Nojinho de buceta?

A origem do mundo, de Courbet www.francebleu.fr

Quem tem medo de buceta?

Certa vez, transando com um peguete novinho, pedi que me masturbasse. Até que o menino tinha habilidade, mas ficou um tanto incomodado por eu querer isso e não pedir que me penetrasse logo de cara. Daí, quando estava perto de gozar, ele parou e pediu pra eu pegar camisinhas. Como assim, brasil? Estava com paciência porque era a primeira vez que trepava com o dito cujo. Me levantei, peguei a bendita e dei pra ele (a camisinha e a buceta).

E foi tão borocoxô… Não gozei. O homem parecia uma britadeira, mete, mete, mete. Aí a paciência foi diminuindo, assim como o meu tesão, interrompido abruptamente. Pedi que parasse. Ele também não gozou. Estávamos quites. Dispensei o boy e esse, ah, esse não me come nunca mais.

Sabe por quê?

Disse que só fazia sexo oral em namoradas (e eu concluí que o boy sofria da síndrome do nojinho de bucetas). Ok, é uma escolha dele. Não vou obrigar ninguém a ter uma prática que não é a sua. Mas fico me perguntando até que ponto a negação tem a ver com essa cultura asséptica, sem pêlos, com bucetas padronizadas e jovens que se espalha como uma praga por todos os cantos. E me parece que isso é algo recente, sabe? Nas minhas memórias pregressas de sexo, todos os meus parceiros caíam de boca em mim com fome e vontade. De uns breves tempos pra cá, tive a infelicidade de me deparar com homens que simplesmente não curtem fazer isso.

Sim, não curtem chupar, mas adoram ser chupados. Que injusto, não?

Pra completar a inutilidade da noite, o boy ainda questionou se eu era hetero. Por que, né? Quem seria louca de adiar o encontro com o pau-maravilha dele? Porque, se eu fosse uma hetero de verdade, ia querer logo que metesse bem fundo. Desde quando gostar de sexo oral e de masturbação me torna lésbica? Que equação bizarra é essa? Não, infelizmente não sou lésbica. Só queria deixar registrado que muitas lésbicas amam penetração e muitas mulheres heterossexuais não gozam só com penetração. Bem didático, né?

Não existe amor mesmo nessa vida. Recuso-me a entrar nessa. E fiquei orgulhosa de deixar claro que o rapaz tinha sido um péssimo amante. Quase escorracei daqui de casa. Esse não volta mais. Vá pro inferno com seu nojinho e preconceito! Bem longe da minha cama, de preferência.

Sabe, não quero me relacionar com homens que pensam ser o falo (deles) o centro de toda a transa. Pra coisa ser boa pra mim, não rola ter tanta frescura e egoísmo. Quero mãos que me toquem profundamente, línguas que me chupem com desejo até eu gozar e sentidos que saibam reconhecer o cheiro bom da excitação do sexo. Quem não manjar disso, simplesmente, vai ser carta fora do baralho.

Se eu tenho nojinho? Não, nenhum. Tudo que curto que façam em mim, gosto de fazer também. Comigo a brincadeira tem que ser recíproca, que assim me dá mais prazer. Eu dou e como também. Caça e caçador. Tudo isso e mais um pouco. Definitivamente, não tenho mais tempo a perder em um sexo com muitas restrições e caretices. Pior é perceber quando a restrição e a caretice esconde um medo danado de uma buceta. Medo do corpo de uma mulher adulta. Medo de perder uma suposta primazia do falo. Sabem de nada, inocentes!

E um beijo pra quem sabe apreciar uma buceta. Pra quem gosta de olhar, admirar, cheirar, beijar, lamber, chupar. Foder. Com amor, carinho e muita safadeza. Afinal, como num texto que li há pouco tempo, quem ama, chupa. Querem verdade mais cristalina que essa?

Sobre idade, mulheres e desejos

Li recentemente um blog de uma brasileira que vive na Austrália. A menina fez uma lista falando das diferenças culturais entre os dois países. Não costumo dar ibope pra esse tipo de comparação que geralmente recai na inferiorização da cultura brasileira frente ao outro. Como se nada aqui prestasse ou se eles, os outros, fizessem tudo certo e nós, bárbaros, as coisas erradas. Não dá. Porém, algo me chamou atenção na lista dessa moça. Ela disse que lá na Austrália, os homens mais velhos preferiam se relacionar com mulheres da idade deles. Que era até difícil ver um casal com uma diferença significativa (?) de idade.

Daí fiquei pensando em um monte de coisas. Até meio contraditórias. Confesso que achei bacana isso de pessoas mais velhas continuarem namorando, se apaixonando, se encantando. Mas também acho que a diferença de idade entre casais não pode ser tabu. Chato mesmo é ter regras rígidas pautando normas em relacionamentos afetivos. Né?

Mas, em nossa cultura, só um lembrete: homens, de qualquer idade, estão autorizados a ter vida sexual e afetiva. O mesmo não vale para as mulheres.

É sem sombra de dúvida, um hábito cruel e canalha desautorizar socialmente que uma mulher mais velha namore. Com alguém da idade dela, mais velho ou mais novo (aí o escândalo é total). Parece válido indagar: por que mulheres consideradas “maduras” ainda causam bastante estranhamento por exercerem seus desejos e suas sexualidades? Parece que a sua avó, a sua tia, a sua mãe ou aquela sua ex-professora devem estar condenadas a viver sempre no lugar da não-libido; como se fossem seres destituídos de desejos e que devem ser engolidas por essas identidades, quase sempre ligadas a maternidade com uma conotação conservadora e aprisionante.

