Dois anos

Ainda não falei sobre esses últimos dois anos sem postar no Biscate Social Club, essa semana o Facebook me lembrou de coisas importantes nesses últimos dois anos, mudanças que fizeram de mim quem sou agora, em dezembro de 2017.

#poledancenation #polelover

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Em 2015, em novembro, decidi ir fazer uma aula experimental de pole dance, me apaixonei, mesmo com todas as dificuldades que passei e passo pra vencer minha ansiedade em aprender os movimentos, pra vencer minhas fraquezas físicas e encurtamentos musculares devido a uma péssima relação com a musculação e com o padrão de corpo feminino, o Pole Dance me fez uma mulher mais empoderada, mais apaixonada pelo meu corpo, mais ativa, menos preocupada em emagrecer e me adaptar ao padrão de beleza que me é imposto desde a adolescência.

#poledance #tbt #coreografia #dançasensual

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Conhecer o Pole Dance, o Chair Dance e toda a sensualidade desses estilos me mostraram que beleza e sensualidade existe em qualquer pessoa, não há padrão pra isso! E não, não estou interessada nas acrobacias, eu curto mesmo é dançar, sensualizar, desconstruir esse padrão de que belo no pole é fazer movimentos, bonito é se sentir sensual, gostosa, arrasante, não pra agradar alguém, apenas pra se agradar e se amar. Sem nenhuma pressão, apenas por amor próprio. Viver dentro de um estúdio de Pole me fez amar meu corpo e pensar em tentar ser modelo.

Muito amor próprio envolvido! #modeloeatriz #plussize #amorpróprio #tolinda

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Foi o próximo passo! O passo certo, existe um nicho (meio controverso e que eu critico muito quando noto certos preconceitos) no mundo da moda em que me encaixo, o Plus Size, me vi descoberta por uma agência, fiz alguns desfiles, fiquei em segundo lugar em um concurso Plus Size, acompanhei um processo lindo de uma coleção de roupa de praia feita apenas pra mulheres gordas e baseada nas Pinups, uma imagem muito pouco compreendida por muitas mulheres. A sensualidade das Pinups, a beleza nas dobrinhas, nas gordurinhas, as lingeries e a liberdade sexual delas se encaixa muito bem com minha nova fase… Pole Dance, assumir e amar meu próprio corpo, me conhecer além do que me dizem que devo ser.

De sábado #poledancer #polelover

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Fechei o ano de 2016 com um desfile onde usei dois modelos dessa coleção, no meio daquele ano fiz uma sessão de fotos com um dos primeiros modelos da coleção, tenho dois modelos até hoje, um deles usei numa coreografia de pole dance no final do ano de 2016. Me encontrei e comecei 2017 fazendo fotos sensuais, foram três sessões com duas fotógrafas diferentes e várias selfies minhas, me amando, amando meu corpo, amando a minha imagem, enfrentando o fato de que não ser padrão não me faz feia, que o que nos dizem é mentira. Somos todas lindas, cada uma com suas características!

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Também foi no início de 2017 que dei início ao fim de uma relação que me prendia, me segurava, me sufocava, um relacionamento conturbado e traumatizante, eu responsabilizo toda essa mudança na minha auto imagem e na minha auto estima, se não fosse tudo isso, talvez ainda fosse parte daquele relacionamento, que ouvi de tantas pessoas que era abusivo, que me fazia mal, que me machucava e me tirava todo o amor próprio. Em abril de 2018, faz um ano que saí por completo dessa relação. Agora estou aprendendo a me amar, a ser feliz, a me conhecer novamente, a me ver sem depender de uma muleta de um relacionamento falido.

#gordaegstosa #plussize #loveyoursalf #photoshoot

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Esse mês de dezembro veio com várias alegrias, me encontrar novamente em ativismos, militâncias, ser atuante em tudo que acredito, o ano de 2017 me fez ser eu, ser ativa, ter voz, ter fala, protagonizar minha própria vida, mas foi um processo de 2 anos de muitas mudanças. Espero ansiosamente pelo ano de 2018 e tudo de novo e incrível que ele possa me trazer.

#selflove #bald #plussize

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Todas Essas Coisas Sem Nome – 2o Capítulo

Esse é o segundo capítulo do livro de Raquel Stanick intitulado Todas Essas Coisas sem Nome. Sua primeira, única e artesanal edição encontra-se esgotada.

