Pequenos prazeres biscates: faça você mesma

Essa quinzena, nas entrelinhas, tem gemidos baixinhos, suspiros, um tanto de saliva, arrepio na pele, sorriso largo, memórias e desejos. Vem com a gente, conhecer nossos pequenos prazeres biscates…

 #PequenosPrazeres

masturbação

Ouviu seu grito de gozo e viu que era bom. E aí se fez uma paz e uma alegria tão grande dentro dela que adormeceu. Ali ao seu lado, repousavam os objetos companheiros daquele orgasmo todo: seu vibrador e o já quase findo, lubrificante.

Tinha muito tempo que a moça se esquecera desses pequenos prazeres solitários. Há muito tempo que não gozava assim, para a casa toda ouvir. As paredes e seus tijolos e tintas, o sofá, o criado-mudo, as janelas e as cortinas. Havia, novamente, gozo naquela casa. Havia prazer.

Achava que não sabia mais gozar sozinha. Tinha tanto tempo que não se tocava, que não se amava, que não sentia tesão por si mesma. Andava muito ocupada com o mundo lá fora, que se esquecia que era necessário gozar a vida. Em todos os sentidos.

Naquele dia preguiçoso, em que não precisava trabalhar nem lavar louça, nem cuidar do mundo um segundo sequer, podia se dar ao prazer, ao desfrute, às carícias. Lembrou do último moço com quem havia se encontrado e lembrou o quanto foi bom. Levou a mão até a buceta e começou a mexer devagarinho, sentindo os pelos e a pele tão macia. Estava molhada, mas ainda não era suficiente. Lembrou da sua caixinha guardada no baú.

Acordou de um sonho daqueles tão bons que nem dá vontade de sair dele. Sonhara com um moço alto, moreno, de sorriso largo e uma moça de camisola transparente preta. Eles não se falavam, mas se conheciam e transavam os três ali numa espécie de esteira, numa sala aberta com muitas pessoas passando.

Acordou molhada. De novo. Sentindo um tesão enorme. Não teve dúvidas de que era chegada a hora de gozar, gozar como se o mundo fosse se acabar todo ali, estupefato com seu sexo molhado, inchado, macio e ávido para botar fim naquela deliciosa agonia, ansiando pela petit-mort.

 

Orgasmos

Hoje é o Dia Mundial do Orgasmo. Ora pra que a modéstia, bora usar o plural: orgasmos. Pra biscataiada, na verdade, todo dia é dia, mas não custa fazer um auê nessa data querida, muitas felicidades, muitos anos de vida.

no banho, onanismo. São Paulo, Brasil, 29/07/2013. foto: Antonio Miotto.

onanismo…

Então, vou liberando momento confissão. Livrinho de banca. Gente, meus primeiros orgasmos não foram meus, foram de jovens trêmulas que sentiam os mastros aveludados intumescidos contra seu corpo. Coleção Momentos Íntimos e segue ladeira abaixo. Depois desses vieram os gozos cinematográficos, olhos fechados, músculos contraídos, posições acrobáticas e gemidos, muitos gemidos. Com o tempo foram entrando no repertório os manuais em revistas femininas, as conversas com amigas… O orgasmo parecia com linha de chegada de fórmula um, se você tivesse um motor possante e um piloto arrojado, era correr pro abraço e abrir o champanhe.

Ainda bem que não é assim. A belezura do lance é que ado, ado, ado cada um no seu quadrado, círculo, retângulo. Assim, hoje, comemorado o Dia Mundial do Orgasmo, nada melhor do que cada um tratar de pensar/providenciar/significar o seu (cês repararam como meu umbigo tá especialmente bonitão hoje? mas se quiser textos mais informativos, aqui no blog você encontra uma porção)

Pra começar, quando chegou na minha vez de colocar a mão na… massa (por assim dizer) troquei logo a denominação: sai o orgasmo, manda ver no gozo. Gozar é, pra mim, mais divertido, menos pretensioso e mais abrangente. Gozar a vida, gozar com a cara do coleguinha, gozar o momento. Também fui abrindo mão das representações apoteóticas, as estrelas não precisam mudar de lugar. Como a gente já conversou aqui no blog tem dia de pão com ovo, tem dia de refeição gourmet, mas tudo enche bucho, satisfaz e alegra… o negócio é se permitir, inclusive, escolher a fome, não a saciedade (penso eu). Experimentar sozinha, sugerir, perguntar…. todas essas coisas eu fui fazendo (e faço ainda). Ah, e deixar pra lá o controle. Como eu sempre digo (sobre quase tudo): não é o resultado, mas o processo.

no banho, onanismo. São Paulo, Brasil, 29/07/2013. foto: Antonio Miotto.

