É tão bom quanto sexo?!

Uma pesquisa feita por britânicos afirma que a música Bohemian Rhapsody do Queen é melhor que sexo (não liguem para os comentários, infelizmente são, na sua maioria, decepcionantes), não sei se concordo em relação a música relacionada ser melhor que sexo, mas posso afirmar que é tão boa quanto sexo. Opa, peraí, será que eu sou uma Biscate frígida? Porque não é apenas essa música que considero tão boa quanto sexo, existem outras músicas, existe o brigadeiro com creme de leite, chocolate meio amargo e também existe aquele cheiro maravilhoso depois de um dia de chuva, que a noite fica quente e sobe um misto de perfume de grama e terra molhada que se mistura com o perfume de Dama da Noite. Pra mim essas sensações são sensações orgásticas. Sou super sensitiva, a tal ponto de gostar de fazer essa mistura de sexo com música, comida e cheiro.

Eu continuo a me questionar se sou frígida, eu gosto, e muito, de sexo, mas isso não faz com que eu considere sexo a melhor coisa do mundo. Está entre as melhores coisas, com certeza, mas não sei se pode ser a única coisa boa no topo da lista. Quando coloquei no Facebook, vi muita gente discordando de mim, aí a pergunta me chegou. Mas, justo eu, que sempre fui tão assumida: “Gosto muito de sexo mesmo, e daí?” e agora me descubro como uma mulher que tem coisas que podem compensar o sexo? Será que é a velhice chegando? (27 anos e já falo velhice, mas é velhice de espírito) Não é por eu não conhecer bem o sexo, eu o conheço de várias formas, vários cheiros, vários suores e todos os gêneros.

Sempre soube que sou viciada em sexo oral porque sou muito sensível com paladar e com a boca, que sempre adorei ouvir a voz/gemido da pessoa no meu ouvido porque eu sempre fui super sensível com a audição. Mas se sou tão apaixonada por sexo, meu paladar, meu olfato e minha audição podem ser usadas nele, porque certas coisas que eu como, cheiro ou ouço podem ser tão boas quanto o sexo em si?

Já teve uma época da minha vida em que sexo era tudo, assim que o descobri, era a melhor coisa do mundo, até uns 19 anos eu não enxergava nada que fosse melhor que ele. Como quando eu descobri o cheiro da flor Dama da Noite, eu ficava extasiada, não via nada melhor que aquele cheiro, por meses eu quase perdia os sentidos ao sentir seu cheiro, até hoje o cheiro dela me deixa meio tonta de tão gostoso que é. Quando comi um chocolate que marcou a minha infância, “Mania de Morango”, lembro que eu não conseguia esquecer o sabor dele por dias a fio, sentia o sabor dele só de ver o pacote, curioso né? Quando assisti ao filme The Wall pela primeira vez eu entrei numa viagem meio alucinógena e não tinha nem bebido nada alcoólico naquele dia, mas juro que estava lá parada, viajandona… Foi a experiência musical mais maravilhosa que eu já tive. Mas depois, assim como o sexo, essas coisas passaram a ser algo maravilhoso, saboroso, delicioso, mas todas comparáveis com outras também, maravilhosas, deliciosas e saborosas.

Talvez ajude também que na minha educação em casa, sexo nunca foi algo proibido ou um tabu. Acho que a visão de “proibido” faz dele tão especial. Sei que aqui em casa sexo sempre foi um assunto falado, comentado a exaustão, desde o uso de preservativos até a ideia de que sexo é saudável, que todo mundo faz (inclusive seus pais, então, qual é o problema de você fazer?). Então sempre vi sexo como algo prazeroso a mais na minha vida. Algo prazeroso que não engorda (pelo contrário, emagrece!), não faz mal ao colesterol e que, se feito com segurança, só traz coisas boas. Mas, isso tudo não passa de um achismo meu pra explicar esse fenômeno.

É uma boa pergunta a se fazer, pessoal: Existe algo tão bom ou melhor que sexo pra você?

Sentidos

Aviso aos Navegantes:a Renata Lins publicou este post (Meus 50 tons de…) que incendiou a imaginação d@s bisc@s deste nosso querido Club. Decidimos, pois, cada um@ tratar do erotismo como lhe apetece. Inclusos @s convidad@s. Tem sido uma quinzena caliente não lhes parece?

#Erotismo em Nós
Sentidos, Borboletas nos Olhos

Chico Buarque cantou e eu não sei responder a ele nem escrever este post. Porque o erótico, é, quase sempre, inesperado. O susto que prende o olho e tira o fôlego. Surpresa. Mas passa o tempo, é preciso um texto e só me apetece ver Bardot e Michel Pic­coli:

Bom, vou tateando. Erótico, é, talvez, em mim, o que se inscreve na pele, seja em ausência ou presença. O erotismo, em mim, é passivo, a voz rouca penetrando em meu ouvido, o tecido delicado escorregando dos ombros, a língua audaciosa provando os lábios (quaisquer lábios), o odor do sêmen na colcha da cama, um vislumbre de torso. O erotismo, em mim, é ativo, despir-me sem espetáculo, nenhuma desculpa para o desejo, só o incisivo ato de ficar nua para os olhos outros. Deixar o nariz fazer trilha no corpo alheio até reconhecer nuances. Lamber, chupar, saborear. Sussurrar sugestões, indicar posições, sugerir lugares e formas. Tatear e ler o corpo amante em braile. O erotismo, em mim, é lacuna. É entrever. É buraco de fechadura. O entreaberto. Seja da porta, seja das coxas.

Sentindo: Uma sugestão de leitura: O Erotismo, George Bataille/ Uma sugestão de escuta: Âmbar / Uma sugestão de filme: Livro de Cabeceira / Uma sugestão de textura: areia da praia / Uma sugestão de comida: cogumelos *

Porque as águas do desejo são turmas
e o que percorro tem cheiro de sexo.
Aqui, eu o tenho nos olhos,
mas o sinto entre as pernas
E lateja o corpo
A pele pede mãos
pede língua
pede sonhos.
Porque em vermelho eu sentiria o teu gosto
E saberia a sabores, em rubro, em rubro.

