O Estado contra Beth

Por Niara de Oliveira

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Beth, numa das tantas caminhadas de protesto pelo desaparecimento de Amarildo em frente à UPP da Rocinha, onde o marido fora torturado e assassinado

 

Na última segunda-feira 14 de julho fez um ano do desaparecimento do pedreiro Amarildo Dias de Souza. Faz um ano que PMs da Unidade de Polícia Pacificadora da Rocinha o detiveram e o levaram até as dependências da UPP, o torturaram, mataram e desapareceram com seu corpo. Não fosse a denúncia da família e o dedo deles apontado para o Estado como o responsável por seu sumiço, jamais saberíamos o que aconteceu com Amarildo e ele teria virado estatística.

Vinte e cinco PMs respondem criminalmente pela tortura seguida de morte de Amarildo. Desses, treze estão presos, entre eles o ex-comandante da UPP da Rocinha, major Edson Santos. E como diz o jornalista Mário Magalhães, que acompanha o caso de Amarildo:

“Nenhuma iniciativa do Estado favorável aos parentes de Amarildo, por decisão própria ou determinação da Justiça, anula a obrigação legal e moral de entrega do cadáver de quem foi morto por agentes públicos.
É direito de sua família enterrá-lo.
E é dever do Estado, cujos funcionários mataram e sumiram com Amarildo, assegurar esse direito.”

Amarildo é um desaparecido da democracia. E assim como os desaparecidos da ditadura, a família sabe o que ocorreu, que ele foi torturado e assassinado por PMs, mas sem o rito fúnebre, sem a despedida, é quase impossível encerrar o luto. E a dor se estende ao infinito e vai além.

Escreveu Marcelo Rubens Paiva, no dia em que o desaparecimento de seu pai completou 40 anos:

“É mais um na lista dos desaparecidos políticos.
Dia 20 de janeiro é o dia em que a família decretou a data de sua morte.
Não temos um jazigo, mas temos uma data artificial.
A morte requer rituais.
E a força da família se mobilizou para a Anistia, o fim da ditadura e muitas outras lutas.
Há 40 anos, este caso não se encerra.
Pois se o Estado não quer, assim será.
Sob as incongruências da Lei da Anistia, o Brasil nos pede para virar a página e esquecer.
Não, não dá para esquecer.”

Nessa lógica absurda na qual os crimes cometidos pelos agentes do Estado contra pobres e negrxs na democracia e contra oponentes na ditadura são menores, são “acidentes de percurso” e obviamente ficam impunes, quem luta contra essa ordem natural das coisas — deixar os crimes do Estado esquecidos, intocados e impunes — está em risco e se coloca na mira do Estado. É nesse lugar em que se encontra Beth. Sabermos o que aconteceu com Amarildo teria um preço. E não somos nós que o pagamos/pagaremos. Se muitos dos PMs que respondem judicialmente pelo crime estão presos é porque a justiça entendeu que eles oferecem risco à sociedade, à família de Amarildo e podem coagir e/ou intimidar testemunhas.

Nesse um ano a imprensa já noticiou duas prisões de um dos filhos de Amarildo, Emerson. Sua “sorte” é que em uma delas a discussão dele com PMs foi filmada e enviada para o WhatsApp do Jornal Extra. Nas duas ocorrências (se é que podemos chamar assim) o “novo crime” de desobediência e a tentativa de envolvê-lo com tráfico de drogas. Essa tem sido a “estratégia” da polícia desde o início do caso Amarildo, envolver a vítima e sua família com o tráfico, inclusive essa era a alegação da farsa montada pelo delegado “adjunto” do caso — e que foi desmentido e desautorizado pelo delegado titular — para tentar isentar os PMs e o Estado do crime.

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Elizabeth Gomes da Silva

Na semana passada foi denunciado o desaparecimento de Elizabeth Gomes da Silva, a viúva de Amarildo, incansável nas denúncias contra a PM e UPP até vir a tona o que aconteceu com seu marido. Beth, segundo familiares, andaria muito deprimida, lembrando muito de Amarildo e teria voltado a beber e a usar drogas.

Fiquei assombrada com a notícia. Fui tomada por um misto de agonia a pavor diante do horror da situação. Felizmente Beth estava bem e a salvo, em Cabo Frio. Tinha saído de casa há dez dias sem informar o destino e assim permaneceu. Mas… Algo não desceu nessa história. E foram os relatos da imprensa sobre o caso. Foi/é a forma como a imprensa se refere a ela (já tinha denunciado o mesmo no caso da Cláudia da Silva Ferreira, a “mulher arrastada”). Elizabeth para as manchetes da imprensa não tem nome, é “a mulher de Amarildo” (nem quando a matéria é “favorável” a tratam pelo nome no título) e todos fizeram questão de destacar o “deprimida”, “voltou a beber”, “voltou a usar drogas”. Um jornal (apenas um), mas um dos primeiros a noticiar o paradeiro de Beth, chegou a dizer que ela estava com um namorado em Cabo Frio — informação não confirmada, e que NÃO INTERESSA A NINGUÉM. Parece que ter ficado viúva e ter filhos menores para criar a impedem de ter algum prazer na vida. Ela só pode sofrer, afinal foi esse o papel dado a ela pelo Estado através de agentes públicos criminosos. E se foi esse o papel designado a ela, ‘ela que se resigne’, não é?!