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Vejo com dó o escarcéu que a mídia faz em torno da vida amorosa de Susana Vieira. Quase sempre na perspectiva de ridicularizá-la e de torná-la uma figura folclórica porque a mesma simplesmente comete a ousadia de namorar. E de namorar homens mais novos. Mas e daí? Susana poderia se relacionar com toda a torcida do Flamengo mais a do Corinthians que não seria da nossa conta.

Mas a mídia que alimenta as fofocas das celebridades, esperta como ela só, sabe que criar esses personagens como esse, da “senhorinha sem-vergonha”, ajuda e muito a vender revistas e a aumentar o número de acesso aos sites de espetacularização da vida privada. E sinceramente, a gente só perde com isso. Porque não devíamos reforçar essa cultura que tanto deprecia as mulheres mais velhas no exercício das suas liberdades de corpos e afetos. Ora, todxs nós chegaremos lá (assim espero, risos). E que vida linda, farta e generosa podemos ter sem esses rótulos babacas e moralistas! Realmente precisamos alimentar esse julgamento que acaba pesando muito mais pra nós, mulheres?

Não concordo e não darei o braço a torcer. Jamais esboçaria qualquer sinal de reprovação se minha mãe, aos 56, viúva, quiser namorar. Aplaudo e sempre aplaudirei pessoas que optam por serem felizes, sozinhas ou acompanhadas, por viverem seus desejos à revelia do olhar alheio, da patrulha alheia. Gosto dos que têm fome, como diz o verso de uma música de Adriana Calcanhotto. E vamos parar de apontar o dedo e deixar que as pessoas apenas fluam nas suas experiências, em qualquer fase da vida.

Basta um fio de luz para um quarto escuro não ser mais o mesmo

Por Fred Caju*, Biscate Convidado

quarto escuro

Três noites foram o suficiente para Ângela perceber como era a respiração do companheiro dormindo ou acordado. Por isso não hesitou ao disparar no escuro.

Cícero, por que você demorou tanto?

O homem tentou fingir o sono, não por maldade, mas por achar que a mulher falava enquanto dormia.

Por que, Cícero?

A insistência, porém, dissipou as nuvens da dúvida.

Tirou o acúmulo de ar dos pulmões e aproximou o nariz dos cabelos da companheira. O mesmo cheiro aprisionado de trinta anos atrás.

Não te entendo, querida.

Sempre gostamos um do outro. Mas continuamos por muito tempo deixando o não-dito dar a linha entre nós. Uma palavra e poderíamos ter ficado juntos antes, Cícero.

Estamos agora, querida. Estamos agora.

Olha nossos corpos, Cícero. Falou olhando para o teto como se ali tivesse um espelho e as luzes estivessem acesas. Éramos tão lindos. Tão jovens. Poderíamos ter incendiado o mundo.

Ainda somos, querida. Ainda podemos.

Na juventude você me disse não quando eu cansei de ter que amar sem tocar. Por que só agora?

Não te entendo. O tempo não nos degenerou. Você teve muitos homens, eu também tive algumas mulheres. Ganhamos experiência enfrentando barras e mais barras, assim como já sabemos o que é a felicidade. Hoje podemos ter toda a serenidade para o amor.

E os nossos corpos, Cícero? Eu sei, você nunca ligou pra isso. Mas você sempre soube que eu me importava. E ainda assim não o quis enquanto ele era jovem. Isso não é amor: é um requinte de crueldade da sua parte.

Suas mãos deslizaram no peito de penugem grisalha do homem. Sentiu que dali não sairiam mais palavras. Era o seu carinho de misericórdia.

Você não sente? A espera da morte é mais longa que a juventude. Essa é subversão do tempo contra a pretensão dos homens em marca-lo através do calendário. Eu não posso mais esperar, meu amor.

Os olhos do homem travaram no espelho imaginário do teto. Via-se pela primeira vez velho. Um fiapo de luz iluminou o quarto seguido da batida suave da porta. Estava só.

caju*Fred Caju é nordestino. Poeta. Editor do Castanha Mecânica. Curador do Cronisias. Com letras sumarentas que nos escorrem pelo canto da boca e, vez ou outra, deixam um travo, como a fruta que evoca. Pra gente não esquecer que letra é vida. Querendo mais, tem disponível na net o audiolivro do Arremedos de um dado viciado e os livros pro kindle: Arremedos de um dado viciado e Sumo de ranço.

Uma conversa sobre corpo

Essa experiência começou numa conversa entre a Lu Nepomuceno e eu. Sobre corpo, padrões, formas. E virou isso aqui: uma entrevista a duas vozes. As perguntas a gente fez juntas, eu umas, ela outras; as respostas, separadas. Ela respondeu, eu respondi. Vai assim pra vocês, pra vocês poderem fazer as próprias perguntas, darem as próprias respostas. Que a gente acha que é um assunto  delicado e premente. A gente optou por não botar imagens: aqui, o que conta são as palavras, os relatos, a imagem que a gente tinha da gente mesma.

1. Como era sua relação com essa questão de gordura/magreza na adolescência? você sentia alguma pressão para ser magra? você era magra?

