Feminicídio: #nãofoiciúme

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Uns meses atrás publiquei no Facebook que gostaria de criar um espaço que reunisse relatos e analisasse a maneira como a imprensa trata os casos de feminicído e violência contra a mulher. Afinal, a gente já não suporta mais que esses crimes continuem sendo noticiados como “passionais”, movidos por amor, por ciúme.

Não aguentamos mais a romantização e naturalização da violência contra a mulher. Sem contar as vezes em que somos culpabilizadas pela violência sofrida. Muitas amigas feministas se interessaram em participar e criar esse ambiente de relatos e análise da mídia.

No dia 25, Dia Internacional de Combate à Violência Contra a Mulher, lançamos a página Não foi ciúme. Também estamos no twitter com a arroba: @naofoiciume

De acordo com os dados do mapa da violência, o Brasil é o quinto país no qual mais se mata mulheres no mundo: em 2013, houve 4.762 feminicídios registrados, sendo que um terço disso, 1.583 casos, foi de crimes cometidos por parceiros e ex-parceiros. Os dados são assustadores e crescentes, principalmente contra as mulheres negras. Entre 2003 e 2013, a taxa de homicídios de mulheres negras aumentou 54%, o que faz com elas combinem machismo e racismo em seu cotidiano; em comparação, os crimes contra mulheres brancas diminuíram 9,8% no mesmo período. Sem contar os crimes movidos por transfobia, que sequer entram nas estatísticas.

A proposta da página é reunir publicações veiculadas diariamente em nossos meios de comunicação que noticiam feminicídios como “crimes passionais”, “crimes motivados por amor / por ciumes” e outras justificativas inaceitáveis para o homicídio de mulheres. Para isso, contamos com a colaboração de todas as pessoas: nos mandem notícias de suas localidades, cometem, divulguem.

Até por isso, o nome da página, que pode ser interpretado como um símbolo das “justificativas românticas” pra crimes dessa natureza. Além disso, queremos divulgar e comentar relatos de outras violências e agressões contra mulher, não apenas aquelas que terminam em morte, incluindo os movidos por lesbofobia e transfobia.

Somente reconhecendo os crimes pelo que realmente são – mortes causadas por machismo – é que se pode lutar e combater efetivamente os assassinatos e as agressões contra as mulheres. Não é por amor. Não é por ciúme. Não é passional: o machismo mata e, muitas vezes, sai impune. Sem contar as vezes em que a mulher é responsabilizada pela violência sofrida.

Ontem, no final da noite, estávamos em 2 mil curtidas na página. Agora, no meio da tarde do 26, já passamos das 5 mil, indo pra 6 mil. Além disso, houve até agora mais de 70 compartilhamentos de nosso texto de apresentação, uma sugestão de pauta por inbox nos primeiros 15 minutos de divulgação da página e picos de mais de 100 curtidas em alguns posts. Acredito que para um primeiro dia, a visibilidade foi bem razoável.

O bom é que essa capilaridade pode potencializar mais ainda nosso alcance, gerando mais notícias, mais análises, mais críticas.

Precisamos cobrar de nossos jornalistas um posicionamento ético na cobertura dos fatos. Que as histórias sejam contadas sem eufemismos ou adjetivos que romantizam ou naturalizam a violência e/ou agressão e, com isso, contribuir para a real diminuição da violência contra mulher e o feminicídio.

Além de mim, essas maravilhosas abaixo também fazem a página:

Bianca Cardoso
Cecília Oliveira
Iara Ávila
Klaus Saphire
Niara de Oliveira
Renata Lins
Tássia Cobo

#‎NãoFoiCiúme
É #‎ViolênciaContraAMulher
É #‎Racismo
É #‎Feminicídio

Bilhete Único

Estava outro dia mesmo no metropolitano de São Paulo. Linha Vermelha. Nem cheia, nem vazia. Em pé. Nas proximidades da Santa Cecília, indo para a República. Tudo em São Paulo, capital, isso aí de grande cidade e tal. A gente tenta, mas muitas e muitas vezes impossível não prestar atenção na conversa alheia. Sei que este hábito é condenável, beira ao deplorável. Mas, confesso, pecados e defeitos me moldam… Pecava.

A conversa seguia aquele tom bom, de amigos. Boa entonação, boa calibragem, sem ânimos exaltados. Até um leve frescor. Até que ela, menor que ele, contava sobre a prova do ENEM. “Você sabe, né, tá todo mundo falando nisso. O tema da redação foi violência contra a mulher. Eu achei ótimo, sabia.”. Ele, bem mais quieto que ela, trajeto todo, respondeu: “Li, sim.”. E houve um estranhamento. Silêncio.

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Torci para o metropolitano se atrasar um cadinho mais, se atrasa sempre…

“Sabe, minha mãe… sofreu com meu pai. Muito.”. Ela se espantou, visivelmente emocionada com o relato do amigo – parecia bem surpresa também. Sim, e teve um abraço, longo, desses que se notam com carinho. Portas se abriram, me fui, tive que ir, a gente sempre tem que ir a algum lugar…. Eles? Não sei se desceram. Ao olhar para trás, vi só a multidão. Muitas mulheres, muitas meninas, muitas e muitos devem ter feito o tal do ENEM. E fico imaginando o quanto de abraços não devem ter resultados daquele tema de redação…

Os cretinos que me desculpem. Mas é neste abraço que devemos nos encontrar, militar, querer, ouvir. Gosto de imaginar que baldearam na Sé, e ouviram a voz da mulher que informa e encanta o metropolitano: “Próxima estação, Liberdade.”.

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Assédio não pode ser normal, mas é

É assim: assédio não pode ser normal. Mas é. E a gente tem visto isso nesses últimos dias: as denúncias todas geradas pela hashtag #primeiroassédio. O volume. Dá a sensação de que aconteceu com todo mundo que a gente conhece.  Então a gente tem que entender. Não adianta, de novo, dizer que eles são todos pedófilos. Não são. Não são doentes, não são bandidos. São gente como a gente. Os homens que assediam são gente como a gente. criados para serem homens nessa sociedade maluca aí. E é disso que a gente tem que falar. Da porra da sociedade. Do que é chamado de homem nessa porra dessa sociedade. É nisso que a gente tem que mexer. Na cultura, nos hábitos. no “homem não chora”. No “isso é que é coisa de macho”. Ou, e talvez até mais importante, “isso não é”. É dessa porra dessa sociedade que a gente tem que falar.