A fonte de todos os veículos (G1, Jornal do Brasil, Folha de São Paulo, etc.) foi a mesma, a sobrinha de Beth que procurou as entidades de defesa dos Direitos Humanos que apoiaram a família durante os últimos doze meses, Michele, e o advogado da família, João Tancredo. Não é preciso ser gênix para perceber que o foco é assassinar a reputação de Beth, é desacreditá-la como testemunha para o julgamento. E eu duvido, DU-VI-DO, que a defesa dos PMs não use essas notícias para neutralizar a voz de Beth em favor dos réus.

montagem com várias manchetes sobre Beth, todos a tratam como "a mulher de Amarildo"

montagem com várias manchetes sobre Beth, todos a tratam como “a mulher/viúva de Amarildo”

Está achando pouco? TEM MAIS. Anteontem (15/7), o delegado Gabriel Ferrando, titular da 11ª DP (Rocinha) anunciou que vai indiciar Beth pelo crime de abandono material dos filhos.

“– Ela era a única provedora do lar, e foi embora levando inclusive os cartões do Bolsa Família e da pensão que a família ganha do governo do estado. Quero saber como esses jovens se mantiveram. Ainda vamos ouvir algumas pessoas, mas tudo indica que ela será indiciada – afirmou Ferrando.”

Sordidez define.

Por mais que a imprensa consiga manipular a opinião pública e seja mestra na arte de assassinar reputação e com isso descredibilizar uma pessoa, não é difícil perceber a discrepância desse embate. De um lado a Beth, uma mulher negra, diarista, que sofre há um ano com o luto inacabado do marido (e que deverá se estender por toda a vida, tal e qual aconteceu com os familiares dos mortos e desaparecidos da ditadura) lutando por justiça; do outro o Estado, o ente que deveria proteger e zelar pela vida de todos os cidadãos sendo usado por bandidos a serviço e em nome da lei para proteger outros bandidos.

Não sei como nomear um Estado que ataca seus cidadãos mais desfavorecidos dessa forma vil e covarde. Só sei que democracia não é.

A mulher de valor, o medo da buceta e o moralismo de plantão

Quem tem medo de buceta? Aparentemente, os julgadores e moralistas de plantão. E acham que a mulher que não tem medo da própria buceta não tem valor.

Na semana passada foi noticiada uma decisão do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, o órgão recursal da Justiça estadual, na qual um desembargador emitiu um voto no qual considera que “Não cuida da moral mulher que posa para fotos íntimas em webcam“. Tratava-se de um recurso sobre uma ação de indenização por dano moral, diante da divulgação de fotos de cunho intimo compartilhados pela autora da ação (vítima da quebra de confiança) com o réu (autor da divulgação indevida das fotos que lhe foram enviadas no curso de relação intima). Popularmente, o pornô de vingança.

marias da net

A autora ganhou a ação em primeira instancia, e o juiz concedeu o valor de R$100.000,00 (cem mil reais) de indenização, a ser pago pelo réu. Foi uma vitória, especialmente diante do Judiciário de um Estado onde se costumava usar uma tabela para o dano moral, e que continua parcimonioso na concessão de indenizações.

No entanto, obviamente o advogado do réu impetrou recurso, como é seu direito, e de todos (para isso existem os tribunais e o segundo grau de juridição, para que um grupo de magistrados possa dar a decisão final sobre o inconformismo de uma das partes com a decisão do juiz único da primeira instância).

O TJ/MG manteve a condenação. Nos termos do voto do relator, o desembargador José Marcos Rodrigues Vieira, o valor do dano moral deveria ser reduzido para R$ 75 mil, mas rechaçou o argumento de concorrência de culpa da vítima. “Pretender-se isentar o réu de responsabilidade pelo ato da autora significaria, neste contexto, punir a vítima.”

No entanto… muito bom para ser verdade? Pois é. O desembargador revisor, contudo, divergiu do relator. Para ele,

“a vítima dessa divulgação foi a autora embora tenha concorrido de forma bem acentuada e preponderante. Ligou sua webcam, direcionou-a para suas partes íntimas. Fez poses. Dialogou com o réu por algum tempo. Tinha consciência do que fazia e do risco que corria”.

Asseverando que a moral é postura absoluta e que “quem tem moral a tem por inteiro”, o julgador ainda chegou a entendimento de que as fotos sensuais diferem-se das fotos divulgadas pela autora da ação, imiscuindo-se não só no campo da moral, mas no da moralidade…

As fotos em posições ginecológicas que exibem a mais absoluta intimidade da mulher não são sensuais. Fotos sensuais são exibíveis, não agridem e não assustam. Fotos sensuais são aquelas que provocam a imaginação de como são as formas femininas. Em avaliação menos amarga, mais branda podem ser eróticas. São poses que não se tiram fotos. São poses voláteis para consideradas imediata evaporação. São poses para um quarto fechado, no escuro, ainda que para um namorado, mas verdadeiro. Não para um ex-namorado por um curto período de um ano. Não para ex-namorado de um namoro de ano. Não foram fotos tiradas em momento íntimo de um casal ainda que namorados. E não vale afirmar quebra de confiança. O namoro foi curto e a distância. Passageiro. Nada sério.” Disse, ainda, o Des. Francisco Batista de Abreu: “Quem ousa posar daquela forma e naquelas circunstâncias tem um conceito moral diferenciado, liberal. Dela não cuida.”

