Sobre homens “bananas”

Ou sobre machismo arraigado, tão arraigado que é naturalizado. Pelos próprios homens, para os próprios homens. Machismo, veste estreita, óculos de grau através dos quais são identificados homens “bananas”. Curiosamente, o mesmo termo, duas vezes.

Em dois tempos, comentados nos textos linkados abaixo:

“Um último toque sobre os homens do filme: Pedro Bial chamou-os de “bananas”. E, não, não me pareceram bananas. São homens apenas. Tantos desses por aí. Gente fina, queridos por muita gente. Por que será que ele os chamou de bananas? Porque não batem na mesa, não gritam, não impõem sua vontade? Será? Achei significativo o epíteto. A percepção dele. O machismo mora nos detalhes, tantas vezes.”

https://primeirafonte.tumblr.com/…/piscadelas-como-nossos-p…

“Ele [Nilson Xavier] menciona um “afinco” em retratar personagens femininas, “em detrimento” dos masculinos – para afinal chegar no ponto: os personagens masculinos seriam “fracos, (…) imaturos, dependentes (…), ‘bananas’.”

E foi isso que me fez parar e pensar. Porque, na verdade, a crítica é sobre os próprios personagens masculinos, generalizados em termos que sugerem fragilidade e insegurança. Sem discutir a verdade ou não dessa caracterização, o que incomoda é a afirmação subjacente a essa: fragilidade, insegurança não são qualidades “de homem”. Não são o que se espera de um homem. Se os homens retratados na novela são assim, bem… eles não são homens-homens, não é mesmo? “

http://biscatesocialclub.com.br/…/novela-sete-vidas-lugar-…/

Não à toa, eu reparei e registrei nos dois casos. Depois é que fui ver que usam o mesmo termo desqualificante. Há tempos que isso gira na minha cabeça – essa camisa-de-força do “ser homem” no Brasil. Hétero, no mais das vezes, mas não somente. E, em qualquer caso, nunca, nunca “bananas”. O termo tão vago e abrangente é usado tantas vezes para falar de homens delicados. De homens abertamente sensíveis. Homens cujos olhos enchem de lágrimas ao contar uma história que os toca. Homens que cuidam das crias, que botam no colo, que aconchegam, que acolhem o choro. Que se deixam envolver e levar por certas emoções ditas “femininas”. Homens yin. Que se deixam ver frágeis. Que não entram na carcaça rígida e limitada que lhes é reservada pelo senso comum.

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Talvez porque tenha tido a sorte de conviver desde cedo com esses homens não-convencionais é que esse tema me é tão caro. Talvez também porque eu seja mãe de dois meninos: como protegê-los? Como deixá-los ser o que são e não permitir que o mundo os encerre na armadura que limita e separa os homens-homens dos outros? Desses que, tantas vezes, são chamados de “bananas”? Uma pergunta sempre presente. Uma atenção, um cuidado necessário e permanente. E uma briga com o mundo, claro. Com o que o mundo ao redor espera.

Meus filhos, os filhos dos amigos. Os meninos todos em volta. Os que estão mais longe. Meninos. Todo dia aprendendo como é difícil ser menino. As cores que não pode, as roupas que não pode, os gestos que não pode pra “ser menino”.

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Pausa para reflexão…. porque alguns hão de dizer que estou falando de questões relativas a ser hétero. Mas nem. Isso é prévio. Como já comentei em outro canto,

Sexualidade? Orientação sexual? Isso é outro assunto, não? Que tem a ver com quem lhe causa frisson, arrepios, que tem a ver com quem você quer na sua cama e no seu corpo. Isso a gente só vai sabendo ao longo, à medida em que vai crescendo e os desejos vão brotando. Aqui, não é disso que se fala: é anterior. É do lugar do “ser menino-macho”, independente do que virá mais adiante. E, mais adiante, você poderá inclusive descobrir que, apesar de corresponder ao estereótipo do menino-menino, gosta mesmo é de meninos. Não é verdade?”

E vice-versa. Os homens fora desse padrão de masculinidade podem perfeitamente ser hétero: muitas vezes, são. E aí…. Fica esse incômodo pairando. Algo no ar, algo leve, mas persistente. E, sem saber o que dizer a esse respeito, sobre esses homens que não são conformes ao que se espera de um homem-homem, e no entanto namoram, casam, ficam com mulheres, alguns vaticinam: bananas.

Pronto. Categorizaram, qualificaram, desqualificaram: podem dormir tranquilos. Eles, os potentes, os másculos, os energéticos. Eles, tão distintos daqueles que desafiam -tantas vezes sem nem mesmo fazer de propósito – as convenções estabelecidas da masculinidade dominante. Dos que são doces, macios, suaves, frágeis, sensíveis… em uma palavra: bananas.

Carreira, sonhos, escolhas

Desde hoje de manhã, essa imagem está circulando pela minha TL no fêicebuque, postado por várias amigas, com comentários entre divertidos e irônicos:

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Um texto, a meu ver, bem-intencionado, sem dúvida. Que prega a autonomia de “seguir seus sonhos”, ao invés da submissão de “seguir o homem”. E continua com a afirmação sobre a carreira.

Embora seja bem-intencionado, me parece que o textinho está cheio de armadilhas. A primeira sendo, sem dúvida, essa de “seguir homens” no lugar de “sonhos”. O que é seguir homem? Todo casal pode se deparar, em algum momento da vida, com essa questão: um dos dois tem uma oportunidade de trabalho bacana no exterior ou em outra cidade, e o outro tem que decidir se vai junto ou não. A primeira pessoa que me vem à mente, nesse sentido, é minha própria mãe. Ela tinha um trabalho que a fazia feliz e a preenchia. E, um dia, meu pai foi convidado para ir para Brasília. Longas conversas em casa a esse respeito: afinal, tinha gente que sugeria que dava para passar a semana em Brasília e voltar no final de semana. Mas esse não era o propósito ali, a ideia era ter uma casa, viver mesmo juntos, aqui ou em outra cidade. Fora que voltar toda semana ficava caro demais. Então ela foi. E, sem dúvida, foi doloroso deixar o trabalho que amava. Mas foi uma escolha: viver comporta riscos sempre.

