Sempre ao Domingos

Ele surgiu nas nossas vidas antes, lá em Mothern e Força Tarefa, eu tava distraída e não reparei muito, mas foi impossível não ficar hipnotizada por ele em Cordel Encantado e assim, pra todo sempre pra gente, um grupo de amigas e amigos noveleiros ele ficou sendo Capitão Herculano ou, simplesmente, Capitão.

Nós somos (sim, não deixaremos de ser) as cangaceiras de seu bando, fãs da sua beleza e da sua interpretação. Porque mais que lindo, era o olhar sincero, doce, forte que encantava. Ele estava inteiro nos seus personagens.

E em poucos papéis: o Capitão,  Paulo Ventura, Zyah, Mundo, Miguel e Santo ele interpretou brilhantemente homens que tinham um pouco dele: idealismo, ética, amor, sinceridade, dúvidas, alegria. Um homem comum e simples e nos encantou pra sempre.

A vida quase nunca é como queremos e o levou muito mais cedo do que seria desejável, a gente vai sentir saudades pra sempre, mas nada que se compare a dor que os seus sentirão. Um pequeno consolo, talvez, é realmente pensar que virou protetor do rio. Outro: lembrar que o ator nunca morre, pois sua obra se eterniza nas imagens que deixa e ele deixou um legado até breve na tv, embora inesquecível, e um grande legado no teatro e arte de ser palhaço.

E esse texto é só pra dizer obrigado por tudo,  obrigado principalmente pelo Capitão, pelo Mundo e pelo Miguel, que amei tanto e você fez tão lindamente. Domingos Montagner, sua estrela vai brilhar pra sempre, um beijo das cangaceiras e das noveleiras e noveleiros.

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Verdades Secretas e o papel da mulher na moderna novela brasileira

Faz tempo que a Globo não via um sucesso tão retumbante como Verdades Secretas, mesmo passando na faixa das 23 horas e afrontando todos os valores da moral e dos bons costumes, muito mais que Babilônia. Revela assim a dupla moral que o brasileiro sempre teve. Aquele retrato da família perfeita que por trás tem outra família ou amantes várias e tudo aceito de bom grado, desde que devidamente discreto.

A novela é bem produzida, bem dirigida, fotografia de comercial, de cinema, linda ( me lembrou muito Adryan Line), trilha sonora excelente. Ótima direção de atores. Tudo muito moderno. Tudo de excelente qualidade como raramente se vê.

Verdades Secretas teve de tudo: prostituição, drogas, menores abusados com professores e matando aula, pais sem saber o que fazer com os filhos, mulher mais velha com michê que a engana e nada, nada disso abalou a família brasileira. Ao contrário. Foi um sucesso. Mas vamos ver o que isso revela.

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As drogas. Grazi Massafera foi por unanimidade o grande destaque da novela, brilhou no papel da modelo viciada em crack que vai parar nas ruas. Não foi só a ajuda da boa maquiagem, mas cresceu como atriz e interpretou todas as dores de estar desiludida, se drogar e ser estuprada. Mas é aí que a coisa pega. Walcyr Carrasco parece ter com suas personagens femininas que saem do estereótipo de mãe dedicada e batalhadora uma vibe sempre corretiva. Em algum momento da história elas são corrigidas pelo “destino” sem dó nem piedade e finalmente se redimem. É o arquétipo da Maria Madelena, do pecado cristão, da surra corretiva (aqui me parece do estupro corretivo) seguido finalmente pela redenção. Fica muito claro isso após uma moça ser estuprada por vários homens e não ser levada a um hospital, tomar um banho que fosse. Vai direto pro culto.

Já para o filho do empresário rico, que usa droga de rico, cocaína, o ambiente da overdose é quase asséptico de tão limpo. O rapaz vai pra uma clínica e toma um banho. Ele não se envolve com a sujeira das ruas. Vai ver por isso o Ministro Barroso sugeriu descriminalizar só o uso da maconha, né? Crack é coisa de gente suja, pobre e quase sempre preta (como mostravam as cenas da novela, exceto pelo belo casal branco) e envolvida com o crime.

A culpabilização do desejo e do sexo. Em nenhum momento na trama foi mostrada alguma relação sexual ou amorosa saudável. Sexo era sempre moeda de troca de algo. Jamais de desejo por si só. Sempre uma forma de ganhar dinheiro e poder. Angel e Gui vivem num vai e vem e ela não parece mesmo gostar dele, parece fuga. Mesmo Giovanna e Antony, que parecem ter um sentimento genuíno um pelo outro, estão mais preocupados com dinheiro e fama do que com o que sentem um pelo outro. Fanny é culpada por desejar um homem mais novo a qualquer custo e assim perde sua noite de glória, mas acha um novo rapaz jovem. Lyris é assassinada pelo namorado, a quem se referem como: “perdeu a cabeça”, vejam bem. Perdeu a cabeça por ciúmes, amor. A culpa é dela, portanto. O de sempre. Pia, como resultado de sua relação com um cara mais jovem, engravida, faz um aborto e é por este condenada, sendo que ele a engravidou só pra casar com uma mulher rica: só que na cena ele sai todo dono da razão. Mas finalmente reata o namoro e se redime.

E nada para mim foi mais emblemático, justo na quinta feira em que o Congresso aprovou o horrendo Estatuto da Família, do que a cena em que a família formada por Alex, Carolina e Angel (homem, mulher e filha) está sentada à mesa, como boa família, mas mal se falam. Destroçada que é. Problemática e falsa que é a família rica e feliz.

Por último, Angel fica na última cena do casamento me parecendo demonizada quando na verdade, para mim, finalmente cresce, rompe o ciclo de abuso e entende o quanto era manipulada por Alex, se vinga e toma as rédeas de sua vida nas suas próprias mãos, o que fica muito claro no olhar de desprezo que dá para Fanny. Mas nas redes sociais era chamada de prostituta e capeta pra baixo ( e aqui nesse blog prostituta não é xingamento; pensando bem, nem capeta) quando o maior vilão da novela, Alex, mal era citado.

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E é essa a novela que afinal temos: moderna, ágil, fotograficamente bela por fora, mas que por dentro reforça uma moral dos anos 50, em que mulheres são forçadas a se prostituírem, tem culpa e morrem para se redimir ou são salvas pela religião ou pelo casamento: ninguém vai ser feliz sendo independente. Onde a escolha pelo aborto é reforçada como culpa, onde a relação abusiva de um homem com uma jovem é romanceada e ganha até torcida. Onde qualquer mulher que saia do estereótipo da Virgem Maria, a mãe devotada do lar (Carolina não era porque não foi vigilante com a filha) será punida ou vista como uma mulher pérfida e fria (olhar de Angel, no final). Nada de novo sob o sol da teledramaturgia. É só mais um Direito de Nascer com nova roupagem. Prendeu a atenção brilhantemente, mas não muda em nada o papel imaginário da mulher na teledramaturgia brasileira.

