Sobre amizades, biscates e verdades absolutas

São Paulo, horário de pico, metrô lotado. Eu, que nunca perco a mania de prestar um pouco mais de atenção em conversas mais exaltadas, não fiz nada de diferente desta vez. Antes tivesse feito. Porque assim, pouparia meus ouvidos de mais um suntuoso clichê proferido como verdade absoluta e inquestionável.

Duas mulheres conversavam em alto e bom som. Uma delas, especialmente, dizia com veemência que depois que passou a “selecionar melhor” (!!!!!) suas amigas,  deixou de ser traída pelo marido. Aquela velha história, sacam? “Ah, mas ele é homem e a carne é fraca. E esse bando de biscate não perdoa e dá em cima mesmo.” Coitadinho… O pobre marido dela é bem santo, só que ao contrário.

A outra moça concordou com tudo e reforçou: “ah, por isso que eu nunca deixo o meu homem (!) sair sozinho com amigos quando sei que terá outras mulheres por perto. Também começei a tomar cuidado com umas “amigas” da onça das quais sempre desconfiei. São bonitas, mas estão sem ninguém e morrem de inveja da minha felicidade”. Então tá, né? Que conceito mais escabroso de felicidade…

Vamos lá. Analisem comigo quantas ideias clichezentas  estão presentes em tão poucas palavras:

1- a ideia de que toda mulher é falsa e invejosa;
2- toda mulher só pode ser feliz se estiver se relacionando com alguém. Ou que o fato de ela não ter um compromisso amoroso é o suficiente para ela querer prejudicar quem tenha;
3- mulheres bonitas (leia-se dentro dos padrões vigentes) são “perigosas”;
4- caso ocorra uma traição dentro de um relacionamento (heteronormativo), a culpa será sempre da mulher. Ela, geralmente, é uma biscate que não poupou esforços para seduzir o homem que estava quietinho no canto dele;
5- a ideia de que amizade entre homem e mulher na verdade não existe e que sempre haverá outros interesses, pelo menos de uma das partes;

Perceberam ou estou exagerando?

Passado o meu desânimo e controlada a minha vontade de manifestar qualquer opinião, fiquei pensando um tempo a respeito do que presenciei. Ou de onde vinham tantas idéias odiosas direcionadas para outras mulheres. Todo mundo sabe que a nossa sociedade, ainda muito machista,  é uma das principais propagadoras de tais pensamentos. Só que, ainda que eu perceba como funcionam estes mecanismos bastante opressivos, fico particularmente triste quando vejo que muitas mulheres ainda os perpetuam. Muitas vezes, de forma bem cruel.

Não as culpo. Só que mesmo sabendo que eu não consigo sozinha consertar o mundo, gostaria de fazer aqui um convite à reflexão. Enxergar mulheres – e pessoas em geral – através de estereótipos (bem ultrapassados, por sinal) é bem limitador, não acham? Penso eu que já passou da hora da gente parar de naturalizar fatos e comportamentos que dependem do caráter de cada um, e não do gênero.  E seria bem legal se algumas pessoas parassem de culpar os outros – biscates ou não –  por suas inseguranças.

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