Maria de Fátima Pimentel Lins é sujeito da história

Por Renata Lins.  Fotos: Antonio Miotto.

Ela. com o nome todo. Maria de Fátima, e não Fáfa (assim com acento no primeiro “a”), porque ela gosta desse. Pimentel que é o nome da família de onde veio e a que pertence, tanto, sempre: de Paudalho, meu avô e minha avó. Lins que é o nome que ela adotou depois que casou, que é tão dela também.

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Dali vem. A família, que nutre e que se espalha,  que dá origem e sentido. Tradições, como a “Folhinha do Sagrado Coração de Jesus” que ela compra todo ano e dá para os filhos, os irmãos, os sobrinhos. Como fazia meu avô. A religião, que faz parte dela de um jeito alegre, que lhe abriu a porta para a política. Porque ela levou a sério essa história de “somos todos irmãos” e foi lá tentar ver o que dava pra fazer. Entrou pro movimento de juventude católico, filhote da teologia da libertação. JEC, JUC. Viagens, amizades. Ampliação de horizontes. Vontade de transformar. Veio dali.

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Veio dali também, acho, a escolha do curso: Serviço Social, na escola onde Paulo Freire dava aula. Pra botar a mão na massa, pra fazer o que estivesse ao seu alcance. Utopias concretas. O primeiro projeto de conclusão de curso era um projeto de alfabetização pelo método Paulo Freire. Numa favela do Recife. Ela sempre conta que ficou surpresa quando, junto com algumas colegas de curso, foram perguntar do que era que aquelas pessoas tão despossuídas sentiam mais falta: essa seria a base do projeto delas. Pois bem, foi isso. Aquelas pessoas queriam saber ler. Saber ler pra poder entender com a própria cabeça. Escrever com as próprias palavras. E elas entraram de cabeça no projeto: alfabetizar aquele grupo de gente que não tinha nada mas queria cidadania. Pela alfabetização.

Corria o ano de 64 e estava tudo planejado: ela iria se formar e casar no final do ano. Seu noivo Marcos (noivado recente, do ano anterior) trabalhava com o prefeito do Recife, Pelópidas da Silveira. Ventos de mudança por ali, pelo Nordeste inteiro. No Rio Grande do Norte, a campanha “De Pé No Chão Também Se Aprende A Ler” era símbolo da prefeitura de Djalma Maranhão. Método Paulo Freire, ainda.

E teve o golpe. E mudou tudo. Pelópidas foi preso, Marcos saiu do Recife, por dúvida das vias. Pra São Paulo. O Dr. Antônio Pimentel decretou: “filha minha não sai de casa sem estar casada”. Pois muito bem: casou por procuração. E até hoje ela comemora “o dia em que casei com meu pai”, rindo de ter realizado a freudiana fantasia de toda menina. Casou no religioso, depois, em São Paulo. E foram pra Paris, assim de repente. Depois para a Argélia. E, quando ela ficou grávida, voltaram para o Brasil, para sair de novo, dez anos depois, fugindo da polícia da ditadura.

Com isso tudo, a formatura não aconteceu. História interrompida. Fio solto e sempre, apesar de todas as realizações, meio dolorido. Tanto que foi o pedido feito à Comissão de Anistia: ter o direito de se formar. Só faltava a monografia, o trabalho de conclusão de curso.

E assim, cinquenta anos depois, ela vai se formar. Na UFRJ, dessa vez. Apresentando um memorial em que conta essa história, sua história.
“Não é a história toda… mas é a minha verdade”. Esse o título do memorial. Depois de tanto tempo. Tanta luta. Tantas perdas. Tantas paisagens: Paris, Argel, Genebra, Brasília, Roma. E o Recife como pano de fundo, onde começava o mundo. Pelo menos o mundo deles.

E a gente, os filhos, a gente vai tar lá pra bater palma, pra ver a reparação dessa perda que parece pequena, e é tanto. A gente se alegra, a gente vibra, a gente lembra daquele que foi seu companheiro durante quarenta anos e que não vai tar aqui pra ver isso. Mas, de alguma maneira, vai.
Esse texto é pra ela, é pra ele também. Com orgulho e gratidão.

Viva você, mãe. Vai ser lindo.

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Lu e Fátima. Biscateando…

O novo: swing (De novo)

Ele chega, de mansinho, e levanta a borda da camisola, devagar, até descobrir as coxas, e a dobra da carne macia onde se aninha a calcinha.

Eu, deitada de bruços, finjo que dormo, e sorrio contra o travesseiro.

Depois, não consigo conter o suspiro, e gemo quando o peso do corpo dele, aquele corpo sólido, firme, denso, pesa sobre a cama quando ele se deita sobre meu corpo.

Ele é aquele, que eu acredita capaz de reconhecer no escuro.

A gente aposta: será que reconheceria mesmo?

…….

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A curiosidade pela casa de swing começou há tempos, junto com aquelas fantasias que a gente não conta para ninguém e ao mesmo tempo, já ouviu e já confessou seja no calor da cama seja na roda de amigas.

A ideia era boa, o difícil era achar o lugar. Cidade conservadora, pesquisas na internet dão noticias de duas, mas só uma tem o endereço.

Pesquisa dali, beija daqui, pipocam blogs e fotos sobre o assunto.

E começam as dúvidas, as inseguranças…

Será que é seguro?

E se alguém me reconhecer?

E se só tiver gente “feia”?

E se acharem a gente “feio”?

E se alguém quiser me beijar? E se eu quiser beijar alguém? E na casa de swing, se usa beijar ou é só o vuco-vuco?

