O último Rembrandt #3

O Biscate segue com o folhetim que está sendo publicado aos domingos. Aproveitem!

O último Rembrandt

por Maurin Smith (tradução de Isadora Leal)

3. Ser adulto e responsável é uma droga 

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Nova Iorque, 22 de abril de 2017 – no leilão

17h56

O homem sentado à sua frente no leilão tinha, sem favor algum, em torno de dois metros de altura. Carla jamais entendeu a fascinação que os homens altos exercem na maioria das mulheres. Deus do céu, quem é que consegue manejar um homem desse tamanho na cama? Ela sorriu pensando na tarde que passara ao lado do homem de… o quê? Um metro e sessenta e oito? Um pouco menos? Do alto de seu metro de setenta e nove, Carla achava deliciosos os homens mais baixos do que ela. E aquele cara era… Bom, delicioso nem começava a descrevê-lo.

Voltando ao presente, Carla fez uma careta para a nuca do homem que bloqueava sua visão. Ela não tinha se incomodado com a distância do palco onde o quadro seria exibido. De forma alguma. Estar no mesmo cômodo que aquela obra de arte era o suficiente. E, ainda que de longe, ela a veria. Muito antes e de maneira muito melhor do que poderia apreciá-la depois que fosse comprada. Caso fosse adquirida por algum museu, quem poderia dizer para que canto do globo seria levada? E quando, exatamente, seria exibida? Em dois anos? Cinco? Dez?

Fora que, Deus a ajudasse, se a tela fosse comprada por um colecionador particular, o público poderia passar décadas sem colocar os olhos nela. Bem, talvez nunca o fizesse.

Tudo o que Carla e a humanidade poderiam ter seriam reproduções de maior ou menor qualidade.

Não, não.

O melhor a fazer era vê-la ali. Usando a identidade de sua ex-colega de quarto da faculdade – Safira Khoury, a brilhante filha mais velha de uma próspera família libanesa estabelecida nos Estados Unidos há mais de cinquenta anos e, desde o começo do século XXI, diretora de um modesto museu ao norte do estado de Nova Iorque – Carla tinha conseguido entrar na casa de leilões sem dificuldades. Apesar de muito restrito, o evento não tinha um esquema de segurança que se poderia chamar de rigoroso: eram poucos, bem poucos, os que sabiam o que estava acontecendo no lugar naquela noite.

Depois de garantida a compra, os advogados do espólio que detinham a propriedade provisória do quadro fariam um anúncio em conjunto com a casa de leilões e o novo dono da obra anunciando a incrível descoberta, em meio a outros objetos empoeirados, mas valorosos, resgatados do sótão de uma viúva recém-falecida, a herdeira da dinastia Orange, um dos braços da realeza holandesa.

O plano de Carla era descer do avião, registrar-se no hotel, passar a tarde flanando no Metropolitan matando a saudade e depois correr para o leilão.

Em vez disso, tinha descido do avião, se registrado no hotel e caído nos lençóis do hóspede da suíte 1616 para ser acariciada, chupada e comida como uma garota de faculdade de férias. Sem preocupações, sem ver o tempo passar, sem olhar para o relógio até se dar conta de que tinha menos de uma hora para chegar ao seu compromisso. O 1616 sequer protestara quando ela finalmente deixou a cama, apanhou suas roupas espalhadas pelo quarto e correu para o chuveiro no frenesi de alguém que sai do coma e descobre que está em um ninho de vampiros.

Quando Carla saiu do banheiro vestida e precariamente maquiada, com o cabelo molhado preso em um coque, 1616 estava sentado na cama, fumando. Jesus, aquele era um quarto de fumantes? Se não fosse, o FBI invadiria o lugar a qualquer instante, os americanos eram uns fanáticos.

– Preciso mesmo ir embora. Estou atrasada.

– Coloquei meu cartão no bolso do seu casaco. Mas você sabe onde me encontrar.

Ele sorria. Deus, ele sorria.

Carla balbuciou uma despedida desajeitada e deu as costas para a cama, para enfiar a bolsinha de maquiagem de volta em sua bolsa e apanhar o casaco que jogara horas antes sobre uma das poltronas do quarto. Quando se virou, 1616 estava a poucos centímetros dela. Tomou-a nos braços e a bolsa e o casaco foram para o chão, enquanto ele beijava seu rosto, pescoço e colo, enquanto a língua dele acariciava seus lábios, enquanto ela era tomada pelo mesmo desejo de algumas horas atrás, de se deitar ao lado dele, de morder seu peito e se esquecer do mundo enquanto trepavam mais uma vez.

Estremecendo e se agarrando a um breve instante de lucidez, Carla se soltou dos braços dele, apanhou suas coisas e foi na direção da porta. Ao olhar para trás por um instante, viu 1616 parado no meio do quarto, nu e sorrindo.

(continua no próximo domingo)

Perdeu os primeiros capítulos? Vem com a gente:

O último Rembrandt #1

O último Rembrandt #2

O último Rembrandt #2

Hoje, o Biscate tem o prazer de apresentar o segundo capítulo de um folhetim que está sendo publicado aos domingos. Deleitem-se!

O último Rembrandt

por Maurin Smith (tradução de Isadora Leal)

2. O que é um pequeno crime entre amigas?

Paris, 18 de abril de 2017

11h56

Nos Estados Unidos, do leito do hospital onde tinha passado por uma cirurgia na coluna, Safira telefonara para Carla, que ensinava arte medieval em uma universidade em Paris.

– Querida, se você não pegar o primeiro avião, juro que vou me levantar de dessa cama e atravessar o oceano Atlântico de muletas para dar com elas na sua cabeça.

– Você vai nadar de muletas? Por favor, mande alguém filmar isso.

– Engraçadinha. Falo sério, o convite só chegou há dois dias. Estão fazendo tudo de última hora para que a notícia não se espalhe. Só colecionadores de arte muito, muito ricos estão sendo convidados… Ah, e alguns diretores de museus, para manter as aparências.

– Porque o leilão vai ser feito nos Estados Unidos e não na Europa? Porque não na Holanda, meu Deus, a uma hora e meia da minha casa?

– Porque todos os objetos do enorme sótão da falecida foram embalados e enviados para o sobrinho-neto, um advogado especializado em direitos autorais que vive em Nova Iorque.