Sentindo: Uma sugestão de leitura: La Nuit Sexuelle (o post é em português)/Uma sugestão de escuta: Estranho Rapaz / Uma sugestão de filme: Ata-me / Uma sugestão de textura: água / Uma sugestão de comida: ostra *

Eu só queria me despir pra você. Tornar-me a paisagem árida, difícil e intensamente bonita que você se acostumou a desejar. Eu só queria me despir pra você. Deixar que meu corpo nu apague todas as palavras de amor que nós não vamos dizer. Eu só queria me despir pra você. Ser entendida em uma língua que nunca falamos. Em braile, talvez.

Sentindo: Uma sugestão de leitura: Quando todas as coisas são puras /Uma sugestão de escuta: Cheiro de Amor / Uma sugestão de filme: A Bela da Tarde / Uma sugestão de textura: algodão / Uma sugestão de comida: uva

E se for mesmo simples? Um dia, um lugar, uma vez? Uma esquina? E se for mesmo simples, um querer e a rima? E se for mesmo simples? Sem dor, sem medo, sem esperas? E se for mesmo simples, eu, você e o tempo espiando a gente aprender o prazer? E se for mesmo simples, eu vou, você vem, as estradas se fazem quarto para um tempo sem amanhãs. E se for mesmo simples, café forte, música na vitrola e olhos se fazendo poços? E se for mesmo simples, a pele arisca, os desejos inquietos, as saudades antecipadas? E se for mesmo simples, gentileza, malícia e aquela vontade de não dormir nunca mais? E se for mesmo simples: todos os verbos no presente, todas as perguntas no pretérito, todas as vontades no gerúndio? E se for mesmo simples, beijos curiosos, mãos impacientes e horas fora do calendário? E se for mesmo simples, sem memória, sem história, sem álbum de fotografias? E se for mesmo simples, um pouco sem razão, um tanto sem esperança, o reconhecimento tranquilo do outro. E se for mesmo simples: coragem?

Sentindo: Uma sugestão de leitura: O erotismo na arte acadêmica e moderna da América Latina /Uma sugestão de escuta: Me deixas louca / Uma sugestão de filme: Vítimas de Uma Paixão / Uma sugestão de textura: azulejo / Uma sugestão de comida: camarão

Às vezes eu penso nele. Ou neles. No meu, quase sempre. Penso no coração. É que quase toda a gente o traz lá, em seu frágil invólucro de carne e sonhos. Umas cartilagens, para aumentar a ilusão de conforto e segurança. Há quem o traga nos olhos, nunca sei se como filtro ou muralha. Os que andam com o coração na boca, claro, sempre a ponto de saltar e nos cair no colo. E tem aqueles outros, os que o trazem nas mãos, prontos para entrega, quero fazer um depósito, por favor. O que traz? Coração. Coração na mão – a gente se espanta com essa disponibilidade kamikase. “A gente”, penso, paro: eu. Eu me espanto com este ataque kamikase a si mesmo. Porque meu coração está no lugar certo: no meio das pernas.

sentidos

Panayiotis Lamprou, “Portrait of My british wife”, 2010

* Como se viu (ou não) eu roubei. Os filmes roubaram o lugar dos odores 😉

Outros textos da série #Erotismo Em Nós:

Silent Night, Valmont

Sobre Beijos e LínguasAugusto Mozine

Façamos, Renata Lima

Trinta Anos Quase, Renata Lins

Orgia com Brando e Schneider, Lis Lemos

O triângulo aponta o caminho, Niara de Oliveira

Erótico Pornográfico, Bete Davis

Águas Feminnias, Sílvia

Espera, Raquel

Inverno, Perséfone

Verdes, Cláudia

Façamos…

Aviso aos Navegantes:a Renata Lins publicou este post (Meus 50 tons de…) que incendiou a imaginação d@s bisc@s deste nosso querido Club. Decidimos, pois, cada um@ tratar do erotismo como lhe apetece. Inclusos @s convidad@s. Tem sido uma quinzena caliente não lhes parece?

#Erotismo em Nós
Façamos, Renata Lima

Aquelas horas lânguidas, em uma cama grande, espaçosa, ou aquela meia hora agitada, em um carro apertado, ou aqueles minutos intensos, em um canto qualquer…

Qual o som que te embala?

Cada som, uma expectativa, uma lembrança, um desejo.

Every inch of my love…

Led Zeppelin é rock blueseira. E combina com horas de sexo intenso, selvagem mas demorado. O que? Selvagem e demorado, não combina? Você que pensa, e que pena que pensa assim.

De qualquer forma, na lista de rock n’ roll, sempre cabem oustras combinações e outros sabores (e velocidades e duração…)

A voz rouca e gemida de Plant em Rock n’ Roll,  é um espelho da minha voz, rouca, gemida, quase ganida. Cio.

Aretha, Nina, Ella…

Elza Soares. E Chico (nem eu consigo escapar de Chico… esse muso da alma Biscate…)

Façamos. Vamos amar…

Arrepiam-se os pelos da nuca. A boca fica seca. Pede por uma taça de vinho, um queixo áspero arranhando o pescoço. Uma mão dura apertando a cintura. A respiração ofegante, o pulsar do sangue concentrado em um único ponto. Parecendo que a voz dele e a dela se misturam e derretem cada nervo e cada músculo do corpo, tudo se concentrando em uma poça quente e ardente.


Uma festa lotada. Um funk batidão rolando. Um tesão irreprimível.

Quero te dar, quero te dar.

Rapidinho, em pé, ao som do batidão.

Vem cá, vem cá, vem cá.

Não precisa dizer mais nada.

Frejat e sua voz rouca, seu olhar de quem cheirou uma carreira de … gatinhos.

E as letras quentes e sugestivas.

Um carro. No escuro. Só a lua. Os vidros embaçando, as pernas batendo no painel.  E a voz do Frejat cantando: vê se ao menos me engole.

Mas é claro.

