É Dia de Festa!

Nosso quarto mesversário, estamos aqui comemorando a proximidade dos cem mil acessos, 119 posts e 1.583 comentários. Isso é bem mais do que se imaginávamos quando o clube abriu as portas. O time que começou com duas jogadoras e muitas promessas hoje tem no elenco nove “escreventes” e ainda as promessas todas. Hoje é dia de festa e a comemoração é com as letrinhas dos noss@s escreventes-fix@s (já que biscatagi casual não nos falta)…

Augusto MozineAugusto Não é fácil ser o único homem fixo da biscate… Responsa da braba! E foi mesmo um romance, diria que até atribulado. Conheci a Biscatagi por uma amiga, que já frequentava o meio há tempos e, claro, pirei! Daí começaram os flertes, alguns dos textos dos meus blogs tinham alguma conexão com a linha das Biscates e, depois do Expurgando Teresinhas, veio o convite para o primeiro Guest Post (Os mino pira na biscatagi) que foi um debut muito gostoso! E, então, um belo dia me surpreendi com o convite para uma parceria fixa e aberta uma vez por mês. Só tive uma resposta: Muito Amor <3 <3. A experiência? Liberating! Escrever e participar de discussões sobre a safadeza nossa de cada dia tem me feito muito bem. Além disso, já recebo alguns comentários do tipo: ah, uma amiga leu o seu post num Blog, disse que gostou muito. É sempre bom, né! Daqui pra fentre? Consolidar a parceragi, me embrenhar nos caracóis dos cabelos biscates e ser feliz!

charôCharô Minha busca pelo ser biscate é uma estória que sei exatamente como começou. Os tempos eram outros e as únicas fontes de informação, além da escola e família, eram os livros e a televisão. Como a gente não lia, dou graças a deus pela televisão. Foi alí que encontrei as primeiras sementinhas de um mundo que nem mesmo desconfiava existir. Um mundo onde o Bryan Ferry cantava Don’t Stop The Dance, com mulheres dançando livremente na minha casa. Tudo muito sutil, o suficiente para que pudesse acontecesse na sala de estar que, no meu caso, também fazia as vezes de quarto de dormir. Apenas um rodopio de cabeça, jogada suavemente para frente e depois… Oh, para trás. Gestos que me ensinaram como a força pode ser inversamente proporcional à leveza de gestos. E essa estória continua, a cada novo post, a cada novo autor do blog. E se me perguntassem, diria que é esse um dos motivos que me fazem amar o o Biscate Social Club. Que de clube só tem o nome. Somos uma comunidade da qual participa quem quiser. Até o presente momento, 1,336 já se identificaram com o blog. E como hoje é dia de distribuir carinhos e beijinhos, fica o convite para que você deixe seu comentário, sua participação. E para terminar, muitos beijos e aplausos aos que se dedicam, tijolinho por tijolinho, para que o dia de hoje se repita, pita, pita… Com muito amor biscate.

Cláudia GavenasCláudia Medinho. Ou de escrever sobre coisas que me encabulam (biscate tímida, presente) ou da força que a palavra BISCATE tem (uhum, isso já me aconteceu). Foi justamente isso que senti quando recebi pelo Facebook o convite da Luciana para escrever por aqui. E tudo começou quando eu curtia os posts por lá. Aí, a Lu disse: “Cláudia, pára de só curtir e sijoga”. Pronto, me joguei. E não me arrependo nem um pouco disso porque eu cresço a cada texto que publico ou que leio neste blog. Fico imensamente feliz, não só por saber que o Biscate Social Club cresceu e cresce a cada dia, mas sim, porque isso significa que tem muita gente que também cresce e aprende com o conteúdo que é oferecido. Agora, orgulho define o que sinto por fazer parte deste clube. E espero que venham muitos aniversários a serem comemorados!

Luciana NepomucenoLuciana ser autora do biscate é ser uma eu: dessas que ama escrever, que ama escrever em blogs, que ama escrever em blogs com outras pessoas que vai aprendendo a amar. Ser autora do biscate é ser uma eu: dessas que tem discurso, bandeira e projeto. Ser autora do biscate é ser uma eu: dessas que esquece a hora, o tema, o rumo. Ser autora do biscate é ser uma eu: dessas que pede post, comentário, atenção, leitura, fotinha. Ser autora do biscate é ser uma eu, uma que diz: sou dessas. Ser autora do biscate é ser dessas.

