Um Beijo do Asfalto

Por Patrícia Valim*, Biscate Convidada

Texto publicado originalmente na Revista Artigo 5o

8 de março de 2016: durante os idos de 2006-2008, um grupo de delegados da polícia federal, ligados ao Protógenes, me convidou para escrever sobre feminismos na revista cultural deles: Artigo 5º. Um dos textos publicados me rendeu alguma apurrinhação dos machistas de plantão e um telefonema da prostituta Gabriela Leite. Conversamos durante um tempo e no final ela me agradeceu pela resenha que publiquei do livro dela e por não ter perguntado o que ela faria se suas filhas decidissem ser prostitutas. Dois anos depois ela faleceu. Aos que tiverem tempo e paciência:

Um Beijo do Asfalto

Jean-Paul Sartre escreveu, em A Náusea, que para o acontecimento mais banal virar uma aventura, é preciso começar a contá-lo: é o que faz Gabriela Leite em seu livro de memórias Filha, Mãe, Avó e Puta: a história de uma mulher que decidiu ser prostituta, lançado recentemente pela editora Objetiva. Não que sua trajetória seja banal. Muito pelo contrário, pois Gabriela Leite, 57 anos, fundadora da ONG Davida, de onde saiu a simpática e badalada grife Daspu, dedica-se há mais de duas décadas à causa da profissão que ela decidiu exercer desde os idos finais da década de 60, quando trabalhava em uma grande empresa e à noite cursava Ciências Sociais na USP. Escolheu ser prostituta não porque precisasse. Filha de uma dona de casa interiorana e conservadora, e de um crupiê afetuoso de família aristocrática, após a separação de seus pais, Gabriela mudou-se com sua mãe e irmãs para a periferia de São Paulo e foi criada para casar-se virgem, ter filhos, uma cozinha planejada e ser feliz para sempre. Destino reservado para a maioria das boas moças de sua geração, que Gabriela decidiu subverter porque queria fazer a sua revolução pessoal, lutando contra o conservadorismo da família e da sociedade paulista através da grande obsessão da contracultura: o sexo.

6858660_1GG

Em um momento vertiginoso e caótico dos anos difíceis da ditadura militar no Brasil, após as aulas na universidade, Gabriela freqüentava o bar Redondo, na Praça Roosevelt, porque se sentia deslocada tanto entre os que pegavam em armas para lutar contra a ditadura, militantes da esquerda, como entre os que radicalizavam na ponta inversa desse processo: os CCC (Comando de Caça aos Comunistas) e os militantes da TFP (Tradição, Família e Propriedade), em sua maioria estudantes do Mackenzie na Maria Antônia. Foi em busca de sua identidade no reduto dos que teorizavam a revolução sexual, que Gabriela conheceu um diretor teatral engajado com quem ela deixou de sentir o fardo de “ser virgem no meio dos modernos”. Gabriela perdeu o fardo, a virgindade e ganhou uma enorme frustração ao constatar o limite da modernidade possível de seu primeiro parceiro sexual, que além de desdenhar de sua virgindade, contou o episódio para todos os convivas do Redondo.

A frustração dessa experiência, no entanto, foi decisiva para que Gabriela procurasse outros caminhos e outras possibilidades de fazer a sua revolução pessoal. Mudou de ares. Passou a freqüentar o reduto do samba em São Paulo. Apaixonou-se por um sambista – “o primeiro homem que a tratou como uma verdadeira mulher” -, engravidou quando a pílula já significava liberdade feminina e decidiu que seria mãe solteira. Depois de quase um ano do nascimento de sua primeira filha, trabalhando no ABC paulista e morando com a mãe cada vez mais repressora, Gabriela largou tudo para dedicar-se à prostituição na boca do lixo de São Paulo. A partir desse momento, Gabriela Leite nos brinda como uma narrativa generosa, inteligente e extremamente esclarecedora sobre o cotidiano da vida de uma prostituta do baixo meretrício em algumas capitais do Brasil.

Diferentemente do que se costuma imaginar, o cotidiano dessas mulheres retratado no livro é muito mais complexo do que os dois pólos opostos com os quais até hoje se enxergam as prostitutas: a romantização, como no filme Uma linda mulher, no qual a prostituta espera pelo príncipe encantado que irá redimi-la de seu passado por suposto obscuro, e o discurso da vitimização, cuja relação de dominação lhe é subjacente.