Um dos blogs dizia que a casa que tinha o endereço divulgado era “baixo nível”, e que havia muita gente (leia-se: homens) que contratava prostitutas para entrar, o que tira a graça do lance.

A outra só informava os nomes dos “donos” e os telefones. Eu: liga! Ele: liga você!

E não ligamos… mas transamos loucamente pensando nas possibilidades.

Final de semana seguinte, tarde de sábado modorrenta, sessão de sexo ardente (clichê? Foda-se) no sofá. E a fantasia de novo.

Começo de noite daquele mesmo sábado, eu entro no site, pego o endereço, e decido: é hoje. Vai ser lá mesmo. Vamos debater as regras.

Combinamos de só olhar, ver qual é, não transar com ninguém.

Vestidinho solto, sem sutiã, salto alto.

Chegamos. Vergonha de entrar, parece que todo mundo sabe e está olhando. Ele pega minha mão, e me sinto confiante de novo. Danem-se.

Entramos. (eles revistam para ver se não temos câmeras, mas eu entro com o smartphone. O segurança avisa que se alguém achar que eu estou tirando fotos podem pedir para eu sair. Ok. Não é que eu vá fazer check in no Foursquare ou no Facebook!)

Eu peço uma bebida, para ficar soltinha, e começamos a olhar. Casa vazia, ainda. Música brega tocando. Cheiro de gordura saindo da cozinha. Brochante.

Damos uma volta, eu acendo um cigarro. Vamos ver o que tem lá fora?  Jardinzinho mal cuidado, algumas mesas, uma boate. Opa.  E um labirinto, como dissera o segurança. Vamos entrar?

Pérai, tem mais coisas para ver. Salas com nichos, onde havia um casal solitariamente se pegando, ela gemia alto mas me soou meio falso.

No quarto ao lado, um sofá enorme, e vazio. Sem portas, apenas cortinas.

Voltamos para o bar, e ficamos conversando, observando, namorando. E começam a chegar mais pessoas.

Pessoas mais velhas que a gente, na faixa dos 40, entre eles uma mulher bem gata, eu achei, com um cara razoável. Ele discorda, não gostou.

Começa o movimento na boate, músicas misturadas, nem sei, nem lembro. Mulheres jovens, homens mais velhos, homens jovens. Mulheres gordas. Homens baixinhos, magrinhos.

Não é a fantasia de uma festa com panicats saradas e bonitões bombados. Eu acho excitante, ao mesmo tempo que meio frustrante: não vi ninguém se pegando, poxa!

Saimos de novo, e eis que entramos no quarto com os “nichos”, onde o casal se pegava mais cedo. Agora está cheio. Eu me sinto segura ao lado dele. E pego pelo pescoço, puxo para o canto, e o beijo. Ele sobe meu vestido, afasta a calcinha, e quase gozei, de pé, só de pensar na situação.

Mas é meio desconfortável, e o lugar é acarpetado, meio que fede a mofo, e a gente começa a espirrar!

Sala do lado, a do sofá grande. Um casal. Ela de quatro, e o homem, de pé. Há outro casal, de pé, observando. Nem reparei. Ficamos na parede, encostados, eu meio sem graça de olhar fixamente. Viro de costas, beijo o queixo do meu parceiro, e o casal do sofá muda de posição. O homem se sentou, recostado, enquanto uma mulher loira o cavalga lentamente.

Entra mais gente. Eu me sento na beira do sofá, puxo meu namorado pelo cós da calça, e tiro para fora o pau duro. Os gemidos ao meu lado me excitam. A sensação de saber que há mais gente do lado me excita. Coloco o pau na boca, enquanto meu namorado me acaricia os cabelos, as costas, o pescoço…

De repente, uma outra mão. Um susto. Mas continuo. Depois, de novo, e de repente, o casal ao lado para, e uma pessoa sai da sala.

Era um homem, sozinho, na noite de casais. E parece que ele violou uma regra tácita, que eu não sei bem qual é. Mas pra mim, foi não consentido, não houve um olhar, uma permissão, nada. Cortou o clima. Não quis continuar, nem entrar no labirinto.

Não foi bem com eu esperava. Mas ao mesmo tempo, foi excitante. Descobri ser meio exibicionista.

E descobri que todo mundo faz sexo. Gordos, magros, novos, velhos, feios, bonitos. É uma constatação bem óbvia, mas que não parece, porque o que se chama de “sex simbol” geralmente vem em padronagens bem especificadas, onde não há espaço para diversidade, ou então, há um espaço bem fechadinho, nos sites de pornografia mainstream: gordas, obesas, coroas, ninfetas, negras, ruivas, loiras, velhas, asiaticas, e tudo ou quase tudo que se imagina. Como um nicho específico, quase como um compartimento.

O mais legal de ir nessa casa de swing específica foi ver quebrado esse lance, ver todo mundo “junto e misturado”.

Ainda quero voltar. Não sei se volto lá, tive noticias de homens que realmente contratam prostitutas, vão lá para “comer” as mulheres alheias e ainda contam vantagem. Achei ridículo. E me tolheu. Que droga, né?