Marília Ser Biscate não é a questão. Sempre fui. A questão é ser autora-biscate. É defender a biscatagem em público. É provocar com palavras a ira, a inveja, a gula e sei lá mais quais pecados capitais andaram inventando por aí. É testar os limites do bom senso comum. Deixar com interrogação. É demandar, assim, porque quero, minha própria liberdade. própria liberdade.

Niara de OliveiraNiara Ser biscate no mundo é complicado. Tem muito de alegria e tem aquele peso de quem transgride regras, desacomoda as pessoas de seus papéis fáceis e pré-determinados e não sabe muito bem — e nem quer — qual outro papel colocar no lugar. Nem sei se quero papel. Quero viver, quero o mundo com todas suas cores, dores e alegrias, de preferência no bar da esquina entre copos e risos. Ser biscate escrevente é isso e mais o enorme prazer de saber que estou por trás da libertação de muitas mulheres e homens de seus papéis e caixas através das letrinhas todos os dias publicadas no BiscateSC. Mais. Ser biscate nesse clube é o prazer contínuo de se libertar diariamente, em doses homeopáticas de alegria, pelas minhas letrinhas e de outras/os.

Renata LimaRenata O Biscate é o meu boteco. E a gente tem altas ideias inovadoras e revolucionárias, no boteco. O Biscate é a minha cozinha, aquele lugar gostoso para onde a gente leva os amigos de verdade. O Biscate é um prazer, nada secreto. Quando fui convidada para escrever, não sabia se conseguiria, mas a cada dia, me sinto mais liberta de amarras (salvo as que eu desejo… ) e preconceitos. E a cada dia, com cada uma e um e todos que escrevem no blog, eu aprendo mais, até mesmo sobre eu mesma. O Biscate é o boteco das feministas, dos homens que amam as mulheres, é o boteco onde a gente fala de coisas leves com profundidade, ou de coisas pesadas e densas, com leveza. Eu adoro escrever, ler, divulgar os textos, conhecer novas opiniões, novas perspectivas. Quebrando formas, amassando caixinhas, rompendo com os moldes, e tentando não criar novos. O Biscate é um rótulo que brinca com os rótulos, e ao brincar, desconstrói e deixa que cada um se forme, se amolde a si mesmo… E o Biscate é o lugar onde eu encontro a Lu, a Niara, a Claudinha, a Sara, a Marilia, a Silvia, a Charô… as anfitriãs dessa festa, e as convidadas e convidados mais incríveis. É uma festa! Daquelas bem boas, daquelas que deixam sempre gosto de quero mais, vontade de se jogar, e ser feliz!

Sara JokerSara Ser autora do Biscate é uma honra pra mim, me sinto fazendo a diferença de forma divertida e muito marcante. Cada dia que vejo uma nova autora biscate, fixa ou convidada, me sinto numa luta muito mais forte. Desconstruir uma palavra é coisa pra mulher forte, não ter medo de uma palavra é coisa de gente com coragem. Assumir que podemos ser um conjunto de biscates sem medo do julgamento alheio é quebrar tabus. E o melhor de tudo, estamos quebrando tabus da melhor forma possível, com bom humor. Sempre que ouço algum@ amig@ minh@ falando que leu o blog me sinto tão orgulhosa. E quando, além de ler, mudaram de opinião por nossa causa, me sinto importante, parte de algo muito maior.

