Mãe

Meu post hoje fala do grande amor da minha vida. A mulher que sempre esteve ao meu lado e que tenho toda certeza que continuará ao meu lado a vida toda dela (ou a minha). Falo da minha mãe. Minha mãe é o meu maior exemplo de mulher, sempre falo que quero ter a mesma fibra que ela teve toda a sua vida!

Tattoo que fiz em 2010 em homenagem a ela.

Tattoo que fiz em 2010 em homenagem a ela.

Lembro como se fosse ontem, quando minha mãe se divorciou, que foi com a cara e a coragem morar sozinha, com duas filhas crianças. Mesmo sabendo que sua família não era muito de acordo, ela foi em busca de sua felicidade, que já não era mais ao lado de meu pai. Minha mãe trabalhava tanto! Por um certo tempo, ela foi mãe e pai, até conhecer meu padrasto, um homem que apoiou e esteve ao lado dela em todas as suas lutas diárias.

Foi nesse casamento que compreendi o valor do companheirismo, da amizade e da divisão de tarefas entre um casal! Meu padrasto sempre cuidou e muito bem da gente, enquanto minha mãe trabalhava e fazia faculdade, meu padrasto apenas trabalhava, então, presenciei várias cenas incomuns na década de 90: Meu padrasto cozinhava, colocava a gente pra dormir, levava a gente para passear todos os fins de semana que minha mãe precisava de paz para estudar. Foi nesse núcleo familiar que aprendi a ser feminista. E foi vendo minha mãe vivendo como profissional, escolhendo realizar seus sonhos, sempre olhando como a preocupação, o cuidado e o amor desse casal era provado a cada dia que minha mãe chegava tarde da faculdade e estávamos na cama dormindo, de barriga cheia e felizes.

Lia, eu e minha mãe no último natal

Lia, eu e minha mãe no último natal

Foi também com a minha mãe que aprendi a ser e me assumir negra. Sou filha de pai negro e mãe branca, na minha casa não tinha “alisar cabelo das meninas!”, teve quando foi de nosso desejo, na adolescência, e meio que a contragosto da minha mãe. Foi naquele núcleo familiar que ouvi, pela primeira vez, quando sofri bullying, que era linda, que minha cor e meu cabelo eram bonitos e que não deveria nunca pensar diferente! Foi com a minha mãe que aprendi a me impor, não deixar racismo nenhum me diminuir! De quantas lojas nós já saímos de cabeça erguida? Se mexesse com filha dela, mexia com ela! Quer ser racista? Não espere que a gente aceite!

Essa mesma mulher nunca se se sentiu envergonhada de nenhuma atitude minha, debate comigo e com minha irmã sobre racismo, homofobia, machismo, planos profissionais. Se ela ou eu temos alguns preconceitos enraizados, não é por conformismo, é por ainda estarmos todas nós (as 3) em desconstrução. Mas fico sempre feliz ao ver minha mãe, uma mulher branca, heterossexual, de família católica e nascida na década de 60 falar com mais naturalidade que muita gente de 20 e poucos anos sobre assuntos que, na época dela, eram tabus, era feio, era errado. Com ela eu aprendi a afirmar meus direitos, todos os dias.

Amanhã, essa mulher maravilhosa faz 54 anos, queria falar que me sinto feliz todos os dias por ser sua filha, por aprender com ela tantas coisas! Tenho muita sorte, noto isso todas as vezes que vejo que posso contar com ela, que ela me compreende, me apoia e, as vezes, me dá umas broncas também, coisas de mãe preocupada. Feliz aniversário, minha melhor amiga!

Eu decido

Por Niara de Oliveira

escolha

eu + Calvin

Na ressaca do Dia das Mães, comercial e excludente, sou obrigada a reconhecer que a cada passo que damos, individual ou em pequenos grupos, no coletivo maior da sociedade estamos caminhando de costas. Na esteira do desabafo que fiz do meu desconforto com a data, veio uma enxurrada de manifestações, quase todas legais, quase todas afagos, conforto, o que faz um bem danado. Mas — sempre ele –, vieram, no privado, inbox, perguntas, curiosidades de quem não conhece meu histórico de maternidade ou o conhece apenas parcial ou superficialmente.

