Sobre Pensar Distâncias

Tão perto e tão longe… Quão próximo se deve estar? Que distância conforta? Quais distâncias machucam: Distante… Quão distante? Quem distante? Distante de onde?

Maldita dor essa inventada… Inventada e se dizer do banzo daquilo que vai além e o espaço não mede o alcance… Dor de querer quem não pode responder ao abraço, dor de abraçar a própria dor ao longe.

Pensar Distâncias

Pensar Distâncias

Distante não só no espaço… Lonjuras no infinito da cabeça… Distância do pensamento, dos quereres, distâncias do que se acha inalcançável mesmo abaixo do nariz. Quereres e distâncias, quereres e barreiras… O perto que é longínquo e o longe tão próximo que o suspiro faz cair o castelo de cartas do infinito…

Distância do conforto, lonjura do contentamento… Longe para a fuga para perto da não dor… Mas distância… Construindo distância para destruir presença, destruindo distância para construir constância… Distância para amar construir proximidades na lonjura dos olhos…

Encontros… Distâncias e tempos para encontros, para o ver-se, para o não se ver… Para aumentar a dor, para dar conforto à dor… Novas distâncias de velhos novos encontros… Encontros de saudade, encontros de desejo, encontros de alegria, encontros de tristeza, de terror, amor, pulsão, tesão, de juntar-se. Encontros de aplacar distâncias, de emplacar a vida…

Nem boas, ou ruins… Distância de se medir, de não medir… Esforços pra reduzir, trabalho para alongar, medo de sentir… Sentir saudade da distância… Agir para separar distâncias…

Perceber, as vezes, quando é muito pouco o que se tem que fazer. Inventar lutas para travar acessos à lugares indistintos, de pouca ou muita distância. Afligir a vida para combater dor, aninhar alegria, insuflar esperanças, amansar desesperos…

Lidar com distâncias…

Mais que sentir as distâncias. Lutar por aquelas que valem. se valer daquelas necessárias. Desfazer as terríveis. Invadir as imponderáveis. Só para ser, ou tentar ser, feliz com a distância que lhe convém…

Sobre uma forma de entender distâncias…

Ode ao Cutuco

A Biscatagi, ela não tem limites. Desde que se convencionou que a sociedade humana biscatearia, temos encontrado, criado, despendido um tempo enorme em estratégias, das ingênuas às mirabolantes, para dar umazinha estreitar relacionamentos. Na era das redes sociais, não poderia ser diferente. De que adiantaria ter uma rede social (viu, orkut) se nela não pudéssemos demonstrar todo o nosso interesse e interatividade e boas intenções com apenas um clique?  É a maravilha do cutuco. [todos junto] OBRIGADO, ZUCKA!

Cutuca aqui!

Cutuca aqui!

Certamente uma das maravilhas da criação, o gênio que disse Fiat Cutucos, merece uma salva de palmas biscate. Cutucar se tornou, depois disso, uma prática de meninos, meninas, jovens, adultos e pessoas na melhor idade, para dizer: Olha, eu to facinho! Tudo de um jeito vulgar, sem ser sexy e na surdina, que é como a gente gosta… Pelo menos de vez em quando.

Falem a verdade, ou apenas admitam enquanto rebolam contidamente de felicidade da cadeira do escritório, do quarto, na rua, na chuva, na fazenda ou numa casinha de sapê se tiver 3G, a notificação de Habemus Cutucum é uma massagem no ego de todo mundo! Digam-me, quem nunca acordou e ainda com o olho remelento não espraguejou a demora do app em atualizar as notificações para, então ler: “Fulano e mais 10 pessoas te cutucaram” enquanto você dormia? Hora da prece pra Nossa Sra. do Vicky Vaporub pelo respiro aliviado!

Cutuca Mesmo!

Cutuca Mesmo!

Mas não é só isso! Pra quem é dos primórdios das redes sociais, havia uma indicação no “Ajuda” que deixava todo mundo muito bem informado que “Cutucar é um ato de carinho”. Isso mesmo! O Cutuco pode ir além da biscatagi. É, praticamente, um “não só, mas também”!

O Cutuco serve, por exemplo pra você dizer para aquela amiga que não vê há muito tempo um: “Olha eu aqui, fia”! Cutucos servem também para Guerras de Travesseiros virtuais noturnas, afinal quem não gosta de ficar cutucando o coleguinha até a exaustão e dormir igual a pinto no lixo depois da brincadeira? Cutucos servem, ainda, para se manter presente na vida das pessoas… Você sente saudades, vai lá, dá uma cutucadinha, a pessoa vê, sorri, lembra de você, dá uma cutucadinha de volta e por aí vai…

Cutucar serve, assim, para criar e manter relações sociais. Cutucar é uma das ferramenta que mais servem para, na vida social, fomentar encontros reais e ver se o tal cutuco realmente cutuca! Seja no bar, no restaurante, na escola , no motel, seja na esquina comendo um churros, o cutuco pode te levar a lugares nunca antes planejados! E o cutuco pode ter levar à uma eterna vida biscatagi. Ou seja, quem ama cutuca! Cutuque você também!