Como diria Caetano Veloso: nem uma coisa, nem outra, ou muito pelo contrário, pois Gabriela Leite quebra tabus ao nos mostrar sem pudor que a profissão pode ser sim alegre, divertida e prazerosa. Trata-se, no entanto, de uma profissão que embora não seja regulamentada, tem um código de ética cujo ponto de partida é o “não se apaixonarás por seu cliente”. Gabriela Leite hoje em dia é uma prostituta aposentada, casada com o jornalista Flávio Lenz, irmão da poeta precocemente falecida Ana Cristina César.

A relação do casal começou em uma ONG onde ele trabalhava desenvolvendo parcerias ligadas aos direitos das prostitutas; causa que Gabriela milita desde os anos oitenta. Flávio nunca foi um cliente. Tampouco o pai de sua segunda filha, que é fruto de uma outra paixão, quando Gabriela ainda estava em São Paulo. Flávio foi o amigo que se transformou no companheiro de vida e de militância porque nunca demonstrou preconceito com as escolhas de Gabriela.

No entanto, o casal sofreu com a reação de algumas pessoas próximas, que militavam com eles na ONG. Como diz Pedro Juan Gutiérrez, a realidade não tem obrigação de ser convincente, ela pode ser dar a certos luxos, como, por exemplo, o relacionamento entre uma prostituta do baixo meretrício e um intelectual do baixo Gávea, que à época era casado com Regina, amiga de ambos até hoje.

A esse respeito Gabriela afirma “é claro que eu estava de novo quebrando um tabu. Estava namorando o ex-marido da minha amiga, sem brigar com ela e tampouco a traindo. Isso incomodava muita gente, especialmente as mulheres”. Nesse ponto da narrativa Gabriela trata do preconceito das mulheres com as próprias mulheres, que às vezes são tão ou mais conservadoras que certos homens ao lidar com a sexualidade e o clássico fetiche em torno das prostitutas.

Esse é um livro que vale quanto pesa, porque Gabriela Leite quebra outros tantos tabus ao mostrar que não é e nem nunca quis ser a Júlia Roberts. Também não é a Gabriela de Jorge Amado, eternizada nos versos de Caymmi “eu nasci assim, eu cresci assim, vou ser sempre assim … Gabriela”. Gabriela Leite é única, porque subverteu seu destino manifesto e fez sua revolução pessoal fazendo sexo e militando na causa da prostituição para que muitas outras mulheres possam cantar seus nomes próprios em alto e bom som: Alessandras, Luizas, Terezas, Marinas, Mathildes, Júlias, Reginas, Fernandas, Simones, Ritas, Cidas, Veras, Patrícias, Marias, Anas, Amélias … Pode-se até discordar dos métodos com os quais ela fez sua revolução pessoal, mas é preciso respeitá-la por sua trajetória. Afinal, o Brasil já pode dizer que a Gabriela Leite também é mulher de verdade.

12346530_10208354620448331_192542302382295802_nPatrícia Valim, mãe de Ana, Maria e Bento e avó de Maria Antônia. Professora de História da UFBA

Templo

Por Maíra A., Biscate Convidada

4470295_Kad__nlar_Hamam__,_2009,_Ta_YB,50x70_cm

Primeiro, os olhos se arregalam com o choque tantos corpos de mulheres que circulavam completamente nus e à vontade. 15, 20 mulheres muçulmanas deitadas e sendo ensaboadas por outras mulheres. Depois, a diversão de me juntar a elas e me deitar numa pedra morninha, que imediatamente aliviou as costas e quase me fez adormecer. Os olhos fechados aguardavam o desconhecido do próximo momento. De repente, duas mãos fortes e vigorosas começam a esfoliar o corpo espumante e quentinho. Depois, os cabelos são ensaboados, os olhos meio cegos são direcionados a uma bica e a água quente é fartamente jogada na cabeça. Enxáguo o restante do corpo e os olhos, atentos e relaxados, aguardam numa sala de espera. E então, um momento de redenção: uma mulher espalha um óleo natural de laranja no corpo completamente entregue. Os olhos se rendem fechados, enquanto cada recanto do corpo é massageado e os ouvidos são embalados por canções em turco, cantadas quase que num sussurro agudo e afinado. O tempo cartesiano se perde completamente: 30, 60, 90 minutos? Só é possível perceber-me em transe, quase que como num ritual religioso. O corpo é templo num tempo perdido. A lógica é suplantada por momentos tão introspectivos e profundos do corpo, que a mente se revigora na atenção em suspensão, proporcionada pela ausência da palavra. Onde a palavra falha, o corpo se manifesta e é acolhido generosamente em atitudes de afeto gratuito, vindo de pessoas que não falam a minha língua, mas massageiam e embalam a minha alma. O hamam suspende as burcas, o fluxo do pensamento e me faz reavaliar a minha suposta liberdade ocidental. Simplesmente não consigo pensar em lugares coletivos em que o corpo seja não apenas exposto, mas acolhido e cuidado por pessoas desconhecidas, com quem estabeleço laços de de gratidão. Logo depois, brindo a oportunidade de ter experienciado este momento lindo, olhando pra vocês e muitas emoções sentindo. Obrigada, mulheres! Ou melhor: Teşekkürler, kızlar!