Não adianta dizer que é “sordidez”, que são “canalhas”. Você não nota, mas quando diz isso está reduzindo o problema. Está desconhecendo que o problema é da sociedade: logo, é de todo mundo.

Acho bem mais inquietante pensar que são pessoas comuns que se sentem no direito de fazer isso. De pegar nas meninas, nas mulheres, de não escutar, de agarrar. Homens que agarram mulheres. E a grave questão é “se sentem no direito de”. Não porque são malucos: porque assim a sociedade lhes ensinou. A cada propaganda de mulher pelada vendendo cerveja ou carro, a cada “prenda suas cabras que meu bode está solto”, a cada “ele tá fazendo isso porque gosta de você”, a sociedade ensina que é assim. Sempre que se espera que as mulheres cuidem da casa, das crianças, e ainda estejam lindas e cheirosas para seu homem, é isso que se ensina. Toda vez que se trata uma mulher como menos, como menor, como sem espaço, toda vez que são os homens que ocupam a sala e relegam as mulheres para a cozinha, toda vez que os assuntos “de mulher” não têm vez na conversa, toda vez que elas não falam… toda vez que se acha que “direitos da mulher” não dizem respeito aos homens. Que, afinal, não abortam. Que, afinal, não engravidam.

Toda vez que se diz que “homem que é homem é que”…. toda vez. Quando às mulheres não se ensina que elas têm querer e voz: também. Quando se lhes pede calma, delicadeza, voz suave, não contrariar, “deixa, ele é assim mesmo”, “é só o jeito dele”….. toda vez que se diz às meninas que elas é que não devem usar saia curta, decote, que são elas que têm que se proteger, que se cuidar, em vez de dizer aos meninos que não, que não pode, que não é pra fazer. 

É de um olhar desassombrado para dentro dessa sociedade que é a nossa que a gente precisa: não de um repúdio horrorizado, como se não tivesse nada a ver com a gente. É da mudança no tratar desde pequenino, desde bebê praticamente: como se tratam os meninos, como se tratam as meninas. O que é ensinado a cada um deles. Isso é que tem que mudar, isso é que cria uma sociedade em que cada menina, cada mulher tem uma história de assédio pra contar. Em que, por trás de cada assédio, há um homem criado “para ser homem”. Desse jeito aí. Achando que pode.

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Que horas ela volta e o assédio sexual

Assim como muita gente, também achei Que horas ela volta (2015), da Anna Muylaert um baita filme. É provocativo e instigante. Mais que isso, é polifônico. Anuncia vários sentidos, deslocamentos e significados. Daqueles filmes que de tão abertos a interpretações acabam sendo capazes de comportar uma pluralidade de leituras que só enriquece as impressões (individuais e coletivas) e aumenta o diálogo entre espectador e a obra.

Não sei com precisão qual é a realidade das empregadas domésticas fora do nordeste (embora imagine que não muito diferente), mas aqui (resido em São Luís, Maranhão) persiste de modo violento e silencioso o hábito de “trazer meninas” (sim, elas não têm nome) do interior para a capital de modo que estas sejam exploradas em um regime de semi-escravidão. Muitas chegam bem jovens, em média aos 12, 13 e são instadas a viverem em função das necessidades da família que as escravizam em troca de alimentação, roupas, moradia precária, produtos de higiene e as vezes, até permissão para estudarem à noite depois que todo o serviço for feito (é muita caridade, né?). O salário? Algumas famílias pagam (mal) e outras fingem que elas estão ali porque são “da casa” e devem ser gratas de boca fechada pelo sabonete e absorvente comprado. Direitos? Bem, estamos caminhando nesse sentido com a PEC das Empregadas Domésticas, mas no contexto de uma cultura de exploração que de tão enraizada na sociedade, teima muito ainda em mudar.

As personagens emblemáticas de Camila Márdila (Jéssica) e Regina Casé (Val)

Jéssica (Camila Márdila) e Val (Regina Casé)

Quantas pessoas não construíram sua vida de privilégios em cima do apagamento dessas mulheres, que no invisível e desprezado trabalho doméstico, lhes davam condições (pra que eles, os patrões), tivessem tempo e tranquilidade para se dedicarem aos estudos, amigos, família, lazeres, viagens e outras atividades? Quantas pessoas que assistiram ao filme conseguiram fazer esse exame de consciência? Que muita gente só chegou aonde chegou devido a anulação de uma outra pessoa, mais especificamente, de uma empregada doméstica que estava ali como a Val. Fazendo a limpeza da casa, cozinhando e criando os filhos dos patrões. Curioso que a personagem da Regina Casé até recebe o Fabinho em seu quarto minúsculo quando o jovem quer amparo e carinho, mas a mesma Val é proibida, numa regra silenciosa, de sentar com os patrões e comer a mesma comida deles. Ela pode ser uma espécie de ama de leite, mas não está autorizada a desfrutar de igualdade. Ela é menos gente. Profissional de segunda classe que deve agradecer pelo colchãozinho dado pela patroa. Não é à toa que a Val passa boa parte do filme dizendo “agradecida”. Nisso há uma mensagem que estabelece um acordo entre todos: agradeço pela sua generosidade e eu me ponho no meu lugar em reconhecimento disto. E assim, a vida segue. Toda e qualquer esmola dada nesse contexto carrega em si o acordo da submissão, de quem manda e de quem obedece. Serve pra demarcar lugares. Porque, afinal, a ordem natural das coisas é assim. Deve ser assim.

Espero mesmo que essa realidade abusiva esteja mudando.

Outra coisa que me incomodou um tanto, que diz respeito a repercussão da película, foi ver pouquíssimos homens escrevendo sobre o filme. Dos textos que chegaram até mim, acho que 90% eram escritos por mulheres. E fico me perguntando se esse filme também não tocou a todos, de algum modo. Fiquei com a impressão, pela ausência das análises masculinas, que parece que a relação patrões e empregadas só dizem respeito as mulheres. A eles, muito pouco interessa. Mas também lembrei que o privilégio e/ou a descoberta de sua existência, também provoca em muitos um incômodo silêncio. Sim, o filme Que horas ela volta não é somente um filme feito de mulheres para outras mulheres. Ele representa uma realidade que todos, homens e mulheres tomam parte e contribuem para a configuração do quadro de opressão. Que saibamos ver de modo mais amplo que não se trata apenas do jogo simplista de uma mulher oprimindo outra. Dito dessa forma, gostaria de fazer algumas observações sobre, o José Carlos interpretado (com muita naturalidade e honestidade) por Lourenço Mutarelli, que junto com o Fabinho, são os poucos, mas significativos personagens masculinos do filme.