Das cruzes, ou sobre a vitimização

Dizem que cada um sabe a “cruz” que carrega. Um saber quase que fundamental. Conhecer a própria dor, ou dores, é a possibilidade de tomar as rédeas da própria vida, de tomar decisões conscientes – quem poderá dizer se são acertadas ou não? Mas o que dizer de quem, em nome próprio ou alheio, faz de alguma “cruz” um motivo de expressão da culpa coletiva sobre si? Como lidar com a vitimização?

As cruzes nossas de cada dia

As cruzes nossas de cada dia

Vitimizar é um processo de mão dupla. Começa em um lado não entender a dor do outro e o outro buscar atenção, por vezes supervalorizada, para si. Mas, atenção: vitimização não é aquela pessoa que chega pra você e quer conversar sobre um problema e você não está com saco. Isso é alguém com um problema e você, provavelmente, uma pessoa sem saco, ou um babaca, ou alguém que não se acha íntimo suficiente para tal. Vitimização é fazer do próprio sofrimento uma bandeira de privilégio. Vitimização é fazer da própria dor algo maior que a dor dos outros.

Eu sei, tem gente que tem bicho de pé e tem gente que tem HIV, tem gente que nasceu negro, pobre, marginalizado e tem gente que nasceu no Leblon, mas quem disse que a vitimização não está justamente em entender a dor do outro em relação à própria dor? Aliás, uma grande questão é como medir – se é que isso é possível, um sofrimento pessoal face ao convívio social? Quem tiver a resposta, tenho aqui alguns doces…

Suspeito, contudo, que é justo na dor do outro que encontramos a forma de entender e lidar com a própria dor – e não estou falando no “olha como ele sofre, que sorte que eu tenho”. Se é que essa existência serve para alguma coisa, ela serve para o fazer junto. Assim como nos satisfazemos em ter prazer com o outro, procurar lidar com a própria dor junto com a dor do outro é uma forma unir forças e encarar a realidade. É, sobretudo, uma forma de buscar apoio aos próprios problemas em um processo de troca. É uma forma de buscar carinho e apoio em alguém que tenha uma possibilidade de lhe entender.

Não por acaso, a tônica dos coletivismos minoritários é essa. Utilizar a própria situação de marginalidade, de enfrentamento do preconceito e da exclusão para reunir forças e se fazer valer para além de sofrer a existência. E, por favor, não entendamos a alegoria da “cruz” como algo imposto, como algo irrefutável. Talvez não seja a melhor alegoria para dor, mas tem a força simbólica, para além da religião, de um processo de superação. Afinal, entender a própria dor é um grande passo no auto-conhecimento, que não vai diminui-la, mas desconstruirá a ótica de “fantasma”que ela possa ter.

Ver pra Crer: sobre a visibilidade

Ver pra que, Tomé? Colocar o dedo na chaga por quê, Tomé? Para Crer? É isso que é necessário para se entender? Ver?

Falar em visibilidade pode parecer um contra-senso pra quem é minoria. Por que querer aparecer? Por que querer, em certo sentido, mostrar a intimidade? Por que buscar se colocar como peça frágil no tabuleiro da vida? Mas é justo por isso que ela é necessária!

Esse não é um texto para a militância… Que está na militância entende bem o porquê da visibilidade. Esse texto é pra quem está em casa, no trabalho, no armário, nas caixas da rotina. É pra quem está acomodado, satisfeito, receoso, com medo da situação.

Ver o amor, Crer no Amor

Ver o amor, Crer no Amor

Ter visibilidade é parte de um processo, um processo de luta. A visibilidade é o primeiro passo de um fazer ser entendido. Ter visibilidade é se fazer valer como alguém em sociedade, é dizer que não se está à mercê de uma imposição de resignação e esquecimento. Ser visível é se fazer crer como gente!

Se fazer visível é poder, acima de tudo, se fazer estar sem sentir vergonha, sem ter receio, sem perder a esperança. Mas não é um processo bonito. Se fazer visível e, mais, se fazer visível para mostrar o próprio amor requer coragem. Coragem para aguentar o preconceito. Coragem para lutar contra a agressão. Coragem pra não desistir quando o reconhecimento parecer inalcançável. É coragem de ser fora da margem.

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Ser e Ser Visto

A luta pela visibilidade é, no fim, a manifestação da insatisfação de ser excluído do que é considerado “aceitável” no meio social. É se dizer parte de tudo isso, é se mostrar presente em tudo isso, é, incansavelmente, trazer incômodo a quem não é capaz de entender o diferente. Essa luta para ser acreditado como “também” é em que consiste a pauta da visibilidade!

