Sextas de Nova: Especial Xô Crise!

Por *Bia Cardoso, Biscate Convidada.

Olá Amiga-Mulher-Enlouquecedora-De-Homens, já estamos há algum tempo sem nos ver, não é mesmo?

As notícias não são boas, nossa amada Revista Nova mudou de nome e agora é Cosmopolitan, enquanto eu e você continuamos na catuaba, lutando pelo macho bezuntado com inhame de todo dia. Porém, nada de tristeza, pois como diz o comercial de produto de limpeza: estamos aqui pra brilhar! Agora juntaram várias revistas com dicas imperdíveis no Portal M de Mulher e podemos dançar na velocidade cinco da sedução.

Oi? Tô aqui super gata, me querendo muito e enlouquecendo meu homem com essa peruca gigante que virou um casaqueto em dias de frio.

Oi? Tô aqui super gata, me querendo muito e enlouquecendo meu homem com essa peruca de carnaval gigante que virou um casaqueto em dias de frio.

Você podia estar assistindo novela turca. Você podia estar cantarolando alguma música de Wesley Safadão. Você podia estar pesquisando a cura para a volta da calça pantalona curta. Porém, sabemos que tudo que você quer é enlouquecer um homem. O problema é que a crise está aí, afetando também o mercado de relacionamentos, fazendo seu PIB sair pela calcinha, inflacionando suas metas fiscais sexuais. Para resolvermos isso, agarro sua mão e indico 5 matérias que vão fazer seus juros subirem pelas paredes:

– 25 verdades que não contamos sobre relacionamentos longos.

Como diz a famosa pensadora contemporânea, Patricia Guedes: “A linguiça tem que ser muito boa para aguentar o porco inteiro”. Após tanto tempo num longo relacionamento é normal ter crises, mas esses são também momentos de oportunidades para pensar no bacon nosso de todo dia. Portanto, vale lembrar que segundo a matéria, calcinha de algodão e camiseta rasgada só depois de uns aninhos de relacionamento. Vai rolar preguiça de transar porque ninguém tá afim de constituir família. Seu humor e seus problemas emocionais infelizmente não serão passíveis de viver eternamente na gaveta da cozinha. Porém, a dica imperdível para manter a chama do amor acesa está bem no começo: 4. Soltar pum de propósito achando que é engraçado…

– 20 verdades que as mulheres casadas escondem das amigas solteiras.

Imagina uma revista feminina que não promova o eterno embate: casadas x solteiras? Mas nem no sonho maluco do Gugu veremos algo do tipo. Tal qual time de futebol, precisamos dessa divisão para expressar toda inveja que temos umas das outras, não é mesmo? Portanto, pegue seu celular e divida todos os seus contatos entre quem colocou o bambolê no dedo ou não, e siga as dicas para levar sua amiga solteira a mais uma comédia romântica que seu gato terá vergonha de ver.

Entre todas as dicas para ser uma amiga muito chata, do tipo que ganhará mute em todas as redes sociais logo que isso for possível, a melhor é: 3. Aproveitamos quando vocês rompem com seus namorados para sentirmos alívio porque, por pior que o casamento às vezes possa ser, pelo menos não estamos mais procurando alguém com quem sair. Um brinde de cosmopolitam às mulheres que preferem ver as outras na pior para se sentir bem. Tim Tim!

15 dicas para apimentar o ato sexual.

Até que enfim chegamos no momento empreendedorismo com Kama Sutra no Sebrae. Pule o papinho de que o segredo do orgasmo feminino é focar na mente ou que um bom desempenho sexual requer autoconhecimento, vá para o final da apostila e foque nessas duas dicas bem descritivas: 9. Esprema o pênis dele com as paredes da vagina por longos períodos. É infalível para intensificar o prazer masculino. E o feminino também. 12. O sexo oral precisa de técnica para ser executado. Segure o pênis de modo firme. Depois morda delicadamente as laterais. Beije, dê lambidas, faça movimentos de sobe e desce e simule que o engole. Esses são os segredos da perfeição. Realize os movimentos devagar e observe as reações dele. Depois é só jogar tudo na panela com óleo de coco, ferver por meia hora e servir com um purê de mandioquinha. Se você fazia sexo oral com outra receita antes, sinto informar que essa talvez não leve leite.

