Gorda

Everyday I fight a war against the mirror
I can’t take the person starin’ back at me
I’m a hazard to myself

Don’t let me get me
I’m my own worst enemy
Its bad when you annoy yourself
So irritating
Don’t wanna be my friend no more
I wanna be somebody else

Pink – Don’t Let Me Get Me

Me sinto incomodada com o meu corpo, estou passando por uma transição de mentalidade, preciso compreender porque não aceito meu peso, sou obcecada por emagrecer. Esse sentimento estranho, antes eu utilizava a desculpa de “fui magra a adolescência toda, esse não é o meu corpo natural”. Mas, se eu fui magra 17 anos da minha vida, sendo nesses 17 anos, apenas em 4 deles meu corpo já era adulto, como poderia assumir meu corpo de infância como o corpo real? Sim, meu corpo da maior parte da minha vida adulta é um corpo em sobrepeso. Não sei se sou gorda de verdade ou se apenas não sou do manequim 40. Mas, vestir 48 foi um problema dos meus 18 até hoje, são quase 12 anos nessa tortura de “emagrecer por saúde”. O que me incomoda não são os olhares de outras pessoas, é o meu próprio olhar, é o incomodo ao enxergar as dobras, a barriga, o rosto redondo.

Na infância, ainda era magra

Na infância

Ser saudável eu já sou, de acordo com uma cardiologista que ia quando tinha uns 90 e tantos quilos, meus exames são de dar inveja em muitx esportista, então qual é a minha doença? Probabilidade de infarto? Problemas de coluna? Acho que minha doença é um preconceito que tenho sobre o meu corpo. Minha felicidade depende de eu vestir 40? Serei mais realizada se isso acontecer? Realmente, entre meus planos de futuro, sempre esteve o manequim 40, o mestrado e o doutorado, a casa própria. Coisas de uma menina de classe média, que, sem querer, aprendeu que ser feliz é poder usar biquini sem gorduras pulando por cima da calcinha do biquini.

Final da adolescência, 17 ou 16 anos, ainda era magra

Final da adolescência, 17 ou 16 anos

Estou começando a me aceitar, afinal, é doentio eu olhar mulheres e homens gordxs a minha volta, considerar todxs lindxs, mas não me aceitar linda. O que falta para que eu seja linda? Falta autoestima, falta empoderamento? Talvez seja só isso, o manequim 48 seja parte de mim, uma parte que eu TENHO  que amar também. Não por conformismo, mas por liberdade! Me libertei de tantos preconceitos, mas esse é o mais difícil de todos de libertar, talvez por aprender a vida toda que gordura é sinonimo doença, falta de saúde, preguiça, baixa auto estima.

Uma das últimas fotos que tirei antes de perder 15kg

Uma das últimas fotos que tirei antes de perder 15kg

Eu nunca enxerguei pessoas gordas como muitxs enxergam, pessoas solitárias, infelizes, sem companheirxs, sem vida sexual. Até porque eu sempre tive vida sexual ativa, estando gorda ou magra. Não tenho e nunca alimentei o preconceito que mulheres gordas não arrumam alguém, nunca foi minha preocupação. Não só por não viver pra ter um marido/namoradx/esposa, mas por ser educada pra viver por mim apenas. Entendam, não tenho medo de ser solitária, na verdade, ser solitária às vezes pode ser libertador. Meu medo é diferente do medo de não ter ninguém que me deseje ou me ame.

Auge do meu emagrecimento, menos 15 kg

Auge do meu emagrecimento, menos 10 kg

Meu drama com o peso e com o manequim sempre foi muito “classe média”, eu queria comprar roupas pra mim e, ao invés de lutar pra que as roupas se adaptassem a meu tamanho, eu lutava pra me adaptar a ditadura magra e alta que sempre fui imposta. E, quando aprendemos que saúde é diretamente relacionada com esporte e alimentação, você se acostuma a achar que todx gordx é doente, não faz esporte e não controla a boca. Eu era a primeira a me cobrar.

Foto de quando estacionei meu emagrecimento

Houve uma época em que malhava todos os dias, contava calorias das refeições, fazia capoeira,hap ki do. Estava chegando aos 70kg, esses 70kg foi o menor peso que tive de forma “saudável”, menos que isso só quando tomei inibidor de apetite e ansiolítico. Depois desses 70kg, só emagreci passando fome. Comecei a enlouquecer comigo mesma, eu estava fazendo algo errado, tinha que ter algo errado. Entrei em depressão, engordei um bocado de novo, troca de hormônios, tudo misturado.

Foto atual

Foto atual

Não sei se voltarei aos 70kg, não acredito que isso seja importante, preciso trabalhar outra área da minha saúde, a psicológica, a aceitação do meu peso. Pois, agora, acordei para um medo muito maior que ser gorda, que é ter um distúrbio alimentar por acreditar que “preciso emagrecer”. Essa luta é muito mais importante, já que sei que meus exames estão todos em taxas super saudáveis, o peso não interfere em minha saúde. Estou começando a me aceitar, usar roupas curtas e justas, sem raiva do espelho, mas tem dias que não consigo me sentir feliz com o que enxergo.

