A Outra Pessoa

Por Adriana Torres*, Biscate Convidada

Hoje, por uma triste coincidência do destino, uma amiga me procurou no inbox do facebook para pedir ajuda. Não, ela não queria saber sobre movimentos políticos nem tão pouco entender de direitos humanos. Ela queria ajuda para montar um plano de vingança contra a “vadia” que está com o ex dela. =(

vadiasoueu

A primeira coisa que me passou na minha cabeça foi que essa amiga não lê quase nada do que posto. Eu, que fui durante três longos anos uma das articuladoras da Marcha das Vadias BH. Eu, que sou bisca convidada de quando em vez nesse cantinho delícia aqui. Eu, que falo quase que diariamente sobre o não julgamento da mulher e do direito ao próprio corpo. Eu, que sou uma vadia-bisca-militante com muito orgulho, com muito amor!

(pausa para um suspiro de tristeza)

Agora senta aí, pega o café que lá vem história.

Quando eu tinha 14 anos (óia a foto abaixo pra verem como eu era fofa), me apaixonei platonicamente por um cantor de uma banda de MPB que tocava em um bar perto da minha casa (eu e provavelmente 90% das meninas nessa idade fazem algo parecido). Nunca cheguei perto dele, bastava sentar em frente ao palco e imaginar que a música que ele tocava era pra mim: “Menina do anel de lua e estrela….” <3

eu14anos

Um belo dia o vejo abraçado com uma mulher. E, de boca aberta, finalmente noto a aliança no dedo direito. Foi um choque de realidade que, claro, para uma sentimental como eu, me deixou chorando uma semana. Nunca mais quis voltar naquele bar. Mas nunca esqueci seu nome. Seu rosto. E a nova mania de olhar para a mão de todos aqueles prováveis candidatos a serem meu primeiro amor.

Depois disso, sabe-se lá a razão, passei anos na minha vida encontrando apenas homens comprometidos. Namorados, noivos, casados, enrolados. Fugia de todos, afinal, mulher direita não faz isso, né?

Com dezoito anos de idade, ainda sem ter tido um namorado fixo na minha vida que passasse dos dois meses de convivência, conheci meu primeiro amor. Pelo menos o primeiro não platônico! \o/

Cantor também. Dessa vez, música sertaneja e não MPB (me julguem). No dia que nos conhecemos estava na casa de shows com mãe, tia, irmã e todas torcendo pela nova paixonite. Nos conhecemos, dançamos, beijamos… e ele me convidou para voltar na próxima semana.

“É o amooooor!” (Su, aká o brega na vida real!)

Na próxima semana lá estava eu, CLARO. E, quando atrevidamente perguntei se ele queria namorar comigo (já estava impaciente com essa história de que ele que tinha que pedir, coisas de Adriana), ele disse que gostaria muito, mas não poderia, pois era casado.

Mais uma semana chorando. Mais uma semana pensando em como a vida era cruel comigo. Mas, dessa vez, resolvi ligar um foda-se bem dado pra o meu próprio moralismo e seguir em frente com aquela história maluca.

Não vou dar detalhes dessa página da minha vida, mas só dizer que foi com ele que transei pela primeira vez. Foi pra ele que falei eu te amo pela primeira vez, mesmo sem ter a certeza se amava realmente. E foi com ele que me senti pela primeira vez namorando. Como nos contos de fada (bem, um pouco mais apimentado que nos contos de fada, mais para alguma história de Júlia ou Sabrina). E teimava solenemente em ignorar que ele tinha outra história, outra vida, outro caminho.

Terminou um ano depois. Com uma separação, uma ameaça de suicídio por parte da mulher, uma família inteira se metendo no meio e eu – a vadia, a puta, a destruidora de lares, com apenas 19 anos de idade catei meus caquinhos e saí (não tão) de fininho dessa confusão.

eu19anos

Foram anos e anos para esquecer. Mas anos divertidos, onde me envolvi com homens  casados, solteiros, viúvos, enrolados, até com dúvidas sobre seu próprio gênero… muitos casos, muitas gargalhadas, muitas bocas pra beijar e para fugir, algumas decepções. Faz parte.

Quando, com 35 anos, joguei fora a última regra que eu ainda insistia em manter – não me relacionar com homens mais novos (não me pergunte de onde surgiu essa regra, eu era a Adriana cheia de regras e nem saberei dizer a origem de cada uma) e comecei a namorar um rapaz 13 anos mais novo do que eu, me libertei completamente das crenças que permeavam a minha adolescência de como deveria ser uma relação ideal, com o homem ideal.

E foi tão difícil quanto, ao ponto de uma tia, que sempre me dizia que rezava para eu encontrar um “homem cristão” (nunca questionei pra ela o que seria afinal um homem cristão, preguiça) passou a dizer que estava rezando para eu encontrar um com mais de quarenta e mais nada. o.O

Quando comecei a sair com meu atual marido, ele tinha acabado de se separar e isso para mim nada significava. Mas significou para a ex dele, que passou a acusá-lo de tê-la traído comigo e claro, me tornei a vadia mor (como se tivesse deixado de ser em algum momento da minha vida) e o que é pior, isso contaminou a relação dele e minha com as filhas, que até hoje não admitem frequentar nossa casa por me verem como aquela que destruiu a família deles.

Eu não me importo com o que pensam, acredito que larguei isso lá atrás, aos dezenove anos, quando escutei pela primeira vez esse apelido – destruidora de lares. Me importa sim, ver o relacionamento pai e filhas, irmão e irmãs, abalado por uma inverdade,  um machismo ululante que ainda permeia o pensamento de muitas e muitos.

Um relacionamento não acaba porque outra pessoa surgiu no caminho. Um relacionamento acaba por falta de amor. Por falta de tesão. Por falta de cumplicidade e de vontade de continuar junto.

O fim não é o sexo com x outrx. O fim é o não querer mais nada com x atual!

Relacionamentos monogâmicos são um acordo entre as partes envolvidas, não com o mundo ao redor.  Se amanhã meu atual companheiro resolver procurar outra pessoa, em que pese termos acordado que a nossa relação seria monogâmica, jamais julgarei a outra. E, principalmente, não posso e não quero definir o caráter dela por sua vida sexual.

Meu acordo era com ele. E, se ele quebrou o pacto, digamos assim, é porque algo ENTRE NÓS já não está dando tão certo. Ou porque ele fez um acordo que não queria/podia cumprir – e aí teremos a chance de rever se é isso mesmo que queremos, sem falsos moralismos e hipocrisia, repensando essa história da posse incentivada pelo sistema patriarcal, ou então mergulharmos em nós mesmos para vermos se o fim aconteceu e não nos demos conta.

