O “problema” dos seios desnudos

Por Nikelen Witter*, Biscate Convidada

*Nota Inicial: Neste texto não comentarei sobre o Femen. Existem vários textos excelentes (esse, por exemplo) sobre a organização, portanto, não pretendo repetir aqui o que já foi dito. Some o fato de que não sinto, como feminista, qualquer tipo de empatia ou afinidade com o referido grupo. Feita a nota inicial, segue o baile.

Desde que o Movimento Marcha das Vadias (leia sobre a Marcha aqui no nosso clube) começou, tenho ouvido constantemente críticas às mulheres que mostram SEUS seios (pronome possessivo destacado) nos protestos. Os comentários vão desde o tradicional: “como querem respeito se não se dão ao respeito?”; até os que são colhidos do próprio feminismo e que envolvem a objetificação da mulher ou que acusam as manifestantes de mostrarem os seios para terem a atenção da mídia. Eu poderia elencar a cansativa lista de contra-argumentos sobre estes comentários. Cansativa porque já foram repassados centenas de vezes, ao menos para quem costuma manter-se informado. Também poderia dizer que mesmo que todas estas críticas tivessem fundo de verdade, ainda não teriam razão de ser. Isso porque o corpo exposto nos protestos não pertence aos tais críticos e, portanto, eles nada tem a ver com a decisão das DONAS dos seios de mostra-los ou não.

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Foto de Tchê Vinicius Ferreira – Marcha das vadias/ Curitiba

Por isso a minha opção foi ir à raiz de todos estes comentários e olhar para eles com um olhar infantil, com uma pergunta de criança de 3 ou 4 anos: por quê? Por que não?

As mulheres não podem mostrar seus seios em público.

Por quê?

É feio para uma menina se “expor”.

Por quê?

É coisa de vadia.PORQUEk

Por quê?

É ruim.

Por quê?

Porque os homens ficarão pensando bobagens.

Por quê?

Porque homens são assim.

Por quê?

Ah, é assim!

Por quê?

Se você é inteligente, com certeza percebeu onde todos estes porquês batem. Eles se chocam contra uma imensa parede cultural restritiva dos direitos das mulheres. As desculpas que vão desde a moralidade – que é histórica e temporal, portanto, de validade sempre limitada – até a total e descabida desconstrução do masculino, transformado em “besta selvagem e irracional”. No fim disso está: “mulheres mantenham-se escondidas, fechadas, se guardem para os que podem protegê-las, pois todos os homens não prestam”. O raciocínio todo é retrógrado e fere as mulheres e aos homens. Limita ambos a papéis restritos, impõe formas de comportamento, cerceia uma reivindicação que pertence à raiz da luta contra o patriarcado: o corpo das mulheres pertence as mulheres.

Parece uma reivindicação tola? Óbvia? Um pouquinho de história e antropologia resolve isso. A bíblia permite aos homens vender suas filhas e também as esposas. Caso você não saiba os livros que compõe a bíblia pertencem a épocas diferentes e foram escritos de acordo com o que interessava a tal época, ou seja, não desceram do céu. Por conta disso, em alguns trechos, as filhas e esposas poderiam ser repudiadas, expulsas, prostituídas ou condenadas ao apedrejamento caso fossem desobedientes. O mandamento que fala em não cobiçar a mulher do próximo trata as mulheres como coisas. Aliás, o velho testamento é cheio disso. Mas não pense que isso se restringe à mitologia judaico-cristã. Os romanos proibiam os direitos às mulheres porque consideravam que se tornariam perigosas caso tivessem direitos. Aí você pergunta: perigosas por quê? Perigosas como? Os romanos também proibiram as mulheres de falarem nas ruas, de dizerem o que pensavam. Por quê? (Leia Deusas e Adivinhas, de Santiago Montero). Ao longo da História as mulheres foram tratadas como o outro, o intruso, o macho defeituoso, a subespécie, a coisa incompreensível, o incontrolável a ser controlado, o incapaz a ser desacreditado (leia Inventando o Sexo, de Thomas Laqueur). Foram vistas como pertence, como coisas, como parte daquilo que os homens trocavam, se desfaziam, possuíam, punham sua marca. Por quê? O que assusta tanto?

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Não tome estas perguntas como ingênuas. Não são. Eu não as estou formulando em tom de coitadinha, de mimimi (como gostam de usar na internet). Estou formulando estas perguntas como bandeira, como lança, como ataque! Por quê? Por quê? POR QUÊ?

Mais que tudo: por que você acredita que tem de se dobrar a isso? Seja homem ou mulher, por que acha que esta é a forma correta de ser e se comportar? Por que faz coisas e repete ações sem se perguntar por que faz isso? Por que continua sendo a vaquinha do presépio balançando a cabeça ao “sempre foi assim”?

Uma das coisas que a História me ensinou foi que nenhum comportamento, nenhuma forma de ver o mundo, nenhum tipo de construção cultural é eterno e impermeável à crítica e a mudança. Tudo muda e muda o tempo todo. O passado nos serve para refletir e entender o presente, não para engessá-lo, controlá-lo ou limitá-lo.