L: Retrospectivamente eu sei que era magra na adolescência. Porque vejo as fotos. Mas era bunduda, comparando com o resto do corpo. Não me sentia nem magra nem gorda. Eu não tinha (e essa é uma coisa que me acompanha) a sensação de ter um corpo de um determinado modelo. Eu não pensava (e não penso muito) sobre meu corpo. Eu sou meu corpo, eu vivo meu corpo. E era um pouco assim na adolescência, só que sem nomear esse processo como hoje nomeio. Eu não sentia pressão pra ser magra ou mais gorda. Se a pressão existia, nunca dei por ela. Credito isso a uma série de fatores que se entrelaçaram com maior ou menor relevância: eu não via novelas nem tinha acesso a revistas ditas femininas, então não tinha modelos imediatos de beleza, minhas referências eram as atrizes dos filmes de sessão da tarde e, principalmente, corujão, geralmente mulheres da década de 40 a 60, com seios e quadris proeminentes e do tipo voluptuosas. Minha mãe é do tipo dessas atrizes, peitão e quadril, então ficava com a mesma referência. E minha mãe nunca me pareceu vaidosa, no sentido usual. Ela não usa maquiagem, não frequenta academia, essas coisas. E meu pai sempre foi bem apaixonado. Então acho que fiz uma operação mental de que pra ser desejável não precisa reproduzir nenhum destes comportamentos ou que determinado tipo de corpo é mais legal que outro. Além disso, eu estudei dos seis aos dezesseis anos em uma escola em que todas as alunas eram mulheres. Me acostumei com a diversidade do corpo, acho, especialmente porque não havia muito esse lance de “mais bonitas” ou “mais magras”. Depois tive o privilégio de fazer a faculdade de psicologia (e, concomitantemente, análise) e essas questões do corpo se tornaram ainda menos importantes em termos de forma e mais no que tange a existência.

R: eu era muito magra, mas isso é algo que vejo também retrospectivamente. Gostava muito de ser magra, mas não me dava conta do quão magra era. Era (sou) muito peituda, e isso me incomodava; naquela época, o bonito era bunda grande/peito pequeno, o modelito da minha mãe, da minha irmã. Eu era basicamente o oposto, e preferiria ser como elas. Minha mãe é muito diferente de mim fisicamente, tem cara de índia, corpo de índia. E eu achava lindo e tinha pena de não ser assim. Olhando fotos hoje, me assusto com o fato de não me dar conta que era tão magra.

2. Você me parece ter uma relação mais livre com o corpo do que quase qualquer pessoa que eu conheço. Isso é natural ou foi fruto de um processo?

L: Como eu comecei a falar antes, nunca foi uma questão pra mim isso de ser magra ou gorda, bonita ou feia, etc. Não diria que é natural, no sentido de inato. Diria que foi um processo que eu não precisei deflagrar conscientemente. Foi mais a forma como eu pude organizar e simbolizar as coisas que me aconteceram e como me aconteceram e como eu agi sobre elas e assim uma coisa leva à outra… Acho que uma coisa importante nessa trajetória de sentir o corpo à vontade (e não só no que se refere a ser gorda, porque como eu disse isso nem era questão pra mim, mais de coisas como se vestir, maquiagem, etc) foi questionar o ridículo, eu lembro de pensar as pessoas importantes pra mim me respeitariam e gostariam de mim independente de como eu me apresentasse e as que não me respeitassem e gostassem usando como critério a forma como me apresento não eram pessoas que eu me interessasse que se tornassem importantes pra mim. Depois generalizei isso pra um monte de coisas, especialmente pros relacionamentos afetivo-sexuais-amorosos (depois relativizei e suavizei, mas, né, as bases já estavam postas).

R: minha relação com meu corpo já foi bastante conflituosa: hoje, a tranquilidade que existe foi absolutamente conquistada. E valorizada. Me sinto muito mais livre, de verdade, do que quando tinha 20 ou 30 anos. E gosto da sensação de ter vencido barreiras. Mas com relação a sexo, acho que sempre foi. Tinha um modelo bacana em casa, tinha uma família (pais, tios, avós) que gostava de sexo e deixava isso transparecer. Além disso, sempre encarei sexo como uma atividade que se aprende. Tenho muita preocupação com esses discursos que enfatizam uma suposta “centelha mágica”, um “clique” e tal. Pra mim sexo é que nem paladar, se educa, como um gosto; é que nem outra atividade física qualquer, se aprende e se exercita. E quanto mais se exercita, mais se descobre.

3. Hoje em dia, pode-se dizer que você seja “fora do padrão”, em termos de peso. Alguém já te cobrou isso? Como é que você lida com isso na vida?

L: De manhã, quando vou tomar banho, tiro a roupa na frente do espelho de corpo todo, olho e penso: que gostosa! No instante seguinte começa a avaliação: a barriga tá caída, a gordura das costas, olha aí a papada. Como eu lido? Não fico pro instante seguinte 😉

O que eu quero dizer é que eu procuro exercitar um olhar generoso. Um jeito generoso de ver os outros, procurar suas belezas. Que compreende um olhar generoso e de aceitação de mim mesma. Acho que existem (ou eu sinto) dois tipos de cobrança/situações. Uma que é estrutural. Não precisa ninguém dizer que eu estou errada em ser gorda: a poltrona do avião diz, as marcas de roupas que não produzem acima de determinados números dizem, os personagens de filmes e novelas que sempre se definem pelo corpo dizem (gordo é repulsivo, meio bobo, às vezes é engraçado, mas nunca sexy ou inteligente de fato), as matérias parciais nas revistas e na televisão sobre dieta, estilo de vida, etc relacionando peso com valores morais e comportamentais dizem(pessoas gordas são preguiçosas, não tem autoestima, precisam de uma mudança de vida). O outro tipo de cobrança/situação me chega por meio de ações e ditos contraditórios das pessoas que me amam e/ou são próximas. Minha mãe, por exemplo, de vez em quando me pergunta se eu não vou emagrecer, que essa barriga não é saudável e tal. Mas quando vou visitá-la me elogia, me acha linda, serve cerveja e cozinha um monte pra mim. Ou a amiga que vem conversar comigo porque agora estou namorando e preciso (sic) me cuidar mais (me cuidar mais = emagrecer e aparentar mais vaidade como usar batom) pra que o moço não perca o interesse mas que super me admira (e isso não é uma frase irônica, eu sei que ela realmente gosta de mim, me aprecia, me acha sensacional) e deseja ter minha (sic) segurança e autoestima. Ou ainda como moços por aí que já me perguntaram se eu não vou emagrecer ou se eu não me acharia mais bonita mais magra, mas sempre quiseram rala e rola e na hora do rola e rala é nos “excessos” que eles se empolgam. Então, eu rio. Você pergunta como lido com essas cobranças e eu penso isso: eu gargalho. Porque as opções são: emagrecer (não vou), sofrer com isso (não gosto), ou rir e viver (prefiro). Então eu digo pra mamys que a comida tá gostosa, digo pra amiga que não espero do moço interesse eterno e que se o critério dele fosse magreza e maquiagem certamente ele teria se engraçado por outra pessoa e, bom, nunca respondia pros moços, tava ocupada e de boca cheia, hohoho.