Não vou aqui me adentrar nas diversas pesquisas de “o que levam pessoas a trair”, nos estudos científicos sobre os “genes da traição” ou mesmo na questão das relações abertas.

Também não vim para roubar, para matar, vim aqui só pra dizer que pactos de fidelidade são quebrados diariamente e não existem vítimas ou culpados. Existem responsabilidades. Existe desejo, algumas vezes frustração, algumas vezes só curiosidade, outras vezes um bocado de tédio no dia a dia; mas em todas as vezes existe uma outra pessoa, à procura de sexo, de amor, de um pouco de alegria ou apenas para passar o tempo. E que não tem nada a ver com a sua história.

A outra pessoa é apenas a outra pessoa.

Fim.

10563415_830410183636522_314014677_nAdriana Torres é uma mineira generosa que trabalha com marketing no terceiro setor e curte trabalho voluntário, é mãe do Leon, gosta de cachorros e gatos, casa cheia de amigos mas também de sossego e de redes sociais. Você pode lê-la em seu blog ou acompanhá-la pelo Twitter @Adriana_Torres.

Mãe

Meu post hoje fala do grande amor da minha vida. A mulher que sempre esteve ao meu lado e que tenho toda certeza que continuará ao meu lado a vida toda dela (ou a minha). Falo da minha mãe. Minha mãe é o meu maior exemplo de mulher, sempre falo que quero ter a mesma fibra que ela teve toda a sua vida!

Tattoo que fiz em 2010 em homenagem a ela.

Tattoo que fiz em 2010 em homenagem a ela.

Lembro como se fosse ontem, quando minha mãe se divorciou, que foi com a cara e a coragem morar sozinha, com duas filhas crianças. Mesmo sabendo que sua família não era muito de acordo, ela foi em busca de sua felicidade, que já não era mais ao lado de meu pai. Minha mãe trabalhava tanto! Por um certo tempo, ela foi mãe e pai, até conhecer meu padrasto, um homem que apoiou e esteve ao lado dela em todas as suas lutas diárias.

Foi nesse casamento que compreendi o valor do companheirismo, da amizade e da divisão de tarefas entre um casal! Meu padrasto sempre cuidou e muito bem da gente, enquanto minha mãe trabalhava e fazia faculdade, meu padrasto apenas trabalhava, então, presenciei várias cenas incomuns na década de 90: Meu padrasto cozinhava, colocava a gente pra dormir, levava a gente para passear todos os fins de semana que minha mãe precisava de paz para estudar. Foi nesse núcleo familiar que aprendi a ser feminista. E foi vendo minha mãe vivendo como profissional, escolhendo realizar seus sonhos, sempre olhando como a preocupação, o cuidado e o amor desse casal era provado a cada dia que minha mãe chegava tarde da faculdade e estávamos na cama dormindo, de barriga cheia e felizes.

Lia, eu e minha mãe no último natal

Lia, eu e minha mãe no último natal

Foi também com a minha mãe que aprendi a ser e me assumir negra. Sou filha de pai negro e mãe branca, na minha casa não tinha “alisar cabelo das meninas!”, teve quando foi de nosso desejo, na adolescência, e meio que a contragosto da minha mãe. Foi naquele núcleo familiar que ouvi, pela primeira vez, quando sofri bullying, que era linda, que minha cor e meu cabelo eram bonitos e que não deveria nunca pensar diferente! Foi com a minha mãe que aprendi a me impor, não deixar racismo nenhum me diminuir! De quantas lojas nós já saímos de cabeça erguida? Se mexesse com filha dela, mexia com ela! Quer ser racista? Não espere que a gente aceite!

Essa mesma mulher nunca se se sentiu envergonhada de nenhuma atitude minha, debate comigo e com minha irmã sobre racismo, homofobia, machismo, planos profissionais. Se ela ou eu temos alguns preconceitos enraizados, não é por conformismo, é por ainda estarmos todas nós (as 3) em desconstrução. Mas fico sempre feliz ao ver minha mãe, uma mulher branca, heterossexual, de família católica e nascida na década de 60 falar com mais naturalidade que muita gente de 20 e poucos anos sobre assuntos que, na época dela, eram tabus, era feio, era errado. Com ela eu aprendi a afirmar meus direitos, todos os dias.

Amanhã, essa mulher maravilhosa faz 54 anos, queria falar que me sinto feliz todos os dias por ser sua filha, por aprender com ela tantas coisas! Tenho muita sorte, noto isso todas as vezes que vejo que posso contar com ela, que ela me compreende, me apoia e, as vezes, me dá umas broncas também, coisas de mãe preocupada. Feliz aniversário, minha melhor amiga!

Basta um fio de luz para um quarto escuro não ser mais o mesmo

Por Fred Caju*, Biscate Convidado

quarto escuro

Três noites foram o suficiente para Ângela perceber como era a respiração do companheiro dormindo ou acordado. Por isso não hesitou ao disparar no escuro.

Cícero, por que você demorou tanto?

O homem tentou fingir o sono, não por maldade, mas por achar que a mulher falava enquanto dormia.

Por que, Cícero?

A insistência, porém, dissipou as nuvens da dúvida.

Tirou o acúmulo de ar dos pulmões e aproximou o nariz dos cabelos da companheira. O mesmo cheiro aprisionado de trinta anos atrás.

Não te entendo, querida.

Sempre gostamos um do outro. Mas continuamos por muito tempo deixando o não-dito dar a linha entre nós. Uma palavra e poderíamos ter ficado juntos antes, Cícero.

Estamos agora, querida. Estamos agora.

Olha nossos corpos, Cícero. Falou olhando para o teto como se ali tivesse um espelho e as luzes estivessem acesas. Éramos tão lindos. Tão jovens. Poderíamos ter incendiado o mundo.

Ainda somos, querida. Ainda podemos.

Na juventude você me disse não quando eu cansei de ter que amar sem tocar. Por que só agora?

Não te entendo. O tempo não nos degenerou. Você teve muitos homens, eu também tive algumas mulheres. Ganhamos experiência enfrentando barras e mais barras, assim como já sabemos o que é a felicidade. Hoje podemos ter toda a serenidade para o amor.

E os nossos corpos, Cícero? Eu sei, você nunca ligou pra isso. Mas você sempre soube que eu me importava. E ainda assim não o quis enquanto ele era jovem. Isso não é amor: é um requinte de crueldade da sua parte.

