O Sexo e as Negas: queremos só representação?

Por Bianca Cardoso*, bisca convidada e participação especial de Iara Paiva

Adoro novelas. Adoro mais ainda a dramaturgia televisiva brasileira, com seus tipos rurais românticos, ricos que dão banana para o Brasil, pobres que encontram uma bolada em dinheiro, mocinhas e vilãs com suas vidas cruzadas por vinganças, entre outros clichês. Porém, desde que comecei a me preocupar com as desigualdades sociais no Brasil, busco observar como a produção televisiva mostra as minorias e, especialmente como reflete o embranquecimento forçado de nossa sociedade. Em pleno 2014, ainda é difícil ver protagonistas negras e negros em telenovelas, por exemplo.

Portanto, ao ouvir falar pela primeira vez num projeto de seriado com quatro mulheres negras protagonistas, aos moldes do americano Sex And The City, tive alguma esperança. Porém, o título “O Sexo e as Negas” logo fez esse sentimento ruir.

Há muitas pessoas no Brasil que utilizam as expressões “nega” e “nego” de maneira carinhosa, para se referir as pessoas que amam com intimidade. Porém, isso não acontece em todos os estados e, num país com dimensões continentais como o Brasil, acho que essa deve ser uma preocupação de um programa que será exibido em rede nacional. Além disso, há uma referência a expressão “não sou tuas negas”, herança do nosso passado escravocrata tão presente nas vidas de tantas pessoas negras em nosso país. Ao dizer “não sou tuas negas” afirmo que não são sou como suas escravas, com as quais você pode fazer o que bem quiser, o que inclui molestar, ofender e até mesmo abusar. Por isso, mesmo que o novo seriado da Rede Globo fosse ótimo, isso não exclui o fato do título ser extremamente racista.

É óbvio que as pessoas virão jogar a carta do moralismo: mas qual o problema com o sexo? As negras não podem ser biscates?

Meu querido e minha querida, as negras podem tudo! A questão é que num país em que mulheres negras tem mais chances de serem estupradas é preciso repensar, criticar e debater como a imagem da mulher negra é representada na mídia e quais as consequências sociais disso. Não se pode esquecer que, na nossa cultura, as mulheres negras são hipersexualizadas. Porque o problema é esse. Óbvio que elas podem ter sexualidade, é óbvio que podem trepar. Mas em um país em que elas são mais estupradas, mais prostituídas por falta de opção, em que seus corpos são usados pra vender de tudo, quem pode falar e ganhar dinheiro com a sexualidade delas deveria ser apenas elas mesmas. Você sabia, por exemplo, que as mulheres negras recebem menos anestesia em procedimentos hospitalares como partos? Isso ocorre porque existe o mito de que a mulher negra é forte, aguenta tudo. As mulatas tão exaltadas, que tem a origem do termo na palavra “mula”. Por isso, não posso dizer que me surpreendi ao ver que numa das primeiras cenas do primeiro episódio de “O Sexo e as Negas”, um vendedor de carros negro ao ser questionado pelas protagonistas se há algum carro no valor que podem pagar responde: “Por esse preço podem levar um burro, mas a carroça fica por conta de vocês”.

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Há pontos positivos no seriado, como o fato de todas usarem cabelos afro com diferentes estilos e os números musicais do final que remetem a grandes estrelas da música negra americana como The Supremes. Também é fato que existem mulheres negras como Zulma, Lia, Tilde e Soraia. Porém, as quatro não avançam na representação das mulheres negras na televisão, porque repetem os mesmos estereótipos: carreiras profissionais subalternas a pessoas brancas, o objetivo final da vida é conquistar um homem, se precisam de dinheiro tem que recorrer a ações que são crime, sempre dispostas a fazer sexo sem importar o local e a presentear o homem que lhe faz um favor com sexo, entre outros.

Recentemente, em “Cheias de Charme” (2012), Taís Araújo fez o papel de uma empregada doméstica que tornava-se uma estrela da música. Parecia ser uma nova representação da mulher negra, justamente exorcizando o papel da eterna empregada doméstica. Porém, não foi o que vimos acontecer. Atualmente, na novela Boogie Oogie (2014) que se passa no fim dos anos 70, a atriz Zezé Motta faz o papel de uma empregada doméstica. Por mais que se alegue que na época, uma mulher negra com mais de 60 anos provavelmente seria doméstica, são autores quem escrevem as novelas e eles são livres para criar personagens. Fico arrasada ao constatar que uma atriz do porte de Zezé Motta, com tantos trabalhos pioneiros e revolucionários, ainda seja escalada para fazer o papel da empregada doméstica subalterna. Ela poderia ser uma profissional que ascendeu em uma empresa, uma cantora na discoteca que dá nome a novela, uma mulher casada com um homem rico que enfrenta o racismo em diferentes esferas. Ela poderia ser muitas coisas, mas preferem mais uma vez retratar a mulher negra como a empregada doméstica. É esse o lugar destinado a mulher negra na cultura das telenovelas.

 Então, quando criticamos o seriado “O Sexo e as Negas” e falamos com todas as letras que trata-se de um homem branco escrevendo sobre mulheres negras, não estamos dizendo que Miguel Falabella é o anti-cristo racista e que deve ser preso. Estamos dizendo que mais uma vez os estereótipos estão se repetindo, num veículo que ainda é o maior meio de comunicação do pais. E o retrato da mulher negra na televisão tem consequências nas vidas das mulheres negras da não-ficção cotidiana.

Outra pergunta que me faço é: quem assiste a esse seriado? Porque sendo exibido às 23h, imagino que as mulheres negras trabalhadoras das comunidades não terão muito tempo para assistí-lo já que precisam acordar cedo para pegar o transporte coletivo e continuarem suas jornadas triplas e quádruplas. Então, no fim, será um seriado para a classe média rir dos estereótipos das mulheres negras?

A Rede Globo até tem investido em programas com a presença ou elenco formado por pessoas negras. O “Esquenta” de Regina Casé e seriados recentes como “Suburbia”, mas a representação das pessoas negras no geral é a mesma: estão sempre felizes, mostrando que na vida o que importa é alegria. Também estão sempre ligados a música, carnaval e a imagem romantizada do pobre brasileiro. Essa representação estereotipada acaba tornando-se vazia ao não trazer uma representatividade ou uma identidade que não seja apresentada como algo exótico pelas pessoas brancas.

A boa notícia é que hoje as mulheres negras tem voz e isso incomoda muito, porque significa que novos espaços serão conquistados por elas, elas não vão esperar por convite. Por isso, convido você a acompanhar o projeto #AsNegaReal das Blogueiras Negras que pretende apontar e debater o racismo presente nesse novo programa.

Mais sobre o assunto: As Faces da Representatividade e 10 Motivos Óbvios pra Não Ver “O Sexo e As Negas”

10478212_885847744762498_1294414712196997681_n*Bianca Cardoso, feminista e ladra de namorados alheios no horário comercial. Nos intervalos é autora do Groselha News, moderadora e autora do Blogueiras Feministas.

Nós Resistimos! Negra Soy!