11655554_962417763789402_1559661885_nMaíra A. é linguista por profissão, feminista por atrevimento e alegre por esporte. Adora se reinventar e reinventar a maneira de ver as pessoas e o mundo.

As mulheres do Maneco

Manoel Carlos é descrito como um autor de mulheres, em especial por causa de suas Helenas, série iniciada por Lilian Lemmertz em Baila Comigo e terminada agora por sua filha, Julia, na novela Em Família. Mas ao ver a atual novela das 9 e rever no Viva, História de Amor, com outra Helena, vivida por Regina Duarte, me pergunto o porque desse título.

a última Helena (Julia Lemmertz)

a última Helena (Julia Lemmertz)

Naonde que resolveram que o Maneco entende tanto assim de sentimentos femininos? O que vejo em ambas as novelas, e em especial na novela atual são mulheres neuróticas (no sentido freudiano) beirando a histeria, outras beirando a psicose (vide a Juliana de Em Família).

Juliana (Vanessa Gerbelli) descontrolada -- de novo -- no capítulo de ontem (foto: gshow)

Juliana (Vanessa Gerbelli) descontrolada — de novo — no capítulo de ontem

Todas poderiam fazer parte de um clássico da literatura de autoajuda: Mulheres que Amam Demais, que inclusive já apareceu numa novela do Maneco, que tratam de co-dependência emocional, o livro inclusive gerou grupos de ajuda pra dependentes emocionais a exemplo do AA. As mulheres das novelas do Maneco amam filhos, maridos, namorados, ex-namorados, ex-maridos e por aí vai muito mais que a si mesmas e suas vidas giram somente em torno disso. A vida familiar para o Maneco está acima de tudo. Ninguém curte os amigos, os estudos, o emprego, nada. Para a mulher do Maneco só existe o amor e pra provar o amor, só muita, muita dor. Pra ela, claro.

As mulheres de Em Família matam pra ter uma filha porque não concebem uma vida sem aquela determinada criança. Não amadurecem e vivem presas ao passado e à figura materna, filhas são eternas filhas adolescentes, mesmo quando mães. Filhas adolescentes saem de casa mas papai paga as contas, ficam emburradinhas por tudo, escolhem o pior sujeito da face da terra pra casar. Sempre amam o homem errado, óbvio, mas é aí que se prova o amor, né Maneco? Amando muito o estrupício que vai destruir a sua vida. #SQN

virgilio

a voz da razão é sempre masculina; em “Em Família” essa voz é de Virgílio (Humberto Martins)

Já a voz da razão na novela existe pela boca de um homem, Virgílio ( alter ego do autor?, assim como o Dr. Moretti em História de Amor?), havendo , inclusive, um diálogo onde se diz que “tinha que ser ele, tinha que ser um homem” pra resolver aquela situação (mais uma bebedeira do Felipe, irmão da Helena). Virgílio em geral pensa com calma e lucidez, ao contrário das mulheres da novela, que berram e esbofeteiam em cena ao esboço da menor contrariedade. E quando Virgílio se altera, como no capítulo do dia 03/06, é visto como másculo e enfim deixou de ser banana. Quero, ainda, deixar anotado que Humberto Martins está excelente no papel, mesmo a novela sendo péssima.

Sendo assim, se a gente concorda que o Maneco é um autor de mulheres, ele está escrevendo para quais mulheres? Será essa falta de identificação da mulher moderna que tem as rédeas da própria vida nas mãos, que ama mas não é escrava de nenhum amor e tem diversos interesses que tem deixado a novela com índices de audiência tão baixos? Acho mesmo que essas mulheres se identificavam mais com as empreguetes (Cheias de Charme), que eram amor, garra, trabalho, amizade e não uma neurose sem fim. Só resta torcer pra novela acabar logo, ou tentar a novela da Record.