A verdade, no entanto, é que a melhor trilha sonora para esses vários momentos é aquela que o corpo faz.

Os gemidos, as palavras, os suspiros, os gritos, os urros (tem uns que gozam em silêncio, mas adoro quando urram de prazer).

O som da pele escorregando nos suores misturados.

A sucção de uma boca ávida.

O som da cama batendo na parede. O colchão rangendo, os lençóis caindo ao chão.

O escorregar dos corpos colados, mudando de posição, e o súbito estalar de um tapa, espalmado, espalhando arrepios pela coluna acima. E abaixo.

Qualquer que seja a trilha sonora escolhida, não podem faltar aquelas palavras quentes, picantes, obcenas.

Sim, eu quero, sim eu gosto. Não pára.

E o súbito silêncio, quebrado apenas pelo ruído do isqueiro, e da brasa do cigarro queimando, e o sorriso mudo que antecede o sono saciado.

Outros textos da série #Erotismo Em Nós:

Trinta Anos Quase, Renata Lins

Orgia com Brando e Schneider, Lis Lemos

O triângulo aponta o caminho, Niara de Oliveira

Erótico Pornográfico, Bete Davis

Águas Feminnias, Sílvia

Espera, Raquel

Inverno, Perséfone

Vazio

Gente, Biscate também fica cansada, sem ideia para post, Biscate também se pega quase na hora de colocar o post no ar e não tem ideia do que escrever! Hoje só penso em uma coisa, Foo Fighters!  E em uma música em especial, February Stars do cd The Colour and the Shape.

Cd The colour and the Shape do Foo Fighters

As pessoas acreditam que nós, artistas, somos criativos 24h por dia e 365 dias do ano, mas tem dias que acordo sem criatividade alguma! Tem dias que estou tão esgotada que nem preparar aula eu tenho pique/criatividade, imagine criar qualquer coisa? Hoje é um desses dias, em uma semana em que minha criatividade me abandonou por completo e, junto disso, veio uma bela crise alérgica. A minha sorte é que eu tenho trabalho acumulado pras aulas das minhas crianças. Confecção de flores para a Festa de Primavera.

Então, como aqui no Biscate não tem flores pra confeccionar, deixo vocês com a única forma de arte que tem me acompanhado nessa semana de crise alérgica e criativa. Bom fim de semana e bom início de primavera para tod@s! 😀

O Brega e as Biscas

Retomando o post da nossa queridíssima Suzana Dornelles e dando o ar da graça aqui no Biscate Social Clube novamente, coloco na pauta o #BregaNaTL, ops, agora #BregaBSC.

Agora, antes de continuar, para acompanhar a ferve da Música Brega, que tal uma bebidinha e um aperitivo?

Para beber eu recomendo a boa e velha pinga, que pode ser tomada purinha com limão ou misturada com um refrigerante de laranja. Não gosta de cachaça? Tudo bem. Abra uma cerveja ou um vinho. Mas nada de vinho importado, ok? Para a estética dessa conversa, vamos privilegiar os que têm nome de santo e os que custam menos de R$7,00.

Bebida providenciada? Ok. Agora vamos ao aperitivo, uma boa e velha sacanagem. Pode ser isso que você está pensando, mas deixa para depois da conversa. Corre ali pra geladeira e pega azeitonas, queijo prato cortado em cunhos, salsicha aferventada e cortada em cubinhos. Enfileira um cubinho de cada ingrediente em um palito de dente e pronto!

A bebida e a sacanagem tudo bem perto de você? Então vamos retomar: Pode ter gente que não concorde comigo, mas o gênero musical brega retrata muitas biscates. São mulheres ditas infiéis, da vida e sem coração pelos pobres homens de visão limitada. Entretanto, elas apenas internalizaram a tríade do ser biscate: fazer o que quer, onde quer e com quem quiser. Cedo ou tarde, essas mulheres descobriram esse potencial dentro de si. Vamos a alguns exemplos? Tome uma “lapadinha”, tire o gosto com uma sacanagem e aumente o som:

Para começar de uma forma mais leve, vamos falar de Ana.

Não. Não foi mentira e nem inveja de alguém que quisesse separar o casal. O seu amor, sendo redundante, é seu e ela ofereceu a quem ela quis. Nada dessa história de ser roubado. Digam o que quiser, mas Ana é uma biscate e tem as suas escolhas, como relatou Lis Lemos nesse post . Ela reconhece quando não dá certo, porque acima de tudo gosta de si. Brindemos à autonomia de Ana e ao azar de Renato e seus Blue Caps.

Pronto para penetrar nas camadas mais populares do brega? Tome mais uma e prossigamos…

Júlio Nascimento é definitivamente um homem limitado. Todo o repertório dele pode ser resumido assim: ele é um homem trabalhador, portanto o provedor e por isso tem que manter suas mulheres cativas ao ambiente doméstico, para lavar as cuecas sujas, cuidar dos filhos e tal. Só que elas, felizmente, se rebelaram. A mais famosa dessas mulheres é a Dalziza, tachada por ele de “sem coração”. Sinto informar ao Júlio, mas ela tem coração sim e muito grande. Tão grande que cabe uma, duas, três, várias bagagens e o que mais estiver à mão. Dalziza é nossa diva!

Como o Júlio não aprendeu com a Dalziza, tá na hora da prima dela ensinar. Casou-se com ela e manteve aquele mesmo padrão de vida homem-provedor-faço-o-que-quero, mulher-que-sustento-faz-o-que-eu-mandar. Consequência: a prima da Dalziza, mostrando que ser biscate é coisa de família, deu mais essa lição ao mancebo. É isso aí prima, “fazer sofrer” (adorei a expressão) assim todas quer.

É minha gente, os causos cantados no brega são reais. Acontece dia após dia. É a arte popular imitando e representando a vida. Concorda ou sem corda? rsrs. Aproveitem que estão aí no embalo dessas figuras e desfrutem dessas histórias, da melodia injustamente tachada de “mau gosto”, do sabor da bebida e do que a sacanagem te sugerir para esse dia. Despeço-me dessa seção do #BregaNoBSC ao som da Kátia e com a promessa de um dia retornar para falar das mulheres que cantam brega.

