acontece com todo o restante das pessoas que estão dentro do grupo dos transgêneros. De forma que não, a palavra GAY não reflete todo o grupo, outrossim, inclusive há mulheres lésbicas que ressaltam que o termo lésbica é a palavra que denomina politicamente o grupo das mulheres homossexuais, não a palavra gay.

Veja, não se trata apenas de meras diferenças conceituais ou meras palavras diferentes pelo que se está lutando.
Estamos lutando pela visibilidade das reivindicações das pessoas transgêneras que é bastante diversa das pessoas gays cis, ainda que estejam unidas por conta da discriminação que sofrem socialmente, em maior ou menos grau pra esse ou aquele grupo.

Quando se diz que a luta LGBT é a luta gay, que o movimento LGBT é o movimento gay, é importante ressaltar que pautas especificamente gays não atingem diretamente as pessoas transgêneras, uma vez que nem todas as pessoas transgêneras são gays. Vejamos, pelo que, de forma geral, escuta-se quando se ouve falar nas reivindicações do grupo LGBT:

– parada GAY
– movimento GAY
– orgulho GAY
– HOMOfobia
– casamento GAY
– adoção por GAYS
– família HOMOparental
– direitos HOMOafetivos

Pois bem, poderíamos perguntar, as pessoas gays passam pelas seguintes agressões?:

– ter o nome desrespeitado cotidianamente

– ter o gênero deslegitimado o tempo todo

– precisar evadir-se da escola dado o grau de agressões verbais e desrespeito INCLUSIVE vindas de professores e gestores escolares que insistem em não respeitar o nome social e o gênero da pessoa

– possuem o acesso ao banheiro barrado

– seus documentos não correspondem com aquilo que você é (nome e gênero)

– possuem sua identidade questionada frequentemente por todos aqueles que necessitam identificá-lo por meio dos seus documentos

– sua identidade é vista como patologia pelo consenso científico e faz parte do DSM (Manual Estatístico e Diagnóstico de Transtornos Mentais) e do CID (Catálogo Internacional de Doenças), bem como pela OMS (Organização Mundial de Saúde)

– possuem os genitais questionados frequentemente por estranhos? (você operou? você tem pênis ou vagina?)

– acham que você é mais ou menos homem de acordo com o número de cirurgias que você fez

– você necessita de laudos e ofícios de médicos de diversas especialidades para que acreditem que você é o que você diz ser

– possuem enorme dificuldade de encontrar profissional habilitado para receitar hormônios próprios para o seu organismo (lembrando que os hormônios não foram feitos pensando nas pessoas trans* e a bula dos mesmos não corresponde àquilo que acontece dentro do corpo trans*)

– possuem o corpo identificado como “corpo errado” por toda a população (fulano nasceu no “corpo errado”, como se só o corpo cis fosse o corpo certo)

– sua identidade é vista como fetiche pela maioria esmagadora das demais pessoas

– esperam durante décadas para conseguirem fazer uma cirurgia de transgenitalização, algo que lhe custa enorme sofrimento psíquico e muitas vezes suicídio

– sua identidade está dentro das mais altas taxas de suicídio e assassinatos mundiais

– contratos de empréstimo ou locação de imóveis são negados com muita frequência por conta da sua expressão/papel/identidade de gênero

– o mercado de trabalho associa sua identidade à marginalidade, ao crime e portanto, é extraordinariamente difícil encontrar um emprego

– sua identidade é vista como habilitada para ocupar apenas trabalhos dentro da prostituição ou em salões de beleza

– a necessidade que você tem de fazer cirurgias (como transgenitalização, mamoplastia masculinizadora, mamoplastia de aumento, remoção de útero e ovários, feminilização facial…) é vista como capricho, sem sentido, e há um total descaso com isso por parte do governo

– você precisa viajar quilômetros ou pagar do próprio bolso para obter atendimento médico especializado para o seu caso

E tantas outras agressões, bem, parece que os gays cis não passam por esse tipo de coisa, de forma que não dá pra dizer que todo mundo dentro do grupo LGBT é gay e que a pauta desse grupo é a pauta gay, pois não, não é.

Assim, há de se fazer distinção clara entre homofobia (preconceito por conta da orientação sexual) de transfobia (por conta da identidade de gênero), já que inclusive a raiz da palavra HOMOfobia reduz-se ao seu radical HOMO que quer dizer igual, quando as pessoas transgêneras são as diferentes do estipulado adequado no que tange à expressão/papel/identidade de gênero. É uma distinção que deve ser feita inclusive pra se visibilizar as agressões específicas sofridas pelas pessoas transgêneras a fim de se trazer para o debate essa problemática e se encontrar caminhos para resolvê-la.

Quando uma pessoa transgêneras têm nome e gênero desrespeitados, ela está sofrendo de transfobia e não homofobia. Como costuma brincar o ativista e transhomem João W Nery: eu sou um transhomem hétero, eu sofro por conta da transfobia, não homofobia. Ou: vemos o tempo todo as pessoas falando das famílias homoparentais, mas e as transparentais ninguém diz, dos relacionamentos homoafetivos, mas e os transafetivos? As pessoas trans também constroem famílias e se relacionam.