Ainda enterrado em cova rasa o AI-5 completa 45 anos

Por Niara de Oliveira

E as mulheres com isso?

*esse texto faz parte da VIII Blogagem Coletiva #desarquivandoBR

grafite, de Gabriel Muniz

Em quase todos os momentos da história da cultura judaico-cristã o simples fato de ser mulher e ir um passo além do papel designado pela sociedade patriarcal já nos colocava na situação de subversiva. E foi assim na resistência à ditadura.

“Fica evidente que para a ditadura militar brasileira, a mulher militante não era apenas uma opositora ao regime militar; era também uma presença que subvertia os valores estabelecidos, que não atribuíam à mulher espaço para a participação política. Como esta questão está presente na sociedade e nas próprias organizações de esquerda, pode-se concluir que as relações de gênero têm uma dimensão que perpassa todas as instâncias e instituições sociais.
Para uma história das mulheres é imprescindível que a história seja entendida como resultado de interpretações que têm como fundo relações de poder. O caráter de construção da história nos permite desconstruir e reinventar a história, inclusive o papel dos homens e das mulheres na sociedade. Assim a história passa a ser vista como um campo de possibilidades para vários sujeitos historicamente constituídos; lugar de lutas e de resistências.”
As mulheres e a ditadura militar no Brasil, artigo de Ana Maria Colling ICH-UFPel

Se os atos institucionais, entre eles o desgraçado AI-5, foram dando as desculpas legais para toda sorte de arbitrariedade nos porões das delegacias e “departamentos de ordens e segurança” durante a ditadura militar contra quem ousava criticar e se insurgir, contra as mulheres nada disso nunca foi necessário. Embora a subversão das mulheres nunca tenha sido tolerada, também nunca precisou de uma ditadura oficial para ser combatida especificamente. Mas, mulheres subversivas e comunistas já é vandalismo. E embora também não tenha sido fácil para as mulheres (como ainda não o é) enfrentar o machismo da esquerda e se destacarem como quadros políticos na resistência, nunca se teve dúvidas sobre quem era o inimigo maior. E enfrentamos os mesmos horrores.

Difícil dizer se na tortura a crueldade era maior com mulheres. Tortura é cruel, desumano e abominável. Ponto. Claro que haviam os abusos continuados, porque alguns torturadores usavam presas como objetos sexuais diariamente, independente da tortura outra, para arrancar informações e para “quebrar” militante. Estavam ali mesmo, “à disposição”. Sevícias eram comuns com homens e mulheres, fazia parte da cartela de crueldades. Úteros perfurados, filhos roubados, mães logo após sessão de tortura expostas à visita dos filhos, grávidas torturadas… Muitos e horríveis são os relatos do período, ainda não oficiais, ainda não inclusos na história oficial do país, ainda não julgados, ainda colocados em dúvida.

45 anos após aquela tenebrosa sexta-feira 13 de dezembro de 1968 ainda tememos as delegacias, os abusos, a tortura, os desaparecimentos. Ainda tememos a polícia, homens e mulheres que ousam se insurgir contra… qualquer coisa. Basta ser consideradx subversivx. Estar com uma câmera, profissional ou celular, na mão e “ameaçar” registrar os crimes dos agentes da lei. Basta estar com uma garrafa de desinfetante no lugar errado — ou no lugar certo, do ponto de vista do Estado e da polícia que precisa responsabilizar alguém, e se for preto e pobre fica “melhor responsabilizado ainda”.

Embora não estando oficialmente num estado de exceção, o Estado não é seguro. As ruas não são seguras para subversivos e insurgentes, homens ou mulheres. Como bem lembrou a Suzana Dornelles, o AI-5 está enterrado em cova rasa, e se não estivermos atentos e vigilantes talvez nem precisemos de outro ato institucional para vivermos mais horrores nessa “democracia”.

