O dia que fui crucificada: A migalha, o desserviço e a necessidade de maturidade política nos ativismos identitários

Por Helena Vieira*, Biscate Convidada

No ano passado, escrevi a matéria da capa da Revista Galileu de Novembro, sobre gênero. Aquela foi a primeira vez que uma pessoa trans havia escrito, para uma revista de circulação nacional, uma matéria de capa. E foi também uma das poucas matérias a abordar a questão da transexualidade fora do viés patológico, trazendo relatos e vivências e pensando nisso como uma questão identitária.

O texto saiu com inúmeros problemas: a revisão modificou meu texto, termos foram imensamente simplificados pra atender ao pública da revista ( que, imaginávamos, nunca havia tido contato com as teorias de gênero ou com o ativismo trans) – o resultado? Um texto útil, porém falho em muitos sentidos. Tudo bem. Recebi uma imensidão de críticas: enquanto eu era atacada por religiosos, por pastores, por todo tipo de gente que veio ao meu perfil me ofender, era, igualmente atacada por outras ativistas, algumas, que nem haviam lido o texto, atacaram a partir da narrativa de outras pessoas.

Aquela situação me deixou imensamente chateada. Eu realmente achei que havia feito um ” desserviço” pra ” causa trans”. Isso até que comecei a receber relatos de pessoas trans do país inteiro que tiveram contato com o a Revista. Professores que utilizaram o texto em sala de aula, e principalmente, o relato de um rapaz, do interior do Pará, que não conhecia pessoalmente nenhuma outra pessoa trans e que não sabia como explicar a sua transgeneridade para seus pais: ele dialogou com pais e amigos a partir do texto da revista.

Naquele momento, percebi que, ainda que meu texto não fosse ” ideal”, que não estivesse conceitualmente perfeito, ele teve efeitos positivos, pôde ser usado como instrumento de conscientização e de luta. Houve que lesse e pensasse: ” Meu filho não é doente”. O texto não foi um desserviço. Eu falei em ” sexo biológico”, mas aquilo não foi um desserviço. Então, porque eu fui tão criticada? Porque meu texto foi chamado de “transfóbico” e de “um desserviço a causa trans”?

As razões que consigo pensar são as que enumero agora:

1) Profissionalismo linguístico: É a exigência de que tudo, absolutamente tudo, seja sempre narrado de uma única forma; é o detalhismo, o cuidado que nos impede de ser “simples”. O desprezo da eficácia do processo de comunicação e seu aprisionamento em moldes linguísticos inacessíveis pra muita gente. Um termo ” fora do lugar” e todo o texto perde valor.

2) Migalhismo: Chamo de ” migalhismo” nomear “migalha” todo e qualquer avanço que não tenha ocorrido como no plano ideal. É uma migalha de representação escrever um texto, mas ter de se adequar a exigências da norma. É uma migalha que a Universal fale das pessoas trans, mas use um ator cisgênero. O migalhismo recusa tudo. Desculpe, aos que consideram migalha qualquer avanço que não seja ideal, mas é uma postura bastante privilegiada optar pelo “nada”. As lutas sociais, a política, ocorrem sempre no plano da negociação, e a gente precisa aprender a ceder, assujeitar-se é também uma forma de resistência.

3) Ausência de estratégia política: Como assim? Criticar os problemas do texto não é uma atitude política? Certamente, porém criticar um avanço mínimo sem no entanto pensar o que podemos fazer com este avanço é um problema. Precisamos pensar a realidade a partir dos recursos de luta que ela nos oferece. Não adianta dizer: ” Só aceito se for do jeito que eu quero”, não é assim. Existem uma demanda do real que está alem de nós mesmos.

4) Imaturidade: As temáticas trans estão entrando na agenda agora. Os meios de comunicação, respondendo à nossa pressão, vão buscar formas de acomodar a presença trans nestes espaços. Essa acomodação exige maturação de pauta, de abordagem. Hoje traz-se o tema, amanhã avançamos na abordagem e, assim, incrementalmente, vamos construindo e acessando outros espaços. Infelizmente, a luta não se dá no plano ideal, como gostaríamos. Existe um tempo e uma ação no tempo: compreender o que fazer em cada momento para agir com mais vigor em seguida é fundamental. Numa escritura budista, creio que chamada Kaimoku Sho, diziam que “compreender o tempo é o primeiro passo”. Concordo em absoluto.