Mas tem a outra. Ainda vamos ligar…

Eu, Sardanapalo

Foi minha amiga Patrícia que me contou a história: era uma vez (okay, não foi assim que ela começou, mas me apetece) Alexandre. Isso, O Grande (ui). Andava o moço bem disposto conquistando tudo que havia, de lá pra cá, daqui pra lá. O que havia pra ser conquistado, ele o fez. Até que. Por maior que seja o mundo (e o mundo conhecido na época de Alexandre nem era isso tudo) tem uma hora que já não há. Pois foi bem por aí que Alexandre se deparou (dizem, dizem, ou pelo menos minha amiga me disse) com uma estátua de Saradanapalo. Sobre ele, pouco se sabe. Mas havia a inscrição. Essa:

 ”Eu, Sardanapalo, filho de Anacindaraxes, construí Anquial em um dia. Comi, bebi, trepei. Todo o resto não vale isto”

Morte de Sardanapalo, Delacroix

Morte de Sardanapalo, Delacroix

Então Alexandre sentou e chorou. Há uma beleza, acho, no reconhecimento da diferença. E da dor que, eventualmente, nos causa. Acho bonito que Alexandre tenha chorado, faço questão que sim, que seja assim a história que me contaram e que repasso. Porque o desejo é o impossível. O impossível de dizer. O impossível de viver. E, ao mesmo tempo, é o que nos move, alenta, impulsiona. De vez em quando sentar e chorar faz parte.

Mas, dizia eu, era uma vez o moço conquistador, voraz, faminto do novo. E ele encontra a lembrança de um que disse: bom é o mesmo. Daí o moço conquistador sentou e chorou. Moral da história? Ué, não tem moral nenhuma. Nem tem, acho, certo e errado.

Mas acho que um e outro nos convidam a pensar. Eu sempre quis admirar Alexandre, e, em alguns momentos, o fiz: seu desejo por conquistas, sua ânsia de saber, desvelar, dominar. Sua vontade inabalável, sua coragem e certeza, todos atributos admiráveis, mas algo me escapava. Conquistar todo o mundo conhecido é realmente um desafio excitante. Mas. Comi, bebi, trepei. Me comove Sardanapalo e a convicção de que o mais importante da vida é viver. Construir uma cidade é legal, dura um bocado de tempo, com sorte se ganha até uma estátua. Mas quem reconhece que comer, beber e trepar é mais divertido dificilmente chorará ao conquistar tudo que se tem pra conquistar ou se a cidade se perder na memória do mundo.

E o que é que tem com a biscatagem? É que, suspeito, muitas vezes nos dedicamos à construção de impérios amorosos, seja na vibe conquistar todo o mundo conhecido, seja no lance garantir as fortificações do que está conquistado. Em muitos casos temos a ilusão da eternidade, ansiamos pela glória de nunca sermos esquecidos, queremos fazer História. E, nesse momento Alexandre, deixamos escapar a simplicidade do cara da estátua: comer, beber, trepar. Tudo  mais não vale isso.

Dia de memória biscate

#MemóriaBiscate #2anosBiscateSC

Do filme “Colcha de Retalhos”. Um filme biscate.

Hoje é dia de memória biscate. E memórias a gente – já – tem muitas, com apenas dois anos. Dois anos de desconstrução e de ressignificação do termo “biscate”, do seu conteúdo, dois anos de afirmação de luta à base de gargalhadas, de copos, de abraços, de choros também, de dores. Falando de comidas gostosas, que a gente também é disso. De futebol, como não. De sexo, todo dia e sempre. Falando e fazendo, quando dá. Ou não, porque tem períodos em que não. Questionando idéias prontas, transformando idéias feitas, questionando, rediscutindo, mudando de posição (que sempre é bom mudar de posição de vez em quando, já nos ensinava o Kama Sutra). Solidificando afetos, que isso também o biscate faz, todo dia. Nosso clubinho só cresce, e se alegra com seus novos integrantes. Com visitantes ocasionais. Com viajantes que passam pra dar um alô. Biscate acolhe, abraça, dá espaço. Clubinho gostoso esse nosso clubinho.

Saboroso, sacana, moleque, maroto, dançarino. Pairando, saltando, roçando, encostando, sentindo, provando, esfregando, gostando, doendo, chorando, abraçando,  acarinhando, gostando de novo. Lembrando.

Lembrando aqui de tanto caminho desde que a Niara e a Luciana tiveram a idéia de criar um blog pra se contrapor à ideia feita, pronta, difundida de que “mais vale uma mulher “incrível do que uma coleção de biscates”. Um blog que diz ao se apresentar: “Biscate é uma mulher livre para fazer o que bem entender, com quem escolher e onde bem quiser. Esse é o nosso clube.”   Parece simples? Parece fácil? Pois é luta de todo dia, nesse mundão de meu deus em que tantas mulheres não conseguem sair de casa sem autorização do marido ou do pai; não conseguem usar a roupa que querem, namorar a pessoa que querem, dançar no passo que desejam, cantar a melodia que lhes apraz. O Biscate é um espaço, que a cada dia reafirma a necessidade de estar e de dizer. De dizer contra quem machuca. Às vezes com palavras que parecem pequenas e simples. Que parecem quase nada. E escondem tanto. A gente precisa dizer muito, dizer sempre, dizer de novo.

Viva o Biscate. Longa vida ao Biscate. Que venham muitos textos, muitas fotos, muitos encontros, que a rede que a gente tece vá ficando cada vez maior, que os fios cheguem em mais lugares, que venha mais gente conversar e pensar junto e gargalhar e cair no choro e dançar com a gente, até que a gente possa, um dia – quem sabe? -, esquecer que o Biscate surgiu porque tinha gente que achava que uma “mulher incrível”  vale mais do que  uma penca de biscates. Um dia em que essa afirmação não faça mais nenhum sentido. Porque, é claro, biscates são mulheres incríveis. Desculpaê. Mas é isso, eu tinha que dizer, né?

 

 

Miosótis

Entrevista-depoimento com/da MIOSÓTIS*

Contra a violência as mulheres. São Paulo, 23/11/2013. foto: Antonio Miotto

Foto: Antonio Miotto

#fimdaviolenciacontramulher :

” Nome fictício:  (é uma flor.)