Zé Carlos é um sujeito rico por herança, melancólico por acumular frustrações no campo profissional, ocioso, angustiado e bastante depressivo (condição confirmada ao longo do filme). A chegada de Jéssica e sua alma inquieta, com inclinação pra perturbar os lugares rígidos da casa encantam Zé Carlos que tenta impressioná-la demonstrando pôr tudo que tem aos pés da jovem. Literalmente. Baseado nisto, ele oferece, com muita insistência, seus bens materiais em troca do acesso ao corpo e aos sentimentos de Jéssica. Ela fica visivelmente constrangida com as investidas dele e nas duas ocasiões em que isso ocorre, demonstra grande desconforto que faz com que desista de assediá-la.

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Nessas duas cenas percebi uma denúncia da diretora, não sei se consciente ou não. Empregadas domésticas em nosso país também são uma das maiores vítimas de abuso e assédio sexual pelos patrões e seus filhos. No geral conhecemos casos em que isso ocorreu e que na ordem das coisas, acaba sendo diminuído em sua gravidade e até mesmo naturalizado pela nossa cultura (machista). Como se além do direito de explorar o trabalho doméstico, o patrão também tivesse direito a ter acesso livre aos corpos dessas mulheres que moram no quarto dos fundos ou que estão ali como faxineiras e diaristas. O que me incomoda bastante é o silenciamento e a conivência de muita gente com esse tipo de abuso. Já tive oportunidade de ouvir relatos de empregadas abusadas e acuadas pelas visitas sistemáticas dos patrões em seus quartos, de assédio intimidador quando faziam a faxina, entre outros. Nisso tudo, o receio de falar e ser demitida, o baixa-estima de si, a culpa, o pouco acesso a informação e as formas de defesa eram características dominantes da realidade dessas mulheres.

Sim, a Jéssica foi bastante acuada pelo Zé Carlos, que jogava nas entrelinhas com a questão da pobreza material da menina, pedindo-a em casamento em troca de viagens, da mansão que possuía e tudo que mais que ela quisesse. Nessa cena fica muito clara a tentativa de comprar a filha da empregada, que por ser pobre, tem supostamente um preço. A negativa constrangida de Jéssica é mais do que uma reação a um assédio. É uma forma de dizer que o comportamento do patrão da mãe é inadequado, que nenhum abuso é justificável e que a mentalidade senhorial q que tudo submete, deve ter limite. Aliás, nos termos de uma relação respeitosa de trabalho, ela sequer deve existir.

Em tempos de misoginia e desumanidade escancaradas, a grita em torno do tema da redação do ENEM deste ano, “Persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira”, aponta o quanto precisamos nos educar, politizar e ampliar o debate público acerca da violência contra a mulher. E precisamos também pensar na precariedade de vidas forjadas em diferentes experiências e pertencimentos de classe, raça e gênero, que tornam alguns corpos muito mais vulneráveis do que outros. O filme de Ana Muylaert, dentre muitos aspectos, nos faz refletir também sobre a vulnerabilidade sexual que os corpos de empregadas domésticas estão submetidos no contexto da bisonha cultura de estupro que vivemos.

Três historinhas, em um daqueles dias

Aí que hoje é daqueles dias. E, como não tem texto, vou resgatando fiapos de histórias. Todas de verdade. Quem sabe compõem algo.

Lembro daquela vez em que eu, com seis anos, fui chamada de “puta” porque tirava a roupa na frente dos meninos. Eu tomava banho com meus primos, meninas, meninos: não entendia porque teria algum problema em alguém me ver sem roupa. Os meninos do prédio pareciam achar isso legal. Eu tirava, ué, e achava engraçado. Era todo mundo da minha idade, será que eles não tinham primos?
Mas aí a amiga me disse que quem fazia isso era puta. Eu não sabia o que era puta, mas pela cara dela não devia ser nada bom.

Aí teve aquele  cara com quem eu fiquei, já adola: eu podia ter ficado com ele ou com outro, mas aí calhou que foi com ele. E eu contei pra ele. Vocês vão dizer que eu fui meio mané: mas sério, não achava que fosse demérito nenhum. Tava todo mundo ali, a gente tava de férias na praia, e experimentava. Ficava com um, com outro. Era pra fingir que tava apaixonada? Ninguém tinha me explicado isso. Tá, eu devia mesmo ser meio mané. Excesso de sinceridade. Mas, sinceramente, não tinha me ocorrido que o cara pudesse se incomodar. E, menos ainda, que alguém fosse achar que aquele comportamento não era adequado. Pô, a gente tava experimentando. Não é assim que se começa qualquer coisa?

Por fim, teve aquele outro: esse já era namorado. E achava um monte de coisas sobre mim. Eu não sabia que ele achava, ele achava só pra ele. Mas aí um dia a gente conversou. Sobre experiências pregressas. Sobre como, onde, o quê. E a pessoa ficou abalada. Abaladíssima. Tipo precisou se afastar. Refletir. Ficou mal. Eu tinha abalado a imagem que ele tinha de mim. Com a minha vida. A minha vida não cabia na imagem que ele tinha de mim. Dessa vez aí eu entendi melhor: entendi e fiquei furiosa. Ele não tinha o direito. A minha vida era minha. Eu tava só contando pra ele. Ficar abalado, sério? Se eu não cabia na imagem que ele tinha de mim, ele que fosse arranjar alguém que coubesse.
Oras.

Ciranda

Verdades Secretas e o papel da mulher na moderna novela brasileira

Faz tempo que a Globo não via um sucesso tão retumbante como Verdades Secretas, mesmo passando na faixa das 23 horas e afrontando todos os valores da moral e dos bons costumes, muito mais que Babilônia. Revela assim a dupla moral que o brasileiro sempre teve. Aquele retrato da família perfeita que por trás tem outra família ou amantes várias e tudo aceito de bom grado, desde que devidamente discreto.

A novela é bem produzida, bem dirigida, fotografia de comercial, de cinema, linda ( me lembrou muito Adryan Line), trilha sonora excelente. Ótima direção de atores. Tudo muito moderno. Tudo de excelente qualidade como raramente se vê.