Eu sou ativista e absolutamente compromissada com a causa trans, mas isso não me faz absolutamente compromissada com esta ou aquela estratégia em específico.

12916230_1060263974038649_1260119018401432661_o*Helena Vieira é travesti, ativista e gosta de escrever.

Quem tem medo de gênero e sexualidade? Convite

Assistimos atualmente ao desenvolvimento de um pensamento que defende que gênero é uma ideologia negadora da diferença sexual (diferença sempre pensada no singular). Os efeitos desse pensamento são sentidos em diversas instâncias da vida social, como por exemplo currículos escolares questionados pela adoção dos termos “gênero” e “orientação sexual”, críticas às iniciativas que viabilizam o uso do “nome social” em repartições públicas e identidades profissionais, proliferação de discursos sexistas e homofóbicos em espaços públicos e, por último, vinculação da agenda dos direitos reprodutivos à noção de que a família nuclear (casal+filhos) é a base elementar da vida social.

Consideramos que esse é um terreno fértil para pensarmos sobre os novos rumos das lutas por democracia, direitos humanos e cidadania no Brasil.

A proposta desse evento é reunir pesquisadores, docentes da Universidade e ativistas do campo feminista para analisar o recrudescimento de posições contrárias ao debate sobre gênero e sexualidades e apontar para os desdobramentos que esse recrudescimento implica.

As palestrantes são Maria das Dores Campos Machado, socióloga, professora associada da UFRJ, que pesquisa a atuação parlamentar de congressistas ligados a distintos setores religiosos; ela também é coordenadora do evento. Ana Paula Silva é antropóloga, professora adjunta da UFF. Sua atual pesquisa é sobre gênero e sexualidade na Escola; e Beatriz Galli, consultora do IPAS Brasil e membro da Comissão de Bioética da OAB-RJ, que trabalha com temas como mortalidade materna e acesso ao aborto.

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Informações:

Dia: 16/06/2016

Hora: 18:30

Auditório da Escola de Serviço Social – UFRJ

Campus Praia Vermelha

Av. Pasteur, 250 – URCA – RJ

Coordenadoras:

Patrícia Farias

Maria das Dores Campos Machado

Andrea Moraes Alves

Aparências

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A gente passa metade do tempo militante lutando para ninguém julgar ninguém pela aparência. E a outra metade julgando e disparando mágoa e animosidade nas pessoas que tem uma determinada aparência.

Não é a existência da pessoa dita bonita que sustenta o padrão de beleza excludente. Não é a existência de alguém que sustenta uma situação estrutural. Ela, no máximo, reproduz. No caso da aparência física, isso nem mesmo é uma opção.

A sustentação da exclusão e marginalização se dá via mecanismos materiais alinhados a um discurso naturalizador. Cobrar posturas individuais, culpa e autoflagelação não muda a estrutura. Nem faz cócegas nela. No máximo satisfaz parcialmente nossa fome de um sofrimento alheio que se equipare ao nosso.

Quando eu era criança, meus pais (?) me ensinaram a prestar atenção quando estou apontando o dedo. É um pra lá, um meio confuso e três pra mim. Bobo, né? E, no entanto. Poucas coisas mais verdadeiras (diferente do “nem escuto a zoada da mutuca”, que é mais a enunciação de uma intenção que de um fato, mas divago).

Eu acho que cheguei estragada para a militância feroz. E para a militância sentida, magoada. E, mais que tudo, para a militância que não se pergunta sobre ela mesma. Coloco (contente) na conta de dois barbudinhos, Freud e Horkheimmer. Eu já escrevi umas mil vezes (mas aprendi também que tem um gozo na repetição) que o caminho é tão importante quanto o local de chegada. Que ele determina o local de chegada. Que temos que nos inquirir sobre nossos processos, nossas motivações, nossas chaves e nossas falhas e nunca, nunquinha, supor os processos, motivações, chaves e falhas internas alheias.