Situação: 19 anos, sem emprego, sem filhos, e sem relação com o agressor.

Relato da violência: Estava voltando para casa (4 km de caminhada a 4 anos) quando ao terminar de atravessar uma das ruas, um carro bateu em mim. O meu antebraço ficou encaixado no carro (meu corpo ficando em cima do capô) até ele parar, mais ou menos uns 100 metros do local da pancada. Depois, vários motoboys me ajudaram ligando pra minha família e depois ligaram para a SAMU. Estava muito mole e tentando recobrar a memória, mas ainda não estava sentindo dor alguma. Por alguma razão, que ainda tento entender, não quis processá-lo. Ele pedia muitas desculpas, mas continuava com um discurso de que eu também estava errada por estar a pé, por estar sozinha e estar andando à noite. Total imbecilidade. No hospital, apesar de terem tirado Raios-X do meu corpo, disseram que eu não havia quebrado nada. Uma semana depois voltei por sentir dor no antebraço, aí descobri que estava quebrado. Depois disso tudo fui a um hospital particular e engessei o braço e fiquei uns três meses achando que o osso iria calcificar, mas não havia jeito. Depois de quase cinco meses depois do acidente (até marcar e fazer todos os exames demora…), tive que fazer uma cirurgia de enxerto de células ósseas, do meu próprio quadril. Depois fiz um mês de fisioterapia e o braço parece bem melhor.

Situação do processo: Não o processei, mas ainda estou juntando as coisas para receber o dinheiro do seguro obrigatório do carro, que cobre acidentes, o DPVAT.

Opinião da vítima sobre o atendimento recebido: o posto de saúde falhou muito ao me mandar para casa com o antebraço quebrado sem eu saber. Isso agravou o estado do meu antebraço, pois se soubesse na hora, daria para colocar o antebraço no lugar e não perderia todo esse tempo com dor.

De que forma a violência contra a mulher te atingiu/atinge?
Hoje, vejo a agressão que sofri com um atentado a vida, com justificativas machistas. Hoje, não sofro violência física, mas psicológica, às vezes, como provocações quando caminho onde tem avenidas movimentadas, e antes quando pedalava.”
……………………..
*Texto originalmente publicado em novembro de 2010

Resumo Biscate e uma dica imperdível

Todo mundo com saudades do Cláudio? Por isso vamos começar o domingão biscate com ele. O Cláudio encontra uma imagem que é a cara do nosso clube, nos manda de presentinho com legenda e tudo, e a gente publica e se diverte aqui):

dica

Wild

E, no resumo da semana, uma trilogia daquelas de imprimir e distribuir pros amiguinhos. No blog Recordar, Repetir e Elaborar a Camila Pavanelli escreveu três posts pertinentes sobre a questão do ravenge porn:

O Problema Mesmo é o Machismo: ”O problema não é que ela transou. O problema não é que ela tirou foto enquanto transou. O problema não é que o ex-namorado é louco e/ou mau-caráter e ELA deveria ter arrumado homem melhor. Em suma, o problema não é que ela estava usando minissaia, como costumam dizer em caso de estupro”. (leia o post completo aqui)

Precisamos Falar Sobre Sexo: Eu acho, em suma, que um dos caminhos possíveis é falar mais sobre sexo. Com mais gosto e mais vontade. Mais biscatagem e mais zuêra. Sexo, afinal, não é uma coisa para ser levada assim tão a sério. Lembro de uma entrevista em que o baterista T. S. Monk se queixava da seriedade e da sisudez de jovens músicos preocupados em “resgatar a tradição do jazz” e coisas assim. Ele disse algo que nunca esqueci: “olha, eu vou dizer o que é um assunto sério – a guerra é um assunto sério. Quando estou tocando, eu quero é me divertir”. E é isso. É tão isso. Sexo não é para ser “encarado com responsabilidade”. Vamos deixar a responsabilidade para a hora de pagar as contas, gente. Sexo é para desfrutar, gozar, se divertir e se apaixonar. (leia o post inteiro aqui)

Precisamos Ouvir Sobre Sexo: Se nós, os velhos jovens de outrora, quisermos realmente oferecer algum apoio aos jovens de hoje em dia, a primeira atitude a tomar não é sair dizendo o que eles devem ou não devem fazer. (Especialmente em se tratando de um assunto tão delicado quanto sexo! Você gostaria se lhe dissessem “olha, eu sei que você gosta de transar na posição X, mas você está errado: a posição Y é melhor pra você”? Então por que você acha que um adolescente gostaria de ouvir você dizer que a transa dele deve ser assim ou assado?). A primeiríssima coisa a fazer é, simplesmente, ouvir. (leia o post inteiro aqui)

E no Biscate?

Por aqui tivemos, de trás pra frente: o delicioso perfil da Niara, uma descoberta alegre, uma conversinha sobre ser boa de cama, uma manifestação poética e um post arrasador sobre o que fazemos com e da vida.

Uma homenagem como uma flor

E, numa semana de tantas discussões, debates e confusões, de tanta energia gerada e dissipada, de tanto grito não-ouvido, eu queria deixar uma homenagem e evocar uma memória. Uma homenagem como uma flor branca à beira mar. Pousada na espuma. A flor branca, como homenagem, vai pra um guerreiro suave. Que já foi pra outras aventuras. Um guerreiro que tava aí na luta, com persistência, com teimosia, com garra sempre. Um guerreiro-caranguejo, como seu signo ascendente, que sabia andar de viés. Sabia parar, sabia ouvir, tentar entender as razões do outro, pra fazer uma pausa e voltar então por outro caminho, com novas palavras que cabiam melhor, que seriam mais bem acolhidas. Que seriam ouvidas, talvez.