Tiago Costa é um cearense divertido, alto astral, parceiros de todas as lutas. Engenheiro de Pesca, de esquerda, trabalhou junto a organizações da sociedade civil e movimentos sociais, é ativista dos Direitos Humanos, ambientais e de pescadores/as e “quase” mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente pela UFC. Quer conhecê-lo melhor? Espia seu blog ou no seu tuíter @FTiagoCosta.

Biscateando na Música: Ana Cañas e a Performance

Por Danilo Marques*
com perfumaria e chamego da bisca Luciana Nepomuceno*

Uma mulher múltipla. Ela é quem diz. E quem diz assim, quase soletra biscate. A Ana, mas podia ser maria, joana, eu ou você. Leveza e versatilidade, suavidade e molecagem. Uma sucessão de elogios. À Ana.

Ana Cañas é das melhores vozes dessa nova geração de cantoras brasileiras – porque uma voz possui um corpo e este corpo transmite uma carga de vontades e desejos -e também porque toda voz é performática. A da Ana é. Ana era estudante de Artes Dramáticas na USP quando em um teste para o teatro se deparou com uma canção de Ella Fitzgerald. Ana se apaixonou por Ella e foi decidido ali que mudaria de papel, seria cantora. Ou seja, até os 22 anos, Ana não seguia nenhum dos caminhos comuns às grandes intérpretes, cantar sequer estava no seu horizonte. E ter a audácia de se reinventar é o primeiro aceno da biscatagi que vamos encontrando nela.

Mais que a coragem de tomar as rédeas e arriscar o sonho, na constelação de forças do timbre de sua voz Ana buscava experimentação um algo mais que não conseguia encontrar nas demais cantoras contemporâneas, um eu lírico livre para tocar o que bem entender, como escolher e encarnando forte uma interpretação particular e festiva – representando uma mulher como ela, como muitas (e daí mais uma tintinha de biscatagi, essa tal liberdade e a vocação festeira).

 música

A autenticidade de sua performance foi reconhecida por nomes como Chico Buarque, Caetano, Toquinho e Seu Jorge (não que uma biscate precise da aprovação externa/masculina, mas boa companhia é sempre bem vinda) desde o tempo em que ainda buscava espaço como no piano-bar Baretto. Seu mérito se acentua ao se saber que, por valorizar sua vontade e desejo, recusou-se inúmeras vezes a tocar por modismo ou a cair no estereótipo chavão mulher bonita que é muito trabalhado na música mundialmente. Ana tinha um foco e sabia bem o que queria. Sua voz de veludo, interpretação audaciosa e a opção por um andamento imprevisível e muito inovador foram criando o cenário para o seu reconhecimento. E pouca coisa é tão biscate quanto escolher ficar fora das convenções.

O que mais surpreende é o tempo curto que sua determinação construiu uma carreira, em menos de cinco anos se dedicando a sua arte e já tinha um cd gravado e assinatura com um selo forte do cenário da música. Ana tinha suas composições já prontas sem nem saber tocar um instrumento com uma atmosfera jazzística, sem fazer jazz. Pra que mais? Já tinha sua voz extravasando de sua garganta.

Seu primeiro álbum Amor e Caos foi muito bem recebido pela crítica. Autoral, audacioso e além do que se rotula habitualmente MPB, a cantora marca nas canções do álbum uma atmosfera jazzística, usando opções estéticas pouco usuais, misturando sons e influências, porém de fácil assimilação devido ao carisma de sua estética meio roqueira dentro de sua poderosa voz de contralto. Destaque pra três das faixas: Devolve, moço, que possui uma deliciosa cadência entre um piano jazz e uma batida bem marcada ao estilo triphop. Super mulher com uma batida de triângulo seduzindo para um ritmo bem nordestino e uma letra super biscate, como o título sugere. Mandinga Não é uma das marcas dos caminhos inusitados, com temáticas divertidas e belíssimas vocais.

Seu segundo álbum veio coroar o trabalho e a força desta mulher que escolheu seu destino. Nunca deixando de lado sua curiosidade com literatura, poesia, teatro e pesquisando ainda mais sobre sonoridades a cantora consegue emplacar hits a parcerias importantes para sua carreira, como a canção Esconderijo, que alcançou estrondoso sucesso nas rádios. Com uma vibração entre o pop e algumas levadas próximas do reggae, encontrando-se ainda mais na performance. Mais surpreende é como amadurece nessa fórmula sem perder sua identidade. Convite para brindarmos com Gira.

Deixa eu cravar as minhas unhas em você
Deixa eu beber, deixa eu olhar
Pra tudo que você não gosta em você
Pra tudo que a gente não vê

Porque eu quero sair dessa casa
Porque eu quero bater as asas
E quero ficar mais solta
E quero ficar mais louca

Às vezes fico cansada
Às vezes fico animada
Às vezes quero você comigo
Às vezes quero o impossível

Cabeça gira, gira, gira, gira, gira…

Curiosa, aberta, imprevisível, fora do padrão e atraente, eis uma descrição bem biscate da cantora que vem fazendo diferença e criando seu espaço na Música Brasileira. Com estilo.

* Danilo Marques é músico, humanista e, de vez em quando, professor. Diz ele mesmo que é um diletante despretensioso, ensimesmado e errante. Dizemos nós que é moço sensível, inteligente e talentoso. Vice-campeão do #BonitoesdaTL, versão 2011. Fez do seu inferno particular um blog: Inferno de Dante e, de vez em quando, aparece no twitter: @dandi_.

*Luciana Nepomuceno é fã e amiga.

Como Ser Uma Biscate – Piaf

Por Liliane Gusmão*

Nascida em 1915 e morta aos 47 anos em 1963. Ela cantou o amor, ficou conhecida primeiro como pardalzinho “Môme Piaf”. Ela amou e muito. Seus romances foram a inspiração para sua música, o amor foi a força da sua arte.

