Cis e trans e o grupo LGBT: As diferenças entre sexualidade e identidade de gênero

Por Daniela Andrade*, Biscate Convidada

O que é cis ou cisgênero? Do latim, cis significa “do mesmo lado”. Cisgênero é um homem que nasceu com pênis e se expressa socialmente como homem (expressão de gênero), é decodificado socialmente como homem (papel de gênero) por vestir-se/comportar-se/aparentar com aquilo que a sociedade define próprios para um homem, e reconhece-se como homem (identidade de gênero), logo, é um homem (gênero).

Cisgênera é uma mulher que nasceu com vagina/vulva e se expressa socialmente como mulher (expressão de gênero), é decodificada socialmente como mulher (papel de gênero) por vestir-se/comportar-se/aparentar com aquilo que a sociedade define próprios para uma mulher, e reconhece-se como mulher (identidade de gênero), logo, é uma mulher (gênero).

Ao passo que transgênero é o contrário disso. Ou seja, são pessoas que apesar de terem nascido com pênis podem não possuir expressão de gênero e/ou papel de gênero e/ou identidade de gênero em consonância com aquilo que a sociedade espera para alguém que nasceu com um pênis e, logo, foi compulsoriamente designado como homem. Ou seja, é uma pessoa que apesar de ter um pênis, foge ao conceito de homem.

Assim como transgêneros são pessoas que apesar de terem nascido com vagina/vulva podem não possuir expressão de gênero e/ou papel de gênero e/ou identidade de gênero em consonância com aquilo que a sociedade espera para alguém que nasceu com uma vagina/vuvla e, logo, foi compulsoriamente designada como mulher. Ou seja, é uma pessoa que apesar de ter uma vagina/vulva, foge ao conceito de mulher.

Dentro do grupo das pessoas transgêneras há as pessoas travestis, transexuais, crossdressers, agêneras, bigêneras, genderfuck, e tantas outras classificações.

As definições não devem ser engessadas e nem limitar identidades, de forma que, a melhor definição para uma pessoa é aquela que ela própria lhe dá. De toda forma, é importante pensar nessas definições para que não se corra o risco de se achar que a palavra GAY dá conta de todas as identidades dentro do arco da diversidade identitária. Como uma palavra que diz respeito a uma pessoa que possui ORIENTAÇÃO SEXUAL diversa daquela legitimada socialmente vai refletir na identificação de pessoas que podem inclusive serem héteros? Ou seja, identidade de gênero (o gênero com o qual me identifico) NADA TEM A VER com orientação sexual (o gênero pelo qual me atraio). Uma pessoa pode ser travesti ou transexual e ser hétero, homo, bi, assexual (…), assim como acontece com todo o restante das pessoas que estão dentro do grupo dos transgêneros. De forma que não, a palavra GAY não reflete todo o grupo, outrossim, inclusive há mulheres lésbicas que ressaltam que o termo lésbica é a palavra que denomina politicamente o grupo das mulheres homossexuais, não a palavra gay.

Veja, não se trata apenas de meras diferenças conceituais ou meras palavras diferentes pelo que se está lutando.
Estamos lutando pela visibilidade das reivindicações das pessoas transgêneras que é bastante diversa das pessoas gays cis, ainda que estejam unidas por conta da discriminação que sofrem socialmente, em maior ou menos grau pra esse ou aquele grupo.

Quando se diz que a luta LGBT é a luta gay, que o movimento LGBT é o movimento gay, é importante ressaltar que pautas especificamente gays não atingem diretamente as pessoas transgêneras, uma vez que nem todas as pessoas transgêneras são gays. Vejamos, pelo que, de forma geral, escuta-se quando se ouve falar nas reivindicações do grupo LGBT:

– parada GAY
– movimento GAY
– orgulho GAY
– HOMOfobia
– casamento GAY
– adoção por GAYS
– família HOMOparental
– direitos HOMOafetivos

Pois bem, poderíamos perguntar, as pessoas gays passam pelas seguintes agressões?:

– ter o nome desrespeitado cotidianamente

– ter o gênero deslegitimado o tempo todo

– precisar evadir-se da escola dado o grau de agressões verbais e desrespeito INCLUSIVE vindas de professores e gestores escolares que insistem em não respeitar o nome social e o gênero da pessoa

– possuem o acesso ao banheiro barrado

– seus documentos não correspondem com aquilo que você é (nome e gênero)

– possuem sua identidade questionada frequentemente por todos aqueles que necessitam identificá-lo por meio dos seus documentos

– sua identidade é vista como patologia pelo consenso científico e faz parte do DSM (Manual Estatístico e Diagnóstico de Transtornos Mentais) e do CID (Catálogo Internacional de Doenças), bem como pela OMS (Organização Mundial de Saúde)

– possuem os genitais questionados frequentemente por estranhos? (você operou? você tem pênis ou vagina?)