Silvia BadimSilvia Um convite, daqueles que arrepiam a alma: ser autora-permanente-escrevente-biscate-arrebatadora? para mim? É claro que só podia ser recebido com um sim-sorriso. Com um sim-claro. Com um sim-eu sou. Com um sim-vamos juntas. Enlacei minhas mãos fortes aquelas mãos que ali estavam. Um laço que se fez verdadeiro desde que recebi as primeiras linhas do Biscate Social Club. Mesmo antes do convite eu já estava lá, inteira, reconhecendo-me em cada letra, em cada linha escrita, em cada concepção de ser mulher-livre que se quer cada dia mais livre . Orgulho de ser, e de me reconhecer nas outras mulheres que ali estão, expondo-se em linhas cruas e nuas de ser quem se é. Linhas que viram asas e voam, em direção a um mundo mais cheios de possibilidades de felicidade verdadeira. E minhas escritas começaram a sair. Saíram, e saem, ganhando o mundo. Juntas às vozes biscateadas que ali estão, fazem-me reconhecer em cada uma, em cada um que lê as divagações traçadas com vontade de quero mais. Com vontade de ser mulher sem amarras morais. De ser em sorrisos rasgados e anseios se permitir ir além. Ser biscate é uma construção diária, uma disposição que não se retraí, uma verdade que não se cala. Nesse espaço, nesse clube seleto e de dimensões sem contornos, a gente vai explorando as tantas possibilidades de dizer ao mundo que a gente pode. Que a gente quer. Que a gente é. Que mulher pode assumir as rédeas do próprio desejo, que mulher é lindo e vermelho e pulsante, e que se expande rumo a realização de nossas vontades mais estranhadas e estranhas, mais ricas e diversas, mais vorazes e com sede de vida. E a gente quer é isso: ser biscate cada dia mais, em um ano, dois, dez, vinte, percorrendo gerações e gritando ao mundo: desnudem-se!

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Gostou do time BiscateSC? Ainda há vagas. E se você nos paquerar direitinho, assim dicumforça com gosto e vontade, a gente que é biscate e facinha pensa aí na possibilidade de distribuir alguns convites para mais autor@s fix@s desfrutarem da nossa intimidade. Hein-Hein-Hein?!?!  ;-P

*Clique na foto ou no nome de cada autor para ver todos os seus posts no BSC.

Ode aos dildos

Vamos falar de dildos. Esses queridos objetos tão renegados, tão escondidos nas gavetas afora. Tão essenciais. Cores e formatos diversos, propósitos uns e outros. Os dildos, não se enganem, não são como pênis. Pênis pressupõe outro alguém. Um pênis nunca é só um pênis. O dildo, ao contrário, não é mais do que um dildo. Nunca.

A graça do dildo é o dildo. Se quero pênis, procuro pessoas. Dildos e pênis, aliás, não são nunca excludentes e muito menos substitutos. Incomparáveis, eu diria. Aliados.

Uma liberdade tão, mas tão livre que julgada e acusada a todo instante. A penetração profana, o dildo é prazer pelo prazer. Sem chance pra procriação. Serve em todo e qualquer buraco. De toda e qualquer pessoa que assim quiser. Estraçalha qualquer lógica evolutiva do sexo. O dildo é o futuro.

Dildos decoram. Quebram o decoro pudico da suposta intimidade em que o sexo – esse bem tão público – é confinado. Exibem-se em paredes de sex shops, lojas virtuais, sonhos de suor e lágrima. Disfarçam-se em batons ou objetos de design mas estão sempre, sempre, lá. Fuce uma gaveta, clique um link, leia um conto. Dildos, dildos, dildos e mais dildos.

O prazer da penetração pela penetração. Autopenetração. Penetração combinada, conjugada, dupla, tripla. Aqui, ali e acolá. Um ato de amor próprio. Libertem os dildos das gavetas da vergonha!

Sejam despudoradamente felizes.

O Estado contra as Biscates

Era tarde quente, eu buscava exercer a quase impossível tarefa da locomoção em São Paulo. Ah, São Paulo, este “point” de gente conservadora, de governo e prefeitura ainda piores do que o povo. É fogo. Fogo estava aquela tarde.

Na tentativa de distrair – e disciplinar – a população, agora há televisões nos ônibus também, além de nos metrôs. Claro que a programação é vendida para uma das poucas emissoras grandes que continuam controlando a informação. Mas o ponto não é esse.

O ponto é o cúmulo. O extremo. O abuso.

Eis que na televisão do ônibus começam longos três minutos dedicados exclusivamente a mostrar às mulheres como não se vestir. De repente, sem contexto nenhum, uma tela amarela mostra desenhos de corpos femininos com roupas de periguetes e grandes “X” vermelhos sobre as peças de roupa, acompanhados de uma legenda, caso as periguetes não tenham entendido que estão erradas: “não use saias ou shorts curtos ou justos”. Assim. Pá-pum.