Suas mãos deslizaram no peito de penugem grisalha do homem. Sentiu que dali não sairiam mais palavras. Era o seu carinho de misericórdia.

Você não sente? A espera da morte é mais longa que a juventude. Essa é subversão do tempo contra a pretensão dos homens em marca-lo através do calendário. Eu não posso mais esperar, meu amor.

Os olhos do homem travaram no espelho imaginário do teto. Via-se pela primeira vez velho. Um fiapo de luz iluminou o quarto seguido da batida suave da porta. Estava só.

caju*Fred Caju é nordestino. Poeta. Editor do Castanha Mecânica. Curador do Cronisias. Com letras sumarentas que nos escorrem pelo canto da boca e, vez ou outra, deixam um travo, como a fruta que evoca. Pra gente não esquecer que letra é vida. Querendo mais, tem disponível na net o audiolivro do Arremedos de um dado viciado e os livros pro kindle: Arremedos de um dado viciado e Sumo de ranço.

Não me Arrependo

amor de índio

Amor, eu não me arrependo de você. Não me arrependo do tempo que esteve na minha vida, não me arrependo de ter dado oi naquele aplicativo de pegação, não me arrependo do seu seu cheiro, não me arrependo do seu beijo, do seu corpo suado junto do meu. Não me arrependo da sua mão que subia pela minha perna, entrava na minha bermuda e pegava no meu pau no fundo do ônibus. Não me arrependo do sorriso safado. Não me arrependo da pouca grana, de ter me doado. Não me arrependo de te convidar pra morar comigo sem te conhecer direito. Não me arrependo das brigas, das mancadas dos desentendimentos.

Sim, eu não me arrependo. É, claro, ás vezes me pego pensando “e se eu tivesse agido daquele jeito e não daquele”? Se eu tivesse ligado? Seu tivesse mandado mensagem?  Será que ainda estaríamos juntos? Eu sei, amor, é apenas um exercício de imaginação. Não dá pra saber o que teria sido, sabemos apenas o que fizemos. E, sim, ás vezes acho que foi culpa sua, ás vezes acho que foi minha, mas daí lembro que não há culpa, nem desculpa, fizemos da nossa vida juntos  o que foi possível.

Outro dia aqui em casa entrei no quarto que era nosso e foi como se uma onda de memória me tomasse. Lembrei de quando chegava em casa cansado , entrava no quarto e te via dormindo. Era como no clichê  dos apaixonados porque parecia que o mundo parava naqueles segundos em que eu te olhava. E eu só saía desse estado de apaixonamento pra te beijar. Você nem se mexia. Foi assim durante meses.

Mas acabou. Assim como esse texto.

 

maycon

 

*Maycon Benedito é da “província litorânea” de Santos e diz que se mostra como é e vai sendo como pode. Atende no guichê tuíter pela arroba @MayconBenedito.

Se eu for embora?

Now there’s gravel in our voices
Glass is shattered from the fight
In this tug of war, you’ll always win
Even when I’m right
‘Cause you feed me fables from your hand
With violent words and empty threats
And it’s sick that all these battles

                                                          Rihanna – Love The Way You Lie

Aprendi, com um relacionamento meu e com alguns relacionamentos de conhecidas minhas, que certos homens não sabem lidar com a separação tão bem. Não estou falando do medo de perder, nem da fossa, nem da tristeza ou da vontade de se afastar para não sofrer que muitos homens e muitas mulheres sentem; falo daquela sensação machista que muitos homens têm de que SUAS (pronome possessivo) companheiras são posse e só podem ir quando eles desejam uma nova namorada/esposa/noiva.
Eu sofri com isso no meu primeiro namoro, onde eu sofria humilhação, era maltratada, mas não podia deixá-lo, afinal, ELE escolhia quando iria me abandonar. Quando decidi ir embora, fui com medo, fui perseguida, perdi minha paz. Falo por mim, eu consegui tomar a decisão de ir embora. Largar de um homem assim é difícil, algumas querem mas não conseguem. Têm filhxs, trabalham junto com ele, as ameaças de ¨tirar xs filhxs¨ou de ¨destruir sua profissão¨.
A violência, em muitos casos, não é física, então não é fácil de enxergar, se estamos de fora, alguns homens parecem homens acima de qualquer suspeita, companheiros, que apoiam o emprego de suas companheiras. Muitos são “perfeitos cavalheiros”, quando a companheira decide brigar, gritar e mandá-lo embora, aparecem com presentes, cartões carinhosos, mensagens no ZapZap, pedindo pra voltar, que não vivem sem elas. Exato, não vivem, então preferem morrer e matar a viver sem ela, ou ela viver com outro!

Vá embora!

Vá embora!

Me assusta muito isso, me pergunto como estive com uma pessoa tão doentia no passado. Vejo mulheres que passaram por isso, independente de lutas por direitos das mulheres, quando é com a gente, o buraco é mais embaixo. Dói, nos sentimos culpadas pelos acessos de raiva, pela brutalidade. O medo só cresce, a vergonha de “causar” isso em um homem também cresce. Mas, entendam, minhas queridas, a culpa não é nossa. Somos vítimas, vítimas de seres com uma doença social chamada machismo.
Ninguém é obrigadx a ficar com ninguém, somos livres para ir e vir. Amar e estar junto é ser companheirx sem cobrar a presença eterna dx outrx em sua vida. Amar é deixar ir quando x outrx quiser ir, por mais que doa, por mais que machuque a falta, sabemos que é uma dor que passa, uma falta que pode ser preenchida por outra pessoa. Sem perseguição, sem medo de ir embora. Que seja bom, que você lembre com carinho do passado, não que se pense no alívio de partir!

Quando o transporte público é espaço de violência

Por Daniela Andrade*, Biscate Convidada

Eu sou uma pessoa que tem um verdadeiro HORROR de transporte público.

E calma, antes que digam que sofro de complexo classista, pra esboçar o patrimônio financeiro que nunca tive, o horror é por que eu cansei de ter sido abusada toda a vida em coletivos.

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Eu precisava pegar um ônibus durante o ensino médio, que chegava lotadíssimo no ponto da escola, atravessava toda a cidade pra chegar no bairro que eu morava.

