Eu, a mãe de um autista

Por Adriana Torres*, Biscate Convidada

Aviso: Super textão, dividido em duas partes pra facilitar o entendimento.

Parte I

Eu sou mãe. Uma mãe que não sonhava em ser mãe, que até alguns anos atrás estava muito feliz e satisfeita criando bichos, colecionando tretas e trabalhando MUITO. Chegava a trabalhar 16 horas por dia, se somadas as horas dedicadas ao trabalho voluntário que realizo há muitos anos em causas sociais.

A gravidez aconteceu na minha vida após um curto relacionamento com meu atual companheiro e, mesmo inesperada, foi motivo de muita alegria.

Eu sou mãe. De um menino de quatro anos e dois meses lindo, criativo, alegre,  curioso, tagarela e carinhoso. Entre suas características está uma que causa um tantinho de medo nas pessoas quando falo a respeito: O autismo.

Ele foi pré-diagnosticado há exatamente um ano, após mais de dois anos de pesquisa para entender seu atraso de fala e algumas de suas dificuldades que começaram a surgir após ele fazer dois anos.

(Falo pré-diagnosticado porque diagnóstico de autismo só pode ser devidamente confirmado a partir da idade das operações concretas, como dizia Piaget, ou seja, dos sete anos de idade).

Nessa caminhada fui obrigada a estudar muito, graças a falta de conhecimento até de profissionais que me atenderam e me deixaram ainda mais perdida.

O que é autismo? Existem muitas teorias, mas poucas respostas efetivas.  Entre elas, a teoria que mais respondeu minhas dúvidas é a da neurodiversidade. Autistas são pessoas com um “sistema operacional” cerebral diferente das não autistas. E mesmo entre os autistas esse sistema é bem diversificado, alinhando-se em algumas características comuns com variações de intensidade: dificuldade na comunicação e interação social e interesses e comportamentos restritos e repetitivos.

Podemos pensar que autistas possuem um sistema operacional Linux e não autistas, Windows. O Linux deles conversam de uma forma bem diferente entre os aplicativos – as chamadas sinapses neuronais – e essa conversa acaba meio truncada porque alguns papos que deveriam ter sido esquecidos permaneceram no lugar (a fagocitação de células mortas é ineficiente), fazendo com que o sistema tenha informação em excesso, muito mais informação do que nos sistemas Windows.

Mas o sistema é inteligente e sabe como se autorregular, então crianças autistas costumam pensar “por imagens” ao invés de palavras como os Windows; buscam ou evitam incessantemente atividades sensoriais que equilibrem os sentidos que estão atrapalhados (pulando, andando nas pontas dos pés,  evitando ou provocando barulhos, etc). Não é a toa que o querido psicanalista Manuel Vazquez Gil diz que autistas são os que fazem a si mesmos: eles sabem quais são suas dificuldades e também sabem exatamente o que fazer para enfrentá-las.

Mas os dotados do sistema operacional Windows são arrogantes demais para entenderem isso. E, portanto, insistem em tentar moldar os Linux aos seus métodos e forma de agir. Isso acaba gerando problemas nos autistas que, incapazes de se autorregularem, acabam tendo explosões de raiva que são vistas, pelas pessoas leigas, como “birras”.

Agora que expliquei que autismo não é doença, autismo não é um problema, autismo é parte da neurodiversade humana e suas maiores dificuldades residem em terem que se comunicar com cérebros Windows que se acham melhores do que eles, vamos para a parte II deste texto.

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Oh Happy Day Fotografia

Parte II

Coloquei a palavra “birra” em aspas de propósito. O adulto criou essa palavra para toda demonstração excessiva de sentimentos de uma criança que ele não consegue entender. “É mimo demais, dizem”. Em um país onde 18.000 crianças sofrem violência POR DIA, fico impressionada como, na visão de muitos, existem crianças “excessivamente mimadas”. Mas, voltando às birras: lembram que falei das sinapses lá atrás? Crianças pequenas têm muito mais sinapses que adultos, pois suas redes neurais estão em formação. Principalmente por volta dos dois anos, aquele ser humano em miniatura tem uma falação incessante no seu cérebro e ainda não tem a maturidade cerebral necessária para entender certas situações ou mesmo conter suas emoções, que estão, literalmente, à flor da pele (tá, tem adultos assim, mas isso já é outra história).