Os seios desnudos são uma reivindicação de posse. Qualquer seio é, sendo exibido ou não. Os úteros também são reivindicações de posse, são nossos, férteis ou não, são nossos! Ponto. Não há margem para discussão. Assim como são nossas as pernas, os braços, os cabelos longos e soltos, curtos e curtíssimos, raspados ou moicanos; são também nossas as tatuagens e a ausência delas. É nosso o grito, a voz que fala, o texto escrito, a palavra no microfone, o andar na rua, o estudar, o amar quem quiser, o fazer esportes, o transar quando estiver a fim. Tudo isso, em algum momento, já foi proibido, disciplinado, limitado, estigmatizado. A tudo isso, em algum momento, foi nos foi dito “não, vocês não podem!” Por quê? “Porque vocês são mulheres.” Isto é uma constatação e não uma resposta. Quem diz que não podemos? Por que não podemos? Pense bem. Encontre uma resposta que não seja vazia, tola, religiosa, eivada de preconceito. Pense! Depois responda: por quê? Por que isso te incomoda tanto? E quando você souber por que te incomoda, eu ainda estarei te perguntando, como a mais insistente das crianças: por quê? Por quê? Por quê?

nikelen*Nikelen Witter teve que aprender a aceitar o próprio nome e com isso compreendeu que não tinha saída se não ser diferente. Transformou a vida de E.T. em profissão só para ler em tempo integral e acabou dando aula de História em faculdade. Atualmente, tenta escrever compulsivamente na medida que os dias e noites permitem, militar pelo feminismo e seduzir jovens leitores (porque a ideia de seduzir os jovens é boa demais!).

Liberdade para não morrer

Por Niara de Oliveira

Já estamos em clima da Marcha das Vadias no Brasil (clique nas siglas para ver a página de cada Marcha: RJBSBBH — SP — indiquem as que não achei, que vou acrescentando). Em Quito já rolou a Marcha das Putas e eu achei tão mais bacana esse nome… 😛

E por que a Marcha das Vadias é necessária? Por que além dos desafios do feminismo não estarem superados ou vencidos (como disse no meu último post — sim, esse é uma continuidade daquele), o machismo é estrutural e estruturante dessa sociedade em que vivemos e sustentamos (e sustentamos inclusive o machismo, não se iludam) e sua face mais perversa é a violência sexista, que inibe, obstrui, marca, mata e nos impede de viver livremente.

Avançamos muito, é verdade. Mas, nenhum avanço foi de graça ou veio desacompanhado de dor e da perda de muitas mulheres. Ou seja, o caminho da luta pela libertação das mulheres é ladrilhado pela vida de muitas de nós. Então, muito-muito-muito respeito e cuidado ao se referir, lidar ou andar nesse caminho. E esse recado vale para  a presidenta Dilma Rousseff e para a secretaria de Políticas para as Mulheres Eleonora Menicucci. Não basta ser mulher e estar num cargo de poder, tem que usar esse cargo e todos os recursos possíveis e oferecê-los às mulheres para que possam usá-los na luta contra sua opressão. Ou de nada adianta essas mulheres ocuparem esses cargos.

E por que citei Dilma e Eleonora? Porque o governo Dilma usou menos de 30% das verbas previstas no orçamento para o combate à violência contra a mulher nos anos de 2011 e 2012. Dá vontade de chorar, sabe? Porque essa decisão, burocrática, administrativa, de não comprometer o orçamento previsto condena milhares de mulheres à morte e à tortura. Todas nós que já brigamos por políticas públicas e sempre esbarramos nas desculpas “não tem orçamento para isso” sabemos que ter esse orçamento destinado a combater violência consumiu anos de luta feminista e essa conquista está sendo jogada no lixo.

Não estamos falando de possibilidades. Mulheres morrem por falta de políticas públicas efetivas de combate à violência. Então, além da Marcha das Vadias fazerem sua tradicional reivindicação pela liberdade e o direito de ir e vir vestidas como bem quiserem sem sofrer violência, faço um apelo para que incluam essa pauta.

Para que liberdade? Para não morrer.

Liberdade para não morrer. Coisa de mulher, nesse mundo, no Brasil do séc. 21.

Essa Gente Sem Vergonha

Por Nikelen Witter*, Biscate Convidada

O convite da Lu já quase caducou antes de eu fazer minha estreia no Biscate. Em minha defesa, digo que tive um início de ano atípico (ou, pelo menos, assim espero, pois se isso for ficar comum, acabarei numa camisa de forças). De início, eu tinha combinado que escreveria sobre a Mary Wollstonecraft (tipo: biscatage também é cultura), mas ainda não é o momento. Depois pensei em escrever sobre a magnífica Mae West, uma das minhas biscates favoritas (o que era aquele andar, gente?), porém ainda não rolou. Se alguém quiser escrever sobre ela, pode avançar o sinal que eu deixo, incentivo e facebookeio.

BEIJINHO , MARIA SEMVERGONHA

Maria Sem Vergonha: fazendo jus ao nome, encostada no pau.

Então, acabei achando que não tinha melhor jeito de fazer meu outing no Biscate do que escrevendo sobre “essa gente sem vergonha”. Bem claro que não estou me referindo a corruptos e ladrões. É o “sem vergonha” noutro sentido, sabe? É, aquele… Pois é. Acabei ficando meio obcecada com essa coisa de ter vergonha e ser sem vergonha e como isso mexe com os nossos sentidos, com a libido e com o que queremos que os outros pensem da gente. A coisa toda me surgiu com a Marcha das Vadias. “Pôxa, a causa é show, mas eu teria vergonha de andar por aí com uma placa escrita: sou vadia.” Ouvi essa de gente insuspeita, surpreendentemente desconfortada com ouvir para si o termo que usa para xingar as outras. “Por que esse nome? Bradaram moralistas e machistas enrustidos. “Querem ser levadas a sério? Usem outro.” Respondo sempre que, quem se choca com o termo vadia, certamente não entendeu a ironia.

