As mocinhas que amamos, ou não

Mocinhas de novelas. Amamos e suspiramos e nos identificamos. São as princesas Disney dos adultos, elas que superam as dificuldades e ficam com o príncipe no final, que antes era um sapo. Ok, algumas mocinhas nós odiamos também e preferimos amar as vilãs ( beijo, Carminha). Outras vezes, não amamos ninguém, né, Babilônia?

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Lígia, em Sete Vidas, representa o amor em estado mais latente, aquele amor profundo que acaba por tudo perdoar e que vive do que o amor é feito: esperança (desculpem, tô romântica, mas me vejo nela, e por isso a gente ama as novelas, não?). Mas, Lígia faz aquilo que todos nós, quando apaixonados, fazemos quase sempre: que é ver no ser amado a possiblidade de alguém melhor do que ele é, um embrião de algo espetacular que ele mesmo não vê. Vemos também espelhos, vemos nele nossos sonhos de amor, a pessoa ideal, aquilo que queremos. Daí o impasse da impossibilidade amorosa daquilo que se é para aquilo que se quer. Como por exemplo nessa cena, em que Ligia e Miguel pensam um no outro.

E, invariavelmente, na vida real, o fim do romance. Na novela, não. Miguel vai mudar graças a ajudas externas. Na vida real, a ajuda externa para mudança pode acontecer, se a pessoa quiser, via terapia. Mudar não é obrigação, a não ser que se deseje para si mesmo e não para agradar o outro.

Mas essa tônica de buscar no outro o que ele não é e esperar que ele seja está em todos os outros conflitos amorosos de Sete Vidas. Por isso que a novela encanta tanto. Lícia Manzo busca na vida o material para seus diálogos bem tecidos.

Já a mocinha Regina (interpretada pela atriz Camila Pitanga), de Babilônia, ficou conhecida como um mantra de chatice. Embora lutadora, o telespectador não consegue achar uma identificação possível porque ela é intransigente e mal agradecida. E é muito sofrimento fabricado em cima de sofrimento. Muito drama artificial, muita armação que com um mínimo de tutano seria desmascarada.

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Isso acontecia em Avenida Brasil, por exemplo? Sim, mas ali tinha ritmo e humor, diferenças fundamentais. Ademais, ninguém conseguiu criar empatia suficiente com o sofrimento de Regina. Afinal, ser abandonada no lixão, órfã, era é muito mais impactante.

Sobre o fato de Regina fazer barraco e gritar muito, me lembrei que haviam essas mesmas reclamações sobre a Maria do Carmo de Regina Duarte, em Vale Tudo. Mas, a personagem tinha sempre uma atitude muito positiva diante de tudo, tinha “o sangue de Jesus tem poder”, e criou empatia com o público. Ademais, acho que o tiroteio da audiência fez com que os autores de Babilônia perdessem o prumo da novela, uma pena, porque Camila Pitanga fez trabalhos maravilhosos, como a Bebel de Paraíso Tropical, do mesmo Gilberto Braga, e a Isabel, de Lado a Lado.

De se pensar que o público de hoje, muito mais conservador, rejeita uma personagem lutadora da favela e amava a prostituta Bebel.

Outro ponto é que a falta de identificação do telespectador com Regina não passa só pela chatice da personagem, mas possivelmente pelo fato de, além de barraqueira, ser antes de tudo negra e favelada, fato que nem Nina e nem Maria do Carmo eram. E o racismo pode se pronunciar nisso também: na dificuldade de se identificar com uma heroína negra.

De minha parte, torço para Babilônia se apague rápido das nossas memórias e Sete Vidas, ao contrário, siga como exemplo, e Lícia Manzo chegue em breve ao horário das 9, porque ela merece.

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