Ser visto, ser reconhecido, não é querer ser algo especial, para além. Ter visibilidade é justamente querer ser entendido como parte disso tudo. É por isso que essa busca se dá na esfera do não-íntimo, ou da exposição do íntimo. A pauta da visibilidade é de mostrar à sociedade que, se um dia ela o fez calar, ela o fez esconder, ela o fez temer, hoje ela terá que lhe encarar.

Os processos sociais não são puras assimilações pacíficas ou repetições controladas do que sempre foi. Os processos sociais são, sim, o rescaldo de lutas, o reflexo de manifestação das vontades contidas por dogmas e padrões causadores de opressão. E é por isso que, acomodado ou não, com medo ou não, a visibilidade é algo necessário para uma única coisa: se fazer crer como gente.

Por isso, não aproveite apenas o dia ou a semana da visibilidade lésbica ou bissexual para se fazer ver, Tomé. Para se fazer crer, visibilidade é todo dia!

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Não se deixar abater

Les-Bi-Biscatismos

Les-Bi-Biscatismos

 

A postagem faz parte da 1ª Semana de Blogagem Coletiva pelo Dia da Visibilidade Lésbica e Bissexual, convocada pelo True Love

Das noites que encarei sem deus

São essas, as noites que encarei sem deus. Não foram noites ruins, pelo contrário. As noites de luta com ele é que foram piores. Aliás, deus… palavra confusa! Que usem divindade, experiência do sobrenatural, feitor do universo, senhor de todas as coisas… Ou usem deus mesmo… E daí…

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Acreditem, não é sobre deus… É sobre o que fazem dele, o que impõem por ele. É sobre o que alguns acham que precisam nele. E escrevo deus em letra minúscula… desculpem… a deferência que, em particular, lhe presto não é linguística… aliás, nem sei em que medida essa deferência é “a deus” ou a qualquer que seja a imagem que se faz dele, mas, definitivamente, não é linguística…

É tudo, claro, sobre religião… É tudo sobre como isso que chamam e superior entra em mim, domina uma alma que sequer sei se tenho… embora a sinta… Pois é… a experiência… As religiões e as experiências de deus… gostaria de, por mínimo que fosse, entender a medida da possibilidade de deus intervir para além da minha experiência no que quero do outro…

Sim, as religiões são umas danadas… não no sentido biscate! justo em um sentido avesso! Enquanto nós, biscates, estamos por aí borboletando na experiência divina (as que querem, porque pode não querer, não entender, não gostar, ignorar… sei lá…) as religiões, ao contrário, cagam tudo ao querer institucionalizar isso!

É como institucionalizar o amor na comemoração do dia dos namorados no jantar seguido de motel… é isso a religião. É pegar a experiência de algo que está para além do imaterial (que nem é só imaterial) e colocar padrões… pior! colocar padrões universalistas!

E não é só colocar padrões universalistas. É colocar padrões universalistas e divinizar e demonizar aquilo que fazemos por desejo. E, sim, estou falando de sexo, de trepar, de tchacatchaca na butchaca, de burbruburbrurburbu… vocês entenderam… É um achismo convicto esse que tenho… o de que a minha experiência do divino é correlata a minha vontade de prazer… e ninguém tem nada a ver com isso. Se o meu deus tá vendo, problema dele que é só voyeur (o que gosto muito), mas deveria é estar aqui participando…

Eu sei, eu sei, eu sei… a minha experiência de deus e essa minha relação divino-desejo, não vai evitar que as religiões e os religiosos intervenham, ou tentem, intervir na minha vida… Pois é… é por isso que encaro noites sem os deuses deles! é por isso que travando discussões com os deuses deles, encontrei o divino em mim. Sincrético, completamente sincrético, mas o encontrei! Ainda é falho, ainda é frágil, mas construir o divino e o meu desejo faz de mim…

Destruam-se os padrões universalistas da experiência de deus! Subvertam-no! Tudo pelos deuses que não destruam nosso desejo! E disso, fica um recado: ESCANDALIZEM. Só assim se colocarão questionamentos necessários à própria mudança. E, mais, esperem de cada um a própria mudança, se ela vier… conviva com a sua… ela é só sua, assim como o seu desejo!

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Que todos encarem uma noite sem deus e voltem dela renovados, com ou sem deus, para além de seus desejos.

A Laicidade do Corpo e do Estado

As bisca tudo tão meio pirada na última semana. Foi um tal de dormir e acordar em 1968, cochilar e despertar em 1939, assistir televisão de ser teletransportado para a Idade Média, que tirou a galerê dos eixos. O trem eu descarrilou, e é um trenzão que pouca gente aguentaria por aí sem KY, é o da laicidade do Corpo e do Estado.