Não é diferente quando indico o Biscate para leitura. “O quê? Aquele blog de gente sem vergonha?” É, é sim. Só que, se é para brincar e ser subversivo com a história das palavras, então, vou dizer que o pessoal desse blog tem vergonhas sim. Só que não as esconde. As coloca à mostra, as deixa a nu, não tem vergonha de exibir suas vergonhas.

O fato é que, do meu ponto de vista, ter vergonha (ou vergonhas) não é problema, colocar folhinha de parreira sobre ela, é sim. Expor o que se pensa, num mundo tão limitado pela hipocrisia, é sempre obsceno. Dizer o que se quer, numa sociedade moldada a que todos digam apenas o que se quer ouvir, terá sempre um componente subversivo. É como deixar as vergonhas bem altinhas e peludinhas todas de fora (lembrando o anuncio de Caminha sobre as gentes destas paragens). É o que se encontra no Biscate e é por isso que passei a ler o blog e depois indicá-lo. Porque, na minha lógica, sexo não é vergonha. Nem desejo, nem tesão. Vergonha é ter regras que se apliquem mais aos outros que a si mesmo. Vergonha é patrulhar o cu alheio.

Passado o primeiro choque, muitos se deixam convencer e há os que estacionam em gradações intermediárias. O interessante é que entre os renitentes, os que se vergonham com simples palavras, estão os que, em grande parte das vezes, acham que estupro só acontece com quem “tá pedindo”; que criança de 8 anos que aparece grávida “era bem sem vergonhinha”, pois não tem sinal de violência. São os mesmos que idealizam a única e “verdadeira” vítima de estupro: bela, virgem, jovem, “decente”, com corpo escultural e roupas doadas pelo Exército da Salvação, agarrada por um desconhecido, em plena luz do dia (oh!). São os mesmos que acham que piada envolvendo violência sexual e doméstica, mulheres grávidas e espancamento de gays são: “poxa, só uma piada”. Aí, essa mesma gente se envergonha do que? De sua falta de noção? Não, de palavras. Palavras bobas, com um significado cultural eivado de preconceito como vadia ou biscate. E chamam de sem vergonha quem as usa assim, sabe, sem vergonha nenhuma, quem brinca com a história, quem subverte e expõe a tolice dos rótulos que só servem para cercear a liberdade.

Se o rumo disso pode ficar pior, contabilizem comigo. E acompanhem o raciocínio deste povo que se acha moral e cheio de vergonha na cara.

É feio e coisa de “sem vergonha” falar de sexo na escola e se fornecer educação sexual para crianças e adolescentes. Contudo, crianças abusadas que não sabem identificar a agressão por mal entenderem o que lhes acontece, tá na boa não é? Ensiná-las a se defender, nem pensar.

O mesmo vale para a gravidez adolescente, quase epidêmica, abortando a vida de um sem número de meninas – ou pelo aborto mal feito mesmo ou por terem de criar outra criança sem ainda deixarem de sê-lo. Muitas destas meninas ficam sozinhas nesta tarefa imensa de cuidar de crianças, enquanto os pais, irresponsáveis como os garotos (quase meninos) que são, continuam a sair, ir à escola, à balada. Algumas têm sorte (?), são assumidas (?), casam e com 14 anos já são totalmente mulheres, isto é, não tem mais direito a estudar, têm filho pra criar, casa para cuidar e gerenciar e uma mini-troglodita a lhes regular os passeios, a saia e a vida. Alguém que lhes diz que “mulher minha não faz isso ou aquilo”. Mas, claro, a culpa é da menina, não é? Quem mandou ser sem vergonha? Quem mandou ser curiosa e jovem? Sexo, afinal, é uma coisa feia, a ser evitada, mas, aparentemente, filhos aos 14 anos (ou menos) não. A educação que tudo lhe escondeu não tem culpa nenhuma, pois nunca se falou, explicou, nem se estimulou o sexo. Sabe? Aquilo que não é falado, simplesmente, não existe. Como se precisasse falar? Lembram-se do filmezinho tolinho Lagoa Azul? Pois é, ignorância total e ainda se descobriu como é que se faz. Ninguém precisa ensinar a transar, se aprende. Ensinar a não ter filhos… ah, isso, bem, hã, é… desconversam. Afinal, o problema é que não se deve fazer sexo, certo? Isso é que tem que ser coibido. Mas, se fizer e o filho vier, foi deus quem mandou e é uma benção. Mesmo que a pobre criatura não tenha corpo ou estrutura. Mesmo que a vida dela e das crianças que tiver tenho como destino o abuso e a miséria. (O aparente exagero não se refere, certamente, aos casos felizes, as exceções que, de fato, só servem a confirmar a regra). Evitar é pecado. Um pecado maior do que fazer. Sério? No nosso mundo?