R: meu momento mais “no padrão” – uma afirmação disso – foi quando, aos 24 anos, fiz um book com um fotógrafo. Era meio terapêutico, uma maneira de deixar pra trás uma certa sensação de “patinho feio e inteligente” que me acompanhava. Tinha aquela coisa dos seios grandes, de ser “de outro padrão”. Branca, peituda, magra. Quando eram valorizadas as curvilíneas, morenas, de peitos pequenos. Adorei fazer as fotos, posar, achei que ficaram bem bacanas (num sentido meio teatral, já que a maquiagem, as poses, não era eu de verdade); outros acharam também e isso é espelho, é onde a gente se reflete e alimenta autoestima. Mas sempre valorizei muito a “dinâmica” com relação à “estática”: não tenho nenhum apreço pelos ditos belos (na beleza padrão de revista e de TV). Sempre gostei de brilho no olho, de gargalhada, de jeito de ser. Desde criança, eram esses os meninos que me encantavam: os que “sabiam ser”, e não os chamados de bonitos. Aí me encontro com esse olhar generoso que você diz que exercita: gosto de encontrar belezas, e encontro. Na pele, no corpo, mas também e sobretudo no movimento, no andar, no falar, nos gestos de mãos, no inclinar de cabeça, no acender um cigarro, no segurar um copo. Em homens e mulheres. Tenho muita pena dos homens que não admitem achar outros homens bonitos, como se lhes faltasse um pedaço, sabe.

4. Você, como mulher e ativista, reflete sobre essa questão da opressão a corpos, particularmente intensa no caso das mulheres. Queria que você comentasse um pouco isso, inclusive falando do contraponto: a magreza.

L: Eu me inquieto que a publicidade designe determinadas representações para as pessoas gordas. Eu questiono a indústria da moda. Eu me indago sobre os estereótipos reproduzidos em filmes, séries e novelas. Mas a minha questão não é apenas se o padrão atual é opressivo para as mulheres/pessoas gordas. É que exista um padrão ou que existam padrões que escalonem que corpos são mais bonitos, desejáveis, aceitáveis. Os corpos são diversos. São gordos e magros e altos e baixos e jovens e velhos e cada um tem a sua beleza. Não é com a reordenação do que é melhor que se constrói uma sociedade inclusiva e acolhedora, acho eu, mas com a aceitação de que não há melhores, há os corpos que levam a vida que levamos.

Nem sempre o discurso da militância está atento a essas matizes e, algumas vezes, culpabiliza as mulheres magras no lugar de se estar atento à estrutura. Eu acho que não interessa se a mulher é magra por metabolismo, por estilo de vida ou porque se esforça em dietas, cirurgias e diversas intervenções com maior ou menor sofrimento físico ou psíquico. Não interessa se a mulher é mais ou menos refém do discurso da beleza magra. Nós não temos que ser questionadas individualmente, acho. A questão deve ser sempre a busca de uma mudança na cultura. Para que as mulheres, as pessoas, não tenham mais que sofrer pra se enquadrar.

Eu acho que a questão central de opressão dos corpos não é a gordofobia, embora seja essa a manifestação mais evidente e cruel que vemos na convivência social diária. Penso que o que está mais no cerne é o escrutínio e o controle sobre o corpo feminino. O fato de que não questionamos as sucessivas avaliações e julgamentos pelos quais o corpo feminino passa, seja por ser gordo demais, magro demais, malhado demais, velho demais, negro demais, com pelos demais se mantém, acho, intrinsecamente relacionado com a legitimidade de que um saber externo e terceiro decida e opere sobre ele, seja a medicina, a religião, o Estado.

R: achei muito pertinente isso aí que você falou. Embora o problema da “gordofobia” seja, também, um problema prático: as pessoas não cabem. Nas roupas, nos assentos, nas passagens. Como se esse mundo não fosse feito para elas – o que, evidentemente, gera outras dores. Mas a magreza considerada excessiva também pode ser foco de muita reprovação e de muita sensação de inadequação. Assim como a busca dessa magreza vista como beleza e perfeição pode levar à doença, na forma do binômio bulimia/anorexia. Identifico-me com isso também, já fiz dieta (quando já era bem magra, mas não via isso) e cheguei a pesar 49 kg para 1 metro e 68. Só me dei conta de que estava indo além do razoável porque quase desmaiei na aula de canto. O resto das pessoas, em volta, me aplaudia. E isso também me assusta retrospectivamente. Ontem ouvi no rádio um comentário sobre “pneus” da Fernanda Lima: um horror, a invasão, o direito que as pessoas se arvoram de ficar falando mal do corpo das mulheres ( e ela tem corpo, basicamente, de modelo), porque são gordas, magras, idosas demais para usar biquínis…. isso sai tão espontaneamente, é tão naturalizado… como se fosse uma espécie de obrigação das mulheres. Como se fosse reprovável não cultivar e manter certo padrão de beleza, sendo mulher.