– Sei, mas embalaram um…

– Eles não sabiam que era um…

– Como isso é possível?!

– O quadro estava no sótão! Cercado de cacarecos de família, roupas do século XIX, gramofones, baús e malas de todos os tipos e, sim, outras obras de arte valiosas.

– Outras?!

– Nada tão raro e valioso, mas sim, outras obras de arte. Pelos próximos anos, você verá o mercado de arte ser lentamente invadido por raridades.

– Espero que façam isso realmente bem devagar, ou o preço das obras vai despencar.

– Ah, não se preocupe, os homens que cuidam do espólio têm tentáculos em outras áreas do mundo das artes e não pretendem perder dinheiro. A casa inteira foi inventariada, cada objeto, cada cinzeirinho, tudo. Mas os objetos do sótão foram tratados como cacarecos e enviados para os Estados Unidos, provavelmente em caixotes marcados como “Tralha”.

– Meu Deus, imagino o espanto de quem abriu as caixas.

– Demorou para que o quadro fosse identificado. Na verdade, Marcel Navigateur só percebeu o que tinha nas mãos quando…

– Espere um minutinho… Marcel Navigateur?

– Sim, querida.

O Marcel Navigateur?

– Sim, meu bem.

– Puta merda!

Safira deu uma fungadela.

– Querida, isso é realmente necessário? Quero dizer, palavrões?

– Pelo amor de Deus, Saf, estamos em 2017.

– Hum.

– Bem, e aí? Você vem? Não poderei estar presente e alguém que amo precisa estar lá para me contar tudo depois.

– Você está me pedindo para largar minha vida, parcelar uma passagem internacional no cartão, atravessar o oceano e cometer crime de falsidade ideológica?

– Sim, acho que sim.

– Pego o próximo avião.

(continua no próximo domingo)

O último Rembrandt #1

Hoje, o Biscate tem o prazer de apresentar o primeiro capítulo de um folhetim que será publicado aos domingos. Deleitem-se!

O último Rembrandt

por Maurin Smith (tradução de Isadora Leal)

  1. Meninas boas vão para o céu.
    Meninas más vão a leilões.

 Nova Iorque, 22 de abril de 2017

17h33

O pau dele era delicioso. Certo, ele beijava bem e tinha uma voz rouca, e olhos feitos de tons e sobretons de mais e mais azul, e era gentil e nem tão gentil assim. Ele era careca e um tantinho mais baixo do que ela, muito forte – seu peito era uma vastidão coberta de pelos grisalhos, seus braços e mãos cobertos de veias aparentes e cada centímetro da pele dele pareceu queimar a dela. Mas nada se comparava ao pau dele. Nas mãos dela. E em sua boca. E dentro dela. O rosto dele aninhado em sua nuca e o pau dele dentro dela. E se isso não era feminista o suficiente, que se foda, pensou sorrindo e se ajeitando no banco de trás do táxi.

O que ela estava sentindo era tesão. De novo. Como se não tivesse acabado de sair da cama daquele homem. Como se ele não tivesse acabado de sair de dentro dela. Como se ela tivesse tempo para isso. Suspirou. Com o leilão mais importante do ano começando em vinte minutos, quem tinha tempo para tesão, meu Deus?

Não era o primeiro estranho com quem ia para a cama, mas não conseguia se lembrar de uma trepada tão… O quê? Perfeita? Maravilhosa? Qual dos clichês estúpidos da pior literatura descreveriam o que tinha acabado de experimentar? Bom, foda-se de novo. Tinha sido uma tarde incrível. Uma tarde impossível de esquecer.

No mesmo instante em que fecharam a porta do quarto do hotel e ele a puxara contra seu peito, ela soube. O cheiro dele era fresco, tinha alguma coisa de limão, e ele beijou seus cabelos e ficou ali, alguns segundos com ela nos braços, imóvel, à espera de que suas respirações se sincronizassem.

Quando ela ergueu o rosto, o estranho agarrou seu rosto e mergulhou a língua dentro de sua boca. Nenhuma hesitação. Sem perguntas, sem explicações inúteis. Nada de sou casado, nunca fiz isso, meu Deus, que loucura, espere como é seu nome? Nenhum nome. Tudo bem, dois nomes, em algum momento daquela loucura, dois nomes. Andrew. Carla.

Eles se beijaram até que ela se ficasse zonza, as mãos dele em suas costas, em sua bunda, as mãos dele em todas as partes, arrancando sua saia e sua blusa, as mãos dele desesperadas no fecho do sutiã.

Ela riu e se afastou. Às vezes lhe parecia que os homens faziam aquilo de propósito, fingir que se atrapalhavam com o sutiã numa espécie de alívio cômico, de pausa, vamos respirar um bocadinho antes de seguirmos com esse desvario, mas se fosse um teatro, era bem bonitinho. Colocando as mãos nas costas, ela abriu o sutiã e ele a olhou, maravilhado. Aquilo não era fingimento. Eram os seios de uma mulher de quase cinquenta anos, mas o estranho pareceu mesmo gostar do que via. E quando ele os tocou e mordiscou e sugou cada um de seus mamilos, ela soube que sim, ele realmente gostara deles.

Quando ele ergueu a cabeça para beijá-la de novo, ela tentou, desajeitada, desabotoar a camisa dele. Gemeu frustrada, botões demais, botões demais, mas quando ele afastou as mãos dela para arrancar a camisa, ela choramingou alto e ele riu.

Alguém buzinou e xingou em idioma não identificado quando finalmente estacionaram em frente à casa de leilões e isso a fez pular de susto.

Jesus, mulher, trate de se recompor.

Por melhor que tivesse sido a trepada, não era para ficar com a calcinha molhada dentro de um táxi que ela estava em Nova Iorque.

 Estava lá para o leilão do ano, da década, do século, o mais importante leilão da história da arte, do espaço sideral. O leilão dos leilões.

Carla Nucci tinha cruzado um oceano só para estar ali. Só para estar mesma sala do que aquela tela, ainda que por poucas horas.

O último Rembrandt.