Por Lia Siqueira*, Biscate Convidada

“Sim, dá trabalho. O preconceito bate na gente, mas nós resistimos.” Foi o que respondi quando uma senhora no ônibus perguntou: “dá trabalho deixar o cabelo assim?” Compreendi o que ela queria saber. Mas o que me sufocava naquele momento precisava ser dito. Não queria trocar segredos para dar viço e volume ao cabelo. Não queria mais falar de babosa, bepantol ou do potencial de um bom cronograma de hidratação. Até então, vinha dando as respostas estéticas àquele tipo de indagação. Essas respostas eram as esperadas por quem tinha a curiosidade despertada pelos meus cabelos “petulantes”. Contudo, chega um momento que todas nós precisamos transcender a questão estética da resistência – comunicar a subversão da nossa negritude e assumir, responsavelmente, nosso lugar – mostrar o que de mais valioso nasce das raízes, sobre nossas cabeças. A intimidade de olhar nossas raízes sem relaxantes que infestam e festejam nossas cabeças, nossas ideias.

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Cultivar a relação de amor com nossos cabelos negros e retirar de nós mesmas os mais poderosos nós. Não me refiro a alguns emaradinhos naturais, provocados pela textura dos cachos. Falo dos nós difíceis, dos amarrados dos olhares, do escárnio, dos julgamentos,do racismo. Isso precisava ser comunicado! Quantas vezes eu transcendi em frente ao espelho… Minhas mãos e olhares perseguiam as espirais sobre a minha cabeça – o encantamento, o prazer, o amor e a autoconsciência que daquele ato nascia fazia valer qualquer dor e desaprovação. A descoberta agridoce das minhas raízes era simplesmente o melhor sabor que passara pelos meus sentidos. Isso precisava ser comunicado! No breve momento, entre a pergunta e minha resposta, levei minha mente dos meus momentos da negação/frustração até à luta quotidiana pelo empoderamento em negritude.

Sou filha de uma branca e um negro. Nasci da mistura tão hipocritamente festejada para os gringos nessa nossa pseudo-democracia racial. Vim ao mundo assim: embaralhada nesse ser-não-ser negra. De pele “morena”, nesse Brasil em que todas as gatas são “pardas”, “moreninhas”, “torradinhas”, “mulatas”, “marrons”, mas não “negras”. No meu lar, não aprendi a rechaçar a negritude ou me embranquecer. Era amada nos meus cabelos crespos, pela minha mãe branca – ali, era eu e estava segura. Mas a socialização chega, ela é inevitável. Com ela, somos atropeladas pelos filtros dos preconceitos. A incompreensão dxs coleguinhas na escola rapidamente transformou-se em racismo. Como no início do poema de Victoria Eugenia Santa Cruz Gamarra, “Me gritaron negra”, eu recuei perante as risadas por causa do meu cabelo crespo. Antes dos treze anos já usava alisantes e relaxantes.

““¿Soy acaso negra?” – me dije ¡SÍ! “¿Qué cosa es ser negra?” ¡Negra! Y yo no sabía la triste verdad que aquello escondía. Negra! Y me sentí negra, ¡Negra! Como ellos decían ¡Negra! Y retrocedí ¡Negra! Como ellos querían ¡Negra! Y odié mis cabellos y mis labios gruesos y miré apenada mi carne tostada Y retrocedí ¡Negra! Y retrocedí…”

Com o tempo, sufoquei todos os verdadeiros motivos que me levavam a alisar os cabelos. Dizia alisar por uma suposta questão de praticidade. Reproduzia de maneira vazia “cabelo crespo não combina com o meu estilo e assim liso é mais fácil de cuidar”. As doses periódicas de guanidina me faziam postergar o conflito – ficava ali escamoteada. Habitei meu cárcere por 10 anos. O abandonei aos poucos, tive o amor da mãe e da irmã, o apoio das amigas e companheiras e a admiração do namorado por quebrar as correntes, preconceitos que introjetei. Minha raiz crescia e as perguntas também. E eu, que nascera embaralhada na aparência (pele cá, quadril e nariz acolá). Iniciava o caminho da autoconsciência, primeiramente desconstruindo, questionando. “A me perguntar: Eu sou neguinha? Era uma mensagem lia uma mensagem Parece bobagem mas não era não Eu não decifrava, eu não conseguia Mas aquilo ia e eu ia e eu ia e eu ia e eu ia e eu ia” “A gente nasce preta, mulata, parda, marrom, roxinha dentre outras, mas tornar-se negra é uma conquista”, disse Lélia González – a consciência de ser negra é uma conquista em um meio que pregoa o branqueamento. Avançando contra uma “normatividade racial”, onde antes eu tinha um pé, firmei os dois e construí minha identidade. “Nasci” mulher negra aos 23 anos, me descobri bela na luta, meu lugar! E hoje penso que, na verdade, é temor isso de evitar chamarem-nos (e nos chamarmos) de NEGRAS. Afinal, uma vez sabendo o lugar de onde falamos, saberemos como e ao que resistir. Compartilho esse lugar – vejo companheiras libertarem-se e empoderarem-se pelos seus fios, pela sua pele, pelo seu nariz, pelos seus quadris, pelo seu sorriso. Sei que a luta de tantas delas é ainda mais árdua por encontrarem resistência, inclusive, entre xs que amam. Mas sorrimos umas para as outras, admirando reciprocamente nossos “black’s” -nossos propósitos iniciam-se sendo cultivados em nosso corpo, nosso cabelo, NOSSOS territórios, mas transbordam-nos e transbordam a estética – resistem em forma de consciência negra. Isso, eu precisava comunicar àquela senhora. Isso, nós precisamos comunicar todos os dias! Como fazemos para nosso cabelo ficar assim? Nós resistimos! Negras somos!

“¡Negra! Sí ¡Negra! Soy ¡Negra! Negra ¡Negra! Negra soy De hoy en adelante no quiero laciar mi cabello No quiero[…] ¡Negra soy!”

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*Lia Manso é advogada, mestranda em direito s humanos e inovação. Faz parte do MNU e é Suplente da Coordenação Nacional de Mulheres no movimento. Milita e estuda pelo direito de minorias. Ama 30 Seconds to Mars e Johnny Depp, o filme Matrix e as séries How I Met Your Mother e Friends

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Quantos namorados preciso roubar para configurar formação de quadrilha?

Por Bianca Cardoso*, Biscate Convidada

Ativistas e participantes de protestos foram presos por meio de medidas absurdamente arbitrárias que ferem direitos fundamentais da democracia. Essa semana, foram revogados os pedidos de prisão temporária e começaram a surgir mais informações sobre o inquérito.

Uma das principais testemunhas é um ex-integrante do grupo Frente Independente Popular que tem um histórico de violência contra a mulher.

Então, a denuncia de uma pessoa que se desentendeu com o grupo do qual fazia parte foi a peça fundamental para estabelecer o inquérito. Parece programa de fofoca, mas o melhor ainda estava por vir. A manchete em letras garrafais diz: Traição amorosa de ativistas ajudou na investigação do Rio.

