Dos dias que seguem

duas-mulheres-passeiam-pela-praia-de-la-zurriola-em-san-sebastian-na-espanha-1332779034586_956x500Então ela me abraça e eu deito a cabeça macio. Sinto cansaço e deixo o sono cair pelos meus olhos, nessa estranha sensação de pertencimento a outro corpo. Enrosco-me. Cada buraquinho fazendo curva nos meus pelos, o sabor da pele nos meus lábios. Seu sotaque baiano contando-me histórias de mar. Eu balanço.

Deitadas juntas observamos o vazio. A incógnita dos nossos dias. O amor talvez seja isso: uma grande contemplação das incógnitas, em colo macio. Um abraço onde esquecemos das impermanências e pertencemos, um pouquinho, a algum lugar. Deixo-me.

Envoltas nos desafios tantos dos dias que seguem, temos a sorte de nos lembramos a tempo de não nos perdemos. Faço retratos imaginários da boca dela enquanto fala. Uma coleção de retratos que guardo nas retinas. A beleza dos tempos das partilhas. O antes e o hoje. E o porvir que nossas mãos não seguram. Deixamo-nos.

A doença que tomou seu corpo já não nos derruba tanto. Vamos aprendendo a conviver com a pergunta. E assim descemos o rio das correntezas, esse rio da vida que não avisa desvios. Nessa pequenina embarcação não tem espaço para muito. Só as miudezas e generosidades que não carecem embalagens. Existimos nos detalhes. Nos respiros. Nas pequenas e extraordinárias coisas que nos contam.

Temos medo. Mas a nudez da vida também acalenta. Uma certa liberdade atinge-nos quando, de repente, não temos mais chão de afundar os pés. A vida é aqui e agora. Sentimos vertigem. Pulamos. Onda vai, onda vem. Estico a corda. O amor é que me enlaça. E a rede de proteção é o afeto.

Histórias de horror: pergunte a uma mulher

violence-against-women-facebookDomingo, mais ou menos umas 17h. Estava voltando do mercado quando um vizinho e grande amigo me chama para alertar a respeito de uma cena que ele viu, ao ir para o trabalho, na madrugada daquele mesmo dia: uma moça semi-nua, em desespero, cercada por policiais e moradores do entorno. Ela tinha acabado de sofrer um assalto, seguido de estupro.

Moro na periferia da zona norte de São Paulo e este é o terceiro caso que soubemos, num período de 10 dias. Sim, DEZ dias. Três garotas foram violentadas praticamente no “quintal” da minha casa. Poderia ter sido eu. Ou minha mãe. Ou uma amiga querida. E mesmo que não tenha sido com uma conhecida, foi como se eu tivesse sentido a dor dela em mim.  E sou capaz de apostar com vocês que toda mulher já pensou duas vezes antes de sair sozinha ou de confiar em alguém, temendo pela própria integridade.

16dias20081Situações como a que descrevi acima estão longe de serem restritas às periferias das grandes cidades. Acontecem todos os dias, no país inteiro. Basta ser mulher para ser uma vítima em potencial e para ter medo. Isso quando o estuprador não é alguém da própria família ou do convívio da mulher, característica da maior parte das ocorrências.

Sendo assim, não acho verdadeira a ideia de que nós mulheres  temos o nosso direito de ir e vir, e de ocupar os espaços públicos garantido. Estamos submersas ainda em uma cultura de estupro, que culpabiliza a vítima pela violência sofrida. E nossa sociedade e nossas autoridades estão muito despreparadas para dar assistência à estas mulheres e para coibir este tipo de crime.

Estupro não é sexo. É uma das mais cruéis formas de violência contra a mulher, que pode vir a destruir a sua vida e auto estima de um jeito muito difícil de ser superado. Estupro é tentar destruir alguém para mostrar poder. Todo ativismo contra ele é absolutamente necessário e nunca é demais. E se você ouvir falar de alguém que sofreu esse abuso, não pergunte que roupa ela estava vestindo, se ela “provocou” ou o porquê dela andar sozinha à noite. A culpa não foi dela.