Alguns homens nojentos, imundos, vendo aquele monte de adolescentes encostavam e se aproveitavam. Aqueles transportes que você não tinha como tirar o pé do chão ou respirar. E àquela época aquilo me dava um nó, meu coração disparava, como se a qualquer momento eu fosse ter uma taquicardia. Rezava para Deus fazer tudo aquilo acabar, quando chegava em casa ficava tensa, não podia falar pra ninguém, já que em casa jamais aceitaram como eu sou. Aliás, ouviria, como ouvi algumas vezes, que a culpa era minha por ser “daquele jeito”.

Quando minhas amigas mulheres cis falavam sobre esse assunto, admirava a coragem de algumas em dizer que revidavam, que gritavam. Na verdade, eu tinha inveja que elas poderiam fazer aquilo e serem socorridas ou contarem com o apoio dos demais – como já vi. Mas eu tinha total certeza que nada daquilo eu poderia fazer, como detentora de uma identidade de gênero divergente e socialmente tida como abjeta, ser lida como um “viadinho muito feminino”, “um viado que quer ser mulher”, “um traveco” só poderiam fazer, como sempre fizeram, era rir da minha cara. Afinal de contas, para a sociedade pessoas que fogem às regras de gênero, que rompem com os grilhões que definiram que somos homens, só tem uma função no mundo: transar, a todo momento, com qualquer um, das formas mais exóticas e improváveis também. Donas de um apetite sexual irrefreável e nada seletivo.

Como detentora de uma identidade marginal, lida por todos como promíscua por excelência, que tinha no DNA o gene da prostituição, eu não poderia abrir a boca. Quando uma vez treinei falar sobre o assunto, riram de mim e disseram: “Ah, diga se você não gostou?”.

Todas essas situações de estupro repetiram-se muitas vezes, a ponto de eu tomar uma total fobia, um medo assombroso de coletivos.

Eu tomava vários ônibus para pegar os vazios, e ir até o ponto final para poder ir sentada. Demorando o dobro ou triplo do tempo. Sentada sempre mais perto do cobrador, pois sabia que sentar para trás também era dar mais chance para que abusadores agissem.

Lembro de uma a uma, todas as vezes que me violentaram sexualmente. Lembro de quando o cara pediu para eu calar a boca, pois se eu dissesse algo, ele diria que um traveco estava passando a mão no pau dele e adivinha do lado de quem todos ficariam?!

Eu aprendi, com a vida aprendi que quando se tem uma identidade trans, quando se é uma mulher trans, a corda vai sempre arrebentar pro seu lado.

Por isso que hoje em dia, eu faço das tripas coração para jamais entrar num coletivo. A menos que eu me certifique com muita antecedência que será num horário que não estará cheio. O que é muito difícil na cidade de São Paulo.

daniela andrade*Daniela Andrade é uma mulher transexual, membro da Comissão da Diversidade Sexual da OAB/Osasco, diretora do Fórum da Juventude Paulista LGBT, Diretora da Liga Humanista Secular, que luta ansiosamente por um presente e um futuro mais digno às todas as pessoas que ousaram identificar-se tal e qual o são, independente daquilo que a sociedade sacramentou como certo e errado. Não acredito no certo e o errado, há muito mais cores entre o cinza e o branco do que pode supor toda a limitação hétero-cis-normatizante que a sociedade engendrou.

Sete de Mãe, digo, de Maio

“Filhos, há que se ter essa coragem:
ir e deixá-los, deixá-los ir.” (Renata Lins)

Domingo é o dia das mães. Eu sou mãe. Uma mãe biscate. Laralilá. Adoro comemorações. Sou festeira. O que eu não sou é uma boa mãe. Nem má. Sou, apenas. Acho importante desmistificar isso que ser mãe é padecer no paraíso. É nada. Tem um monte de coisas boas e um monte de coisas péssimas. E uma porção de coisas que normalmente são boas mas que naquela hora são péssimas e uma porção de coisas que são péssimas mas, em alguns momentos, ficam até boas.

calvin

Minha mãe é exatamente assim, como na tirinha. Dava jeito em tudo (em certos dias em que preciso de colo, ela ainda dá). O jeito que minha mãe dava sempre parece melhor que o jeito que eu dou (em uma análise feita por mim mesma se eu fosse minha filha). Já pro Samuel, o jeito que eu dou parece ótimo. Ah, os pontos de vista!

O certo, certo mesmo, é que eu só sou a mãe que eu sou, isso significando o que quer que signifique, por causa do Almir, o pai. O Almir fez possível uma maternidade mais tranquila e alegre. Ele estava sempre lá. Ele está sempre aqui. O Samuel, hoje, mora com ele. É ele quem cuida das coisinhas que a nossa sociedade, com seu apego aos papéis, credita às mulheres. Ele que olha se as unhas estão curtas, as tarefas feitas e a saúde em ordem. Sou muito grata por tê-lo como companheiro nos cuidados com o Samuel. Se eu sou a mãe que sou, com defeitos e acertos, é muito por sabê-lo aqui, perto, disponível e pronto pra tocar o barco. E, mais, só sou a mãe que sou pela incrível e amorosa rede de familiares e amigos. Suas dicas, sua disponibilidade, seus exemplos, suas perguntas, suas aporrinhações. Tudo que me fez tentar, pensar, mudar.

Ser mãe não é a coisa mais importante que sou. Nem a menor delas. Sou eu, como tantas outras coisas que sou. Não sou a “Mãe”. A cada dia vou dando ao termo “mãe” mais a minha cara, o meu jeito, o meu ritmo. Por outro lado, o exercício da maternidade vai me constituindo e caracterizando. Não vem primeiro o ovo nem a galinha, mas um omelete de frango, acho.

O certo é que tem memórias que, quando o peito dói, servem de bússola e alento. Como o dia em que fui, a pé, da Universidade ao escritório, tomando banho de chuva, barriga de sete meses, enorme, a sensação de prazer e liberdade. Ou amamentar. Amamentar pode ser complicado, pra muita gente é. Pra mim foi alegria e prazer desde a primeira vez (tenho vídeo provando, mas acho que ele não seria aprovado pela censura, o outro seio fica lá, exposto e descarado). Ou colocar o filhote pra dormir na rede. Ai, poucas coisas são tão gostosas na minha memória como aquele peso no peito, o cheirinho cativante e a respiração pausada. Às vezes que ele fica doente (eu sei, sou terrível) e procura a minha mão. Mesmo grande, 16 anos e quase 2 metros, quando ele tem febre e quer ficar aconchegado, meu coração dá saltos. Nenhuma dessas coisas é natural. Não vem no automático. São construções. O amor não é um dado. É um processo e o filho sempre, sempre, permanece um Outro, acho eu. Estranho, invasor, conquistador. Bárbaro, em todos os sentidos do termo. Quase sempre como a gíria.

mafalda - mae

Comecei dizendo: domingo é dia das mães e eu sou mãe. Equívoco, claro. deveria ser: “domingo é dia das mães e eu sou mãe do Samuel”. Ser mãe não é uma categoria abstrata a qual nos enquadramos. É uma experiência concreta que vai sendo o que que vou sendo e vai me tornando quem sou. Não sou Mãe. Sou a mãe desse moço aí, meio menino, meio rapaz, quase homem. Outro. Admirável, interessante, divertido, enraivado, carinhoso, impertinente. Ele. Eu. Nós.