Um cara que sabia que esperar não é desistir, se a vontade existe. Se a confiança no caminho existe. Sabia que há adversários e adversários, e que nem sempre a confrontação direta é o melhor jeito. Até porque certos adversários nem sabem que são adversários: muitas vezes crêem, ingenuamente, estar do mesmo lado que a gente. E até querem estar. Só que por força das circunstâncias, pelo olhar sobre o mundo a que foram acostumados, pelo ângulo da janela onde estavam, por tantos motivos, tantos, atrasam a luta em vez de fazê-la avançar.  E aí? O que fazer? Descartar? Confrontar?

“O malandro anda assim de viés”. Come pelas beiradas. Escuta as razões e os sentimentos. Presta atenção na intenção. E na intenção é que foca pra ir além. Porque a resposta pode estar errada, pode não ser a ideal nem a que a gente queria: mas o que era que se estava tentando dizer? Ele recomeçava devagar, argumentava com voz mansa, dava exemplos, movia os dedos longos enquanto tentava explicar da melhor forma, com imagens, com histórias. Generosidade na luta é entender que nem todo mundo chegou onde você chegou, e isso ele tinha de sobra. Tem hora que é preciso parar, dar um calço, botar um apoio pra que os outros venham também. Os outros, e alguns daqueles a quem a gente chama de adversários. Que não o são necessariamente. Há que respirar, há que incorporar olhares e contares, sem perder o foco de vista. É ali que a gente quer chegar: qual é a parte do caminho que dá pra gente fazer juntos? Qual a sua bagagem, quais as suas dores, quais as suas esperanças? Essas as perguntas que importam, que devagar também é pressa.
E ele sabia.

Fica a flor, fica a beira-mar, a saudade dos dedos longos, da fala mansa, da generosidade. Fica a evocação, pra que nos ajude na caminhada. Que ainda é longa. Que ainda será.

Vera

Vera. foto: Antonio Miotto

Vera. foto: Antonio Miotto

“Dinâmica, alegre, com muita fé e de bem com a vida, esta sou eu, casada há 21 anos e com dois filhos maravilhosos e um trabalho que me faz ser produtiva, criativa e ligada no 220, uma vida “normal”, até receber o diagnóstico de um carcinoma ductal invasor – em outras palavras, um câncer de mama.

Como em um flash e em questão de minutos voltei ao passado e relembrei minha história e muito mais rápido não enxerguei o futuro e logo prospectei seis meses de vida. Tinha a sensação de não pisar no chão e o vazio e dor no peito eram grandes, tal era o medo que sentia.

O impacto da notícia refletiu no medo das perdas, o arrependimento de não ter vivido melhor, de ter amado muito mais, de viver cada segundo como se fosse o último, de caminhar ao sol, de simplesmente viver.

A primeira semana foi de lágrimas e de pensamentos desordenados e impulsivos, totalmente sem equilíbrio mental e espiritual, comecei a organizar documentos e deixar tudo pronto para que minha família tivesse acesso à tudo com facilidade. Ao ver meu marido e filhos não conseguia me conter e posso dizer que foi a pior semana da minha vida.

Apesar de saber que existem hospitais e tratamentos avançados para o câncer, neste momento não conseguia enxergar as possibilidades que estavam ao meu redor e por momentos achei que não fosse conseguir.

Vera Lúcia Ribeiro. SÃO PAULO/SP, Brasil 09/11/2013. (Foto: Antonio Miotto)

Porém, como iniciei o texto, não poderia me entregar sendo eu tão dinâmica, alegre, cheia de fé e de bem com a vida e após uma semana de lágrimas pensei: tenho duas escolhas, lutar ou desistir mesmo antes de tentar. E com muita fé, coragem e determinação fui em busca do meu tratamento e da minha cura.

Foram exatamente dois meses até a cirurgia de mastectomia radical em fevereiro de 2012, seguida por 16 sessões de quimioterapia e 28 radioterapias, completando o ciclo parcial do tratamento, que me deixou sem cabelo e sobrancelhas e com cicatrizes no corpo devido as intervenções necessárias. Nos próximos anos, até completar cinco, vou estar recebendo um medicamento e fazendo os exames e retornos necessários até a alta final dos médicos.

Foi um tratamento longo, cheio de surpresas inesperadas no caminho, fiquei sem forças, sem ânimo, sem apetite e sem dúvida, me sentindo feia, porém, sou grata a Deus porque a cada dia sentia Sua presença através do tratamento bem sucedido e da melhora constante.

Em nenhum momento deixei de trabalhar e estudar e poucas foram às vezes que deitava para descansar, sabia que tinha que lutar e ser forte e determinei que não iria mudar a minha rotina por conta do tratamento.

Cursando o 3º ano do Curso de Serviço Social cheguei a pensar em trancar a faculdade, tendo em vista a fraqueza do meu corpo e da minha mente em raciocinar, devido a quantidade de medicamentos, porém, meu grupo sempre presente, quase todas as noites me buscava em casa e não me deixaram desanimar e com isso estou alcançando o tão sonhado diploma.

Hoje após este período de lutas e vitórias, tenho certeza que me tornei uma pessoa melhor, como esposa, mãe, amiga e entendi que enfrentar um câncer, nada mais é do que enfrentar a própria vida de corpo e alma, de cabeça erguida, de viver intensamente e verdadeiramente, sem medo de arriscar, de tentar, de sonhar, de lutar pelos nossos objetivos, independente dos obstáculos que vamos ter pela frente – somos mais fortes – é nosso dever cumprir com a missão que nos foi delegada por Deus … que é viver.”