Uma traição amorosa na cúpula da organização rotulada pela Polícia Civil e pelo Ministério Público de quadrilha armada ajudou os investigadores a apurar como agia o grupo responsabilizado pelo comando dos protestos violentos que ocorreram no Rio a partir de junho de 2013.

Líder dos manifestantes, Elisa Quadros Pinto Sanzi, a Sininho, é acusada em depoimento de ter roubado o companheiro da ativista Anne Josephine Louise Marie Rosencrantz. Veja bem, Sininho não é apenas a maior terrorista que esse país já teve. Ela também ROUBA namorados de outras militantes. Nesse momento, alguém levanta a plaquinha: cadê a sororidade, Sininho? E eu respondo que a verdadeira sororidade é a siririca.

 Então, não basta acusar Sininho de ser uma terrorista por meio de ligações gravadas em que ela pergunta o preço de um rojão, que é vendido em qualquer loja que comercialize fogos de artifício. Também é preciso pintá-la como uma “destruidora de lares”. Porque mulher que rouba namorado de outra, com certeza não é alguém de confiança. Porque o machismo tem que ser inserido na questão para mostrar o quanto essa mulher faz “coisas erradas”.

 Em pleno 2014, nós ainda vemos afirmações como essas: mulher rouba o namorado da outra. Como se alguém pudesse ser usurpado de um relacionamento, como se as poções mágicas de amor fossem reais. Porque quem foi roubado é o homem comprometido, que estava indefeso e, segundo uma das testemunhas, era tratado como capacho por Sininho.

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 Não há defesa social para a mulher que rouba namorado na sociedade machista. Não há direito constitucional para a mulher que se atreve a ter relacionamento com um homem comprometido. Parece que não há desejo nos relacionamentos. Que as pessoas não fazem escolhas e não tem autonomia. Então, minha dúvida é: quantos namorados preciso roubar para configurar formação de quadrilha? Preciso acumulá-los? Posso repassá-los numa boca de suruba? Posso traficá-los se pagar uma cerveja para a polícia? Porque a única acusação que há contra essas pessoas, segundo o próprio desembargador Siro Darlan, é essa.

 Sininho é uma mulher. E não sou eu quem vai dizer se é inocente ou culpada, não sou eu quem vai julgá-la. Porém, o veredito social de ser uma biscate, uma vadia, ela já tem. E me reconheço nesse veredito, porque perante os olhos da sociedade eu roubo namorados de outras mulheres, quando na verdade, estou apenas vivendo minha sexualidade sem me preocupar com os compromissos que essa pessoa tem ou não. Parece nonsense dizer isso, mas sinto que precisamos explicar: as pessoas não são um objeto para serem roubadas. Elas deveriam ser livres para serem o que quiserem. Ao menos, agora, Sininho responderá o processo em liberdade. Mas, a liberdade das mulheres fica onde quando o fato de roubar o namorado de alguém é um dos itens constantes num inquérito policial sobre formação de quadrilha?

10478212_885847744762498_1294414712196997681_n*Bianca Cardoso, feminista e ladra de namorados alheios no horário comercial. Nos intervalos é autora do Groselha News, moderadora e autora do Blogueiras Feministas.

Ninguém nasce feminista, torna-se feminista

Por Nikelen Witter*, Biscate Convidada

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Imagem pescada do Blogueiras Negras

É bem legal dizer que a gente é feminista desde criancinha, que a pataquada do patriarcado nunca nos convenceu, que a rebeldia esteve sempre presente em nossas veias, que nunca atendemos às ordens de fechar as pernas, sentar eretas ou deixar os meninos falarem primeiro. Sério, é BEM legal. Mas, na maior parte das vezes, isso é só uma parte da verdade. Não tem nada a ver conosco, ou com as nossas memórias, nem são mentiras para parecermos mais cool in the feminist world. Tem a ver com o fato de que nascemos imersos numa cultura patriarcal. Com o fato de que ela nos forma, informa e enforma. Se alguém levanta do dedo e diz: “não, comigo foi diferente”, deve lembrar que é um, que isso não é o coletivo, e que as exceções, quase sempre, estão aí para confirmar a regra.

Tornar-se feminista é um caminho longo, cheio de curvas, cheio de auto percepção. Não raro com brigas violentas, com os outros, consigo mesmx. Todas as nossas informações sobre o mundo estão construídas e alicerçadas em séculos dessa cultura centrada no masculino. Estes séculos viajam desde a teoria do sexo único (há o macho e um macho deformado chamado mulher) dos gregos e que até hoje está presente em nossa linguagem quando usamos o homem como sinônimo de humanidade. Passam pela origem do pecado: teu nome é mulher. Chegam ao mundo do sexo binário, em que o feminino (fé menor) é visto como mais frágil, mais fraco, mais indolente (claro, porque ter 19 filhos em sequência é moleza). Todos esses discursos reduzem à biologia elementos que são culturais. Todos esses discursos trabalham no sentido de crescermos acreditando que todas as diferenças com que o mundo trata os homens e as mulheres são óbvias e naturais.

É comum ouvirmos em resposta: “as mulheres têm filhos. Ponto.” Como se isso fosse explicação suficiente. Não é. As fêmeas terem filhos é um dado biológico, no caso dos humanos, porém, todas as construções feitas a partir daí terão traços culturais. No que se releva, no que se hierarquiza, nas formas social e culturalmente endossadas e valorizadas de comportamento. As comparações com fêmeas animais (muitas vezes até “melhores” que as humanas), nesses discursos, têm igualmente o mesmo objetivo, acomodar à biologia – usada como argumento inquestionável (?) – toda a história humana, com sua evolução, diversidade, recriação, reorganização, mutação. Pior, em muitos desses discursos, toda a diversidade da natureza é apagada para se recolher apenas aquilo que pode ser usado para referendar um padrão feminino e ocidental, cuja criação tem cerca de 2 milênios de história e uma “rigidez” de menos de 200 anos.

Criadxs sob esta lógica, tornar-se feminista é contracultura. Nesse sentido, infelizmente, não basta vivência ou experiência. O feminismo como uma meta nos exige reflexão, reconstrução e, quando possível, formação. Já ouvi muitxs jovens dizerem: eu acho legal o feminismo, mas não me sinto capaz de dizer que sou feminista porque não conheço o suficiente. Numa palestra que ministrei, comecei com: “vocês devem ter algumas dúvidas…” O pessoal balançou tão enfaticamente a cabeça que reconsiderei meu algumas.

Nessa mesma ocasião, recebi a seguinte reclamação: “a gente tenta perguntar, mas muitas feministas debocham da gente, das nossas dúvidas”. Identifiquei-me imediatamente nos dois lados da questão. De um lado, essa escalada difícil contra a cultura hegemônica, essas dúvidas que envolvem questionar (muitas vezes) a mulher que mais admiramos e nos espelhamos: nossa mãe e a vida que ela levou. Essa dificuldade de se colocar contra pais, patrões, namoradxs, contra o “mundo todo”. É difícil sim, não se pode fingir que não é. Perceber isso não é afirmar uma guerra ou buscar culpados, é entender as regras do jogo como estão postas. A contracultura das diversas correntes do feminismo quer mudar o jogo todo, mas antes é preciso modificar as peças e aí está a outra dificuldade. A auto modificação leva tempo e causa dores, secreta raivas, afunda tristezas. Num dado momento, olhar para quem ainda não andou esse caminho é como se nos víssemos mais uma vez, aceitando o que nem de longe aceitamos mais.