Acho que a gente acabou entendendo errado o negócio do privilégio. Ou fui eu que entendi na contramão, forçando o conceito pra meu horizonte de referências. Eu sempre entendi que privilégio era algo pra gente ir dando conta dos nossos em relação a. Tem duas coisas embutidas aí: o privilégio dos outros não é da minha conta, não sou eu quem tem que apontar, identificar, qualificar, analisar, questionar, whatever, isso porque (aí vem o loutro lance, mais importante) o privilégio (o meu e o de qualquer outro) não é absoluto nem cristalizado. Privilégios são em relação. São forças, dinâmicas. Não rótulos estanques. Ninguém (acho eu) deveria ser “acusado” de um determinado privilégio. Mas, claro, reconheço que eu posso ter forçado o conceito pra poder compartilhar dele. Se não for isso, se rpivilégio é alguma coisa que a pessoa tem, absoluta, definível, identificável a priori e sem contexto, estou desde agora parando de usar e deixando de achar útil na militância.

Sair da modo-culpa-de-funcionamento, seja nossa, seja demandando a alheia, penso que seria um passo importante para uma dinâmica de relacionamentos interpessoais bem mais, na mais superficial das hipóteses, divertida.

Vivemos numa sociedade excludente. Sim. Um dos aspectos em que isso se evidencia é na questão da aparência física. Sim. Nesse quesito unem-se preconceitos vários como racismo, gordofobia, transfobia, preconceito contra deficientes físicos, etc. Sim. Isso fica material na hora de sentar na cadeira do avião, de tirar foto pra documento, de ler uma vaga de emprego que fala em boa aparência? Sim. Isso também aparece na hora que você vai pra balada e sua amiga magra, loira e malhada parece ter mais olhares desejosos do que você, baixinha, gorda e meio índia? Sim. Mas. Enquanto dá pra gente discutir novos tamanhos de cadeira no avião, demandar novos softwares de leitura de imagem e fiscalizar a equidade nos processos seletivos, não tem ação externa que dê conta do desejo (e nem é pra ter mesmo).

O desejo, os afetos, os amores, os relacionamentos, são atravessados por construções sociais? Não. Eles mesmos são construções sociais. Nem por isso são voluntários, domesticáveis, moldáveis conforme a disposição política e militante.

A dinâmica de transformação da realidade social é dialética, vamos mudando o dentro e lutando no fora e ao mudar o fora vamos redimensionando o dentro. Demora? Sim. Vai continuar doendo ir pra balada e não pegar as pessoas todas que a gente nem queria pegar mas queria que quisessem nos pegar? Sim (ou não, vai que a gente aprende também a não ficar olhando o que não tem e aproveitar melhor o beijo na boca disponível). Mas a transformação do quem e como se deseja nunca será por imposição ou vontade consciente.

A única coisa que pode resultar da fiscalização do tesão e dos relacionamentos alheios é moralismo. Imposição. Doutrinação. Culpa. Pecado. Ou seja.

O que a gente pode ir construindo é um território onde os desejos e relacionamentos que não são no “padrão” não sejam ridicularizados, escanteados ou causem temor e vergonha. Isso é um passo. O que a gente pode tentar é desenvolver comportamentos e discursos com menos foco na aparência física. Isso é um passo. O que a gente pode ir fazendo é lutar por representatividade. Outro passo. O que a gente pode ir incentivando é mais generosidade com nossas nomeadas imperfeições, sem esquecer que o lugar de onde essa limitação vem não tem relação com o corpo em si, com o que ele faz e oferece, mas com uma dinâmica que busca criar a insatisfação. Mais um passo. O que a gente pode ir fazendo é lembrar que o mundo que a gente tem de horizonte ainda vai ter esta gente toda que habita neste (a não ser que, mas então nem estamos do mesmo lado da trincheira), eles sendo do jeito que a gente quer ou não. E que a gente não deveria achar que tem o direito de determinar que alguém seja de algum jeito (mas sim que a sociedade funcione de determinada forma).

O que a gente pode ir fazendo é gozar. E deixar gozar. Abrir mão da culpa. Nossa. Do outro. É parar de exigir enquadramento, seja ele qual for. Vamos gozar. O prazer é subversivo.

O que espero para os próximos 8 de março?

Essa quinzena, lembramos o dia internacional da mulher do nosso jeitinho biscate: luta, celebração e inquietação, tudo junto, arfante e misturado…

 #nãomedeemflores #diainternacionaldamulher

Ontem, domingo, 8 de março. Dia internacional da mulher.