Verdades Secretas teve de tudo: prostituição, drogas, menores abusados com professores e matando aula, pais sem saber o que fazer com os filhos, mulher mais velha com michê que a engana e nada, nada disso abalou a família brasileira. Ao contrário. Foi um sucesso. Mas vamos ver o que isso revela.

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As drogas. Grazi Massafera foi por unanimidade o grande destaque da novela, brilhou no papel da modelo viciada em crack que vai parar nas ruas. Não foi só a ajuda da boa maquiagem, mas cresceu como atriz e interpretou todas as dores de estar desiludida, se drogar e ser estuprada. Mas é aí que a coisa pega. Walcyr Carrasco parece ter com suas personagens femininas que saem do estereótipo de mãe dedicada e batalhadora uma vibe sempre corretiva. Em algum momento da história elas são corrigidas pelo “destino” sem dó nem piedade e finalmente se redimem. É o arquétipo da Maria Madelena, do pecado cristão, da surra corretiva (aqui me parece do estupro corretivo) seguido finalmente pela redenção. Fica muito claro isso após uma moça ser estuprada por vários homens e não ser levada a um hospital, tomar um banho que fosse. Vai direto pro culto.

Já para o filho do empresário rico, que usa droga de rico, cocaína, o ambiente da overdose é quase asséptico de tão limpo. O rapaz vai pra uma clínica e toma um banho. Ele não se envolve com a sujeira das ruas. Vai ver por isso o Ministro Barroso sugeriu descriminalizar só o uso da maconha, né? Crack é coisa de gente suja, pobre e quase sempre preta (como mostravam as cenas da novela, exceto pelo belo casal branco) e envolvida com o crime.

A culpabilização do desejo e do sexo. Em nenhum momento na trama foi mostrada alguma relação sexual ou amorosa saudável. Sexo era sempre moeda de troca de algo. Jamais de desejo por si só. Sempre uma forma de ganhar dinheiro e poder. Angel e Gui vivem num vai e vem e ela não parece mesmo gostar dele, parece fuga. Mesmo Giovanna e Antony, que parecem ter um sentimento genuíno um pelo outro, estão mais preocupados com dinheiro e fama do que com o que sentem um pelo outro. Fanny é culpada por desejar um homem mais novo a qualquer custo e assim perde sua noite de glória, mas acha um novo rapaz jovem. Lyris é assassinada pelo namorado, a quem se referem como: “perdeu a cabeça”, vejam bem. Perdeu a cabeça por ciúmes, amor. A culpa é dela, portanto. O de sempre. Pia, como resultado de sua relação com um cara mais jovem, engravida, faz um aborto e é por este condenada, sendo que ele a engravidou só pra casar com uma mulher rica: só que na cena ele sai todo dono da razão. Mas finalmente reata o namoro e se redime.

E nada para mim foi mais emblemático, justo na quinta feira em que o Congresso aprovou o horrendo Estatuto da Família, do que a cena em que a família formada por Alex, Carolina e Angel (homem, mulher e filha) está sentada à mesa, como boa família, mas mal se falam. Destroçada que é. Problemática e falsa que é a família rica e feliz.

Por último, Angel fica na última cena do casamento me parecendo demonizada quando na verdade, para mim, finalmente cresce, rompe o ciclo de abuso e entende o quanto era manipulada por Alex, se vinga e toma as rédeas de sua vida nas suas próprias mãos, o que fica muito claro no olhar de desprezo que dá para Fanny. Mas nas redes sociais era chamada de prostituta e capeta pra baixo ( e aqui nesse blog prostituta não é xingamento; pensando bem, nem capeta) quando o maior vilão da novela, Alex, mal era citado.

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E é essa a novela que afinal temos: moderna, ágil, fotograficamente bela por fora, mas que por dentro reforça uma moral dos anos 50, em que mulheres são forçadas a se prostituírem, tem culpa e morrem para se redimir ou são salvas pela religião ou pelo casamento: ninguém vai ser feliz sendo independente. Onde a escolha pelo aborto é reforçada como culpa, onde a relação abusiva de um homem com uma jovem é romanceada e ganha até torcida. Onde qualquer mulher que saia do estereótipo da Virgem Maria, a mãe devotada do lar (Carolina não era porque não foi vigilante com a filha) será punida ou vista como uma mulher pérfida e fria (olhar de Angel, no final). Nada de novo sob o sol da teledramaturgia. É só mais um Direito de Nascer com nova roupagem. Prendeu a atenção brilhantemente, mas não muda em nada o papel imaginário da mulher na teledramaturgia brasileira.

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Por último, como noveleira que sou, quero deixar meus parabéns , além de pra Grazi que esteve fantástica, pro Mauro Mendonça Filho pela direção,  pra Marieta Severo e Eva Wilma que estiveram maravilhosas e m especial para Drica Moares que merecia um caminhão de Oscar, Emmy, Kikito, APCA, etc etc: foi foda, mulher.

Nossa história única

Começo esse texto ouvindo a Chimamanda falar dos perigos da história única. Ouvindo na minha cabeça, porque eu já assisti ao video uma, duas, várias vezes. E me encanta sempre. Essa história da “imagem da africana” em que a prendiam, e que não era ela, da qual ela tinha tanta dificuldade de se desvencilhar de tanto que estava grudada na cabeça das pessoas.

Curiosamente, já vivi uma coisa assim ao reverso. A “história única” na qual me prenderam era uma história de Suíça. Morei na Suíça quando criança, até os 12 anos de idade. Em Genebra: uma cidade conhecida, não um vilarejo perdido nos confins das montanhas. Pois bem, cheguei ao Brasil e fui instantaneamente oprimida com uma imagem de Suíça. Que não era a minha. Era uma imagem de colégios privados exclusivíssimos à beira do lago – dos quais só descobri a existência depois que voltei -, de vida de luxo e opulência. E ainda tinha a famigerada pergunta sobre “a moda”. A pergunta era “qual é a moda na Suíça agora?” E eu, sinceramente, não tinha ideia do que era pra ser respondido. Não sabia o que era “a moda”. A gente comprava roupa em lojas de departamentos ou nos brechós. E a “moda” era a gente que fazia, pré-adolas, usando a calça jeans (a mesma, velha, gasta) dobrada de tal jeito, a camisa por dentro ou por fora… “A moda”, a outra, era coisa de alta costura. O que isso teria a ver com a minha vidinha? Mistério. Escola? A pública na esquina de casa. Como, aliás, praticamente todo mundo que eu conhecia. Só não digo que era todo mundo porque tinha o Zuza que estudava na Escola Internacional. A dos filhos de diplomatas e dos organismos sediados em Genebra (OIT, Comitê da Cruz Vermelha, OMS etc.). O resto da galera era todo de escola pública, e encapava os livros emprestados no começo do ano para devolvê-los no final. Essa, definitivamente, não era a Suíça pela qual me perguntavam meus novos colegas de escola.