Conheço também a versão masculina do dilema: me lembro de amigo cuja esposa teve uma oportunidade imperdível…. na Austrália. Ele me dava carona pra faculdade, então a gente conversava sobre isso todo dia. A insegurança, a incerteza. O filho pequeno. Ele foi, largou o trabalho, encarou o machismo todo (seguir mulher é muito mais malvisto na nossa sociedade) e fez uma nova história. Na Austrália.

Outro amigo, casado com uma pessoa que conseguiu trabalho em um organismo internacional desses de postos itinerantes, se reinventou como fotógrafo e cuidador dos filhos. Está bem feliz, parece.

Tudo isso pra dizer: escolhas. Perde-se algo, ganha-se algo. Uma relação é uma relação, não se trata de (apenas) “seguir” o homem ou a mulher. Nada está dado, tudo deve ser conversado. Escolhas conjuntas, enfrentamento de dificuldades. Ninguém disse que seria fácil (ah, disseram? te enrolaram, perdão). E se, de maneira geral, as oportunidades parecem aparecer mais pros homens,  isso não é decorrente das relações, mas da dinâmica da sociedade e do mercado de trabalho. Aí sim algo que a gente deve lutar pra mudar.

Acrescentaria que, no caso dos exemplos acima, de alguma forma, a escolha “deu certo”. Só que não há garantia: pode dar tudo errado, sempre. Você pode ir e descobrir que aquela história já era, ou se apaixonar por outra pessoa, ou … enfim. Viver é muito perigoso, já dizia Riobaldo. Não esquecer disso, nunca.
A segunda parte, do meu ponto de vista, é mais problemática ainda. Primeiro porque liga “sonho” e “carreira”: ora, quem pode dizer, em sã consciência, que faz a carreira dos sonhos? Chutaria que pouquíssima gente. A gente trabalha no que dá, não no que escolhe, porque assim é a sociedade capitalista. Se você não for uma herdeira cujo pai está disposto a bancar seu “sonho”, se você não tiver tido a oportunidade rara de estudar exatamente o que queria e conseguir um trabalho que a preencha, bem…. trabalhar é apenas uma necessidade. A gente encara, a gente vai levando, dias melhores, dias piores. A gente tenta fazer direito, quando é possível. Cumpre o necessário. O que pedem. O trabalho te remunera, às vezes até adequadamente. Mas “sonho”? Sonho pra mim é outra coisa. E é importante separar, senão a gente vai encarar uma vida inteira de frustrações.

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E aí a gente chega ao final do texto, sobre a sua “carreira” que nunca vai dizer que não te ama. Bem, sim, vai. Até Roliúde tá cheio de filmes em que as pessoas dão tudo de si, emprestam a identidade à firma, se entregam, fazem o seu melhor e…. corte de pessoal. Redução, realocação, “racionalização”. Assim é o estranho e mau mundo em que a gente vive: os objetivos das empresas não têm absolutamente nada a ver com deixar você feliz. Pode, em algum momento, coincidir. Você pode dar a sorte (e é sorte, não se engane) de trabalhar num lugar acolhedor. Mas certamente não é a regra. E mesmo o lugar acolhedor, ora, tem que ter retorno compatível. Senão, babau. O dono ou o chefe pode até chorar com você: isso não vai impedi-lo de realizar as demissões que a empresa considera necessárias.

E quando, de uma hora para outra, as leis ou as técnicas mudam e seu trabalho da vida inteira passa a não ser mais demandado, passa a não ser mais necessário ou mesmo permitido? Me lembro de um documentário que mostrava pescadores de baleia, que precisavam ser realocados já que aquilo não era mais permitido. E aí? Me lembro também de tantos artistas gráficos maravilhosos que foram encostados por não saberem operar programas de design, das datilógrafas que, de uma hora para outra, deixaram de ser necessárias num mundo em que a maior parte das pessoas digita seus próprios textos….

Oh, baby, baby, it’s a wild world
It’s hard to get by
Just upon a smile…..

Enfim, acho que o textinho lá de cima tem um ponto: a questão da autonomia. Não “seguir” ninguém. Ir, se quiser. Se tiver ponderado e for melhor. Se você não sabe se é melhor ou não, mas é o que seu coração manda. Não há garantias, mas há responsabilidades. É você, é sua vida. Tome posse dela. Se for possível escolher (nem sempre é), decida por você. Não dá para cobrar do outro. E, sim, um dia ele pode acordar e dizer que não te ama mais. Ou você, vai que.

A parte ruim é que seu trabalho também pode te largar de uma hora pra outra. Aí também não há certezas.

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O tchauzinho de Mariana

Por Stela Guedes Caputo, Biscate Convidada

Quem viu o debate na terça-feira (18), entre os candidatos à prefeitura do Rio, Freixo e Crivella, teve a oportunidade de presenciar um protesto brilhante. Bem no finzinho, a jornalista Mariana Godoy reage ao comentário do bispo com um simples gesto: fez um “tchau de miss”.

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O protesto de Mariana aconteceu quando, ao se despedir, a apresentadora disse que a transmissão ao vivo do debate era a mais vista no Facebook. “Eu quero agradecer a você, Mariana, Ana, e dizer que esse sucesso todo é por causa de vocês. Com certeza, a beleza de vocês encantou os telespectadores e a todos”, disse Crivella, refereindo-se às duas apresentadoras.

Por que o gesto, visível para milhões de pessoas na TV, nas redes sociais e multiplicado em memes, gifs e todo tipo de sátira é tão importante? Todas nós mulheres já vivemos essa situação. Preparamos uma aula, uma palestra, um texto, fizemos um cálculo, fabricamos um motor, desenvolvemos uma fórmula, varremos uma rua, lavamos e passamos, tocamos piano, falamos idiomas, publicamos livros, legislamos, ensinamos, aprendemos em aulas. Ao fim, somos vistas por nossos olhos, cabelos, pernas, bundas e peitos. A depender de como os padrões dessa sociedade machista definem olhos, cabelos, pernas, bundas e peitos, somos qualificadas e classificadas. Quantas vezes sufocamos diante de uma atitude machista (de todo tipo) quando gostaríamos de devolver a agressão? Quanto mais a relação de poder é apertada, mais sentimos a forca em nosso pescoço e bebemos internas lágrimas, silenciosos desesperos submetidas pelo assédio moral e sexual.

