Sempre ao Domingos

Ele surgiu nas nossas vidas antes, lá em Mothern e Força Tarefa, eu tava distraída e não reparei muito, mas foi impossível não ficar hipnotizada por ele em Cordel Encantado e assim, pra todo sempre pra gente, um grupo de amigas e amigos noveleiros ele ficou sendo Capitão Herculano ou, simplesmente, Capitão.

Nós somos (sim, não deixaremos de ser) as cangaceiras de seu bando, fãs da sua beleza e da sua interpretação. Porque mais que lindo, era o olhar sincero, doce, forte que encantava. Ele estava inteiro nos seus personagens.

E em poucos papéis: o Capitão,  Paulo Ventura, Zyah, Mundo, Miguel e Santo ele interpretou brilhantemente homens que tinham um pouco dele: idealismo, ética, amor, sinceridade, dúvidas, alegria. Um homem comum e simples e nos encantou pra sempre.

A vida quase nunca é como queremos e o levou muito mais cedo do que seria desejável, a gente vai sentir saudades pra sempre, mas nada que se compare a dor que os seus sentirão. Um pequeno consolo, talvez, é realmente pensar que virou protetor do rio. Outro: lembrar que o ator nunca morre, pois sua obra se eterniza nas imagens que deixa e ele deixou um legado até breve na tv, embora inesquecível, e um grande legado no teatro e arte de ser palhaço.

E esse texto é só pra dizer obrigado por tudo,  obrigado principalmente pelo Capitão, pelo Mundo e pelo Miguel, que amei tanto e você fez tão lindamente. Domingos Montagner, sua estrela vai brilhar pra sempre, um beijo das cangaceiras e das noveleiras e noveleiros.

capitao

Novelo

Início: 06/05

Para Ângela e Duda.

Meu pai está morrendo.

O facebook e suas lembranças. Lunna me escrevendo há alguns anos dizia-me...

“Somos diferentes, não é mesmo? Talvez por isso você tenha disparado aquela pergunta em nosso último diálogo. Você se lembra? “por que?” – indagou você. Eu não sei o seu tom de voz. Nunca nos falamos se não por palavras escritas. Então imagino um tom acima, animado que vai se silenciando enquanto o discurso é feito. Não teve pausa o seu questionamento, mas eu a inseri aqui para dar o peso necessário a esse discurso que chegou a mim assim “eu me pergunto porquê eu insisto em conversar com você”…”

Meu pai está morrendo.

Lunna. Ah, Lunna…

“Escritor: não somente uma certa maneira especial de ver as coisas, senão também uma impossibilidade de as ver de qualquer outra maneira”. – Carlos Drummond de Andrade.

Meu pai está morrendo.

Falamos de amizades, sororidade e rupturas.

Penso cinematograficamente. O que é complicado, tendo em vista as inúmeras possibilidades dessa forma de fazer e viver arte. Sem roteiro fica complicado. Do que eu ia falar mesmo?

Meu pai está morrendo.

As personagens aqui: Mãe, Beth, fogo, menstruação

As personagens fora: Leide Jane, Raísa, Camila, HipHop, Feminino Sagrado

Bijoux. Paciência. Bela, recatada e do lar. Bruxas.

Meu pai está morrendo.

Novelo Prateado. Fotos Performance LuzdelLuna

Cabelo Branco. Gatos. Fonte. As coisas que aconteceram.

Lu, Cláudio, visitas. Lunna reaparecendo. O texto de Lunna.

Filiação ao Psol.

Meu pai está morrendo.

Novelo do Mundo

Pensei em não pintar mais os cabelos, criar muitos gatos, banhar-me no chafariz Felliniano que ia instalar em sonhos no jardim. Pensei em consolar-me ranzizamente em ervas, cristais, esconjuros, benzeduras, divinações e na paz de andar nua e descalça na grama. Mas é que tem maldade andando nas ruas e “pessoas assim” podem morrer assassinadas a qualquer momento.

Meu pai está morrendo.

Enfim… muito tempo sem escrever. Acho que perdi o jeito. O prumo. As rédeas. As palavras. Elas tomaram conta do ambiente e se esparramaram sem controle.

Meu pai está morrendo.

A sensação de não caber no que esperam. Do que falo eu que possa interessar? – questionei durante o todo tempo em que a pesquisa e as palavras ficaram em pause. Organizando o caos no Word. Peço ajuda porque sim. Dependo dessa (re)construção coletiva do que tenho apreendido de mim e nos outros.

Das certezas: grande parte das minhas crises existenciais rolam quando eu estou com fome ou com sono. As maiores quando estou com fome E com sono. Mas sou teimosa demais para me admitir tão óbvia assim. Dramas de uma taurina.Parte superior do formulário

Meu pai está morrendo.