O show de horrores segue. Uma outra imagem mostra uma mulher com uma calça jeans que deixa a barriga de fora e uma blusa curta. Outros “X” vermelhos e a legenda: “não use calças justas” e “não mostre o umbigo”.

Minha sensação era de querer tirar a roupa inteira, e nisso estou com o Femen. A corporalidade. O corpo. Nossos corpos. NOSSOS. Se absolutamente todas as pessoas são vítimas de um controle disciplinar promovido por alguns grupos que dominam o Estado (viva Foucault!), é fácil perceber que as mulheres são especialmente atacadas.

As leis de controle do corpo e tutela da autonomia sobre ele são dedicadas especialmente a nós – homem não aborta, né? Nosso corpo é um grande objeto de disputa pública, é preciso estar consciente.

É preciso notar o corpo.

É preciso amá-lo.

É preciso jogar uma pedra em cada um dos discursos que sustentam esse controle absurdo, abusivo. Por parte do Estado ou de outras pessoas.

Quero um mundo de periguetes livres.

 

Biscateen

Esta era uma biscate adolescente. Biscatinha discreta, secretamente, estrategicamente não ficava com quem se conhecesse – sabem que na adolescência o medo de ser julgada é grande, mesmo entre biscates. Medo dos pais. Medo de engravidar. Medo, medo, medo. É claro, há outras coisas lindas e deliciosas, mas o medo está sempre lá. Ela porém não queria mostrar que era adolescente como toda outra adolescente.

Biscateen, vamos chamá-la. Ela ouvia as colegas, que um dia haveriam de ser amigas, talvez muitos anos mais tarde. Experiência zero. Era ela a primeira. Primeira a transar, a ficar com mulheres, a ter um trabalho, viajar sozinha, enfim. Como tantas outras Biscateens, chegara até os 15 lendo muita revista Capricho, numa época em que a internet não era lá muito disseminada e que não havia grandes e fáceis fontes de informação e espaços online para troca.

A revista Capricho dessa geração de Biscateens, porém, era outra. Moda e homens tinham algum espaço mas não muito. Havia séries de reportagens ensinando a fazer coisas diferentes, incentivando incursões em novas experiências. Havia matérias sobre drogas, aborto, sexo, sempre num tom não moralista (mas tampouco antimoralista, afinal de contas) que não se vê mais em qualquer mídia que dialogue com adolescentes. Talvez estejamos num momento de muito backlash. Vai saber.

Bem, pois mesmo no tom possível e não moralista da época, uma preocupação rondava a cabeça desta e das demais Biscateens: serem “usadas”.

Quem nunca ouviu, usou ou pensou nessa expressão, “ser usada” por alguém? Via de regra, significava que alguém “brincaria” com seus pobres coraçõezinhos femininos, românticos, inocentes. A sexualidade adolescente, para muita gente por aí, é uma mera curiosidade e nada tem de autonomia. Que erro.

Pois a Biscateen resolvia esse impasse é com um belo de um “foda-se”, recusando o papel constante de bestinha apaixonada. Protegendo-se decidia, então, era “usar” as demais pessoas também. Afinal, entrar com essa consciência toda na sexualidade lhe permitia inclusive mais liberdade. A obrigação da paixão, sentia ela, era uma prisão sexual. Um limite a mais, do qual ela não fazia questão nenhuma.

Pois a Biscateen cresceu e aprendeu mais tarde a se apaixonar com alguma segurança. Sempre, porém, com muito pouca ingenuidade. Ingenuidade, aliás, na qual não acredita partindo de qualquer ser humano que seja, até hoje. Muito menos sobre a própria sexualidade.

Moralismo não escolhe bandeira política

*Texto a Quatro Mãos: Marília e Luciana

moralismo

Eu gosto de sexo. Do meu jeito. Com minhas fantasias. Você gosta de sexo. Do seu jeito. Com as suas fantasias. E daí? Cada um com seu feitiche, cantaria o rapaz do quadrado. Dizemos nós: deixem as pessoas com seus fetiches. Deixem as pessoas com seu tesão. Mas não. Tem gente que passa um tempo se dedicando a chafurdar no tesão alheio. A revirá-lo, descrevê-lo e, principalmente, reprimi-lo. Qualquer maneira de amar vale a pena, cantava Milton e ele queria dizer: trepar. Alguns “fetiches” de algumas “pessoas” em determinadas circunstâncias, são aceitáveis. Outros “fetiches” são considerados nocivos e perigosos, ofensivos a alguma coisa que eles defendem. É preciso que todo mundo se enquadre e não é difícil imaginar um conservador severo e uma matrona repressora bradando contra bondage ou sexo oral, que, afinal, contrariam a noção de “Família” que tão arduamente eles sustentam (para que a mesma sustente a sociedade que lhes garantem privilégios).