Frequentemente vemos pessoas dizendo que aceitam e não têm nenhum problema com os gays, mas que travesti/trans já é algo demais, ou que ainda que aceitem os gays, travesti/trans não dá para aceitar. O que seria isso senão uma demonstração explícita de transfobia?

E, ainda que se diga que são conceitos muito novos, muito difíceis e que a sociedade não vai entender, todas essas desculpas não passam de mote para continuar a invisibilizar as demandas da população trans*, que são expressivas, urgentes e diversas daquelas da população gay cis, ainda que, novamente, todas essas identidades tenham uma luta em comum que é contra a heteronormatividade (que aprisiona as pessoas dentro de um comportamento heterossexual, visto socialmente como o correto) e a cisnormatividade (que aprisiona as pessoas dentro de aspectos cis/cisgêneros, vistos socialmente como o correto).

daniela andrade*Daniela Andrade é uma mulher transexual, membro da Comissão da Diversidade Sexual da OAB/Osasco, diretora do Fórum da Juventude Paulista LGBT, Diretora da Liga Humanista Secular, que luta ansiosamente por um presente e um futuro mais digno às todas as pessoas que ousaram identificar-se tal e qual o são, independente daquilo que a sociedade sacramentou como certo e errado. Não acredito no certo e o errado, há muito mais cores entre o cinza e o branco do que pode supor toda a limitação hétero-cis-normatizante que a sociedade engendrou.

É o meu corpo. E eu o celebro.

Por Vanessa Rodrigues, Biscate Convidada

No começo do ano posei pra Evelyn Queiroz/Negahamburguer. Para quem não conhece o trabalho dela, vale uma navegada aqui. Nem foi algo planejado, foi bem no susto, pra falar a verdade. E um posar com plateia e a possibilidade de milhares de pessoas assistindo. Mas, já chego aí.

Antes disso, já tinha posado prum ensaio coletivo de nus, com fotos que acabaram expostas numa instalação no fim do ano passado, com o tema: “Beleza real”.

Nessa segunda vez foi assim: duas equipes de reportagem foram na Casa de Lua, ONG Feminista que estamos consolidando e onde a Nega tem estúdio. A primeira equipe filmou a Evelyn fazendo uma ilustração. A segunda se inspirou e quis fazer igual. Mas, a ideia era não repetir a modelo, que até já tinha ido embora. Aliás, quando falo “modelo” é força de expressão, ne, vocês sabem. Não havia uma modelo. Éramos mulheres comuns posando para uma artista.

A Evelyn ficou me convidando-provocando durante toda a tarde, mas eu estava meio tímida. Apesar de já ter vivido a experiência de posar antes, tinha sido pra fotos. Com TV pelo meio, nunca. Paniquei. Na hora H, no entanto, estava eu sentada no futon da sala quando a Nega chegou, me estendeu a mão e disse: “Vamos?!”

 Olhei pra aquela mulher jovem, tão talentosa, tão linda, tão sensível e amorosa, e fui.

vanessaevelyn

Ilustração de Negahamburguer

Subi a escada para o estúdio bem saltitante, tomada pela adrenalina. Nem é que eu tenha alguma questão com tirar a roupa. Até que minha relação com a nudez sempre foi tranquila e só melhora. Meu medinho era de me saber na TV. Meu problema era a câmera. Posar, mesmo com roupa, em foto ou vídeo, pode ser um acontecimento pra mim. Porque, a despeito de me olhar no espelho e, hoje em dia, me reconhecer com prazer e alegria, a visão que tenho sobre mim num registro de imagem pode ser bastante distorcida. Ou não corresponder ao que eu presumo ou imagino deveria ser.

Daí que vocês podem imaginar o quão gigantescas essas experiências representaram pra mim.

 De repente, me vi numa sala com a Evelyn, a jornalista, o iluminador e o câmera. Eu ri. E, ainda na adrenalina, fui me despindo pra aquele bando de gente desconhecida, confiando no profissionalismo de geral e no controle da única coisa que de fato me cabia: meu corpo. Admito que apelei prum malabarismo na hora de tirar o sutiã. Além disso, mantive a calcinha e a pose acabou sendo de bruços no puff. Até porque, não dava pra chocar a família brasileira.

Mas, é que entre o tirar a roupa e o posar tem o momento de andar seminua pelo recinto. Algumas vezes. E, principalmente, tinha a câmera, que iria registrar e, eventualmente, exibir parte daquilo na TV! Que situação. Ou não. Porque, no final, foi mesmo isso. Um contundente “ou não.” Tirei a roupa alegremente, careta (nem vinho rolou, vejam bem…), porque eu quis.

Estava eu, com meu corpo sem padrão – mas, com certeza, não no padrão assinalado como o “ideal”-, de mulher com mais de 40, que pariu dois filhos, nada atlética e com as pernas sem depilar! Era isso tudo. Minha história e eu. Juntas. Indissociáveis.