Leia também:

E assista:

“Que Bom Te Ver Viva”de Lúcia Murat:

Niara

Niara por ela ou “bóra listar as dezoito coisas que vocês já deveriam saber sobre mim.”

recorte d'eu, pela lente generosa do amigo Antonio Miotto

recorte d’eu, pela lente generosa do amigo Antonio Miotto

1- meu nome é revolta.
2- nasci comunista, quis ser jornalista aos 8 anos, e me tornei feminista aos 19 por necessidade.
3- minha cor preferida é preto, não tem a ver com meu espírito deprê.
4- acordo SEMPRE mal humorada. respeite.
5- meu café preferido é café com leite e bolacha maria (da Zezé, de Pelotas! o resto não presta), mas se tiver sucrilhos com leite gelado o meu dia já começa a melhorar…
6- acordo sempre com fome.
7- sou ~única e exclusivamente~ XAVANTE. até morrer.
8- cozinhar é um prazer imenso, desopila, e gosto de ver as pessoas se embucharem com minha comida. esse é o elogio que espero. então, se não for pra se embuchar nem comece a me com…digo, a comer minha comida. 
9- cinema e falar sobre cinema pra mim é só prazer, se percebo disputa de quem sabe mais largo pras cobra.
10- amo butiá, pitanga e bergamota (frutas que sempre tive no pátio de casa), mas minha fruta preferida é laranja. (sou óbvia, confesso)
11- amor pra mim é doação, tem de ser de graça. se precisa negociar, vira outra coisa. né?
12- até colocar no ar o Pimenta com Limão achei que não sabia escrever sobre mim.
13- me sinto melhor aos 41 do que em qualquer outra época da vida.
14- gosto de Ennya, Kenny G e MAGAL. (me deixa).
15- sou chata. pra gostar de mim é preciso me aturar.
16- odeio que tentem me manipular.
17- se rifou minha amizade, não tem volta. não sei esquecer. e falando em amizades ninguém no mundo me conhecerá melhor ou terá melhor sintonia comigo que a Fernanda (minha melhor amiga da vida toda, e pra vida toda).
18- meu rompimento com o PT foi doído, dói até hoje. questões políticas não são menores ou ficam em segundo plano, elas ajudam a definir o que sou. e me explicam.

Agora juntem com a outra lista. Sou esse emaranhado.

1- odeio falar durante a primeira hora que acordo.
2- aprendi a gostar, manifestar afeto com o Calvin.
3- já usei cabelo pela cintura com uma trancinha dreads e pedrinhas na ponta.
4- quando caminho na rua não enxergo ninguém, estou sempre viajando.
5- prefiro assistir filmes sozinha.
6- nunca quebrei nenhum osso.
7- o não-casamento com o Gilson é o primeiro da vida.
8- detesto repetir o que digo.
9- larguei o teatro na escola porque confundi o estômago com o coração.
10- amo chá de cidreira, andar na chuva e bala 7 belo porque lembram a infância.
11- odeio atender o telefone em casa e por vezes finjo que não estou quando toca a campainha.
12- fiz meu primeiro bolo aos 8 anos de idade.
13- os fantasmas da infância, adolescência ainda me assombram.
14- odeio camarão (não é alergia, só não gosto mesmo).
15- discurso primeiro, beijo no coleguinha (que me valeu título de biscate) no pátio depois (no Jardim de Infância, aos 5 anos).
16- eleição pro grêmio estudantil primeiro, transar depois.
17- guardo mágoas e ressentimentos da vida toda (maior espaço interno da categoria).

e se me virem rindo descompensadamente não procurem ‘entender a graça’, é deboche em estado puro, e quando começo não paro nunca mais.

UFA! 

………………………/

obs. Adora joaninhas…

Lady BUG. Brasil, 18/11/2013. foto: Antonio Miotto Lady BUG. Brasil, 18/11/2013. foto: Antonio Miotto

Dia Mundial Sem Carro

estilingao17

“Dia 22 de Setembro é o “Dia Mundial Sem Carro”. O nome varia, mas o mote é sempre o mesmo, comemorar e defender uma outra cidade possível. A iniciativa veio da Europa, onde faz parte da Semana da Mobilidade. No Brasil, mais tem sido feito por organizações da sociedade civil do que pelo poder público.

A

Para quem caminha, pedala ou usa o transporte público nada muda. Já os motoristas dos automóveis particulares ainda não foram devidamente sensibilizados para conhecer alternativas, nem que durante um dia apenas.”

bicicletas na cidade de São Paulo

 * Defenda o uso do transporte público de qualidade: rápido e eficiente; calçadas em condições mínimas de utilização por todos os cidadãos e utilizando a bicicleta, você se sentirá mais integrado ao espaço urbano, ganhará saúde e consequentemente sentirá a melhora em sua qualidade de vida.