… no banho, quem nunca?

Fui abrindo mão das respostas certas, dos modelos, das certezas. Velho? Goza. Gente “feia”? Goza. Gente gorda? Goza. Gente pobre, rica, pescador, operário, advogado e zelador. A galera goza. Gente que estuda, trabalha e milita? Goza. Num precisa ter lençol de cetim nem espelho no teto. Não precisa pintar o clima, a gente pode ouvir o Vandré: quem sabe faz a hora, não espera acontecer. Ficar descabelada, despenteada, dada, danada, andar seminua. Uma mão que explora, faz do corpo território. Dedos que brincam, moleques. A língua que desliza, curiosa, descobrindo sabores. Suor. Textura. Cheiro. Riso. Roçar. Esfregar. Ir. Vir. Repetir. Inventar. Sentir. Arriscar. Acostumar. Encontrar. Pele. Corpo.

Gozar é subversivo, eu acho. Sem regra, sem balança, sem trena pro prazer. Sem manual, hora certa, nem posição mais indicada. Sem precisar de calendário nem data comemorativa. Eu gozo, tu gozas, elx goza, nós biscateamos o mundo.

(fotos: Antonio Miotto)

Orgasmo, Uma Receita. Ou não.

Por Teresa Filósofa**, Biscate Convidada

Todo mundo quer orgasmos. Todo mundo fala sobre orgasmos. Todo mundo ao menos pensa neles – ainda que não admita*.

Zilhares de livros, matérias, programas de tevê prometem ensinar o caminho das pedras. Quer saber? A questão é que nada do que eu li, pesquisei ou conversei me preparou para eles. Quer saber mais? Até atrapalhou. Quando eu era adolescente, tinha uma vida sexual legal pra caramba, composta por um namorado carinhoso, um certo conhecimento do corpo, autoestima, uma educação bastante liberal, até uma mãe que falava do assunto eu tive. E o que faltava então para eu chegar no orgasmo? Segundo o manual, nada. E eu não tinha problemas fisiológicos me impedindo (porque já tinha tido orgasmos na pré-adolescência, antes da vida sexual propriamente dita começar). Faltava o quê então? Por que não rolava?

Tive a intuição de que faltava uma certa maturidade psíquica para chegar lá. Que o tempo de rodagem faria seu trabalho. E que era só continuar o que eu estava fazendo e gozar a fresca da brisa que uma hora tudo entraria no seu eixo, devagar, curtindo o caminho. Tomei coragem para comentar com uma ou outra amiga aqui, com uma médica. Rechaçaram minha intuição e reforçaram o discurso de que já devia ter ido. Acharam bobagem minha tranquilidade, falta de pressa. Por que deixar para amanhã o que você pode gozar hoje? Cheguei a me sentir ridícula: que tabu é ter a faca e o queijo na mão e não ter pressa de comer. A verdade é que não devia nada: poucas coisas tem que ser nos caminhos do corpo. Cada corpo tem seu tempo e sua história.

orgasmo

E segui fazendo o que eu tinha que fazer. Tive um parceiro que se recusava sequer a falar no assunto. Não preciso nem dizer que não ajuda em nada. Outras relações vieram, muita biscatagem rolou, e precisou de um bom tempo de eu comigo para descobrir como funciona a maquininha mental de puxa o gatilho dos orgasmos. Taí uma verdade nas teorias todas: masturbação realmente tem um papel fundamental para trazer o orgasmo de uma sorte do acaso para um efeito do corpo que se possa estimular, com algum controle. E o bloco do eu-sozinho também toca uma música diferente para cada uma. Eu só passei a curtir a brincadeira quando ignorei os manuais (de novo). Autoconhecimento pede uma dose de determinação e força grandes, principalmente quando o desejo sai do script, da curva, cai no delicioso terreno do inconfessável.