25 Dicas para fazer qualquer homem delirar na cama.

QUALQUER HOMEM! Eu disse: qualquer homem! A gerente ficou maluca: QUALQUER HOMEM! Se seu homem ainda não está delirando, provavelmente você não está jogando o remedinho certo no café dele. Mas agora tudo dará certo. Depois de estudar a Zona P e de esfregar o suvaco nos lábios do bonitão, decore e salve no celular as dicas mais importantes dessa autoescola sexual: 9. Passe a língua de um lado do pênis e os dedos molhados do outro. O gato terá a sensação de que está sendo beijado por duas mulheres. 10. Envolva a base do equipamento dele com a língua e estimule a cabeça com os dedos, bem de leve. 12. Forme um anel com o polegar e o dedo indicador. Envolva a cabeça do pênis com o anel da mão direita e a base com o da esquerda. Faça os movimentos em direções opostas. Com essas três dicas tenho certeza que você se sentirá numa suruba dentro de um fusca, realizando mais uma fantasia automobilística vintage.

5 dicas para ter um orgasmo mais poderoso.

Vamos continuar com nossas apostilas em mãos nesse maravilhoso Pronatec Sexual. Nesse momento você precisará de uma trena, uma chave de boca, uma lixa, um medidor de pressão e um clipe de papel. As regras básicas são: preparar, provocar, excitar e torturar. Porque se você achou que o orgasmo era pra você, se enganou, Gatuxinha! Estamos aqui para sovar essa massa masculina chamada homem.

O início é moleza: lingerie, caras e bocas no espelho, sensualidade com a escova de dente. No segundo passo, tem que rolar umas beliscadas e ele tem que ficar ofegante de tesão, talvez seja necessário providenciar um oxigênio.

A terceira parte é que parece difícil, mas basta seguir as instruções: A essa altura, seu parceiro já estará implorando por carícias no pênis. Seja firme! (Prenda o buzungão dele com a chave de boca). Peça para ele virar (180 graus) e esfregue seus mamilos nas costas dele, massageando-o. Agora arranhe o bumbum do gato (até ele gritar: Miau!) e pressione as nádegas com a ponta dos dedos (fazendo pressão no local para não ficar roxo). As duas dobras logo abaixo do bumbum, entre o tronco e as pernas (alinhadas 90 graus com a linha do Equador), são muito erógenas para os homens. Pressione os polegares delicadamente em cada uma delas, deslizando no sentido horizontal. Depois desça seus três primeiros dedos em direção ao pênis (Apenas os três primeiros!). Ele está desesperado? Ótimo!

foto_bia*Bia Cardoso é feminista e lambateira tropical.

O amor que não precisa ter nome

Por *Bia Cardoso, Biscate Convidada.

A Iara tem feito vários textos sobre a novela Sete Vidas, que está na reta final sendo exibida na Rede Globo. Também sou fã da trama e hoje quero falar sobre dois personagens em especial: Eriberto e Renan.

Eriberto é um homem requintado, leiloeiro que gosta de bons jantares e preza muito a amizade das pessoas. Ele é casado com Marta, metódica e ambiciosa. No início da trama, havia uma suspeita levantada em diálogos se Eriberto era gay, mas nada foi comprovado. Essa suspeita só retornou quando Renan apareceu na trama. Dentista que também gosta de prazeres refinados, foi Marta quem os apresentou sabendo que se dariam muito bem.

Acontece que tanto Eriberto como Renan são casados com mulheres. Aí, nossa curiosidade mórbida sobre a vida alheia fica naquela expectativa: são gays? não são? o que é isso? A melhor parte é que Lícia Manzo, autora da novela, não parece estar preocupada em definir o que Eriberto e Renan são, mas sim em nos presentear com cenas maravilhosas em que os personagens mostram uma intimidade e um amor tão pungente que chegam a ser mais explícitas que um beijo na boca.

Há algo nas cenas cotidianas, como a visita a casa de Petrópolis ou a compra de um terno, que mostram uma amizade até rara de se ver entre dois homens. Porém, foram nas cenas ocorridas após o falecimento do pai de Eriberto que mais transpareceu esse amor sem nome ou carteirinha registrada. O olhar entre os dois quando Renan consola Eriberto é a representação física da empatia e do acolhimento entre duas pessoas. Além desse, há o momento da cerimônia das cinzas e a decisão de Renan presentear Eriberto com um relógio antigo.

Os atores Fábio Herford e Fernando Eiras declararam que essa é uma história de amor e paixão cheia de afinidades e fraternidade, mas sem beijos e carícias. Até mesmo o fato de serem dois homens mais velhos representa uma nova forma de apresentar um relacionamento em novelas. É claro que queremos ver nas novelas e em outras produções culturais muito beijo na boca e sexualidades que fujam da heteronormatividade, mas ao defender todas as formas de amor também é preciso lembrar dessas outras vivências do verbo amar.