O gesto de Crivella foi bizarro, como foram e são bizarras as condições colonizadoras e patriarcais de nosso país. O colonizador primeiro escravizou mulheres, usando seus corpos, muitas vezes até a morte. O colonizador queria a buceta da mulher e seu útero. A primeira para o gozo sexual. O segundo para o gozo do capital já que era do útero da mulher negra que nascia mais mão de obra escrava para o colonizador branco crescer e multiplicar dinheiro e fúria. Em função desse mesmo patriarcado, as mulheres não podiam ser alfabetizadas, depois não podiam trabalhar, andar na rua sem estar acompanhada, votar, ocupar posições socialmente desenhadas para homens, receber salário igual. A luta para fazer o patriarcado colonial recuar foi imensa e custou a vida de muitas mulheres, sobretudo, a vida de mulheres negras.

Ao ironizar a fala machista de Crivella, Mariana, do seu modo, dentro de gigantescos limites, devolveu, com um gesto, o que todas nós, mulheres, devolvemos com luta na rua, com protestos, com internos prantos, com prantos expostos, com tapas, com processos judiciais, com ampliação de conquistas, direitos. E ainda mandou um “porra”, diante de milhões de pessoas. Sim, nós mulheres podemos dizer palavrões. Mariana rompeu um aprisionamento midiático. Com seu “tchauzinho de miss” mostrou que o projeto colonizador não conseguiu e não conseguirá domesticar nossos corpos. Mariana, do seu modo, se arriscou e, como dizem as novas linguagens facebookeanas: Mariana “mitou”.

Nos chamam feminazis toda vez que enfrentamos homens como Crivella. Não importa. Lutamos porque ainda estão de pé as estruturas patriarcais que sustentam o mundo em que vivemos. E até que essas estruturas sejam demolidas, continuaremos lutando, cada uma de nós a seu modo.

Crivella podia ter agradecido a inteligência e competência das duas apresentadoras. Não fez. Não faria. Um machista não vai além de si mesmo e de seu machismo. Nós, mulheres, vamos além das amarras, da submissão e da misoginia. Não se trata “apenas” de uma eleição municipal. Há MUITO em jogo. #ForaCrivella #ForaMachista#FreixoeLuciana50

14519817_1216963518376464_3496738441427865901_nStela Guedes Caputo é jornalista e professora da UERJ.

Sobre cantadas erradas

Random dude at the faculty cafeteria. Must be engineering faculty, telling from his books:
–Wow, you sure eat a lot for such a small woman.
–Wow, you sure talk a lot for such a stupid guy.
Wrong pick-up line, honey. On a very wrong day too.
(Asli Berktay, no facebook)

[Um cara qualquer na lanchonete da faculdade. Deve ser da engenharia, pelos livros dele.
– Caramba, pra uma moça tão pequena, você realmente come bastante.
– Caramba, pra um cara tão mané, você realmente fala bastante.
Cantada errada, querido. E num dia particularmente ruim.]

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Essa aí é uma de tantas. Cantadas erradas. Invasivas. Sem-noção. E num sentido específico: de onde o cara tirou que ele, sem nunca ter visto a moça, poderia dar palpite sobre quanto ela comia? O que será que ele pensou? Que seria visto como um elogio por ela ser magra? Que seria engraçadinho? É apenas invasivo e irritante.

Aí vem a questão: como abordar gente que você não conhece? Acho que se dar conta de que você não conhece é um bom começo. Mesmo que você tenha se encantado com a pessoa à primeira vista: a pessoa não necessariamente se encantou com você – e, sem querer desanimar, a probabilidade maior é de que não tenha acontecido. Assim, se você quer começar algo (uma conversa informal, sem consequências, ou quem sabe uma “amizade ou algo mais”), a dica é: é devagar, é devagar, é devagar é devagar devagarinho…..

Mesmo comentários francamente elogiosos sobre olhos, cabelos ou corpo podem ser percebidos como invasivos. Sim, caro leitor, é isso mesmo: o argumento “eu só estou elogiando” não é argumento. Não se sai comentando por aí dos detalhes físicos de gente que não se conhece. Se você fosse mulher, me arrisco a dizer que isso lhe seria evidente. É prerrogativa puramente masculina sair comentando o rosto e o corpo de mulheres desconhecidas e achar que está tudo bem. As mulheres sabem perfeitamente que desconhecidos, ora, são desconhecidos.

Veja, não estou dizendo que não se deve seduzir desconhecidos e desconhecidas, que não se deve tentar fazer contato, chamar a atenção. A questão aqui é o “como”. Caso você pretenda ser bem-sucedido e não apenas irritante.

O segundo ponto é: tentou e a pessoa não correspondeu? Deixe passar. Deixe pra lá. Não era uma boa hora, não deu certo, não rolou sabe-se lá por quê. Faz parte, né. A segunda tentativa já é um exagero e uma invasão em si.

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Ah, os filmes “românticos” mostram histórias assim o tempo todo? Pois é. Mostram mesmo. Danem-se os filmes “românticos”, que ensinam homens a serem irritantes, invasivos e insistentes.
Danem-se.
Era bom que a gente começasse a aprender de novo a não ultrapassar certas barreiras. A da boa educação, por exemplo.

Sei, é difícil, é contrário ao que seu pai diz, ao que o seu tio diz, ao que o seu irmão mais velho diz. Afinal, sociedade machista tá aí pra isso mesmo: pra perpetuar esse tipo de abordagem.

Mas a gente não ia mudar a sociedade? Tá, a sociedade inteira é difícil, é obra pra muito tempo e muita gente. Mas… pelo menos no nosso cantinho?

O “homem que é homem” e uma comemoração

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David Bowie


Ando com dificuldade de compartilhar certas coisas, muito por conta de certos termos generalizantes.Não quero dizer “todos os homens”, porque não são. Não quero dizer “epidemia” de violência contra a mulher, porque não é doença, não é vírus que se pega no ar.