Nas curiosidades estava implícito a cobrança do meu ativismo na área do autismo. Tipo, como assim eu ativista-comunista-feminista não sou um expoente da luta pelos direitos dos autistas no Brasil? Oras, porque não. Porque decidi não expor o Calvin e nem nossa condição socioeconômica para que tenhamos garantidos direitos que deveriam ser universais. Simples assim.

A cobrança não fica só aí, vai ao limite da sordidez. Como assim eu me dou o direito de viver (incluindo biscatear) e não vivo apenas para o meu filho? Porque somos duas pessoas, oras, e não é justo que vivamos apenas uma vida. Cada um tem a sua vida e a vive como é possível, como faz ser possível. O Calvin depende de mim para várias coisas — quase tudo, é verdade –, e eu tento suprir suas necessidades na medida do possível. Do possível. Sim, porque não sou obrigada a me tornar heroína e ir além da minha condição humana só por que tive um filho específico.

Como seria possível ser feminista e não lutar pelo meu direito à vida, mesmo que em condições tão adversas? Como ser ativista dos Direitos Humanos e não lutar pela minha própria condição, pelo meu direito à humanidade? Como ser comunista e não lutar para ter o melhor do mundo também para mim? Está parecendo egoísta, né? É, estou falando de mim, do meu umbigo, porque foi a minha existência plena, a minha vida que foi questionada nas entrelinhas da curiosidade.

Não quero, e não vou, me tornar a madre-teresa-de-calcutá dos Lennox-Gastaut (síndrome do Calvin). Poderia justificar com um zilhão de motivos, mas vou fazê-lo com apenas um: essa escolha é apenas minha. Lidem com isso.

Leia também:
Maternidade “especial” – o que o feminismo tem a ver com isso? — Cyntia Beltrão

mãe e amiga

Nunca soube quando me dei conta que era bissexual, mas minha atração física desde sempre foi por ambos os gêneros. Já me perguntaram porque me atraem as mulheres, outra pergunta que acho difícil de responder, eu sei o que me atrai, mas porque, não tenho ideia!

Meu primeiro beijo com uma mulher me incomodou, para mim foi tão natural que me incomodou, como assim? O normal é querer homem, será que sou estranha? Uma garota de 15 anos passando por essa reviravolta louca na cabeça! O que fazer? Será que eu sou errada? Já não bastava ser a nerd, a desajeitada nos esportes, a filha de militar, ainda seria a “machona”? Você fica em pânico, quer se esconder… Por muitos anos não assumia minha sexualidade a ninguém, só ficava com homens.

Aí, desabafei com minha mãe, contei para ela, tive medo de sua reação mas ela reagiu como nunca imaginei que reagiria, ela foi a minha companheira! Depois disso, ela se tornou minha maior e melhor amiga. Somos brigonas, mas ela sempre foi meu porto seguro, vejo tantas meninas na mesma situação que eu sofrendo com o preconceito da família. Assumo que sou uma tremenda sortuda, nunca precisei me esconder da minha mãe. Apaixonei por homem, por mulher, conto pra ela, falo e mostro quem é, ela torce por mim.

“Eu amo a minha filha lésbica”

Qual a dificuldade de amar seu filho ou sua filha? Sendo hetero ou homo, não deixa de ser filhx! Minha mãe é moderna, diferente de mães que conhecemos? Sim, mas poderia ser o modelo de mãe que se encontra no cotidiano. Triste saber que amigas minhas sofrem, são expulsas de casa, sofrem coisas piores de familiares intolerantes que não conseguem aceitar e conviver felizes com a diferença.

Ia escrever um post sobre preconceito, mas acho legal falar de como é bom ter esse apoio em casa, uma forma de falar de como a tolerância na família pode fazer bem. Saber que independente de como seja meu dia, independente de como me tratem, cheguei na casa da mamãe, lá eu tenho carinho, apoio, cuidado e um ombro pra desabafar! Sou dessas que acredita que um bom exemplo pode mudar muita coisa, é o exemplo da minha mãe que deixo hoje nessa quinzena da visibilidade lésbica e bissexual.

semana_lesbica_bissexual

Esse texto faz parte da 1ª Semana de Blogagem Coletiva pelo Dia da Visibilidade Lésbica e Bissexual, convocada pelo True Love

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