(continua no próximo domingo)

 

Sempre ao Domingos

Ele surgiu nas nossas vidas antes, lá em Mothern e Força Tarefa, eu tava distraída e não reparei muito, mas foi impossível não ficar hipnotizada por ele em Cordel Encantado e assim, pra todo sempre pra gente, um grupo de amigas e amigos noveleiros ele ficou sendo Capitão Herculano ou, simplesmente, Capitão.

Nós somos (sim, não deixaremos de ser) as cangaceiras de seu bando, fãs da sua beleza e da sua interpretação. Porque mais que lindo, era o olhar sincero, doce, forte que encantava. Ele estava inteiro nos seus personagens.

E em poucos papéis: o Capitão,  Paulo Ventura, Zyah, Mundo, Miguel e Santo ele interpretou brilhantemente homens que tinham um pouco dele: idealismo, ética, amor, sinceridade, dúvidas, alegria. Um homem comum e simples e nos encantou pra sempre.

A vida quase nunca é como queremos e o levou muito mais cedo do que seria desejável, a gente vai sentir saudades pra sempre, mas nada que se compare a dor que os seus sentirão. Um pequeno consolo, talvez, é realmente pensar que virou protetor do rio. Outro: lembrar que o ator nunca morre, pois sua obra se eterniza nas imagens que deixa e ele deixou um legado até breve na tv, embora inesquecível, e um grande legado no teatro e arte de ser palhaço.

E esse texto é só pra dizer obrigado por tudo,  obrigado principalmente pelo Capitão, pelo Mundo e pelo Miguel, que amei tanto e você fez tão lindamente. Domingos Montagner, sua estrela vai brilhar pra sempre, um beijo das cangaceiras e das noveleiras e noveleiros.

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Verdades Secretas e o papel da mulher na moderna novela brasileira

Faz tempo que a Globo não via um sucesso tão retumbante como Verdades Secretas, mesmo passando na faixa das 23 horas e afrontando todos os valores da moral e dos bons costumes, muito mais que Babilônia. Revela assim a dupla moral que o brasileiro sempre teve. Aquele retrato da família perfeita que por trás tem outra família ou amantes várias e tudo aceito de bom grado, desde que devidamente discreto.

A novela é bem produzida, bem dirigida, fotografia de comercial, de cinema, linda ( me lembrou muito Adryan Line), trilha sonora excelente. Ótima direção de atores. Tudo muito moderno. Tudo de excelente qualidade como raramente se vê.

Verdades Secretas teve de tudo: prostituição, drogas, menores abusados com professores e matando aula, pais sem saber o que fazer com os filhos, mulher mais velha com michê que a engana e nada, nada disso abalou a família brasileira. Ao contrário. Foi um sucesso. Mas vamos ver o que isso revela.

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As drogas. Grazi Massafera foi por unanimidade o grande destaque da novela, brilhou no papel da modelo viciada em crack que vai parar nas ruas. Não foi só a ajuda da boa maquiagem, mas cresceu como atriz e interpretou todas as dores de estar desiludida, se drogar e ser estuprada. Mas é aí que a coisa pega. Walcyr Carrasco parece ter com suas personagens femininas que saem do estereótipo de mãe dedicada e batalhadora uma vibe sempre corretiva. Em algum momento da história elas são corrigidas pelo “destino” sem dó nem piedade e finalmente se redimem. É o arquétipo da Maria Madelena, do pecado cristão, da surra corretiva (aqui me parece do estupro corretivo) seguido finalmente pela redenção. Fica muito claro isso após uma moça ser estuprada por vários homens e não ser levada a um hospital, tomar um banho que fosse. Vai direto pro culto.

Já para o filho do empresário rico, que usa droga de rico, cocaína, o ambiente da overdose é quase asséptico de tão limpo. O rapaz vai pra uma clínica e toma um banho. Ele não se envolve com a sujeira das ruas. Vai ver por isso o Ministro Barroso sugeriu descriminalizar só o uso da maconha, né? Crack é coisa de gente suja, pobre e quase sempre preta (como mostravam as cenas da novela, exceto pelo belo casal branco) e envolvida com o crime.

A culpabilização do desejo e do sexo. Em nenhum momento na trama foi mostrada alguma relação sexual ou amorosa saudável. Sexo era sempre moeda de troca de algo. Jamais de desejo por si só. Sempre uma forma de ganhar dinheiro e poder. Angel e Gui vivem num vai e vem e ela não parece mesmo gostar dele, parece fuga. Mesmo Giovanna e Antony, que parecem ter um sentimento genuíno um pelo outro, estão mais preocupados com dinheiro e fama do que com o que sentem um pelo outro. Fanny é culpada por desejar um homem mais novo a qualquer custo e assim perde sua noite de glória, mas acha um novo rapaz jovem. Lyris é assassinada pelo namorado, a quem se referem como: “perdeu a cabeça”, vejam bem. Perdeu a cabeça por ciúmes, amor. A culpa é dela, portanto. O de sempre. Pia, como resultado de sua relação com um cara mais jovem, engravida, faz um aborto e é por este condenada, sendo que ele a engravidou só pra casar com uma mulher rica: só que na cena ele sai todo dono da razão. Mas finalmente reata o namoro e se redime.

E nada para mim foi mais emblemático, justo na quinta feira em que o Congresso aprovou o horrendo Estatuto da Família, do que a cena em que a família formada por Alex, Carolina e Angel (homem, mulher e filha) está sentada à mesa, como boa família, mas mal se falam. Destroçada que é. Problemática e falsa que é a família rica e feliz.

Por último, Angel fica na última cena do casamento me parecendo demonizada quando na verdade, para mim, finalmente cresce, rompe o ciclo de abuso e entende o quanto era manipulada por Alex, se vinga e toma as rédeas de sua vida nas suas próprias mãos, o que fica muito claro no olhar de desprezo que dá para Fanny. Mas nas redes sociais era chamada de prostituta e capeta pra baixo ( e aqui nesse blog prostituta não é xingamento; pensando bem, nem capeta) quando o maior vilão da novela, Alex, mal era citado.

