Marielle, Anderson e o Brasil com “s”

Há, no assassinato de Marielle e de Anderson, uma dimensão que não podemos esquecer.

As duas mortes simbolizam, acima de tudo, a morte de um Brasil, com “ s “. Um Brasil negro, periférico, pobre, que luta, sorri, cria filho, trabalha, dança, faz política.

Esse Brasil é odiado por um outro Brazil, com “ z “. Um país vassalo, aculturado, branco, iludido com a concessão ao café da manhã. Mas este Brazil com “ z “ odeia também admitir que odeia o Brasil com “ s “. E finge ser. Finge que a empregada doméstica é da família, finge que “office boy” tem a oportunidade e que não a aproveita por responsabilidade própria, finge que não se incomoda com o FGTS do empregado doméstico, finge que os vestibulares selecionam os mais aptos, independentemente do trajeto anterior. Finge, porque no fundo no fundo tem vergonha.

Odeiam, outros, este Brasil com “ s “ por sadismo. Uma estranha máquina de ato reflexo o faz ter um gozo com a desgraça de quem não consegue, considerando que conseguiu algo por ser melhor que o outro. Num mundo onde haja flanelinha no farol há sempre aquela satisfação do ego: eu venci e ele, não. Independentemente da miséria que é este “vencer”.

Odeiam, outros e muitos, porque tem medo. O medo, sabemos, é uma praga que se prolifera na água: medo do gozo, medo do amor, medo da entrega, medo do torpor, medo de perder o emprego, medo de ser igual. Nasce deste medo o fascista. O fascista odeia o Brasil com “ s “.

Sugiro, sempre e sempre, que essa gente que odeia o Brasil, com “ s” , que ouça Argemiro Patrocínio, Nélson Sargento, que beba cachaça, que ame sem roupas, que leia Machado, Ferrez, Mano Brown, que coma dobradinha, que cheire loló. Que saiba de Grande Otelo, de Pele, Garrincha e Didi. De Zumbi. De Milton Santos. De Dona Menininha. De Clementina. De Abdias. De Luiz Gama.

Sugiro, sempre e sempre, que dê chance ao samba, ao choro, ao Pixinguinha e à mandioca. E que tome banho pelado em rio. Que ande pelado.

Este Brasil com “ s “ é nossa única chance civilizatória. É ele que nos molda, nos aponta, nos sapienta.

Esse Brasil morreu mais um pouco. Foi executado. Assassinado. Nosso silêncio é gatilho também.

O assassino não é só quem deu os disparos. Este Brazil com “ z “, arrogante, subalterno, mesquinho, covarde e medroso alimentou esse gatilho.

Basta. Não à toa, palavra que tem o “ s “ bem ali, ao centro de tudo.

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Marielle Franco

“Sentimos que nunca acaba
de caber mais dor no coração”

É difícil, pra mim, neste momento, falar sobre Marielle, sobre seu assassinato, sobre sua ausência. Eu não a conhecia pessoalmente. Sequer sou do Rio de Janeiro. Mas eu conheço e amo gente que a conhecia e a amava. E ainda, conheço e amo as idéias que ela defendia e, suponho, amava também. Acompanhei sua campanha, acompanhava seu trabalho como vereadora. Admirava, encantada, como ela conseguia ser o que parece impossível. A perda de Marielle cala fundo, mas o blog não podia silenciar sobre. Escrevo.

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Pra começar, dizer que penso que não devemos abrir mão de uma leitura interseccional do mundo, das violências, das vivências – incluindo esta execução. A execução de Marielle Franco. Por exemplo, entendo que ser negra e socialista tem relação indissociável neste assassinato. Acho bem fácil uma outra figura negra proeminente, porém não ativista, ser vítima de racismo, incluindo danos decorrentes de ações da policia, por exemplo – ignorantes da sua identidade. Mas acho bem difícil essa pessoa vir a ser executada, da forma como Marielle foi, por ordem de quem foi (tão mais parecido, o crime, com o assassinato da juíza Patrícia Acioli) sem defender as idéias que ela defendia, sem lutar como ela lutava, sem se posicionar quando e como ela se posicionava: a partir das bandeiras do seu partido, o PSOL.

Compreendo que Marielle foi assassinada por ser quem era. Isso inclui sua negritude. Inclui suas idéias socialistas. Inclui sua atuação parlamentar. Inclui sua personalidade vibrante. Inclui o tipo de família que formou. Inclui as pautas que abraçava, os trabalhos que fazia, os lugares que frequentava. Inclui seus sorriso luminoso, sua presença hipnótica, sua clareza de argumentação. Inclui o fato de ela se definir e se alinhar com pessoas vistas como esquerda. Sabe aquela frase do Montaigne sobre o amor: “porque era ele, porque era eu”? Ela foi assassinada, penso, para não ser mais. Porque ela era imensa. E acho triste (e improdutivo), depois de termos perdido tanto, perder um aspecto que seja dessa mulher tão grande.

Essa dolorida compreensão me faz lembrar e afirmar sua existência única e irrepetível. Por mais bonito e confortador que seja a idéia de transformar este momento de perda e dor em inspiração e resistência, eu recordo e reafirmo a vida própria de Marielle. Ser um símbolo não é melhor que seguir vivendo. Vejo esta tirinha abaixo e me dói.

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Quando eu tinha 16 anos e participava de grupos de Pastoral da Juventude do Meio Popular, me comovia com a frase de Dom Oscar Romero: “se me matarem, ressuscitarei nas lutas de meu povo”. Eu era jovem e boba, desconhecia que isso não basta. Não devíamos ter ou ser mártires, devíamos ter e ser companheiros. Vivos.

Porque por mais que se insista na permanência dela em nossa própria vida, a vida que era dela, a vida que era ela, não mais. A vida dela. Dela. A filha dela, a namorada dela, os desejos, sonhos, o mestrado, as cervejas dela. A fome dela, as roupas dela, a risada dela, o abraço dela. As dores dela, as dúvidas dela, as alegrias e conquistas dela. Dela. Ela. E nunca mais. Nunca mais nada disso. Ah, luciana, mas é no aspecto político. Pois também não. Quanto tempo leva pra surgir um quadro como Marielle? quantas mulheres são eleitas? quantas mulheres negras? quantas mulheres negras, de esquerda? quantas mulheres negras, de esquerda, bissexual ou lésbica?

Que lutemos as lutas de Marielle. Que apoiemos outras mulheres negras na política. Que não esqueçamos sua morte. Que balancemos suas bandeiras. Que sonhemos, juntos, seus sonhos. Mas Marielle, mesmo, nunca mais. Por mais presente que ela esteja na vida de quem a amou, de quem sonhou com ela, de quem lutou com ela, por mais presente que esteja em quem a respeitava, admirava, quem compartilhava pautas e utopias, Marielle, mesmo, nunca mais.

Não podemos, acho, não devemos, penso, esquecer disso: a perda é insuperável.

É essa vida que não vai ser vivida que dói tanto que não deve ser esquecida. Que a morte de Marielle seja inspiradora me parece muito triste. Não quero inspiração, quero-nos vivas.

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