Para além das caixas… Marie!

Para além das caixinhas que nos aprisionam e condicionam a agir de forma A e reagir de forma B nesse mundo machista, homofóbico, racista, etc, todo encaixotado, há aquelxs que lutam para quebrar as caixas, transpor os muros, virar esse mundo do avesso, refundá-lo baseado na lógica dx humanx. E se não for possível nada disso, pelo menos viver livremente, ser o que é, o que quer ser. 

Hoje os holofotes da Semana Bisca de Luta pelo Dia Internacional da Mulher são para a Mariana Rodrigues, inclassificável, desencaixotada.

marie

“Quem é você, diga logo que eu quero saber o seu jogo, eu quero morrer no seu bloco, eu quero me arder no seu fogo…” umas palavrinhas de apresentação
Sou Mariana, Marie, @marioca, lésbica, feminista, mulher, múltipla, singular, sem graça mas cheia de graça… Tentando superar o Retorno de Saturno, tentando entender o que é estar prestes a ser balzaquiana… analista de relações internacionais de formação e bailarina de coração…

“cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”, assim, pra começar, o que é ser mulher pra você… Ser mulher é ser tudo e nada quando bem quiser e entender. Ser masculinx e femininx, ser neutrx quando der vontade. Ser independente de padrões, estereótipos, escolher pela maternidade ou não, é escolher ser mulher independente do seu sexo biológico, é viver livremente sua sexualidade. Mas ser mulher pra mim é, principalmente, entender sua condição no mundo e viver plenamente todas as suas possibilidades.

“levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima”. Quais as principais dificuldades que você encontra no cotidiano que você relaciona com sua condição de mulher? Mulher e Lésbica, feminista e fora do armário, negando totalmente tudo aquilo o que a sociedade definiu como normal para mim e tantas outras. Dificuldades e violências são muitas e múltiplas, a gente acaba enfrentando todos os dias o medo da violência física, lida todo dia com a violência simbólica, é ter que viver com seus direitos negados e a sua segurança ameaçada, tem que provar a todo momento que você é alguém além da sua orientação sexual. Cada lugar novo que você conhece, cada pessoa nova que você encontra é sair do armário novamente, às vezes é muito bom e às vezes é muito difícil. Cada vez que tem sair do armário você perde toda sua individualidade, vira a sapatão da escola, a machorra do escritório, e por aí vai… É a dificuldade de lutar contra a invisibilidade, dentro do movimento de mulheres e dentro do próprio movimento que teoricamente nos representa. Mas é também ressignificar, é se apropriar de ser SAPATÃO com orgulho e tudo mais que tudo que tenho direito porque é como biscate orgulhosamente sapatão (ou seria sapatão orgulhosamente biscate?) que eu vivo nesse mundo.

Marie

Marie in love

“qualquer maneira de amor vale a pena, qualquer maneira de amor vale amar”. Você concorda? há algum limite? e o sexo, entra nessa operação? é dela dependente? Qualquer amor vale a pena e deve ser vivido e sentido, até se esgotar ou transbordar, qualquer maneira de amar é mais do que válida. Amar a si, amar a vida, amar o outro e a outra ou outrx, amor platônico, amor correspondido, amor vivido, amor entregue, amor devolvido, todo amor vale independente de gênero, número, grau ou orientação sexual. O único limite é o respeito, a si e ao outrx. E o sexo é claro que é parte (fundamental) dessas operações, mas não depende só do amor não. Sexo é troca, é entrega, é descoberta, é aventura que quando vem com amor é ótimo, mas por si só já é muito bom!

Marie

Marie, na luta

“Feminismo é a ideia radical de que mulheres são gente”. Você acha que há uma bandeira do feminismo que melhor lhe representa? E onde, na sua visão, estão as brechas, as falhas, as faltas? Acredito que falar em um único feminismo é muito pobre, pra mim, não há uma única bandeira que melhor me represente, prefiro feminismos, porque as bandeiras são muitas e infelizmente nem sempre andam juntas. Não é porque sou lésbica e que provavelmente aborto não será uma questão na minha trajetória que a bandeira dos direitos sexuais não tem que ser a minha também. Não é porque sou mulher cis que não tenha que levantar e defender as questões da transexualidade… Acho que a falha maior é essa, a brecha é falta de comunicação e até de compreensão que cada vez mais novos questionamentos se apresentam para nós. Se antes era o voto para mulheres, direito ao estudo, depois divorcio, depois pílula, depois representação politica, aborto, ainda temos a invisibilidade da mulher negra, da lésbica, da trans* e etc que são questões ainda muito negligenciadas e por muitas vezes propositalmente invisibilizadas. Como se essas questões não fizessem parte do feminismo, como se o feminismo existisse apenas para a mulher, cis, heterossexual, branca.