Existem crianças mal educadas? Claro que sim, assim como adultos e idosos. Existem pais permissivos? Sim, como existem milhares de pais autoritários demais e ambos os casos podem levar a futuros adultos com baixa autoestima, dificuldade de lidar com frustrações, etc. Mas vamos parar de chamar de birra que parece uma palavra inventada para todo comportamento que não sabemos lidar? Quem sabe assim conseguiremos olhar de forma mais profunda a causa desses comportamentos, que pode sim ser a falta de limites mas também uma forma de comunicar algo que a criança não está conseguindo expressar da maneira como gostaríamos que ela se expressasse?

Meu filho, como eu disse no início, é um doce. E pula. E fala alto. E canta bem alto. Ele ri descontroladamente e se joga de forma perigosa sobre coisas e pessoas. Quando está com seu sistema sensorial sobrecarregado, é um Deus nos acuda. Se eu piscar os olhos, ele está em cima da mesa tentando voar. Ele também tem muita dificuldade de dormir, então, quando está cansado demais, fica se movimentando quase que desesperadamente, pois não entende o que está acontecendo com seu corpo, por mais que eu tente explicar. E pula. E ri. E se coloca em situações de risco.

Alguns pais, temerosos dessas horas, acabam por utilizar medicações. Não os julgo, até porque o autismo do meu filho é considerado “leve”.  Mas euzinha, que até hoje mal tomo uma dipirona para as minhas enxaquecas monstruosas, evito medicamentos tradicionais de todo o tipo, para mim e para ele.

Então que quando saímos de casa ele é quem é, ou seja, ele pula, ele corre, ele ri e gargalha, as vezes toca nas pessoas e pega nas mãos de desconhecidos. Eu fico grudada nele quase que o tempo todo, tentando garantir a sua segurança e a dos demais. Coloco limites, sem no entanto atrapalhar sua autorregulação, o que seria um desastre para mim e para ele.

É nessas horas que eu sinto os olhares julgadores de quem não me conhece nem ao meu filho. Esses olhares transmitem as frases que li dezenas de vezes na internet nos últimos dias, por conta de adultos que resolveram demonstrar todo o seu preconceito com o universo infantil. “Não aguento crianças birrentas”, “as crianças de hoje acham que podem tudo”, “os pais de hoje não sabem controlar seus filhos”…

Talvez eles não saibam que até pouco tempo atrás, um filho como o meu era escondidos em casa ou internado em instituições. Era o melhor lugar para ele, diziam. Não sabia conviver em sociedade e seria marginalizados pelos demais, afirmavam.

Talvez eles não saibam que existem muitas escolas (principalmente as particulares) que não querem o meu filho lá. Ele precisa de um atendimento especializado, dizem. Nós não sabemos como tratar seu filho, afirmam, como se ele fosse um ser de outro planeta. As outras crianças irão debochar dele, ameaçam. Foi preciso uma lei para que as portas se abrissem – ou não fechassem e, mesmo assim, ainda dão um jeitinho para nos tirar de lá.

Daqui 10 anos ele não será mais alvo desses comentários absurdos que li e me fizeram chorar por horas. Poderá frequentar certos restaurantes e hotéis que não aceitam crianças. Mas veja bem, ele continuará autista. Por ser um autista leve, talvez não desperte tanto a atenção, mas será visto como “aquele menino esquisito” quando ele de repente levantar e der uns pulos fora de hora, ou soltar uma gargalhada imprópria, ou simplesmente começar a andar rapidamente de um lado para o outro. Sua maneira estranha será parcialmente perdoada, afinal, ele não é mais aquele abominável ser chamado criança e suas habilidades extraordinárias possivelmente já serão reconhecidas.

Muitas crianças iguais a ele não terão a mesma sorte. Porque não encontrarão uma escola que os acolha, porque seus pais, cansados de tantos julgamentos alheios, talvez evitem levá-los aos restaurantes e “locais de adulto” onde eles poderiam exercitar a capacidade de estarem nesses ambientes e de se relacionarem com os windows que lá estiverem.

Mas, quem sabe, o mundo evolua um pouquinho mais nos próximos anos. Quem sabe se essas pessoas que tanto vomitaram ódio contra um dos grupos mais oprimidos pela sociedade patriarcal possam pensar 1, 10, 20 vezes antes de julgarem e externarem seus preconceitos? Talvez, antes de olharem impiedosamente para aquela criança que pula, prontos para julgarem seu comportamento, lembrem deste texto e pensem melhor.