É uma lógica interessante esta que acha que falar ou usar as palavras: sexo, estupro, vadia, biscate, racismo, homossexualidade, etc. é estimulante. Vai fazer com que as pessoas pensem nisso e saiam por aí transando, biscatiando, vadiando, se tornando mais racistas do que já são ou pegando geral na parada gay. De tudo isso, preserve apenas: vai fazer com que as pessoas pensem nisso, PENSEM, e isso sempre é melhor do que não pensar.

Não é nas palavras que o perigo se esconde, mas nos seus conceitos. As palavras só dizem o que queremos dizer com elas e onde elas silenciam é que ficam suas zonas mais obscuras. No silêncio destas palavras estão as crianças abusadas e sem defesa; estão as pessoas que acreditam que o mundo é assim mesmo e não há o que se possa fazer; estão os que acreditam que você pode evitar a violência doméstica se obedecer; que pode escapar de ser estuprada se seguir rigidamente um código que envolve toque de recolher e roupas abotoadas.

Não é das palavras que devemos ter vergonha. Nem de expor aquilo que, gente adulta, vacinada e dona do nariz faz e gosta. Vergonha é de se ter quando a gente cala, quando não ensina, quando não exige, quando baixa a cabeça, quando obedece. É por isso que, mesmo que com algum atraso, estou aqui, me somando com essa gente sem vergonha do BSC. Que fala em alto e bom som as palavras, subverte-as, brinca com elas, atira pra cima e dá risada. Essa gente sem vergonha que também não se cala, não se intimida e ainda diz: não, não passarão!

Ô mãe! Ô pai! Tô no Biscate!

flivrostmaria2012062*Nikelen Witter teve que aprender a aceitar o próprio nome e com isso compreendeu que não tinha saída se não ser diferente. Transformou a vida de E.T. em profissão só para ler em tempo integral e acabou dando aula de História em faculdade. Atualmente, tenta escrever compulsivamente na medida que os dias e noites permitem, militar pelo feminismo e seduzir jovens leitores (porque a ideia de seduzir os jovens é boa demais!).

Minha cidade se chama…

Dia 9 de junho teve a Marcha das Vadias na cidade que escolhi chamar de minha casa. Ela se chama João Pessoa e o seu nome sempre me pareceu redundante. Mas nenhum nome vem sem causa, não é?

De acordo com a Wikipédia a história é a seguinte:

“Em 1928, Anayde iniciou um relacionamento amoroso com João Dantas, político local ligado ao Partido Republicano Paulista, que fazia oposição ao então presidente do Estado (governador) da Paraíba, João Pessoa. Depois do violento confronto político que deu origem ao Território de Princesa, João Dantas acabou se refugiando no Recife, mantendo o relacionamento com Anayde à distância, através de cartas.

João Pessoa reagiu, mandando a polícia revistar as casas dos revoltosos e suspeitos, em busca de armas que pudessem ser utilizadas em uma revolta armada. Um desses locais foi o escritório de João Dantas na Cidade da Paraíba (atual João Pessoa), invadido em 10 de julho de 1930. Embora não tenham sido encontradas armas, os policiais depredaram as instalações e arrombam o cofre, onde foi encontrada a correspondência de Dantas, inclusive cartas e poemas de amor recebidos de Anayde.”

Ui!!! Tem sexo, violência e glamour, não é?

Mas continua…

“Nos dias seguintes, o jornal governista “A União”, e outros órgãos de imprensa estadual ligados à situação, publicaram o conteúdo das mesmas, visando atingir a honra de Dantas.

Em 26 desse mesmo mês, João Dantas, acompanhado de um cunhado, Augusto Caldas, entra na Confeitaria Glória, no Recife, e dispara contra o peito de João Pessoa, matando-o. Lavava, com esse gesto, a sua honra ofendida, com sangue.

Criticada publicamente por razões morais e políticas, Anayde sentiu-se acuada após o assassinato de João Pessoa, que causou comoção popular. Desse modo, abandonou a sua residência na Paraíba e foi morar em um abrigo no Recife, onde passou a visitar João Dantas, detido em flagrante e recolhido à Casa de Detenção naquela cidade.

(…)

Anayde veio a falecer, dias depois, aos 25 anos de idade, supostamente por envenenamento provocado por ela, quando sob os cuidados de freiras. O seu corpo foi sepultado como indigente no Cemitério de Santo Amaro.”

Assim se consumou o nome da cidade onde moro.

Antes de (também) criticar apenas um ou outro, lembremos que o Nego de nossa atual bandeira (vermelha e preta, flamenguista!) vem de uma frase de João Pessoa que tentava livrar o Estado de uma política oligárquica, e na época representada pelos Estados de São Paulo e Minas Gerais com aquele negócio que a gente estuda em história e chamam de política do “Café com leite”.

Pois é. Confusão.

E é nessa cidade que pela primeira vez aconteceu uma Marcha das Vadias há nove dias atrás. Não pude comparecer, mesmo tendo me programado com antecedência e por causa de um trabalho. Eu estava em outra cidade, no sertão Paraibano, há seis horas de João Pessoa e que se chama Sousa.

Triste, eu sei… eu sei…

Mas enfim…

Os comentários machistas e preconceituosos que surgiram desde que começou-se a falar da Marcha das Vadias aqui, e que pareceram se intensificar quando passei a ajudar a na organização da mesma, e que em muitos momentos me tiraram do sério, hoje não me parecem tão importantes, perto de outros comentários, da conversa de bar que acabei de ter, e das fotos que compartilhei de mulheres e homens, que pela primeira questionaram falsas, limitantes e sufocantes noções de “moral”, que aprisionam seus corpos e suas mentes em prol de uma suposta ordem social, que nada mais é, a grosso modo, apenas o que possibilita manter o status quo dominante que é branco, masculino, heterossexual e classe média.