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Por último, como noveleira que sou, quero deixar meus parabéns , além de pra Grazi que esteve fantástica, pro Mauro Mendonça Filho pela direção,  pra Marieta Severo e Eva Wilma que estiveram maravilhosas e m especial para Drica Moares que merecia um caminhão de Oscar, Emmy, Kikito, APCA, etc etc: foi foda, mulher.

Alex, Angel e Complexo de Cinderela

Verdades Secretas tem feito muito sucesso desde a estreia e vem mantendo bons índices de audiência. A novela é bem produzida, a edição e a cenografia são de primeira. As cenas de nudez e sexo em vários momentos me remeteram aos filmes-clipes de Adrian Lyne nos anos 80/90 , como “9 e ½ semanas de amor” (saudades de Mickey Rourke gato). Mas novela é folhetim, é romance e daí que Angel é a nova Cinderela.

A nossa heroína, como toda boa heroína de novela, é linda, jovem, boa alma, bondosa (talvez daí o nome virtuoso Angel), carinhosa, estudiosa etcetera e tal, porém pobre e qual seu grande sonho (dela e de 99% das garotas da idade dela)? Isso mesmo, ser modelo. E aí, ao invés de ir limpar a casa e se recolher ao borralho, o que ela faz para salvar a família? “Book rosa”, e se prostitui por meio da agência de modelos (vamos frisar de novo que eu nada tenho contra prostituição, inclusive apoio a regulamentação da profissão e a mobilização da categoria, mas isso é assunto pra outro post).

E aí chega o príncipe que irá salvar a princesa do borralho, ops não é o príncipe é o Cristhian Gray… não pera… Enfim, chega o salvador-macho-dominador que irá tirar a Cinderela-modelete da prostituição. Aliás, não entendo a faceta hipócrita do público brasileiro. Duas senhoras casadas na novela das 9 é: ai-que-nojo-vamo-orar-e-desligar-a-tv-que-isso-não-é-de-deus. Um homem manipulador e castrador assediando uma jovem na novela das 10 tá de boas, porque ser prostituta de um homem só, rico e lindo a sociedade aprova, ele pode te comprar (ele falou isso), que tá tudo lindo, que você é como um bibelô. A sociedade não vê no cara bonito e rico, autoritário, estúpido, dominador etc. etc. uma má pessoa. ELE TÁ SÓ MUITO APAIXONADO. É O AMOR. Ah tá, que bom, ufa, pensei que era uma violência e relação doentia.

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E aí a Camila Queiroz (Angel),vai ao Faustão e diz que as mulheres a param na rua e dizem que torcem pelo amor de Alex e Angel. Migas, isso não é amor. É abuso. Favor assistir o vídeo da Jout-Jout umas 15 vezes seguidas e repitam comigo: ciúmes não é demonstração de amor é só machismo e sentimento de posse mesmo. É algo da estrutura do patriarcado (me deixa que sou de humanas) reforçar esse sentimento de posse, principalmente do homem com relação à mulher, essa valorização do ciúmes como um sentimento que denota grandeza quando na verdade é um sentimento de insegurança, mesquinhez e pequeneza. O ciúmes te mantém quieta e cordata, o que é o oposto de você dona de si mesma.

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Mas e aí, por que mulheres adultas, bem informadas, em pleno 2015, continuam achando que o príncipe encantado virá num cavalo branco ou numa ferrari vermelha,ou sei lá,  sendo ele um Alex ou um Christian Gray, homens dominadores e violentos, que só olham pros seus umbigos, e as salvará de tudo? Síndrome de Cinderela. Reparem bem nos dois personagens: ambos ricos, de sucesso e bonitos. Ambos se apaixonam pela Cinderela-mocinha, mas ela só terá o amor dele, príncipe, se o entender e ceder aos seus caprichos. Em troca, ele lhe dará milhões de presentes e serão muitos felizes até o novo lançamento de iphone (ou, seja, uns 6 meses). Ou então a Cinderela poderá persistir e resistir e mudar o amado, ma non tropo) e também viverão felizes até o novo Macbook ( 1 ano).

O Complexo de Cinderela foi primeiramente descrito por Colette Dowling, no livro de mesmo título, e é apresentado como o medo que algumas mulheres têm da independência, quando elas têm um desejo inconsciente de serem cuidadas por outros. O complexo é dito para se tornar mais evidentes à medida que uma pessoa envelhece. Recebeu o nome de Cinderela porque é baseado na ideia de feminilidade retratada no conto, onde uma mulher é bonita, graciosa, educada, apoiadora, trabalhadora, independente e difamada e invejada pelas outras mulheres (suas rivais), mas não é capaz de mudar sua situação com suas próprias ações: para isso, precisa ser ajudada por uma força externa, geralmente um homem, o príncipe.

E Colette Dowling continua: “Complexo de Cinderela”, que ocorre quando há um sistema de desejos reprimidos, memórias e atitudes distorcidas que se iniciaram na infância, na crença da menina de que sempre haverá alguém para sustentá-la e protegê-la. Independentemente do vigor investido na tentativa dessas mulheres viverem como adultas, a menininha dentro de cada uma sobrevive assombrando seus ouvidos com murmúrios assustados. Essa crença se solidifica na medida em que vai sendo alimentada com o tempo, mantendo na mulher um enorme sentimento de inferioridade, causando insegurança com amplos efeitos, que resultam em todas as espécies de medos interiores e descontentamentos, onde as mulheres tendem em geral a funcionar muito abaixo do nível de suas habilidades básicas. 

Me digam se o que está escrito acima não é a cara da Angel, da Carolina (mãe da Angel) e até da Fanny, que é a personagem melhor construída da novela (Marieta divando lindamente)? São todas mulheres esperando serem salvas pelo mito do amor romântico de um homem-provedor-castrador e para isso deixam de ver em si mesmas o que têm de melhor e serem simplesmente livres. Claro que as mulheres não desenvolvem esse Complexo do nada, porque são fracas, etc. É o que a sociedade nos incute, ensina, legitima e reforça (por meio, inclusive, de novelas assim). E, se a gente aplaude isso como amor, o que será que a gente faz com a gente mesmo? O que você entrega para manter o parceiro está dentro do seu limite? O que ele retribui? Você está feliz? O quanto você ainda é você dentro dessa relação? Essas são as perguntas a serem feitas, depois pergunte a si o que Jout-jout pergunta no vídeo e descubra se é amor ou abuso: afinal, Rodrigo Lombardi te salvando só existe na tv. O resto, se for daquele jeito, é um caminhão de cilada. Foge, Bino, você pode ser uma Cinderela de olho roxo, na melhor das hipóteses das estatísticas da violência doméstica.