5. Como você se posiciona em relação às diversas inciativas de busca de emagrecimento, tais como dietas e cirurgias plásticas?

R: Já escrevi sobre isso (no texto “A Mulher em Bancas”): acho isso tudo uma prisão do cacete. E que fique claro: não é uma reprovação – mais uma – à mulher que acha que deve corresponder ao padrão x ou y e para isso faz o que considera necessário, mas sobre a sociedade que as empurra para esse padrão cada vez mais estreito. Estava lendo estes dias, por exemplo, sobre a onda de rinoplastias no Irã: de onde vem isso? Os narizes lá tendem a ser naturalmente aduncos, mas o padrão estético ocidental é diverso. No universo do cinema, as mulheres são cada vez mais iguais. E isso me entristece, porque a isso corresponde também um estreitamento do nosso sentido de beleza: quanto menos diversas as belezas possíveis socialmente, menos aguçados estarão nossos sentidos para percebê-las. Há, por assim dizer, um certo embotamento social da percepção do belo. Que ocupa um espaço cada vez mais estreito. Por mais que a gente (eu, você) se revolte contra isso na prática, construindo nosso próprio sentido de beleza, é uma luta inglória. Dá uma passada numa banca de jornais e olha só as capas de revistas femininas: uma mesmice só. Tristeza. E ao mesmo tempo, a certeza de que a gente tem que ir adiante. E questionar, e mostrar outras possibilidades, e fotografar, filmar, exibir, discutir. Ampliar. As redes permitem isso. Vamos aproveitar.

L: Concordo inteiramente com você, não se trata de avaliar e condenar as mulheres individualmente, eu penso no sofrimento silencioso sedimentado diária e imperceptivelmente que nos conduz a esse olhar critico sobre nós mesmas e as exigências que construímos a partir daí. Sinto que as iniciativas individuais são a forma como cada uma consegue lidar com sua história, com as demandas sociais, com os padrões. E devem ser respeitadas ao mesmo tempo em que não se pode deixar a peteca cair no questionamento do porque, na reflexão sobre o cenário em que essas ações se tornam necessárias.

6. Como você entende a questão corpo magro X saúde X corpo gordo?

R: A questão da saúde, pra mim, já é uma questão. Quer dizer, essa obrigação de ser saudável (ainda antes de falar do gordo x magro) já é uma coisa questionável. Por quê? Nem sempre foi assim. Se eu escolho beber, ou comer aquilo de que gosto, ou ser sedentária e viver com meus amigos nos botecos da vida, por que isso seria pior do que a vida daquele que escolhe ir à academia todo dia, só comer tal ou qual coisa, ser moderado, não fumar…? Um “sim” – à vida saudável – tem sempre um “não” embutido – às atitudes consideradas não-saudáveis. Que podem ser as que me dão prazer, as que me trazem conforto. Pode ser o que eu tenha vontade de fazer. Eu ou qualquer um. Ninguém deveria ter o direito de se meter na vida dos outros como se metem, dizendo “você devia malhar mais”, “devia comer mais verduras” e tal.
Tem aí uma reprovação meio moral que me dá agonia. E olha que comigo isso não acontece; apesar de hoje eu estar um monte de quilos acima da magreza original, não tem ninguém me dizendo que eu devia isso ou aquilo. Mas vejo acontecer, muito. E aí tem esse outro ponto: as pessoas consideram, a priori, que magro é igual a saudável, gordo é igual a doente. E não adianta a pessoa gorda argumentar com resultados de exames, com dados concretos: é um a priori muito estabelecido, se você é gordo, algo de errado deve haver com você. A contrapartida é que se você é magro, nem sempre identificam a tempo quando há algo de errado com você, como em tantos casos de anorexia não-identificada.

L: eu responderia assim, do jeitinho que você respondeu. Que não há nenhuma garantia a priori de que o corpo magro é saudável e o corpo gordo não, que essa equação é sustentada pelo preconceito. E, para além, que nenhum discurso seja estético, médico, moral ou religioso externo deveria pautar e moldar os corpos e suas vivências acriticamente. Incluindo o paradigma da saúde como meta e da juventude como momento a se preservar e perpetuar o máximo possível.  Me preocupa a forma como o discurso estético se entrelaçou ao discurso médico e o poder que o discurso médico tem sobre o corpo, especialmente o corpo feminino (como bem se percebe em relação a questão do parto). Fico pensando se não caminhamos, em algum grau, pra uma certa patologização do viver contraditoriamente sustentada pela busca ativa da vida mais “corretamente” vivida. Uma coisa que eu costumo repetir é que eu levo a vida do corpo que levo e levo o corpo da vida que levo. Não acho que é modelo pra todo mundo, mas conforta e acolhe.

Como nossos pais…

Semana santa taí, né? Feriadão, meu aniversário tá pertinho e…

texto 2

Bom, é lugar-comum neste nosso País tão cristão, quando alguém quer salientar uma suposta igualdade entre as pessoas dizer que “somos todxs filhxs de Deus”. Crenças à parte, nunca consegui entender isso muito bem (até porque leio as notícias, vez ou outra tentam me “converter” a alguma religião e percebo na maioria dos discursos que mesmo para esse Deus, existiu e existe uns/umas filhxs mais filhos que outrxs)… mas talvez já tenha tido alguns vislumbres do que seja essa ancestral forma de hierarquizar o mundo quando noto jocosidade e ironia ou uma espécie de paciência “sábia” prestes a se esgotar que muitxs demonstram ao chamar alguém ao qual pretensamente tentam “ensinar” algo “sobre a vida” de “meu filho” ou “minha filha”.