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E é essa a novela que afinal temos: moderna, ágil, fotograficamente bela por fora, mas que por dentro reforça uma moral dos anos 50, em que mulheres são forçadas a se prostituírem, tem culpa e morrem para se redimir ou são salvas pela religião ou pelo casamento: ninguém vai ser feliz sendo independente. Onde a escolha pelo aborto é reforçada como culpa, onde a relação abusiva de um homem com uma jovem é romanceada e ganha até torcida. Onde qualquer mulher que saia do estereótipo da Virgem Maria, a mãe devotada do lar (Carolina não era porque não foi vigilante com a filha) será punida ou vista como uma mulher pérfida e fria (olhar de Angel, no final). Nada de novo sob o sol da teledramaturgia. É só mais um Direito de Nascer com nova roupagem. Prendeu a atenção brilhantemente, mas não muda em nada o papel imaginário da mulher na teledramaturgia brasileira.

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Por último, como noveleira que sou, quero deixar meus parabéns , além de pra Grazi que esteve fantástica, pro Mauro Mendonça Filho pela direção,  pra Marieta Severo e Eva Wilma que estiveram maravilhosas e m especial para Drica Moares que merecia um caminhão de Oscar, Emmy, Kikito, APCA, etc etc: foi foda, mulher.

Alex, Angel e Complexo de Cinderela

Verdades Secretas tem feito muito sucesso desde a estreia e vem mantendo bons índices de audiência. A novela é bem produzida, a edição e a cenografia são de primeira. As cenas de nudez e sexo em vários momentos me remeteram aos filmes-clipes de Adrian Lyne nos anos 80/90 , como “9 e ½ semanas de amor” (saudades de Mickey Rourke gato). Mas novela é folhetim, é romance e daí que Angel é a nova Cinderela.

A nossa heroína, como toda boa heroína de novela, é linda, jovem, boa alma, bondosa (talvez daí o nome virtuoso Angel), carinhosa, estudiosa etcetera e tal, porém pobre e qual seu grande sonho (dela e de 99% das garotas da idade dela)? Isso mesmo, ser modelo. E aí, ao invés de ir limpar a casa e se recolher ao borralho, o que ela faz para salvar a família? “Book rosa”, e se prostitui por meio da agência de modelos (vamos frisar de novo que eu nada tenho contra prostituição, inclusive apoio a regulamentação da profissão e a mobilização da categoria, mas isso é assunto pra outro post).

E aí chega o príncipe que irá salvar a princesa do borralho, ops não é o príncipe é o Cristhian Gray… não pera… Enfim, chega o salvador-macho-dominador que irá tirar a Cinderela-modelete da prostituição. Aliás, não entendo a faceta hipócrita do público brasileiro. Duas senhoras casadas na novela das 9 é: ai-que-nojo-vamo-orar-e-desligar-a-tv-que-isso-não-é-de-deus. Um homem manipulador e castrador assediando uma jovem na novela das 10 tá de boas, porque ser prostituta de um homem só, rico e lindo a sociedade aprova, ele pode te comprar (ele falou isso), que tá tudo lindo, que você é como um bibelô. A sociedade não vê no cara bonito e rico, autoritário, estúpido, dominador etc. etc. uma má pessoa. ELE TÁ SÓ MUITO APAIXONADO. É O AMOR. Ah tá, que bom, ufa, pensei que era uma violência e relação doentia.

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E aí a Camila Queiroz (Angel),vai ao Faustão e diz que as mulheres a param na rua e dizem que torcem pelo amor de Alex e Angel. Migas, isso não é amor. É abuso. Favor assistir o vídeo da Jout-Jout umas 15 vezes seguidas e repitam comigo: ciúmes não é demonstração de amor é só machismo e sentimento de posse mesmo. É algo da estrutura do patriarcado (me deixa que sou de humanas) reforçar esse sentimento de posse, principalmente do homem com relação à mulher, essa valorização do ciúmes como um sentimento que denota grandeza quando na verdade é um sentimento de insegurança, mesquinhez e pequeneza. O ciúmes te mantém quieta e cordata, o que é o oposto de você dona de si mesma.

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Mas e aí, por que mulheres adultas, bem informadas, em pleno 2015, continuam achando que o príncipe encantado virá num cavalo branco ou numa ferrari vermelha,ou sei lá,  sendo ele um Alex ou um Christian Gray, homens dominadores e violentos, que só olham pros seus umbigos, e as salvará de tudo? Síndrome de Cinderela. Reparem bem nos dois personagens: ambos ricos, de sucesso e bonitos. Ambos se apaixonam pela Cinderela-mocinha, mas ela só terá o amor dele, príncipe, se o entender e ceder aos seus caprichos. Em troca, ele lhe dará milhões de presentes e serão muitos felizes até o novo lançamento de iphone (ou, seja, uns 6 meses). Ou então a Cinderela poderá persistir e resistir e mudar o amado, ma non tropo) e também viverão felizes até o novo Macbook ( 1 ano).

O Complexo de Cinderela foi primeiramente descrito por Colette Dowling, no livro de mesmo título, e é apresentado como o medo que algumas mulheres têm da independência, quando elas têm um desejo inconsciente de serem cuidadas por outros. O complexo é dito para se tornar mais evidentes à medida que uma pessoa envelhece. Recebeu o nome de Cinderela porque é baseado na ideia de feminilidade retratada no conto, onde uma mulher é bonita, graciosa, educada, apoiadora, trabalhadora, independente e difamada e invejada pelas outras mulheres (suas rivais), mas não é capaz de mudar sua situação com suas próprias ações: para isso, precisa ser ajudada por uma força externa, geralmente um homem, o príncipe.

E Colette Dowling continua: “Complexo de Cinderela”, que ocorre quando há um sistema de desejos reprimidos, memórias e atitudes distorcidas que se iniciaram na infância, na crença da menina de que sempre haverá alguém para sustentá-la e protegê-la. Independentemente do vigor investido na tentativa dessas mulheres viverem como adultas, a menininha dentro de cada uma sobrevive assombrando seus ouvidos com murmúrios assustados. Essa crença se solidifica na medida em que vai sendo alimentada com o tempo, mantendo na mulher um enorme sentimento de inferioridade, causando insegurança com amplos efeitos, que resultam em todas as espécies de medos interiores e descontentamentos, onde as mulheres tendem em geral a funcionar muito abaixo do nível de suas habilidades básicas. 