Essas divagações todas têm (é, têm) um ponto que me interessa trazer pra cá: uma narrativa sobre mulheres que tem me parecido mais e mais comum por aí. A das mulheres oprimidas pelos “machos” opressores. É mentira? Não, claro que não. Como, aliás, a Suíça de quem me perguntava não era de mentira: era apenas outro olhar e outra narrativa.  Mas não pode ser a única. Digo mais: não deveria ser única. Sob pena de despossuir essas pessoas todas que vivem e lutam e avançam e mudam o mundo todo dia. De tirar-lhes tudo o que têm de coragem, de dignidade. Tanta gente que é senhora da própria história. Tem um meme conhecido que circula por aí que diz algo como “não sou descendente de escravos: sou descendente de seres humanos que foram escravizados”. Mudança de enfoque. De maneira de contar a história.

Tem ainda outra coisa: a narrativa única dos “machos opressores”. Esses, como a gente, não vieram de Marte. Foram criados aqui, nessa sociedade, com esses valores, com essa cultura. Nela estão imersos desde que nasceram. Como não haveriam de reproduzir tal ou qual hábito, forma de fazer, um jeito que viram o pai  fazer e que lhes foi ensinada, tantas vezes, pela mãe…? A mudança do mundo tem que levar isso em conta, e dialogar com eles sempre. Sob pena de criar uma utopia-mundo de que os homens estariam, por definição, excluídos. E aí não, né. Esse não é o mundo em que quero viver. Ninguém nasce sabendo: vamos abrir espaço para escutas e para novas narrativas. Outras. Outras formas de olhar, de escutar, que possam levar a outros modos de fazer.

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Precisamos Falar de Aborto

Por Adriana Torres*, Biscate Convidada

Eu preciso falar…
(de aborto, de machismo, de médicos, da Elis)

Com 42 anos de idade, eu achava que já tinha passado pelas minhas maiores batalhas na vida. Mas nada dessa minha vida louca vida me preparou para os primeiros meses desse maldito ano de 2015.

Pela primeira vez desde os meus quase esquecidos sete anos, quando sonhava em ser veterinária, eu confesso: não faço ideia do que quero ser agora que já cresci. E só não quero deixar de ser (ou estar, sei lá) por essa teimosia infinita de virginiana com ascendente em touro que acha que pode fazer alguma diferença nessa mundo insano.

Eu preciso falar de aborto.

Foram seis meses planejando minha segunda gestação. Inicialmente com medo, por conta da minha idade, medo que se dissipou com o novo ginecologista referenciado pelo movimento do parto humanizado, com a conversa com a enfermeira obstétrica sobre o possível parto domiciliar que me resgataria do nascimento do leãozinho, parto esse que me foi roubado nos últimos minutos do segundo tempo, que me sangrou a alma e me fez conhecer o estranho mundo da violência obstétrica.

Eu sabia que engravidaria. Eu já conhecia minha pequena Elis e seu desejo de vir. Ela me aparecia nos sonhos, com seus cabelos cacheados e dourados, suas bochechas rosadas e o riso fácil.

Investi no sonho, melhorando minha alimentação que é usualmente bem ogra, investindo no inhame duas vezes por semana, na vitamina B diária, nas castanhas, no abacaxi, até na beterraba com couve (que honestamente, eu detesto).

No dia que viria minha menstruação fiz o teste e a segunda linha rosa, ainda fraquinha, me encheu de amor e alegria. Tudo estava acontecendo como planejado.

Na mesma semana meu cão sênior piorou muito de saúde e a veterinária me pediu que eu o libertasse da dor. Já não andava direito, não se alimentava e mal conseguia beber água. Foi com o coração partido que dei meu adeus, abraçada ao seu frágil corpo após quase 17 anos de amizade. Entre a dor de perdê-lo e a alegria da confirmação da gravidez, oscilei meus dias entre lágrimas e sorrisos.

Primeiro ultrassom agendado, Cheguei na clínica já antecipando a emoção de ouvir o coração do meu feijãozinho. Uma hora e meia de exame, com direito a consulta a outra especialista da clínica e o veredicto que me tirou o chão: a gestação não tinha evoluído como esperado, o saco gestacional estava correspondente a sete semanas, via-se a vesícula mas não o feijão e muito menos se ouvia o coração. Pior: uma suspeita forte de uma segunda gestação na trompa, caracterizando um possível caso (raríssimo em uma gestação natural) de gestação heterotópica, uma dentro e outra fora do útero.

Passei dias me sentindo no inferno. Foram cinco exames de beta quantitativo dia sim, dia não, para acompanhar sua involução e, em cada ida ao laboratório eu parecia que ia morrer de tanta dor. Mais dois ultrassons para tentar confirmar ou não a suspeita da heterotópica, descartada no último quando o sangramento já dava sinais.

Final de semana marcado pelas pequenas cólicas e um sangramento leve. Eu só pensava nas palavras da terapeuta: “Quem ama de verdade deixa ir”.

Na segunda-feira, às 14h00, saiu um coágulo grande, assustador. E, de repente, a cada 10, 20 minutos saia um coágulo ainda maior. As cólicas não paravam, cada vez que saia um a dor voltava e eu já sabia que outro sairia. Em cada coágulo eu o investigava para averiguar se o saco gestacional tinha saído, mesmo sem entender bem do assunto. Por volta das 18h00 eu já não conseguia sequer me levantar sozinha e pedi arrego.

Com a ajuda do marido fui para o hospital, receosa de uma curetagem indevida e ciente que, caso não houvesse a expulsão total a indicação correta seria a AMIU (Aspiração Manual Intra Uterina).

Escolhi um hospital público, pois no privado dificilmente eu teria escolha ou seria ouvida. O que eu não sabia é que, mesmo em um hospital público, existem profissionais cansados, abitolados e que não seguem a ideologia da direção, essa, reconhecidamente adepta do atendimento humanizado. E, principalmente, que mesmo em uma condição clínica crítica, o aborto está no fim da fila de prioridades. Pode não ser o protocolo, mas é a realidade.