Como elxs não notam tudo o que está errado? Simples, da mesma maneira que um peixe que nasce na água salgada (mesmo que metaforicamente possa viver na doce) não sabe a diferença entre uma e outra. Não acha que a água salgada lhe pesa, pois ela sempre esteve ali, sempre foi daquele jeito e há uma grande quantidade de peixes dizendo que a natureza é assim e que querer a água doce é loucura de peixas mal amadas que odeiam o mar inteiro.

Não, nem de longe eu imagino ter todas as respostas sobre o feminismo. Acho que nem quero ter. Por isso mesmo, sempre que ouço qualquer pergunta, lá vou eu tentar me pensar, me perguntar; ver se, onde e como essa dúvida me corrói e, claro, buscar informações para responder. Isso porque, dada a minha experiência bem limitada de humana, nem todas as questões da cultura se puseram para mim. Não posso, de onde estou, olhar tudo e dizer que sei como se deve agir nessa ou naquela situação. Assim, creio, ainda estou no processo de tornar-me feminista, como todxs estamos, pelo simples fato de que continuamos a pensar e a responder as questões que o mundo e cultura nos propõem. E essas questões podem ser antigas ou mudar todos os dias.

Quando Simone de Beauvoir falou em tornar-se mulher, ela falava dessa imersão que nos informa e forma. Como não estamos imersos no feminismo, é natural que esse tornar-se seja mais longo, mais difícil e caudaloso. Provavelmente, sequer possa ser terminado por qualquer pessoa nessa nossa estreita passagem nesse mundo. Até lá é perguntar muito. Questionar(-se) o tempo todo. E, quando possível, responder as tantas dúvidas de quem está começando a mesma escalada que a gente.

nikelen*Nikelen Witter teve que aprender a aceitar o próprio nome e com isso compreendeu que não tinha saída se não ser diferente. Transformou a vida de E.T. em profissão só para ler em tempo integral e acabou dando aula de História em faculdade. Atualmente, tenta escrever compulsivamente na medida que os dias e noites permitem, militar pelo feminismo e seduzir jovens leitores (porque a ideia de seduzir os jovens é boa demais!).

Bissexuais

Por J. Oliveira, Biscate Convidada

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Entre beijos, abraços, apertos, carinhos e gozos nunca fui boa em escolher. Paixões se fizeram assim sem pedir licença, quando me dei por conta já tinha acontecido. Desejava e amava mulheres… também. E sem esperar vieram também os rótulos e os preconceitos embutidos.

Sapatão. Hétero. Indecisa. Vive em cima do muro. Mentirosa. Promíscua. Tá no armário. Mas você tem mais opções. Você precisa avisar antes. Nojo. Eu devo ter medo de você? São os bi que transmitiram a aids para os héteros. Quer pegar todo mundo né? Mas ninguém como você quer um relacionamento sério, certo? Mas qual você prefere? Como posso confiar em você? Sua vida á mais fácil, você pode ser hétero. É só uma fase. Vocês são mais evoluídos. Só vou se o lugar for 100% gay. Claro que você é não-monogamica, todas vocês são. Que tal você me apresentar um amiga sua pra transar com a gente? Mas já estamos falando de lésbicas, não é o suficiente?

não. Não. NÃO. E NÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃO.

Podia dizer apenas que gosto de pessoas e cair no clichê. Mas é mais do que isso. Ninguém controla por quem se apaixona, ou sente desejo, ou ama, sabe? Ninguém controla a própria felicidade e satisfação em um relacionamento. Esses limites se fazem sozinhos. E por um acaso não é o gênero que delimita isso tudo pra mim. E isso vale para todes nós bissexuais e pansexuais.

E não é nenhuma escala kinsey que vai determinar isso. Até porque essa tabela é binária e eu preciso dizer: os gêneros não são.

Desejos também não são, amor também não é. E dai que cada um de nós encara essa afetividade e sexualidade de uma forma. A gente se sente diferente, se atrai diferente, se relaciona diferente. Não me encaixo na sua caixinha? Te decepciono? É a vida. Não queria ter também que lidar com essa discriminação toda, mas não espero aceitação de ninguém pra eu ser eu mesma.

É triste ter de viver pedindo desculpas por algo que a gente não tem controle, por algo que faz parte da nossa essência. E que define a forma que a gente se relaciona com o mundo.

Não escutem essas merdas todas. Não aceitem nada menos do que respeito. Se juntem. Se fortaleçam. Resistam. E continuem amando, trepando, beijando e abraçando sem culpa. Sem deixar que os outros rotulem o que é válido pra vocês ou não.

Vocês não estão sozinhes.

jussaraJ. Oliveira se sabe, se diz: contradição em pessoa. Aventureira inconstante e amante suicida. Pequena. Mas faço estrago.

O expediente vencendo a empatia

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Faz frio. Não sei se é o clima ou se é a alma.

Outro dia, e não faz tanto tempo assim, Adelir foi levada de casa para um hospital, para a realização de uma cesárea, para parir. As alegações eram a de que existiam riscos de vida para o bebê e para a mãe. As alegações eram as de que ela não mais poderia esperar pelo parto natural que tanto desejara. Muito, mas muito, se debateu o tema. Porque a mulher foi obrigada a ter o parto de uma forma se queria de outra forma? Quais eram os riscos reais daquela espera? E discutimos muito acerca do parto, das consequências, das escolhas. E sobre a lamentável ingerência na decisão da mulher sobre suas opções. Opiniões aqui e ali, exageros muitos e falta de empatia reinam, mas, talvez, a conclusão de que o sistema de saúde precisa se reposicionar, garantindo que as mulheres possam ter informações e oportunidade de escolha e opção tenha ganhado corpo, sustância e lógica. E bons argumentos para o bom debate, o que é fundamental.

Mas para mim algo continua a martelar. Martela. Porque casos assim continuam a acontecer. Mas, mais, ainda: Por que raios alguém acha que buscar uma mulher em casa, num momento delicado como aquele, com escolta policial no meio da noite, possa ser a melhor opção para qualquer coisa? Será mesmo que ninguém que canetou aquela decisão não parou para pensar que… policiais… noite… ambulância… crianças pequenas….camburão… mãe…. pai…. grávida… bebê… não caberiam nunca, nunquinha, nunca mesmo, numa mesma equação? Será mesmo que a burocracia do expediente judiciário, afinal era necessária uma medida liminar, urgente, urgentíssima, para salvar vidas, impediu um mínimo de reflexão sobre a razoabilidade de um ato? Buscar uma mulher em casa, com policiais… a noite… qual crime cometemos?