E o que Anayde (o sobrenome é Beiriz, se lhe interessar) tem a a ver com isso?

Anayde se tornou a “prostituta do assassino do Presidente” por aqui na época em que viveu. Hoje ela é homenageada em casas populares e nomes de escolas. É mote de mestrado e motivo de orgulho, de uma Paraíba feminina, mas “mulher macho, sim senhor” retratada inclusive por Tizuka Yamazaki em filme.

Mas sabe o que ainda assim me entristece?

Não achei nenhum texto, nenhum, nenhunzinho, dentre muitos que ela tenha possivelmente escrito enquanto pensadora da sua época, porque sim, ela não era apenas uma mulher dividida entre uma coisa e outra, entre um ideal e outro, entre alguém que lavava sua honra e outro que a dizimava…

Ela era poeta, professora, pensadora, escrevia em jornais, vivia entre intelectuais, ditava opiniões…

A única poesia disponível na web coloca-a como um personagem dúbio, entre puta e santa, entre mártir a algoz. Isso é bom ou ruim? Inclusive enfia historicamente, um outro homem a quem ela escrevia. Isso é bom ou ruim?

Ah, tudo bem, tudo bem… a vida é assim mesmo…

É?

Quem é essa mulher alem desses homens? Além da história?

E você, quem é além desse ou daquele? Disso ou daquilo?

Então escrevo esse texto como quem pede: questionem seus pensamentos e padrões!!! Suas histórias!!!

Sejam livres! A liberdade é uma escolha, mas precisamos lutar por ela, acreditem!!!

Que ninguém, além de você mesm@, possa escolher quando calar e quando falar. E em que tom. Não são nossos peitos que algumas pessoas que nos criticaram não queriam ver, porque “isso” toda a sociedade assiste hipnotizada em desfiles de carnaval e em qualquer programa de televisão.

Não se deixe iludir!!!

O que penso sobre os críticos da Marcha das Vadias aqui, na minha cidade, é que essas pessoas não queriam, quando reclamavam das pessoas, homens e mulheres, que defendiam uma causa, era ter que escutar os gritos de dor, medo e revolta escondidos durante muito tempo. Palavras que clamam justiça, igualdade e liberdade.

Porque eles incomodam quem prefere manter-se dormindo em sua zona de conforto e não quer pensar sobre si mesm@ e no quanto suas escolhas, mesmo que seja a de manter-se em silêncio, arrombar casas ou “defender a honra”, também destroem, machucam, mutilam e matam.

De quem você é filh@? Qual seu sobrenome? De que partido?  Com que roupa?

Sim, mulheres também são machistas, como muitos nos apontam os dedos para não ter que novamente (ai, que cansaço!) pensar sobre si.

Sim, talvez eu seja preconceituosa e carregue machismo como todo mundo, vejam só! Mas eu não sou só mulher, artista, pagã, romântica, divorciada, filha, amiga, feminista, louca, poeta, machista ou preconceituosa. Novas versões de mim podem surgir simplesmente quando penso, questiono ou apenas aceito que certas atitudes que tomo e pensamentos que tenho, farão diferença no meu caminho, só ou acompanhada, mesmo nesse mundão tão grande, todos os dias, todas as horas, em todos os momentos. Que posso inclusive MUDAR meus pensamentos, se eles forem machistas ou impliquem em qualquer dor ou mágoa, se eu for preconceituosa ou sexista com meu semelhante.

A Marcha não mudará nada? Faremos alguma diferença?

Minha cidade poderia se chamar Anayde, se ela não tivesse sido tão esquecida, mesmo quando lembrada. E a sua?

P.S: Nenhuma luta é isenta. Nenhuma bandeira é carregada sozinha. Esse texto é para Ieda, Tony, Wagner e Lauro. Porque sim.

P.P.S: As imagens que ilustram esse texto acima foram “roubartilhadas” do grupo Marcha das Vadias João Pessoa no facebook. Exceto a que me conta (ou não) aí embaixo.

.

* Raquel Stanick, de acordo com ela mesma, não é, mas está, artista visual, entre mil outras e tantas coisas (inclusive quase sempre apaixonada) lá pras bandas da Paraíba. Delicada, arruaceira, mocinha do bem, mulher da noite, poeta do amor fácil e da vida difícil (e outras tantas vezes o inverso), é, não apenas biscate na vida mas biscate-fixa-escrevente no nosso clube. Quer mais Raquel? Ela é colunista da Revista Mostra Plural, se desalinha em Todas Essas Coisas Sem Nome e ainda tem este blog onde você esbarra em um pouquinho do lindo trabalho dela: Ceci, n’est pas un blog .

Fui feita pra vadiar!

Sabia que neste final de semana, dias 26 e 27 de maio de 2012, em várias cidades do Brasil, um monte de gente vai sair às ruas, na Marcha das Vadias?

– Nossa, que nome horrível! Quem inventou isso? Que falta do que fazer! Eu não vou em uma coisa com um nome desses!

Hum… minha cara de Willy Wonka pensando em todas as outras marchas para as quais te convidei e você não foi.

Então! É sábado!