Eu não vou dar detalhes do horror que passei desde que a triagem me mandou com uma bela bolinha laranja no prontuário para a sala do plantonista. Foram 12 horas de espera e de luta, resistindo contra a curetagem, alternando o choro com a raiva da situação, deitada no mesmo quarto junto a duas mulheres em trabalho de parto e onde, a cada meia hora uma enfermeira entrava para auscultar o coraçãozinho dos que estavam para chegar ao mundo. Não dá pra descrever como aquela ausculta me rasgava inteira.

(Pausa pra respirar e chorar.)

Uma amiga virtual se materializou no hospital como um anjo guerreiro e passou a noite comigo, já que o marido precisava ficar com o filho em casa. E foi ela quem viu as enfermeiras chorando nos cantos, penalizadas com a situação absurda que assistiam.

Num relance, entendi o que estava acontecendo. Eu fui deixada lá de castigo. Porque eu quis “impor” a minha vontade. Me senti humilhada. Por mim, pelas profissionais que lá estavam e que não tinham autonomia alguma. Apenas no dia seguinte, quando um novo plantonista apareceu, fui atendida e liberada. Ele, ciente dos protocolos atuais, fez pessoalmente um ultrassom e me levou para a sala de cirurgia para realizar a AMIU.

Já faz mais de três meses que isso aconteceu. Coincidência ou não, a AMIU foi realizada no dia do aniversário de setenta anos de Elis Regina, a homenageada pela gravidez que não foi.

Meu corpo, minhas regras? Não no Brasil, onde o aborto é criminalizado, afetando todas que abortaram. Quase um quinto das gestações termina em um aborto espontâneo. Uma em cada cinco mulheres já interromperam voluntariamente a gravidez. Como não falar de aborto?

Eu preciso falar do machismo.

Dizem que o diabo mora nos detalhes. Eu percebo que o machismo mora nos detalhes. No hospital-referência, as mulheres eram as operárias e os homens os comandantes (grande novidade…). E, nesse ponto, vamos concordar: Nós que parimos. Nós que abortamos. Nós que sabemos a dor que sentimos. Não eles!

Eu não me arrependo de ter ido a um hospital público, pelo contrário, agradeço por ter ido lá, pois caso tivesse escolhido um privado sequer teria conseguido ser escutada. Mas o machismo daquele momento não será esquecido nem perdoado. Não pode ser. Nesse momento, só o que desejo é que mulheres estejam no comando. Porque enquanto o homem estiver não conseguiremos ter nossos desejos e necessidades respeitados.

Precisamos de mais mulheres no comando, seja no hospital, na política, na indústria, na mídia. De preferência mulheres feministas, empoderadas, de sangue nozóio e que saibam que sim, o aborto é assunto de Estado, muito mais do que a mandioca.

Mas eu também preciso falar de discurso e da empáfia da classe médica.

Precisamos de médicos que estejam abertos às novas evidências científicas. Que reaprendam os conceitos de humanidade e humildade. Que saibam que não são deuses e que o parto é da mulher, o  corpo é da mulher e o aborto também é da mulher. Sua função é basicamente se fazer presente para que tudo saia como o planejado ou, para que o que já saiu fora do planejado tenha os riscos minimizados e a paciente acolhida.

Eu preciso falar. Não me importa se vocês não estão me ouvindo. Eu realmente preciso falar. =/

 

M

* Adriana Torres é uma mineira generosa que trabalha com marketing no terceiro setor e curte trabalho voluntário, é mãe do Leon, gosta de cachorros e gatos, casa cheia de amigos mas também de sossego e de redes sociais. Você pode lê-la em seu blog ou acompanhá-la no Twitter @Adriana_Torres.

Sete Vidas e o estreito lugar do masculino

Acabou ontem uma das melhores novelas dos últimos tempos: Sete Vidas, que contava a história de sete irmãos biológicos e do seu pai, o doador anônimo que acabou sendo descoberto e vendo ser construída, em torno de si, uma improvável família.

Na esteira do final da novela, Nilson Xavier publicou um comentário elogioso, falando da produção, dos temas delicados abordados, dos personagens bem construídos. Mas fez a seguinte ressalva:

Aqui cabe apenas uma crítica à autora, algo já percebido em “A Vida da Gente”. Seus dramas são universais e acometem todos os gêneros, mas percebe-se um maior afinco de Lícia ao retratar personagens femininas em detrimento aos masculinos, em sua maioria reconhecidos como fracos, emocionalmente imaturos e/ou dependentes, ou mesmo “bananas”.

Bem, para quem não viu a novela, a primeira observação é que não é da falta de personagens masculinos que ele está falando. Dos sete personagens que acreditavam ser filhos de Miguel  – uma, Julia, depois descobre que na verdade não era -, cinco são homens. Some-se a isso o próprio Miguel, Lauro, seu melhor amigo, Vicente, namorado de Lígia, e seu irmão Arthur, Eriberto e, agora perto do final, Renan. Uma profusão de personagens homens. Do que será que estaria falando Nilson então?

Ele menciona um “afinco” em retratar personagens femininas, “em detrimento” dos masculinos – para afinal chegar no ponto: os personagens masculinos seriam “fracos, (…) imaturos, dependentes (…), ‘bananas’.”

E foi isso que me fez parar e pensar. Porque, na verdade, a crítica é sobre os próprios personagens masculinos, generalizados em termos que sugerem fragilidade e insegurança. Sem discutir a verdade ou não dessa caracterização, o que incomoda é a afirmação subjacente a essa: fragilidade, insegurança não são qualidades “de homem”. Não são o que se espera de um homem. Se os homens retratados na novela são assim, bem… eles não são homens-homens, não é mesmo? O personagem de Eriberto ainda vai, porque afinal se debate com a própria ideia de masculinidade tradicional, e, a partir de conversas e reflexões sobre si próprio,  acaba se declarando a Renan, mas os outros?

Aliás, assistindo a novela e antes de me deixar encantar completamente pelo Eriberto, me incomodei foi com esse clichezão mais uma vez repetido: se o homem é frágil, sensível, gosta de música clássica, de arte, bem… não é um homem-masculino. E há de ter uma orientação sexual compatível com esses gostos tão pouco de “homem-homem”. (É verdade que à luz desse critério poucos parisienses passariam no teste de homem-homem, mas fazer o quê, é outra cultura. Eles são diferentes, lá pode. E lá vai clichezão. Mas isso é outra conversa ainda. Voltemos).