Now and then, I get insecure
From all the pain, I’m so ashamed

I am beautiful no matter what they say
Words can’t bring me down
I am beautiful in every single way
Yes, words can’t bring me down
So don’t you bring me down today

Christina Aguilera – Beautiful

Alegria Alegria (a moda na minha vida)

Descobri um novo amor: a Moda! E, numa relação de amor e ódio, ontem uma modelo desfilou com a minha primeira estampa. Assumo que estou me sentindo incomodada em passar por toda a pressão de faculdade de novo, é como se tivesse voltando aos 19 anos, quando alguns dias meus giravam em torno do estresse do final do período!

O mais interessante nessa arte que estou é que tudo é muito imediato! Você corre com planos enormes e com poucos dias para execução. Funcionar a toque de caixa, desesperar, criar! Tudo tão unido… No meu segundo desfile (no primeiro apenas fiz cenário), encontrei um frio na barriga que me é tão familiar, mas com uma tonalidade diferente de medo.

Ver sua roupa subir na passarela em meio a artistas que tem muito mais experiência de área, mais conhecimento de área, assusta! Faz muito tempo que só faço o que domino, uma sensação que não existia mais em minha vida profissional era essa. E, ao final, ter que dar a cara a tapa, subindo junto da roupa.

Sou dessas que precisa de novidade para amar sua vida! Estava passando por um momento turbulento e muito difícil, pensei muitas vezes em largar tudo de mão e parar de ter esperanças. Minha vida pessoal teve um baque muito grande, perdi meu chão. Só não desisti porque amigxs foram e colocaram o chão para eu pisar e não cair de vez. Andava por aí meio morta viva, tentando me agarrar em qualquer coisa que me fizesse voltar a viver! Quando vi minha roupa entrar na passarela, voltei a ter fé em mim!Minha estampa teve essa imagem como inspiração. O tema era Tropicália, a música!

Foi uma das melhores experiências que tive, o mais gostoso e importante foi saber que ainda tenho controle sobre a minha vida, nada é tão ruim que possa me derrubar! Posso dizer que, graças ao apoio dos meus amigos e das minhas amigas, consegui seguir em frente, no escuro, até conseguir enxergar essa luz no fim do túnel e ter esperanças novamente!

Termino falando que, da mesma forma que descobri um novo amor, redescobri um amor antigo, que sempre esteve aí por mim, meus amigos e minhas amigas! As vezes coisas ruins acontecem para a gente valorizar tudo de bom que existe em nossa vida!

*Nome do post baseado no tema da minha estampa e do desfile que participei, Tropicália!

Biscate à moda da casa

Por Niara de Oliveira

A receita de hoje é sobre roupa. Não há uma mulher que ao se arrumar e antes de sair da casa não tenha ouvido: “cadê a parte de baixo da saia?” ou “onde venderam esse top tinha blusa inteira?“, “tens certeza que vais sair assim?” e nas entrelinhas de todas essas perguntas “essa roupa está vulgar demais”. Ou seja, se sair assim será “confundida” com uma biscate. Oi?

O objetivo dos avisos e prevenções sobre a forma como nos vestimos é sempre sobre parecer vulgar. A pergunta é: Por que não pode parecer vulgar? Qual o problema em ser vulgar? Quem determina o que é ser vulgar na forma de vestir, maquiar, se portar?

Na década de 50 além dos manuais de bem vestir para moças, existiam receitas de como “prender seu marido” que muito se parecem com o que originou a nossa revolta e o surgimento desse clube virtual. O nosso comportamento, vestir e jeito de ser em função dos homens e do que eles vão pensar e do julgamento que farão. Oi²?

“Tome Nota” — acrílico sobre tela de 2005 de Mirelle Brant e texto de Florão Brasiliense de 1950 no álbum “Nossa Lua de Mel” (clique na imagem para ampliar)

Esses manuais antigos de como uma “moça direita” deveria se vestir se parecem muito com a “fórmula de elegância” ditada pela bispa Helena Tannure em congressos país afora. Não estou incentivando nenhum preconceito com relação à crença de ninguém, mas estou farta de manuais de como devemos nos vestir, portar, comer, rir, trepar… Ops! Mulheres nesses receituários não trepam. Só biscate trepa.

Então, a receita de hoje sobre o vestir é: saia como se sentir melhor, confortável apenas com você, seus pensamentos e intenções. Se achar que aquele decote mais ousado vai fazer aquele moço que te interessa olhar para você, use e abuse dele — do decote e do moço. Se a saia que está usando no seu trabalho é adequada para o ambiente de trabalho e na hora de sair para o chopinho no final da tarde achar que deve subí-la um pouquinho mais, suba. As pernas são suas e você mostra para quem achar que deve.

Os homens só entenderão que o corpo é nosso e que as roupas que usamos não são um convite ou sinal verde para qualquer um quando todas pensarmos apenas em nós mesmas quando nos vestirmos.

E parafraseando a bispa que aconselha o uso de anáguas para completar o comprimento das saias ou para não marcar a lingerie de baixo: Se a tua roupa foi decidida pelos outros, ela não está a altura da biscate que você é. Ouse ser você mesma, do comprimento e transparência à combinação de cores e estampas.

Nada mais elegante do que ser autêntica.

Nada mais mulher do que ser biscate, e vice-versa!

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