Se no cristianismo temos Maria, que nos “contou” da capacidade “feminina” de perfeição e pureza enquanto mulher que se tornou mãe sem “conhecer homem”, também para algumas religiões não “tradicionais” nascemos fadadas a sermos amadas pela(s) “divindade(s)” por nossa suposta “capacidade” em gerar e/ou sermos companheiras/ esposas/ musas. Na de “refletirmos” um(x) outrx. Oi, lua!

Comecei esse texto falando de religião, terreno escorregadio, para discorrer sobre outro buraco, desta vez mais embaixo. Porque acredito que a religiosidade de um povo diz muito sobre o que é de nós esperado e em como são construídas algumas relações. E na maioria delas, x filhx é sempre expectativa de. Que dificilmente cessa. Também porque creio que isso se repete nas relações por aqui, nesse negozi que chamamos de mundo.

Aí eu pergunto: se somos todxs filhxs, em qual “cartilha” você aprendeu a sê-lo? E como (já?) conseguiu “escapar” dessa condição?

Os pais são (ou supostamente deveriam ser) o primeiro contato que temos com outros seres de nossa espécie, nosso primeiro esboço para um posterior entendimento de humanidade e aqueles que (também supostamente) nos ensinam a portar-nos como seres “civilizados” para estarmos e agirmos no mundo. Responsabilidade danada, né? Mas é também no exercício dessa função que alguns experimentam a delícia que pode ser o exercício da soberania sobre um(x) outrx ou a doce e viciante utopia do amor “incondicional”. Escrevo incondicional entre aspas porque que no caso de pais e filhxs estamos em ambos os casos exercendo o amor sob o “jugo” de uma “suposta” condição.

Ah, a ironia…

Daí eu te conto agora é do cotidiano: dia desses cheguei em casa depois de dois dias na casa de uma amiga e a geladeira estava desligada. Minha mãe tinha-me feito esse “favor” não solicitado e levado todos os potes de comida pra casa em que mora com meu pai. Não, não tinha água gelada tampouco. Sim, somos vizinhxs. Liguei reclamando. “É, sou mesmo uma monstra ingrata e blábláblá”. Próximo take: horas depois, estou na cama pelada, me masturbando enquanto falo ao telefone com o gatchênho. Quem abre a porta para trazer um iogurte que tinha sido “esquecido” na tal “mudança”? Meu pai. Sem ligar, sem avisar, sem bater na porta. Fiquei envergonhada e depois irada por ter me envergonhado. Resultado: mais briga. Das feias.

Não, a briga não foi por causa da geladeira desligada ou pelo “flagra”. Mas pode exemplificar como alguns pais (os meus inclusos aí) entendem a casa ou a vida dxs filhxs como uma continuidade de suas próprias. Tendo a ambas livre acesso por um direito que não pode (ou não deve) ser questionado sob o eterno risco destes filhxs serem considerados como “rebeldes” ou “ingratos”. Oi, hierarquia! Alô, cansaço…

texto 1

Esse episódio que é até engraçado (e se eu não puder gargalhar não é minha revolução!), mais uma vez me fez questionar seriamente: onde foi que eu errei (ou estou errando?) enquanto filha? Como atestar-me como adulta, se apesar da minha carteira de identidade dizer que tenho 38 anos, sou cotidianamente infantilizada por ações e palavras? Dos meus pais e de toda uma sociedade (falo do aqui e do agora) que se estrutura a partir dessas primeiras e estabelecidas relações de “poder” e “pertencimento”?

Enfim, faz algum tempo que passei a notar no discurso da minha mãe (e olhe que ela é até bem “moderna”!) que apesar de ter ido morar só já com dezessete anos, ter trabalhado desde que e vivenciado experiências diversas só fui considerada “emancipada” ou “independente” enquanto estive casada. Horrível? Eu também acho, mas é muito comum. Para algumas amigas minhas, por exemplo, isso só aconteceu quando tornaram-se (também) mães. E mesmo assim…

Bom, eu que não pretendo ser mãe e também tenho minhas (e muitas) ressalvas quanto ao casamento enquanto instituição, sob a ótica dos meus pais e da sociedade, estarei fadada a ser vista e tratada sempre como “filha”? Aquela que precisa de monitoramento e “educação” permanentemente já que?

Ai, meus sais…

Daí resolvi dividir essa “angústia existencial” com outrxs amigxs queridxs, que me deram alguns “depoimentos” que também compartilho com vocês:

“Eu sei o que você passa! E minha mãe nem é minha vizinha…”

“Se ajuda, digo que meus pais me tratam feito criança e tentam toda hora decidir as coisas por mim. Nem meu pai internado, sem sair da cama sozinho, deixa de fazer isso comigo.”