Nilson Xavier ainda complementa:

Entende-se que a audiência da novela das seis é – em teoria – predominantemente feminina. Mas já que o estilo da autora é naturalista, uma melhor dosagem caberia bem, sem desmerecer nenhum gênero.

Atenção para o termo usado: sem “desmerecer” nenhum gênero, diz o autor. Quer dizer, novamente: personagens masculinos sensíveis, confusos, complexos seriam uma forma de “desmerecer” o gênero, que, afinal, deve ser merecedor de respeito.

Parece um comentário tão pequeno, quase à toa. Mas enganchou na minha cabeça, de tanto que reflete bem a estreita caixinha onde se guarda o que é considerado masculino. Em outro texto, já falei disso. Como é difícil se manter dentro desses limites do que é aceito como masculino. Como  características de homem-homem. O texto era sobre o feminino, mas lá pelo meio tem esse parágrafo:

A contraface disso, é claro, estava no que é “masculino”. Na estreita definição de “masculino”: tudo era considerado “efeminado”, no Rio de Janeiro, ou assim me parecia. Como sentar, como mover-se, como falar… regras tão rígidas. Sob pena de ser achacado pelo resto do mundo, sob pena de ser chamado de tantos nomes depreciativos. Sob pena de não ser amado e aceito, que é o que a gente sempre quer, no final das contas. Sobretudo quando é criança, quando é adolescente.

 Em outro canto ainda, falando de ter filhos meninos, e das dificuldades com que me deparava, escrevi sobre a construção dessa imagem do masculino ainda na infância, da preparação dos meninos para serem homens-homens e do que isso implicava:

Porque é aí que começa tudo: as meninas sonham com vestidos de princesas e com o beijo do príncipe. Os meninos…tadinhos. Dão pra eles bolas, armas, carros. Carros. Caraca. Que coisa mais sem graça. Eu acho. Armas. Aqui em casa era vetado. Mas é comum, né. Bolas. Ok. Mas porque não cordas de pular, elásticos? Porque não bonecas? Tantos meninos gostam de bonecas. É tão legal brincar disso. Cuidar. Botar no colo. Fazer carinho. Isso sim é educar um menino pra ele não ser machista. Pra ser um pai bacana. Pra ser feliz como ele quiser ser.

Por que não? Por que não a gente pensar em educar meninos diferente, em abrir espaços novos, em deixá-los ser, e brincar de boneca, de panelinha, do que quiserem? Por que não entender que personagens masculinos angustiados, sofridos, confusos, inseguros são, sim, homens-homens, não precisam ser uma desvalorização dos homens e talvez sejam, ao contrário, uma revalorização? Um mostrar que é possível ser homem e sair um pouco daquele molde futebol-cerveja-coçar o saco, é possível ser homem e artista, ser homem e usar saia, ser homem e gostar de se arrumar, de se enfeitar, ser homem e preferir cuidar dos filhos, ser homem e botar no colo, e – mais difícil ainda – ser botado no colo… relaxar, chorar, dançar solto, rir desbragadamente, ser homem e sair do molde em que prenderam os homens, em que os próprios homens se prenderam há tanto tempo atrás que não sabem mais o caminho de volta e se obrigam a, permanentemente, vigiar outros homens. Porque todos têm que estar lá, dentro da caixinha. A estreita caixinha dos homens-homens. Tão apertadinha. Gestos, entonações, jeito de corpo: coreografia permanente dos homens-homens. Certos, fortes, musculosos, ousados, corajosos: aí, sim. Aí, talvez, o Nilson Xavier ficasse satisfeito e não considerasse que a novela tinha “desmerecido” os personagens homens.

Eu, aqui do meu cantinho, gostei foi muito. Que venham mais. Tá pouco ainda.

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Do Útero ao Túmulo

Por Fred Caju*, Biscate Convidado

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caju*Fred Caju é nordestino. Poeta. Letras sumarentas que nos escorrem pelo canto da boca e, vez ou outra, deixam um travo, como a fruta que evoca. Editor do Castanha Mecânica. Curador do Cronisias. Pra gente não esquecer que letra é vida. Querendo mais, tem disponível na net o audiolivro do Arremedos de um dado viciado e os livros pro kindle: Arremedos de um dado viciado e Sumo de ranço.

Exijo, Sim, Respeito

Por Monique Prada*, Biscate Convidada

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Tu dizes que não me respeitas e eu fico aqui, me perguntando de onde tiraste a ideia de que podes negar o respeito a outra pessoa. E não que eu tenha te pedido respeito: tu levantas a voz e diz “não respeito”, e eu me pergunto o que é que tu julgas em ti tão superior ao que tenho pra dizer que não respeitas.

E não que eu me importe com teu respeito, mas me dou conta de que não respeitas uma mulher por que ela faz sexo. E me pergunto de que ventre saíste, fecundado sem sexo. Ou quem sabe pra ti o sexo da santa mãe seja tão sagrado que ela te tenha gerado sem prazer – abnegada que é, como devem ser as mulheres respeitáveis.

E não que eu me importe com teu respeito, mas me dou conta de que é com o suor do teu corpo que pões o pão na mesa sagrada de teus filhos, do mesmo modo que com o sagrado suor do meu corpo ponho o pão e a refeição à mesa dos meus. Dizes que não me respeitas por que não estudei, e o dizes sem ter perguntado se quem sabe não fomos colegas. Nos puritanos bancos de escola em que sentaste não teria antes se esbaldado a lasciva bunda de uma puta e assimilado tanto ou mais conhecimento que tu?

Dizes que não me respeitas e vais à missa, e lá prometes amar e respeitar teu próximo como a ti mesmo. E repetes semanalmente a promessa – mas estufas o peitinho e dizes que não me respeitas. Ou pelo comprimento da minha saia, ou pela acidez feroz da minha língua. Não te desperto respeito.

Isso como se a ti ou a qualquer de nós fosse dado o divino direito de sair por aí dizendo “não conheço mas não respeito”. Não me respeitas por que te parece que meu sustento vem fácil e o teu, suado – e parte desse teu sustento tão suado vem parar em minhas mãos ou nas mãos de uma das minhas, por que não resistes. “A carne é fraca”, tu dirás – e meus demônios internos rirão da tua cara, da tua falsa moral, e guardarão tua face na memória.