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E hoje, pra terminar a conversa, hoje é sete de mim, digo, de maio. Já faz dezessete anos que você, Samuel, está por aí, por aqui, em mim. Já faz dezessete anos que você me surpreende, alegra, tira o ar, preocupa, enerva, confunde, enternece, dezessete anos que me comove. Dezessete anos e eu ainda sei tão pouco sobre você, sobre nós, sobre ser quem eu deveria ser com você ou pra você. Não sei estar, talvez, onde você quer. Mas estou onde você precisa, espero. Estou aqui pra você. Te amo. E tenho um orgulho danado de fazer parte dessa história que é sua, que é você. Parabéns, eu digo, por ser assim como é: em construção.

Quando o Amor Acabar

Eu ainda sinto a sua falta e aqui, onde dói em perguntas, eu reviso letra a letra imaginando como construí o abismo. Sei, claro que sei, que não foi nada que fiz ou disse, apenas a vida que afasta barcas que navegam entre portos distintos. Mas saber que a vida é maior que eu não conforta. E eu demoro no nunca mais. Nunca mais não saber o que te responder. Nunca mais a conversa instigante. Nunca mais me saber no seu olho. Nunca mais querer acertar. Nunca mais rir tão fácil. Nunca mais comparar expressões. Nunca mais um novo velho filme. Um velho novo livro. Nunca mais Minnie. Nunca mais cangaceira. Nunca mais ir longe demais e voltar, assim, segurando firme outra mão. Nunca mais aquele abraço em que sabia tudo tão certo. Nunca mais querer. Sinto falta disso, daquele vazio que era vontade de te saber em mim. Ninguém puxava meu tapete como você… Eu sei que você tem essa dor. Esse medo. Sei que o seu corpo se curva e sua testa se enruga nessa angústia tão mais material que a minha. E entender isso me dói tão mais. Porque já não sou eu que aliso essa ruga. Mais, porque já não quero ser. Porque não queremos. Porque sentimos falta, eu sinto falta, de quem éramos, de quem eu era com você. Mas já não quero ser aquela.  Apenas sinto saudades: de nós, de você, dela.

Em seu disco Almanaque, Chico perguntava, meio terno, meio ácido, pra onde vai o meu amor, quando o amor acabar? E ele não é o único, garanto. Tem uns, que nem o Leminski, que acham que nem acaba, se transforma. Uma outra coisa qualquer: alívio, raiva, aprendizado. Vira raiva – ou rima. É difícil saber quando o amor passa a ter outro nome em nós. Quando somos capazes de falar da pessoa amada sem que borboletas façam festa no estômago? Quando aprendemos a usar o passado imperfeito? Quando é outro o nome que pensamos em sobressalto? Saber quando acaba um relacionamento é um pouco mais fácil, mas nem por isso. Alguns acabam o relacionamento em um golpe seco. Outros arrastam alguns ensaios. Algumas vezes, ainda, o relacionamento acaba antes pra um dos parceiros e o outro demora a entender. Quando o relacionamento acaba há sinais externos, quase sempre. Já não fazemos as coisas que fazíamos, já não temos os compromissos que tínhamos, às vezes é preciso mudar de casa, de trajeto, de bar. Mas o amor? Como sinalizar seu fim? Como simbolizar o “nunca mais”? Quando acaba o amor, pra onde vai?

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Hoje já se tem resposta possível.  Quando o amor acaba pode ir pro Museum of Broken Relationships. Isso mesmo, um Museu de Relacionamentos Terminados/Acabados/Finitos/Findados, de Vínculos Rompidos, de Corações Partidos. Legados de um amor que já não é. Você, que teve seu amor e suas manifestações concretas e que, não tendo mais o primeiro não consegue conviver com as segundas, agora é só enviar pra Croácia! Nada mais de tocar fogo nos bilhetes, rasgar fotos, deletar emails, rebolar no lixo os mimos. Vai diretinho pra outra canção do Chico, ora… vai para as vitrines.

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Queria visitar, deve ser um tanto melancólico, é verdade. O vestido do primeiro encontro, o LP do aniversário de casamento, pelúcias, livros, a coleção de sutiãs. Objetos triviais, em si mesmo quase insignificantes, que encarnam o sentir e são, eles mesmos, narrativas condensadas. Tanta coisa por dizer, tanto futuro supostamente perdido, alguns arrependimentos, umas saudades. Alguma alegria recordada, espero. Objetos que dizem de vidas que já não são. Queria visitar, deve ser inspirador. Todos esses objetos que ocuparam tanto espaço, depois de doados, deixam o vazio pra que a vida possa ser.

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Fico pensando nas pessoas que doaram os objetos para o Museu. No que sentiam. Em como reordenaram o sentir com esse gesto. Aquele momento em que a gente deixa pra trás (fica mais bonito em inglês: let it go). Porque mandaram pra lá seus objetos? Uma forma de lidar com a dor? A compreensão de que a coisa já não comporta tudo que existiu? A ideia de que longe dos olhos longe do coração? A vontade de dar um sentido maior à sua perda pessoal?