Incomoda-me, como parte que sou do sistema jurídico – nas horas em que sou eu mesmo, sou advogado… – que nossas decisões – de advogadas, juízas, promotoras, servidoras, advogados, juízes, promotores, servidores – estejam todas numa caixinha fechada, num compartimento estanque onde a realidade lá fora é só um detalhezinho, somenos importante do que o que está na lei, no código, na porcaria da moral e dos bons costumes. Como alguém considera razoável mandar a força policial, como primeira opção, para resolver um conflito que dependeria, sim, de concordância e de convencimento? Mas era urgente, dirão os seres. E daí? Um telefonema para a casa da mulher, uma audiência extraordinária, uma saída da toga em direção ao rumo do caso concreto, ao rumo da realidade ali: nua, posta, vibrante. Um Ministério Público atento, diligente e não teríamos mesmo condições de mandar uma junta apreciar o caso, em caráter urgente, extraordinário, imediato? Cotejar opiniões médicas. Chamar a doula, chamar a mãe, o pai, os avós? Não… tudo isso demandaria muito tempo e o fórum e o expediente encerram às dezenove horas. Manda a polícia, eles resolvem. Que pariu, que pariram: uma situação de merda.

Em outra ponta, pergunto-me sempre, quais as razões dos pedidos liminares para afastar agressores de mulheres quase sempre dependerem de uma audiência prévia, de um dia seguinte, de uma segunda opinião ou de uma “segunda chance”? Será que nos fundamentos decisórios encontraremos os mesmos alicerces?

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Estamos perdendo nossa capacidade de empatia. De se colocar no lugar do outro, da outra, dos outros. De cambiar medos, receios, pudores, coragens, desejos, palavras. No caso do Direito, como a arte que possibilita a convivência humana¹, estamos perdendo totalmente o prumo, o rumo, a prosa e a poesia. Como alguém pode achar que mandar a polícia na casa de alguém, para buscar a força uma mulher para parir, pode ser a melhor opção para a resolução de um dilema? Como? Como? Como…

Aliás, nos dias de hoje, com todas as notícias e informações que dispomos do mundo lá fora, como que alguém ainda acha que “mandando a polícia” é que vamos resolver nossos dilemas?

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¹ Tomei emprestado, ainda que não ao pé da letra, o conceito do professor Goffredo da Silva Telles Jr., principalmente aquele descrito nas suas aulas e bate-papos no hall dos calouros ou no pátio das Arcadas, na Faculdade de Direito do Largo São Francisco. No livro “Direito Quântico”, que faz um tempaço que li, tem um cadinho das elocubrações sobre este tema.

Quem tem medo de Valesca Popozuda?

Por Daiany Dantas*, Biscate Convidada

É possível que hoje ninguém na música popular brasileira seja mais impactante que Valesca Popozuda. Deixando de lado juízos de gosto e valor, quais artistas encontramos por aí com tanta capacidade de provocar reações tão intensas, de revirar olhos e estômagos, desencadear balanços – físicos e mentais – sobre a nossa história cultural? Por trás de suas letras pulsam questões de classe e gênero que escancaram muitas das nossas desigualdades, de nossa pouca aceitação ao gosto das classes populares e ao protagonismo sexual das mulheres destas classes.

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Valesca, com seu corpo biônico, sua mestiçagem loira e lentes de contato azuis é um corpo que propõe muitos trânsitos – da dança de fundo ao microfone e frente do palco, da periferia ao palco midiático, de uma realidade colonizada à colonização dos espaços públicos – é um retrato vivo de nossas ambiguidades e contradições, da nossa NÃO democracia racial, da NÃO igualdade de gênero. É tiro, porrada e bomba na calmaria da burguesia “de bem”, pois para falar ela não usa artifícios. Sua palavra é firme e seu desafinar é autêntico.

Décadas depois de Marta Suplicy ter sido perseguida pelas “Senhoras de Santana”, ela também reclama o direito das mulheres a serem donas do próprio clitóris e terem os orgasmos que quiserem, mas abre mão dos nomes científicos. Prefere os apelidos cotidianos de alcova, pois assim resignifica não só o corpo que ela reclama para si, mas a liberdade desses espaços tão cobiçados a partir do desejo – por isso buceta, cu, grelo, em suas letras, são todos piscantes e desejantes – e isto é, claro, inesperado. Um acinte, uma vergonha!

Sua maior vergonha exposta, no entanto, não é a bunda siliconada (uma entre tantas nessa pátria de paniquetes estáticas, tratadas como samambaias mudas ou marionetes em jogos de humilhação), é um corpo punido por pretender o direito ao prazer, é esse exercício performativo e político que faz de Valesca uma artista tão odiada por uns – e amada por outrxs. Ela é um corpo com voz, não é só mais uma bunda assujeitada? O que ela é, então?  – toda uma mentalidade Casa Grande e Senzala entrando em combustão.

Valesca evidencia os não-me-toques de uma classe média que ama ser retratada como branca e hidratada em seus apartamentos bem decorados e com vista pro mar do Leblon, mas não quer sentar à mesa e banquetear com quem desce do morro para beber vinho da mesma taça. Ela mostra a persistência e atualidade de nossa cultura política que rechaça tudo aquilo que propõe um deboche desde as classes subalternas – estas podem, sim, ser escrachadas, desde que sob o controle vigilante de mídias conservadores, onde funkeira é favelada, nordestina é empregada doméstica e negro é bandido. Valesca não é uma personagem de Zorra Total, sua zorra é outra, seu discurso é transparente, de quem escolhe os próprios termos e não precisa de consentimentos. É um discurso de sobrevivência cujo escudo é justamente não ter escudo algum. Ela quer o poder da buceta porque a buceta é dela. Quer gozar, quer dar, quer te dar. Não porque alguém pede, mas porque ELA quer.

E aí vem o maior pecado de Valeska. Colocar o desejo feminino na baila, claro, é pedir para ser linchada. Geni não sai de moda. Ainda mais uma Geni gritando de autoestima, que pede para xs inimigxs “latirem mais alto” que dali, do camarote, ela não xs escuta. Como ousa? Quer subir no palco? Quer gozar e ainda quer divar? Quem ela pensa que é?

Márcia Tiburi, na Edição 188 da Revista Cult diz que Valesca é uma “Robin Hood estética”. Mas ela vai além. É carnavalesca, antropofágica, deglute os castelos inacessíveis do luxo e os transforma em cenário kitsch – haja peles, mármore, coroas, tigres e dentes de sabre, e, assim, seu batidão funk desautoriza a herança aristocrática. Traz a riqueza à sua comunidade e a subverte naquilo que ela tem de mais caricata e reconhecível. Valesca irrita porque é ela quem está parodiando, escolhendo como ser “rycka”, pois os ricos são os engraçados. É ela quem está rindo. E daí a riqueza deixa de ser dos outros e se torna de qualquer, farta e comum. E isto, claro, desagrada. Quem disse que funkeira e “favelada” pode ostentar?