A surpresa aparece (ou ainda, o desconforto) ao vermos exatamente o mesmo tipo de discurso moralista e que desqualifica o tesão alheio nas bocas feministas, socialistas, comunistas e de todo espectro de intelectuais de esquerda que, a princípio, colocam-se contra a ordem estabelecida na sociedade. Pois vai aí nossa contribuição: proibir práticas sexuais consensuais não é nada contestador do status quo.

Contos eróticos, fetiches, BDSM, o que for. O fetiche, o prazer, o caminho é de quem o escolhe. Querer regulamentar o tesão das pessoas é muito perigoso. Porque para legislar sobre o corpo e o desejo do outro é preciso um princípio ofensivo: supor que se sabe mais do que ele sobre o que lhe fará satisfeito. A lógica parece ser: o que não me agrada, as práticas que não me dão prazer ou que confrontam minha lógica, só podem ser perigosas e ilegítimas. E assim vamos desrespeitando a diversidade e criando caixas para enquadrar o outro (e, mais especialmente, a outra).

O tesão fica ali, naquela zona complicada de discutir entre cultura, vontade individual e subjetividade consciente e inconsciente. Podemos não compreender o tesão de alguém. Ele não precisa ser o nosso. Nem é mais libertário quem tem mais “folha corrida”. Mas, com certeza, é menos quem regula e vigia a “folha” do outro.

Alguns temem o fetiche como se ele, de alguma forma, corrompesse ou contaminasse a sexualidade normal. Mas não há normal na sexualidade (oi, Freud, Luciana te ama, beijos). Teme-se o fetiche como se o que ocorresse no campo da fantasia fosse um ponto na escala em direção a um nebuloso futuro de perversão. Fetiche é uma forma de organizar o desejo. O fetiche canaliza e viabiliza a fantasia. É próprio como a escolha do sabor do sorvete. Não sabemos dizer exatamente porque gostamos tanto de sorvete de graviola (embora tenhamos vaga lembrança de um passeio com a mãe, ou uma visita ao sítio, ou simplesmente a forma gelada como aquele sabor desliza na língua) mas é ele que nos faz, naquele pequeno momento em que andamos na rua com a casquinha na mão e brilho nos olhos, tão plenos.

E porque negar o prazer ao outrem senão como estratégia política de submissão de corpos e mentes a um modelo social limitante? Nós, aqui, vamos apostando que o fetiche deve ser respeitado. Nenhum ismo – especialmente os que reinvindicam um papel transformador – pode querer regular, para mulheres e homens, o que lhes dá prazer. Porque vai continuar dando. Mesmo que seja proibido. Mesmo que seja reprimido. A nossa luta precisa ser outra: por um mundo com mais prazer e menos dedos apontados em censura. Até, porque, vendo esse dedo em riste, dá logo pra ter uma ou duas boas idéias, não é?

Biscates em luto, na luta pela liberdade sempre

Minha coluna em luto. Eu. Vocês. Elas. Todas.

Dadas como presente, de outrem a outrem.

Elas não. Não tiveram palavra. Eram só corpos.

Como fica a liberdade em tempos de estupro coletivo? Hoje só me calo.

Ser biscate é um privilégio.

* * *

Este texto se refere ao estupro coletivo seguido de assassinato de respectivamente sete e duas mulheres, por dez homens, no município de Queimadas (PB). A mídia não disse, ninguém quase disse, então é nosso dever dizer. Um crime de gênero contra mulheres – esse mecanismo tão cruel de cercear a liberdade de nossos corpos. Leia textos muito bons sobre isso aqui.

Não dá pra calar: Estupro Não é Sexo!