Eu, a mãe de um autista, agradeço.

euavatarmarco2015* Adriana Torres é uma mineira generosa que trabalha com marketing no terceiro setor e curte trabalho voluntário, é mãe do Leon, gosta de cachorros e gatos, casa cheia de amigos mas também de sossego e de redes sociais. Você pode lê-la em seu blog ou acompanhá-la no Twitter @Adriana_Torres.

 

Comunitariamente Cuidar

Sim, a gente tá bem ali no zóio do furacão da História. Dessa com H maiúsculo, que falaremos em breve nas escolas, que em breve ficará no passado, que em breve falaremos “naquele tempo, eu vivi naquele tempo!”. E daí? Me parece e posso estar bem enganada disso, que há por um lado uma necessidade de se falar sobre tudo, haja vista o imediatismo e a relação em tempo real que nos apresenta as redes sociais, por outro muitas vezes um discurso que reivindica a todo momento que tomemos posição. E aí muitas vezes agimos por impulso, por ausência de reflexão. Isso não é em si necessariamente ruim, mas permite que muitas vezes deixemos passar coisas e reproduzimos situações que precisam ser criticadas.

Recentemente uma foto circulou nas redes sociais expondo um casal, dois cachorros, uma babá que empurrava dois bebês  num carrinho indo para uma manifestação. Não entrarei nas críticas à marcha X, Y, Z e tals. Não é sobre isso. Também quero deixar que critico toda forma de exposição não consentida, havia ali uma mulher negra trabalhadora que foi chamada a falar publicamente, que se sentiu violada e exposta. Haviam ali crianças, cuja proteção é dever de toda sociedade. Se queremos criticar formas de vida, escolhas, privilégios, é perigoso que nos valhamos de recursos que expõem mulheres negras trabalhadoras e crianças. Se mulheres negras que realizam trabalho doméstico são exploradas no Brasil, muito em razão de uma herança escravocrata, cabe a nós lutar para que essas mulheres tenham trabalho digno, defender a regulamentação, formalização, garantia de direitos, e não reproduzirmos discursos paternalistas. Como se mulheres fossem incapaz de se organizar politicamente, como se domésticas fossem desprovidas de conteúdo político, como se fossem incapazes de lutar por vida digna. A PEC das Domésticas é resultado da militância de mulheres negras trabalhadoras domésticas organizadas, elas não precisam de nosso discurso paroquial, elas precisam que respeitemos sua luta, sua autonomia, e sua força. Isso não quer dizer que não reconheço que há desigualdade, abusos, violações relativas ao trabalho doméstico, mas apenas que não é pela via pater/maternalista que travaremos um enfrentamento à tudo isso.

Bom, dito isso, tomo o rumo do que quero escrever. Sim, to atrasadinha no debate, sou dessas. Voltando a foto, e apesar de lamentar a exposição, quer eu goste quer não, isso promoveu um debate, li e ouvi muitas pessoas criticando o casal sob o argumento de que “Se não quer cuidar nem no domingo porquê tiveram filhos?”. E acho esse argumento bem temerário, tão temerário quanto culpabilizar a mulher que aborta porque não se preveniu antes de engravidar.

A maternidade, ainda que seja uma escolha nem sempre é simples de se sustentar. Existe um ideal de maternidade, e existe a maternidade que se apresenta na sua vida, muitas vezes diametralmente oposta daquilo que se idealizou. A maternidade ainda que uma escolha nem sempre é feita com liberdade e autonomia, existe um sem fim de mecanismos discursivos de controle sobre o corpo da mulher que operam o desejo, são um sem fim de familiares perguntando quando vem o bebê, é um circulo de amizades de baby boom, é o companheiro, é a ginecologista, amigos e amigas, vizinhos. A maternidade compulsória é algo presente e sistemático na nossa sociedade. Ai me parece perverso colocar a questão nesses termos “se não quer cuidar porque teve”. Conheço muitas mulheres que ingressaram em profunda depressão tão logo foram mães, e cuidar muitas vezes exige energia da qual não dispomos, ainda que essa maternidade tenha sido desejada, e habite amor nela. Eu mesma tenho uma dificuldade imensa em cuidar, acolho essa dificuldade, ela diz muito de mim, reconheço essa minha limitação. É nesse exercício que consigo elaborar o cuidado.