Tenho certo pé atrás com essa questão de que é “cultura”, porque a gente vê dia sim outro também o funk, por exemplo, ser criminalizado por conta dessa questão, e não acho que seja por aí.

Lembro também que a nossa sociedade em que os horrores contra a mulher são comuns é violentíssima também com os homens, justamente no processo de tornarem-se homens. O famigerado “homem que é homem”. Por isso gostei muito de um comentário de amigo, que dizia “temos é que acabar com os homens”. Acredito que seja meio por aí. Não é inerente, não é intrínseco, não é natural: ninguém nasce “homem que é homem”. Torna-se, à base de porrada.

Vi recentemente um documentário muito interessante que se chama “The Mask You Live In” – “A Máscara Em Que Você Vive” – , sobre exatamente isso: a construção do homem a partir da infância. Muito à base da porrada, mas não só. Também à base da desqualificação, da chacota, das ironias, de tudo o que você descobre que é “coisa de mulherzinha”. Cores, gostos, jeitos, trejeitos. Nada disso pode, se você for ser um “homem que é homem”. Se quiser ter o respeito do seu pai, e tantas vezes da sua mãe também.

Dor, sofrimento, caixinhas.

E uma longa estrada a percorrer se a gente quiser desmontar isso, feita de muitos passos. A cada dia. Golpe a golpe, verso a verso, como dizia o poeta.

“Se a gente quiser” não: a gente há de querer. Porque é preciso, é inevitável, é premente. Não dá pra viver com essa máscara mais. Não dá pra aceitar o “homem que é homem”, esse aí a quem ensinam a não chorar, a não ser frágil, a não mostrar medo, insegurança, tristeza.

Coitado do “homem que é homem”.

Longo, longo trajeto. Ainda mais numa sociedade tão entranhadamente machista como é a nossa, em que dizer “coisa de viado” ainda faz tanto parte do dia-a-dia.

Então, há que se aplaudir cada um dos pequenos passos. E por isso aproveito para  comemorar aqui a iniciativa do Colégio Pedro II do Rio de Janeiro, abolindo os uniformes definidos por gênero. Um passo pequeno? Uma festa. Meninos, meninas: calças, saias. Do jeito que quiserem. Usar saia não te faz mais ou menos menino, como usar calça não te faz mais ou menos menina. O que é ser menino? O que é ser menina? O que te define?

Um pequeno passo. Uma fresta. Um espaço aberto. Viva.

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A galera do Pedro II, antes de ser permitido.

Um chapéu rosa e uma escova de princesa

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A verdade é que não era nem rosa, o chapéu. Ele apenas tinha uma fita rosa. Mas o menino abriu no choro quando a mãe tentou colocá-lo em sua cabeça. Não queria, aquele chapéu não, de jeito nenhum. A mãe foi tentar entender o que estava acontecendo e depois de muita conversa conseguiu uma resposta: o menino, tão pequenino ainda, tinha sido alvo de piadinhas dos colegas porque usava um apontador cor-de-rosa.

A outra história envolve outro menino: esse estava recebendo um amiguinho em casa, e ganhou do pai uma escova de dentes nova. O pai tinha prestado atenção ao tamanho da escova, e não atentou para o desenho no cabo: pois bem, de novo. O choro, a recusa enfática. De jeito nenhum, essa não. Escova de princesa. Ainda mais com o amigo em casa: uma vergonha dupla.

Ser menino: aprender, desde muito pequeno, que existe “a linha de demarcação”. Que certas roupas não pode, que certas brincadeiras não pode, que sentar assim não pode, falar daquele jeito, nem pensar, mexer a mão, balançar o quadril, dançar muito solto…. Não pode usar apontador rosa, chapéu com fita rosa, escova de princesa. Não pode. Não é de menino.

Vejam bem: contrariando o senso comum, menina até que pode. Um dia não pôde: hoje pode. Pode usar calça, pode brincar de carrinho, pode jogar bola. Tudo por conquista das meninas, das mulheres que um dia foram meninas. Nada foi dado, é certo: precisou de muita briga e ainda há muito caminho a ser feito. Mas a força do oprimido é saber que é oprimido. E quanto aos meninos? Aí a gente entra em terreno delicado, porque, justamente, aos meninos cabe ocupar o lugar de opressores. Há, nas entrelinhas, a insinuação de que ser menino é, de alguma forma, “melhor”. Se é supostamente melhor, como reclamar de tantos “não pode”? Os “não pode”, dizem as vozes que não dizem, mas insinuam, são necessários para obter a titulação do seleto grupo, o dos vencedores, dos bacanas: o grupo dos homens hétero. Dos homens-que-são-homens. Ser mulher seria “meio menos”. E gostar de fazer “coisa de mulher” é querer ser meio menos: quase um pecado, pois. Não pode. O que significa que, no fim das contas, sob o pretexto de que é para “ser mais”, ser “melhor”, sacrifica-se, sem dó nem piedade, o que se é e o que se pode ser.

É desde muito pequenos que eles aprendem isso. Aprendem por que se lhes ensina. Tem sempre alguém dizendo, repetindo, mostrando: o pai, a mãe, os avós, os professores, os colegas. Sempre alguém afirmando que aquele menino não está sendo menino do jeito certo.

E tantas dores. E tantas repressões. E tanto choro contido, porque afinal, “menino não chora”. E tantas vontades deixadas de lado, porque isso não é coisa de menino. A linha de demarcação é violenta e é o tempo todo. Nas grandes como nas pequenas coisas.

Um parêntesis necessário: não é de orientação sexual que a gente está falando ainda, não é mesmo? Apenas da possibilidade de ser como se é ou como se quer. Porque afinal nada impede que alguém sinta tesão por meninas e vontade de usar um boá violeta. O que uma coisa teria a ver com a outra? Não consigo nem começar a perceber.