 E estava feliz. Tranquila? Não, necessariamente. Mas, feliz.

E não é que eu tenha tentado esquecer da câmera. Nem tinha como. Ela existia, enorme, invasiva, onipresente, lembrando-me do que viria. Mas, naquele momento, eu.estava.feliz! Na hora não me veio um pensamento racional ou elaborado “uau, como eu sou empoderada!” Foi mais um “que delícia esse negócio!” Era tenso e sexy, ao mesmo tempo. O “dane-se!” retumbou na minha cabeça. Bom, nem preciso dizer que a ilustra da Evelyn foi pura delicadeza, ne?

Conversei com a jornalista sobre padrões de beleza, tirar a roupa como ação libertária, posar… e também contei que passei a vida em dietas insanas até sentir que eu não merecia isso e começar um processo de amor e reencontro com a minha auto estima. Mas, reconhecia que a pressão é draconiana, que nos abate e que é difícil escapar muitas vezes.

E que ainda me sinto enredada, por momentos fugindo das câmeras, escondida atrás de alguém, como um espectro, sem sequer existir nos registros, mesmo estando lá. É um caminho. As vezes, a gente retrocede 3 casinhas das 5 que avançou. Mas, vai indo, ne? Participar dessas três experiências – a exposição, me deixar ilustrar e a matéria – e falar disso tão longamente como o faço agora também são parte da trilha.

Finalmente, claro que a reportagem na TV me deixou aflita e eu fiquei semanas esperando, com medo dos ângulos, dos closes. E quando foi ao ar, acabei nem badalando muito, mas por timidez e falsa modéstia que por um não gostar. Pra falar a verdade, pra quem eu mostrei até disse, na absoluta e livre sem-vergonhice: “Então. Eu, divando. Lide com isso!”

 Disse isso pra mim.

fotoperfilfor*Vanessa Rodrigues, jornalista, feminista, co-fundadora da Casa de Lua e gostosa. Escreve no Brasil Post e pode ser encontrada noFacebook e e Twitter (@vanerodrigues).

Palatável

Vamos lá… muitxs companheiras criticam essa ou aquela mulher por ter um discuso feminista digamos… palatável. Daí fui no pai (oi, patriarcado!) dos burros (oi novamente, patriarcado!) e achei o seguinte sobre a palavra…

1. Palatável
Por Alvaro Fraga (BA) em 02-01-2008
[Do ingl. palatable.]
Adj. 2 g.
1. Que é grato ao paladar ou gosto; que sabe bem.
2. Fig. Aceitável, tolerável:
“Seu papel [o de Getúlio Vargas] era corrigir os excessos, tornar a coisa palatável ao país e útil ao exercício real do seu domínio.” (Gilberto Amado, Depois da Política, pp. 1-2.)

Então…
1- eu mermo gosto do que tem gosto bom, “é grato ao paladar e gosto e que sabe bem” (ui!). Tanto que estou comendo chocolate nesse momento.

2- Gosto de ser aceita ou tolerada por pessoas que se pudessem escolher me matariam. Já que não podem gostar de mim, pessoa maravilhosa e muito da legal, dos males…

3- Esqueçamos Getúlio porque senão vou ficar falando da falta de representação das mulheres na política e tals.

Resumindo… que mais pessoas se digam feministas. Porque mesmo que não seja o feminismo que VOCÊ acredita, a utopia feminista é uma porta de entrada para leituras diversas sobre igualdade e diferenças. Para questionamentos, mesmo que leituras não aconteçam. Para conversas de mesa de bar e no jantar da família. Para enfrentar brigas que pouca gente quer tomar para si.

Sim, obviamente merdas acontecem, mas quem nunca? Claro que não se está, aqui, fazendo apologia de um feminismo que agrade gregos, troianos e machistas de estirpe e costas largas. O que se propõe é a) espaço constante pro diálogo, b) compreensão de que o machismo é estrutural e vamos, vez ou outra, enfiar o pé na jaca – todos nós – e,  c) principalmente, dar-se o direito de curtir quando coisas legais acontecem.

feminismo

Por exemplo? Esses dias a jovem Emma Watson, mais conhecida como Hermione, fez um discurso (pró) feminista na ONU. Um feminismo branco, de primeiro mundo e cissexual? Certamente. Mas um discurso que inspira e que diz, em maiúsculas, FEMINISMO pra jovens que crescem em uma cultura que trata o movimento como menor, revanchista e mal-intencionado. E ela vai e diz: sou feminista, ser feminista é procurar a igualdade de gêneros, vamos todos nesse embalo?

Pode não ser o discurso feminista que você faria. Provavelmente não é nem mesmo o discurso feminista que eu faria. E é, como todo discurso, passível de ser criticado e repensado. Mas não é, na minha opinião, um discurso a ser menosprezada ou ignorado só porque não é perfeito. O feminismo é, em processo.

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