Te arrependerás do pecado de ter pago pelo gozo a uma pecadora, e pensarás te redimir dizendo “eu não respeito” – puro despeito. A mim não enganas. Eu acho graça e levanto a cabeça: exijo, sim, respeito.

10429437_1639299509627620_3154711491717519962_n* Monique Prada por ela mesma: “escrevo e faço amor a noite toda”

Sobre o Lugar da Rola na Utopia

Esse post é para dizer duas coisas: 1. Não tá de boa alguém mandar outro alguém procurar uma rola e 2. Não é preciso jogar fora o bebê com a água da bacia, os dedos com os anéis, ou seja, repudiar tudo porque alguém errou (errou feio, errou rude).

Quanto à rola, deixo de partida: eu gosto. É bom, divertido, dá prazer, etc. Mas, até onde se sabe, não tem efeitos de reparação de caráter, não redime comportamentos inaceitáveis, não é cura para homofobia nem para nenhum outro tipo de preconceito. Não é legítimo, desejável ou aceitável mandar alguém procurar uma rola, aliás não é legítimo, desejável ou aceitável, em qualquer situação, insinuarmos que a pessoa de quem divergimos age de maneira A ou B por falta de sexo. Essa é uma argumentação machista que tem sido usada reiteradamente contra as feministas, inclusive (mal-amada, mal-comida, e daí ladeira abaixo).

Como disse o Pedro: “nenhum problema de que se tenha notícia (quanto mais homofobia e machismo!) é causado por “falta de rola”. O tal argumento, antes, é que é efeito dos referidos males. Rolas abundam na humanidade, e ouso apontar que quanto mais rola, mais problema. A ofensa via de regra é proferida pelo projeto de machinho – daria pra se traduzir em: você (o feminino, a falta, a fraqueza) é o problema e eu (o falo, o patriarca, o poder) sou a solução. Desnecessário dizer que a frase “vai procurar uma rola, homofóbico” traz consigo no mínimo um ato falho. Uma contradição que prejudica o argumento. Óbvio, não sou neutro: entre Boechat e Malafaia, fecharia com o primeiro. Grandes merdas: fecharia até com o Diabo, mil vezes, antes daquele picareta execrável. Mas eu não preciso fechar com ninguém. Sobretudo não preciso fingir que tudo que se diga ou faça contra quem mais se abomina seja aceitável.”

A gente vive em uma sociedade que naturaliza discursivamente preconceitos. É um tal de “chupa, filho da puta, baitola, mal-comida, vá tomar no cu, histérica, vai dar meio dia de cu, biscate, vadia”, e outras coisas assim. Não tem nada de mau em alguém fazer sexo oral. Nem em ser filho de uma prostituta. Nem em trabalhar como prostituta, aliás. Não tem nenhum problema em fazer sexo anal, pode ser uma delícia, seja homem ou mulher. Não tem nada de errado em apresentar uma neurose. Mas tem muita coisa errada em uma sociedade que usa esses termos como ofensa. Tem muita coisa errada em tentar minimizar alguém insinuando, por exemplo, que ele deveria manter práticas homossexuais, como se a pessoa que tivesse esse comportamento fosse menos digno de escuta e respeito. A banalização displicente desse tipo de fala traz, em seu subtexto, a convicção de que algumas pessoas são menos dignas de cuidado e proteção que outras. E a gente, que milita por um mundo menos excludente, tamos ali, dia a dia, dizendo que não pode, não é legal, não, não, não, não. Não pode no estádio de futebol, não pode na mesa de bar, não pode na entrevista de emprego e não, não pode na rede de televisão mesmo contra um político execrável. E isso não significa que estou defendendo sermos complacentes com os políticos execráveis. É possível ser incisivo, direto, firme sem ser homofóbico e sexista. Passar a mão na cabeça, relevar, dizer que é tempestade em copo d´água, isso tudo só mostra como ainda somos adeptos da lógica os fins justificam os meios e/ou aos amigos, os favores; aos inimigos, a força da lei. A Renata Lins alertou aqui: xingamentos moldam ideias, sentimentos, vamos desnaturalizar o pensamento e a reação. Vamos?

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Mas então, Luciana, vamos levantar a bandeira de homofóbico e jogar pedra no moço que mandou o outro moço procurar uma rola? Olha, eu vejo bem muito filme esquemático, tipo faroeste. É lá eu exercito o joguinho bem X mal. Na vida cá fora, um pouco mais de complexidade cai bem, acho eu. Para além do pensamento e das reações binárias tem um monte de outros caminhos. Como, por exemplo, o que prefiro: achar super legal o resto da conversa e dizer, “mas, opa, isso da rola não”. Sexo é bom consentido e por prazer, não forçado como resposta pra problemas de comportamento e ideologia. Nós e o moço da tv vivemos nessa sociedade. Fomos formados por ela. Isso implica em termos arraigados vários preconceitos. Isso significa que mesmo estando do lado das causas mais justas, mesmo militando contra a discriminação, mesmo querendo construir uma sociedade mais inclusiva e igualitária, a gente vai se valer, vez ou outra, de termos, comportamentos, análises que reproduzem justamente o que queremos desconstruir. Eu super entendo que a gente escorregue. Eu escorrego que só (tenho joelhos ralados pra provar). Mas a gente só sai do lugar reconhecendo os desacertos e fazendo melhor da próxima vez.

A sociedade que a gente quer construir vai sendo construída e determinada pelos meios e ferramentas que a gente usa para alcançá-la. No meu horizonte tem gozo e riso e aceitação. No meu horizonte tem rola sim. Tem gente procurando e achando rola, sim. Tem gente procurando e achando buceta, sim. Tem gente se esbaldando em rolas e bucetas, sim, sim, sim. Não como ofensa. Não como xingamento. Não para horror e espanto alheio. Como festa. E não, eu não acredito que é possível chegar aí sendo complacente com a reprodução de preconceitos, mesmo vindo de quem “tá do nosso lado”. Também não acredito que a gente chegue com a catalogação estática de pessoas (etiquetas com “homofóbico”, “racista”, “classista”, “libfem”) nem alijando aliados. A gente chega é afinando o instrumento, de dentro pra fora, de fora pra dentro. E, claro, com as rolas procuradas, aproveitadas, gozadas, por livre escolha e alegre consentimento.

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