O amor que não precisa ter nome

Por *Bia Cardoso, Biscate Convidada.

A Iara tem feito vários textos sobre a novela Sete Vidas, que está na reta final sendo exibida na Rede Globo. Também sou fã da trama e hoje quero falar sobre dois personagens em especial: Eriberto e Renan.

Eriberto é um homem requintado, leiloeiro que gosta de bons jantares e preza muito a amizade das pessoas. Ele é casado com Marta, metódica e ambiciosa. No início da trama, havia uma suspeita levantada em diálogos se Eriberto era gay, mas nada foi comprovado. Essa suspeita só retornou quando Renan apareceu na trama. Dentista que também gosta de prazeres refinados, foi Marta quem os apresentou sabendo que se dariam muito bem.

Acontece que tanto Eriberto como Renan são casados com mulheres. Aí, nossa curiosidade mórbida sobre a vida alheia fica naquela expectativa: são gays? não são? o que é isso? A melhor parte é que Lícia Manzo, autora da novela, não parece estar preocupada em definir o que Eriberto e Renan são, mas sim em nos presentear com cenas maravilhosas em que os personagens mostram uma intimidade e um amor tão pungente que chegam a ser mais explícitas que um beijo na boca.

Há algo nas cenas cotidianas, como a visita a casa de Petrópolis ou a compra de um terno, que mostram uma amizade até rara de se ver entre dois homens. Porém, foram nas cenas ocorridas após o falecimento do pai de Eriberto que mais transpareceu esse amor sem nome ou carteirinha registrada. O olhar entre os dois quando Renan consola Eriberto é a representação física da empatia e do acolhimento entre duas pessoas. Além desse, há o momento da cerimônia das cinzas e a decisão de Renan presentear Eriberto com um relógio antigo.

Os atores Fábio Herford e Fernando Eiras declararam que essa é uma história de amor e paixão cheia de afinidades e fraternidade, mas sem beijos e carícias. Até mesmo o fato de serem dois homens mais velhos representa uma nova forma de apresentar um relacionamento em novelas. É claro que queremos ver nas novelas e em outras produções culturais muito beijo na boca e sexualidades que fujam da heteronormatividade, mas ao defender todas as formas de amor também é preciso lembrar dessas outras vivências do verbo amar.

Eriberto (vivido pelo ator Fábio Herford) e Renan (vivido pelo ator Fernando Eiras) em cena da novela Sete Vidas (2015).

Eriberto (vivido pelo ator Fábio Herford) e Renan (vivido pelo ator Fernando Eiras) em cena da novela Sete Vidas (2015).

foto_bia*Bia Cardoso é feminista e lambateira tropical.

 

As mocinhas que amamos, ou não

Mocinhas de novelas. Amamos e suspiramos e nos identificamos. São as princesas Disney dos adultos, elas que superam as dificuldades e ficam com o príncipe no final, que antes era um sapo. Ok, algumas mocinhas nós odiamos também e preferimos amar as vilãs ( beijo, Carminha). Outras vezes, não amamos ninguém, né, Babilônia?

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Lígia, em Sete Vidas, representa o amor em estado mais latente, aquele amor profundo que acaba por tudo perdoar e que vive do que o amor é feito: esperança (desculpem, tô romântica, mas me vejo nela, e por isso a gente ama as novelas, não?). Mas, Lígia faz aquilo que todos nós, quando apaixonados, fazemos quase sempre: que é ver no ser amado a possiblidade de alguém melhor do que ele é, um embrião de algo espetacular que ele mesmo não vê. Vemos também espelhos, vemos nele nossos sonhos de amor, a pessoa ideal, aquilo que queremos. Daí o impasse da impossibilidade amorosa daquilo que se é para aquilo que se quer. Como por exemplo nessa cena, em que Ligia e Miguel pensam um no outro.

E, invariavelmente, na vida real, o fim do romance. Na novela, não. Miguel vai mudar graças a ajudas externas. Na vida real, a ajuda externa para mudança pode acontecer, se a pessoa quiser, via terapia. Mudar não é obrigação, a não ser que se deseje para si mesmo e não para agradar o outro.

Mas essa tônica de buscar no outro o que ele não é e esperar que ele seja está em todos os outros conflitos amorosos de Sete Vidas. Por isso que a novela encanta tanto. Lícia Manzo busca na vida o material para seus diálogos bem tecidos.

Já a mocinha Regina (interpretada pela atriz Camila Pitanga), de Babilônia, ficou conhecida como um mantra de chatice. Embora lutadora, o telespectador não consegue achar uma identificação possível porque ela é intransigente e mal agradecida. E é muito sofrimento fabricado em cima de sofrimento. Muito drama artificial, muita armação que com um mínimo de tutano seria desmascarada.

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Isso acontecia em Avenida Brasil, por exemplo? Sim, mas ali tinha ritmo e humor, diferenças fundamentais. Ademais, ninguém conseguiu criar empatia suficiente com o sofrimento de Regina. Afinal, ser abandonada no lixão, órfã, era é muito mais impactante.

Sobre o fato de Regina fazer barraco e gritar muito, me lembrei que haviam essas mesmas reclamações sobre a Maria do Carmo de Regina Duarte, em Vale Tudo. Mas, a personagem tinha sempre uma atitude muito positiva diante de tudo, tinha “o sangue de Jesus tem poder”, e criou empatia com o público. Ademais, acho que o tiroteio da audiência fez com que os autores de Babilônia perdessem o prumo da novela, uma pena, porque Camila Pitanga fez trabalhos maravilhosos, como a Bebel de Paraíso Tropical, do mesmo Gilberto Braga, e a Isabel, de Lado a Lado.

De se pensar que o público de hoje, muito mais conservador, rejeita uma personagem lutadora da favela e amava a prostituta Bebel.

Outro ponto é que a falta de identificação do telespectador com Regina não passa só pela chatice da personagem, mas possivelmente pelo fato de, além de barraqueira, ser antes de tudo negra e favelada, fato que nem Nina e nem Maria do Carmo eram. E o racismo pode se pronunciar nisso também: na dificuldade de se identificar com uma heroína negra.