E Valesca é filosofia pura. É o hedonismo bacante e dionisíaco de Nietzsche, deixando os apolíneos ofuscados com sua capacidade de se envaidecer das próprias regras. É o corpo sem órgãos deleuziano, escorrendo das mãos de um projeto coletivo que o segrega, e problematizando o lugar que ocupa ao negar as jurisdições que o controlam, é a reinscrição performativa butleriana, em seus palavrões que clamam para si o desejo (tão negado) das mulheres… é grelo pulsante, é riqueza, é empoderamento, e, claro, sendo tudo isso, só podia ser muito PAVOR, né?

Mas ninguém precisa temer Valesca. Mesmo. Basta ficar calmx, “deixar de recalque” e se dispor a abrir mão de convicções sequer fundamentadas. Em vez de rechaçá-la sem sequer ouvir o que ela tem a dizer, apostando nessas tintas fortes que a emolduram toda vez que ela surge num flash da mídia de massas, podemos aprender com ela sobre quem somos – e quem podemos ser. Em vez de xingá-la, confirmando todos os padrões que ela faz tremer, podemos nos gratificar por viver num mundo onde Valesca existe para confundir público e privado e ser visível e notória em ambos.

E sobre os juízos de gosto… ocorre que minimizamos artistas em função de barreiras que dizem muito mais respeito aos nossos preconceitos políticos e culturais que a valor artístico (as pessoas se vangloriam de que não ouvem e não gostam, mas é Valesca quem é chamada de ignorante… Será?). Costuma-se nivelar os gostos como selo de qualidade e mérito humanístico a partir do lugar social de onde esses gostos emergem… Achamos que não gostamos, mas somos, na verdade, dominados pelas fronteiras que segregam centros e periferias. Se nos deixarmos ilhar, perderemos uma parte importante de nossa história e nossa realidade… E viveremos interditados em nosso conteúdo “autorizado” – geralmente porque produzido por gente branca, vestida, “limpinha” e, claro, a maioria homem. Então, vamos encarar ou ralar?

IMG_20140409_232626Daiany Dantas foi uma jornalista que amava o nariz de cera e é uma professora de Comunicação Social que adora o barulho das teclas. Feminista sem carteirinha. Iconoclasta apaixonada pelas imagens. Filósofa de sala de cinema. Poeta de guardanapo e humana do Pingo, Kiki, Hoshi e Tapioca.

 

Puta

Você não me ofende quando me chama de puta. Não me ofende como não me ofenderia se me chamasse de enfermeira (muitas tocam corpos nus com intimidade), como não me ofenderia se me chamasse de massagista (ela também provoca prazer e relaxamento com seu trabalho) e não me ofenderia se me chamasse de bailarina (ela também usa o corpo de forma direta na execução do trabalho), só pra ficar nos exemplos mais óbvios que me vieram à cabeça. Então, você não me ofende se me chamar de mulher de vida fácil, de rameira, meretriz, se chamar pelo nome completo, prostituta.

Não me ofende ser chamada de biscate. Não me ofende se me chamar de puta.

Isso esclarecido, deixa eu dizer que me preocupa que você ache que chamar de puta é ofensivo. Me preocupa você achar que é xingamento. Me preocupa você achar que é pejorativo. Prostituta é uma mulher que ganha dinheiro oferecendo serviços sexuais. O que tem de pejorativo ou ofensivo nisso? As opções: a) Uma mulher fazer sexo? b) uma mulher ganhar dinheiro? c) uma mulher decidir sobre o corpo dela? d) ser mulher?

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Me preocupa porque você usar puta como xingamento porque está implícito que mulher que faz sexo e/ou mulher que ganha dinheiro e/ou mulher que decide sobre sua vida e/ou simplesmente ser mulher é uma coisa ruim e que merece ser punida. Que merece o que lhe acontecer. Como, por exemplo, ser atacada. Ser alvo de violência, seja física ou psicológica. Que merece ser estuprada, violentada, espancada e tantas outras violências diárias que as mulheres costumam sofrer apenas porque existem. Apenas por serem.

Porque se existe uma escala para ranquear mulheres entre certas e erradas, direitas e erradas, santas e putas, incríveis ou biscates, essa escala é machista. Sempre. Não tem um mas. E quando a gente usa, mesmo com a melhor das intenções, estamos sendo machistas e validando as manifestações cotidianas de violência. Essa escala, arbitrária e conivente com a violência, sempre será prejudicial para as mulheres, por mais que algumas se esforcem pra jogar o jogo direitinho e não usem roupas curtas, não saiam sozinhas a noite, não bebam, não falem muito, não riam alto, não usem rímel. Uma sucessão de apagamentos que nunca serão o bastante.

A gente insiste: a culpa nunca é da vitima. Em qualquer caso, a culpa pela agressão é do agressor. Mas eu quero ir além. A culpa é do agressor, mas a responsabilidade é nossa. A violência contra a mulher não é só aquele murro no olho ou o tiro na rua. A violência contra a mulher é a construção de uma sociedade em que o murro no olho ou o tiro na rua estão implícitos. É a construção de um discurso socialmente válido em que o murro no olho e o tiro na rua são potencialmente justificáveis. Onde se pergunta, primeiro: o que será que ela fez? A violência contra a mulher é a legitimação de um lugar secundário para a mulher na sociedade. A violência contra a mulher se perpetua, entre outras coisas, com a naturalização do termo puta como xingamento. Há uma avaliação moral implícita, mesmo que a gente não perceba.

Então, a desconstrução dessa escala se faz necessária. E ela passa não pelo apagamento das situações individuais de violência mas, acredito, pela compreensão do contexto em que as situações individuais se inscrevem. Passa, acho eu, pelo reconhecimento de que a “superioridade moral” de apontar o dedo, seja pra vítima, seja pro perpetrador da violência, não explica nem resolve. Passa por entender que o moço que me chama de puta não está sozinho, nem mesmo está restrito ao bando que nos chama de putas. Entender que ele é a regra. Ele é a média. Ele e o moço descolado de esquerda que acha que o funk não é música. Ele e a vozinha que balança a cabeça horrorizada com as mulheres que andam com camisinha na bolsa. Ele e o pessoal que faz mene com o tal quadradinho de 8. Ele e o cara esclarecido que tão rapidamente se dispõe a contestar os métodos da pesquisa sobre assédio (que insistem em chamar de cantada), e ainda mais ligeiro se esquece de refletir sobre o conteúdo. Por mais que se insista na mitificação da violência como uma coisa horrenda cometida por pessoas sem esclarecimento, monstros à parte da sociedade, é preciso que a gente lembre que não é assim. Não é. O estuprador comum, assim como o impetrador de violência doméstica, é a pessoa legal que convive com a gente “de boua” mas que tem incrustado em sua socialização a compreensão de que a mulher é menos. Compreensão essa que aparece, em maior ou menor grau, nas piadinhas cotidianas, nos salários menores, na ausência de divisão de tarefas domésticas.

O que eu quero dizer? Que feminicídio e puta como xingamento (assim como as piadas sexistas) não são fenômenos de uma mesma sociedade à toa (não que um cause o outro, please). E que enquanto a gente não entender que a sociedade somos nós, a luta será sempre mais difícil, lenta e dolorosa. Com baixas acentuadas e constantes do lado das mulheres. Todas putas.