É adorada até hoje na França e no mundo inteiro. Edith Piaf a biscate que primeiro me inspirou. Encontrei-a na minha adolescência, nos vinis da coleção do meu pai e passei muitas tardes embalada na melodia da sua voz. Naquela época não entedia o que ela dizia mas sua música me encantava assim mesmo. Me interessei em aprender francês pela primeira vez por causa dela, para entendê-la.

Com o tempo a minha admiração só cresceu pela força e coragem dessa biscate. L’hymne à l’amour, Padam Padam, Milord, La vie en Rose, Non Je ne regrette rien entre tantas embalaram os dias de melancolia da minha adolescência.

Esses dias escutei a música de Michel Emer: “A quoi ça Sert l’amour” que ela cantou em dueto com seu último marido Theo Sarapo. Essa música me inspirou a escrever esse texto.

Na música ela explica para que serve o amor. Edith era uma mulher livre, que viveu com intensidade todos os seus amores. Só quem amou como Edith, sem travas ou convenções e sem arrependimentos. Só quem, como ela, se entregou livremente, sem amarras e intensamente, pode explicar para que serve o amor. Ela diz na música: o amor serve para amar, depois de passar o amor nos deixa na boca o gosto de mel dos dias que passamos amando. É isso que alimenta nosso coração enquanto outro amor não vem.

O que pode ser mais biscate que amar assim sem freios, sem normas e expectativas. Amar pelo amor, pelo gosto de amar, viver para amar e se fazer amar. Entregar-se generosamente sem esperar nada em troca, sem requerer contratos e compensações. Há que se ter muita coragem, para nos entregar nos braços dos amores e gozar de todos os seus desejos.

A coragem de ser do amor sem se importar em conquistas eternas, casamentos ou convenções sociais. A coragem de sofrer o que for preciso e depois de ter tido a chance de amar, se refazer e não perder a próxima chance de ser e fazer feliz. Seguir em frente, seguir vivendo e amando, sem amarguras, sem arrependimentos, sem medo, sem reservas.

A coragem de se entregar ao amor não pelo medo da solidão ou qualquer outro motivo, e sim pelo prazer do encontro. A coragem de fazê-lo quantas vezes forem necessárias até que encontremos o amor que ficará conosco até o dia de nossa morte.

Amar em todas as oportunidades deixar-se encher de lembranças boas e doces com as pessoas que o amor nos entrega. Levantar-se após as quedas disposta ainda a continuar amando sempre e ser para sempre amada por tantos, por todos. Assim foi Edith.

.

* Liliane Gusmão é brasileira residente no exterior. É feminista, arquiteta, estudante, imigrante, mãe, filha, irmã e mulher. Tem 38 anos, mas, confessa, às vezes parece ter 13 ou 130. Exagerada, rebelde, cansada, impaciente, indecisa. E, acrescentamos, inteligente e terna. É autora do Ponto de Fuga.

Ressignificar a buceta

Segundo o Dicionário Aurélio,

Significado de Boceta

s.f. Pequena caixa redonda ou oval. / Caixa de rapé. / Casta de tangerina. / Variedade de manga. / Bras. Determinado aparelho de pesca. / Pop. Vulva. // Boceta de Pandora, origem de todos os males.

Esse finalzinho aí foi bem assustador, mas condiz com o que muitas religiões pensam das mulheres, do sexo, e, obviamente, do genital feminino.

Outro dia, estávamos conversando, várias biscates, oficiais ou não, sobre o uso das palavras. Caralho! Tivemos a óbvia e etílica descoberta de que a palavra usada para designar o membro viril é muitas vezes usada num contexto não pejorativo ou obsceno, como “Bom pra caralho (ou pra cacete)”, enquanto não conseguimos encontrar um uso coloquial que fosse, no sentido positivo, para a pobre – palavra – boceta – ou buceta?

De acordo com a Wikipédia, bOceta é a tal caixinha, para guardar rapé, ou também, a palavra vulgar usada para designar a vulva, enquanto bUceta é a palavra usada, no português brasileiro popular e chulo, para designar a vagina ou a vulva. Também coloca alguns sinônimos regionais interessantes: bacurinha, buça, buçanha, capô-de-fusca, mijona (oi?) xereca, pastel (de novo: oi?) carne mijada (sério??) perereca, periquita, rachada (que original!), tabaco, tchura, tubia, xana, xavasca, xexeca, xibiu (oi Jorge Amado! Oi Gal! Oi Dorival! Oi Gabriela! ) xota e xoxota. Ufa.

São citados ainda, como “familiar”: bimbinha, griguilha, pipi, xibica, nhonhoca.

E como “popular”: passarinha, perseguida, racha ou rata.

Em Portugal, ora, pois, o nome da buceta seria cona, pachacha ou patareca (caso esteja por terras lusitanas, pesquise ai em que contexto, fora do sexual, elas são usadas, sim – as palavras, não as bucetas, por favor sim).

E tem também um termo que a Wikipédia colocou, que eu juro que não entendi. Sob o título de “social”, colocaram como sinônimo de BUCETA, perseguida.

Perseguida… lembrei do mito da vagina dentada.

E tem gente que tem medo mesmo. Medo da buceta perseguidora. Da buceta que faz o homem chorar, que faz o homem matar… Enlouquecer.

E enquanto PORRA e CARALHO e CACETE são vulgares, mas são populares (em certas regiões, o povo não tira da boca – ops!) e usadas para reforçar o quanto algo é bom ou serve como superlativo, acho que BUCETA só uso (como expressão) quando dou uma topada com o dedo mindinho do pé no pé da cama.

E aí é como xingamento, mesmo, né…

E enquanto um “puta que pariu, caralho, que porra é essa! É do caralho!” tem efeito elogioso, quando eu ouço um “puta que pariu, caralho, que buceta é essa!?!” boa coisa não se deve esperar.

Que medo é esse da buceta? Que medo é esse de falar, conhecer, tocar, deixar ter o cheiro ou os pelos que ela tem?