Ah, mas se gosta de “coisa de menina” deve gostar de fazer sexo com meninos, não é mesmo? E tome violência vinda do preconceito. Em cima de meninos que, no mais das vezes, nem pensaram nisso ainda. Sexo? Pegar na mão e dar beijinho, correr junto e abraçar, abrir um sorrisão quando vê o outro, sentir o coração bater… assim é o mundo sentimental dos meninos. E pode ser com meninos. Com meninas. Assim é também o mundo sentimental das meninas. Mas menina acaba podendo, né? Pegar na mão, deitar no colo, fazer carinho no cabelo, dormir na mesma cama… tomar banho juntas, andar de braço dado. Menina pode. Não deixa de ser menina. Afinal, ser menina é a base, o ponto mais baixo da escala: aquele lugar em que quem não está lá não deveria querer estar. Os outros, os que estão em cima, é que precisam se cuidar, sob o risco de… se aproximarem do jeito de ser das meninas. Que horror. Como alguém que recebe ao nascer a graça e a glória de nascer menino poderia desejar tamanha queda no abismo.

Então, desde muito pequeno, veste-se a criança com a armadura fechada, restrita ao espaço estreito concedido ao “ser menino”. Não vá ele passar dos limites, pintar fora do pontilhado, dançar fora de esquadro, virar a mão, rebolar, puxar as vogais, inclinar a cabeça…. Alguns pequeninos espaços já foram conquistados, deve-se dizer. Já que um dia, não podia brinco. Um dia, não podia cabelo comprido. Isso já pode, embora não em qualquer canto: mas na cidade grande, na classe média descolada, já pode usar brinco e cabelo comprido sem que haja perguntas, sem que isso seja reprimido. Aos homens héteros, no ano da graça de 2016, já é permitido usar cabelo comprido e brinco.

Mas é tão pouquinho. Uma migalha, diante de todo o universo de engessamento. Diante das possibilidades. Se vestir como quiser. Afrouxar, se soltar. O corpo. O jeito. Sem precisar se perguntar. Ser doce, ser delicado, brincar de boneca, pular corda. Abraçar, beijar. Ter medo e chorar e pedir arrego. Se permitir ser frágil. Sem ter sua sexualidade questionada. Sexualidade? Orientação sexual? Isso é outro assunto, não? Que tem a ver com quem lhe causa frisson, arrepios, que tem a ver com quem você quer na sua cama e no seu corpo. Isso a gente só vai sabendo ao longo, à medida em que vai crescendo e os desejos vão brotando. Aqui, não é disso que se fala: é anterior. É do lugar do “ser menino-macho”, independente do que virá mais adiante. E, mais adiante, você poderá inclusive descobrir que, apesar de corresponder ao estereótipo do menino-menino, gosta mesmo é de meninos. Não é verdade?

Vou encerrar esse começo de conversa, que não pretende ser mais do que um começo, com uma terceira historinha que deixo aqui, pra gente continuar a pensar.  Esta não está mencionada no título e  envolve uma calça de malha lilás. Me foi contada por um homem já adulto, que explicava – a sério – o motivo de ter  desistido de fazer ioga na juventude. Tinha entrado na academia para pedir informações e a moça detalhara: para a turma de iniciantes, a roupa era lilás. Pronto. Ali se encerrou a carreira de iogue do meu amigo. Aí não, dizia ele. Eu com vinte anos, vestindo roupa lilás? Como é que eu ia explicar pro pessoal lá do bairro?

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Suruba não tem nada a ver com estupro

Por Carlos Pereira*, Biscate Convidado

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Gente que confunde orgia com estupro nunca participou de um ménage mequetrefe na vida. Quiçá nem trepou de luz acessa. Gente que responde com ressentimento aos perigosos mistérios do corpo. Gente reacionária.

Uma suruba séria é repleta de regras ditas e não ditas, subentendidas em cada gesto, alguns bem sutis. Outras criadas no momento, estabelecidas por palavras sussurradas, mas firmes, ditas ao pé do ouvido (“isso não”). Costumo brincar dizendo que numa suruba é que vemos de forma plena o imperativo moral kantiano da lei como instrumento libertador, pois é só a partir da submissão às leis dos ritos é que se pode entregar aos prazeres. Isso para não falar das orgias sadomasoquistas que possui regras ainda mais sofisticadas. Aliás, não por acaso, o estabelecimento de leis é fundamental para a literatura do Marquês de Sade (complemento lógico da lei kantiana, tão bem flagrado por Lacan).

Há uma diferença fundamental entre a economia do gozo da orgia e do estupro: enquanto na primeira tenta-se cultivar o mistério do desejo do Outro (embora em muitos casos se confunda cópula com desejo, mas isso é outro papo…), na segunda tenta-se apagar esse mistério, porque, na verdade, esse mistério não aparece como mistério, mas como estranhamento insuportável, um desconforto que precisa ser eliminado. A menina que “trepa com todo mundo”, que “trepa com bandido”, que “faz isso sempre”, quebra o narcisismo machista e, por isso, precisa ser punida.

Numa orgia, os participantes são iguais, são comuns. Por isso que se pode encenar com liberdade posições de submissão. Há uma interdependência forte entre os participantes e qualquer vacilação nessa interdependência o encontro cessa imediatamente. O estupro não tem nada a ver com isso. No estupro é a força bruta e violenta que se impõe a um outro corpo, submetendo-o aos seus desígnios.

Isso não significa que uma orgia é um mar de flores. Como qualquer comunicação é feita de mal entendidos, os problemas numa trepada coletiva acontecem. Mas impressiona como a preocupação com as regras é imensa (aliás, se percebe a presença de iniciantes facilmente, justamente pela dificuldade de reconhecimento das regras). Orgia séria e estupro estão em campos diametralmente opostos.

Quem tenta fazer comparação entre orgia e estupro o faz por um duplo preconceito (que tem mesma origem): preconceito com aqueles que tem coragem em se permitir a curiosidade com o seu próprio corpo e preconceito com mulheres que se permitem liberdades que mulheres “belas, recatadas e do lar” não deveriam se permitir. No fundo, preconceitos derivados de atitudes ressentidas diante do mal estar gerado pelo desejo do Outro, desejo de lidar com os mistérios do corpo – mistérios perigosos, que devem ser evitados a todo custo.