Os capítulos seguintes serão publicados quinzenalmente aqui no Biscate Social Club. As ilustrações utilizadas nos posts serão da mesma autora, vindas da série Ceci n’est pas un blog.

Boa leitura!

17

Entrei no chuveiro gelado. Esfreguei com força a boceta. Penteei os cabelos com raiva. Nunca pensei que no inferno era tão frio.

A estação continua. Ainda não choveu o suficiente.

Enquanto eu observo os galhos secos das árvores lá fora, lembro-me das veias nas mãos da minha avó. Eu fumo enquanto penso na minha avó. Se ela gostaria de você…

Olho minhas mãos com extrema atenção enquanto levo o vinho aos lábios e acendo um cigarro no outro.

Tenho andado aterrorizada com mãos que tremem e esfregam.

Sou apenas mais uma boceta no mundo. Num corpo que sente, pensa, e acha tudo tão ridículo. Meu coração está entre as pernas, você me contou e eu só queria o desejo de me tocar e enfiar-me dedos, mas é inverno, querido, é inverno.

Só consigo lembrar é da minha avó que já morreu.

E tornar a encher o cálice de mais vinho.

(link pro prefácio e primeiro capítulo)

Quem vem?

Essa quinzena, lembramos o dia internacional da mulher do nosso jeitinho biscate: luta, celebração e inquietação, tudo junto, arfante e misturado…

 #nãomedeemflores #diainternacionaldamulher

Por Renata Côrrea, Biscate Convidada

Mais um dia oito de março passou. O meu mais pessimista e mau humorado dia das mulheres. Não quero parabéns por ser mulher. Não me parabenizem.

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Não gosto de ser mulher guerreira ou mulher lutadora. Esses são só adjetivos que mostram como nós temos que combater um mundo violento e machista.

Não me dêem flores. Elas significariam muito se fossem uma homenagem para aquelas que o machismo matou e continua matando. Mas não. São só símbolo da fragilidade que se atribui a nós.

Não tentem me vender cosméticos, roupas, seguros, aparelhos domésticos usando esse dia como pretexto. Isso só reforça o quanto o patriarcado acredita na nossa função decorativa e consumista motora do capitalismo. Sua publicidade que usa adolescentes brancas e anoréxicas não me interessa. É só mais uma forma de exploração.

Não me atribuam adjetivos de docilidade, não generalizem, não comecem uma frase com “as mulheres são”. As mulheres não são. Não são todas iguais. Não são o equilíbrio do planeta. Não são o esteio do lar. No máximo em sua totalidade as mulheres são, em maior ou menor grau, violadas, são subestimadas, são achatadas – no mercado de trabalho, nas relações amorosas, nos seus partos, no transporte público, na rua.

Então não. Eu não estou aceitando parabéns. Nem felicitações. Mas aceito de braços abertos quem deseja mudar essa realidade. Quem vem?

renata corrêaRenata Corrêa é tijucana no mundo, fotógrafa sem câmera, desenhista desistente, roterista praticante e feminista. Já fez livro pela internet, casou pela internet, fez amigos pela internet, compras pela internet, mas agora tá preferindo viver um pouquinho mais offline. Saiba mais dela no seu blog ou no seu tuíter @letrapreta.

Umbigada e sal grosso

 

Dois mil e quinze anda a merecer carinhos. Sim, o ano. O ano todo, repleto dele. Disse uma de nós que estamos a carecer de sal grosso neste ano ímpar. O tal banho de: Para espantar agouros, olhados ruins, presságios, adágios de costumes e tralhas que carregamos, mesmo sem querer, ombros e ombros. Talvez seja verdade. Talvez…

Mas há carinhos ali nas esquinas, saudades e desejos. Num texto recente aqui no clube lembramos de nossa história e das bonitezas dela. Sim, tem lá uns percalços, uns escorregas. Mas tem muito mais esfrega, banho, amor, saliva, massagem, abraço, conforto, pertencer. Talvez o sal grosso todo.