Esse post faz parte da blogagem coletiva de repúdio ao caso de Queimadas, convocado pelas Blogueiras Feministas e pelo Luluzinha Camp. Para fazer parte, basta externar sua indignação e reportar para que seus posts sejam linkados nas páginas desses blogs.

Rainha da Bateria

Um dia ela quis.

A família foi contra. Nem ligava, ela iria mesmo assim. Sair nua no carnaval. Nua inteirinha. A arte da pintura corporal a adornar. Nada mais. Nem tapa-sexo. Não tinha sequer certeza de que seria permitido.

Candidatou-se. Os 118 quilos não eram impedimento legal, confirmou com a advogada. Sambava melhor que qualquer magra. Animava a bateria. Tinha uma voz incrível e um fôlego incomparável. Cantava e sambava, ao mesmo tempo, a distância do sambódromo inteirinha. Era uma verdadeira sereia do samba.

Amava mulheres. Era, além de tudo, lésbica. Preta, pobre, gorda, lésbica e, claro, mulher. Ela que sonhava em sair nua no carnaval.

O feito rodou as notícias, a mídia. Vieram repórteres de todo o Brasil, do mundo. Se ela conseguisse o posto de rainha seria a primeira gorda e a primeira lésbica a comandar no pé uma bateria do grupo especial. No começo estava até tímida com tantas perguntas. Não gostava de revelar o peso, nem a idade. Os repórteres insistiam. Ela lá, firme. Importava o peso? “Já não dá pra ver que sou gorda?”, retrucava.

Perguntavam sobre a família, afinal, duas mulheres de mais de 100 quilos que têm um filho e uma filha não é exatamente o padrão do comercial de margarina. Biscates, desafiavam o mundo inteiro com sua mera existência. Que não é mera coisíssima nenhuma, vale dizer.

Imoral. Pronto. Como são geralmente as biscates, ela era uma verdadeira imoral. O mau exemplo em pessoa. Ninguém escolhe nascer negro, claro, mas ela podia fazer um regime. Exercícios. Cirurgia pra reduzir o estômago. Podia não se casar ou tentar um tratamento para resolver os problemas psicológicos que levavam “ao homossexualismo”. Podia fingir casando-se com um homem. Podia não desejar sair pelada pela avenida.

Ofensa. Foi esse o tom das respostas pela internet. Ofensa pelo amor que ela nutria à sua companheira. Ofensa por seu corpo. Ofensa por seu desejo carnavalesco. Enfim não foi eleita rainha da bateria.

Indagada pelo repórter, o último que veria em sua vida de curto flash midiático, como lidaria com essa derrota, com a frustração de não realizar o sonho, respondeu:

“Derrota seria não tentar” e acrescentou, ainda, esmigalhando o tom de autoajuda que a imprensa tanto gostaria de levar ao ar: “Meus fãs ainda poderão me ver. Fui convidada pela escola de samba Unidos do Tupiniquim, em São Vicente, para comandar a bateria. Me aguarde!”

Certas biscates não desistem. Que bom.

PS. Inspiradoras mulheres…quando ser biscate é ter coragem: A Musa (Haonê) e Vânia Flor (musa do Salgueir/2012)

Uma Biscate Incomoda Muita Gente

Biscatagem e moralismo são incompatíveis. Moralismo se incomoda com a biscatagem. Moralismo significa uma aplicação de limitações e regras de conduta – sobretudo em relação ao próprio corpo – que reivindicam uma forma de agir “mais iluminada”, “correta”, tolhendo a diversidade das pessoas e das ações humanas em seus mais variados aspectos. Biscatagem é o oposto. A regra da biscatagem é não ter regra. Biscatagem é o querer. É o fazer sempre consigo mesma e jamais com outrem.

Outrem geralmente, não sendo biscates, não tratam-nos assim.


Cruze as pernas. Tire os pelos. Vista branco. Não transe. Transe. Só transe. Ame. Não se apaixone. Controle. Reprima. Solte. Imperativos e mais imperativos.

A biscatagem vai ainda além. Provoca o moralismo porque se trata essencialmente também de sexo. Moralismo de direita, de esquerda, moralismo que se reivindica feminista, moralismo que se reivindica conservador, religioso, enfim. Todinhos eles se incomodam com a conduta sexual das mulheres de todos os tipos. Já que nós biscates damos é risada de suas regrinhas, acabamos por incomodar ainda mais.