Queria muito viver para ver o dia em que nenhuma mulher precise sentir medo.

Para saber mais: Número de estupros supera o de homicícios dolosos no país, diz estudo. (G1)

Algumas linhas sobre mudanças

Que saudade daqui! Foram dois meses longe que mais pareceram dois anos…

E é muito bom estar de volta. 🙂

Apesar do pouco tempo distante, voltei bem diferente. Pode parecer meio idiota, mas apenas alguns dias podem fazer a diferença na vida da gente pelo simples fato de fazer escolhas diferentes das de sempre. E as mudanças, pelo menos para mim, foram e tem sido um grito de libertação.

Já notaram como muitos de nós abominamos, mesmo as menores, alterações em nossa rotina? Ou como ficamos ligeiramente “chocados” quando aquele “casal perfeito” da nossa convivência termina uma relação de anos? Ou quando alguém larga casa, emprego, família para conhecer o mundo com uma mochila nas costas?

mudançasÉ pessoal. Sei lá quem colocou na nossa cabeça que estabilidade é essencial para todos. Aprendi a questionar isso aos poucos e faço isso todos os dias atualmente. Talvez tenha sido porque percebi quão interessante pode ser mudar. Mudar hábitos, opiniões, gostos… Dá para crescer um monte assim.

Mudei de visual
Vou mudar de profissão
Mudei meu “ideal de vida”
Mudei a forma de enxergar a mim mesma
E estou fadada a continuar mudando. (Que bom!)

Não se deixe estagnar por medo do novo. Acho preferível arriscar-se, ainda que com a possibilidade de fracasso, do que passar toda uma vida pensando  “e se…?”. Clichê ou não, ainda acredito que é muito mais válido tentar do que arrepender-se do que não fez.

 

Ai, se eu te pego!

Por Xênia Mello*, Biscate Convidada

Atreva-se, ouse e não deixe de biscatear, deixe o medo pra depois. Não o traga nem pra essa que é inevitável, tão presente e que tantos substantivos, pronomes, adjetivos, servem para nomeá-la. Essa que já causou tanto temor e tanta coisa já foi feita por conta dela, que talvez seja a única inafastável verdade. Pra morte eu canto e danço um tango, né Raul?! Se a morte, que não podemos afastar, tantos temem, me pergunto como é produzido esse temor? Onde é que o medo nasce? Me digam que eu ponho saia curta, bonito decote, meia arrastão e um batom bem vermelho e vou lá encarar, porque eu de biscate até o medo comigo vem flertar.

medo

Hoje temos muitas variadas formas do medo. Um medo que não tem uma cara, nem endereço. Quando criança nos amedrontavam com o famoso Homem do Saco, talvez essa seja uma versão curitibana, mas não duvido que em cada cidade haja uma versão parecida. Pois bem, todo pai e toda mãe sabe que não existe Homem do Saco. Passamos a ter medo de algo que não existe, de algo sem rosto. Sobretudo, passamos a ser controlados por ele. Pais e mães controlando os corpos dos filhos e filhas através do medo. Eu lembro de pequena ter apontado para vários velhinhos pois acreditava ter descoberto O Verdadeiro, pra vergonha dos meus pais em se desculparem pela filha que os acusava injustamente, pra minha tristeza que até hoje não peguei o dito cujo.

Atualmente me parece que os tarados do busão e os voyeurs do banheiro são os Homem do Saco, na nossa versão adulta, gente grande. E ai me pergunto, será que a gente cresceu? Por que reproduzimos um medo infantil que ainda nos controla? Por que ainda procuramos esse dito homem que nunca existiu. Crescemos, mas não amadurecemos nem nos desvencilhamos da cultura do medo, do medo do outro, e também do medo de nós mesmos. Tarados, voyeurs, bandidos, homens do saco, estupradores. Não gosto dessa cultura escapista que cria monstros indeterminados. O tarado do busão é pauta destacada nos jornais versões tribunas, o voyeur do banheiro foi muito procurado na universidade, rolou até um ato, mas não foi encontrado. No busão espaços separados, muitas pessoas deixam de usar o  ônibus pois o carro ‘é mais seguro’. Na universidade controle total de quem entra e quem sai, instalam-se câmeras e até um inspetor na porta do banheiro, pra cagar agora é necessário identificação. O Medo, esse sem rosto, sorri! Pois lucra e controla.