Nesse contexto, vem-me tantas coisas a cabeça que chego a engasgar.

Inicialmente, pela condenação do réu na primeira instância, meu coração se aquece, e surge uma ínfima esperança de que algo sim, está mudando. Vários dos comentaristas do portal jurídico onde primeiro li a noticia da decisão também criticaram a postura do desembargador.

E aí vem essa traulitada. Vem esse jovem senhor, com 64 anos, mais novo que meu pai, que vem dizer o que é erótico, o que é pornográfico, e vem medir, etiquetar, rotular, e cortar fora o que não cabe em seu limitado entendimento da alma humana. Pega um conceito de sensual e pornográfico direto da coleção primeiros passos,  e vem despejar moralismo no que pode ou não pode fazer entre quatro paredes, entre pessoas adultas e capazes.

Não, senhor. Como bem escreveu a Bete Davis, aqui mesmo no Biscate:

Então, como vou eu definir o que é erótico e o que é pornográfico quando estas palavras  ganham a conotação moralista de certo e errado? Artístico e lixo? Erótico é o que me excita, e o que me excita eu bem sei. O que excita você, car@ leitor@, você também sabe.

Segundo o entendimento do terceiro desembargador da turma, que seguiu o voto do revisor:

De qualquer forma, entretanto, por força de culpa recíproca, ou porque a autora tenha facilitado conscientemente sua divulgação e assumido esse risco a indenização é de ser bem reduzida. Avaliado tudo que está nos autos, as linhas e entrelinhas; avaliando a dúvida sobre a autoria; avaliando a participação da autora no evento, avaliando o conceito que a autora tem sobre o seu procedimento, creio proporcional o valor de R$5.000,00.

O que os nobre magistrados não percebem é que o valor aqui não é só o valor que a autora tem sobre si. Eu, como disse a minha xará, Renata Correa, “particularmente não valho um centavinho furado. Ninguém pode me medir, me pesar, me trocar ou me comprar: não tenho preço, código de barras, cifrão ou vírgula. Quem tem o direito de dar preço para minha alma? E pro meu corpinho? Nobody, baby. ”

Mas a ação em si, o ato do ex-namorado, que fosse por tempo curto (hello, o doutor acha um ano um tempo curto? Baby, conheci e fui morar junto com meu marido em menos tempo que isso, e nesse tempo, namoramos à distância, doutor, veja só). Tem nome, o ato do réu, e é pornô de vingança. E é uma dessas “modas” que pegam, e que deviam ser inibidas e não estimuladas por decisões como esta.

“Mas, de qualquer forma, e apesar de tudo isso, essas fotos talvez não fossem para divulgação. A imagem da autora na sua forma grosseira demonstra não ter ela amor-próprio e autoestima.”, aponta o desembargador.

Quem tem medo de buceta? Aparentemente, os julgadores tem. E acham que a mulher que não tem medo da própria buceta, que não só se toca e goza, mas tira fotos, oh, horror dos horrores, de sua “grotesca” VAGINA, não tem amor-próprio, não tem auto-estima.

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A Eliane Brum trata, lindamento, deste medo, deste horror, por parte da sociedade, neste texto aqui:

Que há algo perturbador no órgão sexual feminino não há dúvida. Até nomeá-lo é um problema. Vagina, como tenho usado aqui, parece excessivamente médico-científico. É como pegar a língua com luvas cirúrgicas. Boceta ou xoxota ou afins soa vulgar e, conforme o interlocutor, pejorativo. É a língua lambuzada pelo desejo sexual – e, por consequência, também pela repressão. Não há distanciamento, muito menos neutralidade possível nessa nomeação. É uma zona cinzenta, entregue a turbulências, e a palavra torna-se ainda mais insuficiente para nomear o que Courbet chamou de “A origem do mundo”. Para Lacan, “o sexo da mulher é impossível de representar, dizer e nomear” – uma das razões pelas quais teria comprado o quadro.

Eu tenho problemas com a forma da decisão, com as palavras, cuidadosamente escolhidas pelo julgador para des-valorizar não só aquela autora, aquela mulher que teve a coragem de se expor e exigir a retratação não pela exposição da imagem, mas pela quebra de confiança.

Eu tenho muitos problemas com quem não vê o machismo explicito nessa decisão, com quem a julga tecnicamente correta, pois a autora da ação, vítima da exposição indevida, se colocou em situação de risco.

Eu tenho muitos problemas, sim, com quem é incapaz de perceber que se expor para um homem, em um contexto privado não significa que a mulher não se valoriza. Pelo contrário, nesse mundo de bocetas plastificadas, depiladas, infantilizadas, é preciso muito amor próprio, muita segurança e auto-confiança para se exibir, por si, para o seu prazer. A regra é a exibição controlada e regulada da buceta para o prazer do homem, para o lucro, para a pornografia mainstream, dominante, dominadora. A mulher que se exibe porque quer, para quem quer (e só para quem quer, ouviram? Só para quem ELA quer, é bom repetir) tem um poder sobre o próprio corpo que a maioria dos moralistas de plantão não consegue admitir, aceitar, sequer tolerar, que dirá respeitar.