Vera Lúcia Ribeiro. SÃO PAULO/SP, Brasil 09/11/2013. (Foto: Antonio Miotto)

Resumo com cheiro de festa

Domingão rima com resumão. Então, sem delongas, vamos dizendo que foi uma semana de inquietações. Na segunda tivemos Raquel e sua pergunta Você ainda sente?, na terça-feira a bisca-graúna-borboleta tava aqui, nos cutucando sobre as Escolhas, na quarta a bisca-convidada que assina como Fred também tinha uma questão: O que é que eu vou fazer com essa tal liberdade?, na quinta a Jeane nos deu um respiro, ainda era uma pergunta, mas com uma dica: não é o tamanho do pé, mas o passo que damos com ele, tá lá, no post Vergonha dos Pés?, sexta-feira foi dia de mais uma convidada, a Cristina, num ritmo gostoso nos contando como é ser uma #Biscate #Platônica.. e fechando a semana, no sábado, temos as belas fotos do Toni Miotto nos apresentando Artistas Latinas.

Mas esse domingo não é só de resumo, é também de festa! Toda bisca celebra o aniversário da nossa bisca-menina-moça-mulher Cláudia Gavenas.

todo mundo na festa bisca da Claudia

todo mundo na festa bisca da Claudia

Cláudia chegou no clube um pouco tímida, um pouco arisca, bisca em formação, olhos arregalados e muita beleza pra dizer. E disse. E fez. E se fez. E, no processo, foi encantando. Biscateando. Sentindo. Sendo. Linda, inteligente, terna, é um prazer compartilhar esse clube com ela. Assim, no lugar de irmos espiar o que a biscataiada tava fazendo e dizendo em outubro do ano passado, vamos deixar aqui seis posts da Cláudia pra você comemorar conosco essa linda caminhada rumo à biscatagem:

Primeirão, com o sugestivo título: Como nasce uma biscate?.

A sua #AlmaBiscate: Prefácio

Toda biscate reconhece o #ErotismoEmNós: Verdes

E um chega pra lá nas Receitas Indigestas

Biscateando em marcha: Somos muito vadias. Quanto mais vadiagem, melhor!

O mais recente: Isso também é assunto meu.

E nosso momento gostoso com o Cláudio vai como um presente/dica pra aniversariante do dia (todo mundo lembra, não é? O Cláudio encontra uma imagem que é a cara do nosso clube, nos manda de presentinho com legenda e tudo, e a gente publica e se diverte aqui):

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Deixa..

As desvantagens de ser invisível – malcriações translésbicas

Por Fernanda Monteiro**, Biscate Convidada

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Esse texto faz parte da 1ª Semana de Blogagem Coletiva pelo Dia da Visibilidade Lésbica e Bissexual, convocada pelo True Love

Sabe, adiei muito a confecção deste texto, que me fora encomendado com carinho pela minha eterna @deb_em140gotas, essa bárbara (permito-me o trocadilho). Adiei por me sentir inapta a expressar a dimensão do tema, quanto mais de forma competente como retratados aqui, aqui e aqui, textos que condensam tanto do que disse que até servem como glossário para este (e tantos outros aquis e tantas outras vozes, que me senti encarregada de, antes de escrever, expressar minha pouca voz com outras pessoas transfeministas na intenção de fazer algo um pouco mais colaborativo – não deu em muito, razão abaixo, mas vai do meu jeito mesmo, ainda assim).

Adiei porque não sou qualquer voz de respeito neste meio, ao contrário, venho cavando afonia e me sinto cada dia menos trans, menos negra, menos feminista, menos escritora. Sinto-me à vontade para dizer que sou uma futura stealth* (futura? já ajo como tal se não me solicitam, não fossem os perjúrios com documentação e todo o processo legal que persiste em nos tornar inviáveis, além do mais), sou um paradoxo ao escrever este texto por ser quase invisível o bastante para torná-lo absurdo.

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E por fim ao dizer isso já conheço os adjetivos todos a seguir: dramática, vitimista, histriônica. A cada palavra me convido a ser uma voz a menos em um universo em que eu, predominantemente lésbica (contudo melhor adequada sob o chapéu da pansexualidade), longe dos nichos translésbicos, me sinto convidada a possuir outro genital para exercer qualquer direito à minha sexualidade. Exagero? Não em um mundo cuja ótica genitalizadora te relega a certa sorte ao invés de ciência, à chance de ser “aceita”, mesmo que a diferença que tal “apetrecho” faça seja nenhuma – há poucas semanas, poderia dizer que nunca foi sequer utilizado, agora não mais; o que, embora não devesse ser um relato digno de culpa ou crime, e sim libertário, serve a muito como uma prova irrefutável da sua “virilidade” (sic). A sensação, para mim, é a de dildo de carne. Mas assim como não importa como seu cérebro te faz sentir pertencente a um determinado gênero e identificar-se com seus padrões (e suas quebras, especialmente), muito menos como seu corpo se comporta. Mais uma vez, desnecessária.

E assim, soando cada vez mais vocífera e dolosa. Meu discurso segue invisibilizando, e aos poucos vou fazendo questão do papelzinho incutido pela segregação nada soror de “pessoas normais”, machistas, radicais feministas. Pessoas. É um texto sobre como se jogar na cumplicidade. Sobre como não ser considerada audível. Sobre como continuar sendo considerada perigosa, violenta, ameaça a algo que você continua buscando a preços absurdos caso escolha tal discurso, a feminilidade. Aquela de caixinha e com um rótulo bem grande: contém padrões barrocos, euro-centristas e masculinos. Ou sobre como continuar taxada e demonizada, jogada na outra caixa, de vítima, que como tal pode ser culpabilizada por suas “más escolhas”.