Em suma: o “inocente” fiu-fiu na rua é muito, mas muito mais próximo da cultura do estupro do que uma orgia séria.

Carlos_Pereira*Carlos Pereira é militante do Partido Socialismo e Liberdade e membro do Círculo de Estudos da Ideia e da Ideologia.

Uma Dose de Transgressão

Por Monique Prada*, Biscate Convidada

Não é por que você é puta que precisa se vestir como puta, agir como puta, falar como puta.”

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De pleno acordo. No entanto, não é por que você é puta que não pode agir como uma, vestir-se como uma, falar como uma, em busca de performar uma respeitabilidade burguesa que em verdade não é conveniente a mulher alguma, menos ainda às putas. O esforço por performar essa respeitabilidade é, no fim das contas, um esforço para manutenção do sistema, um modo de reforçar o estigma.

Eu não preciso usar terninho e sapatos baixos pra provar que sou inteligente, articulada e competente. Não preciso esconder minhas fotos ousadas pra te dizer: no meu corpo só toca quem eu quiser, quando eu quiser. Não preciso esconder que sou uma trabalhadora sexual em lugares ditos respeitáveis por que também eu sou uma pessoa respeitável e conheço os comportamentos adequados para cada espaço.

Dizer que o comprimento das minhas saias é inadequado para a minha idade nada mais é que reforçar o viés machista e etarista de nossa sociedade patriarcal, para a qual mulheres só servem se estão em idade reprodutiva, e só podem exercer sua sensualidade até ali. Etarismo é uma face do machismo seguidamente usado para atacar Cristina Kirchner ( http://www.midiamax.com.br/…/844926-presidente-do-uruguai-d… ) e outras mulheres que ocupam o poder, e nada mais é que um meio de dizer-nos qual é o “nosso lugar”. Mas nós, mulheres, já dizemos há tempos: lugar de mulher é onde ela quiser. E nós, putas, que há tempos já ocupamos mais do que esquinas, reforçamos: o lugar da puta é, sim, onde ela quiser.

Por uma dose de transgressão na vida.

10429437_1639299509627620_3154711491717519962_n* Monique Prada por ela mesma: “escrevo e faço amor a noite toda”

Os homens hétero e a linha de demarcação

Sentar em mesa de bar com uma penca de homens cis hétero acima dos 50 é ter que ouvir uma infinitude de piadinhas sobre a última ida ao urologista, o peso nas costas e similares.
Aí você pode sorrir e esperar passar (mas demora…..).
Ou você pode questionar, e vira barraqueira.

McSorleys

Escrevi isso como status de feicebuque, e, à medida que recebia notificações, fui olhando pro texto e lembrando. E situando. E organizando, pra vir escrever aqui. Não era esse o objetivo – era apenas desabafar algo sobre a minha noite. E não se enganem: a noite foi ótima, foi agradável, foi divertida….  Falou-se de política, da nossa conjuntura líquida e tremelicante…. Era com amigos, pessoas queridas…. Mas teve isso.

Teve isso, tem isso. Isso faz parte. E, no caso, a mesa realmente só tinha homens acima de 50 anos. Mas arrisco dizer que, se fossem mais jovens, talvez não fosse tão diferente. As piadas poderiam ser outras: mas o conteúdo simbólico não iria mudar tanto assim. Homens hétero juntos: esse tipo de piada é tão corriqueiro.

Como comentei depois, o episódio – como tantos outros envolvendo grupos de homens –  me lembrou um filme do Claude Chabrol chamado “La ligne de démarcation”. Não achei o título em português, mas a tradução é ao pé da letra: “A linha de demarcação”. O filme é sobre uma cidadezinha francesa que, durante a ocupação alemã na segunda guerra, acaba sendo dividida em duas, uma parte ficando na zona alemã, outra na francesa. Pois então. Assim me parece o cotidiano dos homens cis hétero brasileiros (digo brasileiros porque me parece que aqui isso é particularmente marcado): uma eterna demarcação de zona. A hétero, em que se encontram, e o “lado de lá”. O “dos outros”. Arriscado e perigoso “lado de lá”. 

As pessoas da mesa certamente diriam (como disseram) que não têm preconceito, que estão do lado dos direitos dos homossexuais, que até têm amigos que…. E no entanto, fazem essas “brincadeiras”. Essas piadinhas. Todo dia, o tempo todo.

Em algum lugar já comentei que ser homem hétero é eterna vigilância. Como sentar, como andar, o jeito das mãos, a entonação da voz…. As roupas, o lenço (nunca jamais em tempo algum), as cores, o corte de cabelo… canso só de listar. Nunca saberia ser homem hétero, sério. Esse homem hétero padrão. É claro que existem outros, que fazem diferente: mas esses sabem que estão sujeitos a ouvir permanentes piadinhas sobre a roupa “de viagem”, sobre o jeito, sobre as cores. Sobre o que são, sobre aquilo de que gostam.

E, mesmo numa mesa dessas, em que, além de três mulheres, só havia homens hétero, uma boa meia hora se passou à base das piadinhas. Que giravam todas em torno do cu apertado. Apertadíssimo. Tão apertado que os dentes até trincam, imaginem. Deve ser difícil também, deve haver algum tipo de exercício específico pra manter o cu tão apertado. dessa demarcação. De como eram homens-machos. De verdade. De como estavam do lado de cá, e não do lado de lá. E por isso as piadinhas.

Fico pensando na educação que gerou isso. No “isso é coisa de maricas”, no “homem não chora” e tantas outras mais. Fico pensando na coragem de quem ousou assumir sua homossexualidade diante desse panorama. Nos motivos de quem não ousou. Porque não queria contar para os amigos de infância. Porque não queria perder esses amigos. Porque não queria decepcionar o pai. A mãe. Os irmãos. Tantos motivos pra não dizer.

Cheguei até aqui no texto e me deu vontade de chorar. Lembrei do Jean Wyllys que vive naquele ambiente inóspito da Câmara dos Deputados. Do que ele deve ouvir todo dia, toda hora. Da coragem, da firmeza.

Do momento em que ele se descontrolou diante de um crápula que exaltava um notório torturador da ditadura militar.