Porque não tem sido razoável o mau humor lá fora. Como gente mimada e birrenta, o tal século vinte e uno se transformou numa ode aos próprios umbigos, estamos num mundo onde a regra é o do “não brinco mais” dos parquinhos infantis: as batalhas por aí tem sido travadas como fúrias sem fim, pontes são destroçadas como quem pisa em baratas – sim, baratas, sabe nojo de barata que faz até o budista mais zen sair para matar as feiosas? – e há um distanciamento cínico da elegância no trato. A rede social, tão bela pra algumas cousas, é um portal para o inferno do dane-se o que o outro pensa.

Dois mil e quinze é um pouco a adolescência chata deste século vinte e um. Repleta de neuroses, problemas mal cuidados, debates encalhados, a graninha firme no despropósito dos futuros incertos. Nós, as biscates – e não tenho problema algum em me definir assim, com artigo feminino – estamos aqui a convidar as pessoas para dançarmos, em bailinhos, rostos e corpos grudados, pois entendemos que cada vez mais são esses chameguinhos que podem tirar este século da modorra. Porque se a marca marcada deste dois mil e quinze é o umbigo, a resistência só pode ser expressar desejos, em gotas, suores, labaredas, gozos infindos. Um umbiguinho bem trabalhado, com língua, óleo para besunte, porra ou só um carinho é capaz de devaneios muito mais bonitos. Sal grosso, do bom pra churrascos…

o-umbigo

Vem com a gente, vem.

A gente aqui do Biscate

Biscates

Biscates. Foto de Toni Miotto

É isso, a gente aqui do Biscate. Eu de vez em quando faço essas paradas, pra comentar e pra me alegrar. O Biscate surgiu assim, quase como uma brincadeira, uma resposta da Niara e da Luciana a uma frase da Martha Medeiros que dizia “mais vale uma mulher incrível do que uma coleção de biscates”. Causou revolta essa afirmação, como pode se ver aqui. Como assim, uma coleção? Como assim, separar as mulheres desse jeito, com uma frase que até minha avó acharia antiquada? Como assim, biscates não podem ser mulheres incríveis? Pois é. O Biscate Social Club é uma resposta, um grito de revolta.

E o tempo passou, as biscates foram se chegando, se agregando, se aproximando. Se identificando. Dizendo “eu também sou”. “Eu também faço parte”. Que mané mulher incrível X biscate. Lavou tá novo, dou pra quem quiser, não dou quando não quiser, e isso não diz nada de mim como mulher. Não dou régua a homem nenhum para me medir.

Aliás, os homens. Porque tem as biscas e os biscos, né. Tem homem também nesse nosso clube, permanente ou convidado, sambando com a gente, dando seu ponto de vista, fazendo contrapontos. Biscateando junto. Sem se preocupar com réguas ou preconceitos antiquados.

O Biscate balança, o Biscate já sobreviveu a chuvas e temporais, a Niara entendeu que era hora de partir para novos caminhos, a gente já pensou até em fechar a bagaça, mas… tamos aqui. Biscateando todo dia. Encontrando leitores, trocando ideias, fazendo caminho. Aprendendo, se misturando, fazendo festa e virando pelo avesso. Viralateando.

Esse texto é isso, uma vontade de comemorar a existência desse espaço de acolhimento e de luta, de reafirmar pertencimento, de contar que a gente ainda tem tanta história pela frente. Que a gente já tem alguma história pra trás. Que esse bloguinho transformou a gente, com essa identidade-biscate que diz tanta coisa.

O que me leva a pensar que vale um agradecimento à Martha Medeiros: obrigada, Martha, pois sem sua frase nonsense talvez o Biscate Social Club nunca tivesse existido. E a gente é que ia perder com isso.
Valeu, Martha!

Um corpo novo, um sexo novo

Chegou de mansinho no bar e ficou de pé ao meu lado. Tinha uma cadeira ali perto, mandei sentar. Sentou. Gosto assim: obediente. Conversamos. Horas, eu acho. Te beijei. Ansiava aquela boca, boca nova, gosto novo, sexo diferente, inusitado, nada familiar. Estava repudiando tudo que eu já soubesse na memória.