Moro nesta cidade grande que é São Paulo, com 3256326 de atos, eventos, debates acontecendo por todos os lados, para que a gente lembre (se bem que quem milita não se esquece) da importância desta data para as nossas lutas. Fiquei em casa, com o coração partido por não poder estar na rua, que era o que eu gostaria de fazer. Mas moro na periferia, longe do centro, longe de todo esse fervor. E meu pai doente e demandando cuidados me levou a passar boa parte da minha tarde ocupada com curativos e medicação.

Eis que depois vim pra internet, esse céu e inferno onde algumas pessoas sentem essa necessidade cabal de manifestar sua opinião sobre qualquer coisa. E por qualquer coisa, entendam aquilo que essas mesmas pessoas nunca viveram, nunca vão viver ou conhecer o bastante para dar pitacos, que às vezes elas defendem sem parar um minutinho sequer para refletir. Longe de mim, acreditar que só quem viveu determinada experiência pode opinar sobre ela.  Só que eu tenho essa coisa forte de respeitar as vivências dos outros. Certas vivências trazem delícias – e agruras – que só quem as teve sabe. E ser mulher numa sociedade machista como a nossa é para a maioria de nós, é uma luta quase diária.

Essa sou eu quando alguém diz que as mulheres reclamam demais...

Essa sou eu quando alguém diz que as mulheres reclamam demais, sendo que já têm “tudo”.

Pois bem. Nessa minha passada pela internet, vi um dos meus contatos do saite feice dizer que todas as chefes que ele teve na vida foram mulheres. E que a maior parte das colegas dele em Paris (sim, o moço estuda em Paris) eram mulheres. Até aí, legal né? Fiquei até feliz por isso. Aí, ele termina a fala dele com isso:

“Então parem de mimimi com o dia da mulher, nada tá tão difícil assim pra vcs. Comentários raivosos em 3,2,1…”

Ai, meu fiofó de asas.

Gente, por quê?

Queria pensar que foi ingenuidade do moço e que ele realmente não sabe quão discrepantes ainda são as condições de trabalho de homens e de mulheres. Ou que foi molecagem, sabe? O mocinho tá lá, no meio do inverno dos arredores da Sorbonne num dia de muito ócio, e aí ele queria atenção, esperando pelo menos uns comentários raivosos das feministas choronas e mimizentas que ele conhece…

Só que não.

Definitivamente não.

Quando se está bem do alto de uma posição privilegiada, é bem difícil desconstruir certas visões. O que o moço em questão expôs diz muito sobre ele, mas também muito sobre o quanto falta para que a gente realmente possa falar que existe igualdade efetiva entre homens e mulheres. Falta bastante. Tanto que as vezes o desânimo é inevitável.

Fiquei com vontade de ir lá registrar meu comentário raivoso. Porque a na verdade, para muitas de nós, o simples fato de sobreviver é um ato de resistência. Porque ao contrário do que algumas pessoas pensam e aí incluo o rapaz  branco, cis, hétero, de classe média e que pode estudar na França, tudo ainda é mais difícil pra gente. Ainda ganhamos menos. Ainda não temos pleno direito ao nosso próprio corpo. Ainda não temos representatividade forte na política, mesmo que sejamos a maioria da população de nosso país.

Diria a ele que ainda sofremos violência, discriminação e negligência pelo simples fato de sermos mulheres. Ainda exigem que estejamos sempre correspondendo a padrões estéticos que muitas vezes não se aplicam a boa parte de nós. Ainda somos julgadas como “essa é pra casar” e “essa é pra trepar”. Ainda dizem que não somos capazes de realizar certas tarefas porque somos “frágeis e pouco práticas”.

Bônus: ainda dizem que não podemos ser amigas umas das outras, porque somos traiçoeiras e não merecemos confiança. E ainda não podemos ocupar os espaços públicos na hora que quisermos, tendo companhia ou não, porque ainda existe a ideia de que mulher sozinha está disponível/pedindo para ser estuprada ou intimidada.