– acham que você é mais ou menos homem de acordo com o número de cirurgias que você fez

– você necessita de laudos e ofícios de médicos de diversas especialidades para que acreditem que você é o que você diz ser

– possuem enorme dificuldade de encontrar profissional habilitado para receitar hormônios próprios para o seu organismo (lembrando que os hormônios não foram feitos pensando nas pessoas trans* e a bula dos mesmos não corresponde àquilo que acontece dentro do corpo trans*)

– possuem o corpo identificado como “corpo errado” por toda a população (fulano nasceu no “corpo errado”, como se só o corpo cis fosse o corpo certo)

– sua identidade é vista como fetiche pela maioria esmagadora das demais pessoas

– esperam durante décadas para conseguirem fazer uma cirurgia de transgenitalização, algo que lhe custa enorme sofrimento psíquico e muitas vezes suicídio

– sua identidade está dentro das mais altas taxas de suicídio e assassinatos mundiais

– contratos de empréstimo ou locação de imóveis são negados com muita frequência por conta da sua expressão/papel/identidade de gênero

– o mercado de trabalho associa sua identidade à marginalidade, ao crime e portanto, é extraordinariamente difícil encontrar um emprego

– sua identidade é vista como habilitada para ocupar apenas trabalhos dentro da prostituição ou em salões de beleza

– a necessidade que você tem de fazer cirurgias (como transgenitalização, mamoplastia masculinizadora, mamoplastia de aumento, remoção de útero e ovários, feminilização facial…) é vista como capricho, sem sentido, e há um total descaso com isso por parte do governo

– você precisa viajar quilômetros ou pagar do próprio bolso para obter atendimento médico especializado para o seu caso

E tantas outras agressões, bem, parece que os gays cis não passam por esse tipo de coisa, de forma que não dá pra dizer que todo mundo dentro do grupo LGBT é gay e que a pauta desse grupo é a pauta gay, pois não, não é.

Assim, há de se fazer distinção clara entre homofobia (preconceito por conta da orientação sexual) de transfobia (por conta da identidade de gênero), já que inclusive a raiz da palavra HOMOfobia reduz-se ao seu radical HOMO que quer dizer igual, quando as pessoas transgêneras são as diferentes do estipulado adequado no que tange à expressão/papel/identidade de gênero. É uma distinção que deve ser feita inclusive pra se visibilizar as agressões específicas sofridas pelas pessoas transgêneras a fim de se trazer para o debate essa problemática e se encontrar caminhos para resolvê-la.

Quando uma pessoa transgêneras têm nome e gênero desrespeitados, ela está sofrendo de transfobia e não homofobia. Como costuma brincar o ativista e transhomem João W Nery: eu sou um transhomem hétero, eu sofro por conta da transfobia, não homofobia. Ou: vemos o tempo todo as pessoas falando das famílias homoparentais, mas e as transparentais ninguém diz, dos relacionamentos homoafetivos, mas e os transafetivos? As pessoas trans também constroem famílias e se relacionam.

Frequentemente vemos pessoas dizendo que aceitam e não têm nenhum problema com os gays, mas que travesti/trans já é algo demais, ou que ainda que aceitem os gays, travesti/trans não dá para aceitar. O que seria isso senão uma demonstração explícita de transfobia?

E, ainda que se diga que são conceitos muito novos, muito difíceis e que a sociedade não vai entender, todas essas desculpas não passam de mote para continuar a invisibilizar as demandas da população trans*, que são expressivas, urgentes e diversas daquelas da população gay cis, ainda que, novamente, todas essas identidades tenham uma luta em comum que é contra a heteronormatividade (que aprisiona as pessoas dentro de um comportamento heterossexual, visto socialmente como o correto) e a cisnormatividade (que aprisiona as pessoas dentro de aspectos cis/cisgêneros, vistos socialmente como o correto).

daniela andrade*Daniela Andrade é uma mulher transexual, membro da Comissão da Diversidade Sexual da OAB/Osasco, diretora do Fórum da Juventude Paulista LGBT, Diretora da Liga Humanista Secular, que luta ansiosamente por um presente e um futuro mais digno às todas as pessoas que ousaram identificar-se tal e qual o são, independente daquilo que a sociedade sacramentou como certo e errado. Não acredito no certo e o errado, há muito mais cores entre o cinza e o branco do que pode supor toda a limitação hétero-cis-normatizante que a sociedade engendrou.

Quando o transporte público é espaço de violência

Por Daniela Andrade*, Biscate Convidada

Eu sou uma pessoa que tem um verdadeiro HORROR de transporte público.