Hoje é o primeiro dia de Lua Nova. Em algum momento vai fazer sentido, sussurra-me o homem com a voz do deus. “Invento o amor e sei a dor de me lançar”. Repito baixinho e timidamente antes de prender a respiração para esquecer os medos todos. Bobos.

Mergulho.

Meu pai está morrendo.

Há uma luz que nunca se apaga…

Por Niara de Oliveira

Há uma luz que nunca se apaga...

Biscatiei com a morte quase toda minha vida. Sempre me pareceu uma boa ideia, extremamente simpática e atraente. Passei da infância pra adolescência me debatendo com a obrigatoriedade da vida. Não escolhi estar aqui, apenas estou. Então, por que não decidir não estar mais? Tanta gente interessante, cheia de coisas para dizer se matou, optou por não estar mais aqui… E eu adorava gente morta.

A adolescência é bipolar, né? Over na farra e na deprê ao mesmo tempo. E essa coisa meio dark, meio deprê me definia quando adolescente. Pode ser porque fui adolescente nos anos 80 e nenhuma outra época se encaixou tanto com esse sentimento, acho. É assim que percebo, daqui do meu portal.

— ai, que infortúnio! (Funérea, a diva gótica)

— ai, que infortúnio! (Funérea, a diva gótica)

Adolescente — mas não apenas — biscateia demais com a morte. Pelo desajuste, pelas incertezas ou certezas demais, pelo que lê e ouve. E tudo na minha adolescência, completamente revolts, me levava a simpatizar com o universo suicida. Digo universo e não o suicídio em si, porque existe quem curta viver para gostar da morte. Tem até mercado para isso. Encontrar Smiths, Cure, Joy Division a partir dos 14 anos ajudou demais nesse processo.

O Calvin (filho) gostar de Smiths não é uma coincidência ou acaso. Ouço em looping There Is A Light That Never Goes Out — estou ouvindo agora –, que fala da morte como uma experiência agradável, se for eternizar aquele momento. Nada mais adolescente que isso. Trágico, fugaz, efêmero. E apaixonante.

disse em outro momento que foi essa música que me salvou da mediocridade. E não há exagero nisso. Guria pobre no subúrbio de Pelotas, não tinha acesso a outro tipo de cultura que não a massificada e massificadora. Ou se comprava os discos ou não se ouvia nada diferente do que tocasse no rádio. E minha primeira sensação de pertencimento ao mundo me veio justamente nessa declaração de despertencimento e desajuste do Morrissey. Também porque é uma declaração de amor. É triste sem ser. Trágica, fugaz, efêmera e, principalmente, silenciosa. Ele certamente escreveu o que não conseguia dizer. Tão eu. Ainda hoje tão eu. Até tatuei no braço…

minha tattoo

minha tattoo, fiz em 2013

Me leve para sair esta noite
Onde exista música e pessoas
que sejam jovens e vivas
Sendo levado no seu carro
Eu nunca mais quero ir para casa
Porque eu não tenho mais uma casa

Me leve para sair esta noite
Porque quero ver gente, eu quero ver luzes
Sendo levado no seu carro
Oh por favor, não me abandone em casa
Porque esta não é minha casa, é a casa deles
E eu não sou mais bem-vindo

E se um ônibus de dois andares colidisse contra nós
Morrer ao seu lado, que jeito divino de morrer
E se um caminhão de dez toneladas matasse nós dois
Morrer ao seu lado
Bem, o prazer e o privilégio são meus

Me leve para sair esta noite
Oh me leve para qualquer lugar, eu não ligo
E numa passagem subterrânea escurecida, eu pensei
“oh Deus, Minha chance finalmente chegou”
Mas então um estranho medo me tomou
e eu não pude pedir

Me leve para sair esta noite
Oh, me leve para qualquer lugar, eu não ligo, não ligo, não
Apenas indo no seu carro
Eu nunca mais quero ir para casa
Porque não tenho mais uma casa
Eu não tenho mais

E se um ônibus de dois andares colidisse contra nós
Morrer ao seu lado, que jeito divino de morrer
E se um caminhão de dez toneladas matasse nós dois
Morrer ao seu lado
Bem, o prazer e o privilégio são meus

Há uma luz que nunca se apaga…
Há uma luz que nunca se apaga…
Há uma luz que nunca se apaga…

Curto bem mais a vida agora. Nunca me senti tão bem em estar viva. Mas isso tem a ver com a minha trajetória até aqui, e não com os sentimentos da adolescência ou por serem sentimentos “característicos da adolescência”. Isso é estigma. Tem gente que biscateia com a morte até morrer bem velhinho. O próprio Morrissey, hoje coroa — e bem mais bonitão do que da época do Smiths — mantém ainda esse tom meio deprê, nas composições e na voz.

Não biscateio mais (tanto) com a morte, mas continuo gostando de gente morta, e Smiths, Cure, Joy Division continuam na minha playlist. E ouvindo There Is A Light That Never Goes Out em looping. #DSCLPmundo

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...