 “Ô, amore. que difícil. Porque tem coisas boas também, né? Mas os limites tem que ser conversados com muito cuidado. Uma amiga, quando tinha acabado de ter filho, acordou com o sogro dentro de casa, de manhã cedinho, pegando a bebê…. ia sair com ela para os pais dormirem mais. O que é lindo. Só que não avisou! Ela disse que se tivesse acordado depois (foi antes do celular), ia achar que a bebê tinha sido raptada…”

 “Poizé, minha experiência é oposta… meus pais “saíram de casa” quando eu tinha 18 e meu irmão 16. Pra BSB. De lá para Roma, depois BSB de novo… vieram morar no Rio de novo só quando o F. já tinha 6 anos e eu tava grávida do J. Eu me arrepio de ouvir essas histórias, mas sei que ter mãe/pai perto pode ser muito bom também. A negociação é que é delicada…”

 “Eu num pitaqueio por motivos de: meus pais são super entrões mas não são nada entrões. Explico: a gente partilha praticamente tudo lá na minha família. no começo do ano a gente faz uma reunião e cada um conta seus planos, de ter filho a escrever um livro passando por mudança de trabalho, comprar carro, reformar casa, ir em uma praia naturista, etc. daí todo mundo dá pitaco em tudo, se oferece pra ajudar, contesta, etc. Depois, é só suporte. Meio no lance de respeitar o limite como a R. falou. E eu já voltei pra morar dentro da casa dos meus pais depois de separada. Com S. Mas era isso: vá perguntar pra sua mãe se pode e tudo. E se eu ia sair negociava pro S. ficar com eles e nem precisava dizer pra onde que eu ia. Eu ia sair. Acho que passa pela conversa, né. Muita.”

 “Eu já tive cada quebra pau com a minha mãe por causa disso que virge! Só vivendo a mil km de distância…”

“Ah, sim, meus pais são desses (eram, né.  meu pai) super-respeitosos também. Nunquinha que entrariam sem bater. Minha mãe que sempre teve a chave da minha casa, sempre tocou antes de entrar.”

 “Nossa, a minha mãe em compensação…Lia carta minha escondido, mexia nas minhas coisas, mexia nos meus diários, ouvia conversa no telefone, coisa de doido mesmo!!!!”

texto 3Daí eu te pergunto: e vocês, como se entendem enquanto filhx? Ou pais, se acaso o são? Pra qual “ideia” de mundo vocês foram “educados” ou tentam “educar” seus filhxs? E como?

É, não tenho muitas respostas faz é tempo. E poxa, como é difícil continuar perguntando! Ou vai que eu estou mesmo no tal do “inferno astral”. Em todo caso e mesmo assim, Feliz Páscoa para todxs vocês, biscates queridxs!

Fiquem com Elis…

Aos quase 50, continue a nadar

arte: André Vallias

André Vallias

Pois é. Quase 50.
Impacta, né?
A mim impactou, nesse começo de ano. Vou fazer 48 em maio. E 48 é “quase 50”. Né.

Eu nunca liguei pra idade. Achava graça no ditado da Freira – que eu não conhecia ainda, só conheci agora na formatura da minha mãe : “Depois que eu trintei, nunca mais contei”. Achava graça e me irritava um pouco: como assim? Ainda mais que era ela, minha mãe, que retomava o ditado, quando lhe perguntavam a idade. Eu ficava magoada: se tirassem a idade da minha mãe, lhe tirariam a história, e com a história… eu. Era como se minha mãe estivesse querendo me “apagar” da vida dela.

Já disse em outro lugar:
não gosto quando dizem que eu pareço mais jovem. Não gosto, em primeiro lugar, porque não é verdade: eu não durmo em tupperware, nem parei de mudar com alguma idade pra trás. Mais jovem, eu era diferente. Só sou assim agora porque vivi o que vivi, sofri o que sofri, gargalhei quando deu, chorei um monte – que eu choro à beça, pra caralho ou mais – e… como diria o Neruda, de saudosa memória, “confesso que vivi”. E não vou botar a cabeça embaixo da asa, não vou fazer de conta que não, não vou renegar os anos: são meus, me trouxeram até aqui, e como taurina possessiva que sou não cedo nenhum deles. Se gosto de mim hoje, é por conta desse caminho.  

Quando eu disse, foi há três anos: eu tinha 45 então, e era “bem no meio”. Esse ano, desde o começo do ano, tenho, na minha cabeça, quase 50. E, por um momento, me assustei. Aí fui ali cuidar de coisa e outra, tomar um café, encontrar a galera no Cardosão, dar uma olhada no mar, ler um pouco de Simone que anda me pautando por esses tempos (vá saber). Senti o vento no rosto. E me alegrei. Essa idade, 48, na astrologia, é fechamento de um ciclo – o quarto ciclo de Júpiter. Júpiter, planeta do crescimento, dos “vôos de águia” que ajudam a dar contexto e a sair do olhar míope da proximidade; o planeta dos estudos superiores, das longas viagens. Júpiter, o “grande benéfico” dos antigos, o planeta da boa fortuna, regente de Sagitário, “ao infinito e além”.

Júpiter tem um ciclo de doze anos: doze, vinte e quatro, trinta e seis, quarenta e oito. O quarto ciclo de Júpiter. Fechando, e começando um novo. Cada um desses fechamentos corresponde a um momento extremamente importante da minha vida. E a um novo começo. Vou contar só do primeiro, meu leitmotiv, recorrente de tanto que me explica. Aos doze, eu estava voltando de uma longa viagem. Eu-forasteira. Em carne viva, chegando ao Rio de Janeiro sem entender nada. As gírias. As roupas. Os modos. Os jeitos. Uma dor e um alumbramento. O primeiro ciclo de Júpiter a gente nunca esquece.

Esse ano, tô me sentindo próxima dessa menina aí, a dos doze anos, de olhos assustados, de jeito de bicho do mato. Essa aí que dizia que tinha frio de gente, e que tinham pisado com botas pesadas no seu jardim. A “desgarrada das gentes”. Próxima, porque por baixo de todas as camadas, essa aí ainda sou eu. Próxima, pelo afeto com que olho pra ela, ela-eu, e me alegro de tanto caminho percorrido. Te tanto pau, de tanta pedra, de tanto fim do caminho. Do fundo do poço. Do pouco sozinho.