E calma, antes que digam que sofro de complexo classista, pra esboçar o patrimônio financeiro que nunca tive, o horror é por que eu cansei de ter sido abusada toda a vida em coletivos.

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Eu precisava pegar um ônibus durante o ensino médio, que chegava lotadíssimo no ponto da escola, atravessava toda a cidade pra chegar no bairro que eu morava.

Alguns homens nojentos, imundos, vendo aquele monte de adolescentes encostavam e se aproveitavam. Aqueles transportes que você não tinha como tirar o pé do chão ou respirar. E àquela época aquilo me dava um nó, meu coração disparava, como se a qualquer momento eu fosse ter uma taquicardia. Rezava para Deus fazer tudo aquilo acabar, quando chegava em casa ficava tensa, não podia falar pra ninguém, já que em casa jamais aceitaram como eu sou. Aliás, ouviria, como ouvi algumas vezes, que a culpa era minha por ser “daquele jeito”.

Quando minhas amigas mulheres cis falavam sobre esse assunto, admirava a coragem de algumas em dizer que revidavam, que gritavam. Na verdade, eu tinha inveja que elas poderiam fazer aquilo e serem socorridas ou contarem com o apoio dos demais – como já vi. Mas eu tinha total certeza que nada daquilo eu poderia fazer, como detentora de uma identidade de gênero divergente e socialmente tida como abjeta, ser lida como um “viadinho muito feminino”, “um viado que quer ser mulher”, “um traveco” só poderiam fazer, como sempre fizeram, era rir da minha cara. Afinal de contas, para a sociedade pessoas que fogem às regras de gênero, que rompem com os grilhões que definiram que somos homens, só tem uma função no mundo: transar, a todo momento, com qualquer um, das formas mais exóticas e improváveis também. Donas de um apetite sexual irrefreável e nada seletivo.

Como detentora de uma identidade marginal, lida por todos como promíscua por excelência, que tinha no DNA o gene da prostituição, eu não poderia abrir a boca. Quando uma vez treinei falar sobre o assunto, riram de mim e disseram: “Ah, diga se você não gostou?”.

Todas essas situações de estupro repetiram-se muitas vezes, a ponto de eu tomar uma total fobia, um medo assombroso de coletivos.

Eu tomava vários ônibus para pegar os vazios, e ir até o ponto final para poder ir sentada. Demorando o dobro ou triplo do tempo. Sentada sempre mais perto do cobrador, pois sabia que sentar para trás também era dar mais chance para que abusadores agissem.

Lembro de uma a uma, todas as vezes que me violentaram sexualmente. Lembro de quando o cara pediu para eu calar a boca, pois se eu dissesse algo, ele diria que um traveco estava passando a mão no pau dele e adivinha do lado de quem todos ficariam?!

Eu aprendi, com a vida aprendi que quando se tem uma identidade trans, quando se é uma mulher trans, a corda vai sempre arrebentar pro seu lado.

Por isso que hoje em dia, eu faço das tripas coração para jamais entrar num coletivo. A menos que eu me certifique com muita antecedência que será num horário que não estará cheio. O que é muito difícil na cidade de São Paulo.

daniela andrade*Daniela Andrade é uma mulher transexual, membro da Comissão da Diversidade Sexual da OAB/Osasco, diretora do Fórum da Juventude Paulista LGBT, Diretora da Liga Humanista Secular, que luta ansiosamente por um presente e um futuro mais digno às todas as pessoas que ousaram identificar-se tal e qual o são, independente daquilo que a sociedade sacramentou como certo e errado. Não acredito no certo e o errado, há muito mais cores entre o cinza e o branco do que pode supor toda a limitação hétero-cis-normatizante que a sociedade engendrou.

Meninas, brincos e Delegadas

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Essa semana é a Semana da Visibilidade Trans*. E eu vou falar sobre a minha experiência, de mulher cis (que se identifica com o gênero que lhe foi designado ao nascer). Eu podia acrescentar meus outros privilégios, privilégios que talvez você leitor(a) também tenha, ou não. Mas hoje vou me deter nesse ponto.

Eu, me identificando como “menina”, tinha os cabelos curtos, estilo “joãozinho”, e aos cinco anos de idade me foi negado o direito de usar o banheiro de meninas, que tinha uma peixinha de brincos e lacinho rosa, e me indicaram o banheiro de meninos, com o peixinho de bigode e gravata azul. Uma menina, mais velha (hoje, em retrospecto, imagino que ela devia ter uns nove ou dez anos) me disse que o meu banheiro não era aquele. Era inverno, o uniforme era moleton marron e eu não usava brincos.