Cuidar requer abertura, requer estar à merce, requer diálogo, requer um olhar para o outro que diz muito de nós, e muitas vezes não queremos saber sobre esse dizer. Muitas vezes cuidar é um processo dolorido. Cuidar é comunicação, não à toa encaminhamos ofícios, cartas, encomendas, etc., aos cuidados de Fulano. Cuidar também é pensamento “Ela cuidou do que iria dizer”. Cuidar é de uma grande complexidade, e é para além do trocar fralda, dar banho, ver lição de casa e realizar a manutenção da vida. Reduzir o debate ao “se não quer cuidar porque teve” é uma grande falha.

Muitos pais e mães ricos e pais e mães pobres não dão conta de cuidar de seus filhos, o que nem sempre é indiferença e rejeição. Aos ricos há a possibilidade de ter uma babá, a criança é amparada de alguma forma, ainda que boa parte das babás deixem seus filhos muitas vezes desamparados. Aos pobres o caminho é mais perverso, basta pesquisar acerca dos abrigos e a quantidade de crianças inadotáveis abandonadas. E isso não quer dizer que todo mundo que tem babá não cuida, rejeita e é indiferente, muito menos que o casal da foto abandonou os filhos.

Porque eu falei tudo isso, porque o fenômeno de não suportar a insustentável leveza do cuidado não é algo do casal x ou y, coxinha ou esquerda, marchante ou não marchante, do Pinheiros ou Pinheirinho, é algo presente em todas as classes, ideologias, religiões. Abandonamos crianças a todo momento, escolas particulares de renome estão abarrotadas delas, abrigos também, nas casas, em todos os lugares.  Acredito que a possibilidade de mudança e a responsabilidade pelas crianças precisa caminhar para relações comunitárias de cuidado, esvaziar o conteúdo dos papeis de pai e mãe, esvaziar a idealização e a cristalização desses papéis. Não olhar os filhos dos outros nem aos seus como propriedade, para que a responsabilidade não se limite e se reduza aos pais, e seja sobretudo de todos nós. Para que todas as crianças sejam acolhidas e amadas, independente de quem as gerou, de quem as pariu. Eu gosto muito de uma estrofe de uma poesia que se chama Amor do Maiacoviski:

Para que doravante
a família seja
o pai,
pelo menos o Universo,
a mãe,
pelo menos a Terra.”

xênia

 

*Xênia Mello é arretada e não tem papas na língua. Apaixonada, combate com o coração exposto. Advogada, corajosa, meiga e persistente. Não perde a oportunidade de sensualizar no feminismo, biscate burocrática, rata no Chinês, capricórnio quando teimam. Insustentavelmente leve e de mansinho.

Festas de fim ano e o relógio biológico

Minha família nunca foi uma família muito ¨normal¨, na casa da minha mãe, só entra namorado meu ou da minha irmã depois que temos certeza que vamos passar um bom tempo com ele. Ou seja, quando há pelo menos um ano de namoro, eu levo o namorado pra casa, ele fica incomodado, sem graça e depois não volta. Na casa da minha mãe não se dorme com namorado, há uma regra muito confusa para a minha cabeça: filhas e filhos não fazem sexo lá.

Na casa do meu pai, sempre foi mais na bagunça, namorados vão pra lá, dormimos com eles, sem muito estresse, sempre todo mundo muito liberal. Desde que voltei a frequentar a casa de meu pai, levei os namorados, nada de dormir um separado do outro, nada de hipocrisia, casal dorme junto, é normal e saudável.10881569_580749158735512_3254406835003859872_n

Pra falar a verdade, meu pai e minha mãe tem uma cabeça muito boa em questão de casamento, gravidez e estudos, nunca fui pressionada por nenhum dxs 2 a ser mãe ou casar. Sei que não é muito comum ouvir mulheres feministas falarem que, em festas de fim de ano, não ouve nenhuma pergunta sobre filhxs e casamento, eu até ouço, mas não de meu pai ou minha mãe. Sempre tem aquelx familiar intrometidx que acredita que meu relógio biológico tá correndo e que eu preciso logo casar e ser mãe. Eu tenho o costume de balançar a cabeça e pensar em coisas que preciso fazer, ou se vou repetir um prato da mesa da ceia, ou já to beuba e nem presto atenção, só rio o tempo todo.