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Eu me descobri feminista em 2010, depois de trabalhar em um caso de estupro. Date rape, para ser precisa, ou “estupro de encontro”, uma figura importada dos EUA, onde a vítima do estupro já conhece o autor, e com ele mantém uma relação de confiança, ainda que volátil e passageira. No caso, a jovem havia conhecido o rapaz em uma festa, estavam ficando, outras pessoas foram para a casa dele depois da festa, em casais, incluindo ela, com as amigas e os amigos dele, amigos em comum, entre si. E la, depois, em algum momento, ela se sentiu desconfortável.

Ela disse NÃO. Ela se atreveu a dizer NÃO, NÃO QUERO. Não, não permito que você me use para o seu prazer. E ele prosseguiu, contra a vontade dela, mesmo sem usar de violência física. Isso É estupro. E eu o indiciei, e o Ministério Público o denunciou, o Judiciário recebeu a denúncia. Não acompanho o caso, soube que ele se mudou de Estado para fugir do processo, eu mudei de Delegacia, mudou a juíza, mudou a promotora do caso. Eu duvido que hoje ele seja condenado. Eu temo pelo que a jovem vítima terá que ouvir como “defesa” do acusado, como a vida sexual prévia e a atual serão colocadas na berlinda.

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E essas decisões, desses homens e mulheres, sobre o nosso valor, vão pautar no futuro a forma como tantos casos semelhantes serão tratados. Serão essas pessoas, que vivem nesse mundo, que decidem e decidirão nosso valor.

Eu fecho com a Renata Correa, de novo:

Não valho nada. Não me atribuo valor algum. Não tô a venda: tô vivendo sem conta, sem mercantilismo amoroso, fraterno ou sexual. E também não tô comprando. Mas isso é outra história. (Renata Correa, Mocinha de Valor)

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Novela machista e antimoralista ao mesmo tempo?

Por Niara de Oliveira

É da vida a contradição. Para quem não sabe, eu assisto novela. Quanto mais ruim a novela mais me apego. Sei lá se Freud consegue explicar. Percebo que é ruim e onde, mas assisto. É excelente para esvaziar a mente, para relaxar. A Globo possui há alguns anos um canal na tevê fechada, por cabo, que é uma espécie de memória sua, o Viva. Ele reprisa programas da emissora e principalmente novelas. Normalmente são três novelas reprisadas ao mesmo tempo, sempre à tarde com reapresentação diária dos capítulos a partir da meia noite. É aí que, depois de concluído o combo fazer janta, dar banho no filho e colocá-lo na cama, eu me jogo no meu sofá, ponho as pernas para o alto e relaxo diante da tevê. A-DO-GO!

Para o meu deleite, as novelas têm piorado muito de qualidade nos últimos anos. Salve Jorge e Amor à Vida foram péssimas e Em Família bate recordes de reclamações nas redes sociais (procurem pelas hashtags #SemFamilia e #EmHelenas) e já são muitos os textos apontando absurdos, preconceitos, reforço de opressão, falhas, etc. A pior novela que reprisa agora no Viva, História de Amor (também do Manoel Carlos) é infinitamente melhor que Em Família. Manoel Carlos nunca foi tudo isso mesmo em diálogos (quedê Gilberto Bragaaaaaaaaaaa?), embora seja bom na construção de personagens. Ele constrói tão minuciosamente cada personagem que permite a alguns atores, no caso de serem bons, meio que carregarem a trama nas costas. Em Família nem isso está dando conta, porque os diálogos são tão ruins, tão estereotipados e reforçadores de opressões e preconceitos que enterram o esforço e o talento dos atores.

Mas isso é só uma introdução, meio que justificativa, para dizer que uma das antagonistas de Em Família conseguiu a empatia do público — ao menos do público da novela com quem converso –, talvez justamente porque não tinha esse compromisso e o talento da atriz ajuda muito. Shirley, interpretada por Viviane Pasmanter, é uma mulher dona de sua sexualidade. Permite que os filhos transem em casa, incentiva os filhos a terem prazer com o sexo, incluindo a filha, pega na cobra, se enrola na cobra, faz foto nua… Enfim, é a biscate da novela. Sim, tinha o bullying que ela praticava com a filha por ser “””gorda”””, que agora meio que saiu de cena, tem a inveja, o recalque com a “mocinha”, tem a obsessão pela paixão da adolescência, tem o uso do dinheiro para humilhar as pessoas, tem o prazer em humilhar o outro, a diversão com a desgraça alheia… Enfim, é uma antagonista.

Do outro lado da trama, Helena certamente sabe que a filha Luiza tem vida sexual ativa, mas não lembro das personagens conversando a respeito. Shirley teve várias conversas com a filha sobre sexo, sobre aproveitar a vida, experimentar, não se prender a apenas um namorado…se jogar. Numa delas chegou a dizer textualmente que a filha precisava se livrar da virgindade para viver os prazeres da vida. Achei supimpa!