Me digam se o que está escrito acima não é a cara da Angel, da Carolina (mãe da Angel) e até da Fanny, que é a personagem melhor construída da novela (Marieta divando lindamente)? São todas mulheres esperando serem salvas pelo mito do amor romântico de um homem-provedor-castrador e para isso deixam de ver em si mesmas o que têm de melhor e serem simplesmente livres. Claro que as mulheres não desenvolvem esse Complexo do nada, porque são fracas, etc. É o que a sociedade nos incute, ensina, legitima e reforça (por meio, inclusive, de novelas assim). E, se a gente aplaude isso como amor, o que será que a gente faz com a gente mesmo? O que você entrega para manter o parceiro está dentro do seu limite? O que ele retribui? Você está feliz? O quanto você ainda é você dentro dessa relação? Essas são as perguntas a serem feitas, depois pergunte a si o que Jout-jout pergunta no vídeo e descubra se é amor ou abuso: afinal, Rodrigo Lombardi te salvando só existe na tv. O resto, se for daquele jeito, é um caminhão de cilada. Foge, Bino, você pode ser uma Cinderela de olho roxo, na melhor das hipóteses das estatísticas da violência doméstica.

O amor que não precisa ter nome

Por *Bia Cardoso, Biscate Convidada.

A Iara tem feito vários textos sobre a novela Sete Vidas, que está na reta final sendo exibida na Rede Globo. Também sou fã da trama e hoje quero falar sobre dois personagens em especial: Eriberto e Renan.

Eriberto é um homem requintado, leiloeiro que gosta de bons jantares e preza muito a amizade das pessoas. Ele é casado com Marta, metódica e ambiciosa. No início da trama, havia uma suspeita levantada em diálogos se Eriberto era gay, mas nada foi comprovado. Essa suspeita só retornou quando Renan apareceu na trama. Dentista que também gosta de prazeres refinados, foi Marta quem os apresentou sabendo que se dariam muito bem.

Acontece que tanto Eriberto como Renan são casados com mulheres. Aí, nossa curiosidade mórbida sobre a vida alheia fica naquela expectativa: são gays? não são? o que é isso? A melhor parte é que Lícia Manzo, autora da novela, não parece estar preocupada em definir o que Eriberto e Renan são, mas sim em nos presentear com cenas maravilhosas em que os personagens mostram uma intimidade e um amor tão pungente que chegam a ser mais explícitas que um beijo na boca.

Há algo nas cenas cotidianas, como a visita a casa de Petrópolis ou a compra de um terno, que mostram uma amizade até rara de se ver entre dois homens. Porém, foram nas cenas ocorridas após o falecimento do pai de Eriberto que mais transpareceu esse amor sem nome ou carteirinha registrada. O olhar entre os dois quando Renan consola Eriberto é a representação física da empatia e do acolhimento entre duas pessoas. Além desse, há o momento da cerimônia das cinzas e a decisão de Renan presentear Eriberto com um relógio antigo.

Os atores Fábio Herford e Fernando Eiras declararam que essa é uma história de amor e paixão cheia de afinidades e fraternidade, mas sem beijos e carícias. Até mesmo o fato de serem dois homens mais velhos representa uma nova forma de apresentar um relacionamento em novelas. É claro que queremos ver nas novelas e em outras produções culturais muito beijo na boca e sexualidades que fujam da heteronormatividade, mas ao defender todas as formas de amor também é preciso lembrar dessas outras vivências do verbo amar.

Eriberto (vivido pelo ator Fábio Herford) e Renan (vivido pelo ator Fernando Eiras) em cena da novela Sete Vidas (2015).

Eriberto (vivido pelo ator Fábio Herford) e Renan (vivido pelo ator Fernando Eiras) em cena da novela Sete Vidas (2015).

foto_bia*Bia Cardoso é feminista e lambateira tropical.

 

As mocinhas que amamos, ou não

Mocinhas de novelas. Amamos e suspiramos e nos identificamos. São as princesas Disney dos adultos, elas que superam as dificuldades e ficam com o príncipe no final, que antes era um sapo. Ok, algumas mocinhas nós odiamos também e preferimos amar as vilãs ( beijo, Carminha). Outras vezes, não amamos ninguém, né, Babilônia?

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Lígia, em Sete Vidas, representa o amor em estado mais latente, aquele amor profundo que acaba por tudo perdoar e que vive do que o amor é feito: esperança (desculpem, tô romântica, mas me vejo nela, e por isso a gente ama as novelas, não?). Mas, Lígia faz aquilo que todos nós, quando apaixonados, fazemos quase sempre: que é ver no ser amado a possiblidade de alguém melhor do que ele é, um embrião de algo espetacular que ele mesmo não vê. Vemos também espelhos, vemos nele nossos sonhos de amor, a pessoa ideal, aquilo que queremos. Daí o impasse da impossibilidade amorosa daquilo que se é para aquilo que se quer. Como por exemplo nessa cena, em que Ligia e Miguel pensam um no outro.

E, invariavelmente, na vida real, o fim do romance. Na novela, não. Miguel vai mudar graças a ajudas externas. Na vida real, a ajuda externa para mudança pode acontecer, se a pessoa quiser, via terapia. Mudar não é obrigação, a não ser que se deseje para si mesmo e não para agradar o outro.

Mas essa tônica de buscar no outro o que ele não é e esperar que ele seja está em todos os outros conflitos amorosos de Sete Vidas. Por isso que a novela encanta tanto. Lícia Manzo busca na vida o material para seus diálogos bem tecidos.

Já a mocinha Regina (interpretada pela atriz Camila Pitanga), de Babilônia, ficou conhecida como um mantra de chatice. Embora lutadora, o telespectador não consegue achar uma identificação possível porque ela é intransigente e mal agradecida. E é muito sofrimento fabricado em cima de sofrimento. Muito drama artificial, muita armação que com um mínimo de tutano seria desmascarada.

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Isso acontecia em Avenida Brasil, por exemplo? Sim, mas ali tinha ritmo e humor, diferenças fundamentais. Ademais, ninguém conseguiu criar empatia suficiente com o sofrimento de Regina. Afinal, ser abandonada no lixão, órfã, era é muito mais impactante.