Mas, uns 2 anos atrás, numa festa em família na casa do meu pai, me perguntaram de filhos e casamento. Entendam, nesse exato momento, eu tinha acabado de terminar um relacionamento longo, não tinha nem planos de casar com ninguém. E, se você está solteira por opção, você vira uma ET em festas de família. Nessa conversa, tinha um casal da família e uma familiar divorciada e que nunca teve filhxs. Eu e essa familiar explicando que, às vezes, não ser mãe pode ser muito bom, tão bom quanto é ser mãe pra outras mulheres. O casal tentando me mostrar que a minha vida profissional não iria acabar se eu fosse mãe e esposa. Afinal, você sempre está tentando equilibrar a vida profissional com o grande sonho da maternidade. Mas eu não estava, eu nem sabia se queria ser mãe. Isso era o que elxs não entendiam, enquanto nós duas falávamos que ser mãe não era o sonho de toda mulher, elxs negavam cada frase nossa falando de, ¨alguém para nos apoiar na velhice¨ e outras frases típicas pra justificar a necessidade de ter filhxs.

E essa conversa durou bastante, até a hora em que eu desisti de tentar explicar minhas opiniões e fui ficar beuba. Pois vi que nada iria mudar, voltei ao que sempre faço em festas de família: balançar a cabeça e pensar em qualquer outra coisa. E, se eu fosse sonhar com um futuro parecido com de alguém da família do meu pai, seria com uma vida como a dessa minha parente divorciada e sem filhxs. Sempre foi livre, fala alto, fala palavrão, bebe, viaja e se diverte muito em todas as festas de família. E sempre a achei a mais divertida e a mais simpática da família.

Eu decido

Por Niara de Oliveira

escolha

eu + Calvin

Na ressaca do Dia das Mães, comercial e excludente, sou obrigada a reconhecer que a cada passo que damos, individual ou em pequenos grupos, no coletivo maior da sociedade estamos caminhando de costas. Na esteira do desabafo que fiz do meu desconforto com a data, veio uma enxurrada de manifestações, quase todas legais, quase todas afagos, conforto, o que faz um bem danado. Mas — sempre ele –, vieram, no privado, inbox, perguntas, curiosidades de quem não conhece meu histórico de maternidade ou o conhece apenas parcial ou superficialmente.

Nas curiosidades estava implícito a cobrança do meu ativismo na área do autismo. Tipo, como assim eu ativista-comunista-feminista não sou um expoente da luta pelos direitos dos autistas no Brasil? Oras, porque não. Porque decidi não expor o Calvin e nem nossa condição socioeconômica para que tenhamos garantidos direitos que deveriam ser universais. Simples assim.

A cobrança não fica só aí, vai ao limite da sordidez. Como assim eu me dou o direito de viver (incluindo biscatear) e não vivo apenas para o meu filho? Porque somos duas pessoas, oras, e não é justo que vivamos apenas uma vida. Cada um tem a sua vida e a vive como é possível, como faz ser possível. O Calvin depende de mim para várias coisas — quase tudo, é verdade –, e eu tento suprir suas necessidades na medida do possível. Do possível. Sim, porque não sou obrigada a me tornar heroína e ir além da minha condição humana só por que tive um filho específico.

Como seria possível ser feminista e não lutar pelo meu direito à vida, mesmo que em condições tão adversas? Como ser ativista dos Direitos Humanos e não lutar pela minha própria condição, pelo meu direito à humanidade? Como ser comunista e não lutar para ter o melhor do mundo também para mim? Está parecendo egoísta, né? É, estou falando de mim, do meu umbigo, porque foi a minha existência plena, a minha vida que foi questionada nas entrelinhas da curiosidade.

Não quero, e não vou, me tornar a madre-teresa-de-calcutá dos Lennox-Gastaut (síndrome do Calvin). Poderia justificar com um zilhão de motivos, mas vou fazê-lo com apenas um: essa escolha é apenas minha. Lidem com isso.

Leia também:
Maternidade “especial” – o que o feminismo tem a ver com isso? — Cyntia Beltrão