Em nossas cidades, todos os dias percebemos o aumento das horas que se gasta no interior de um carro[fruto da ampliação da frota de veículos], refletindo o desperdício da qualidade de vida e do tempo. Juntos, podemos viabilizar a mudança de vida em nossas cidades:

Quando pedalar em sua cidade:

  • Antes de sair de casa: alimente-se bem! Vista-se com roupas que possibilitem um melhor comunicação com os motoristas e pedestres [lembrete- à noite, luzes e reflexivos ];

BRUNA CARDOSO, 25 ANOS

BRUNA CARDOSO, 25 ANOS

  • Pedestre sempre tem a preferência: evite pedalar nas calçadas, opte por desmontar e empurra; nas faixas de pedestres, espere-o concluir a travessia.

JULIANA DIEHL, 28 anos.

JULIANA DIEHL, 28 anos.

  • Sempre pedale por caminhos alternativos [ruas tranquilas]. Se estiver em uma avenida, muito movimentada redobre a atenção. Rotas compartilhadas você pode conferir no bikemap.net ; Ao pedalar, ocupe de 1/3 ou 1/2 da faixa – nunca próximo à guia, facilitando a visão dos motoristas e permite à você uma margem de segurança em caso de buracos.

Juliana Gatti, 32 anos

Juliana Gatti, 32 anos

  • Pedalando nas vias, você é o trânsito; e no trânsito toda a atenção deve ser redobrada: sinalize todas as manobras que irá realizar. Tenha ciência de todos os caminhos de se chegar ao seu destino; Compartilhar o espaço público, será uma constante para você, então pratique o respeito e a educação no trânsito.

Diva, 48 anos.

Diva, 48 anos.

insPIRE + com o poetinha

Alguém perguntou alguma coisa?

Ou sobre a ditadura da “beleza”

Por Carolina Iootty Dias*, Biscate Convidada

TextoCarol

Outro dia uma amiga veio cobrar de mim porque eu não malhava pesado, dizendo que, afinal, já estou com 35. Ela chegou ao cúmulo de pegar no meu braço para medir a flacidez do meu músculo.

Na hora escutei perplexa, chocada com a total falta de respeito, mas horas depois mandei email cujo conteúdo pode ser traduzido em uma só frase: “Eu te perguntei alguma coisa?”.

É errado se sentir bem com um punhado de fios de cabelos brancos na cabeça, alguns músculos flácidos e duas ou três rugas que começam a se revelar? Quando foi que nos impuseram essa estética que torna a passagem do tempo um crime inafiançável? Alguém perguntou a minha opinião a respeito?

Não pretendo, com esta pequena reflexão, entrar naquela lógica babaca de que “hoje eu sou melhor do que aos 25”, como se tivesse algo de que me desculpar. NÃO! Hoje eu sou a mesma merda que era aos 25. Sou chata, implicante pra caramba, mal humorada, bronquinha, superexigente no trabalho, atrasilda para uma determinada espécie de compromissos, preguiçosa…

Eu sou normal. Não quero ser nada além disso.

Mulheres de 45, 50, 60, 70, vocês são lindas e, por vezes, muito mais interessantes do que nós. Se quiserem fazer aplicações de botox, façam. Se não quiserem fazer não façam. Façam o que lhes der prazer.

.

carolina_biscaconvidada*Carolina Iootty Dias é escritora diletante, advogada, carioca, flamenguista, apaixonada por moda e autora do blog arosacarolina.

Até que todas sejamos livres!

 Por Niara de Oliveira

feminismo-te-quiero-libre

Na véspera do 8 de Março deste ano, o site do Instituto Humanitas Unisinos publicou uma entrevista com aquela que sempre foi minha maior referência teórica do feminismo — desculpem-me se decepciono; mas, sim, uma feminista brasileira –, Rose Marie Muraro. Referência não só porque a linha feminista defendida por Rose tem o recorte de classe — indissociável, na minha opinião –, mas pela contextualização histórica. Ela sempre se deu ao trabalho de buscar a referência e a construção histórica da nossa condição de opressão, e nem preciso dizer o quanto isso é fundamental. Para combater a opressão é preciso saber como chegamos a essa condição e reconhecer nosso papel e lugar dentro dela. E a Rose sempre fez isso, e numa linguagem tão acessível… (o tempo em que trabalhou com Dom Helder Câmara e com a Teologia da Libertação devem ter ajudado muito nesse sentido)