Não curti tratar a primeira transa de Bárbara (Polliana Aleixo) como um presente, uma prenda dela pro amado e nem dele se sentindo presenteado por ser o primeiro e a associação “indissolúvel” de sexo com amor na trama do casal. Mas, né…numa novela onde o primeiro beijo lesbo só aconteceu depois de colocar aliança no dedo… Voltando ao caso da Bárbara, o bacana é que ela fez o que quis, do jeito que quis, em casa e com o apoio incondicional da mãe, além de parecer não ter se apegado a valores muito moralistas — o que seria até compreensível sendo ela uma vítima de bullying da mãe, poderia ter feito o caminho oposto apenas para ser diferente. Ela só queria transar com ele porque gosta dele, e isso é da vida. O mais bacana: a reação de Shirley na conversa com Bárbara sobre sua primeira transa é emocionante.

no capítulo de sábado, Shirley se emociona ao saber da primeira transa de Bárbara

no capítulo de sábado, Shirley se emociona ao saber da primeira transa de Bárbara

Se por um lado a novela dá vontade de quebrar a televisão com os diálogos de culpabilização da vítima por agressão (vide o diálogo de Alice e Vitor no sábado), com destaque aos diálogos que envolveram o caso de Juliana e Jairo, a abordagem de estupro, assédio, aborto, tortura psicológica — que valem muitos posts para denunciar mesmo sabendo que a caca está feita pelo alcance que tem a novela no imaginário e subconsciente popular –, nesse núcleo é quase uma ode antimoralista. Numa vibe meio Pollyanna, a novela é tão ruim tão ruim tão ruim que decidi falar de uma das poucas coisas (talvez a única) boas da trama. Não é que seja ruim, ‘o povo é que não tem cultura para entendê-la‘. Ou a #ACulpaÉDoDebussy.

Em Família está acabando, UFA! Vem aí mais uma novela do Agnaldo Silva com mais uma trama requentada. Na última novela desse autor tivemos um gay estereotipado, um assassinato homofóbico e um estupro em que a vítima gamava no estuprador. Espero que seja bem ruim para eu me apegar (mentira, me apego a qualquer uma, sou facinha) e para poder reclamar bastante no twitter. Bóra reforçar o estoque de Dramin e Plasil.

p.s.: tô aqui fazendo “as vêis” da Bete Davis que não escreveu sobre novela na quinta-feira passada. 😛

O machismo nosso de cada dia

Por Niara de Oliveira

Se alguma atriz que hoje é apresentadora de programa e/ou finalmente alcançou o sucesso (resguardadas aqui as noções possíveis do que é fazer sucesso) e tem destaque da/na mídia, seja isso produzido artificialmente ou não, ai dela se fez algum filme pornô ou apareceu nua em alguma capa de revista! Será execrada. Pra sempre.

Mesmo que poucos lembrem, e esses poucos quase sempre recalcados, esse “escorregão” será usado para desmerecê-la, para lembrar a todos que ela já foi objetificada e se se sujeitou à objetificação é porque a merecia, é porque escolheu, é porque é uma ______________ (preencha com o adjetivo moralista e desqualificador que preferir) mesmo.

reparem, sublinhado de vermelho, o número de retweets e curtidas da postagem

reparem, sublinhado de vermelho, o número de retweets e curtidas da postagem (já aumentou, podem conferir)

Ah, o cinema nacional teve uma fase ruim e ~engraçada~ e até homens passaram por isso. Ou, textualmente como me foi dito, “o inusitado é engraçado. O cinema dessa época é engraçado. Homens também pagaram mico nessa época, não?“. Sim, mas ninguém posta foto do Nuno Leal Maia pelado para desmerecê-lo. Né? Porque mesmo que postassem não o desmereceria. São as mulheres que são julgadas por qualquer coisa a todo o momento. Os homens tem salvo-conduto para tudo, para qualquer coisa. Inclusive para dizer que só postaram foto da Regina Casé nua num filme dos anos 80 porque acharam engraçado e não porque estavam sendo machistas.

diálogo com a pessoa que retweetou a postagem machista sobre a Regina Casé, porque achou "engraçado"

justificativa da pessoa para o retweet da postagem machista sobre a Regina Casé, achou “engraçado”

Chata sou eu em observar o machismo e “não deixá-lo rir” de uma piada tão banal, tão corriqueira, tão normal. Chatas essas feministas que não deixam a sociedade objetificar e oprimir as mulheres como bem entendem. A questão é que não estou aqui para deixar ou proibir nada no comportamento de ninguém, só não esperem que não chame as coisas por seus devidos nomes. Nomeio, denuncio, exponho. É só o que posso fazer. É tudo que devo fazer. Porque o dedo apontado para Regina Casé está apontado para mim também, e para todas as mulheres. Esse dedo está apontado para a Xuxa, para a Myrian Rios, para a Gretchen e para qualquer uma que “se deixou” objetificar em algum momento da vida. Não nos interessam os motivos pessoais que as levaram a isso, mas seria muito bom debatermos as condições de opressão que cercearam suas escolhas nesse período da vida. Não nos interessa também o que Xuxa, Myriam Rios, Gretchen e Regina Casé fazem da vida agora. É fã quem quer, curte quem quer, admira quem quer, critica quem quer. O que não pode, amigues, é julgar moralmente a pessoa e nem exigir coerência moral. Aliás, o que é coerência moral? De quem exigimos isso?