Não, não podemos. Tem que depilar tudo, usar desodorante “íntimo” para disfarçar o cheiro… da buceta (calma lá, ninguém tá falando da vibe Napoleão e Josefina, certo? Eu, ao menos, curto a coisa limpinha, né, mas sem neuras!), usar “protetores de calcinha”, sério, gente, a calcinha não pode ter contato com a nojeira da buceta, é isso?

Buceta não é coisa de mulher pra casar? Ah, então tá.

Buceta não é coisa de “mãe de família”? Ok.

E pra finalizar, deixo do desafio: vamos ressignificar a buceta!

Não precisamos ter vergonha das nossas “partes”, das nossas pobres “perseguidas”.

A buceta é nossa, cada uma tem a sua, com seu cheiro, sua cor, seu hair style.

Eu adorei essa montagem, as imagens usadas, de cantoras estrangeiras badaladas, ainda, fazem pensar no quanto de preconceito de classe existe contra o funk, quanto às mulheres do funk e contra mulheres falando de sexo em geral…

Eu dou pra quem quiser que porra da buceta é minha!! é apenas uma outra forma de dizer:

Não dá pra mudar o significado das palavras assim, de um dia para o outro, mas dá prá começar a pensar, né?

Então, vamos parar de ter vergonha até de falar?

Repete comigo: BU-CE-TA!

Venha cá e perca-se por aí comigo

Uma tarde de domingo. Ela e ele se olham abraçados. Até que, certa hora, ele mostra um vídeo dele tocando uma música no violão…

– Essa música me lembra você.
– Sério?!
– Uhum. (sorriso)
– Por que você não canta qualquer dia para mim?
– Tenho vergonha. E além disso, sou desafinado.
– Como pode dizer isso? ( Disse ela com indignação após ter visto o vídeo com aquela música linda.)
– E você, por que não canta para mim?
– O que você quer ouvir?
– O que quiser cantar…

Ela escolhe aleatoriamente algo para cantar para ele. Ela mal inicia  o primeiro trecho da canção quando esta começa a tocar no rádio.

Coincidência oportuna número 1…

Daí que quando se conheceram, dançaram embalados por um som alegre e divertido. Pouco mais de um mês se passa e, numa festa de facul – onde ambos estavam muito mais para curtir a companhia dos amigos do que para ouvir aquilo que gostavam de fato – já na pista de dança, ela diz:

– Só falta tocar aquela banda lá.

Batata! Tocou. E lá estavam os dois, dançando e aproveitando a festa do jeito deles.

Coincidência oportuna número 2…

Música. Essa danada que norteia cada momento da vida da gente. Arrisco dizer que é impossível que haja alguém que não tenha uma trilha sonora para a própria existência. Ou que não se lembre daquele som que marcou um momento especial e inesquecível.

Como não amá-la? Pois a música é uma biscate e tanto. Livre, bela e rica em sua própria variedade de estilos e de rítmos. Tem o poder até de auxiliar a cura de doenças. Desperta os sentidos e abre o coração e a mente.

E é nela que vou me “perder” hoje. E sempre.

“Olá, eu tenho esperado você por aqui/ Uma eternidade/ Esta noite, eu me joguei de cabeça /E de repente, do nada, ela cantou/Venha cá e perca-se por aí comigo (…)”

Mão na Massa, Biscate!

Eu sempre digo (e repito): Biscatagi é cultura. Senão, como eu estaria aqui falando desse projeto absolutamente cativante? Claro, se você acha que transgressão é persona non grata ou que homem não sabe nada de mulher e mulher não gosta de sexo…baby, não leia, não veja, não ouça 3namassa.

Estava eu, por aí, com alguém por dentro (parafraseando a canção) quando foi aquele safanão na alma. O animal que ronda rugiu no ventre. Cada canção me soube, tanto quanto eu a ela. Letra a letra, cada arranjo, cada narrativa. Desejo. Necessidade. Vontade. Beleza. Certeza. Deleite. Surpresa. O que quer uma mulher? 3namassa não responde, mas faz canção.

3namassa é pra se ouvir com o quadril. E deixar o suor escorrer, saliente, da nuca, enquanto se bamboleia o corpo, de olhos bem fechados. A idéia é simples (e bacana): mulheres falando de suas experiências amorosas, seduzindo, ou sendo seduzidas, pervertendo ou sendo pervertidas.

Nisso, pouca novidade, Gainsbourg colocou Jane Birkin pra gemer e sugerir fantasias no clássico francês que incendeia gente de todas as nacionalidades. Em Two Virgin tem um momento que é, estritamente falando John e Yoko dizendo os respectivos nomes e respirando ofegantemente. Além disso o que não falta são boas produções masculinas em sexys vocalizações femininas.

Qual a diferença, então? O que me agradou realmente foi que o lugar de musa não foi esvaziado, mas qualificado. As mulheres, no projeto 3namassa, inspiram e são ditas, mas também dizem e se inspiram. Foge-se da dicotomia sujeito/objeto e reconhece-se que a sensualidade é para além de esquemas, é um dizer-se o vivido. Há, no som do 3namassa um desnudar-se, um convidar, um saborear que transborda de cada letra, de cada arranjo, caracterizando-se conforme a demanda de quem escuta: picante, às vezes divertida, nostálgica, provocante, erótica, mas sempre autônoma e com um molejo, um balacobaco, um ziriguidum de desejar saliências…

O projeto é lúdico, sofisticado e bem acabado. Unem-se letra/música/vídeo. Os três elementos se autodeterminam, se referenciam e se qualificam. Ouvir sem ver é bom. Ver sem ouvir também dá. Mas 3namassa é melhor quando deixamos todos os sentidos livres. Quando vi essa canção com a Leandra Leal (ouiés, é ela!) logo pensei no sussurrar de Serge Gaisnbourg, fui pesquisar e – na mosca! – é a inspiração. O que mais gosto é o jogo com as usuais referências fetichistas e o deslocamento de sujeito: quem é olhado (a mulher), é também quem é autora do desejo (Eu sei que vai ser muito bom, pois eu tenho uma imaginação fértil…a única forma de sermos felizes é sermos livres).