De minha parte, torço para Babilônia se apague rápido das nossas memórias e Sete Vidas, ao contrário, siga como exemplo, e Lícia Manzo chegue em breve ao horário das 9, porque ela merece.

Sete Vidas, uma novela de gente madura e analisada

Cresci sendo noveleira. Madrinha assistia a todas as novelas do dia, e eu junto. A TV formou parte do meu ser, e digo que foi mais para o bem que para o mal. Lembro até hoje de Gabriela catando aquela pipa trepada no telhado: eu devia ter uns 6 anos.

Amo quando tem novela boa pra ver. Mas tudo ok quando uma novela é ruim, porque continua tendo outras em algum lugar. A novela ruim da vez, e olha que prometia ser ótima, é Babilônia. A novela delícia é Sete Vidas. No meio, de recheio a conferir, temos I Love Paraisópolis (Isso ficando só nas da Globo. Porque tem as da Record também).

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Mas queria falar é da minha paixão: Sete Vidas, aka Sete Filhos de Amyr Klink. Ao assistir a novela, me lembrei primeiramente de uma fala de Nora Ephron nos extras do DVD de Harry & Sally. Era mais ou menos isso: a comédia romântica cristã tem o conflito baseado no externo – alguém ou algo que impede o casal de ficar junto. Já na comédia romântica judaica, o que impede o casal de ficar junto são as neuroses de cada um deles. Daí que não temos mais vilões bolando mirabolantes planos do Cebolinha para sabotar o amor dos pombinhos. Basta uma palavra errada, um atraso, um esquecimento, enfim, a vida como ela é, e está estabelecido o conflito, os rompimentos, o vai e vem. E é disso que é feita Sete Vidas.

Aliás, Sete Vidas me lembra mesmo Harry & Sally, um dos meus filmes favoritos. É uma novela de muitos diálogos, não longos e intermináveis, mas dinâmicos e variados. No twitter é chamada de “novela da DR”. Mas, novamente, a novela usa a matéria-prima da vida: conversas. Conversa sobre nós mesmos, dúvidas, medos, possibilidades. O que fazemos todo dia no bar, no inbox, no whatsapp.

Sete Vidas é uma novela de gente analisada. Não basta uma das mais encantadoras personagens ser uma terapeuta em conflito: as boas pessoas dali, aquelas com quem a gente se identifica, são capazes de analisarem si mesmas, seus sentimentos, os dos outros, voltarem atrás, se perdoarem, perdoarem o outro, mudarem, terem empatia. Não é isso que faz de uma pessoa uma pessoa boa? Um ser bacana? Ser alguém sempre em reconstrução?

Uma das pessoas mais bacanas é a Esther, personagem da Regina Duarte, lésbica, viúva e mãe dos gêmeos gerados pela doação de Miguel.  A capacidade de analisar a si mesmo nos faz sermos pessoas maduras e capazes de rir de nós mesmos, e isso é algo que Esther faz com maestria e leveza.

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A novela tem  quase que só personagens brancas e de classe média ou alta, na sua maioria, coisa que incomodou bastante no início da novela: mas a falta de diversidade racial e social foi amenizada com a chegada da Esther e sua amizade com a empregada da filho, Graça, e o filho desta, Carlito. O núcleo gerou cenas de ótimo conteúdo sobre discriminação social e racial, sem a cara de textão ou propaganda do MEC – ao contrário do que acontece frequentemente com a personagem de Fernanda Montenegro em Babilônia.

Por último, acho que a novela coloca como mocinha, não Júlia, nos seus 20 e poucos anos e seu amor por Pedro (larga dele fica com o Felipe!), e sim uma personagem que é mais próxima da telespectadora:  Lígia  e seus quarenta e algo e seu amor pelo arredio Miguel, aquele que foge até do laço do cadarço do sapato, ao que parece.  Lígia é uma mulher madura, que ama com todo o coração, mas tem carreira, filho, mãe chata, irmã, amiga que pisa na bola mas que é gente e ama e por aí vai.  É classe média, tá fechando as conta no final do mês, de boas. Mas, novela tem que sonhar ao menos um pouco, né?

E é assim que me dou conta que que ao menos que a trama seja muito dinâmica, bem dirigida, os atores bem escalados, estejam bem no papel, a trama bem amarrada, como Cheias de Charme e Avenida Brasil, não tenho mais saco praquela coisa muito fantasia de vilão maluco sabotando tudo com planos mirabolantes. Torço por mais novelas humanas com pés no chão e que, na próxima incluam mais negros, negras e suburbanos, enfim, diversidade.

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(todo mundo madurinho e analisado agora?)

Clarina e a família brasileira

E lá se foi a  novela mais chata dos últimos tempos. Ok, na verdade, a novela mais chata e ponto. Ganhou de lavada de todas. Até a última semana foi morna, até o último capítulo, zero surpresa, zero reviravolta, zero emoção digna de nota.

Tento avaliar o aspecto que poderia ser mais positivo: levar ao público a visão positiva de um casal lésbico, mas pela forma que a trama foi conduzida nem isso conseguiu. Talvez se Maneco tivesse optado por outras soluções dramáticas e tivesse um mínimo de coragem as coisas fossem diferentes.

Os questionamentos mais frequentes se referem ao Cadu, personagem de Reinaldo Gianechinni, um cara reconhecidamente gato. A pergunta de sempre: que mulher largaria um gato daqueles por outra mulher? Vamos lá pra FAQ lésbica da vida real.  A sexualidade humana não é um negócio assim fechadinho, sabe? As pessoas que se permitem experimentar muitas vezes se descobrem bissexuais, gostam de pessoas dos dois sexos e isso pode ocorrer em diferentes momentos da vida. Ademais, casamento acaba simplesmente porque acaba. Vários são os motivos, viram irmãos na mesma casa, vários conflitos de personalidade, tédio e são tantas coisinhas miúdas… Mas ahhhh, a família… Olha, as pessoas se separam e os filhos sobrevivem. E bem, sabe? Assim na vida real como na novela, caso do garotinho Ivan. Tudo depende de como os pais levam a separação. Sobre o sexo lésbico temos aqui no Biscate mesmo um ótimo post, sim, é possível e ótimo um sexo sem pinto.