Mais Uma Segunda

Por Patrícia Sampaio*, Biscate Convidada

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Acordar mais uma segunda-feira e “cuidar da vida”, como dizia a mãe que repetia a avó. A rotina está lá, impávida, à sua espera na cozinha: o lanche da escola, o café da manhã, o almoço dos que ficam em casa, a marmita de quem não dá conta de comer a comida da rua. A roupa na máquina, as plantas na varanda, a comida dos pássaros. Depois, os e-mails intermináveis, os trabalhos sempre atrasados, como se fossem programados pelo próprio Sísifo! Nem acaba, nem fica pouco!! Outra fala da mãe que também era da avó.  Nesses tempos, já nem sabe mais o que ainda é seu ou é herança de tantas mulheres que vieram antes.

Esta herança que nunca quis compartilhar com uma filha. Rezava a cada gravidez por um menino. Tinha verdadeiro pavor de ter uma menina e, por absoluta incompetência, transformá-la em uma igual, pronta para carregar o planeta nas costas, assumir todas as culpas, andar enlouquecida atrás da perfeição em cada passo e em todo ato mínimo da existência: a casa sempre organizada, a família mais-que-perfeita, os filhos impecáveis, a melhor profissional. Chegou a fazer o almoço antes de ir para o hospital parir o filho. Em pleno trabalho de parto, à beira do fogão, não disse nada para ninguém até que tudo estivesse arrumado na casa… Inacreditável, dizem! Sente orgulho quando vê os olhos admirados de tamanha eficiência. Mas, não se engana. Sabe que o orgulho é pelo personagem bem sucedido porque, na verdade, não há vaidade alguma nisso. É uma armadilha. Não queria mesmo isso para sua filha que, afinal, nunca veio. É um alívio.

De repente, a casa fica em silêncio. Todos se vão e as tarefas dão uma trégua. Silêncio na casa e a voz vai ganhando nitidez. De onde vem? Faz tanto tempo que não a escuta que nem lembrava mais que era sua. Tanto a fazer, tanto barulho do lado de fora que a pessoa esquece o que tem para dizer a si mesma.  E ainda tem algo a dizer? Parece que perdeu a prática de pensar sobre si. Desconcertada soa a voz. Titubeante. O que ainda sabe sobre sonho e desejo? Diz que devia ir, para poder lembrar do que era e do como era antes de se tornar essa outra. Que só pensa e age para fora, por impulso. Cuida, provê, organiza, acalenta e, principalmente, antecipa desejos. Os alheios, claro. Aprendeu, como outras, que a maior expressão do amor é a antecipação da necessidade. Qualquer que seja ela. O melhor amor do mundo. Sem lugar para falhas. Nenhuma.

A voz reclama. Já está sendo calada para falar de outrem. Ri e concorda. É a falta de prática de ouvi-la. Carece de tempo para o exercício. Os restos infinitesimais de pão na mesa são capazes de fazê-la calar a voz. Treinada para prestar atenção no que acontece do lado de fora.

Tem medo. Quando o silêncio da casa se tornar permanente. Sim, há de acontecer um dia porque não há outro jeito para a vida. Então, a voz se tornará única. Do que tem medo? Irá aparecer tão alta, rebelde, insana que será capaz de ensurdecê-la ou, ao contrário, terá cansado, desistido e silenciado para sempre? Ainda não pode ir. Não sabe como reaprender a ouvir-se. Tem que terminar o almoço.

patricia-sampaio* Patrícia Sampaio é escorpião com ascendente em Touro. Manauara por opção, botafoguense de longa linhagem e historiadora toda a vida porque é super divertido. Mãe de meninos empenhada em fazê-los entender meninas. Daquelas que adoram aprender. Sempre. @SampaioPatricia

Você, o Médico ou o Estado?

Por Renata Côrrea, Biscate Convidada

Texto 1: Em trabalho de parto, levada por policiais armados e obrigada a fazer uma cesariana que não queria: não é mentira. Aconteceu em Torres, RS

Texto 2: Justiça retira mãe em trabalho de parto de casa para obrigá-la a fazer uma cesariana

Texto 3Um corpo que não é seu – Repúdio contra a violência sofrida por Adelir Carmen Lemos de Góes

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Para quem está achando justificável ou ok dez policiais arrastarem uma gestante pra fora de casa em trabalho de parto: eu não vou entrar em indicações necessárias e desnecessárias de cesárea. Mas eu vou falar de ética profissional. E de direitos sexuais e reprodutivos das mulheres. Se a médica ou a juíza tivessem seguido os princípios da bioética, jamais teriam mandado dez policiais armados na casa de uma gestante em trabalho de parto. É ético o mandato só ter sido expedido com tanta rapidez pois a médica era amiga da juíza?

Politicamente o que aconteceu foi um caso de punitivismo. Uma mulher decidiu a respeito do seu proprio corpo e foi punida por isso. É impossível não perceber o paralelo entre as violências sexuais sofridas por mulheres todos os dias. Acabou de sair uma pesquisa do ipea onde dizem que mulher com roupa curta merece ser abusada. O que é isso além de punitivismo?

Juridicamente é um precedente perigosíssimo você tirar uma cidadã da sua casa, uma cidadã que assinou um termo de responsabilidade, uma cidadã que estava acompanhada, que tinha feito pre natal e mais do que isso uma cidadã que DECIDIU não seguir uma orientação que não coadunava com suas crenças e conhecimento. Então agora se uma testemunha de jeová não quiser receber transfusão de sangue um médico pode obrigar? Então se vocês decidirem se tratar com homeopatia (é placebo, não vai curar!), comer doce (dá diabetes!), fumar (câncer!) numa balada, beber (dá cirrose e vai que você resolve pegar o carro?), usar decote (as pessoas acham que roupa provocante te coloca em risco se violência) o Estado vai ter o direito de colocar a polícia na porta de vocês? Afinal são atitudes que podem colocar a vida de vocês em risco. Ué? Mas quem decide o que acontece com o seu corpo? Vocês, o médico ou o Estado?

Aliás o bebê não estava sentado. Isso foi só a justificativa da médica. O bebê estava cefálico. Mas isso não importa. Esse bebê podia estar de lado, podia ser o bebê de rosemary, podia ter feito mecônio 12 cruzes. Não importa. Importa que o que uma mulher decidiu a respeito do seu corpo foi desrespeitado pelo Estado. Sabe que sistema político violava os corpos das pessoas com justificativas institucionais? Dou uma chance.

A ditadura acabou. Mas não para as mulheres. Acabou 50 anos atrás. E ainda vivemos em estado de exceção. Temos direitos humanos. Exceto quando usamos roupas curtas, estamos grávidas, somos biscates, etc etc. Quase humanas.

renata corrêaRenata Corrêa é uma tijucana exilada em São Paulo, fotógrafa sem câmera, desenhista desistente, roterista praticante e feminista. Já fez livro pela internet, casou pela internet, fez amigos pela internet, compras pela internet, mas agora tá preferindo viver um pouquinho mais offline. Saiba mais dela no seu blog ou no seu tuíter @letrapreta.