Difícil é ser livre com a sexualidade, seja de si, seja dos outros.

A biscatagem é desejar, essencialmente, a diversidade. Mesmo quando ela nos incomoda.

[e as tirinhas foram especialmente escolhidas, de uma autora biscate que tem incomodado bastante: Laerte]

A boa violência

Shibari, do theobscura.org

Era uma vez outra biscate – que já contei tantas histórias de biscates nessas sextas-feiras, não? – e ponto.
Essa biscate era antenada. Ligada. Pós-modernizada. Defendia o direito biscate aqui e ali. Falava de liberdade, falava de opressão. Reivindicava. Suava. Biscate que dava.

Tinha um segredo.

Não dizia a ninguém, tinha medo.

Essa biscate, tão feminista, fantasiava submissa. De quatro, amarrada, couro e correntes, apanhava. Xingava, gritava e gozava de dor.
A biscate gostava era de violência. Difícil assumir. Apontavam-lhe dedos, discursavam nos mais diversos palanques: sobre a fantasia, a pornografia, a dominação.

Até que assumiu. Assumiu e, como biscate que era, bancou.

Pois qual não foi a surpresa das outras – feministas mas tão, tão moralistas – descobrindo que a violência podia sim, ser liberdade. Biscatagem da mais pura, autêntica: bastava que ela dissesse “sim – faço porque quero”.

Caixas

Era uma vez uma caixa. Uma não, um depósito. Um armazém gigantesco com o pé direito muito alto (e sabe que o tamanho do pé… né?), repleto de caixas. Todas iguaizinhas, sem cor, sem cheiro, inertes. As caixas. Umas letras vermelhas estampavam os lados todos. Ela caminhava por entre as caixas. Divertia-se imaginando o que eram alguns dos nomes esquisitos ali. No canto, uma caixinha bem pequenina com a palavra “coliforme”. Uma outra um pouco maior indicava: “caramujo”.

Havia tantas, tantas caixas.

Uma caixa grandalhona dizia “animais” e ao lado dela uma outra maior ainda com o rótulo “sensações”. Delícia, pensou. Sensações. Era ali que entraria? Estava nas regras, ela releu em voz alta feito Alice – exceto que não havia ali maravilha alguma – uma a uma:

“Número um: entrar no armazém. Parágrafo único: o início do processo implica imediata aceitação das regras. Bom, já entrei, não posso mais voltar agora. Número dois: escolher muito bem uma caixa e entrar nela. Parágrafo primeiro: Antes de tomar uma decisão observe bem os requisitos afixados em cada caixa. O não-cumprimento dos requisitos obrigatórios impedirá sua entrada e você será retirada da missão. Parágrafo segundo: Caso a missão seja cancelada por motivo de não-entramento na caixa você será realocada de volta onde estava, sem a possibilidade de condicional.”

Duas regras. Não podia ser difícil. Sonhara com aquela chance, com aquele momento. Era preciso escolher bem a caixa. Continuou a incursão.

Uma enorme caixa quase encostava no teto do armazém. Que seria? pensou ela. Correu pra lá.

“MULHER”, dizia a caixa. “Mulher…”, pensou ela. “Por que não?”

Encontrou os requisitos obrigatórios da caixa “mulher”. Apenas um. Devia ser moleza, pensou.

“Ter nascido com uma vagina.”

Vagina. Olhava incansavelmente para o papel. Não tinha nascido com uma vagina. Quase desistiu. Chorou. Soluçou. A mesma dor de sempre. Reclamou, contou suas histórias às partículas que pairavam no ar.

E então, o silêncio.

A caixa estava errada. Ela sabia que era mulher.

Caminhava mais. Já nem lia os rótulos, tampouco reparava nos tamanhos das caixas. Repassava sua vida. As escolhas. O sexo bom e o ruim. Violência e amor. Pensava, pensava, pensava. Quase nem notou a pequena caixa de vidro junto à parede. Um rótulo vermelho em cima: EMERGÊNCIA. Ela não sabia mais o que fazer. Dentro da caixa um machado. Ela não sabia o que fazer. Ela não podia escolher caixa alguma.