Olha, tio Lutero, onde quer que esteja, seja sempre o meu amoNÃO, Péra! deve estar um tanto quanto descontente, ou mesmo desapontado com o que temos passado por aí. Sua grande conquista política lá pelos idos dos 1600 e alguma coisa fia a de, justamente, separar a religião da política, relegando ao estado (na figura do príncipe, gutiguti ,<3) ao gestão sobre o corpo e à religião o império sobre a alma.

Pois é, na teoria… Ou, talvez, por algum tempo até se tenha buscado afirmar isso como uma máxima da nossa sociedade. Contudo, o que se presencia nos últimos meses (e, porque não, nos últimos anos) é justamente a tentativa deliberada de rompimento com esse ponto demarcatório da modernidade.

Da Laicidade do Corpo - Imagem de Protesto em Julho de 2013

Da Laicidade do Corpo – Imagem de Protesto em Julho de 2013

Pro pessoal aí que defende que a sociedade está se liquefazendo com o aquecimento global (#BjoBauman #Ironia), até faz sentido a reunião desses diversos fatores contraditórios e característicos de “tempos de rupturas” (?). O problema, no entanto, vai além, está justamente na opressão imposta a corpos, úteros, cus, bucetas e buracos das orelhas que se entranha e provoca sofrimento à vida em particular.

Aliás, nesse processo todo, o que mais vem assustando é a falta de preocupação generalizada (de pensadores, governos, grupos organizados) com o aspecto do sofrimento que esse rompimento da frágil laicidade do estado tem provocado. Tem se tornado fácil apontar os juízos moralistas mais diversos à ~{[(“corpos antes apenas constrangidos pelo secularismo do estado”)]}~ na vontade de lhes impor o impensável.

Não que isso jamais tenha acontecido, pelo contrário. O embate entre religião e sociedade laica pelo domínio do estado permanece desde que tio Lulu jogou merda no ventilador colocando suas teses sobre religião naquela igrejinha lá da Alemanha. O grande problema que as bisca tão enfrentando atualmente vai além, é o retrocesso que está ocorrendo nesse processo de separação.

E é por isso que, de alguma forma e conforme suas possibilidades, as bisca estão marchando, estão se movimentando, estão blogando, tuitando e estão promovendo beijaços. É pelo direito de manter nosso frágil direito ao nosso corpo e de darmos nossa alma a quem quisermos, que se justifica a nossa luta. Por isso, queremos dizer: #VoltaLaicidade #SaudadeDoSeuRabo fia.

Tempos de Ruptura

 Mudar o modo de vida. É isso. É disso que se trata. Romper. Isolar tudo aquilo que se designa por opressão e “puf” desaparecer com isso. Mas é muita coisa! É, e são imensas… São vozes de clamor por ruptura. Novas e enfáticas; lépidas e abobadas; velhas e cansadas; revigorados e entoadas, vozes… É tudo e, ao mesmo tempo, parece não ser nada. Não há foco, ou há. Não há liderança, ou há. Não há coesão, ou há. Não há oportunismo, ou há.

por Everton Nunes

por Everton Nunes

 Não se entendem as coisas assim tão facilmente. Oprime-se, comprime-se, atinge-se, suprime-se. Vida, vale nada. Integridade, vale nada. Dignidade, vale nada. –E o que vale? –Vale nada… É aquilo que não se carrega. É aquilo que não se suporta. É aquilo que se rende sob qualquer pretexto. –E a quem interessa? –A mim. –A quem mais interessa? –A mim. –E a quem ainda interessa? –A mim. É assim que se ouve… É assim que se segue…

Crime, exclusão, exceção. Explode, espirra, espanca. Decepa, arde, sufoca. Cidade fechada, cidade escoltada, cidade sitiada. Polícia contra; Exército contra; Estado contra. –Quem mesmo está por ti? –Você. –Quem mais está por ti? –Você. –Quem ainda está por ti. –Você. É assim que se espera… Mas assim se segue?

 Legalidade? Fora! Institucionalidade? Fora!! Autoridade? Fora!!! Provocar um fissura – Incitar o movimento. Ampliar a envergadura – conjugar sentimentos. Promover uma ruptura – alcançar o empoderamento. –Poder de quem? –Nosso! Poder para quem? –Para nós! –Poder por quem? Por nós! Só nós conseguiremos… E assim se segue?

–Perdas? –Sim. –Perdas? –Muitas. –Perdas? –Dor. Para ruptura, dor. Dor, para além do que já dói. Dor, para não mais doer. Dor, para não mais temer. Liberdade! Romper para ser livres. –Livres? –Sim, Livres! –De que? –Livres! –Por quê? –Livres! –Para quê? –Livres! –Como? –Juntos! –Justificar as perdas? –Não, sofrê-las! –Justificar as perdas? –Não, vivê-las. –Justificar as perdas? –Não, contê-las!