E eu fiquei pensando nos meus findos amores. Guardo tudo, sabe. Poesia escrita em guardanapo, telegrama, foto, cartão, colagem, cartas, blusas. Eu não me desfaço de mim mesma. Tenho grande carinho por tudo que vivi. E gosto de reencontrar-me nos olhares outros que me disseram tanto. Lembrei de um episódio de How I Meet Your Mother em que a namorada atual do moço exige que ele se desfaça de tudo que ele ganhou ou comprou junto com os relacionamentos passados. Que ele abrisse mão de todos os objetos que contassem alguma história de amor que não fosse a deles. E, quando ela voltou a entrar no apartamento dele, não tinha mais quase nada. Uma certeza: somos quem somos, um tanto pelas pessoas que amamos, pelos relacionamentos que tivemos. Quando amo alguém que é, agora, mesmo desconhecendo o que foi e quem amou, amo também sua história. Há coisas que nem costumo lembrar que foram de um amor passado ai, num repente, a lembrança. O momento. A pessoa. Meu sorriso. Gosto de ter a vida que vivi por perto. Em mim. Como escrevi um dia desses: Estão em mim, os meus amores, no meu jeito de sorrir, nas histórias que repito, na ruga no canto do olho. Estão na pele, na curva do corpo, no balanço das mãos. Estão em mim. Eu sou todos esses amores. Enquanto eu for, eles são. Somos. Todo amor é eterno enquanto eu dure. Também estão nas coisas que apinho nas gavetas #SouDessas.

postbisca

Mas se fosse montar uma exposição temporária lá no Museum of Broken Relationships com as minhas despedidas: uma blusa azul. O LP Drama 3o Ato. Três cigarros. Sorvete de Flocos. Um bilhete de avião. Uma coleção de telegramas. Um ursinho. Um óculos com as lentes embaçadas. Um CD do Fito Paez. Um molinete. Uma foto na praia. Não, uma porção de fotos na praia. O que iria na sua mostra?

Museum of Broken Relationships anda por aí. Agora mesmo está na Cidade do México (link aqui). A exposição ficará lá até dia 08 de junho.

Luiza ERUNDINA

Foto: Antonio Miotto

Luiza Erundina no CEU Perus (Foto: Antonio Miotto)

Luiza Erundina, deputada federal e ex-prefeita de São Paulo, participou do evento no dia 11 de abril: diálogos com a comunidade no Centro Educacional Unificado (CEU) PERUS, na Zona Norte. O tema do evento foi “Ditadura Militar no Brasil – 50 Anos do Golpe de 1964 – Conhecer para não repetir.”

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Momento histórico, com direito a choro e emoção, cantando Vandré e até tietagem, com muita honra!!! Ditadura nunca, nunca mais!! (Foto: Antonio Miotto)

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Luiza Erundina (Foto: Antonio Miotto)

Alguns depoimentos

Sobre o processo que culminou com a eleição de Luiza Erundina, a primeira prefeita de São Paulo:

“Fizeste parte da histórica Revolução dos Bagrinhos, onde as base enfrentaram a direção, garantiram a indicação da Luiza como candidata e com o boicote da dita direção, as bases foras para as ruas, de casa em casa e voto a voto elegeram uma mulher pobre e nordestina como prefeita da maior cidade da América Latina.”

“Que conquista! E se não me engano em cima do Maluf cuja vitória nas pesquisas por mais de 5 pontos a globo cantou até a véspera. Tive o prazer de contar esta história para os meus filhos e na sexta apresenta-los a Luiza e ela a eles.”

O governo de Luíza Erundina, e sua opção política de governar com e para a periferia da cidade:

“Erundina foi pioneira na implementação de um projeto de governo voltado para o social, e a cultura e as artes eram eixos prioritários.”

“Foi uma vitória e um governo dos movimentos sociais e populares. A periferia pela primeira vez venceu, constituiu identidade. Foram os primórdios deste hoje vivo e pulsante movimento artístico e cultural que hoje está revolucionando as periferias.”

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(Foto: Antonio Miotto)

Como nossos pais…

Semana santa taí, né? Feriadão, meu aniversário tá pertinho e…

texto 2

Bom, é lugar-comum neste nosso País tão cristão, quando alguém quer salientar uma suposta igualdade entre as pessoas dizer que “somos todxs filhxs de Deus”. Crenças à parte, nunca consegui entender isso muito bem (até porque leio as notícias, vez ou outra tentam me “converter” a alguma religião e percebo na maioria dos discursos que mesmo para esse Deus, existiu e existe uns/umas filhxs mais filhos que outrxs)… mas talvez já tenha tido alguns vislumbres do que seja essa ancestral forma de hierarquizar o mundo quando noto jocosidade e ironia ou uma espécie de paciência “sábia” prestes a se esgotar que muitxs demonstram ao chamar alguém ao qual pretensamente tentam “ensinar” algo “sobre a vida” de “meu filho” ou “minha filha”.

Se no cristianismo temos Maria, que nos “contou” da capacidade “feminina” de perfeição e pureza enquanto mulher que se tornou mãe sem “conhecer homem”, também para algumas religiões não “tradicionais” nascemos fadadas a sermos amadas pela(s) “divindade(s)” por nossa suposta “capacidade” em gerar e/ou sermos companheiras/ esposas/ musas. Na de “refletirmos” um(x) outrx. Oi, lua!

Comecei esse texto falando de religião, terreno escorregadio, para discorrer sobre outro buraco, desta vez mais embaixo. Porque acredito que a religiosidade de um povo diz muito sobre o que é de nós esperado e em como são construídas algumas relações. E na maioria delas, x filhx é sempre expectativa de. Que dificilmente cessa. Também porque creio que isso se repete nas relações por aqui, nesse negozi que chamamos de mundo.

Aí eu pergunto: se somos todxs filhxs, em qual “cartilha” você aprendeu a sê-lo? E como (já?) conseguiu “escapar” dessa condição?

Os pais são (ou supostamente deveriam ser) o primeiro contato que temos com outros seres de nossa espécie, nosso primeiro esboço para um posterior entendimento de humanidade e aqueles que (também supostamente) nos ensinam a portar-nos como seres “civilizados” para estarmos e agirmos no mundo. Responsabilidade danada, né? Mas é também no exercício dessa função que alguns experimentam a delícia que pode ser o exercício da soberania sobre um(x) outrx ou a doce e viciante utopia do amor “incondicional”. Escrevo incondicional entre aspas porque que no caso de pais e filhxs estamos em ambos os casos exercendo o amor sob o “jugo” de uma “suposta” condição.

Ah, a ironia…

Daí eu te conto agora é do cotidiano: dia desses cheguei em casa depois de dois dias na casa de uma amiga e a geladeira estava desligada. Minha mãe tinha-me feito esse “favor” não solicitado e levado todos os potes de comida pra casa em que mora com meu pai. Não, não tinha água gelada tampouco. Sim, somos vizinhxs. Liguei reclamando. “É, sou mesmo uma monstra ingrata e blábláblá”. Próximo take: horas depois, estou na cama pelada, me masturbando enquanto falo ao telefone com o gatchênho. Quem abre a porta para trazer um iogurte que tinha sido “esquecido” na tal “mudança”? Meu pai. Sem ligar, sem avisar, sem bater na porta. Fiquei envergonhada e depois irada por ter me envergonhado. Resultado: mais briga. Das feias.