Eu poderia ir lá e enumerar muitas outras coisas que lembram o quão importante é a data de hoje, para todas nós. Mas adiantaria de quê? É só ele, o pobre moço que não entende por que as mulheres reclamam tanto (porque talvez pense que o mundo inteirinho é igual a Sorbonne e que todas as moças são exatamente iguais e têm as mesmas oportunidades do que as colegas dele de lá), que pensa assim? É claro que não. O mundo aqui fora não se resume às decepções (às vezes bem presumíveis) que tenho com as TLs alheias. Deletei o rapaz, problema resolvido. Mas e aí? O que muda pra mim e para as tantas outras companheiras que sofrem diariamente com a privação de tantos direitos?

Isto posto, fica aqui a minha esperança de que cada vez menos, o 8 de março seja entendido como um dia para dar rosas ou para fazer promoção de maquiagem ou de utensílios domésticos. Ou que seja um dia para que especialmente nós, mulheres militantes, sejamos julgadas e taxadas de choronas, mal amadas ou chatas pelo simples fato de não querermos ser tratadas como uma maçaroca homogênea, que basta ser um pouquinho paparicada (ou “homenageada”, a palavra fica a gosto do freguês) para que nos esqueçamos de todos os leões que matamos durante os outros 364 dias do ano…

Movimento e corpo em descompasso

Não, este post não é pra falar de safadagi, embora quando se trate de corpo, só o movimento sexy é o que importa, ou o vulgar sem ser sexy , ou o sexy sem ser vulgar… sei lá. Este post, na verdade, sem qualquer pretensão, é pra discutir os rumos de militância. Sim, rumos. E não é de nenhum movimento em específico, mas especificamente daqueles em que o corpo de seus membros é a reivindicação em si da liberdade! Daí que este post, quer entender e talvez queira mais perguntar que entender: em que medida a intervenção do movimento, da militância, no corpo do sujeito – ativo ou passivo na causa –  é legítima?

by Goya

by Goya

Isso é algo que me preocupa… Não é incomum ver movimentos ditando regras sobre as formas como o corpo de seus militantes devam ser. FEMMEN; outros grupos que se dizem feministas e que vinculam o feminismo a certos padrões de sexo feminino e não de gênero; grupos LGBT que direcionam campanhas apoiadas em exposição corporal estereotipada, ou que vinculam a homossexualidade a determinados padrões – ursos xiitas, por exemplo, ou barbies; grupos negros que rechaçam seguidores que não adotem traços físicos – principalmente cabelo – e culturais – religiões e cultos – que não sejam afro; grupos a favor e contra modificações corporais e sua luta incansável em dizer o que seus seguidores tem ou não podem fazer, como certos grupos punk que só identificam como membros pessoas com tatuagem, piercings e alterações corporais, ou grupos naturistas radicais que não permitem qualquer tipo de intervenção estética em seus membros…

by Paula Rego

by Paula Rego

A lista é imensa e, talvez, inesgotável, mas nem é o propósito expor toda ela. Me intriga o seguinte. Apenas fazendo uma pequena digressão histórica, dá pra chegar à época das reformas religiosas. Romper com a idade média e caminhar rumo à modernidade –  que deus ou o diabo ou Cher a tenha – teve muito, senão tudo, a ver com o corpo.

Sim, a modernidade foi o momento de rompimento. Foi no seu nascimento que, ora vejam só, por uma cisão religiosa – Beijo, Lutero – abandonou-se o modelo de domínio completo de corpo e alma pelo poder absoluto da igreja e se iniciou, de um ponto de vista ideal, a separação entre poder civil e poder divino. Assim, a Fé teria domínio exclusivo sob a alma-intelecto e o Estado passaria, então, a ter o domínio mediante a lei, do corpo.

Bom, ruim ou mais ou menos, ou mais pra mais, menos pra menos, nasce dessa divisão o ponto em que o ideário iluminista – que que não seja iluminista quem o queira, mas não negue que nossa sociedade o seja – nos permite a mobilização e a militância e, mesmo, a luta contra o Estado para garantir a nossa autonomia sob esse poder civil pelo próprio corpo! Ou seja, tão certo quanto dizer que o Estado passou a ter a gestão do nosso corpo de aí por diante, mais certo ainda é dizer que se fortaleceu a nossa luta pelo nosso próprio corpo até ela tomar a forma de movimentos organizados.