Bebemos. Muito. Eu sei, moça de família não faz isso, mas nunca fui santa né? Rimos dos nossos sotaques. Ah, como é bom descobrir, ler o outro. Reparei no seu braço. Uns pelos espessos sobre uma pele tão branca. Uma barba ainda por fazer. Seus lábios grossos, me sugando, passando pelo meu pescoço suado, sua mão já entre as minhas pernas…

Dei um ultimato: vamos embora! Pra sua casa! Entrei me sentindo dona daquele lugar em que nunca pisei, que meus olhos viam pela primeira – e última – vez. Quando cheguei ao quarto, já estava com a calcinha dentro da bolsa. Já cheguei de pernas e vida aberta pra você. Escolhi você para estar nessa página das minhas histórias sexuais. Você me lembrava alguém que eu tanto quis esquecer. E era ao mesmo tempo tão parecido e tão diferente . Não sei se meu coração palpitava por ti ou por ele. Acho que por ambos.

Seu pau enorme. Nunca imaginei que portasse um assim. Não me entenda mal, mas é que com aquela carinha de menino meio tímido não dava pra saber o que eu ia encontrar entre suas pernas. Grata surpresa que chupei com vontade. Em retribuição, você me fez gozar na sua boca.

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Fiquei de quatro. Do jeito que gosto, mas que você ainda não sabia e nem poderia. Pedi: me bate. E você deu um tapa tão leve que comecei a rir. Você se desculpou: “não sei fazer isso”. Ah, as semelhanças. Mas eu estava afim de te ensinar como gosto de ser comida. E você estava ávido por aprender.

Trepamos. Muito. Não sabia se o gozo era per se ou se era pela delícia de um sexo novo, um corpo novo, dos caminhos desconhecidos. Os descaminhos. Gozei pela delícia do sexo que fizemos e pela alegria de trepar com um completo desconhecido. Fui embora no outro dia de fininho. Não peguei seu telefone, e-mail, nada. Nem o sobrenome perguntei.

Construir mosaicos

One chance
To keep it together when
Things fall apart
One sign
To make us believe it’s true
What do you see,
Where do we go?
One sign: How do we grow?
By letting your lifelines show
What if we do, what now?
What do you say?
How do I know?
Don’t let your lifeline go

Lifelines – A-Ha

Sempre fui do tipo que vivia remoendo o passado, as mágoas, as culpas. Não sou muito acostumada a me perdoar ou a esquecer. Quando erro, fico remoendo a culpa por dias, meses e anos, as vezes, a pessoa com quem errei já cansou de me perdoar e eu continuo me martirizando. E “se elx perdeu a confiança em mim?”, “será que eu mereço sua/seu amizade/amor depois do que fiz?!”. Essa é a Sara, aquela que perdoa qualquer pessoa, mas não se perdoa!Mosaico-de-Azulejos-Passo-a-Passo-3

Essa Sara está tentando mudar, parar de me responsabilizar por tudo que acontece, não entender fins de relacionamentos e de amizades, me sentir destruída e culpada por qualquer erro que cometo. Passei muito tempo catando cacos quebrados e tentando reconstruir exatamente o que existia antes, sem compreender que nada se mantém intacto. As coisas são mutáveis, os cacos de um relacionamento pode virar lixo ou pode virar um mosaico. Posso, sozinha ou acompanhada da pessoa do relacionamento, catar meus (ou nossos) cacos e tentar construir algo novo, tão bonito quanto, ou mais bonito ainda.

Sou apaixonada por mosaicos, acho lindo como restos de azulejos poderiam virar algo tão belo, eram restos, rebarbas, quebras que viravam pedaços de cor, uma nova forma colorida e desenhada. Quero levar isso para a minha vida, transformar a dor e os finais em novos risos, começos, choros de emoção e, porque não, continuações.untitled

Quero ser menos rígida comigo mesma, quero me perdoar do mesmo jeito que perdoo amigxs, familiares e companheirxs. Não quero viver carregando peso demais em minhas costas, faz mal a coluna. Quero poder ficar em paz, compreender que, mesmo quando algo não dá certo ou quando eu faço algo que magoa alguém, eu posso ver que eu fiz o possível e me perdoar. Não porque estou certa, mas porque errar faz parte e meus erros também constroem a mulher que sou e que, pra ser feliz, não preciso ser infalível, só preciso viver.