Enfim, é um texto sobre como ser invisível. E ao contrário do personagem do best-seller de Stephen Chbosky devidamente referenciado, enxergar que não há nenhuma vantagem em sê-lo. Conforme-se, viva uma vidinha normativa e goste de homens “como qualquer mulher faria” (sic). Aí, eventualmente, seja reconhecida como tal. A outra opção sequer se critica. Existe gente bem melhor para falar das venturas da liberdade sexual, da liberdade amorosa, de como é interessante ser visível em um nicho que se pratica, que veste intersecionalidade.

Eu existo. Mas provavelmente estas são as primeiras e últimas palavras menos tímidas que me disponho a escrever. Fiquem aqui pelas pessoas trans* lésbicas, pansexuais, demisexuais, assexuais, e demais transcrições da expressão afetiva e sexual cuja definição parte da identidade de gênero e não do modelo genético, e cuja forma de expressão é irrestrita e criativa como a quase totalidade da expressão humana. Fique por quem importa e tem ou precisa de uma voz. Eu existo, mas por mim, um sumiço a menos já não faz a menor diferença.

* Stealth: significa “disfarce”, “camuflagem” ou até “invisibildade”

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**Fernanda Monteiro, nascida em um dia (gerado por computador) de 85, faz um pouco de tudo e um muito de nada, música pra ter voz, escrita pra ter discurso. Pode até parecer que não tem orgulho de ser uma mulher transexual, mas na verdade não tem orgulho é de ser humana.

Lésbicas e famosas

Eu não sou lésbica nem bissexual e, por mais que empatize, reconheço que não faço ideia do que é sofrer diariamente com o preconceito, do que é crescer duvidando do seu desejo, do que é se sentir “por fora”, do quão dolorido deve ser viver olhada e rotulada  como “fora da ordem”.

Uma das dificuldades que vislumbro (me corrijam se for um equívoco) é crescer sem ter referências, personagens e personalidades caracterizadas positivamente com as quais se identificar. A cultura, heteronormativa, não cessa de apresentar indicações de casais, situações e pessoas hetero admiráveis mas silencia e escamoteia pessoas, situações e casais lésbicos ou bissexuais. O exercício da sexualidade da mulher, alvo de repressão de maneira geral, é acentuadamente suprimido quando é exercido por duas mulheres, penso eu.

Pensando nisso preparei essa lista de pessoas que se destacam/destacaram e que viveram as dificuldades e as belezas de serem lésbicas ou bissexuais. Decidi citar apenas brasileiras porque a) é um pouco mais fácil achar listas com lésbicas famosas de outros países (por exemplo, aqui); b) no que tange a identificação, quanto mais próxima de nossa realidade, mais simples e construtivo o processo e c) elas são lindas, são fortes e conseguiram lidar com a cultura machista e lesbofóbica brasileira. tentei colocar link em cada uma para, caso haja interesse, saber mais sobre elas (mas não consegui de todas). Voilá, a lista:

Cássia Eller, cantora e violonista, artista brasileira de grande destaque no rock brasileiro. Bissexual, morava com sua parceira Maria Eugênia Vieira Martins, que ficou responsável pelo filho de Cássia quando esta morreu.

Valéria Melki Busin, lésbica, envolvida em ações de visibilidade e respeito pela diversidade, psicóloga e trabalha na organização Católicas pelo Direito de Decidir. É autora de dois livros publicados pelas Edições GLS: O último dia do outono e Lua de prata.

Laura Bacellar, escritora e editora brasileira, fundadora da primeira editora gay brasileira.

Marina Lima, bissexual, cantora, compositora e apresentadora, artista brasileira que fez sucesso principalmente nos anos 80 e 90.

Jéssica Andrade, a “Bate-Estaca”, lésbicaparananese e lutadora de Ultimate Fighter. 

Daniela Mercury, baiana, cantora, compositora, dançarina, produtora, atriz e apresentadora de televisão brasileira e que recentemente assumiu um relacionamento com a jornalista Malu Verçosa.

Filipa de Sousa, portuguesa residente na Bahia que foi perseguida, presa e açoitada durante a Inquisição por práticas nefandas, a saber: ser lésbica.

Mayssa Pessoa, paraibana, goleira da seleção feminina de handebol.

Simone, cantora de destaque na MPB, casou com Ìsis de Oliveira em um ritual religioso alternativo na décado de 80.

Preta Gil, cantora, atriz e apresentadora assumiu sua bissexualdiade no 8º Seminário LGBT na Câmara dos Deputados.

Cassandra Rios, escritora brasileira, uma das autoras mais vendidas dos anos 60 e 70. Também foi uma autora perseguida pela censura na época da ditadura dado o conteúdo de sua obra, que era considerada pornográfica, ao tratar de temas tais como homossexualidade feminina e relação entre sexo e religião.

Ellen Oleria, cantora brasiliense que se destacou ao solicitar que a Rede Globo creditasse como namorada, Poliana, sua companheira que a acompanhava na competição.

Vange Leonel, paulista, cantora, compositora e escritora.

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Resumão Biscate

E se hoje é domingo, é dia de biscatagi relembrada, nosso resumão semanal… E, olha, espiando os posts de agosto do ano passado devo dizer que foi uma semana muito, muito inspirada, com as biscates afiadas ao percorrer um caminho que vai da desconstrução da traição até uma inesperada biscatagem cinematográfica com Bond, James Bond.