Sobre o fato de Regina fazer barraco e gritar muito, me lembrei que haviam essas mesmas reclamações sobre a Maria do Carmo de Regina Duarte, em Vale Tudo. Mas, a personagem tinha sempre uma atitude muito positiva diante de tudo, tinha “o sangue de Jesus tem poder”, e criou empatia com o público. Ademais, acho que o tiroteio da audiência fez com que os autores de Babilônia perdessem o prumo da novela, uma pena, porque Camila Pitanga fez trabalhos maravilhosos, como a Bebel de Paraíso Tropical, do mesmo Gilberto Braga, e a Isabel, de Lado a Lado.

De se pensar que o público de hoje, muito mais conservador, rejeita uma personagem lutadora da favela e amava a prostituta Bebel.

Outro ponto é que a falta de identificação do telespectador com Regina não passa só pela chatice da personagem, mas possivelmente pelo fato de, além de barraqueira, ser antes de tudo negra e favelada, fato que nem Nina e nem Maria do Carmo eram. E o racismo pode se pronunciar nisso também: na dificuldade de se identificar com uma heroína negra.

De minha parte, torço para Babilônia se apague rápido das nossas memórias e Sete Vidas, ao contrário, siga como exemplo, e Lícia Manzo chegue em breve ao horário das 9, porque ela merece.

Sete Vidas, uma novela de gente madura e analisada

Cresci sendo noveleira. Madrinha assistia a todas as novelas do dia, e eu junto. A TV formou parte do meu ser, e digo que foi mais para o bem que para o mal. Lembro até hoje de Gabriela catando aquela pipa trepada no telhado: eu devia ter uns 6 anos.

Amo quando tem novela boa pra ver. Mas tudo ok quando uma novela é ruim, porque continua tendo outras em algum lugar. A novela ruim da vez, e olha que prometia ser ótima, é Babilônia. A novela delícia é Sete Vidas. No meio, de recheio a conferir, temos I Love Paraisópolis (Isso ficando só nas da Globo. Porque tem as da Record também).

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Mas queria falar é da minha paixão: Sete Vidas, aka Sete Filhos de Amyr Klink. Ao assistir a novela, me lembrei primeiramente de uma fala de Nora Ephron nos extras do DVD de Harry & Sally. Era mais ou menos isso: a comédia romântica cristã tem o conflito baseado no externo – alguém ou algo que impede o casal de ficar junto. Já na comédia romântica judaica, o que impede o casal de ficar junto são as neuroses de cada um deles. Daí que não temos mais vilões bolando mirabolantes planos do Cebolinha para sabotar o amor dos pombinhos. Basta uma palavra errada, um atraso, um esquecimento, enfim, a vida como ela é, e está estabelecido o conflito, os rompimentos, o vai e vem. E é disso que é feita Sete Vidas.

Aliás, Sete Vidas me lembra mesmo Harry & Sally, um dos meus filmes favoritos. É uma novela de muitos diálogos, não longos e intermináveis, mas dinâmicos e variados. No twitter é chamada de “novela da DR”. Mas, novamente, a novela usa a matéria-prima da vida: conversas. Conversa sobre nós mesmos, dúvidas, medos, possibilidades. O que fazemos todo dia no bar, no inbox, no whatsapp.

Sete Vidas é uma novela de gente analisada. Não basta uma das mais encantadoras personagens ser uma terapeuta em conflito: as boas pessoas dali, aquelas com quem a gente se identifica, são capazes de analisarem si mesmas, seus sentimentos, os dos outros, voltarem atrás, se perdoarem, perdoarem o outro, mudarem, terem empatia. Não é isso que faz de uma pessoa uma pessoa boa? Um ser bacana? Ser alguém sempre em reconstrução?

Uma das pessoas mais bacanas é a Esther, personagem da Regina Duarte, lésbica, viúva e mãe dos gêmeos gerados pela doação de Miguel.  A capacidade de analisar a si mesmo nos faz sermos pessoas maduras e capazes de rir de nós mesmos, e isso é algo que Esther faz com maestria e leveza.

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A novela tem  quase que só personagens brancas e de classe média ou alta, na sua maioria, coisa que incomodou bastante no início da novela: mas a falta de diversidade racial e social foi amenizada com a chegada da Esther e sua amizade com a empregada da filho, Graça, e o filho desta, Carlito. O núcleo gerou cenas de ótimo conteúdo sobre discriminação social e racial, sem a cara de textão ou propaganda do MEC – ao contrário do que acontece frequentemente com a personagem de Fernanda Montenegro em Babilônia.

Por último, acho que a novela coloca como mocinha, não Júlia, nos seus 20 e poucos anos e seu amor por Pedro (larga dele fica com o Felipe!), e sim uma personagem que é mais próxima da telespectadora:  Lígia  e seus quarenta e algo e seu amor pelo arredio Miguel, aquele que foge até do laço do cadarço do sapato, ao que parece.  Lígia é uma mulher madura, que ama com todo o coração, mas tem carreira, filho, mãe chata, irmã, amiga que pisa na bola mas que é gente e ama e por aí vai.  É classe média, tá fechando as conta no final do mês, de boas. Mas, novela tem que sonhar ao menos um pouco, né?

E é assim que me dou conta que que ao menos que a trama seja muito dinâmica, bem dirigida, os atores bem escalados, estejam bem no papel, a trama bem amarrada, como Cheias de Charme e Avenida Brasil, não tenho mais saco praquela coisa muito fantasia de vilão maluco sabotando tudo com planos mirabolantes. Torço por mais novelas humanas com pés no chão e que, na próxima incluam mais negros, negras e suburbanos, enfim, diversidade.

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(todo mundo madurinho e analisado agora?)

Clarina e a família brasileira

E lá se foi a  novela mais chata dos últimos tempos. Ok, na verdade, a novela mais chata e ponto. Ganhou de lavada de todas. Até a última semana foi morna, até o último capítulo, zero surpresa, zero reviravolta, zero emoção digna de nota.

Tento avaliar o aspecto que poderia ser mais positivo: levar ao público a visão positiva de um casal lésbico, mas pela forma que a trama foi conduzida nem isso conseguiu. Talvez se Maneco tivesse optado por outras soluções dramáticas e tivesse um mínimo de coragem as coisas fossem diferentes.