Mãe, Feminista, Biscate, Perguntadeira, Operárix em Construção

Eu sou mãe já faz 16 anos. Digo-me feminista há, sei lá, 03 anos, acho. Uma coisa e outra não se determinaram e só chegaram a se cruzar bem depois. Várias pessoas narram que se sentiram e se engajaram feministas com a maternidade. Eu tenho minhas suspeitas do porquê isso não ter acontecido comigo e as suspeitas passam pelo Almir (pai do Samuel e marido, na época) e pelo meu entorno mais próximo, nomeadamente minha família nuclear original. Quando eu fiquei grávida e depois do Samuel ter nascido eu nunca ouvi das pessoas próximas: “não pode (ou não deve) fazer isso porque é mulher / porque vai ser mãe/ porque é mãe”. O Almir sempre cozinhou e lavou as roupas do Samuel e dividimos a arrumação da casa. Samuel sempre teve sono tranquilo, mas se eventualmente acordou, doente por exemplo, Almir levantava tal como eu, ia ao médico, aos exames, além disso foi a todas as reuniões da escola, alimentou o Samuel, colocou pra dormir. Nenhuma tarefa de cuidado tinha gênero, a não ser a amamentação e, mesmo essa, ele estava por perto, acariciando o Samuel ou me mimando. Na época eu estava terminando a faculdade e ia pras aulas e o Almir levava o Samuel pra mamar nos intervalos. E quando eu voltei aos estágios e, depois, ao trabalho, o Samuel ficava com o pai ou com minha mãe, ou com minha irmã ou com meu irmão. Cuidado também não teve gênero. Quando o Samuel tinha um ano, passei a viajar a trabalho e isso nunca foi uma questão. Agora, o Samuel mora com o pai desde o começo de 2012. Daí que questões centrais que se colocam pras mães normalmente como sobrecarga de obrigações, dificuldade de se recolocar no mercado de trabalho, creches, rompimento precoce (em relação ao desejo da própria pessoa e não em função de uma norma) da amamentação e coisas assim passaram em branco por mim.

Fui me nomear feminista em 2010 porque nessa época eu conheci várias blogueiras que assim se indicavam e com as quais eu passei a interagir. E aí a Rita me disse: “tu é feminista, isso aí que tu pensa sobre igualdade e direitos é feminismo” e como ela costuma estar certa, eu acreditei. Eu comecei a ler (os blogs, gente, não as teorias nem nada assim, porque, curiosamente, de lá pra cá minha vida foi tendo outras demandas que eu priorizei como fazer o doutorado e tal) e gostei das ideias, comecei a me identificar com as demandas, percebi que muito do que eu pensava e desejava para mim, pras pessoas ao meu redor, para o mundo de maneira geral tava ali, compartilhado por aquelas pessoas. E fui ficando, na lista das Blogueiras Feministas, publicando eventualmente no blog, participando das blogagens coletivas e, principalmente, aprendendo e trocando com essas pessoas, quase sempre mulheres.

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Nenhuma das duas coisas, “ser mãe” ou “ser feminista” me definem ou me explicam. Ser mãe é um nome que a cultura deu pra minha relação com o Samuel. O que me define é passar as noites em claro fazendo cafuné quando ele está doente, é cheirar o cabelo dele e fechar os olhos de felicidade, é alimentá-lo, conversar com ele, banhar, levar ao zoológico, é ter cuidado e continuar cuidando dele, me alegrando com ele, interagindo, aprendendo com ele. Não acho que meu amor ou meu vínculo com ele seja de natureza diferente do que o Almir ou minha mãe, pra ficar nas pessoas mais envolvidas no cuidado, tem com ele. Acho que é diferente porque eu sou uma pessoa diversa do Almir e da minha mãe, e só. Por isso a adjetivação, boa ou má, para mãe, não me importa. Se existe mesmo essa tal sabedoria intrínseca ao ato de ser mãe e que a pessoa só “sabe” algumas coisas depois que pare ou adota, o correio perdeu o manual e nunca chegou lá em casa. Eu continuo no sem saber e na construção diária das relações, inclusive com meu filho.

Ser feminista também não é um título que eu reivindique com empenho. Sou por afinidade de ideias, por identificação com gente que eu amo e/ou admiro, por considerar relevante politicamente engrossar fileira. Mas minha carteirinha eu nem mandei plastificar. Grande parte das coisas que penso hoje e que coadunam com o feminismo eu já pensava ou, antes, sentia, mesmo quando não tinha as palavras certas pra descrever. Então as coisas que faço que me identificam feminista: partilhar textos que eu considero relevantes , instrutivos ou esclarecedores, participar de manifestações a favor da legalização do aborto, militar pelos direitos das mulheres nos espaços e situações que se apresentam, escrever posts sobre temas que me comovem ou impactam, manter um blog chamado Biscate Social Club, tudo isso eu continuaria fazendo sem precisar me dizer – e, especialmente sem precisar que me digam – feminista.

Esse preâmbulo – sim, sorry, isso foi só o preâmbulo – foi pra contextualizar porque, talvez, eu não entenda bem porque as pessoas se sentem pessoalmente atacadas ou agredidas quando se questiona qualquer um desses elementos que se ligam a essas identificações/identidades.

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Mãe, pai, amigo, avô, cuidador, sem diferença.