Não, a briga não foi por causa da geladeira desligada ou pelo “flagra”. Mas pode exemplificar como alguns pais (os meus inclusos aí) entendem a casa ou a vida dxs filhxs como uma continuidade de suas próprias. Tendo a ambas livre acesso por um direito que não pode (ou não deve) ser questionado sob o eterno risco destes filhxs serem considerados como “rebeldes” ou “ingratos”. Oi, hierarquia! Alô, cansaço…

texto 1

Esse episódio que é até engraçado (e se eu não puder gargalhar não é minha revolução!), mais uma vez me fez questionar seriamente: onde foi que eu errei (ou estou errando?) enquanto filha? Como atestar-me como adulta, se apesar da minha carteira de identidade dizer que tenho 38 anos, sou cotidianamente infantilizada por ações e palavras? Dos meus pais e de toda uma sociedade (falo do aqui e do agora) que se estrutura a partir dessas primeiras e estabelecidas relações de “poder” e “pertencimento”?

Enfim, faz algum tempo que passei a notar no discurso da minha mãe (e olhe que ela é até bem “moderna”!) que apesar de ter ido morar só já com dezessete anos, ter trabalhado desde que e vivenciado experiências diversas só fui considerada “emancipada” ou “independente” enquanto estive casada. Horrível? Eu também acho, mas é muito comum. Para algumas amigas minhas, por exemplo, isso só aconteceu quando tornaram-se (também) mães. E mesmo assim…

Bom, eu que não pretendo ser mãe e também tenho minhas (e muitas) ressalvas quanto ao casamento enquanto instituição, sob a ótica dos meus pais e da sociedade, estarei fadada a ser vista e tratada sempre como “filha”? Aquela que precisa de monitoramento e “educação” permanentemente já que?

Ai, meus sais…

Daí resolvi dividir essa “angústia existencial” com outrxs amigxs queridxs, que me deram alguns “depoimentos” que também compartilho com vocês:

“Eu sei o que você passa! E minha mãe nem é minha vizinha…”

“Se ajuda, digo que meus pais me tratam feito criança e tentam toda hora decidir as coisas por mim. Nem meu pai internado, sem sair da cama sozinho, deixa de fazer isso comigo.”

 “Ô, amore. que difícil. Porque tem coisas boas também, né? Mas os limites tem que ser conversados com muito cuidado. Uma amiga, quando tinha acabado de ter filho, acordou com o sogro dentro de casa, de manhã cedinho, pegando a bebê…. ia sair com ela para os pais dormirem mais. O que é lindo. Só que não avisou! Ela disse que se tivesse acordado depois (foi antes do celular), ia achar que a bebê tinha sido raptada…”

 “Poizé, minha experiência é oposta… meus pais “saíram de casa” quando eu tinha 18 e meu irmão 16. Pra BSB. De lá para Roma, depois BSB de novo… vieram morar no Rio de novo só quando o F. já tinha 6 anos e eu tava grávida do J. Eu me arrepio de ouvir essas histórias, mas sei que ter mãe/pai perto pode ser muito bom também. A negociação é que é delicada…”

 “Eu num pitaqueio por motivos de: meus pais são super entrões mas não são nada entrões. Explico: a gente partilha praticamente tudo lá na minha família. no começo do ano a gente faz uma reunião e cada um conta seus planos, de ter filho a escrever um livro passando por mudança de trabalho, comprar carro, reformar casa, ir em uma praia naturista, etc. daí todo mundo dá pitaco em tudo, se oferece pra ajudar, contesta, etc. Depois, é só suporte. Meio no lance de respeitar o limite como a R. falou. E eu já voltei pra morar dentro da casa dos meus pais depois de separada. Com S. Mas era isso: vá perguntar pra sua mãe se pode e tudo. E se eu ia sair negociava pro S. ficar com eles e nem precisava dizer pra onde que eu ia. Eu ia sair. Acho que passa pela conversa, né. Muita.”

 “Eu já tive cada quebra pau com a minha mãe por causa disso que virge! Só vivendo a mil km de distância…”

“Ah, sim, meus pais são desses (eram, né.  meu pai) super-respeitosos também. Nunquinha que entrariam sem bater. Minha mãe que sempre teve a chave da minha casa, sempre tocou antes de entrar.”

 “Nossa, a minha mãe em compensação…Lia carta minha escondido, mexia nas minhas coisas, mexia nos meus diários, ouvia conversa no telefone, coisa de doido mesmo!!!!”

texto 3Daí eu te pergunto: e vocês, como se entendem enquanto filhx? Ou pais, se acaso o são? Pra qual “ideia” de mundo vocês foram “educados” ou tentam “educar” seus filhxs? E como?

É, não tenho muitas respostas faz é tempo. E poxa, como é difícil continuar perguntando! Ou vai que eu estou mesmo no tal do “inferno astral”. Em todo caso e mesmo assim, Feliz Páscoa para todxs vocês, biscates queridxs!

Fiquem com Elis…

Semana, opa, Santa

Caravaggio_-_La_Deposizione_di_Cristo

Quinta ou Lava-Pés

Ela revisita lembranças. Sabe todos os amores. Inclina-se, saudade e bacia nas mãos, em uma disciplinada procissão. Dedica-se a expurgar o sofrer. Cantarola, mas podia ser uma prece: afasta de mim esse cale-se. Não pode negar o que já disse, não pode repetir. Aprisiona-se em cada grande amor. Resgata os momentos como se os pudesse sentir. Não sabe que autopsiar o amor é reconhecer sua finitude.  A saudade é corpo de delito. Cada um, ela lembra, seria pra sempre. Deixa os olhos perderem-se nos olhos dos fantasmas. Mergulha, prestimosa, as mãos entre as vísceras dos relacionamentos findos. Nem repara o rubro que tinge a água. Seu coração gangrenado.