3 Pão com ovo, por Caroline SporrerOutras coisas que ninguém te diz: eles têm sim intensidades diferentes. Tem dia que é pão com ovo, tem dia que é entrada, principal e sobremesa, com mesa virada e taças de cristal trincadas. O que se passa com essa penca de sexólogos que não consegue afirmar com certeza que existe sim uma gama de intensidades diferentes? E de infinitas reações do corpo. Não estou falando da divisão de clitoriano e vaginal: cada um tem sua própria escala Richter. E tem dia que, mesmo num estado orgástico, de quase-quase, não vem mesmo. E tudo bem.

Numa conversa bem mais sincera com uma amiga que também já tinha se enchido dos especialistas infalíveis, caiu o assunto do orgasmo vaginal. Compartilhamos o desabafo meio triste, meio aliviado, de que não era para nós. Que bom não estar só num mundo (ou numa rodinha feminina) em que esse orgasmo, parece, vende de baciada. Até que um dia chegou para uma. Depois quase veio para a outra.

E aí chegamos a como eu cheguei. E a um outro tabu. Eu fingi. Fingi um bocado até gozar de verdade. Transformei muito quase em finalmente. E não me arrependo nem um pouco, assumi o ônus e o bônus. Quem dá entrevista para a Nova e congêneres dizendo que não se deve fingir orgasmo certamente nunca lidou com o ego ferido de um homem (não que todo homem vai reagir assim, mas como saber antes?). Às vezes o rapaz se machuca tanto, encara como falha, e não como coisa da vida, que tem jeitos melhores de lidar com a coisa. Cada vez que quase foi, levou o par a aprender o que funcionava, o que era bom, o que arrepiava. E foi ficando cada vez melhor. E muito rápido o quase virou de verdade. E quedê manual ditando regra agora? Queimei todos, do fundo do meu coração.

É triste não gozar, mas é mais triste ainda ter culpa por não ter gozado. Queria ter ouvido essas coisas quando era mais nova. Queria que nos espaços de falar das coisas do corpo, do sexo e do amor, houvesse mais paciência com os muitos tempos e histórias diferentes. E que a nossa liberdade e direito ao gozo, em todos os sentidos, não fosse nunca uma prisão. Queria saber mais cedo que com o tempo tudo ia ficar mais fácil – na cama e fora.

* quando a gente diz todo mundo é frase de efeito, né. Sabemos que existem os assexuais e que sua orientação é tão válida quanto as demais.

harry-sally

Teresa Filósofa já ouviu muita bestagi por aí afora. De vez em quando fica matutando que há tanta coisa importante sobre a qual não se trata, porque tem muito tabu até em se falar de se falar disso… Aí ela vem e solta o verbo.

Orgasmo Masculino Fake: o Desejo X a Culpa

Há alguns dias eu recebi um desafio. Sim, teve uma reunião das Bisca que decidiram me interpelar brutalmente (DM no Twitter, com twit de “@Mozzein —>DM”) para que eu falasse de um tema complicado para nós, homens: orgasmo fingido, broxada. A ideia era aproveitar as discussões resultantes do post “Orgasmos: é à brinca ou é à vera?” da Renata Lins e da Silvia Sales e preparar um dedo na nossa ferida… (O post foi tão bom que rendeu a homenagem do Matheus, confira aqui) e fiquem calmos, o dedo vai só na ferida mesmo. Como eu sou muito #FACINHO, aceitei imediatamente, pois, já que eu estou fazendo hora e fazendo fila na vila do meio-dia, não custa nada me coçar, me roçar e me viciar na biscatagi…

A questão principal é HOMEM FINGE ORGASMOS? Como isso poderia acontecer? Há quem diga que homem só broxa e que fingir orgasmos é coisa de mulher… pê-pê-pê, pá-pá-pá, sexismos etc. e tal. Só digo uma coisa pra vocês, dispam-se disso. Homem finge orgasmo sim. Vamos pensar em conjuntos, em inter-relações e em trocas para tentar entender isso… se eu abusar do sociologês, pode bocejar e continuar lendo, mas vamos lá.

Primeiro, sexo e orgasmo (heterossexual e homossexual) é algo que se descobre a dois. Não existe uma receita. Existe prática, conhecimento do outro, cumplicidade. Pode rolar de primeira, delícia que sempre seja assim, mas se não rolar (e, pior, se não está rolando) é importante se conhecer. Colocar o nariz, a língua, o dedo, a boca, usar de todos os artifícios que o nosso corpo permite (e que não o “destrua”) para aproveitá-lo, na plenitude.