Eu não me sinto pessoalmente contestada se alguém questiona a maternidade, a função social, o porque do foco no cuidado ser impingido às mulheres. Não me sinto nem um pouco constrangida de pensar se realmente a mãe é mesmo essencial às crianças, nessa relação dual que a sociedade em que me vejo inserida indica e cobra. Especialmente não tenho intenção de engrossar coro de nada que solicite que esse papel de cuidado se foque preferencialmente na mulher identificada como mãe.

Também não me sinto pessoalmente chateada quando questionam ou simplesmente indagam as premissas que dão suporte ou validade à minha atividade feminista. Daí, por exemplo, todo recorte que traz as questões das mulheres negras, trans, pobres, indígenas, do meio rural, etc. que estavam ou não presentes em certas demandas do meu discurso, eu reflito e incorporo sem me sentir ruim como pessoa ou algo assim.

Eu penso o mundo dialeticamente, as relações sociais dialeticamente, as construções da identidade dialeticamente. Assim, é justamente no cerne das contradições que eu identifico a possibilidade de mudança e transformação. Por exemplo: eu acho que o papel de mãe é um lugar simbólico e culturalmente construído para as mulheres de uma forma que restringe sua autonomia e plasticidade humana. Se eu encontrar na rua uma bandeira assim: Orgulho de ser mãe, eu e a maior parte das pessoas vamos relacionar ao termo um lugar de cuidado absoluto, dedicação, entrega e apagamento de si ante as demandas dos filhos e do lar. E não vamos identificar isso porque necessariamente acreditamos que isso é o que uma mulher DEVE fazer ao ser mãe, mas porque é assim que a sociedade qualifica esse lugar. Acontece que quem ocupa esse papel são pessoas concretas, reais, que podem ou não buscar ajustar-se a ele. Acredito assim: a maneira de viver o papel qualifica esse papel e pode reconstruí-lo ou reforçá-lo. As que não buscam o ajustamento criam contradição, suas novas demandas, sua forma de vivenciar e encarnar o lugar acabam por dar novas matizes a ele. É aí, no lugar de contradição, que as mudanças operam. Isso pode ser experenciado de forma reflexiva ou não. Tem gente que passa a vida em contradição com dado papel, reconstruindo e remodelando-o sem nomear isso. E tem gente que nomeia, fala disso e, em tempos de internet, escreve posts. Alguns deles, feministas. Outros, não. Como não tenho régua pra medir esse tipo de coisa, não acho que haja alguns melhores que os outros. Acho que há alguns com os quais me identifico mais. Confessadamente: os que questionam a divisão social do trabalho no viés de gênero, os que indagam sobre a socialização, os que se perguntam sobre a essencialização da mulher e/ou da mãe, os que se interrogam sobre a naturalização dos processos sociais. E, muito especialmente, tenho maior afinidade com as escritas (e pessoas) que não tem respostas certas e que não fogem, negam ou escamoteiam contradições.

 Então, é isso: eu sou mãe, eu sou feminista. Nem tudo que penso e faço na maternidade é feminista. Nem tudo que penso e faço no feminismo se vincula às questões da minha relação com a maternidade. Nem tudo que não é feminista é machista, lembrando, porque não são concepções espelhadas da realidade. Não acho que maternidade e feminismo são incompatíveis. Não acho que maternidade e feminismo são causais. Acho que o feminismo coloca questões de contradição à maternidade. Acho que o feminismo questiona não só a obrigação de ser mãe, mas especialmente a forma de vivenciar a maternidade. E acho que no dia em que mãe for o mesmo que pai, tio, vizinho nos cuidados com as crianças, estaremos em uma sociedade melhor, pras mulheres e pras crianças, sejam de que gênero forem.

As biscates também são mães

Por Silvia Badim*, nossa Biscate Convidada

Sim, é muito biscate poder ser mãe quando quiser, quando surgir a vontade de gerar uma vida, ou adotar uma vida para seguir junto com a nossa pelo caminho afora. A vida que nasce é uma vida biscateada se vem do prazer, do gozo de se permitir ser. Se vem da vontade lá de dentro, do útero – como metáfora – de dentro, porque biscate é mãe pela vontade. Quando a gente já sabe, e já pode, governar o próprio corpo. Ainda falta muito para que possamos assumir essas rédeas completamente, eu sei, mas a gente tenta.