E acabo o texto aqui, porque acabou por conta própria, com uma homenagem a ele: Jean, seu cuspe foi nosso também.

E um recado amigo:
Homens cis hétero brasileiros, melhorem. Melhorem muito.

imagem daqui.

Ele talvez possa estar a fim de você


Eu tenho uma amiga que é essa pessoa: a pessoa anti “Ele Apenas Não Está A Fim de Você”. Queria contar um pouquinho dela.

Mas antes era bom dar uma recapitulada: o livro, esse aí citado acima, é um livro de tese. A tese do livro é a seguinte: todo homem que está a fim de uma mulher vai fazer o possível para ir atrás dela. Vai matar trabalho, vai pegar ônibus de outro estado, vai conseguir telefone, endereço, vai mandar flores…. Enfim, vai fazê-la saber que está a fim. Caso você, mulher, saia com um cara e ele não faça nenhuma dessas coisas em um período curto de tempo, bem…. Ele apenas não está a fim de você. É isso. Simples assim. Não adianta insistir, ele apenas….

EleNãoEstáAFim

Assim é a tese. E nessa ordem: não é uma pessoa a fim de outra pessoa (essa tese, inclusive e evidentemente, não foi pensada nem funciona para relacionamentos entre pessoas do mesmo gênero.) É um homem que está (ou não está) a fim de uma mulher. E isso se define em um encontro ou dois. À mulher resta, portanto, exibir seu desempenho máximo, mostrar todos os seus truques, encantá-lo da melhor forma possível, porque…. ali tudo se decidirá. Se você fisgar o rapaz (estou tentando não rir e não soar como uma tia Cornélia do começo do século, mas o tema não ajuda), ele vai dar sinal. Vai aparecer. Vai mandar uma mensagem, um torpedo, um uatzáp, um pombo-correio. Flores ou um presunto da Virginia. Você vai saber. Ele está a fim de você. Se não, amiga, recolha as armas, as purpurinas, os saltos-agulha, as cintas-ligas: não vai rolar. Ele não ficou a fim.

A antítese é essa minha amiga. Vamos chamá-la de Babi. Essa moça faz tudo ao contrário. Os escritores do livro iam balançar a cabeça, desanimados, caso a conhecessem. Imaginem vocês que ela é do tipo que vai atrás. Se interessou? Babi vai lá. Manda mensagem. Entabula uma conversa por inbox. Combina um chope, quem sabe um cinema. Ah, não vai dar? De repente outro dia. Quem sabe. Tá de bobeira? Por que não ligar pro Fulaninho, com quem saiu uma vez no ano passado? No ano passado não rolou. Mas e hoje? A vida anda, junto com a fila. Bora conferir.

Minha amiga nunca pensa que “ele apenas não”…. Ela na verdade paga pra ver. Vai lá saber. Abre espaço pro acaso. Tudo pode acontecer, inclusive nada, já dizia o ditado. Mas ela é da filosofia de que do chão não se passa, o “não” você já tem. Dói um pouquinho no ego, se o cara disser não? Ah, mas tão pouco. Afinal, a vida é essa, não é mesmo? Vida que segue. Pra gente, pra eles. E, com esse olhar, já ficou com muita gente que a dupla de escritores de “Ele apenas” teria descartado de cara. Gente que inclusive deu bolo no primeiro encontro, por motivos variados. Que disse que ia ligar e não ligou. Que ia passar no samba e acabou não indo. O caso é que, muitas vezes, há motivo de sobra pras coisas não terem acontecido como planejado. E outras, o cara é que tava inseguro. Ou com problemas. Ou enrolado com um rabo de história mal-resolvida. Quem decidiu mesmo que ao homem cabia fazer o movimento, e à mulher apenas esperar? A gente não tá no século XXI? Já na segunda década? Isso não era pra ter acabado em algum momento lá atrás? As mulheres não conquistaram tanta coisa, como é que ainda se deixam enredar nesses roteiros bestas, chapados, antigos?

Babi hoje tá namorando um cara que conheceu há tempos. Não sabia dele, mandou mensagem inbox. Acabou chamando prum chope. Deu liga, rolou e estão eles juntinhos. Mas podia também não ter rolado, com já aconteceu muitas vezes. Ou podia ter sido apenas uma saída e nada mais. Quem se importa? A questão é que ela vai lá. Faz o movimento. Cutuca pra ver. Pode ser, pode não ser. Mas quem saberá?

Ah, sim, contrapõe você, tem caras que se incomodam com isso. Que acham que a mulher tem mesmo que esperar que o movimento parta deles. Mas tem certeza que é com esses caras que você quer ter alguma coisa?

Nem mesmo Shonda Rhimes escapa da desnecessária pressão para se casar

Texto de Sesali B. Publicado originalmente com o título: ‘Not even Shonda Rhimes can escape de unwanted pressure to get married’, em 11/11/2015 no site Feministing. Tradução de Bia Cardoso.

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Shonda Rhimes. Foto de Joe Pugliese/August Images.

Shonda Rhimes, uma das mais bem sucedidas produtoras e escritoras negras da televisão americana, tem conquistado algumas coisas. Ela foi nomeada para três prêmios Emmys. Ela é a produtora e principal roteirista de quatro programas de grande sucesso da rede ABC. Ela tem um doutorado honorário. Qual destas realizações lhe renderam a maioria dos elogios em sua vida? Nenhuma delas.

Em vez disso, Shonda contou a NPR, que as pessoas lhe fizeram mais elogios quando ela tinha um homem elegível-para-o-casamento em seu braço:

Eu nunca recebi tanta aprovação, elogios, carinhos e felicitações como quando tinha um cara no meu braço, com quem as pessoas achavam que eu ia me casar. Foi incrível. Quero dizer, ninguém me parabenizou tão fortemente quando eu tive meus três filhos. Ninguém me felicitou tão fortemente quando eu ganhei um Globo de Ouro, ou um Peabody, ou meus 14 Prémios NAACP Image Awards. Mas quando eu tinha um cara em meu braço e as pessoas achavam que eu ia casar, as pessoas perderam suas mentes como se Oprah estivesse dando carros. Foi inacreditável. … Eu era fascinada por isso, porque eu pensava: como eu não sou Dr. Frankenstein, eu não fiz esse cara — ele apenas está lá. Todo o resto tinha relação com algo que eu tive que fazer.