De todas essas para as quais vemos dedinhos apontados e ouvimos adjetivos serem pronunciados, apenas a Myriam Rios enveredou pela vida pública, e mesmo assim deve ser julgada por seus projetos e políticas defendidas, e não por seu passado ou pela cobrança de coerência do passado com o presente. Porque né… Ninguém faz isso com um homem na mesma posição. Aliás, sequer investigam. Aliás, um homem jamais estaria na mesma situação. Aliás, se um homem fodeu ou exibiu o pau e a bunda no cinema foi só um passeio do cidadão de bem no submundo da putaria, “não dá nada”. Aliás, putaria pra homem é mérito.

Até quando não perceberemos o que tem de machismo nas nossas atitudes diárias? Até quando apontaremos o dedo para condenar mulheres por seu comportamento sexual? Até quando o comportamento sexual da mulher seguirá nos chocando e sendo assunto público? Até quando o machismo será justificado como piada?

Não sei vocês, mas eu estou pelas tampas. E faz tempo.

a cena que gerou o post no twitter com Regina Casé é do trash "O Segredo da Múmia" (1982), de Ivan Cardoso

a cena que gerou o post no twitter com Regina Casé é do trash “O Segredo da Múmia” (1982), de Ivan Cardoso

p.s.: o tal filme da Regina Casé não é nem pornô, é um trash — O Segredo da Múmia de Ivan Cardoso de 1982. Uma época bem menos careta e moralista que essa, onde o nu no teatro e no cinema eram comuns e bem menos comerciais que hoje.

Quem quiser assistir ao filme completo, clique aqui

Leia também “Não Tem Graça”, da Luciana Nepomuceno.

O moralismo que existe em nós

Por Niara de Oliveira

“…e onde sou só desejo, queres não”
(clica para ouvir enquanto lês)

Ninguém nasce pronto. A gente vai descobrindo o mundo, se descobrindo, aprendendo e ensinando, trocando experiências. E cada pessoa que passa pela vida da gente e cada dia vivido muda a gente um pouquinho. Não existem certezas. Costumo dizer que sabemos que deixamos de ser adolescentes e entramos na idade adulta quando percebemos e admitimos que temos mais dúvidas que certezas na vida.

Lembra de um texto da Lu-Borboleta dizendo que nunca a veríamos apontando o dedo para alguém chamando de machista, que as pessoas têm comportamentos machistas e que todos nós podemos escorregar? Então… Isso é a síntese do entendimento de que por vivermos numa sociedade estruturalmente machista todos estamos sujeitos a escorregar e reproduzir comportamentos machistas. Arrisco dizer que é bem provável que façamos — inclusive nós, feministas — isso na maior parte do tempo. Na menor parte do tempo a gente se vigia e cuida para não escorregar. Mas não é fácil…

Daí que o moralismo, assim como os outros ismos, é uma sombra que nos persegue. Como é difícil não criticar x outrx, não apontar o dedo para x outrx. Principalmente quando x outrx é outra, é mulher. Como é fácil apontarmos o dedo para as mulheres, e — na contramão — como é fácil termos dedos apontados para nós. Já disse outro dia e repito: Liberdade (e gosto de escrevê-la assim, com letra maiúscula) é um exercício, mútuo, coletivo. Mais do que isso, é uma luta. Constante, diária, infinda.

O meu feminismo não é o mesmo de vinte anos atrás, nem é o mesmo de dois anos atrás. O meu feminismo hoje é mais feliz, alegre e livre desde que encontrei o povo desse clube. Muitas coisas já me incomodavam antes, é fato, como algumas feministas lutarem contra a tutela da sociedade e dos homens sobre as mulheres mas em determinado momento elas mesma tutelarem outras mulheres e o movimento. Não quero ser tutelada e nem tutelar ninguém. Não me interessa substituir a pessoa do opressor, mas combater e extinguir a opressão, de todxs.

É preciso entender que ninguém é igual ou tem o mesmo ritmo de aprendizado e da troca que nos modifica, e temos olhares diferentes sobre o mundo e sobre x outrx. Daí, que não dá para exigir que só porque nos tornamos feministas e achamos que somos melhores assim que as demais mulheres passem pelo mesmo processo, igualzinho, e atuem da mesma forma, com a mesma força, intensidade e grau de consciência. E de todas as dificuldades, respeitar x outrx e o seu direito inclusive à alienação e ao processo de conscientização em formato, ritmo, conteúdo e consistência diferente parece ser o maior.

tattoo piriguete

piriguete, como deveria ser qualquer mulher, é livre para fazer o que quiser, até amor