E é aí que mora o perigo. Não sei em que falha de entendimento da história, das questões sociais e da própria sociabilidade, se perde a noção de que a porra do corpo pertence apenas ao seu dono! Não sei se alguns movimentos não foram capazes se avançar ou se regrediram no debate e começaram a olhar com certa nostalgia pra era medieval e começaram a dogmatizar sua militância, começaram a transformá-la em fé e, agora, querem se firmar como seita, ocupando o papel perdido muito a contra gosto pela religião: o de domínio de corpo e alma-intelecto.

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by Dali

E é isso, enquanto faltar entendimento de que A PORRA DO CORPO É MEU, vai sobrar espaço pra gente gritar pelo fim desse descompasso! Militância nenhuma é, de fato, libertária se ela não é capaz de reconhecer a autonomia indistinta de qualquer pessoa sobre o próprio corpo. E  isso não é uma mera questão retórica. Isso é, talvez, a maior conquista do que se possa chamar “humanidade”. E enquanto houver pudor, vergonha ou, mesmo, castração, ainda que auto-castração, da nossa autonomia corporal, estaremos aqui para lutar e lembrar que é essa a única liberdade que nos convém. É por essa liberdade que estamos aqui! Pois essa é a única liberdade que temos o direito e a capacidade indistintos de realizar, sem qualquer intervenção. A nossa existência depende só e somente da autonomia na gestão do próprio corpo. É livre o nosso corpo!

Dois anos de mudanças

Time may change me
But I can’t trace time

Falar sobre como o Biscate Social Club fez a minha vida passar por mudanças é meio difícil. Eu passei a enxergar o mundo de forma diferente desde o momento em que comecei a escrever para o Biscate e o mundo começou a me enxergar diferente. Acho que passei a me preocupar menos com o julgamento das pessoas com o que faço de minha vida. Fiquei mais livre, assumo meus gostos, minhas atitudes, minha vida sexual, meus sentimentos. Parei de ter medo de me mostrar nas redes sociais. Sempre me preocupei em não causar incomodo entre minha mãe e meus familiares, mesmo sabendo que para ela não fazia diferença o que qualquer umx falasse, ficava mais quieta, não retrucava comentários preconceituosos, misóginos, homofóbicos de certas pessoas da família.

Hoje em dia, apostei na postura de me afirmar! Ser sincera, tentar ao máximo não ser artificial. Não preciso afirmar coisas que não são realidade. Fiz isso quando assumi que amava funk aqui no Blog. Foi uma forma de me soltar das amarras de “mulher acadêmica e elitista” que me colocaram sem a minha escolha.

Também fiz isso quando comecei a falar sobre minha vida sexual mais abertamente. Fiz isso pela primeira vez no especial #erotismoemnos, quando falei da minha vida sexual com meu ex. E não foi o único, fiz um sobre minha ligação com o meu atual namorado, Wesley, como o sexo nos traz confiança e companheirismo. Também foi por aqui que me dei o direito de falar sobre liberdade para fazer sexo como quiser e desejar.

Também foi aqui que me senti a vontade de falar sobre problemas no trabalho, assédio sexual, sobre uma amiga que sofreu assédio moral. Meus desabafos aqui sempre foram comuns, assim como também gosto de usar o blog para falar de minhas felicidades dentro e fora do trabalho. Eu comecei a me libertar, a falar da minha vida com mais tranquilidade.

E meus desabafos não foram só sobre trabalho e estudos, também desabafei sobre minha vida amorosa, pois já amei várias pessoas, já amei intensa e platonicamente, já tive um amor inacabado. Falar sobre minha vida faz parte agora da minha militância. Aprendi que ser Biscate é falar o que quiser e sentir, doa a quem doer.imagesForam apenas dois anos, mas consegui amadurecer por décadas, acreditar que sendo eu mesma eu seria muito melhor do que me escondendo em papéis criados para agradar outras pessoas!

#2anosBiscateSC

Não é Pelo Direito ao Amor

Por Everson Fernandes*, Biscate Convidado

Tem uma parte da militância LGBT*, mais precisamente G, onde me encaixo [na verdade, eu nem me considero um ‘militante de verdade’], que tem um apego que considero excessivo ao discurso sobre o amor. O discurso é quase sempre baseado no poder amar ao próximo. No poder constituir família. Poder viver o sonho do amor romântico burguês e heteronormativo. E não me importa muito que alguém queira vivenciar isso como um desejo individual. Incomoda-me quando isso vira um discurso militante, onde os direitos são reivindicados – pelo menos no nível do discurso – apenas aos que se enquadram nesses casos.