Eriberto (vivido pelo ator Fábio Herford) e Renan (vivido pelo ator Fernando Eiras) em cena da novela Sete Vidas (2015).

Eriberto (vivido pelo ator Fábio Herford) e Renan (vivido pelo ator Fernando Eiras) em cena da novela Sete Vidas (2015).

foto_bia*Bia Cardoso é feminista e lambateira tropical.

 

Uma negra na capa da Playboy

Por *Bia Cardoso, Biscate Convidada.

Quando era criança, o mês de maio era celebrado como o “mês das pessoas negras”, por causa da assinatura da Lei Áurea. Com o fortalecimento e ampliação do movimento negro, o mês de novembro passou a concentrar as demandas de luta e cada vez se fala menos na “abolição da escravatura”. Esse foi um dos primeiros pensamentos que me ocorreu ao ver que na edição de maio da revista Playboy brasileira, havia uma mulher negra na capa.

Ivi Pizzott é bailarina do “Domingão do Faustão”. A nona negra, em toda a história de quase 40 anos da revista no Brasil, a sair na capa. Meu pai assinou por anos a revista e, em minha memória, só consigo lembrar de Isabel Fillardis, num cenário de dunas.

Ivi Pizzott na edição de maio/2015 da Revista Playboy Brasil.

Ivi Pizzott na edição de maio/2015 da Revista Playboy Brasil.

As primeiras críticas que vi, falavam que não há nada de novo em ter uma mulher negra sexualizada na capa de uma revista. Não há empoderamento, não há representatividade. É fato que na mídia a mulher negra é ou hiperssexualizada ou invisibilizada, e nos contextos capitalistas o poder dificilmente muda de mão, mas me questionei: nos dias de hoje, essa capa da Playboy pode representar algo?

Se a Playboy existe, num mundo em que corpos femininos são comercializados para o prazer, especialmente masculino, o fato de termos apenas 9 negras num universo de mais de 400 edições da revista é a comprovação que os corpos dessas mulheres não servem nem mesmo para essas revistas, são cruelmente mais descartáveis.

Trago para a reflexão um texto, que considero clássico, de Charô Nunes: Deixar de ser racista, meu amor, não é comer uma mulata! A maioria dos elogios feitos as mulheres negras foca em seus atributos físicos opulentos, retirando-lhes humanidade, colocando-as no açougue, exatamente o trabalho de uma revista como a Playboy, que vende corpos femininos. Especialmente tendo uma capa que remete a etnicidade com os acessórios e exibe o cabelo de Ivi como uma grande coroa, temos a referência animalesca com a chamada que diz “solta suas feras”. Uma questão parece ser o espaço social que o racismo nega e que ainda mantem negras e negros acorrentados a representações legitimadas pela branquitude. O mesmo cabelo que na capa da Playboy é destaque e elemento componente da construção do desejo e apelo sexual, em outros é ridicularizado e tratado como abjeto. Não parece ser a mulher negra que decide como seu corpo lhe agrada mas a narrativa, as fotografias, os discursos externos que são feitos sobre esse corpo.

Porém, negras e negros também são pessoas que desejam, também são corpos desejantes, que muitas vezes gostariam de ver mulheres e homens negros lindos, gostosos, sedutores, todo mês em revistas que pudessem ser folheadas com prazer. A expressão da sexualidade acaba por ser mais um espaço a ser conquistado, um espaço em que negras e negros não precisem existir apenas para servir, apenas para ser a bunda do carnaval ou o maior pênis da festa gay.

Então, há essa luta pela liberdade dos corpos. A luta por uma estética que não seja eurocêntrica, exotificada, ridicularizada ou hostilizada. É preciso reconhecer que a objetificação do corpo das mulheres negras ocorre de formas diferentes a da mulher branca, portanto é preciso levar em consideração também outras formas de representação e vivência de sua sexualidade.

E há inúmeras perguntas que acompanham: o protagonismo individual de Ivi Pizzott pode significar ganhos dentro da teia capitalista, que vislumbra um poder também individual? Porque posar nua, ver-se nua numa revista famosa, traz novas formas de se olhar. Talvez seja também o sentimento que carrega a passista nua da escola de samba, que tem no momento do desfile o seu auge individual. Coletivamente, para as mulheres negras não há mudanças, mas individualmente pode haver significados diversos? E caso sim, como acolhermos e legitimarmos os desejos e ações individuais sem perder de vista os compromissos coletivos de transformação da realidade?

É uma capa da Playboy, mas é bom que até isso seja o catalisador de novas perguntas sobre o protagonismo das mulheres negras.

+Sobre o assunto:

foto_bia*Bia Cardoso é feminista e lambateira tropical.

 

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