Afastou-se como um boi (o que era uma emergência se não aquilo) e lançou-se ao vidro que espatifou-se cortando a superfície lisa e negra de sua delicada tez. O machado caiu. Ela agachou-se e pegou-o em suas mãos. O cabo rijo, o desejo. Tesão acumulou-se, o sexo pegava fogo. Um fogo descabido, desproporcional.

Ela segurou o roliço cabo do machado com firmeza. O tesão a fez crescer. Cresceu, cresceu, cresceu. Olhou de cima a “caixa-mulher”, tão pequena. Ínfima.

Já não cabia em caixa alguma.

Do ponto de vista do alto ela percebia a bobagem que eram as tais caixas. Que engano, a vida toda querendo uma chance de escolher. Que bobagem. Largou o machado e ficou com o tesão. O tesão da vida, da beira, da ausência de limites. Liberdade.

Caminhou pra fora do galpão quebrando as paredes e tudo mais que lá havia.

Nunca mais a biscate quis entrar numa caixa dessas.

Em Como Dar

Disseram que ela não podia dar.
Não era pra dar.
Coisa horrível isso de “dar”.
Que coisa passiva, vulgar
esse negócio de “dar”.

Disseram que ela não podia amar.
Não era pra amar.
Coisa mais besta essa de “amar”.
Que coisa mais antiga, familiar
Esse negócio de amar.

Mas ela dava e sorria
Amava e fazia
Quando era só fantasia
Gozo jorrar
Pelos cantos das bocas
Virilhas roucas
Lamber e molhar

Ela era contrária
revolucionária
A biscate vinha provar
Que coisa mais passiva,
Antiga,
Vulgar

Esse negócio de incomodar.

Kiki de Montparnasse, uma biscate que dava e amava. (do fanpix.net)

O Peru

Peru, por Whatscookingamerica.net

Deliciava o olhar com o peru.

A pele dourada,

Coxas bem torneadas,

Era sexy o peru.

Dali ela olhava a festa em Família. O galináceo a fazia esquecer, tostado com as pernas abertas, chamando à orgia.

O molho.

O molho do peru, ah. O molho do peru.

O peito estufado, lambuzado, materializado de tesão e fome.

Ela não teve dúvidas, aproximou-se e com as pontas dos dedos estimulava os contornos viscosos, as carnes rijas e macias, os formatos sensuais daquele peru. Era mais forte que ela, já não podia disfarçar. A Família olhava assustada: o que queria ela com o peru?

Pontas dos dedos tornaram-se dedos inteiros que molhavam cada centímetro da ave. Dedos inteiros tornaram-se palmas, acariciando as gordas coxas apetitosas, tão disponíveis ali, pra ela. O tesão era tanto nas coxas que quase enfurecida arrancou uma pelo canto direito. A saliva escorria boa afora, os bons modos estavam perdidos. Lambeu aquele molho todinho, gota a gota, na coxa do peru. Enfiou a gostosa no pote de molho, e passou a chupar-lhe a cabeça. Quase gemia de prazer.

A Família chocada armava os telefones para acionar a carrocinha. O sagrado peru de Natal. Aniversário do menino Jesus. Profana. Vaca profana! Bradavam os mais ousados.

Só então ela se permitiu morder aquela delícia. Rasgar a pele todinha, pendurada pelos cantos da boca, o rosto lambuzado de suor e gozo. Molhava-se por dentro e por fora.

Quando chegaram os enfermeiros do hospício, ela devorava o peito, segurando o peru na forma, sobre a mesa, montada numa cadeira debruçando-se à frente. Enfiar o rosto naquele peito tesudo lhe fazia feliz. Estava tonta de orgasmos. Os enfermeiros não tiveram grandes dificuldades em leva-la. Ela não resistiu.

A Mãe olhava triste, balançando a cabeça em negação com os olhos cheios de lágrimas. “Por quê, minha filha? Por quê?”.

Porque eu quis”,

respondeu a biscate com o corpo à deriva, largado sobre a maca. Ela só sorria. Sabia por dentro e por fora, sabia ela toda, que essa mesma Família só era feliz com mulheres como ela, que trepavam com seus homens e lambiam as dobras das mulheres.

Nos becos escuros, cantos duros, bairros de apuros à ordem familiar. Onde os perus reinavam absolutos. Ao lado das biscates.

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