Das Rupturas - Dalí

Das Rupturas – Dalí

Rupturas, não saber bem o que são. Não saber bem como são. Não saber em que se tornarão. Mas rupturas. Querê-las. Buscá-las. Fazê-las. Mais rupturas, Mudanças. Mais rupturas, Lembranças. Mais rupturas, Esperança. Romper… não mais deixar estabelecer… querer diferente do que é… não suportar a existência do não ser… Romper. Querer o novo. Mais que o novo. Querer o pra frente, além do senso, além do comum. Querer o que ainda não tem nome!

Lucia, Biscate-Honorária

E foi, foi no ritmo dos festejos do #BiscaTour2013SaudadeDoSeuRabo estação Bêagá que encontramos. Biscate-Honorária. Ou melhor, fomos encontrados, por uma dessas biscas improváveis que andam por aí, quietinhas, desapercebidas e, quando resolvem nos encontrar, dão aquela felicidade: Lucia.

Sarinha, Augusto e Quel, com Lúcia, só na biscatagi!

Sarinha, Augusto e Quel, com Lucia, só na biscatagi!

Assim veio Lucia. Vendia caixinhas de papel, que não nos interessou, mas ela insistiu, puxou conversa. Conhecia sotaques, cidades, falava da biblioteca Pública e dos Cachorros, mas principalmente de Bianca (porque é branquinha) que não está no vídeo.

Vídeo? É, vídeo! Procura aí, disse ela. Eu to na internet!!! E procuramos. E lá estava Lucia. Contando sua história de vida em um documentário. Uma verdadeira celebridade das ruas, cuja felicidade era que os outros soubessem de sua existência e de seus cachorros, aparentemente sem dar a importância devida às dimensões de suas palavras.

Lucia, perguntamos, quer tirar uma foto com a gente? Vamos te colocar de novo na internet! Mas é???? surpreendeu-se ela. Mas onde? No Biscate Social Club, Lucia. Você agora é Bisca-Honorária! Gostei disso! Posso mandar as pessoas procurarem? Claro que pode, Lucia! Você agora é nossa!

E como boas biscas que somos, aqui estamos compartilhando a história da linda da Lucia, no documentário dirigido pelo Sérgio R. Oliveira. Pela biscatização das Bibliotecas Públicas e contra o preconceito à pessoas de roupa suja, Bandeiras da querida Lucia.

Biscas do Brasil, se forem de ou a Bêagá, vejam Lucia, conversem com Lucia. Vejam Lucia na internet. Vai mudar um pouquinho da vida de vocês!

Beijo, Lucia. Saudade do seu Rabo!

Veja no Link abaixo o vídeo e a release do Documentário!

Lúcia – (Vídeo) Apresentação na EXPOUNA 2012 from ArkCyD on Vimeo.

Este documentário registra a história de Lúcia, uma moradora de rua de 52 anos que, após perder sua mãe, não conseguiu retomar sua vida. Conheceu a rejeição e foi morar em um albergue onde ali teve contato com as drogas. Passou a viver nas ruas, e vivenciou o preconceito que existe contra os moradores de rua. Vive atualmente em sua “mansão de papelão” na Avenida Álvares Cabral no centro de Belo Horizonte com seus cães. Apesar das dificuldades, Lúcia não perdeu o desejo de aprender, conhecer e viver.

Como trabalho para conclusão do semestre dos alunos de Cinema da universidade UNA, foi necessário criar um documentário de até 5 minutos usando fotos e apenas 1’30” de vídeo com o tema “Retratos do Brasil Contemporâneo”. Esta é a versão inicial com vídeo, onde montamos antes de criar a versão de fotos. Nosso objeto de estudo se baseou em uma grande pesquisa sobre os moradores até encontrarmos Lúcia, uma pessoa excepcional que tem muita sabedoria da vida e história para contar.
Sergio Renato Direção e Edição
Radija Queiroz Direção de fotografia
Reuel Soares Assistente dir. de fotografia
Lucas Teixeira Direção de arte
Poliana Oliveira Pesquisa e jornalismo
Matheus Valério Roteiro e produção
Filipe Mendonça Captação de áudio
Mateus Mendes Sound designer

“Night in the Draw”
Balmorhea
“Truth”
Balmorhea

Abolição, ou pelos olhos do lobo*

Meu lugar em casa sempre foi a cozinha. O lugar onde sempre me identifiquei. Onde sempre brinquei com as panelas entre as pernas da minha mãe; onde sempre ajudei a tomar conta dos meus irmãos; onde sempre fiz todas as refeições, sem exceção para escapadelas na sala vendo televisão; onde sempre fiz meu dever de casa e estudei; onde sempre conversei sobre tudo e ainda converso. A cozinha é o meu lugar em casa.