Outro momento que mexe com minha imaginação e libido é Thalma de Freitas em Enladeirada. Uma voz profunda, imagens mornas, um conjunto que aquece e dá vontade de soltar o corpo no ritmo. De novo há a tensão e síntese entre ser desejada e desejar, entre ser percorrida e ir em direção ao que se quer. É um prazer ouvi-la dizer: você não vai se perder, eu vou lhe achar.

O Projeto 3namassa resultou em um disco chamado A Confraria das Sedutoras (quem quiser baixar, acha aqui):

  1. “Certeza” – 1:23 (com Leandra Leal)
  2. “Enladeirada (O Seu Lugar)” – 3:44 (com Thalma de Freitas)
  3. “Doce Guia” – 3:42 (com CéU)
  4. “Tatuí” – 3:35 (com Karine Carvalho)
  5. “Estrondo” – 3:28 (com Geanine)
  6. Lágrimas Pretas” – 4:00 (com Pitty)
  7. “Pecadora” – 1:16 (com Simone Spoladore)
  8. “O Objeto” – 3:47 (com Nina Becker)
  9. “Quente Como Asfalto” – 3:32 (com Cyz)
  10. “Morada Boa” – 3:46 (com Nina Miranda)
  11. “Certa Noite” – 3:57 (com Karina Falcão)
  12. “Sem Fôlego” – 4:03 (com Lurdes da Luz)
  13. “Tarde Demais” – 1:12 (com Alice Braga)

Ouça, dance, sinta, permita-se. Mão na massa, biscate!

Esses homens maravilhosos e seus instrumentos fabulosos!

Penny Lane.

Penny e Russel, Penny e William…

“They don’t even know what it is to be a fan. Y’know? To truly love some silly little piece of music, or some band, so much that it hurts.” Sapphire, personagem de Fairuza Balk, em Quase Famosos.

Minha primeira memória de um homem com uma guitarra?

Paulo Ricardo, 1985. Eu tinha 9 anos, mas tinha também uma prima adolescente, que morava com a gente, e gostava de rock, de Led e Pink Floyd. E de RPM, que foi o auê da abertura. Até hoje tenho o LP.

O rival do Paulo Ricardo no meu amor pré-adolescente era o Roger, do Ultraje. Ou você gostava de RPM ou de Ultraje. Mais ou menos com percebo o lance hoje com Restart e Luan Santana (não me apedrejem, pls, mas olhemos as roupitchas de RPM e Ultraje a Rigor, na década de 80, e as roupas de Restart… só muda a época, amores).

Digo  apenas que 15 anos depois, eu beijei o Roger, vocalista do Ultraje! (foi antes do Twitter, e de descobrir que ele é meio de direita, né… forgive me), e mais ou menos na mesma época, tardia, descobri o submundo das bandas cover e de garagem.

Sei que esses homens maravilhosos e seus instrumentos fabulosos povoam a imaginação e o tesão de milhões de biscates por aí.

E nesse filme, fantástico, do Cameron Crowe, ele retrata não só o amor, a amizade, a família, como esse lance fantástico que é a paixão (e o tesão) pelo rock.

A alma do guri (William Miller) e da guria (Penny Lanne) é dissecada.

Uma guitarra. Uma canção boba.

Um desejo irrefreável.

Não sei se é pensar naquela voz no seu ouvido, não sei se são aquelas mãos habilidosas que mandam fagulhas e acendem uma fogueira.

Sei que Frejat cantando “Por que que a gente é assim” e se esfregando na guitarra me derrete.

“Mais uma dose. É claro que eu to a fim.

A noite nunca tem fim. Porque que a gente é assim.

Agora fica comigo, mas não, não desgruda de mim. Vê se ao menos me engole, não me mastigue assim…

Sem gramas, sem dramas… por que que a gente é assim?

Você tem exatamente dez mil horas pra parar de me beijar. Você tem a vida inteira pra me devorar. “

Sei que por amor ao rock n’roll eu treparia com a tia velha do punk, Joey Ramone, e olhem, não sou necrófila.

Sei que um sujeito qualquer, em um palco minúsculo, com uma guitarra e um amplificador (pode ser também a bateria, claro, ou o subestimado baixo, ah, os baixistas e seu charme discreto – ou nem tanto) elevam minha libido nas alturas. A minha e a de muitas outras.

Mas esses homens, tatuados, despenteados, suados, com suas guitarras distorcidas e harpas envenenadas… (Zeca Baleiro, seu lindjo…te pego demais) me enlevam, me encantam, me excitam.

Groupie, é o nome que dão. Em um tom depreciativo, sempre, claro. Afinal, uma mulher que admite que gosta de sexo, que sente tesão, que fala sobre isso, que se joga, o que se poderia esperar que dissessem?

E aí, eu respondo com uma canção de uma das maiores guitarristas do rock (sim, MULHER, guitarrista!), Joan Jett:

 “I don’t give a damn about my reputation…”

(Joan, sua linda, até a Bella do Crepúsculo ganhou tempero quando te interpretou, delícia!)

Eu gosto de rock. E gosto de meninos que tocam em bandas de rock.

“Nice guys don’t play rock n’ roll…”

E meninas boazinhas não gostam de caras malvados.

Azar o seu, eu não sou uma boa menina.

Boas meninas vão para o céu.

Biscates, vão para onde quiserem, para qualquer lugar que desejamos!

M.I.A e o dedo do meio guerrilheiro

Por Fabiana Nascimento*, nossa Biscate Convidada

Live fast, die Young/ 
Bad girls do it well
(Viva rapidamente, morra jovem
/As garotas más fazem direito)

Olá, Status Quo, aqui pra você!

No dia 05 de fevereiro de 2012, no intervalo do evento esportivo mais assistido dos Estados Unidos, o Superbowl (ironicamente chamado de campeonato mundial de futebol, o americano, um esporte idolatrado em massa apenas por uma nação do mundo) no show da Madonna, um ícone da música pop estadunidense, da liberdade e da biscatinagem feminina,  M.I.A (lê-se eme ai ei) rouba a cena apontando o dedo do meio para a câmera e falando um palavrão “I don´t give a shit”, algo como, eu não ligo a mínima, com o palavrão shit, merda soa ofensivo para os padrões da TV aberta americana. A mensagem foi clara: toda essa parafernália, toda essa infra estrutura estrambótica não valem mais nada. O mundo se sentiu representado por ela, porque uma grande parcela do planeta está andando e cagando pro que pensam ou fazem os estadounidenses.