Biscate sabe que filho vem do mais profundo amor de escolha. Uma biscate é mãe porque escolhe viver o ser mãe. É mãe que vibra a afirmação: eu quero. E sabe sem reticências que poderia não ser, e tudo bem. Mas a gente pode optar por deixar a barriga crescer e parir e embalar e cuidar de um novo ser. E pode deixar o desejo crescer e adotar e embalar e cuidar de um novo ser. Porque parir e criar pode ser cheio de prazer feminino.

Uma biscate curte o próprio corpo mudando, a barriga crescendo ou a vontade crescendo, e sabe que barriga e bunda e peitos são seus, e não apenas veículos de alguém que nasce lá de dentro. É peito-mulher e peito-leite, e vamos ao que interessa: a vida, que está aí para ser vivida até a última gota.

E eis que uma biscate é mãe, e tem essa pessoinha grudada em suas pernas, embalada pelos seus braços e aconchegada no seu colo tão farto de carinho. E então tudo se amontoa e respira junto com a gente, tudo que vem da filha ou da gente mesmo, tudo que vem das mamadas vorazes do bebê e dos desejos da mulher-mãe que oferece os seios. E claro, não há dúvida para uma biscate: só podemos ser as mães que somos como sujeito, e vivemos esse monte de coisas que pedem para serem vividas: trabalho, amigos, leituras, sexo, e o que mais fizer parte da gente. Somos esse todo que pede pulso, e que se move intensamente rumo ao anseio de viver feliz.

Os desafios não são poucos, e sabemos que mãe tem preguiça, tem sono, tem mau humor e dias de querer ficar sozinha. Tem tarefas aos montes, dias conturbados, dias derrotados e cinzas de doer a vista. Mas e a gente aprende a pedir ajuda. A gente aprende que o filho é nosso e é do mundo, e que nossos momentos preciosos são tesouros que não se negociam. Entre uma hora aqui e uma fugida acolá, seguimos. Uma biscate respeita seus momentos, para poder voltar mais inteira como mãe. Para poder ser mãe feliz.

Uma biscate trabalha, geralmente, e é provável que seja daquelas que ama o que faz, e se dedica para além dos afazeres burocráticos. Sim, uma biscate sonha e se empenha, e agarra as jornadas com suas pernas de andar firme. E o filho ou a filha, nesse tempo, fica na escola sem culpas: às vezes parte do dia, às vezes o dia todo. Às vezes na casa da avó, às vezes na tia, às vezes no vizinho  ou como couber no arranjo cotidiano. Faz parte da vida, e uma biscate sabe que a perfeição não existe. Ela vai lá, encontra a escola, discute a rotina, decide, pensa a educação partilhada e o filho no mundo. Ou, simplemente, agarra o que a vida oferece sabendo que nem sempre pode ser o melhor, mas é o possível. Pensa em si individuo, no filho individuo que vai e volta e nela que vai e volta cheia de coisas para trocar.

Uma mãe-biscate é individuo que faz sexo, e mais: que gosta de sexo. Sim, gosta com todas as letras e sabores. E sabe que mãe feliz é a mãe que goza, que não faz o filho de falo, que não projeta na filha a insatisfação da falta de gozo livre e pleno de prazer. Pode ter ou não ter casamento, pode ter namorado ou namorada, pode ser só, ter relação livre, poliamor, tanto faz, o que importa é a tentativa de felicidade. Pode doer, claro, uma biscate chora e sente os espinhos nas suas extremidades. Mas, sem receita de bolo ou fórmula mágica, vamos rumo a tudo que puder, ao que der, àquilo que seja vibrante e cheio de sorrisos.

Uma biscate não quer os padrões que engessam quaisquer realizações pessoais ou sexuais. Uma biscate-mãe-mulher se quer inteira. E dá uma banana para o dedo em riste e o moralismo de fundo de quintal. “Resolvam-se”, pensamos. E vamos em frente. Assim seguimos e assim o filho vai crescendo junto, a filha vai ganhando o mundo, e a cria desabrocha com a mãe-biscate de sorriso grande. Filho precisa é de amor, e isso uma biscate tem de sobra. Para o que der e vier.

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Silvia Badim é uma santista morando em Brasília, escrevendo no blog Estranhas Entranhas, gostando de Nina Simone, Bob Dylan, Billie Holiday e Chico Buarque. Diz ela, com auxílio dos Mutantes, que “seu peito é de sal de fruta, fervendo no copo d’água”, nós achamos que ela escreve lindamente espalhando sua entranhas vermelhas por aí e aqui. Você pode conhecê-la melhor na sua página do Facebook.

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