Depois disso tudo, olho pra ela-eu hoje, e penso que andei. Que hoje não tenho mais medo de dançar em festa, embora a menina de doze anos apareça de vez em quando na hora de dançar de rosto colado. Que não gaguejo mais e que falo pra platéias grandes e pequenas, falo em plenárias, falo até em rádio, olha só. Me alegro que escrevo no Biscate, que vagueio no Chopinho, que faço mapas e falo de economia e traduzo de um pro outro, que é a minha verdadeira vocação.

Olho pra menina-eu de hoje, ao final do quarto ciclo de Júpiter, e vejo-a tão boba, tão palhaça, tão de riso solto como sempre. Ou talvez mais. Mais livre, mais tranquila, mais segura, certamente. Tão inquieta, tão curiosa, tão gulosa de vida e de comida mesmo como sempre. Com algumas cicatrizes a mais, como não. E outras histórias pra contar.

Vai ter festa esse ano. Festa de dança, pra celebrar o quarto ciclo de Júpiter. Como se deve. Provavelmente uma festa conjunta, com outros aniversariantes de maio. Gente querida. Tanta gente querida. E meu coração já fica quentinho só de pensar.

Caminho andado, caminho por andar: tá sendo gostoso esse caminho, viu. Não “fácil”. Nem sempre tranquilo. Mas bom de andar. Com seus perrengues, com seus percalços. Mesmo que de vez em quando fique tudo escuro e não pareça. Bom de andar, sim.

Esse texto de hoje é pra todo mundo que tá chegando lá comigo: tamos começando outro, galera. Ainda tem muito chão pela frente. A chuva ainda não chegou. Borandar. Dançar. Chorar. Gostar.

Continue a nadar, diz a Dory.

Olho pra frente, pra quem já andou mais do que eu, e vejo caminhos a percorrer. Olho pra trás, e cuido das lembranças que me fazem quem sou hoje. Agradeço, todo dia, sempre. Continuo a nadar.

Renata by João

Renata by João

O Tempo e a Gente

Érico, Senhor do Tempo

O título, claro, é inspirado de “O Tempo e o Vento”. Porque adoro o Verissimo. O Érico, digo. Verissimo e suas mulheres. Ana Terra, Bibiana. Mulheres que crescem, que envelhecem. Que guardam solidez e força na sua história. Mafalda, também. A mulher do Verissimo. A mãe da Clarissa e do Luiz Fernando.

A passagem do tempo. As rugas. Os cabelos brancos. Mulheres. Com rugas e cabelos brancos. Mulheres com história pra contar. Com história inscrita no corpo. Peso, volume. Rugas. Marcas. Cicatrizes. Cabelos brancos.

Quando eu tinha uns quatorze anos escrevi um texto que falava disso. De um homem, de uma mulher. Sentados numa mesa, um em frente ao outro. Não lembro como começava o texto, lembro que a mulher dizia que estava velha, o homem a olhava, pensava na vida que tinham vivido juntos, no caminho percorrido e “viu, naquele rosto, as marcas daquele caminho. ‘Você está linda’, murmurou”.  Assim acabava o texto.

Eu tinha quatorze anos e já achava isso. E, certamente, muita gente disse “você só acha isso porque tem quatorze anos”. Ah, a inocência. Ah, o encantamento da vida não-vivida, você aí, pele lisinha, magra, tudo por vir, você pode achar bonito. Bobinha.

Bom. Se foi mesmo com quatorze, fazem trinta e dois anos. Ninguém hoje há de dizer que eu sou novinha. O texto tá em algum lugar por aqui, se eu procurar bem eu acho. Mas hoje me dizem “ah, você não parece! Ah, você tem  a pele tão boa, você não tem cabelos brancos, você”… qualquer coisa, né? Qualquer coisa menos aceitar, na lata, pelo valor de face, que eu gosto. Gosto de história. Gosto de tempo passado. Gosto de vida vivida. Gosto das marcas.

Eu gosto, e isso incomoda. Não peço desculpas, não digo “apesar de”… apesar de que? Minha vida, minha história. Meu corpo. Eu. Eu, é isso. Gosto mais de mim hoje. Tenho carinho, sim, por aquela menina perdida e meio selvagem de quatorze anos. Mas voltar? De jeito nenhum. Não tenho nem saudade. Foi bom, tanta coisa. Foi difícil, foi sofrido, foi alegre, foi maravilhoso, foi difícil de novo. Caminho. Marcas. Vida.

Sir Anthony, sendo lindo

Não é “felicidade”: é vida. Vida que se vive. Quando a gente vai, tudo pode acontecer. Alegrias, mas muitas dores também. Riscos. Penhascos. Cortes, arranhões. Nossos abismos. Vida é movimento. Desafio. Desafino. “Felicidade”, assim, como beatitude, só os anjos, acho. Mas eles não vivem: perguntem ao Peter Falk de “Anjos Sobre Belim”. Ele sabia e optou.

Gosto de rostos com marcas. De cabelos brancos. De olhos com rugas nos cantos. De marcas na alma. De vislumbrar dores alheias. Acho bonito. Rostos lisos, barrigas achatadas? Posso até admirar as formas. Mas não me comovem. Nem hoje, nem quando eu tinha quatorze anos.

E agora eu tenho quarenta e seis. Já posso falar disso?

Simone Signoret, rugas e olhos verdes

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