Outra coisa é o autoconhecimento. Não adianta querer meter o dedo (y otras cositas más) no outro se não sabemos onde o outro pode colocar na gente. “SE TOQUEM”, sempre digo isso! (aliás, se você não leu, veja lá a situação do Gerônimo!) É preciso que as pessoas pratiquemos isso! Como pretendemos ter algum tipo de prazer sexual, despejar o gozo do nosso desejo (que envolve 2 partes, o psicológico e o somático, a mente e o corpo) se, no mais simples, no nosso corpo, nos recusam a nos TOCAR??? Irrita-me, profundamente, quando escuto certos discursos que, muitas vezes veladamente, condenam o autoconhecimento. Pior, que condenam o reconhecimento do próprio corpo como um elemento de satisfação.

Sim, o nosso corpo é um elemento da nossa satisfação. Ninguém está aí para ser a satisfação do outro (o nome disso é estupro, físico ou cultural, sim, se você finge o orgasmo você pode estar sendo culturalmente estuprado). E o bom é que se alcance a satisfação com o outro, juntos, senão não serve. Pra isso, há uma terceira questão: A CULPA. Sim, essa senhora é o algoz de todo o DESEJO. CULPA, CUL-PA, C-U-L-P-A. Pessoal, familiar, social, ou cultural, a culpa é o motivo de muitos orgasmos fingidos. É a culpa de ser gordo em uma sociedade magra, de ser feio em uma sociedade linda, de ser raquítico em uma sociedade atlética, de transpirar em uma sociedade anti-transpirate. Mas esse é só o primeiro nível de culpa, pois envolve apenas aspectos fisiológicos.

Outro nível é a culpa de gozar. Não só de gozar, mas de se permitir fazer sexo. É a dos jovens de pais repressivos, dos homossexuais de pais homofóbicos, dos religiosos de seitas que pregam a suma reprodução, dos diferentes que sofrem com os dedos apontados pelos iguais. Haja Freud! Se encaixou em alguma delas? Pois é, é aí que começa o fingimento do seu, do meu, do nosso orgasmo, querido leitor-leitora biscate-wanna-be. Sim, isso serve para as meninas.

Isso tudo me traz à cabeça Clarice Lispector no “Uma aprendizagem, ou o Livro dos Prazeres”, que conta o processo de emancipação sexual de Lóri, levado a cabo por Ulisses. Não vou entrar em detalhes sobre a história (cuja leitura, mais que recomendo), me interessa a questão da emancipação que, no caso, ocorreu pelo fato de que alguém que exercia um papel de dominância (Ulisses) resolveu permitir ao outro, que queria e buscava isso, um processo de liberação.

O processo de aprendizagem é algo difícil, doloroso e, em certo ponto, pende entre alienante e emancipatório (a Lóri passa por esses estágios). Já diria meu querido Bourdieu (mais especificamente sobre a escola) que a reprodução de um sistema de dominação (e, sim, educação sexual da culpa é uma das mais fatais em nossas vidas) é principal motor de um “sistema de alienação”. Cabe, assim, a todos nós dominadores ou dominados, ou dominados em conjunto. Trabalhar pela nossa emancipação.

Todo processo de aprendizagem é um processo de dominação. Há sempre o que diz (ou faz) e os que reconhecem que aquilo o que é dito (ou feito) é “bom” (ou “ontologicamente melhor”, pra usar o Bourdieu). Sem querer reduzir a questão sexual apenas à questão simbólica do poder, cabe a quem domina, a quem tem o reconhecimento, decidir sobre exercer seu poder para emancipar, ou praticar a violência e alienar. E cabe ao dominado buscar ver o processo por cima, de forma crítica e entender a intenção do seu dominador. O mundo pode até ser dos sensíveis, mas não é dos ingênuos… infelizmente!

E não se enganem, alienação sexual é também uma escolha e é NOSSA. Pelo simples fato de que somos nós que reconhecemos nesse sistema a suas capacidades de nos dizer o que é certo ou errado sexualmente. Mas não é só isso, felizmente. Não é comum, mas vira e volta surge um desses “dominadores” (no sentido de detentores de poder/conhecimento/reconhecimento e não de repressores) que resolvem se permitir conosco modificar essa situação e, aí, acontece a reversão da dominação. Afinal, o que seria de nós sem os pais responsavelmente permissivos, os professores avant garde, os meios de comunicação libertários, os movimentos pelas liberdades, os psicólogos e psicanalistas.