Filho Bastardo - Adriana Varejão

Filho Bastardo – Adriana Varejão

Ainda que de família pobre, mas de imigrantes europeus e sírio-libaneses (com um passado caboclo e indígena tão no fundo que não é sequer possível identificar), a trajetória da minha família sempre esteve fadada a cumprir a “Boa Nova da América”. Crescer, multiplicar, vencer na vida e dar trabalho a quem precisa. E, nisso, se dar ao luxo de ter, ainda que passando de classe média-baixa, média-média e média-alta, conforme o tempo, empregadas pra a tranquilidade da família.

Não me lembro de ter ficado, durante minha vida, muito tempo sem empregadas. E, vivendo num estado esbranquiçado como o é o Espírito Santo, não raro elas foram de todos os tipos e lugares, mas principalmente mineiras e baianas, negras. Mulheres das mais diversas características. Mas a cor não era um senão, ou pelo menos a entendia como se não fosse.

Viver em áreas de transição, estudar em escola pública, brincar na rua sempre me possibilitou um contato muito grande com negros. Isso sempre me fez senti-los como próximos, mas sempre diferentes, por uma simples questão de status social, afinal, eu sempre era, na infância, da família de melhor condição de vida, o filho do funcionário público, aquele cuja família tinha empregada, lavadeira e que, claro, não tinha negros na família.

Em um tempo (isso remonta há pelo menos 25 anos atrás) em que a injúria não era velada, cresci ouvindo e utilizando os piores registros linguísticos para denominar um negro! Piadas de toda sorte, que meus colegas negros da rua também contavam e riam. E ainda hoje alguns são capazes de rir, dizendo que se não rirem da própria desgraça não podem rir de nada…

Mas foi principalmente na cozinha, onde sempre recebi o cuidado das empregadas, que conheci o que era, naquela época, ser negro. Conviver com mulheres que abdicam da própria família, dos próprios filhos, da própria personalidade para passar oito, nove, dez horas por dia, a semana inteira na sua casa é um aprendizado. Cruel, mas um aprendizado. Não entender como isso remonta a uma necessidade diariamente auto-afirmada de sobrevivência é criminoso.

Na cozinha da minha casa vi mulheres de todos os tipos, jeitos, caracteres, credos, estimas e estigmas. Conversei com todas, convivi com todas. Fui mimado, educado, aconselhado, recriminado por todas. Não que tivesse pais ausentes, pelo contrário, mas quando se passa muito tempo na cozinha de casa, é impossível não atrapalhar o serviço das empregadas com coisas de crianças!

Carpeaux  - "Pourquoi naitre esclave" - Abolição

Carpeaux – “Pourquoi naitre esclave” – Abolição

Essas mulheres nunca se mostraram a mim como vítimas e também nunca as vi assim. Quando já “grande” e nas melhores escolas e segundo grau, quase sem negros em volta, mas ainda com empregadas (e, agora, com todos ao meu redor na mesma situação), nunca consegui me curvar ao discurso da vitimização. As mulheres que, durante a minha infância, ajudaram a formar aquilo que sou, nunca me deram essa idéia, nunca se colocaram de um ponto de vista frágil. Pelo contrário, sempre me foram um modelo de que a vida se vence, pela luta e por todos os meios que a condição de inferioridade se nos colocam nessa luta.

O que eu entendi, depois com minhas aulas de história, geografia, sociologia, filosofia, direito, ética, é que essas mulheres são o exemplo velado de um falso modelo de sociedade. Essas mulheres, em sua abnegação ao próprio, em sua vulnerabilidade ao individual, em sua atenção (as vezes extremada, as vezes branda, as vezes negligente) àquilo que não lhes pertencia por ser seu, mas por buscarem nisso (a minha família) a própria sobrevivência, me deram uma dimensão de respeito ao outro que não tenho como recusar.

E essa consciência, tampouco, representa algo que me assumiu em uma epifania. Ninguém acorda no dia seguinte ao ler Casa Grande e Senzala e se dá conta disso. Ao contrário, muitos que leem Casa Grande e Senzala (e se regozijam com isso) apenas o reproduzem de forma mascarada. E é recorrente aquilo que vejo e aprendo na cozinha de casa.

Ao longo dos anos, foram essas mulheres que me trouxeram o cheiro da realidade que só me pintava às mãos pela tinta dos jornais, ou apenas me era aceso aos olhos pela luz da televisão. Foram essas mulheres que me trouxeram o outro lado da realidade, a que se vive e que, em certo sentido eu convivi na infância, mas que hoje não faria parte do que me é dado (ou do que procuro) conhecer do mundo.

É só por essa realidade que sou capaz de entender que, em 125 de abolição, o que a sociedade em que eu vivo representa é um recorrente choque de ordem. Choques de ordem que se empenham em conceder migalhas de direitos. Choques de ordem que buscam encobrir um estado social em que o trabalho e o esforço só são capazes de gerar a sobrevivência, mas nunca a vitória.