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A foto do estuprador na capa do jornal, grande, destacada, amedrontadora. Agora o monstro tem um rosto, agora posso descrever O Medo: pobre, negro, ninguém, não tem advogado, não tem dignidade, não tem defesa. Podem os jornalistas expor e explorar a ultima gota do seu sangue, ele é monstro, ele não é humano. Porque enquanto o sensacionalismo lucra com O Medo, o monstro continua sendo a carne mais barata do mercado.  A cultura do medo determina que a todo momento estamos em estado de perigo. Não relaxe, tenha medo, esse é o imperativo! Sim, O Medo, continua controlando nossos corpos, como já fazia desde que eu era criança, ali nos anos oitenta, mas acredito que de muitos séculos prá cá. Essa cultura de criar o outro, o mostro, o desconhecido só favorece que tenhamos receio daquilo que não conhecemos. Quando na realidade o outro poderia ser um convite à ousadia, à biscatagi. Acredito que o perigo está quando o outro me causa medo, quando deveria me causar interesse, curiosidade. Porque ai eu sou controlada, o terror é instaurado, um pouco de mim em vida morre, um pouco do outro eu mato em vida. Eu desumanizo e me desumanizo.

Essa cultura de reforçar O Medo, de criar o outro, o desconhecido, não liberta, não afasta a violência. Sim mulheres são cotidianamente violentadas, abusadas, mortas, agredidas. Denunciar o medo, ou melhor murar o medo não é negar a violência. Em regra a violência contra a mulher é perpetrada pelas pessoas que mais amamos, pais, irmãos, amigos, namorados. Se queremos combater a violência, devemos combater as ameaças reais e urgentes como a cultura do estupro, a vitimização compulsória das mulheresa culpabilização da vítima. Se queremos mudança não podemos reforçar ainda mais essa cultura controladora que nos assola desde a infância. Devemos nos indignar, ocupar a cidade, as ruas, denunciar e não propagar, propagandear O Medo.

E pra não dizer que eu esqueci do poetinha, com carinho a gente canta: Atravesse a vida sem medo!

Eu não quero o medo. Eu só quero saber daqui que me liberta!

.

xênia*Xênia Mello é arretada e não tem papas na língua. Apaixonada, combate com o coração exposto. Advogada, corajosa, meiga e persistente. Não perde a oportunidade de sensualizar no feminismo, biscate burocrática, rata no Chinês, capricórnio quando teimam. Insustentavelmente leve e de mansinho.

Prefácio

#Alma Biscate
Prefácio, Cláudia

curtirTudo começou com um curtir, lá no Facebook. Lembro perfeitamente do dia em que a Luciana postou o primeiro texto por aqui. Daí, ela me disse algo como “Cláudia, para de curtir só e si joga”. Me joguei mesmo e aqui estou, feliz como nunca. Mas não foi tão fácil assim assumir (compreender se encaixa melhor, acho) essa biscatagi toda.

Tive um medinho. Aliás, um medão. Porque a palavra biscate assusta(va). Porque eu, em outros tempos, quando ainda era aquela garota que se fechava quase que totalmente para o novo, jamais aceitaria ser comparada com uma… biscate. Biscate para mim era algo ruim, algo que não poderia me trazer qualquer aprendizado. Algo do qual eu deveria manter distância. Que bom que não mantive distância daqui. E que bom que eu aprendi o que realmente tudo isso significa.

liberdade2Se eu fosse enumerar todas as experiências pelas quais passei depois que percebi a mim e aos outros como livres, não teria espaço neste texto em que tentarei ser sucinta. Mas foi muito transformador. Foi transgressor. Fez de mim uma garota muito mais forte para lutar e acreditar não apenas em minha liberdade: proporcionou a oportunidade de ver a vida com a leveza que preciso para seguir em frente. E me fez aceitar melhor e de forma mais verdadeira as inúmeras diferenças de pensamento e de escolhas que podem existir entre as pessoas.