Cadu entre Clarina (foto do facebook da Giovanna Antonelli)

Cadu entre Clarina (foto do facebook da Giovanna Antonelli)

Mas quanto à novela, Cadu era uma cara que sonhava alto mas sempre metia os pés pelas mãos, era infantil, isso no começo da novela, era perfeitamente possível e aceitável que exatamente por isso o casamento tivesse acabado e estivessem juntos só pelo filho. Quantos casais vivem assim? Mas o público não aceitou que o fofo Giane fosse trocado, veio a doença do personagem e paf! Giane se tornou um cara maduro e bacana. Mágica de novela!  Daí ficou mais difícil ainda pro público careta, homofóbico, lesbofóbico, entender porque Clara deixou de amá-lo e amava uma mulher. Mas olha, juro que isso acontece na vida real, viu? Porque tem gente que ama pessoas, não gêneros. Simples assim. E amor começa, e acaba, e tem que ter tanto coragem pra começar quanto pra terminar e, sim, as crianças vivem muito bem se tudo isso for dito a elas ao invés de… e fomos felizes para sempre (o que na grande maioria dos casos é uma grande mentira). Aliás, essa cena foi muito bem resolvida na novela, Clara contando ao filho que iria casar.

Então, o grande público que detestava ver, de novo, um casal homossexual, aguentou porque não tinha nenhum toque explícito, só um selinho e agora leio comentários nos sites especializados em tevê sempre reclamando de uma suposta invasão homossexual nas novelas.

Por outro lado o casal foi queridíssimo por outra parcela do público que formou até fã-clube e shippou (juntou) as duas formando o casal #Clarina (Clara+Marina) torcendo pelo amor das duas, e subindo várias vezes a hashtag no twitter. Realmente, aleluia, o mundo mudou. Mas nem a emissora, nem o autor me pareceram dar muita bola pra fãs não, infelizmente, porque poderiam ter explorado muito mais o romance entre as duas. E digo por explorar terem mostrados cenas românticas mesmo e não sexuais (já que parece ser demais e não é para o horário).

Olha, e não é invasão gay, é o mundo real. Graças a muita luta, e muita dor nessa luta, as pessoas estão saindo dos armários e vivendo a vida que todos vivem, se abraçam, se beijam, se casam, vão ao mercado, criam filhos e a novela, como produto de sua época, só espelha isso. Então, seja bem vindo o novo casal gay, Zé Mayer e Klebber Toledo em Império e que tenham melhor sorte. Ao menos não se casarão com vestido igual e que se parece com o das discípulas de Inri Cristo…

As Inrizetes

as Inrizetes

Novela machista e antimoralista ao mesmo tempo?

Por Niara de Oliveira

É da vida a contradição. Para quem não sabe, eu assisto novela. Quanto mais ruim a novela mais me apego. Sei lá se Freud consegue explicar. Percebo que é ruim e onde, mas assisto. É excelente para esvaziar a mente, para relaxar. A Globo possui há alguns anos um canal na tevê fechada, por cabo, que é uma espécie de memória sua, o Viva. Ele reprisa programas da emissora e principalmente novelas. Normalmente são três novelas reprisadas ao mesmo tempo, sempre à tarde com reapresentação diária dos capítulos a partir da meia noite. É aí que, depois de concluído o combo fazer janta, dar banho no filho e colocá-lo na cama, eu me jogo no meu sofá, ponho as pernas para o alto e relaxo diante da tevê. A-DO-GO!

Para o meu deleite, as novelas têm piorado muito de qualidade nos últimos anos. Salve Jorge e Amor à Vida foram péssimas e Em Família bate recordes de reclamações nas redes sociais (procurem pelas hashtags #SemFamilia e #EmHelenas) e já são muitos os textos apontando absurdos, preconceitos, reforço de opressão, falhas, etc. A pior novela que reprisa agora no Viva, História de Amor (também do Manoel Carlos) é infinitamente melhor que Em Família. Manoel Carlos nunca foi tudo isso mesmo em diálogos (quedê Gilberto Bragaaaaaaaaaaa?), embora seja bom na construção de personagens. Ele constrói tão minuciosamente cada personagem que permite a alguns atores, no caso de serem bons, meio que carregarem a trama nas costas. Em Família nem isso está dando conta, porque os diálogos são tão ruins, tão estereotipados e reforçadores de opressões e preconceitos que enterram o esforço e o talento dos atores.

Mas isso é só uma introdução, meio que justificativa, para dizer que uma das antagonistas de Em Família conseguiu a empatia do público — ao menos do público da novela com quem converso –, talvez justamente porque não tinha esse compromisso e o talento da atriz ajuda muito. Shirley, interpretada por Viviane Pasmanter, é uma mulher dona de sua sexualidade. Permite que os filhos transem em casa, incentiva os filhos a terem prazer com o sexo, incluindo a filha, pega na cobra, se enrola na cobra, faz foto nua… Enfim, é a biscate da novela. Sim, tinha o bullying que ela praticava com a filha por ser “””gorda”””, que agora meio que saiu de cena, tem a inveja, o recalque com a “mocinha”, tem a obsessão pela paixão da adolescência, tem o uso do dinheiro para humilhar as pessoas, tem o prazer em humilhar o outro, a diversão com a desgraça alheia… Enfim, é uma antagonista.

Do outro lado da trama, Helena certamente sabe que a filha Luiza tem vida sexual ativa, mas não lembro das personagens conversando a respeito. Shirley teve várias conversas com a filha sobre sexo, sobre aproveitar a vida, experimentar, não se prender a apenas um namorado…se jogar. Numa delas chegou a dizer textualmente que a filha precisava se livrar da virgindade para viver os prazeres da vida. Achei supimpa!

Não curti tratar a primeira transa de Bárbara (Polliana Aleixo) como um presente, uma prenda dela pro amado e nem dele se sentindo presenteado por ser o primeiro e a associação “indissolúvel” de sexo com amor na trama do casal. Mas, né…numa novela onde o primeiro beijo lesbo só aconteceu depois de colocar aliança no dedo… Voltando ao caso da Bárbara, o bacana é que ela fez o que quis, do jeito que quis, em casa e com o apoio incondicional da mãe, além de parecer não ter se apegado a valores muito moralistas — o que seria até compreensível sendo ela uma vítima de bullying da mãe, poderia ter feito o caminho oposto apenas para ser diferente. Ela só queria transar com ele porque gosta dele, e isso é da vida. O mais bacana: a reação de Shirley na conversa com Bárbara sobre sua primeira transa é emocionante.

no capítulo de sábado, Shirley se emociona ao saber da primeira transa de Bárbara

no capítulo de sábado, Shirley se emociona ao saber da primeira transa de Bárbara

Se por um lado a novela dá vontade de quebrar a televisão com os diálogos de culpabilização da vítima por agressão (vide o diálogo de Alice e Vitor no sábado), com destaque aos diálogos que envolveram o caso de Juliana e Jairo, a abordagem de estupro, assédio, aborto, tortura psicológica — que valem muitos posts para denunciar mesmo sabendo que a caca está feita pelo alcance que tem a novela no imaginário e subconsciente popular –, nesse núcleo é quase uma ode antimoralista. Numa vibe meio Pollyanna, a novela é tão ruim tão ruim tão ruim que decidi falar de uma das poucas coisas (talvez a única) boas da trama. Não é que seja ruim, ‘o povo é que não tem cultura para entendê-la‘. Ou a #ACulpaÉDoDebussy.