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Ao sair da aula e encontrar com minha mãe, em prantos eu exigi que minhas orelhas fossem furadas e me fosse concedido aquele precioso símbolo da minha identidade de gênero. Não foi possível furar as orelhas no mesmo dia, e então, mesmo no frio, usei o uniforme de verão, sainha curta, para ir às aulas no dia seguinte.

Esse episódio se tornou meio que uma anedota familiar, e eu meio que o ignorei, afinal, não fazia sentido ficar remoendo. (…)

Já adulta, Delegada de Polícia, a militância em Direitos Humanos, que me acompanha desde o ensino médio, me aproximou de grupos ditos (e feitos) vulneráveis, entre eles o grupo das pessoas trans*, dentre a população LGBT.

Em uma conferência de Segurança Pública, dentre toda a fauna de policiais, gestores, sociedade civil, tive o prazer de conhecer Walkíria la Roche. Me impressionou sua delicadeza e feminilidade, fez com que eu, a menina “tomboy” dentro de mim, me sentisse quase “masculina”.

E depois, conheci, em 2012, pelo Blogueiras Feministas, Haley Kaas e outras pessoas trans*, mulheres e homens, e comecei a conhecer (um pouco) mais e pensar (muito) mais sobre as questões de gênero e identidades.

Percebi que o que eu achava que era “natural” não é bem assim. Que muitas mulheres em processo de transição sofrem enormes pressões para serem femininas e delicadas, para se enquadraram perfeitamente no molde da “MULHER”, esse ser que não se nasce, se torna, para todas nós, cis e trans*, mas que para uma mulher trans* é ainda mais opressivo.

No texto que abriu essa semana, a Daniela Andrade falou sobre as profissões que são designadas à mulheres trans*, às travestis: a prostituição ou os salões de cabeleireiros, quase sempre vilipendiadas, estereotipadas, violadas pelo preconceito.

Na semana passada, foi divulgado o fato de uma mulher trans* haver se submetido à cirurgia de redesignação de sexo, em uma profissão que muitos consideram masculina, e que por coincidência, é a minha profissão: Delegada de Polícia Civil. Foi em Goiás, e a mulher é a dra. Laura.

Eu tenho tentado não ler comentários em portais de notícias. O anonimato permite uma virulência que enoja, assusta, entristece. Mas li alguns, na matéria malfeita e maldosa de um jornal local. E uma das “preocupações” de alguns comentaristas era com a situação juridico administrativa da delegada. Afinal, ela entrou como “homem”, e de repente, “virou” mulher. Logo, ela fraudou o sistema.

Muito me espanta, gente até inteligente e estudada, falando isso. Não há cotas, nas policias civis e federal, como há nas PMs. Logo, a situação juridico-administrativa, ao meu ver, não sofreu alterações.

Outros, preocupavam-se com a dita “reserva de mercado” das DEAMs, que são as delegacias de atendimento à mulher, delegacias que tradicionalmente são ocupadas por mulheres.

Voltando ao tema, eu torço para que Laura, minha colega na PC, em Goiás, seja feliz, no caminho que trilhou. Seja na DEAM, seja numa depol de área, aquelas “chão de fábrica”, como a minha. Onde cabe “macheza” suficiente em uma mulher, como cabe em mim, o que quer que seja isso.

Porque hoje eu luto por um mundo onde a falta ou não de brincos não seja definidora de gênero. Para que crianças possam crescer sabendo que os banheiros não devem ser motivo de opressão de gênero, e que meninas podem ter bigode, meninos podem usar lacinhos e cor-de-rosa, e que isso não define quem somos.

Luto e torço e espero por um mundo onde papéis de gênero não sejam tão fixados que impeçam que um homem possa ter empatia e capacidade de sensibilidade suficiente para trabalhar com mulheres em situação de violência, em uma DEAM, ou que, pelo oposto, imponham a todas as mulheres a obrigação de sermos sensíveis e “boazinhas”, portanto, ideais para trabalharmos “na Mulheres”.

Queria voltar ao passado e dizer para a Renata de 5 anos que tudo bem usar o banheiro de meninos, e que ela não precisa furar as orelhas se não quiser.

banheiro menina

Mas o que realmente dói é saber de tantas meninas em situação de disforia que não tem apoio, não tem amparo, não tem a quem recorrer.

Hoje eu vejo que o meu trauma é meu, e não é “bobo”,não vou diminuí-lo, pois ele me ajuda, agora, a calçar por alguns segundos, o sapato de uma criança trans*. Meus brincos me garantiram de imediato o ingresso no meu mundo, onde nunca mais me foi negada a minha condição de mulher. Eu quero que meus filhos vivam em um mundo onde não seja preciso um par de brincos ou um médico ou juiz para garantir que todos e todas possam ser felizes, da forma como escolheram.

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