Choques de ordem que mantém pobres, os miseráveis; negros, os criminosos; e as mulheres que trabalharam ao longo dos anos na minha cozinha, as mesmas mulheres que, sem motivo nenhum para ter vergonha, continuarão lutando pela própria sobrevivência e abdicando das próprias vidas. E não se trata só de pensar em “o que é que eu posso fazer para mudar isso?”. Abolição não é algo que se faz, abolição não é algo que se entrega e se diz “vá, agora és livre, cuides da tua vida, deixes de ser aquilo tudo que sempre fostes e muda”.

Abolição é como a sociedade vive e se constrói e, perdoem-me, as mulheres que entram na minha cozinha todos os dias de manhã só são capazes de me mostrar, ainda, que essa abolição não é plena. Não é plena, porque mesmo com as subsequentes conquistas e dádivas de direitos, ainda não fomos capazes de reconhecer no outro aquilo que queremos como sociedade para nós. Ainda não somos capazes de aquiescer no outro a legitimidade na luta e a busca por oportunidades, por mais impossíveis que às vezes elas pareçam.

Estamos longe e considerar próprio que libertos tomem, quaisquer que sejam os meios legais ou legítimos que os levaram lá, lugares de destaque, sem ouvir, nos mais diferentes tons possíveis a reprovação acompanhada, não raro, da expressão (quando muito bem politicamente correta colocada) “aquele negro”.

Enquanto a cor, o sexo, ou condição continuarem a ser um parâmetro de identificação na nossa sociedade, não se enganem, a abolição ainda não terá chegado. Enquanto for necessário ver na ação e na conquista algo que tenha que ser tomado como igual ao invés de sê-lo, nossa realidade ainda estará fadada a criar meios de exclusão. Enquanto a cidadania tiver que ser celebrada como um meio de conquistas esparsas e não como um âmbito da satisfação de direitos, ainda estaremos apenas reproduzindo um vulto daquilo eu nos foi posto como liberdade.

E é isso. Em 125 anos de abolição, a noção de fraternidade foi a que menos se esboçou para nós. Aqui, vista pelos olhos do lobo e através dos exemplos diários que entram e saem da minha cozinha, parece que uma tensão cada vez maior se forma e que conquistas ou dádivas são capazes de criar celeumas impensáveis em nome do status vigente. A abolição da escravatura, jamais significou e ainda não significa a plenitude de direitos, ela sequer tergiversou sobre o reconhecimento do outro como igual em direitos.

É esse reconhecimento que, pela busca da própria sobrevivência, essas mulheres me trouxeram e ainda trazem. É esse reconhecimento que, hoje mais claro pra mim, me parece negligenciado por um discurso do que deveria ser próprio e meritório a cada um, quando na verdade não é. Abolição não se trata só de permitir, seja em que nível for, que os demais sejam livres, trata-se de viver isso!

*Post vinculado à Blogagem Coletiva pelos 125 anos de Abolição, convidado pelo Blogueiras Negras.

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Vazio

O vazio em cada um de nós. Não que seja ruim, simplesmente vazio. Vazio que permite conhecer, saber tal que se merece ou não preenchimento. Vazio, puro vazio. Tabula rasa? Não! Vazio não como ausência, mas vazio como escolha. Vazio como presença e como espera. Vazio do outro, mas profusão de si.

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Rosa em Meditação – Dalí

Incoerente? Por certo, que sim ou que não. É vazio o que sinto quanto mais entendo, quanto mais me entendo. Não que recuse o cheio, mas no vazio completo, enquanto aguardo aquilo que preencha.

Aproveitar o vazio dos planaltos íntimos. Aquiescer na distinta condição de saber o querer. Manter um vazio fugaz ou pleno, insípido ou deleitoso, inerte ou fulgurante. Não manter.

Ter vazio, só para preencher. Ter vazio, só para entender. Ter vazio, só para não conter. Ter vazio, para deixar-se transbordar.

Vazio, para de seu exagero ocupar, no mesmo exagero. Vazio para completar como e com o que quiser, mesmo pela metade.

Vazios para aqueles que buscam o seu lugar…

Descobrimentos

Não há dia certos para se descobrir nada. Mas como hoje é uma data simbólica, vale a pena falar sobre os descobrimentos…

Descobrir é uma surpresa (oh, descobri o Brasil!). Para o bem, para o mal, que não fede, nem cheira, ou que cheira um pouquinho e as vezes fede, ou que é boazinha, mas ruim também. Descobrir é um dos objetivos da vida. Algum poeta algum dia ainda dirá que infelizes aqueles que nunca descobriram. E outro contista, talvez, acrescentará: infelizes daqueles que descobriram e sequer perceberam…

Não se trata de ser fácil, difícil ou de ter um tutorial de como se fazer, pensar, ou perceber descobrimentos. Basta apenas prestar atenção, basta apenas estar aberto a sentir o novo, sem compromisso… (Hey, péra! Isso não é um tutorial?).