Em Família está acabando, UFA! Vem aí mais uma novela do Agnaldo Silva com mais uma trama requentada. Na última novela desse autor tivemos um gay estereotipado, um assassinato homofóbico e um estupro em que a vítima gamava no estuprador. Espero que seja bem ruim para eu me apegar (mentira, me apego a qualquer uma, sou facinha) e para poder reclamar bastante no twitter. Bóra reforçar o estoque de Dramin e Plasil.

p.s.: tô aqui fazendo “as vêis” da Bete Davis que não escreveu sobre novela na quinta-feira passada. 😛

As mulheres do Maneco

Manoel Carlos é descrito como um autor de mulheres, em especial por causa de suas Helenas, série iniciada por Lilian Lemmertz em Baila Comigo e terminada agora por sua filha, Julia, na novela Em Família. Mas ao ver a atual novela das 9 e rever no Viva, História de Amor, com outra Helena, vivida por Regina Duarte, me pergunto o porque desse título.

a última Helena (Julia Lemmertz)

a última Helena (Julia Lemmertz)

Naonde que resolveram que o Maneco entende tanto assim de sentimentos femininos? O que vejo em ambas as novelas, e em especial na novela atual são mulheres neuróticas (no sentido freudiano) beirando a histeria, outras beirando a psicose (vide a Juliana de Em Família).

Juliana (Vanessa Gerbelli) descontrolada -- de novo -- no capítulo de ontem (foto: gshow)

Juliana (Vanessa Gerbelli) descontrolada — de novo — no capítulo de ontem

Todas poderiam fazer parte de um clássico da literatura de autoajuda: Mulheres que Amam Demais, que inclusive já apareceu numa novela do Maneco, que tratam de co-dependência emocional, o livro inclusive gerou grupos de ajuda pra dependentes emocionais a exemplo do AA. As mulheres das novelas do Maneco amam filhos, maridos, namorados, ex-namorados, ex-maridos e por aí vai muito mais que a si mesmas e suas vidas giram somente em torno disso. A vida familiar para o Maneco está acima de tudo. Ninguém curte os amigos, os estudos, o emprego, nada. Para a mulher do Maneco só existe o amor e pra provar o amor, só muita, muita dor. Pra ela, claro.

As mulheres de Em Família matam pra ter uma filha porque não concebem uma vida sem aquela determinada criança. Não amadurecem e vivem presas ao passado e à figura materna, filhas são eternas filhas adolescentes, mesmo quando mães. Filhas adolescentes saem de casa mas papai paga as contas, ficam emburradinhas por tudo, escolhem o pior sujeito da face da terra pra casar. Sempre amam o homem errado, óbvio, mas é aí que se prova o amor, né Maneco? Amando muito o estrupício que vai destruir a sua vida. #SQN

virgilio

a voz da razão é sempre masculina; em “Em Família” essa voz é de Virgílio (Humberto Martins)

Já a voz da razão na novela existe pela boca de um homem, Virgílio ( alter ego do autor?, assim como o Dr. Moretti em História de Amor?), havendo , inclusive, um diálogo onde se diz que “tinha que ser ele, tinha que ser um homem” pra resolver aquela situação (mais uma bebedeira do Felipe, irmão da Helena). Virgílio em geral pensa com calma e lucidez, ao contrário das mulheres da novela, que berram e esbofeteiam em cena ao esboço da menor contrariedade. E quando Virgílio se altera, como no capítulo do dia 03/06, é visto como másculo e enfim deixou de ser banana. Quero, ainda, deixar anotado que Humberto Martins está excelente no papel, mesmo a novela sendo péssima.

Sendo assim, se a gente concorda que o Maneco é um autor de mulheres, ele está escrevendo para quais mulheres? Será essa falta de identificação da mulher moderna que tem as rédeas da própria vida nas mãos, que ama mas não é escrava de nenhum amor e tem diversos interesses que tem deixado a novela com índices de audiência tão baixos? Acho mesmo que essas mulheres se identificavam mais com as empreguetes (Cheias de Charme), que eram amor, garra, trabalho, amizade e não uma neurose sem fim. Só resta torcer pra novela acabar logo, ou tentar a novela da Record.

Feminismo na tevê, tudo a ver?

Em uma conversa informal com uma amiga no ano passado ficamos debatendo sobre programas de tevê e filmes, e as cobranças de que sejam feministas ou de que assumam posturas feministas. Ora, vivemos em uma sociedade capitalista ( #cejura? ) e obviamente produtos feitos para o mercado terão características designadas por seus produtores aptos a agradarem a determinado nicho de mercado.

malu  mulherO feminismo voltou a ser pauta na imprensa mundial. Miley Cyrus se declara feminista, outra jovenzinha de Hollywood se declara não feminista, e por aí vai. No Brasil a bela campanha da jornalista Nana Queiroz #eunãomereçoserestuprada virou pauta nacional. Antes disso o feminismo ganhou capas de jornais e revistas semanais. O feminismo voltou a pauta, e não me parece mais uma palavra démodé como foi nos anos 80/90. Muitas garotas bem jovens (me sinto quase avó delas, e acho bacana. #bençavó) e antenadas buscam saber mais sobre o feminismo e onde atuar.