RoseMarieMuraro

Rose sempre foi uma entusiasta das ações sociais dos governos do PT. Segundo ela, e muitos outros, tirar pessoas da miséria representa tirar mulheres da miséria, empoderá-las. E, de fato, os governos do PT fizeram isso. A questão é que afora isso não se avançou quase nada em termos de políticas públicas para as mulheres. A Lei Maria da Penha não foi iniciativa do executivo e delas (iniciativas do executivo) as notícias sempre foram ruins na questão de gênero. Tivemos o retrocesso na discussão sobre aborto, a partir da chantagem feita em conjunto pela grande imprensa e bancada “pró-vida” desde a campanha que elegeu Dilma Rousseff e que nos garantem que o SUS não oferecerá as condições necessárias para os procedimentos nos casos já previstos em lei — sendo que podemos ter retrocesso na lei. Temos a ameaça do maldito Estatuto do Nascituro, (e contando com a postura de refém desse governo diante da bancada pró-vida) que se aprovado, será sancionado. E ainda tivemos o absurdo do tal cadastro de grávidas ou bolsa-chocadeira (MP 557) que visava — não tenho dúvidas — o controle sobre as mulheres pobres que abortam.

Em dezembro passado estive na audiência da CPMI (investigação conjunta do Senado e Câmara Federal) da Violência Contra a Mulher em sua passagem pelo Rio de Janeiro. Os depoimentos e relatos me calaram. Eu que tanto me orgulho de já ter mais de 20 anos de luta feminista senti vergonha. Vergonha do meu ativismo feminista – em conjunto com o ativismo de outras feministas – não ter conseguido mudar um milímetro sequer a situação da mulher brasileira ante ao machismo em sua face mais cruel, a violência. Estava previsto que o relatório final seria votado no final de março deste ano. Continuo aguardando os dados coletados pela CPMI.

E ainda tem os salários desiguais, a presença ainda acanhada de mulheres em cargos de direção — seja na administração pública ou privada –, a violência e falta de assistência no parto, as políticas criminosas de controle da natalidade, o racismo, a lesbofobia, a transfobia e mais uma infinidade de “detalhes” que tornam o ser mulher neste e em qualquer outro país um desafio permanente. Diante desse quadro, nada favorável, concluiu Rose Marie Muraro:

“Sobre os desafios do feminismo, estão todos vencidos. Hoje nós já conseguimos tirar a miséria do Brasil. Esse é o principal desafio para o feminismo. Não é um desafio masculino, é um desafio da mulher.”

(leia aqui a entrevista na íntegra)

Desde que li essa entrevista nunca mais fui a mesma. A decepção e desolação com essa entrevista equivale a saber – em hipótese – que Marx antes de morrer tivesse se tornando detentor de um meio de produção e explorasse trabalhadores. Meu mundo caiu, junto com as tranças, os butiá do bolso e o cu da bunda. Rose pode estar muito empolgada com o “sucesso” dos programas sociais dos governos do PT e parece que esqueceu de analisar os números e índices da violência contra a mulher.

Se vivemos dias obscuros na luta pelos Direitos Humanos no Brasil, não se enganem: as mulheres é que sofrem mais com isso. É a violência contra nós que é naturalizada, introjetada. Ao ponto de ninguém estranhar que durante o julgamento dos assassinos de Eliza Samudio o registro seja sempre, invariavelmente, “o julgamento dos assassinos da amante do goleiro Bruno”: no título dela o julgamento e a condenação moral e a culpa (inclusive por sua morte), no título dele a profissão honrada. Ao ponto de ninguém estranhar a “pergunta” sobre o que uma “mocinha” estaria fazendo de madrugada na Lapa quando foi vítima de um estupro coletivo. Ao ponto de ninguém estranhar e até concordar com os comentários maldosos de Gerald Thomas sobre a roupa curta e o comportamento de Nicole Bahls ao tentar justificar sua agressão a ela: “uma menina, de (praticamente) bunda de fora, salto alto de “fuck me”, seios a mostra, dentro de um contexto chamado PÂNICO e eu (que não deixo me intimidar e gosto desse pessoal) entro no jogo e viro as cartas – e os intimido! (que nada! Brincadeira também!)”. E sobre esse comentário ridículo a Renata Lins já disse tudo o que eu gostaria de dizer.