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A semana começou, em 2013, com a Fome da Raquel e nós salivamos juntos. E o que estávamos degustando nesse dia em 2012 (eu sei, eu sei, piadinha tosca)? Uma conversa boa com a Liliane Gusmão sobre o filme Bonequinha de Luxo: “o filme está cheio de mulheres biscate, que bebem, que fumam, que tem casos extraconjugais, que sustentam seus amantes. Mulheres que não se encaixam no padrão ‘boa moça’, ou ‘mulher de respeito’ de 2012 quem dirá dos anos 60. Essas mulheres estão protagonizando suas vidas e suas escolhas. Buscando a satisfação sexual que a vida dentro dos padrões não lhes proporcionou. O que pode ser mais biscate do que o inconformismo, do que a busca, do que o questionamento, do que a incerteza?”

No dia 13 de agosto de 2013 tivemos o Flerte da Sílvia Badim. E no ano passado a biscatagi também era lírica e poética, com os Impasses da Raquel: “Há muito tempo resolvi dizer o que penso. Não me calo diante do desejo. Então quando hoje verbalizei o “morra!” foi uma forma de dizer que eu desejo que você morra para mim. Dentro de mim. Não para o resto do mundo. Ou materialmente.”

Dia 14 de agosto foi dia de pergunta no nosso clube, a bisca-borboleta indagou: Você Não Acredita No Amor? e foi logo adiantando que ela não acredita não e disse porquê. Em 2012 outra das idealizações românticas estava sendo desconstruída no texto da Sílvia Badim sobre a Fidelidade Biscate: “Porque quando a gente escolhe e – de repente – a gente escolhe, a gente escolhe pelo desejo mais profundo de poder ser. A gente não escolhe porque precisa, porque quer modelo, porque quer segurança. A gente escolhe porque quer ser feliz pelo que vem de dentro. Talvez essa seja a grande vantagem de se relacionar com uma biscate: a gente tá porque quer. Porque a gente sabe que pode não querer, e tudo bem.”

E teve estréia de biscate-escrevente-fixa essa semana, Jeane Melo chegou no dia 15 de agosto com sua declaração de desejo: Você, meu koi no yokan. E em 2012 também rolava solto o desejo, com a intermediação da tela grande, enorme, imensa (ui). Nossa bisca-convidada de além-mar, Teresa declarou: A Girl é Dele! Porque “ao contrário da opinião corrente, James Bond não é um mulherengo nem um D. Juan. É  um homem que gosta de mulheres. Que gosta muito de mulheres.  Não é um abusador, não é  um agressor. Não é violento no contexto de uma relação  amorosa. É um sedutor, mas a sua conduta  nunca é cruel, nunca humilha ou diminui as mulheres. Nunca as rotula.”

Dia 16 de agosto foi dia da Sara falar das suas Perdas. E em 2012, pelo visto, quem tava perdendo era o moço que recebeu recadinho do coração da bisca-borboleta Luciana em sua Carta Aberta (ou melhor, arreganhada): “é assim que partilho minha vida, minha cama, meu corpo: com quem fica feliz por estar justo ali, no meu querer, entre as pernas, no meu riso. Eu nunca andei com balança pro afeto e não me pergunto se você gosta mais de mim. Meu espelho de madrasta da branca de neve já quebrou e deixei os cacos na estrada, refletindo o sol. Não me importo se alguém gosta mais ou menos. O que me interessa é se gosta. Se quer. Se sabe chegar. E, ainda mais precioso, se sabe partir. Se sabe seguir com o coração em festa. Se sabe deixar o meu assim, mesmo que um pouco vazio por uns dias”.

E o nosso clube tem biscate valente, sabida e crítica, ontem a bisca Renata Lins colocou o dedo na ferida da polêmica da Capricho e reafirmou nossos princípios: Biscate é pra tudo. E no ano passado, o que se estava aprontando? A Lis Lemos fazia um mea culpa lembrando os preconceitos que machucam, especialmente as adolescentes com ar biscate ao recordar a Estela: “Os desprezados a xingavam. Para eles, Estela era puta, galinha, vagabunda. Despeito e machismo exalando de poros tão jovens. Os preferidos também teciam comentários terríveis sobre a menina. Machismo daquele tipo que separa mulher pra casar e mulher pra transar. Ninguém nunca quis namorar Estela.”

E já finalizando a semana, enquanto estamos aqui nesse revival interessante e divertido, em 2012, no dia 18 de agosto, a Traição voltava a ser pauta, com Renata Lins e O Nome do Jogo: “Ninguém quer ser “traidor”. Mesmo que o que se chama de traição seja um tipo de honestidade. Com nossos próprios desejos. Com nossa própria integridade, nossa própria liberdade. Que tenha como arcabouço uma ética que não inclua a hipocrisia amorosa. Até porque, né. Nada é assim preto no branco. Tem zonas cinzentas, tantas gradações. Tem os que são, é certo; mas também tem aqueles que talvez. Aqueles que quem sabe. Aqueles que às vezes. Aqueles que não era pra ser, mas. Aqueles que quando viu, já foi. Aqueles que a gente nem viu quando foi. Aqueles que um dia. Amanhã ou depois. E aí, como fica?”

Então amigo/amiga biscate, aproveita esse domingão e mergulha de cabeça nesse baú de biscatagem que, eu garanto, a sua resposta vai ser sim quando, acendendo um cigarro e virando de lado a gente perguntar: e aí, foi bom pra você?

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