Dia de tirar a calça jeans, colocar um fio dental… ~ops~ não precisa!

Gente, é uma marcha sobre VIOLÊNCIA, e não sobre SEXO.

Não tem roupa específica. Não precisa “ir de vadia”.

Aliás, o que seria uma roupa “de vadia”?

Curta? Decotada? Barriga de fora? Peito pra fora?  Bunda pra fora?

Biscate, piriguete. O que é ser “vadia”?

O homem é civilizado
A sociedade é que faz sua imagem
Mas tem muito diplomado
Que é pior do que selvagem

Somos todas vadias.

Quando usamos a roupa curta ou decotada, e ousamos dizer um NÃO para algum homem? Somos vadias?

Somos vadias quando uma pessoa tem um relacionamento com um terceiro e busca a nossa companhia? Para um monte de gente, somos vadias…

Somos vadias quando nossa orientação sexual não segue um padrão heteronormativo, e paira sobre nós o fantasma do estupro corretivo.

Somos vadias quando somos estamos dirigindo, e desobedecemos a regra de ouro de … não cumprir as regras de trânsito e exceder o limite de velocidade. Para tantos e tantas outros e outras motoristas, somos putas e vadias, apenas por estar no volante? E se for em uma cabine de comando, de um avião? 

Somos vadias quando levantamos a voz, e dizemos que não concordamos com algo que foi feito ou que foi dito, somos vadias quando sentamos sozinhas em uma mesa de bar, somos vadias se vamos ao cinema desacompanhadas, somos vadias quando… bem, quem mandou nascer mulher?

A Marcha das Vadias é nome que recebeu, no Brasil, um movimento que começou no Canadá, em Toronto, quando um policial canadense, Michael Sanguinetti, fez a infame afirmação, em uma palestra: “Me disseram que eu não devia dizer isso, mas as mulheres não deviam se vestir como vadias se não querem ser estupradas”. As alunas da universidade se revoltaram e sairam às ruas, “vestidas de vadias”, para afirmar que a culpada pelo estupro não é a vítima e nem a roupa que ela usa mas, sim, a conduta do estuprador.

Até hoje, quase dois anos depois, e com a propagação dos protestos por todo o mundo, a Polícia do Canadá ainda insiste que este comentário não representa a visão de toda a instituição, mas “apenas um oficial”.

Infelizmente, não é só no Canadá que as mulheres são responsabilizadas pelas violências sofridas. Especialmente a violência sexual. E ainda há decisões nas quais a “mera negativa” da vítima em consentir com o ato sexual, sem resistência efetiva, serve para descaracterizar o estupro e absolver o agressor. Ainda há decisões nas quais o “comportamento” da vítima (e nem precisa ser o comportamento sexual da vítima com o agressor, basta dizer que a mulher é sexualmente livre, já teve “mais parceiros do que a média’ – e eu pergunto: qual é a “média”?) serve não para calcular a pena, como é previsto e justo, mas para afastar o crime,

E é por isso que marchamos.

A violência contra a mulher é uma chaga, naturalizada, internalizada, divulgada sem reflexão, repercutida sem informação.

Mulheres são assediadas, abusadas, estupradas, intependente da roupa que vestem, do corte de cabelo, da maquiagem, ou do salto alto.

Mulheres são agredidas e mortas, na maior parte dos casos, por companheiros ou ex-companheiros.

Nem sempre o estuprador é um “monstro psicopata”, nem sempre ele é o “estuprador serial” das manchetes sensacionalistas. (e até sobre o mítico “monstro”, recomendo essa leitura, da Eliane Brum –  A vítima indigesta ) Aliás, quase sempre, ele é o amigo do pai, do avô, do irmão. Quando não é o pai, o avô, o irmão, o tio, o marido da mãe, o vizinho.Todas as pesquisas e dados mostram que em mais de 70% dos casos, o estuprador é parente, companheiro ou ex-companheiro ou conhecido.

A marcha das Vadias é contra a violência, é séria, e prá valer.

E pego um trecho de uma música do MV Bill, com o Charlie Brown Jr:

“Muda, luta, move essa bunda. Cria coragem, larga dessa vida imunda. Porque a culpa é de quem tem a culpa e não de quem leva a culpa!”

[+] Um adendo necessário: Vadias somos todas. E sérias. Somos vadias sérias, de luta, de coragem.

Mas tambéms somos vadias biscates, e biscate sempre biscateia. E é claro que todo lugar é lugar de biscatear, e pra quem gosta, de beber e se divertir.

Porque alguém já disse e eu aplaudo: não é a minha revolução, se não pudermos dançar. E paquerar. E beijar na boca.

Se ainda formos fazer tudo isso, sambando na cara do patriarcado, nossa… nossa!

Delícia, delícia!!! Hey, machista, meu orgasmo é uma delícia!