“oh! baby você não precisa de um salão de beleza, há menos beleza num salão de beleza, a sua beleza é bem maior do que qualquer beleza de qualquer salão…” pra você, o que é o belo? você se considera bonita? como é lidar com os padrões de beleza? Belo é se amar, é se respeitar, é se gostar, gostar do que vê e do que mostra e acima de tudo o que não gostar escolher por si só se quer mudar ou não. Me acho a mais gostosona (desculpaê). Gosto do que vejo quando me olho no espelho, gosto do que eu mostro, gosto de mim e de cada pedaço meu. Sendo totalmente fora dos padrões (baixinha, gorda, tatuada, estrábica, da perna torta) é claro que precisei de muito tempo, terapia, ajuda e muito “foda-se padrões de beleza cretinos dessa sociedade”, e toda uma construção e entendimento de quem eu sou no mundo para me sentir bem como eu sou.

Marie

Marie, Frida

“gosto de sentir a minha língua roçar a língua de Luís de Camões”… E você? Onde gosta de roçar a língua? qual a relevância do sexo na sua vida? quais suas fantasias, desejos – dos que quer e pode partilhar com a gente, claro. Eu gosto mesmo é de roçar a língua em mulher! Não só a língua, mas cada partezinha do corpo! Sexo, sexo, sexo, para mim é sempre bom. Sexo é uma troca e é uma parte importante de mim, escolhi viver plenamente e experimentar a minha sexualidade, transo com quem eu quero e quando eu quero! Transo comigo mesmo quando tenho vontade. Fantasias são muitas sempre com entrega e variam muito com meu humor. Tem dia que quero amorzinho bem gostoso devagarzinho e tem dia que a vontade é plantar bananeira e sair enlouquecida!

“Longe se vai, sonhando demais, mas onde se chega assim…” Onde você gostaria que se chegasse? quais seus sonhos, individuais e/ou coletivos… Eu tenho tido a habilidade e a sorte de transformar meus sonhos em realidade, but never is enough for me… Cada dia eu estuo com um sonho e um objetivo novo, mal termino uma coisa já começo outra… Nesse momento é o mestrado, minha casa nova, meu relacionamento, esses são meus objetivos/sonhos cada vez mais concretos. Gostaria mesmo é daquela utopia de a gente não precisasse mais levantar a bandeira da igualdade, nem da luta por direitos, porque né?! seria tão melhor, ai arranjaríamos mais tempo para ser feliz plenamente.

“biscate é uma mulher livre pra fazer o que bem entender, com quem escolher, e onde bem quiser.” Como você se relaciona com essa ideia? Essa ideia é o que move a minha vida, escolhi ser livre, escolhi me relacionar com quem eu quiser, da forma que eu quiser e tornar público isso a hora que quiser. Seja no meu relacionamento, minhas escolhas profissionais, seja minha militância, ser Biscate Livre é quase uma identidade política. E essa ideia de autonomia é o que fortalece meus ideais e é dessa forma que eu tento viver e conviver . Acho que esse é o recado para dar ao mundo: eu sou livre mesmo que vcs não entendam assim!

Marie

Marie, colorida

Diz o Gonzaguinha: “Eu apenas queria que você soubesse/ Que aquela alegria ainda está comigo/ E que a minha ternura não ficou na estrada/ Não ficou no tempo presa na poeira/ Eu apenas queria que você soubesse/ Que esta menina hoje é uma mulher/ E que esta mulher é uma menina/ Que colheu seu fruto flor do seu carinho/ Eu apenas queria dizer a todo mundo que me gosta/ Que hoje eu me gosto muito mais/ Porque me entendo muito mais também/ E que a atitude de recomeçar é todo dia toda hora É se respeitar na sua força e fé/ E se olhar bem fundo até o dedão do pé/ Eu apenas queira que você soubesse/ Que essa criança brinca nesta roda/ E não teme o corte de novas feridas/ Pois tem a saúde que aprendeu com a vida” — O que você queria que os outros soubessem de você, do mundo…? O que você gostaria de dizer além do que perguntamos ou deixar de mensagem? Queria dizer que eu acho que o mundo é bão sebastião, existem algumas laranjas podres aqui e ali (e as vezes elas parecem ser infinitas!) mas a nossa parte nessa história é não se deixar contaminar e nem contaminar o resto que vale a pena, e como vale a pena… Que olhar pro próprio umbigo e se descobrir e se libertar é ótimo, mas olhar pro umbigo dxs outrx também é muito enriquecedor tanto quanto libertador, que o que te oprime, me oprime também e já que estamos juntxs nessa porque não lutar juntxs também?!. Que eu acho que a gente não veio ao mundo a passeio, mas que a gente pode tornar essa jornada muito melhor isso pode, e deve!

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