Não é pelo direito ao amor que eu faço minha luta. Não é pelo direito de amar quem eu quiser. Não é pelo direito de manifestar meu amor em público. Não é pelo direito de amar e ser amado por outro homem. É pelo direito de vivenciar minha sexualidade da maneira mais ampla possível, sem ser marginalizado, discriminado, violentado e desumanizado. É por eu poder trocar afetos sem necessariamente ser com alguém que eu ame. Pode ser com alguém que eu tenha conhecido hoje. Ontem. Semana passada. E não amar.

É pelo direito de quem não quer amar. Quem não quer manter um relacionamento estável, monogâmico, heteronormativo, etc. Quem não quer manter um relacionamento. É também pelo direito ao amor pra quem quer amar, mas não é só por isso. Minha luta não tá baseada no amor, nesse sentido. Minha luta tá baseada no direito de vivenciar. E não é um direito que eu suplico. É um direito que eu exijo.

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É importante que, principalmente nós gays, revejamos nossas posições de certos privilégios em relação aos outros grupos da sigla LGBT*. Que desconstruamos nossos  machismos, homofobia, misoginia, transfobia. É inegável que entre  gays há muita misoginia, que quase sempre se manifesta em forma de “humor”. O machismo, em grande parte, se manifesta na ridicularização “das passivas”, que também é  reflexo da misoginia. Sem falar no elitismo e classismo que são fortemente reproduzidos entre gays – o clássico caso da “bicha pão-com-ovo”. O preconceito geracional se mistura com homofobia e machismo na divisão dos homossexuais mais velhos em “tios” ou “daddy” e “bicha velha” ou “tias”. Sendo classificados como tios ou daddy os homossexuais com mais idade que se enquadram num perfil mais higienista, reprodutor de padrões de corporalidades e beleza. No segundo caso, resta aos homossexuais a partir de certa idade, que estão mais à margem desses padrões, e são, em geral, efeminados.

Outro ponto que precisa servir de reflexão e desconstrução por parte dos homossexuais masculinos, é o binário ativo/passivo como categorias fixas. Quando essas categorias são fixadas e se tornam um discurso normativo, a reprodução dessa binaridade também é a reprodução de ordem heteronormativa e misógina. A visão de ativo como desempenhante do papel de homem, provedor, líder e de fodão, enquanto o passivo é retratado como submisso, projetado como a mulher da relação, é marginalizado e muitas vezes ridicularizado é extremamente machista, misógino e – de novo – heteronormativo.

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É função e dever de todos nós gays, especialmente gays brancos, de continuarmos em luta e não nos acomodarmos com a conquista de alguns direitos que beneficiam principalmente nós mesmos, e em especial os de poder aquisitivo maior, enquanto os outros grupos continuam na marginalidade, invisibilidade e discriminados. É importante continuarmos atentos às investidas de grupos conservadores e somarmos forças no combate à lesbofobia, bifobia, transfobia. É importante que todos nós trabalhemos para mudar a sociedade e não para que a sociedade nos mude e nos molde a ela: classista, machista, misógina, elitista, capacitista etc.

Para que o combate às reações conservadoras sejam ainda mais eficazes, é preciso que haja uma radicalização por parte das pessoas que lutam contra essa ordem heterossexista, que é responsável por centenas de mortes por ano e aprisiona milhares de outras vidas em seus aspectos sociais e psicológicos. É preciso que os gays em geral percebam que continuar reproduzindo uma série de comportamentos e discursos que visam  manter o status quo pode tornar a luta mais longa e difícil.

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*Everson Fernandes biscateia como quem samba de ladinho. No twitter, nesse ritmo: @eversonF.