O Feministing já abordou os mitos sobre as mulheres solteiras — sempre chamadas de solitárias e desesperadas por um casamento. Nós também falamos sobre de que modo aplicativos de namoro como o Tinder estão chamando a atenção para o fato de que as mulheres estão interessadas em — * suspiro * — sexo ocasional (algumas vezes queer), também. Mas relatos como o de Shonda nos lembram que ainda há uma narrativa predominante de que se você é uma mulher solteira, independente de suas outras realizações e contribuições para o mundo, o seu principal objetivo na vida deve ser o casamento. Em última análise, o seu potencial marital é a verdadeira medida da feminilidade.

E, eu seria negligente ao não mencionar o significado desta expectativa quando aplicada a Shonda Rhimes. Mais do que uma diferença entre ter um triunfo desejável ou ser a “senhora louca dos gatos”, ser uma mulher solteira que também é negra significa estar envolta em estigmas e patologia. Começando pelas interesseiras que só querem dinheiro, passando pelas negras raivosas até as mães inapropriadas, as mensagens referentes as mulheres negras são quase sempre negativas e problemáticas. Algumas vezes, os sucessos nas carreiras de mulheres negras solteiras apenas exacerbam esses aspectos, porque, aparentemente, ainda temos dificuldade para entender a complexidade de mulheres que precisam ao mesmo tempo trabalhar e ter famílias. As pessoas ainda estão à procura de um “felizes para sempre” heteronormativo para validar o sucesso profissional, educacional e financeiro das mulheres negras.

Para reiterar o ponto de Shonda Rhimes, qualquer cara potencial que ela tenha significa que “ele apenas está lá”. Eu sou grata por ter uma comunidade que me apoiaria se me apaixonar e quiser estar com alguém que me faz feliz, e tenho certeza que com Shonda também seria assim. Mas nossos parceiros não nos definem. Eles não aumentam ou diminuem o nosso sucesso ou valor. E eles certamente não são algo maior do que a criação de um império de mídia como ShondaLand!

Autora

Sesali B. escreve no site Feministing e também em seu blog: Bad Fat Black Girl. Twitter: @BadFatBlackGirl.

Bia Cardoso é autora convidada, feminista e lambateira tropical.

Feminicídio: #nãofoiciúme

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Uns meses atrás publiquei no Facebook que gostaria de criar um espaço que reunisse relatos e analisasse a maneira como a imprensa trata os casos de feminicído e violência contra a mulher. Afinal, a gente já não suporta mais que esses crimes continuem sendo noticiados como “passionais”, movidos por amor, por ciúme.

Não aguentamos mais a romantização e naturalização da violência contra a mulher. Sem contar as vezes em que somos culpabilizadas pela violência sofrida. Muitas amigas feministas se interessaram em participar e criar esse ambiente de relatos e análise da mídia.

No dia 25, Dia Internacional de Combate à Violência Contra a Mulher, lançamos a página Não foi ciúme. Também estamos no twitter com a arroba: @naofoiciume

De acordo com os dados do mapa da violência, o Brasil é o quinto país no qual mais se mata mulheres no mundo: em 2013, houve 4.762 feminicídios registrados, sendo que um terço disso, 1.583 casos, foi de crimes cometidos por parceiros e ex-parceiros. Os dados são assustadores e crescentes, principalmente contra as mulheres negras. Entre 2003 e 2013, a taxa de homicídios de mulheres negras aumentou 54%, o que faz com elas combinem machismo e racismo em seu cotidiano; em comparação, os crimes contra mulheres brancas diminuíram 9,8% no mesmo período. Sem contar os crimes movidos por transfobia, que sequer entram nas estatísticas.

A proposta da página é reunir publicações veiculadas diariamente em nossos meios de comunicação que noticiam feminicídios como “crimes passionais”, “crimes motivados por amor / por ciumes” e outras justificativas inaceitáveis para o homicídio de mulheres. Para isso, contamos com a colaboração de todas as pessoas: nos mandem notícias de suas localidades, cometem, divulguem.

Até por isso, o nome da página, que pode ser interpretado como um símbolo das “justificativas românticas” pra crimes dessa natureza. Além disso, queremos divulgar e comentar relatos de outras violências e agressões contra mulher, não apenas aquelas que terminam em morte, incluindo os movidos por lesbofobia e transfobia.

Somente reconhecendo os crimes pelo que realmente são – mortes causadas por machismo – é que se pode lutar e combater efetivamente os assassinatos e as agressões contra as mulheres. Não é por amor. Não é por ciúme. Não é passional: o machismo mata e, muitas vezes, sai impune. Sem contar as vezes em que a mulher é responsabilizada pela violência sofrida.

Ontem, no final da noite, estávamos em 2 mil curtidas na página. Agora, no meio da tarde do 26, já passamos das 5 mil, indo pra 6 mil. Além disso, houve até agora mais de 70 compartilhamentos de nosso texto de apresentação, uma sugestão de pauta por inbox nos primeiros 15 minutos de divulgação da página e picos de mais de 100 curtidas em alguns posts. Acredito que para um primeiro dia, a visibilidade foi bem razoável.

O bom é que essa capilaridade pode potencializar mais ainda nosso alcance, gerando mais notícias, mais análises, mais críticas.

Precisamos cobrar de nossos jornalistas um posicionamento ético na cobertura dos fatos. Que as histórias sejam contadas sem eufemismos ou adjetivos que romantizam ou naturalizam a violência e/ou agressão e, com isso, contribuir para a real diminuição da violência contra mulher e o feminicídio.

Além de mim, essas maravilhosas abaixo também fazem a página:

Bianca Cardoso
Cecília Oliveira
Iara Ávila
Klaus Saphire
Niara de Oliveira
Renata Lins
Tássia Cobo

#‎NãoFoiCiúme
É #‎ViolênciaContraAMulher
É #‎Racismo
É #‎Feminicídio

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