Voltando aos descobrimentos. Adoro descobrir sinais, sorrisos, olhares. Gosto de descobrir, num sentido um pouco mais profundo, a satisfação! Sim, porque descobrir não é só o perceber ou encontrar algo que ocorre, descobrir pode ser desnudar, o trazer à tona aquilo que não sabíamos em nós ou o que as pessoas não sabiam em si. Descobrir é revelar! Também…

Bisca descobridora - Chagall

Bisca descobridora – Chagall

O tão bom de se descobrir na gargalhada. O riso, desculpem-me os tristes, mas o riso nos revela, como um todo. Choro com qualquer um que o mereça, por tristeza, felicidade ou rotina, mas é de rir constantemente que quero morrer. É na revelação e cada gargalhada, contida ou indiscreta, pudica ou biscateira que quero encontrar tudo o que é, pelo simples fato de querer ser…

Porque descobrir é isso, é desnudar o que é… é deixar ser, simples e apenas pelo fato de ser. DESCUBRA!

Institucionalidades

As músicas dizem muito sobre como pensamos a vida. As músicas expressam, às vezes, aquilo que estamos dispostos a dizer, mas não dispostos a tornar imperativo, aquilo que é necessário ficar no imaginário, sem ser objeto de intervenção. Não só a música, eu sei, é um propósito da arte, não toda, mas de alguma. A institucionalidade, ao contrário, nos obriga.

Paula Rego - O Regresso

Paula Rego – O Regresso

Exato, a institucionalidade, a esfera da exclusão do que é belo, por definição. Como boa Bisca que sou, tenho minhas teorias sobre a institucionalidade. A principal delas, é que as pessoas não só esperam por isso, como clamam, imploram e se submetem. A institucionalidade é, em si, a representação documentada da condição de ser… É a própria submissão à condição de estatística.

Mascarada como legitimidade, a institucionalidade é a forma como a nossa sociedade conseguiu, sem ao menos tentar, praticar a fraternidade. Sim, a fraternidade, aquela bela forma de reconhecer no outro os mesmos direitos, as mesmas liberdades, as mesmas possibilidade de dançar, à sua maneira, a mesma música que dançamos… A institucionalidade, em forma de lei, de decisão jurídica, de ordem de autoridade, é a nossa declaração de absoluta incompetência para viver com o outro, de conviver com o outro.

Sim, estou culpando o resultado por sua causa… Anarquia? Talvez… Por que não? A busca incessante que vivemos hoje pela satisfação de direitos através da lei é o resultado desse processo de institucionalização da vida… Bato nessa tecla, estamos passando da esfera do “livres para fazer o que não é proibido” (seria melhor livres para fazer o que não afete a liberdade alheia) para a do “livres para fazer o que a lei manda” (no melhor dos casos). Estamos invertendo tudo.

Desculpem a visão utópica. Do entender a marcha das minorias (e alguns excluídos nem minorias são) pela institucionalização de direitos, a concordar que isso é a única forma de se fazer respeitar as diversas condições, me falta a vontade. Me perco, às vezes… simplesmente não registro o quê de liberdade que há nisso. É como se a minha música tocasse não para ser ouvida, mas para ser registrada, não para ser dançada, mas para ser marchada, não para ser sublime, mas para ser verdade.

Sobre Institucionalidades - Laerte

Sobre Institucionalidades – Laerte

Assim, eu não queria… Mas, pelo jeito, por uma infortuna “formação cultural” o que tem pra hoje é um processo amplo, geral e restrito de institucionalização. No qual ao invés de se reivindicar direito, reivindica-se legalizações. Vivemos num país onde o se educar em conjunto, tornou-se um vamos fazer valer “isso” para que as pessoas, então, aprendam. Perdemos o bonde do processo de socialização… deixamos de significar as relações sociais para criar instituições, caixinhas mais confortáveis onde as pessoas possam dormir melhor…

Assim eu não queria… Mas se o jeito, hoje, é lutar para que as pessoas institucionalizem sua condição social, sua cor, sua sexualidade, sua identidade de gênero, não vou fechar os olhos e deixar acontecer, meu jeito é lutar junto. Lutar junto, contudo, para lutar mais. Lutar é a única forma de se posicionar pela igualdade, pela alteridade! Ser intransigente, se preciso, na minha opinião e combater o conformismo, sempre!  É assim, virarei estatística, se preciso, pra defender o direito ao reconhecimento, sobretudo pra defender minha utopia de não ter que institucionalizar o que sou, sou livre, sou música, sou dança, sou a arte de uma vida de histórias e sentimentos, não caibo em definições…

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