Não se trata aqui de antiamericanismo besta, infantil, de ser contra por birra – afinal M.I.A aceitou o convite de ser cheerleader da Madonna – e qual biscate do mundo não aceitaria? Não é um desprezo à cultura que nos deu o pop e outras manifestações que fornecem meios e armas de expressão artística para os jovens, não tem como negar que hoje o hip-hop é uma arma política de ação efetiva, assim como foi, e ainda é, o punk. Ambas criações anglo-saxãs que se tornaram expressões mundiais.

Estamos falando de um ato de guerrilha, pontual, de se infiltrar no território e agir de forma a implodir com os pilares do conformismo. Duvida que o dedo do meio tenha provocado um falatório, ao menos no mundo restrito da internet? É só dar uma volta pelos comentários dos vídeos da M.I.A no youtube e ler o tamanho da indignação dos americanos com tal gesto e quanto os comentaristas do resto do mundo falam que ela foi certeira. Um artigo do Guardian, fala mais ou menos o que penso, os fãs dela não se espantaram com o gesto, mas com o fato de ela estar nessa apresentação (clique aqui e leia mais).

M.I.A caminha pra ser um ícone da música pop, por usar a sua música como manifestação política de denúncia, por trazer visibilidade para as populações esquecidas do mundo, refugiados, guerrilheiros.  Você que leu até aqui deve estar se perguntando: o que isso tem a ver com biscatagem? Tudo, quem disse que biscatear não é um ato político? M.I.A leva isso as últimas consequências, botando todo mundo pra rebolar. Porque a revolução virá, também, do rebolado.

Essas idéias combativas surgiram de uma história de vida digna de um roteiro de um filme de Hollywood, cheio de reviravoltas e superação. Nascida na Inglaterra, Mathangi Arulpragasam, chamada de “Maya” em 1975, filha de um engenheiro ativista cingalês da etnia tâmil, que brigava pela independência no Sirilanka e de uma costureira.  Quando Maya tinha 6 meses,  sua família voltou para o Siri Lanka, e seu pai tornou-se um guerrilheiro, eles se tornaram refugiados. E, de acampamento em acampamento, a mãe de Maya conseguiu levar a família novamente para Londres. Crescendo assim em meio a uma guerra civil, sob os escombros das injustiças, criança no meio de bombas, desenvolveu uma sensibilidade artística que capta sempre a visão do oprimido em seus trabalhos.

Entrou na escola de  Cinema do famoso Central Saint Martins College of Art and Design, em Londres, transformou-se numa conceituada artista plástica tendo por companheira Justine Fishman  (ícone feminino Brith Pop, isso é tema para um outro texto), que incentivou Maya a entrar no mundo da música.

capa do single The Bitch Dont Work, concebido por M.I.A

Adotou o codinome artístico de M.I.A, uma sigla que significa  Missing in Action, desaparecida em combate, acentuando as características combativas de sua obra. Seu primeiro trabalho buscou na cultura de rua dos imigrantes de Londres inspiração para fazer uma música dançante e de conteúdo social para o mundo contemporâneo. Antes mesmo do lançamento do primeiro álbum trouxe novas perspectivas para a dance music londrina. Seu primeiro álbum, Arular (nomeado em homenagem ao pai guerrilheiro) de 2004, traz referência às batidas do funk carioca.

(Bucky Done Gun, M.I.A descendo até o chão na batida do funk carioca)

No álbum posterior, Kala (o nome de sua mãe), M.I.A recolheu histórias de conflitos ao redor do mundo e falou de maneira crua do terrorismo, por isso o álbum foi censurado nos EUA. E como o álbum anterior, foi mundialmente reconhecido pelo público e pela crítica especializada.  Ganhando indicações para o Grammy com a música Paper Planes, um libelo de denúncia ao tratamento dado aos imigrantes ilegais. E para o Oscar com “O. .. Saya” uma canção composta para o filme Quem quer ser um milhonário?

(Na música Boyz de 2007 M.I.A requebra com a dança do kuduro de Angola)

No álbum ///Y/  de 2009, continuou combativa falando de sexo, e bombas, Lovealot. No entanto foi criticada por banalizar a violência e o terrorismo e por supostamente ser ingênua e politicamente vazia. Comprou briga com uma jornalista do NY Times, que em um perfil retratou a cantora como uma rica fútil, que só fala de política para aparecer nos meios de comunicação. Nessa briga M.I.A conseguiu que o jornal publicasse uma retratação, pois o texto da entrevista descontextualizava suas declarações, invertendo a ordem de suas falas, construindo uma imagem imprecisa da cantora.

Desse álbum M.I.A lançou um dos mais impressionantes videoclipes de todos os tempos – isso não é apenas opinião de uma fã, heim. O vídeo para o single Born Free traz uma mensagem simples; o fascismo ainda existe, a repressão a grupos dissidentes, de qualquer parte do mundo, é violenta e sangrenta.

(Born Free, nascer livre, uma verdade esquecida no mundo contemporâneo.)

Esperamos mais ataques à caretice do mundo, que os combates dessa biscate ganhem cada vez mais as mentes das multidões de conformados. Porque, como ela diz no último lançamento, mais uma vez com um vídeo de perder o fôlego, filmado nas areias do Marrocos: Live fast, die Young/  Bad girls do it well (Viva rapidamente, morra jovem /As garotas más fazem direito).

Bad Girl das causas certas.

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* Fabiana Nascimento é nossa convidada que confirma a diversidade: biscate-tímida. Historiadora, feminista, indignada e preocupada com o mundo, ativa militante virtual. Inteligente e articulada, vai com a gente, sambando na cara da sociedade que anseia pela padronização.

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