A Índia é aqui, em Cuba, no Japão, na Rússia, nos EUA, na Etiópia, no Afeganistão ou no México. Não há lugar no mundo em que as mulheres estejam a salvo do machismo e da cultura do estupro e da culpabilização da vítima pela violência sofrida e do moralismo barato e da hipocrisia.

não sou da Marcha Mundial de Mulheres, mas estou pegando seu slogan emprestado

não sou da Marcha Mundial de Mulheres, mas estou pegando seu slogan emprestado porque só serei livre quando todas as mulheres forem livres, e até lá seguirei lutando

Por tudo isso, dona Rose Marie Muraro (aquele momento de audácia em que ouso discordar daquela que até aqui era minha maior referência teórica no feminismo — sou dessas!), o feminismo não está superado e nem seus desafios foram vencidos. Se hoje há programas sociais que tiraram muitos brasileiros – e entre eles a maioria de mulheres – da miséria isso não quer dizer avanço ou libertação da opressão de gênero e muito menos fim da desigualdade social ou da violência.

O feminismo só estará superado e seus desafios vencidos quando todas as mulheres forem livres. #prontofalei

.

*Escrevi um artigo menor, mas com o mesmo mote, para o Jornalismo B impresso, que deverá sair essa semana. 😉

Sobre amizades, biscates e verdades absolutas

São Paulo, horário de pico, metrô lotado. Eu, que nunca perco a mania de prestar um pouco mais de atenção em conversas mais exaltadas, não fiz nada de diferente desta vez. Antes tivesse feito. Porque assim, pouparia meus ouvidos de mais um suntuoso clichê proferido como verdade absoluta e inquestionável.

Duas mulheres conversavam em alto e bom som. Uma delas, especialmente, dizia com veemência que depois que passou a “selecionar melhor” (!!!!!) suas amigas,  deixou de ser traída pelo marido. Aquela velha história, sacam? “Ah, mas ele é homem e a carne é fraca. E esse bando de biscate não perdoa e dá em cima mesmo.” Coitadinho… O pobre marido dela é bem santo, só que ao contrário.

A outra moça concordou com tudo e reforçou: “ah, por isso que eu nunca deixo o meu homem (!) sair sozinho com amigos quando sei que terá outras mulheres por perto. Também começei a tomar cuidado com umas “amigas” da onça das quais sempre desconfiei. São bonitas, mas estão sem ninguém e morrem de inveja da minha felicidade”. Então tá, né? Que conceito mais escabroso de felicidade…

Vamos lá. Analisem comigo quantas ideias clichezentas  estão presentes em tão poucas palavras:

1- a ideia de que toda mulher é falsa e invejosa;
2- toda mulher só pode ser feliz se estiver se relacionando com alguém. Ou que o fato de ela não ter um compromisso amoroso é o suficiente para ela querer prejudicar quem tenha;
3- mulheres bonitas (leia-se dentro dos padrões vigentes) são “perigosas”;
4- caso ocorra uma traição dentro de um relacionamento (heteronormativo), a culpa será sempre da mulher. Ela, geralmente, é uma biscate que não poupou esforços para seduzir o homem que estava quietinho no canto dele;
5- a ideia de que amizade entre homem e mulher na verdade não existe e que sempre haverá outros interesses, pelo menos de uma das partes;

Perceberam ou estou exagerando?

Passado o meu desânimo e controlada a minha vontade de manifestar qualquer opinião, fiquei pensando um tempo a respeito do que presenciei. Ou de onde vinham tantas idéias odiosas direcionadas para outras mulheres. Todo mundo sabe que a nossa sociedade, ainda muito machista,  é uma das principais propagadoras de tais pensamentos. Só que, ainda que eu perceba como funcionam estes mecanismos bastante opressivos, fico particularmente triste quando vejo que muitas mulheres ainda os perpetuam. Muitas vezes, de forma bem cruel.

Não as culpo. Só que mesmo sabendo que eu não consigo sozinha consertar o mundo, gostaria de fazer aqui um convite à reflexão. Enxergar mulheres – e pessoas em geral – através de estereótipos (bem ultrapassados, por sinal) é bem limitador, não acham? Penso eu que já passou da hora da gente parar de naturalizar fatos e comportamentos que dependem do caráter de cada um, e não do gênero.  E seria bem legal se algumas pessoas parassem de culpar os outros – biscates ou não –  por suas inseguranças.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...