Os questionamentos mais frequentes se referem ao Cadu, personagem de Reinaldo Gianechinni, um cara reconhecidamente gato. A pergunta de sempre: que mulher largaria um gato daqueles por outra mulher? Vamos lá pra FAQ lésbica da vida real.  A sexualidade humana não é um negócio assim fechadinho, sabe? As pessoas que se permitem experimentar muitas vezes se descobrem bissexuais, gostam de pessoas dos dois sexos e isso pode ocorrer em diferentes momentos da vida. Ademais, casamento acaba simplesmente porque acaba. Vários são os motivos, viram irmãos na mesma casa, vários conflitos de personalidade, tédio e são tantas coisinhas miúdas… Mas ahhhh, a família… Olha, as pessoas se separam e os filhos sobrevivem. E bem, sabe? Assim na vida real como na novela, caso do garotinho Ivan. Tudo depende de como os pais levam a separação. Sobre o sexo lésbico temos aqui no Biscate mesmo um ótimo post, sim, é possível e ótimo um sexo sem pinto.

Cadu entre Clarina (foto do facebook da Giovanna Antonelli)

Cadu entre Clarina (foto do facebook da Giovanna Antonelli)

Mas quanto à novela, Cadu era uma cara que sonhava alto mas sempre metia os pés pelas mãos, era infantil, isso no começo da novela, era perfeitamente possível e aceitável que exatamente por isso o casamento tivesse acabado e estivessem juntos só pelo filho. Quantos casais vivem assim? Mas o público não aceitou que o fofo Giane fosse trocado, veio a doença do personagem e paf! Giane se tornou um cara maduro e bacana. Mágica de novela!  Daí ficou mais difícil ainda pro público careta, homofóbico, lesbofóbico, entender porque Clara deixou de amá-lo e amava uma mulher. Mas olha, juro que isso acontece na vida real, viu? Porque tem gente que ama pessoas, não gêneros. Simples assim. E amor começa, e acaba, e tem que ter tanto coragem pra começar quanto pra terminar e, sim, as crianças vivem muito bem se tudo isso for dito a elas ao invés de… e fomos felizes para sempre (o que na grande maioria dos casos é uma grande mentira). Aliás, essa cena foi muito bem resolvida na novela, Clara contando ao filho que iria casar.

Então, o grande público que detestava ver, de novo, um casal homossexual, aguentou porque não tinha nenhum toque explícito, só um selinho e agora leio comentários nos sites especializados em tevê sempre reclamando de uma suposta invasão homossexual nas novelas.

Por outro lado o casal foi queridíssimo por outra parcela do público que formou até fã-clube e shippou (juntou) as duas formando o casal #Clarina (Clara+Marina) torcendo pelo amor das duas, e subindo várias vezes a hashtag no twitter. Realmente, aleluia, o mundo mudou. Mas nem a emissora, nem o autor me pareceram dar muita bola pra fãs não, infelizmente, porque poderiam ter explorado muito mais o romance entre as duas. E digo por explorar terem mostrados cenas românticas mesmo e não sexuais (já que parece ser demais e não é para o horário).

Olha, e não é invasão gay, é o mundo real. Graças a muita luta, e muita dor nessa luta, as pessoas estão saindo dos armários e vivendo a vida que todos vivem, se abraçam, se beijam, se casam, vão ao mercado, criam filhos e a novela, como produto de sua época, só espelha isso. Então, seja bem vindo o novo casal gay, Zé Mayer e Klebber Toledo em Império e que tenham melhor sorte. Ao menos não se casarão com vestido igual e que se parece com o das discípulas de Inri Cristo…

As Inrizetes

as Inrizetes

Novela machista e antimoralista ao mesmo tempo?

Por Niara de Oliveira

É da vida a contradição. Para quem não sabe, eu assisto novela. Quanto mais ruim a novela mais me apego. Sei lá se Freud consegue explicar. Percebo que é ruim e onde, mas assisto. É excelente para esvaziar a mente, para relaxar. A Globo possui há alguns anos um canal na tevê fechada, por cabo, que é uma espécie de memória sua, o Viva. Ele reprisa programas da emissora e principalmente novelas. Normalmente são três novelas reprisadas ao mesmo tempo, sempre à tarde com reapresentação diária dos capítulos a partir da meia noite. É aí que, depois de concluído o combo fazer janta, dar banho no filho e colocá-lo na cama, eu me jogo no meu sofá, ponho as pernas para o alto e relaxo diante da tevê. A-DO-GO!

Para o meu deleite, as novelas têm piorado muito de qualidade nos últimos anos. Salve Jorge e Amor à Vida foram péssimas e Em Família bate recordes de reclamações nas redes sociais (procurem pelas hashtags #SemFamilia e #EmHelenas) e já são muitos os textos apontando absurdos, preconceitos, reforço de opressão, falhas, etc. A pior novela que reprisa agora no Viva, História de Amor (também do Manoel Carlos) é infinitamente melhor que Em Família. Manoel Carlos nunca foi tudo isso mesmo em diálogos (quedê Gilberto Bragaaaaaaaaaaa?), embora seja bom na construção de personagens. Ele constrói tão minuciosamente cada personagem que permite a alguns atores, no caso de serem bons, meio que carregarem a trama nas costas. Em Família nem isso está dando conta, porque os diálogos são tão ruins, tão estereotipados e reforçadores de opressões e preconceitos que enterram o esforço e o talento dos atores.

Mas isso é só uma introdução, meio que justificativa, para dizer que uma das antagonistas de Em Família conseguiu a empatia do público — ao menos do público da novela com quem converso –, talvez justamente porque não tinha esse compromisso e o talento da atriz ajuda muito. Shirley, interpretada por Viviane Pasmanter, é uma mulher dona de sua sexualidade. Permite que os filhos transem em casa, incentiva os filhos a terem prazer com o sexo, incluindo a filha, pega na cobra, se enrola na cobra, faz foto nua… Enfim, é a biscate da novela. Sim, tinha o bullying que ela praticava com a filha por ser “””gorda”””, que agora meio que saiu de cena, tem a inveja, o recalque com a “mocinha”, tem a obsessão pela paixão da adolescência, tem o uso do dinheiro para humilhar as pessoas, tem o prazer em humilhar o outro, a diversão com a desgraça alheia… Enfim, é uma antagonista.