A culpa é sua sim!

A culpa é sua sim! Quem mandou nascer, crescer, ser alfabetizado em uma sociedade patriarcal e que reproduz na educação doméstica e formal esse patriarcado, começar a trabalhar, ser independente, casar, ter filhos e, depois disso tudo, sair por aí, do jeito que quer, cacarejando acriticamente o que aprendeu a vida toda? Sim, a culpa é sua!

Na semana em que o Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas – IPEA – divulga uma pesquisa que retrata a opinião favorável de 65,1% dos entrevistados de que a mulher vítima de abuso sexual contribui, de alguma forma, para a agressão, não é a sensação de “pare o mundo que eu quero descer” a mais apropriada. Tampouco, a sensação de “isso é um absurdo” é válida! Sabemos com certeza matemática, pelo menos isso o dizem pesquisas como essa e dados produzidos por agentes públicos, que a violência contra a mulher, principalmente de cunho sexual, no Brasil é monstruosa.

Retratos de um Brasil Agressor

Retratos de um Brasil Agressor

E o porquê de “a culpa é sua”? Simples! Porque você é capaz de achar isso normal, de concordar com o resultado da pesquisa e de dizer: “Mas é claro! Mas se ela não fizesse/tivesse/vestisse/dissesse ‘isso’, não seria abusada”. Se você tem domínio desse discurso, parabéns, este post é para você. Esse post é para te conceder um pouco de compaixão. Compaixão por entender que você não foi capaz, por algum motivo que não vem ao caso, de pensar criticamente o contexto social em que cresceu.

Além disso, é um post para te permitir um pouco mais de amplitude a respeito das causas do estupro, como mostra o gráfico abaixo:

Causas do Estupro

Causas do Estupro

Ou ainda, é um post pra te conscientizar a partir de exemplos correlatos e que levam para uma realidade paralela a essa sua forma de pensar, como na imagem abaixo:

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Como os agressores pensam

Parece absurdo, não é? Pois é! E não entender isso só quer dizer uma coisa: você falhou em entender seu processo de socialização. Você pode ser uma “pessoa de bem”, pagar seu impostos, trabalhar dignamente, contribuir para o futuro do seu país. Tudo isso é ótimo. Contudo, se você não conseguiu entender que o corpo de cada pessoa pertence apenas a ela e que nada, leia novamente NADA, justifica qualquer tipo de agressão contra ela. Foi nisso que você conseguiu falhar. Você falhou em reconhecer o outro como um ser humano livre e capaz, dotado de direitos e deveres tal qual você é! E pior, ao dizer “mas se ela não”, você acabou de justificar e legitimar o agressor. Você acabou de ser conivente com a agressão. Você acabou de ser cúmplice. A culpa é sua sim!

Ps. Não é a primeira vez que falamos sobre o tema, alguns posts podem ser encontrados clicando aqui.

Maria de Fátima Pimentel Lins é sujeito da história

Por Renata Lins.  Fotos: Antonio Miotto.

Ela. com o nome todo. Maria de Fátima, e não Fáfa (assim com acento no primeiro “a”), porque ela gosta desse. Pimentel que é o nome da família de onde veio e a que pertence, tanto, sempre: de Paudalho, meu avô e minha avó. Lins que é o nome que ela adotou depois que casou, que é tão dela também.

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Dali vem. A família, que nutre e que se espalha,  que dá origem e sentido. Tradições, como a “Folhinha do Sagrado Coração de Jesus” que ela compra todo ano e dá para os filhos, os irmãos, os sobrinhos. Como fazia meu avô. A religião, que faz parte dela de um jeito alegre, que lhe abriu a porta para a política. Porque ela levou a sério essa história de “somos todos irmãos” e foi lá tentar ver o que dava pra fazer. Entrou pro movimento de juventude católica, filhote da teologia da libertação. JEC, JUC. Viagens, amizades. Ampliação de horizontes. Vontade de transformar. Veio dali.

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Veio dali também, acho, a escolha do curso: Serviço Social, na escola onde Paulo Freire dava aula. Pra botar a mão na massa, pra fazer o que estivesse ao seu alcance. Utopias concretas. O primeiro projeto de conclusão de curso era um projeto de alfabetização pelo método Paulo Freire. Numa favela do Recife. Ela sempre conta que ficou surpresa quando, junto com algumas colegas de curso, foi perguntar do que era que aquelas pessoas tão despossuídas sentiam mais falta: essa seria a base do projeto delas. Pois bem, foi isso. Aquelas pessoas queriam saber ler. Saber ler pra poder entender com a própria cabeça. Escrever com as próprias palavras. E elas entraram de cabeça no projeto: alfabetizar aquele grupo de gente que não tinha nada, mas queria cidadania. Pela alfabetização.

Corria o ano de 64 e estava tudo planejado: ela iria se formar e casar no final do ano. Seu noivo Marcos (noivado recente, do ano anterior) trabalhava com o prefeito do Recife, Pelópidas da Silveira. Ventos de mudança por ali, pelo Nordeste inteiro. No Rio Grande do Norte, a campanha “De Pé No Chão Também Se Aprende A Ler” era símbolo da prefeitura de Djalma Maranhão. Método Paulo Freire, ainda.

E teve o golpe. E mudou tudo. Pelópidas foi preso, Marcos saiu do Recife, por dúvida das vias. Pra São Paulo. O Dr. Antônio Pimentel decretou: “filha minha não sai de casa sem estar casada”. Pois muito bem: casou por procuração. E até hoje ela comemora “o dia em que casei com meu pai”, rindo de ter realizado a freudiana fantasia de toda menina. Casou no religioso, depois, em São Paulo. E foram pra Paris, assim de repente. Depois para a Argélia. E, quando ela ficou grávida, voltaram para o Brasil, para sair de novo, dez anos depois, fugindo da polícia da ditadura.

Com isso tudo, a formatura não aconteceu. História interrompida. Fio solto e sempre, apesar de todas as realizações, meio dolorido. Tanto que foi o pedido feito à Comissão de Anistia: ter o direito de se formar. Só faltava a monografia, o trabalho de conclusão de curso.

E assim, cinquenta anos depois, ela vai se formar. Na UFRJ, dessa vez. Apresentando um memorial em que conta essa história, sua história.
“Não é a história toda… mas é a minha verdade”. Esse o título do memorial. Depois de tanto tempo. Tanta luta. Tantas perdas. Tantas paisagens: Paris, Argel, Genebra, Brasília, Roma. E o Recife como pano de fundo, onde começava o mundo. Pelo menos o mundo deles.

E a gente, os filhos, a gente vai tar lá pra bater palma, pra ver a reparação dessa perda que parece pequena, e é tanto. A gente se alegra, a gente vibra, a gente lembra daquele que foi seu companheiro durante quarenta anos e que não vai tar aqui pra ver isso. Mas, de alguma maneira, vai.
Esse texto é pra ela, é pra ele também. Com orgulho e gratidão.

Viva você, mãe. Vai ser lindo.

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Lu e Fátima. Biscateando…

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