[+] Datas e locais das Marchas por todo o Brasil:

Brasília, DF 26 de maio de 2012 Local e hora: concentração no CONIC, 13h (próximo à Rodoviária do Plano Piloto) Comunidade no Facebook Siga pelo Twitter

Belém, PA 27 de maio de 2012 Local e hora: Estação das Docas, 9h Evento no Facebook Fan-page no Facebook

Belo Horizonte, MG 26 de maio de 2012 Local e hora: Concentração na Praça Rio Branco (praça da Rodoviária), a partir das 13h. Fan-page no Facebook Evento Twitter: @slutwalkbh Blog

Campinas, SP 1o de março de 2012 Fotos no Facebook

Campo Grande, MS 10 de março de 2012 – Próxima Marcha 26 de maio de 2012 Local e hora: a confirmar Veja fotos da primeira Marcha de 2012 Mais fotos aqui

Criciuma, PR 26 de maio de 2012 Local e hora: Praça Nereu Ramos (em frente a Casa de Cultura), 10h Evento no Facebook

Curitiba, PR – Ato Vadio 26 de maio de 2012 Local e hora: Reitoria da UFPR, das 18h às 22h Evento no Facebook – Marcha das Vadias 14 de julho de 2010 Local e hora: a confirmar Comunidade no Facebook Veja fotos da Marcha das Vadias Curitiba 2011

Florianópolis, SC Dia 26 de maio Local e hora: Concentração na Catedral (centro da cidade), a partir das 10h. Evento no Facebook

Guarulhos, SP Data a confirmar (junho) Local e hora: a confirmar Grupo no Facebook

Natal, RN 26 de maio de 2012 Local e hora: Feira do Alecrim, 10h Twitter da Slutwalk Natal Página no Facebook Macapá, AP 2 de junho de 2012 Local e hora: Praça Floriano Peixoto, 15h Evento no Facebook

Salvador, BA 26 de maio de 2012 Local e hora: Praça da Piedade, às 13h30 Evento no Facebook

São Carlos, SP 26 de maio de 2o12 Local e hora: Praça Santa Cruz, 9h Comunidade no Facebook

São José dos Campos, SP 26 de maio de 2012 Local e hora: Praça Afonso Pena, 10h Fan-page no Facebook Blog

São Paulo, SP 26 de maio de 2012 Local e hora: Praça do Cicllista, 13h Grupo no Facebook

Pelotas, RS 8 de março de 2012 Fotos aqui

Porto Alegre, RS 26 de maio de 2012 Local e hora: Arcos da Redenção, 14h Evento no Facebook Grupo no Facebook

Recife, PE 26 de maio de 2012 Local e hora: Praça do Derby, 14h Evento no Facebook

Rio de Janeiro, RJ 26 de maio de 2012 Concentração no Posto 4 da Av. Atlântica, a partir de 13h Evento no Facebook Veja fotos da Marcha das Vadias em 2011

Vitória, ES 26 de maio de 2012 Local e hora: UFES, 14h Evento no Facebook

Juiz de Fora, MG 26 de maio de 2012 Concentração às 11h no Parque Halfeld

Santa Maria, RS – Dia 02 de junho, às 14h, na Concha Acústica do Parque Itaimbé – Página no FacebookGrupo no Facebook

-Marcha das Vadias em Sorocaba/SP – sábado, 14h (não está claro se vai ser dia 26 de maio ou 2 de junho… ),  no cruzamento da Moreira César com a Barão de Tatuí

-Marcha das Vadias em Londrina/PR Sábado, 02 de junho, 14:00h,  no Calçadão de Londrina- em frente a Pernambucanas – Evento no Facebook

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O rótulo para além dos rótulos

Pois é, os rótulos.

Em algum momento a gente percebe que o mundo está cheio deles, em cada embalagem, produto, ou ser humano que passa por entre os olhos. “Olha, lá vai um carro da marca do comercial do jogador de futebol!”, “Ah, nem te conto, fulana é marxista, ciclano é de direita, fulano é gay, ciclana é uma vaca”. Simplificações do nosso mundo de consumos diretos e rápidos, de nossa sociedade que nunca para, e não quer se aprofundar nas individualidades. Nomes curtos que fogem das complexidades, objetividades que não definem nada, e reduzem o bonito do ser humano em partículas desconexas. Pessoas marcadas em breves título de outdoor, colocadas no carrinho em compras rápidas de supermercado.

Olha-se uma pessoa, dá-se um rótulo e parece que nada mais cabe. A pessoa não ama, não sofre, não goza, não fica doente, não é um ser humano com dores e delícias e desafios existenciais, com delicadezas e belezas, com vida-vivida para além de qualquer coisa que a delimite. Ele é gay, e pronto. Ela é uma vadia, não merece mais do que duas frases e exclamações sobre suas roupas e modos sexuais.

O julgamento social tem juízes rígidos, sentenças curtas e penas severas. E as penas são coercitivas, espinhos que machucam as costas, que pesam nos ombros e nos afastam, com pesar, do bonito que se pode construir junto, das riquezas que estão escondidas dentro de cada um de nós. Porque lá dentro, acredite, não tem gay, não tem vadia, não tem loira burra, não tem nerd, não tem nada a não ser essências e pensares, vontades e questionamentos, anseios, vibrações, tesão, medos, humanidades e quereres livres que se amarram ao possível.

Mas a gente vai além, porque, oras, porque já basta! Assumimos um rótulo: somos biscates. Sim, pode chamar, porque nós somos. Vadias também pode, aceitamos variações. Marchamos com as vadias, aqui ou lá, vestimos nossa liberdade de sermos mulheres de desejos declarados, sem subterfúgios, estufamos o peito e gritamos para quem quiser ouvir: BIS-CA-TE!

E que orgulho de ser biscate, que orgulho de poder assumir, de poder transgredir e extravasar. Porque com o rótulo queremos exatamente o não-rótulo, queremos respeito pelas nossas diversidades e vivências sexuais, queremos a desconstrução, o gozo livre, queremos poder ser o que quisermos ser, sem penas ou juízes arbitrários.