Viver é sofrer, chorar, quebrar amizades e reconstruí-las novamente, jogar amores no chão e montar mosaicos com seus cacos, é rir, é me permitir e permitir axs outrxs o erro e compreender que o erro, muitas vezes é o melhor dos acertos!

Talvez se nunca mais tentar

Viver o cara da TV

Que vence a briga sem suar

E ganha aplausos sem querer

Faz parte desse jogo

Dizer ao mundo todo

Que só conhece o seu quinhão ruim

É simples desse jeito

Quando se encolhe o peito

E finge não haver competição

É a solução de quem não quer

Perder aquilo que já tem

E fecha a mão pro que há de vir

Vivendo e crescendo

Vejo muitos posts de amigos e amigas explicando suas origens e como isso se relaciona com suas escolhas atuais e quem são hoje em dia e toda vez penso em falar um pouco de mim e de onde vim mas sempre me breco num ponto confuso que é quem sou eu hoje.

crescendo

Sou filha de pais ateus, de esquerda e de classe média plano piloto brasiliense. Estudei nas melhores escolas que eles puderam pagar (meu pai nunca teve carro zero, mas sempre tivemos boas escolas e muitos livros) e frequentei  um clube de elite (clube é a praia de Brasília). Escolhi meu curso – Direito – pra fazer o que todo brasiliense faz: concurso público e ter uma vida estável.

Eu malhava, me bronzeava, comprava ( muito) as roupas das marcas certas, já fui loira e queria ser procuradora. Mas aí veio uma gravidez e tudo mudou. Não fiz a pós e o mestrado que sonhava fazer, não fiz concurso para procurador, mas tenho dois filhos bacanas e lindos. Fui trabalhar em um lugar com muita gente legal e com origens diferente da minha – a maioria trabalhou para pagar a faculdade e não ganhou o primeiro carro de papai e mamãe, como eu ganhei. Gostavam de coisas que eu não conhecia e aprendi a curtir. Aprendi demais lá.

Sempre me defini como feminista, influência do Malu Mulher (juro) e de Simone de Beauvoir e Rose Marie Muraro, que li aos 20 anos. Mas conheci o ativismo feminista na internet e nossa… como mudei!  Menos fútil, menos materialista, menos preocupada com o que pensam de mim, menos insegura. E mais cheia de amigas e amigos que nunca.

Mas parte de mim ainda é a menina dondoca e patricinha que só queria ter sucesso profissional, ser loira e linda e comprar coisas bonitas. Aí me pego pensando em comprar e gastar e ser algo para alguém admirar e o meu outro eu diz: ACORDA! Você quer ser isso por você mesma ou pelo olhar dos outros? E sempre é a tal da aprovação. Aí eu acordo do sonho-pesadelo e dou a volta por cima de mim mesma me relembrando que hoje o ser importa mais que o ter, que me sinto mais completa assim, que quem me ama me ama como sou. Claro que isso tudo a base de muito diálogo interno e muita terapia (recomendo terapia, terapia salva) e quase aos 43 tenho que vir me reformulando e reconhecendo a mim mesma permanentemente. Nunca pensei que chegaria aos 40 e poucos ainda insegura, mas de outras formas, acho que esse negócio de crescer não para nunca né?

 

É o meu corpo. E eu o celebro.

Por Vanessa Rodrigues, Biscate Convidada

No começo do ano posei pra Evelyn Queiroz/Negahamburguer. Para quem não conhece o trabalho dela, vale uma navegada aqui. Nem foi algo planejado, foi bem no susto, pra falar a verdade. E um posar com plateia e a possibilidade de milhares de pessoas assistindo. Mas, já chego aí.

Antes disso, já tinha posado prum ensaio coletivo de nus, com fotos que acabaram expostas numa instalação no fim do ano passado, com o tema: “Beleza real”.

Nessa segunda vez foi assim: duas equipes de reportagem foram na Casa de Lua, ONG Feminista que estamos consolidando e onde a Nega tem estúdio. A primeira equipe filmou a Evelyn fazendo uma ilustração. A segunda se inspirou e quis fazer igual. Mas, a ideia era não repetir a modelo, que até já tinha ido embora. Aliás, quando falo “modelo” é força de expressão, ne, vocês sabem. Não havia uma modelo. Éramos mulheres comuns posando para uma artista.