E a tevê? A tevê tem por obrigação pautar o feminismo? Não vejo como obrigação pautar o feminismo ou levantar bandeiras feministas. Tevê é mercado, é produto. Já o feminismo é movimento social, político e filosófico que visa a igualdade de direitos entre os gêneros e a libertação de padrões opressores baseados em modelos patriarcais e de mercado. Como se vê, o feminismo de identifica com valores reconhecidos como de esquerda (ver aqui). Sendo assim, a tevê — produto concebido para o mercado, para o lucro e a venda do supérfluo — e o feminismo podem se encontrar na sua tela, mas será um acaso fruto de conveniência e força de vontade de algumas partes envolvidas como já tivemos em Malu Mulher e Lado a Lado. Belos acasos, de belos frutos, é verdade. E acasos frutos de seus tempos também.

laerte e luiza

Mas e aí? Como faz uma blogueira feminista que assiste e adora novela? Joga tudo fora e torce pro Laerte tacar uns tabefes na chata da Luiza? Bate palmas pra misoginia pura da novela do Maneco? Acha bacana que todo personagem negro de novela tenha que ser salvo do racismo por um branco? Acha legal pacas que boa parte da crítica seja feita por quem aceite os padrões machistas, racistas, homofóbicos classicistas e de comportamento? Sim, porque uma coisa é o discurso da venda do produto, esse não tem interesse social, mas o discurso de quem compra, nós que assistimos a tevê, temos interesse social e assim podemos rejeitar personagens como o Laerte e torcer fervorosamente pelo primeiro beijo gay. E assim mudamos um pouco o mundo, a tevê, ganhamos mais um espaço. Cidadania não é consumo, não é isso que estou dizendo, mas a posição crítica diante do que consumimos já que é inevitável consumir, é cidadania.

E é isso que vou fazer aqui quinzenalmente, primordialmente falar de tevê, séries etc, o que der vontade, sendo eu, biscate e feminista e sendo crítica. E detestando a novela do Maneco. #VoltaCarminha

carminha_01

Um Olhar Biscate Sobre a Novela Em Família

Ano passado escrevi sobre Lado a Lado, a linda novela das 6 que ganhou o Emmy internacional de melhor novela, batendo inclusive a queridíssima Avenida Brasil.

Agora temos na faixa das mais uma novela do Manoel Carlos, o Maneco, como é chamado carinhosamente. Manoel Carlos tem 80 anos e um currículo de trabalhos de sucesso na tv entre eles a excelente Água Viva, onde foi co-autor junto com Gilberto Braga e que está reprisando no viva e Presença de Anita. Também fizeram muito sucesso as novelas de suas Helenas tais como em Baila Comigo, Sol de Verão, Por Amor e História de Amor (das Helenas  a minha favorita).

Maneco escreve novelas sobre a sua vida idílica, a vida como deveria ser. Os vizinhos lindos e amigos se ajudando, as famílias que brigam mas no fundo se amam, o médico da família (Maneco ainda vive do século 18, só pode, hoje a gente nem médico tem, que dirá da família), sempre um tal Dr. Moretti. Os cafés da manhã enormes, e a gente mal come pão com manteiga e toma café de tanta pressa, os vizinhos bacanas (sei nem quem são os meus, prefiro não saber), gente que passeia com o cachorro pelo Leblon..As crianças super fofas (sempre tem criança fofa que sabe tudo na novela do Maneco, maduras, mais que os pais). Empregadas que não tem vida própria e vivem par nos servir (precisa nem achar… OOOOO MIIIRRRNNNAAAA).

E o Leblon… tudo é no Leblon. O Maneco ama o Leblon. Você pisa no Leblon e toca bossa nova. Tem uns pardais treinados em piar Tom Jobim no Leblon. Uma beleza.

logo-em-familia

Enfim essa vida idílica, quase comercial do Itaú entremeada por alguns desacertos amorosos, essa aí de cima é a  típica novela do Maneco. Ou Era. Ë que algo mudou desde a Helena passada (Viver a Vida) que já foi bem ruinzinha até essa atual de Em Família.

 A trama central da novela é o Amor, o grande amor, aquele que renasce como a fênix ( (pausa para  cena a la Harry Potter ).  Nada contra o amor, não fosse  o autor da novela entender por “grande amor”, ciúmes e violência. O mocinho da trama, Laerte, é extremamente possessivo, ciumento e violento, comportamentos esses que em geral vem acompanhados um do outro.  Mas o autor justifica o descontrole emocional do mocinho (como se houvesse justificativa possível pra isso), com o comportamento da mocinha, a Helena da vez, que, segundo a narrativa da novela, gosta de “ficar provocando”. Na cena em questão Laerte diz que farai tudo por amor, até matar, um Othelo moderno.

Ora, Othelo é bem interessante, assim como Dom Casmurro e seu atormentado Bentinho. Mas cabe, nos dias atuais, numa trama ambientada nos dias atuais, incentivar e conceber como grande amor um relacionamento baseado em possessividade, ciúmes e violência? Justo quando o noticiário diário das grandes cidades é tão pródigo em notícias de feminicídio? Ou Manoel Carlos não lê mais as notícias? Justo ele que fez o excelente Malu Mulher?

Porque Helena é uma personagem que se culpa o tempo todo pelo ciúmes que posa ter provocado. Muitas mulheres agem assim com seu parceiros violentos. O que falta aprender em termos de relações abusivas é: não sou responsável pelo comportamento do outro em relação ao que faço, mas sou responsável pelas minhas escolhas.

Parece contraditório, mas não é. Se, por exemplo,  quero ter amigas e meu parceiro não deixa e por isso é violento comigo essa não é uma relação em que devo estar se ele não consegue aceitar quem eu sou. Eu claramente não estou aceitando as ideias dele também, não consegui mudá-las. Hora de ir. É resumido. Parece lógico. Mas é dolorido. Quebrar o ciclo de uma relação não é rápido e simples assim, especialmente quando se tem filhos.  Especialmente para mulheres que já tiverem sua autoestima quebrada, sua rede de relações também, muitas vezes estão desempregadas porque abriram mão da carreira para cuidar da família. Várias questões estão em jogo.

E quase sempre esse marido se sente dono dessa mulher, nào aceita que ela se vá, aí acontece o feminicídio, fruto do machismo. Fruto do pensamento do homem que acha que a mulher é sua propriedade. Fruto do ciúmes, da violência e da posse, tantas vezes confundidos com provas de amor e que nada mais são que medo, insegurança e posse mesmo.

E aí vem essa novela dizer que isso é uma amor de 20 anos, que um sujeito violento e descontrolado com claros sinais de psicopatia é assim só porque, tadinho…: ama demais… E a culpa de tudo, claro, é da mulher que dá bola para vários. A culpa não é de quem faz a conduta mas daquela mulher má que instiga, quase uma Eva…

E daí que fico triste que o Manoel Carlos que já fez tantas novelas excelentes, que meu querido Malu Mulher que tanto me ensinou,  tenha chegado aos 80 anos fazendo uma novela que confunde amor com posse e coloque como tema na cabeça de algumas mulheres um amor obsessão que nada tem de amor porque Amor é felicidade, como bem disse Carlos Lombardi em Pecado Mortal, no outro Canal.