Vestimos o rótulo exatamente porque, um dia, acreditamos no fim dele, e de todos eles. Vestir o rótulo é prosseguir na batalha. Sim, a gente acredita. Acreditamos que um dia toda mulher poderá vestir o que quiser, poderá trepar com quem quiser, dispor do seu corpo como quiser, comer o que quiser, mostrar o que quiser, sem ser violentada ou reprimida por isso. Acreditamos que somos, todas, umas belas biscates. Como somos todos gays, héteros, negros, brancos, índios, macumbeiros, profanos e sagrados, encantados, vagabundos e batalhadores. É, nós queremos viver num mundo onde se possa ser qualquer coisa. Onde se possa ser nada, e tudo ao mesmo tempo agora.

Biscates…avante!


Ressignificar a buceta

Segundo o Dicionário Aurélio,

Significado de Boceta

s.f. Pequena caixa redonda ou oval. / Caixa de rapé. / Casta de tangerina. / Variedade de manga. / Bras. Determinado aparelho de pesca. / Pop. Vulva. // Boceta de Pandora, origem de todos os males.

Esse finalzinho aí foi bem assustador, mas condiz com o que muitas religiões pensam das mulheres, do sexo, e, obviamente, do genital feminino.

Outro dia, estávamos conversando, várias biscates, oficiais ou não, sobre o uso das palavras. Caralho! Tivemos a óbvia e etílica descoberta de que a palavra usada para designar o membro viril é muitas vezes usada num contexto não pejorativo ou obsceno, como “Bom pra caralho (ou pra cacete)”, enquanto não conseguimos encontrar um uso coloquial que fosse, no sentido positivo, para a pobre – palavra – boceta – ou buceta?

De acordo com a Wikipédia, bOceta é a tal caixinha, para guardar rapé, ou também, a palavra vulgar usada para designar a vulva, enquanto bUceta é a palavra usada, no português brasileiro popular e chulo, para designar a vagina ou a vulva. Também coloca alguns sinônimos regionais interessantes: bacurinha, buça, buçanha, capô-de-fusca, mijona (oi?) xereca, pastel (de novo: oi?) carne mijada (sério??) perereca, periquita, rachada (que original!), tabaco, tchura, tubia, xana, xavasca, xexeca, xibiu (oi Jorge Amado! Oi Gal! Oi Dorival! Oi Gabriela! ) xota e xoxota. Ufa.

São citados ainda, como “familiar”: bimbinha, griguilha, pipi, xibica, nhonhoca.

E como “popular”: passarinha, perseguida, racha ou rata.

Em Portugal, ora, pois, o nome da buceta seria cona, pachacha ou patareca (caso esteja por terras lusitanas, pesquise ai em que contexto, fora do sexual, elas são usadas, sim – as palavras, não as bucetas, por favor sim).

E tem também um termo que a Wikipédia colocou, que eu juro que não entendi. Sob o título de “social”, colocaram como sinônimo de BUCETA, perseguida.

Perseguida… lembrei do mito da vagina dentada.

E tem gente que tem medo mesmo. Medo da buceta perseguidora. Da buceta que faz o homem chorar, que faz o homem matar… Enlouquecer.

E enquanto PORRA e CARALHO e CACETE são vulgares, mas são populares (em certas regiões, o povo não tira da boca – ops!) e usadas para reforçar o quanto algo é bom ou serve como superlativo, acho que BUCETA só uso (como expressão) quando dou uma topada com o dedo mindinho do pé no pé da cama.

E aí é como xingamento, mesmo, né…

E enquanto um “puta que pariu, caralho, que porra é essa! É do caralho!” tem efeito elogioso, quando eu ouço um “puta que pariu, caralho, que buceta é essa!?!” boa coisa não se deve esperar.

Que medo é esse da buceta? Que medo é esse de falar, conhecer, tocar, deixar ter o cheiro ou os pelos que ela tem?

Não, não podemos. Tem que depilar tudo, usar desodorante “íntimo” para disfarçar o cheiro… da buceta (calma lá, ninguém tá falando da vibe Napoleão e Josefina, certo? Eu, ao menos, curto a coisa limpinha, né, mas sem neuras!), usar “protetores de calcinha”, sério, gente, a calcinha não pode ter contato com a nojeira da buceta, é isso?

Buceta não é coisa de mulher pra casar? Ah, então tá.

Buceta não é coisa de “mãe de família”? Ok.

E pra finalizar, deixo do desafio: vamos ressignificar a buceta!

Não precisamos ter vergonha das nossas “partes”, das nossas pobres “perseguidas”.

A buceta é nossa, cada uma tem a sua, com seu cheiro, sua cor, seu hair style.

Eu adorei essa montagem, as imagens usadas, de cantoras estrangeiras badaladas, ainda, fazem pensar no quanto de preconceito de classe existe contra o funk, quanto às mulheres do funk e contra mulheres falando de sexo em geral…

Eu dou pra quem quiser que porra da buceta é minha!! é apenas uma outra forma de dizer:

Não dá pra mudar o significado das palavras assim, de um dia para o outro, mas dá prá começar a pensar, né?

Então, vamos parar de ter vergonha até de falar?

Repete comigo: BU-CE-TA!

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