A Evelyn ficou me convidando-provocando durante toda a tarde, mas eu estava meio tímida. Apesar de já ter vivido a experiência de posar antes, tinha sido pra fotos. Com TV pelo meio, nunca. Paniquei. Na hora H, no entanto, estava eu sentada no futon da sala quando a Nega chegou, me estendeu a mão e disse: “Vamos?!”

 Olhei pra aquela mulher jovem, tão talentosa, tão linda, tão sensível e amorosa, e fui.

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Ilustração de Negahamburguer

Subi a escada para o estúdio bem saltitante, tomada pela adrenalina. Nem é que eu tenha alguma questão com tirar a roupa. Até que minha relação com a nudez sempre foi tranquila e só melhora. Meu medinho era de me saber na TV. Meu problema era a câmera. Posar, mesmo com roupa, em foto ou vídeo, pode ser um acontecimento pra mim. Porque, a despeito de me olhar no espelho e, hoje em dia, me reconhecer com prazer e alegria, a visão que tenho sobre mim num registro de imagem pode ser bastante distorcida. Ou não corresponder ao que eu presumo ou imagino deveria ser.

Daí que vocês podem imaginar o quão gigantescas essas experiências representaram pra mim.

 De repente, me vi numa sala com a Evelyn, a jornalista, o iluminador e o câmera. Eu ri. E, ainda na adrenalina, fui me despindo pra aquele bando de gente desconhecida, confiando no profissionalismo de geral e no controle da única coisa que de fato me cabia: meu corpo. Admito que apelei prum malabarismo na hora de tirar o sutiã. Além disso, mantive a calcinha e a pose acabou sendo de bruços no puff. Até porque, não dava pra chocar a família brasileira.

Mas, é que entre o tirar a roupa e o posar tem o momento de andar seminua pelo recinto. Algumas vezes. E, principalmente, tinha a câmera, que iria registrar e, eventualmente, exibir parte daquilo na TV! Que situação. Ou não. Porque, no final, foi mesmo isso. Um contundente “ou não.” Tirei a roupa alegremente, careta (nem vinho rolou, vejam bem…), porque eu quis.

Estava eu, com meu corpo sem padrão – mas, com certeza, não no padrão assinalado como o “ideal”-, de mulher com mais de 40, que pariu dois filhos, nada atlética e com as pernas sem depilar! Era isso tudo. Minha história e eu. Juntas. Indissociáveis.

 E estava feliz. Tranquila? Não, necessariamente. Mas, feliz.

E não é que eu tenha tentado esquecer da câmera. Nem tinha como. Ela existia, enorme, invasiva, onipresente, lembrando-me do que viria. Mas, naquele momento, eu.estava.feliz! Na hora não me veio um pensamento racional ou elaborado “uau, como eu sou empoderada!” Foi mais um “que delícia esse negócio!” Era tenso e sexy, ao mesmo tempo. O “dane-se!” retumbou na minha cabeça. Bom, nem preciso dizer que a ilustra da Evelyn foi pura delicadeza, ne?

Conversei com a jornalista sobre padrões de beleza, tirar a roupa como ação libertária, posar… e também contei que passei a vida em dietas insanas até sentir que eu não merecia isso e começar um processo de amor e reencontro com a minha auto estima. Mas, reconhecia que a pressão é draconiana, que nos abate e que é difícil escapar muitas vezes.

E que ainda me sinto enredada, por momentos fugindo das câmeras, escondida atrás de alguém, como um espectro, sem sequer existir nos registros, mesmo estando lá. É um caminho. As vezes, a gente retrocede 3 casinhas das 5 que avançou. Mas, vai indo, ne? Participar dessas três experiências – a exposição, me deixar ilustrar e a matéria – e falar disso tão longamente como o faço agora também são parte da trilha.

Finalmente, claro que a reportagem na TV me deixou aflita e eu fiquei semanas esperando, com medo dos ângulos, dos closes. E quando foi ao ar, acabei nem badalando muito, mas por timidez e falsa modéstia que por um não gostar. Pra falar a verdade, pra quem eu mostrei até disse, na absoluta e livre sem-vergonhice: “Então. Eu, divando. Lide com isso!”