Do outro lado da trama, Helena certamente sabe que a filha Luiza tem vida sexual ativa, mas não lembro das personagens conversando a respeito. Shirley teve várias conversas com a filha sobre sexo, sobre aproveitar a vida, experimentar, não se prender a apenas um namorado…se jogar. Numa delas chegou a dizer textualmente que a filha precisava se livrar da virgindade para viver os prazeres da vida. Achei supimpa!

Não curti tratar a primeira transa de Bárbara (Polliana Aleixo) como um presente, uma prenda dela pro amado e nem dele se sentindo presenteado por ser o primeiro e a associação “indissolúvel” de sexo com amor na trama do casal. Mas, né…numa novela onde o primeiro beijo lesbo só aconteceu depois de colocar aliança no dedo… Voltando ao caso da Bárbara, o bacana é que ela fez o que quis, do jeito que quis, em casa e com o apoio incondicional da mãe, além de parecer não ter se apegado a valores muito moralistas — o que seria até compreensível sendo ela uma vítima de bullying da mãe, poderia ter feito o caminho oposto apenas para ser diferente. Ela só queria transar com ele porque gosta dele, e isso é da vida. O mais bacana: a reação de Shirley na conversa com Bárbara sobre sua primeira transa é emocionante.

no capítulo de sábado, Shirley se emociona ao saber da primeira transa de Bárbara

no capítulo de sábado, Shirley se emociona ao saber da primeira transa de Bárbara

Se por um lado a novela dá vontade de quebrar a televisão com os diálogos de culpabilização da vítima por agressão (vide o diálogo de Alice e Vitor no sábado), com destaque aos diálogos que envolveram o caso de Juliana e Jairo, a abordagem de estupro, assédio, aborto, tortura psicológica — que valem muitos posts para denunciar mesmo sabendo que a caca está feita pelo alcance que tem a novela no imaginário e subconsciente popular –, nesse núcleo é quase uma ode antimoralista. Numa vibe meio Pollyanna, a novela é tão ruim tão ruim tão ruim que decidi falar de uma das poucas coisas (talvez a única) boas da trama. Não é que seja ruim, ‘o povo é que não tem cultura para entendê-la‘. Ou a #ACulpaÉDoDebussy.

Em Família está acabando, UFA! Vem aí mais uma novela do Agnaldo Silva com mais uma trama requentada. Na última novela desse autor tivemos um gay estereotipado, um assassinato homofóbico e um estupro em que a vítima gamava no estuprador. Espero que seja bem ruim para eu me apegar (mentira, me apego a qualquer uma, sou facinha) e para poder reclamar bastante no twitter. Bóra reforçar o estoque de Dramin e Plasil.

p.s.: tô aqui fazendo “as vêis” da Bete Davis que não escreveu sobre novela na quinta-feira passada. 😛

As mulheres do Maneco

Manoel Carlos é descrito como um autor de mulheres, em especial por causa de suas Helenas, série iniciada por Lilian Lemmertz em Baila Comigo e terminada agora por sua filha, Julia, na novela Em Família. Mas ao ver a atual novela das 9 e rever no Viva, História de Amor, com outra Helena, vivida por Regina Duarte, me pergunto o porque desse título.

a última Helena (Julia Lemmertz)

a última Helena (Julia Lemmertz)

Naonde que resolveram que o Maneco entende tanto assim de sentimentos femininos? O que vejo em ambas as novelas, e em especial na novela atual são mulheres neuróticas (no sentido freudiano) beirando a histeria, outras beirando a psicose (vide a Juliana de Em Família).

Juliana (Vanessa Gerbelli) descontrolada -- de novo -- no capítulo de ontem (foto: gshow)

Juliana (Vanessa Gerbelli) descontrolada — de novo — no capítulo de ontem

Todas poderiam fazer parte de um clássico da literatura de autoajuda: Mulheres que Amam Demais, que inclusive já apareceu numa novela do Maneco, que tratam de co-dependência emocional, o livro inclusive gerou grupos de ajuda pra dependentes emocionais a exemplo do AA. As mulheres das novelas do Maneco amam filhos, maridos, namorados, ex-namorados, ex-maridos e por aí vai muito mais que a si mesmas e suas vidas giram somente em torno disso. A vida familiar para o Maneco está acima de tudo. Ninguém curte os amigos, os estudos, o emprego, nada. Para a mulher do Maneco só existe o amor e pra provar o amor, só muita, muita dor. Pra ela, claro.

As mulheres de Em Família matam pra ter uma filha porque não concebem uma vida sem aquela determinada criança. Não amadurecem e vivem presas ao passado e à figura materna, filhas são eternas filhas adolescentes, mesmo quando mães. Filhas adolescentes saem de casa mas papai paga as contas, ficam emburradinhas por tudo, escolhem o pior sujeito da face da terra pra casar. Sempre amam o homem errado, óbvio, mas é aí que se prova o amor, né Maneco? Amando muito o estrupício que vai destruir a sua vida. #SQN

virgilio

a voz da razão é sempre masculina; em “Em Família” essa voz é de Virgílio (Humberto Martins)

Já a voz da razão na novela existe pela boca de um homem, Virgílio ( alter ego do autor?, assim como o Dr. Moretti em História de Amor?), havendo , inclusive, um diálogo onde se diz que “tinha que ser ele, tinha que ser um homem” pra resolver aquela situação (mais uma bebedeira do Felipe, irmão da Helena). Virgílio em geral pensa com calma e lucidez, ao contrário das mulheres da novela, que berram e esbofeteiam em cena ao esboço da menor contrariedade. E quando Virgílio se altera, como no capítulo do dia 03/06, é visto como másculo e enfim deixou de ser banana. Quero, ainda, deixar anotado que Humberto Martins está excelente no papel, mesmo a novela sendo péssima.

Sendo assim, se a gente concorda que o Maneco é um autor de mulheres, ele está escrevendo para quais mulheres? Será essa falta de identificação da mulher moderna que tem as rédeas da própria vida nas mãos, que ama mas não é escrava de nenhum amor e tem diversos interesses que tem deixado a novela com índices de audiência tão baixos? Acho mesmo que essas mulheres se identificavam mais com as empreguetes (Cheias de Charme), que eram amor, garra, trabalho, amizade e não uma neurose sem fim. Só resta torcer pra novela acabar logo, ou tentar a novela da Record.

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