(e isso que nem falei dos problemas de racismo, classicismo e proselitismo religioso nessa novela, fica pra próxima…)

Pelo direito à vulgaridade

Estou muito cansada de ver as mulheres que exercem sua liberdade vistas, tratadas como vilãs. Basta estar diante de uma mulher mais atirada e que tome iniciativas para o homem se tornar vítima indefesa. Socorro, hein… É nessa representação de papéis que se afirmam e perpetuam preconceitos e discriminações. E é de papéis, representações, personagens e atrizes que quero falar.

Faz um tempo que observo e comento que em algum momento entre os anos 80 e hoje encaretamos. Não que a passagem do tempo seja garantia de evolução, não é. A história é cíclica e encadeada, determinado fato teve outro(s) fato(s) como causa e provocará consequências e talvez, momentos de maior liberdade que ansiavam ou caminhavam para um determinado ápice, quando frustrados geram traumas que mudam a ordem das coisas, tiram da sequência. Não sou historiadora, mas arrisco dizer que o ano de 1989 tenha sido esse divisor de águas. E não foi para o bem.

Do ponto de vista cultural e comportamental, a simples existência de Leila Diniz, Elis Regina, Dina Sfat não nos garantiram por si só que tivéssemos depois delas atrizes e cantoras enfrentando a hipocrisia dessa época e/ou simplesmente tendo coragem de assumirem o que pensam. Talvez elas tenham chocado demais e produzido gerações covardes, caretas, babacas… Talvez a quebra após 1989 e a ascensão do neoliberalismo nos anos 90 explique… Mas, são apenas conjecturas de como chegamos aqui.

Sei que, daqui, do ponto de vista do nosso clubinho, acho que estamos muito mal representadas, principalmente nas novelas. Ou porque as periguetes das novelas são personagens que ousam pouco além da arte de seduzir e a conquista de objetivos imediatos ou porque as atrizes que as representam são moralistas, caretas e preconceituosas. Isso sem esquecer o fato de que periguete é SÓ a menina que manifesta seu desejo.

eu quero ser a puta! o/

eu quero ser a puta! o/

Não que Leila, Elis e Dina fossem biscates ou periguetes. Não? Não. Do ponto de vista do senso comum e de como esse perfil é visto e representado, não. Do ponto de vista de serem visionárias, revolucionárias, feministas e bem resolvidas com seu corpo e sexualidade, SIM!

E o que elas têm em comum com suas correspondentes* atuais? Vejamos. Ísis Valverde que interpretou recentemente uma periguete em Avenida Brasil numa entrevista na tevê — no mesmo programa que a Graúna-Lu-Borboleta estava — disse, textualmente: “Não deixem seus namorados perto de uma periguete. Ela vai tentar seduzi-lo”. Sério mesmo que o namorado é propriedade, que a relação é nesses termos e basta ser periguete para seduzir todo mundo? Aí… lembrando Leila Diniz: “Eu posso dar para todo mundo, mas não dou para qualquer um“. Foco no direito de escolha da mulher. Não é porque é periguete que vai seduzir todo mundo. Além do que, para duas (ou mais) pessoas se enroscarem-envolverem é preciso a vontade de ambas. A contradição: a personagem batia no peito e assumia que usava o corpo para conseguir o que queria e não se envergonhava disso. Não deixou lição nenhuma para a atriz.

A cantora Sandy virou polêmica nacional uns dois anos atrás por ter declarado numa entrevista à Playboy que “é possível ter prazer anal. Após a repercussão e repressão que se seguiu, voltou atrás e declarou que não foi bem aquela a sua resposta, dizendo: “nunca falei e não falo detalhes sobre minha vida sexual“. Aí… lembrando Elis Regina, sobre Fábio Jr.: “Ele foi como um sorvete, gostoso e rápido, mas brigamos quando eu disse que ele estava com saudade do plim-plim da Globo” e arrematou “ninguém vai fazer da minha vida uma novela” respondendo sobre os boatos do namoro. A contradição: A pessoa construiu uma imagem de pudica, de diva adolescente eternamente infantilizada/assexuada, aí resolve dar entrevista para uma revista masculina pra quê? Trocar receita de bolo? Mas, nada disso justifica o linchamento moralista e hipócrita sofrido por Sandy nas redes sociais por conta da tal declaração.

A atual periguete “em cartaz” na novela Amor À Vida só é periguete nos xingamentos da vizinhança. Porque, vamo combiná, ela não tem atitude nenhuma. Trepar e ir a motel todo mundo trepa e vai, o que faz uma periguete é a atitude, principalmente se assumir como tal. Mas, tá… Vamos considerar que ela seja periguete, além de não ter nenhuma fala no sentido de exercer sua liberdade sexual, a atriz Tatá Werneck declarou em entrevista na cobertura de sua participação no especial do Dia da Criança do programa Altas Horas (explicando o sucesso da personagem com a criançada) que “a Valdirene não é uma periguete vulgar“. Então não é periguete, né? Porque se ser liberada sexualmente para a mulher é ser vulgar, não existe periguete que não seja vulgar. A contradição: a Valdirene é vulgar. O que ela não é, é periguete.

Pasmem. Diz o Dicionário Aurélio, VULGAR: adj. Relativo ao vulgo. / Comum, trivial, corriqueiro: fato vulgar. / Baixo, reles, desprezível: sentimento vulgar. // Latim vulgar, latim que se falava no Império romano (por opos. a latim clássico). / &151; S.m. O que é vulgar. / Língua vernácula. Nada, nadica, nenhuma referência à mulher ou comportamento, apenas com a condição social. Ser vulgar, na raíz da expressão, é ser reles, do povo. Tomemos a expressão ao pé da letra e sejamos vulgares. Sem ser sexy.

Retomando. Liberdade é exercício, então deixe a pessoa com quem te relacionas livre para ir, voltar, ficar, ser, estar. Se importe menos com xs outrxs periguetes e seja mais periguete você. É possível ter prazer de várias formas, se permita, e principalmente assuma o seu prazer. Além de libertador pode ajudar a libertar outras pessoas. E por fim, PELO DIREITO DE SER VULGAR!

Não, não esqueci da Dina Sfat. Deixei sua imagem para encerrar o assunto, porque biscate-periguete-puta pode até estar na vida só pela diversão, mas a gente aprecia muito as que são de luta.

dina sfat

*essa correspondência não tem caráter comparativo de talento, importância ou grandiosidade.

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