 Disse isso pra mim.

fotoperfilfor*Vanessa Rodrigues, jornalista, feminista, co-fundadora da Casa de Lua e gostosa. Escreve no Brasil Post e pode ser encontrada noFacebook e e Twitter (@vanerodrigues).

Para a Eterna Biscate, Amy

Por Tiago Costa

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 A dor de uma paixão é uma tragédia.

Corpo e vida desfiguradas. A dependência do outro ou de algo que tome o lugar desse outro na vida. A forma como isso atinge implacavelmente a auto-estima.

Na cabeça de alguns, essa tragédia vira comédia. Na verdade, a dor do outro, de uma forma ou de outra, é uma tragédia que vira comédia. E se tem uma vertente passional, viramos espectadores fomigerados de uma novela da vida real. Só que sem final feliz.

E assim assistimos a vida da biscate Amy Winehouse. Jovem dona de uma voz poderosa. Daquela que faz o coração tremer. Mas para além da própria voz, os refletores estiveram mais interessados em sua vida privada. Na sua autodestruição. No como ela se tornou ícone de dependência, de vexame, de autodestruição, de fraqueza. Essa foi a parte em que programas de televisão, tablóides e memes deram conta de transformar a dor tão bela e sinceramente cantada (a parte em que Amy tornava pública a sua dor) em piada. Já não havia espaço para publicizar a beleza de sua voz (única, diga-se de passagem), o interesse estava na sua imagem, melhor dizendo, na transfiguração de sua imagem.

As pessoas compravam seus cds, iam a seus shows, cantavam, adotavam seu estilo, acompanhavam seu drama. Todas a consumiam. Mas quem entendia o que ela gritava dentro dela mesma?

Quando nos apaixonamos, entramos num exercício de calibração do coração. Costuma-se a levar os sentimentos aos seus extremos. Nesse exercício, ou descobrimos (não sem custos) qual a medida certa do sentimento a ser desprendido, ou não descobrimos. E quando não descobrimos tudo é excesso. E quando tudo é excesso, cresce a dependência e adoecemos.

De certo, tem que haver um esforço individual para superar a dependência emocional e a baixa autoestima. Nem mesmo as biscates, como a Amy, estão livres disso. Mas o esforço é ainda maior quando a pessoa pela qual mantemos dependência identifica essa fraqueza e se aproveita disso. Não existe um único Blake no mundo. Mais esforço ainda, quando em tudo que se fala a respeito de você, está associado ao fracasso. As possibilidades de reabilitação são implacavelmente minadas.

E o desfecho dessa história já é conhecida. A morte. A morte de um jeito triste. Sozinha, como pareceu sempre ser.

Para alguns, fica a lembrança da infeliz piada que a pessoa se tornou. É triste ainda se deparar com isso ainda hoje. Para mim, fica a saudade de alguém que não conheci pessoalmente, mas que permiti entrar na minha intimidade. E permito que apenas a beleza dela ocupe esse espaço. Choro, ainda hoje, pela presença e pela ausência de Amy.

 

tiagoTiago Costa, meio termo, semitons, adaptável e qualquer coisa a mais que seja capaz de movimentar o mundo com graça! Quer conhecê-lo melhor? Espia seu blog ou no seu tuíter @FTiagoCosta.

 

Para voltar a ter medo

Por Andrea Moraes*, Biscate Convidada

Ninguém quer sentir medo. O medo é desses sentimentos desprezados, desqualificados. Ser medroso é um xingamento. O medo, já dizia um daqueles moços que inventou o “Contrato Social”, ou uma de suas versões, é o que faz o Homem depositar tudo o que tem na esperança de ser vigiado por Outro. Ele pode paralisar, destrói silenciosamente qualquer aposta de futuro. Definitivamente, o medo não é boa companhia. O medo vem em muitas embalagens, grandes e pequenas, de formas e pesos diferentes. Mas, não importa muito como venha, é sempre ele, onipresente, avassalador.

Quem não se lembra das historinhas infantis onde o medo é ingrediente fundamental? Tem até a versão do Chico Buarque para o tema: Chapeuzinho Amarelo, amarela de medo! Além das historietas mais moderninhas que querem fazer as crianças “aprenderem a refletir sobre… blá-blá-blá”. Na adolescência tinha Stephen King, o máximo dos máximos, tudo de bom. E aquelas tardes no cinema gritando de horror, beijando loucamente e deixando a mão dele deslizar e apertar enquanto se vivia o susto e o êxtase. Ai, o medo, como era bom!