 Sexta da Paixão

Eu nunca acreditei no amor eterno, na alma gêmea, na metade da laranja. Não esperei sinos, votos de felicidade, flores de laranjeiras. Os homens, ah, os homens em minha cama sempre foram riso. Prazer. Eu nunca quis mais do que o que tinha pra dar. E, ainda assim, em silente resignação, sei que você me tornou imprestável, senão para o amor, para os relacionamentos. Não sirvo ou eles não me servem. Foi você. Escavou abismos ao meu redor. E eu já não sei voar. Eles, os outros, nunca farão o sexo que você não fez e é sempre à luz deste vazio – onde tudo cabe – que eu os julgo sempre. Eles, os outros, nunca farão as letras que você fez e é sempre à luz desta presença que eu os condeno. Não me deixaste oca, esclareço, se assim fosse eu poderia acolher alguém em meus espaços. Ao partir, foi plena que me deixaste. Repleta de tudo que não pôde ser, com sua imagem enorme em todas as minhas esquinas. Compreendo, enfim, que é preciso que saias. Em sangue. Com a ponta mais afiada escrevo saudade na pele e abro veias. Em vermelho me deixas. Envolvo-me com branco lençol em arremedos de abraço e deixo inscritos os dias de solidão. Só é possível seguir se fico a morrer.

 Sábado de Aleluia

Todos os dias como uma prece: não querer. Destemida, percorro os dias tão cheios de você. Como uma pontada: você nunca esteve aqui. Nunca esteve no café cedo da manhã, eu encolhida no sofá, todo os riso do dia já no acordar. Nunca esteve no percurso do trabalho, as impressões do trânsito, do sol, do tempo. Nunca esteve no almoço corrido, nas tardes lentas, nos domingos chuvosos. Você nunca esteve na cerveja na varanda, nas intrigas amorosas, no chafurdar nos livros. Nunca esteve no ocre de Canoa, no azul do mar tão dentro de mim. Nunca, nunca, na estrada, nas perguntas, nas fronteiras, nas conversas noturnas que se tornam sol. Nunca esteve no sertão que construí pra você, letra a letra, terra e calor. Todos os dias, como uma prece: não pensar. Escrevo uma bula com meu método secreto para voltar a sorrir: o luto. Pra esquecer, procurar lembrar-se. Porque há um dia em que você não se lembra de lembrar. Só aí você esqueceu.

 Enfim, Domingo

Domingo eu não quero acordar cedo. Não quero acordar sozinha. Não quero calçar sandálias nem vestir roupa que aperte. Quero deitar no chão frio e pela janela espiar o azul. Quero café preto adoçado com felicidade. Domingo eu não quero ler jornal nem fazer compras no supermercado. Não quero névoa nos olhos nem vazios no peito. Quero cheiro de mar. Quero ignorar os relógios e contar o tempo em abraços. Quero seguir o corpo, comer quando sentir fome, dormir quando sentir sono e o resto do tempo deixar meu corpo saber outro corpo. Domingo eu quero ouvir sambas e ver futebol na televisão. Não quero falar baixo, andar rápido nem fazer a coisa certa. Domingo eu quero ler quadrinhos, tomar banho de mangueira e andar nua pela casa. Não quero cortar cebolas nem descascar abacaxis. Não quero usar talheres nem pôr a mesa, quero desenhar gaivotas em guardanapos. Domingo eu não quero segundas.

Mais Uma Segunda

Por Patrícia Sampaio*, Biscate Convidada

sisifo

Acordar mais uma segunda-feira e “cuidar da vida”, como dizia a mãe que repetia a avó. A rotina está lá, impávida, à sua espera na cozinha: o lanche da escola, o café da manhã, o almoço dos que ficam em casa, a marmita de quem não dá conta de comer a comida da rua. A roupa na máquina, as plantas na varanda, a comida dos pássaros. Depois, os e-mails intermináveis, os trabalhos sempre atrasados, como se fossem programados pelo próprio Sísifo! Nem acaba, nem fica pouco!! Outra fala da mãe que também era da avó.  Nesses tempos, já nem sabe mais o que ainda é seu ou é herança de tantas mulheres que vieram antes.

Esta herança que nunca quis compartilhar com uma filha. Rezava a cada gravidez por um menino. Tinha verdadeiro pavor de ter uma menina e, por absoluta incompetência, transformá-la em uma igual, pronta para carregar o planeta nas costas, assumir todas as culpas, andar enlouquecida atrás da perfeição em cada passo e em todo ato mínimo da existência: a casa sempre organizada, a família mais-que-perfeita, os filhos impecáveis, a melhor profissional. Chegou a fazer o almoço antes de ir para o hospital parir o filho. Em pleno trabalho de parto, à beira do fogão, não disse nada para ninguém até que tudo estivesse arrumado na casa… Inacreditável, dizem! Sente orgulho quando vê os olhos admirados de tamanha eficiência. Mas, não se engana. Sabe que o orgulho é pelo personagem bem sucedido porque, na verdade, não há vaidade alguma nisso. É uma armadilha. Não queria mesmo isso para sua filha que, afinal, nunca veio. É um alívio.

De repente, a casa fica em silêncio. Todos se vão e as tarefas dão uma trégua. Silêncio na casa e a voz vai ganhando nitidez. De onde vem? Faz tanto tempo que não a escuta que nem lembrava mais que era sua. Tanto a fazer, tanto barulho do lado de fora que a pessoa esquece o que tem para dizer a si mesma.  E ainda tem algo a dizer? Parece que perdeu a prática de pensar sobre si. Desconcertada soa a voz. Titubeante. O que ainda sabe sobre sonho e desejo? Diz que devia ir, para poder lembrar do que era e do como era antes de se tornar essa outra. Que só pensa e age para fora, por impulso. Cuida, provê, organiza, acalenta e, principalmente, antecipa desejos. Os alheios, claro. Aprendeu, como outras, que a maior expressão do amor é a antecipação da necessidade. Qualquer que seja ela. O melhor amor do mundo. Sem lugar para falhas. Nenhuma.

A voz reclama. Já está sendo calada para falar de outrem. Ri e concorda. É a falta de prática de ouvi-la. Carece de tempo para o exercício. Os restos infinitesimais de pão na mesa são capazes de fazê-la calar a voz. Treinada para prestar atenção no que acontece do lado de fora.

Tem medo. Quando o silêncio da casa se tornar permanente. Sim, há de acontecer um dia porque não há outro jeito para a vida. Então, a voz se tornará única. Do que tem medo? Irá aparecer tão alta, rebelde, insana que será capaz de ensurdecê-la ou, ao contrário, terá cansado, desistido e silenciado para sempre? Ainda não pode ir. Não sabe como reaprender a ouvir-se. Tem que terminar o almoço.

patricia-sampaio* Patrícia Sampaio é escorpião com ascendente em Touro. Manauara por opção, botafoguense de longa linhagem e historiadora toda a vida porque é super divertido. Mãe de meninos empenhada em fazê-los entender meninas. Daquelas que adoram aprender. Sempre. @SampaioPatricia

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