 

Militância

Por Thais Justen*, Biscate Convidada

O que alguns militantes esquecem é seu lugar de privilégio na militância e no mundo, pelo simples fato de serem homens. Você sabe, militante, o que é ter medo de ir numa reunião porque o lugar é escuro? e porque, se for estuprada, vão dizer que a culpa é sua? sabe o que é estar numa reunião num lugar muito quente e com pouca água e não poder usar roupas curtas ou tirar a camisa, porque os companheiros de luta dizem que, neste caso, isso estaria desrespeitando eles? sabe o que é estar numa reunião e um homem dizer aos outros que não falará com você porque certamente você não entende tanto quanto eles(homens) sobre algum assunto qualquer independente da sua formação ou vivência, só por ser de outro gênero? sabe o que é após ter ocupado um imóvel ter um companheiro que se recusa a levar o prato pro local que foi escolhido pra ser a cozinha o que dirá então lavá-lo, e ainda por cima te chama pra fazer isso, porque afinal, você é mulher?

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Camila Vallejo, desrespeitada em sua militância sempre que mencionam sua beleza apenas.

Eu poderia dar mais exemplos que você certamente não vive na pele, como, por exemplo, a possibilidade de ser excluída de um meio de militância porquê já transou com vários de lá. Ou o horror de ser estuprada numa ocupação e os companheiros de luta ainda dizerem que a culpa é sua porque já dormiu com vários. Ou o abandono de ser estuprada por seu companheiro que é militante e os companheiros de luta falarem que ele é um bom homem, por isso não farão nada. Ou ainda o medo de ir aos espaços de militância porque já apanhou de algum companheiro de luta que, em algum momento, foi seu namorado, e os outros companheiros de luta não considerarem isso um assunto importante.

Um lugar de privilégio, o seu, que ignora quem não pode ir às reuniões porque tem filhos e os espaços de militância não são adequados a presença de crianças e afinal, como a responsabilidade pela criação dos filhos é da mãe – diz a sociedade – ela não vai pra reunião pra cuidar de seu filho mas o companheiro vai. Um lugar de privilégio indiferente ao fato de que existe quem tem que se preocupar mais com preservativos, porque se engravidar e não puder abortar (e mesmo podendo, arcar com o julgamento e condenação social) é sobre ela que o peso da criação vai cair. E tem a questão, que você não pensa, do problema de que se não consegue gozar, não há ajuda pra isso, enquanto pros homens existem vários medicamentos pra impotência, e contraditoriamente, se goza com facilidade também é problema, porque aí os companheiros de luta que se deitarem com você podem achar que “não é boa pra casar” porque gosta muito de sexo.

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Pagu: militância e biscatagem (aperte aqui que tem post)

Mas não, certamente você não sabe o que são essas preocupações, e aí, sendo homem, é muito fácil falar que o movimento que quer acabar com a sua hegemonia – ou seja, seu poder de bater, estuprar, não cuidar dos filhos, não pegar tarefas de cozinha, e ainda ser considerado bom militante – enfim, falar que esse movimento está errado, e deve se preocupar com a classe trabalhadora apenas, sem gênero, porque, afinal isso te interessa. Que mundo bom seria pros homens se vivêssemos no socialismo, não houvesse mais patrões, mas as mulheres continuassem a ter dupla jornada, o sexo continuasse a ser focado no homem e o prazer da mulher permanecesse não sendo importante, num mundo onde “ser muito homem” continuasse a ser um elogio e ser “mulherzinha”, um xingamento. E que mundo merda seria esse pras mulheres…

Como disse Bakunin, não poderei ser um homem verdadeiramente livre até que esteja cercado de homens verdadeiramente livres também, pois a existência de um único escravo basta para diminuir minha liberdade. Assim, só poderei ser uma mulher livre no dia que ninguém puder ser estuprada por ser mulher. Pois enquanto puderem estuprar uma burguesa por ser mulher, as proletárias também poderão ser estupradas pelo mesmo motivo (coisa que não ocorre com os homens, frise-se, pois nenhum homem é estuprado apenas por ser homem e/ou por usar pouca roupa). Assim também, nenhum homem, mulher, intersex etc, poderá ser livre enquanto alguma categoria não for, só seremos realmente livres quando nem mulheres, nem negrxs, nem indigenas, nem homossexuais forem vitimas de opressão!

46583_1629211130545_8190939_n*Thais Justen é anarcofeminista, vegetariana, mochileira, militante das ocupações urbanas do centro do rio, da luta contra as remoções e da marcha das vadias. Tentando descobrir o mundo e experimentar a vida intensamente.

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