Alma biscate hoje significa para mim o poder de se reinventar. Libertar-se das próprias convicções todos os dias. De se renovar. De transformar a si próprio e contribuir para que o mundo mude, ao menos um pouquinho. De fazer a cada dia um novo prefácio.

E que assim seja até que a minha breve vida termine, com boas lembranças e com a sensação de que tudo valeu a pena.

Um(ns) Final(is) Infeliz(es)

Quando ela o conheceu, tudo era diferente. Ela era ela e ponto. Usava aquelas roupas viçosas e coloridas, como sempre gostara. Seu perfume era marcante e sua maquiagem brilhava tanto quanto seu sorriso. Havia sim quem achava tudo aquilo uma cafonice sem precedentes, mas ela não ligava. Como disse, ela era ELA. E ponto. E se orgulhava muito disso.

Pensando ela que havia encontrado a “sua metade”, começou a namorá-lo. No princípio, tudo era mágico. Declarações apaixonadas, flores, presentes. Juras infinitas de amor. Aos olhos de todo mundo que conheceu aquele casal, parecia que aquele era um relacionamento perfeito. Parecia que ele a amava mais que a própria vida. Parecia tanta coisa bonita que acabou ficando bem difícil entender o que na verdade se passava.

Tudo começou com algumas pequenas censuras. Sabe aquele ciúme bem de leve que em algum momento todos enxergavam como se fosse “bobagem de casal”? Pois é. E de tanto todos acharem aquilo normal – ela inclusa – acabaram por não perceber o que aquilo realmente representava.

– Com essa saia, você não sai de casa comigo!

– Mas, quando você me conheceu, eu usava justamente essa saia! Por que isso agora?

– Porque agora você é minha mulher. Minha! E mulher minha não se veste feito puta. E mais: não quero que converse ou ande junto com aquela fulaninha lá. Não a vejo como uma boa influência para você.

Silêncio. Obediência e troca de roupa. Tristeza, que foi rapidamente relevada. Afinal, ela o amava e achava que no fundo, tinha razão. Agora, ela era comprometida e tinha que se policiar mais em relação às suas atitudes. Mesmo que boa parte de seus dias tenha se transformado num verdadeiro inferno.

E ela, sempre com a culpa rondando seus pensamentos, foi deixando de ser quem era. Perdeu seu brilho, seu sorriso. Não fazia mais o que gostava, afastou-se dos amigos e da família. Cobria seu corpo, como se sentisse vergonha e medo dele ao mesmo tempo. E ainda assim, achava que estava tudo bem. Que era assim que tinha de ser e que o orgulho que um dia tanto teve de ser como era se transformou em dor.

A partir daí, foi um passo para que toda essa violência passasse da moral para a física. Ela começou a apanhar por qualquer motivo, bastava contrariá-lo. Com medo de denunciar e de perder a vida ou de colocar a vida de sua família em risco, calou-se. E só parou de sofrer quando foi morta. Morta por aquele que mais amou. Por aquele que deveria (ele prometeu isso!) proporcionar a ela felicidade.

Finais tristes como este infelizmente não são exceções. Ainda hoje, mulheres têm sua existência ceifada todos os dias. A violência contra a mulher não é um mero problema de casal e deve ser coibida efetivamente. Afinal, “ELA” poderia ser eu, você, uma amiga, sua mãe, ou alguém que você goste muito. Esta poderia ser a história de qualquer uma de nós, biscates ou não. Basta ter nascido mulher.

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