Se uma mulher quer se assumir piriguete e até mesmo tatuar isso na pele, no que isso atrapalha minha vida ou minha luta feminista? No que a liberdade sexual de uma mulher ofende o feminismo? Esse respeito ao qual a maioria da sociedade acha que as mulheres devem se dar — sem precisar exercitá-lo — eu não quero. E pra mim não importa quem me diga que devo me dar ao respeito, se feministas ou machistas, me oprime. Minha única discordância com a ideia da tattoo acima — e isso é pessoal, a Pietra pode continuar pensando da mesma forma — é que piriguete pode ser piriguete e fazer amor e mulher casada e moça de família podem fazer sexo gostoso, basta quererem e assim decidirem. Mas é excelente ver uma mulher rotulada de forma depreciativa por seu comportamento e atitude esfregar o preconceito nas fuças dos moralistas, como quem vira o espelho na cara da sociedade e reflete nela o seu julgamento hipócrita. Isso significa libertação. Significa que para a Pietra o julgamento da sociedade já não importa mais, lhe é inútil. E a mim, como feminista e biscate, só cabe aplaudir.

Ou a libertação das mulheres, inclusive sexual, não é mais o objetivo principal do feminismo?

“O quereres e o estares sempre a fim 
do que em mim é de mim tão desigual
Faz-me querer-te bem, querer-te mal
bem a ti, mal ao quereres assim
Infinitivamente pessoal
e eu querendo querer-te sem ter fim
E querendo te aprender o total do querer
que há e do que não há em mim”

Sambando e estripando…

Por Niara de Oliveira

Niemeyer morreu. Madonna no Brasil, de novo. Periguetes em alta. Dedos em riste… Não, pera… Que diabos tudo isso tem em comum? Vou explicar por partes, como faria Jack.

Tripa 1 — Niemeyer morreu. O cara tinha 104 anos, se dizia comunista, ateu, falava umas coisas bacanas sobre liberdade, oportunidades e sonhar, e trabalhou até praticamente o último instante de vida. Amava o que fazia. Críticas? Muitas. Tinha paixão pelo concreto e desconhecia o que era ecossiocialismo (para saber mais). Para dar visibilidade às suas obras era capaz de mandar destruir lugares onde a natureza foi muito generosa, como o local do Museu de Arte Contemporânea em Niterói que, como disse o Chico Capeta, é “o melhor mirante do Rio do Janeiro”. Era assumidamente stalinista (sinto arrepios só de pensar que alguém pode escolher ser stalinista, escolher simpatizar com essa corrente), mas era inegavelmente um GÊNIO da arquitetura, de traço incomparável, respeitado e ovacionado no mundo inteiro (e só a besta do Reinaldo Azevedo para não reconhecer isso). A morte de alguém muito grande como Niemeyer provoca reações díspares, como díspares são as pessoas. Há aquela velha corrente da santificação, insuflada pela grande imprensa que tenta lucrar com audiência através dos feitos do morto e tentando apresentar a melhor cobertura do funeral ou o melhor portifólio da obra. Mais recentemente surgiu a corrente da demonização, que tentando ir na direção contrária da santificação acaba sendo muito deselegante e rude com quem acabou de partir. Porra, será que não dá para ter um pouco de respeito nem na hora da morte da criatura? Dá, sim. E acho que respeitar é ser justo, é dizer a verdade e deselegante mesmo é puxar o saco, principalmente depois que o saco do cidadão já até gelou. Então, ao pensar na sede do Partido Comunista Francês, em Brasília, na igreja da Pampulha (ó, que interessante… um ateu projetando igreja, e lindamente… sim, nós humanos somos feitos de contradições), no Memorial da América Latina, lembre-se também do que representa construir blocos de concretos no meio de grandes cidades superaquecidas, sem arborização e, principalmente, lembre-se dos CIEPs no Rio de Janeiro. Tá, poderíamos falar só do que é boniteza e tals… Mas, ainda tem mais um detalhe, o comunista Niemeyer apoiou Eduardo Paes nessa última eleição — atual prefeito da cidade do Rio de Janeiro — que promove na contramão da história do humanismo e cuspindo nos Direitos Humanos obras que desalojam pessoas, implodem a memória da cidade em nome de grandes investimentos, eventos, enfim… Em nome do progresso! Só as atrocidades cometidas em nome de Deus foram piores e/ou maiores do que as cometidas em nome do progresso. Ou seja… Se Niemeyer era comunista, Kátia (a cega) é jazz*!

madonna periguete

tatuagem fake que Madonna fez para o momento do strip-tease de seu no Rio na última segunda-feira (3) onde em outros lugares também exibiu “Peace”, “Obama” e “Pussy Riot”