Em algum momento da minha vida eu parei de sentir medo. Ele simplesmente me abandonou por um longo período. Não senti falta. Na verdade, eu não me dei conta de que a previsibilidade, as certezas, aquele gosto de rotina só existiam porque ele tinha ido embora. Nada contra esse mundo de relojoaria suíça, eu gosto dele assim. Pés no chão, coração tranqüilo. Uma pessoa pode viver assim por um longo tempo. Para alguns, poder viver assim é tudo o que se pede. Mas, eu confesso que sinto falta de ter medo. Sinto falta da potência que ele despertava em mim.

O bom do medo é que ele se instala sem aviso. O medo vem pra bagunçar o coreto. Aguça os sentidos, traz vertigens, a fantasia. O absurdo vira seu vizinho e estão abertas as portas pra tudo e qualquer coisa. O medo, se vivido em todo seu esplendor, é uma força criativa, faz o impossível. Sentir medo, meus amigos, pode ser libertador. Mas, para isso, há que abraçá-lo sem peias, sem pudor. Entregar-se ao medo sem resistência é o que faz dele o melhor sentimento do mundo. O medo não se combate, se acolhe. Apontar para o medo, mostrar que ele está ali respirando ofegante ao seu lado, animal colado na sua pele. O medo que é, antes de tudo, cria da sua costela e não algo que vem de fora, do outro. Não! O medo está todo ali em você, é sua obra mais espetacular, o testemunho da sua vida. O medo é o seu filho torto, e não aceitá-lo é a receita para alimentar o que ele tem de menos encantador: a atrofia. Acolher o medo é o que ainda nos falta pra viver melhor.

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AndreaBiscate

*Andrea Moraes [@M5Andrea] é carioca, pisciana, tem 43 anos, estudou antropologia e atualmente é professora universitária. Gênero e feminismo são temas de seu interesse constante.

 

Amar

Não existe saudade mais cortante
Que a de um grande amor ausente
Dura feito um diamante
Corta a ilusão da gente…
(Zé Ramalho)

A vida é curiosa, passo tanto tempo tentando entender como funcionam os sentimentos, quando na verdade, só preciso sentir. Eles não são para se racionalizar, pelo menos, não pra mim.

Estou em casa!

Estou em casa!

Essa sexta e esse sábado que passaram, me dei conta do que é ser puro sentimento, sem racionalidade, um simples passeio ao centro do Rio de Janeiro, encontrar pessoas que me marcaram num passado distante e voltar a um local que, até hoje, enxergo como minha casa. Esses momentos me fizeram ver que o tempo não apaga sentimentos, eles ficam latentes, esquecidos no cantinho do meu coração, até a pessoa ou um local reaparecer, aí tudo volta com força!

15 anos depois! (parte da) Turma de 1999 :)

15 anos depois! (parte da) Turma de 1999 :)

Amar é tão simples, é tão fácil e é tão surpreendente. Eu me surpreendo com os meus sentimentos todos os dias. Me surpreendo com como posso amar tanto, num tamanho sem fim, às vezes, um amor que dói, às vezes, um amor que cura. Dói quando vemos o sofrimento de quem amamos, sem poder fazer nada para ajudar. Cura minhas tristezas quando vejo minhxs amadxs felizes.

Nostalgia e lágrimas! Um pedaço da minha infância do lado de fora da janela do ônibus!

Nostalgia e lágrimas! Um pedaço da minha infância do lado de fora da janela do ônibus!

Tem amor que me surpreende, recebo uma notícia, a pessoa cheia de dedos, achando que pode me magoar, me conta algo que só faz amar mais e se sentir orgulhosa por amar essa pessoa. Pessoas que nem esperava compreensão, me auxiliando quando mais preciso! Amigxs antigxs voltando para a minha vida com toda força e importância.

Sou feita desses sentimentos, amar é o que faz de mim tudo o que sou, da cabeça aos pés, sou puro amor.

How I wish
How I wish you were here
We’re just two lost souls
Swimming in a fish bowl
Year after year
Running over the same old ground
What have we found?
The same old fears
Wish you were here
(Pink Floyd)

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