Tripa 2 — Madonna no Brasil. Super estrela pop vindo fazer show no nosso quintalzão, de novo. UAU! Não, pera… Em tempos de Lady Gaga, Madonna virou a tia velha e ganhou a pecha de ridícula. Já não se lembram mais de sua bela voz e que ela canta de verdade, compõe, dança (e interprata mal, isso é fato) e que está no topo do mundo pop desde os anos 80 e que envelheceu, sim, mas e daí? Desde quando envelhecer é ruim? (tem um exto bacana aqui sobre envelhecer) Madonna sobreviveu sem forçar a barra, sem parecer mudar de estilo ou ficar decadente. Então, porque afinal ela é acusada de ser decadente? Simples. É mulher, passou dos 50 anos dando coice na cola como dizem lá no pampa e está pouco se importando com as opiniões a seu respeito. Madonna incomoda demais. Ela é independente, dona do seu nariz, vida, corpo e carreira. Quando (dizem) apanhava de Sean Penn pagava pau pro marido e fez para ele um disco falando em quase todas as músicas de amor verdadeiro. As feministas odiaram. Ela seguiu. Nessa passada pelo Brasil, Madonna resolveu se assumir perigueti. Como assim, brazew? Mas perigueti não é só um estereótipo do qual “todas” fogem porque não são “respeitadas”? Não, pera… Alguém sabe me dizer qual mulher é respeitada sem se impor e sem se esgualepar inteira? NENHUMA! E Madonna sabe disso. Sua homenagem às periguetes é uma campanha de visibilidade tipo, “olhem pra mim, bem sucedida, dona de mim e PE-RI-GUE-TE!”

Tripas 1 e 2, sambadas — Se Madonna sambou na cara do moralismo do mundo inteiro a partir do nosso moralismo tupiniquinim, Niemeyer sambou na cara da morte e deu-lhe tanto trabalho, mas tanto trabalho, que só por isso eu já sei que ele não era comunista de verdade (risos). Mas… Rótulos servem para quê, mesmo? No que chamar Madonna de velha, decadente e acabada tira seu brilho? No que chamar Niemeyer de comunista-stalinista-gênio-calhorda tira seu mérito? Eu pergunto, eu mesma respondo: Tira muito do nosso brilho como pessoas e desgasta muito da nossa capacidade como humanidade. Dedos em riste só servem se for para se fazer respeitar e em nome da verdade. Se forem para julgar moralmente dizem mais a respeito de nós, do vergonhoso nós, do que de quem estamos julgando.

Achou contraditório? É, ué. A contradição é condição humana e essencialmente biscate. E se for para se valer dela para lembrar de quem samba na cara do moralismo, tô nem aí, uso mesmo! 😛.

p.s.: Não sou fã nem do trabalho da Madonna e nem do Niemeyer, mas isso não tem nada (ou tudo) a ver com respeito ou com os meus moralismos e contradições.

*Kátia é jazz” é uma expressão que surgiu nos comentários de um post da Suzana Dornelles aqui,  e foi criada pela Deb. ou deborahpetri (alter ego de uma querida que prefere o anonimato e essa vida dupla), para me contrariar quando afirmei que Magal não é brega. Disse Deb.: “Se Magal não é brega, Kátia é jazz!” — Levamos pra vida.

Carnaval e Biscatagi

E então chega o carnaval.  Para muita gente, sinônimo de biscatagi.

Será?

Ilustração de Cláudia Gavenas

Ah, pode ser. Ou não. Uhmmm, talvez.  É que no carnaval (e só no carnaval, viu gente?) todo mundo tem uma espécie de “passe livre” para ser livre. É uma semana inteirinha em que a sociedade “aceita” que façamos o que tivermos vontade.  Aceita mais para uns do que para outros, certamente. E uns podem ter muito mais “liberdade” que outros pelos motivos que a gente já conhece.  Parece que o país inteiro fica mais tolerante, colorido e sorridente nessa época. Mas depois que passa a festa,  guarda-se as máscaras e as pessoas precisam voltar a ser “sérias”.  Afinal, o ano só começa depois do carnaval, não é?

Hipócrita isso, sabe.

Não me entendam equivocadamente, porque não acho que todos precisam estar felizes e contentes o tempo todo; aliás, eu tenho um pouco de receio de gente que nunca demonstra na vida um momento de fraqueza . No entanto, não encontro lógica num pensamento tão paradoxal, porém recorrente no discurso de tanta gente. E quando falo do paradoxo, refiro-me principalmente ao que remete à conduta ( não gosto do termo, mas não encontrei um melhor) sexual de cada um.

O carnaval, segundo o discurso supracitado, é a justificativa e a oportunidade para a galera “pegar geral”.  Mas se alguém resolver fazer isso durante o resto do ano, será tachad@ de imoral. Irá chocar a sociedade. E haja maledicência!  E paciência para aguentar… Se esse alguém for mulher então… Coitada. Então, paradoxo: é Ok usar abadá decotado e shortinho para seguir os blocos de rua; mas blusinha curta, para ir à padaria num dia de calor, em qualquer outro momento da vida dela, não.  Aí, ela não pode aparecer, ficar se “mostrando”.  Vamos pensando aí, pessoal.  Não é muito falso moralismo?  Por que as regras tem que mudar durante a folia?

E sobre o carnaval ser ou não sinônimo de biscatagi, digo que depende… Da biscate! Conheço biscates (eu inclusa) que não curtem muito essa época do ano. Outras aproveitam o feriado prolongado para descansar ou curtir as músicas da preferência delas. E outras ainda, que não perdem sequer um dia de festa: topam micareta, trio elétrico, bloco de rua, desfile de escola de samba, baile de salão… E garanto que se qualquer uma delas quiser ficar com alguém e for consensual, elas o farão porque querem.

E o que todas elas têm em comum é que se sentem livres o ano todo. Sem data marcada para começar e para acabar.

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