Onde fica o orgasmo masculino fingido nessa história? Fica principalmente nessa culpa decorrente do nosso processo de alienação sexual. O homem não finge o orgasmo pela ausência de uma regularidade fisiológica, a impotência. Fingir o orgasmo não tem nada a ver com isso, aliás, precisamos estar em riste para poder fingir algo que não vai ocorrer. É justamente nas questões de autoconhecimento e de culpa que reside o nosso momento #FAKE.

É assim: Veio a vontde, começamos a trepar, mas o parceiro gemia esquisito; a foda estava mal dada, entrou atravessado; colocaram a mão no lugar errado, ou não colocaram a mão em lugar nenhum; conversou muito, conversou pouco; a culpa afligiu o desejo… era suor demais, gordura demais, ossos demais, dente torto demais, mau cheiro e sangue demais; as vezes o tesão nem era tão grande e só pegamos para mostrarmos que éramos homenzinhos; pegou menina e gostava de menino; era a voz da mãe, do pai, da avó, do pastor, do padre, do professor, ou da vizinha que não saía da cabeça; ou, ainda, o mais simples e digno, o cansaço era maior.

E aí, assim, metemos, beleza. Rolou um vap-vap-vap. Mas não tava lá essas coisas. Aí, atire a primeira pedra que nunca pensou na mãe morta, no cachorro atropelado, na vizinha velha nua, ou simplesmente broxou (e volto a dizer, não é algo somático, não é impotência, é psicológico, é falta de vontade, de desejo), por ter escutado lá dentro, no inconsciente, a voz de algum repressor. Então, é só dar um urro e não deixar a falta de conteúdo dentro da camisinha à mostra. Pronto, está feito um orgasmo masculino fingido. Acontece, pode até não ser comum, mas não é raro. O que faz com que ele ocorra? São motivos mil, incontáveis, a maioria dependente da ambivalência Desejo-Culpa. Não deixe acontecer mais com você. LIVRE-SE DA CULPA!

Só pra lembrar, vale ver o vídeo em que Sean Maguire (personagem do Robim Willian) lembra a Will Hunting (personagem de Matt Damon) que “NÃO É SUA CULPA”, no filme Gênio Indomável. GOZE!

 

Orgasmo: é à brinca ou é à vera?

Por Renata Lins e Sílvia Sales*

Acho que não é nem novidade, quando se fala de orgasmo, começar lembrando a ótima cena do filme “Harry e Sally” (1989), quando, numa lanchonete de beira de estrada, Harry diz a Sally que nenhuma mulher nunca fingiu com ele. E ela desafia: “Como é que sabe?” “Porque sei”. Ela olha, dá um sorriso de lado. Ele insiste, e ela parece que desiste da discussão. A cena continua com Sally dando uma mordida em seu sanduíche e começando a gemer. Devagar, primeiro. Depois mais profundamente. Respirando forte. Balança a cabeça, mais forte, enquanto geme ainda. Sacode, estremece, bate na mesa, diz: “assim, assim”, e continua sob o olhar incrédulo de Harry até o clímax, com um gemido maior, a respiração ofegante se normalizando… para finalmente olhar para Harry, triunfante. A cena termina com uma senhora na mesa vizinha dizendo ao garçom: “eu quero o mesmo que ela está comendo”.

O cinema inteiro vinha abaixo nesta cena. Risos, risos. Risadas de homens, com uma ponta de dúvida ou, quem sabe, generoso desapego autocrítico. Risadas cúmplices de mulheres: quem nunca?

Quem nunca? Essa é a incômoda questão tratada no texto de Silvia Pilz, “Mentiras Sinceras”. Tratada, acho, com bastante honestidade. A autora não pretende dar lições, ensinar regras, repreender as mulheres. Ela conta a história. “Mulheres aprendem a simular orgasmos antes mesmo de aprender a gozar”. Eu diria que está sendo otimista no “antes mesmo”: acredito que muitas vezes o “antes mesmo” vire para sempre — vire “em vez de”. Ou, pelo menos, dure muito tempo.

Porque, né, aí é que mora o busílis: quem ensina a mulher a gozar? Onde se aprende os meandros do prazer feminino, recôndito, encapuzado, recolhido em dobras abafadas por tantos pudores e pelos? A mãe? Claro que não. Mãe não é pra isso. As amigas, as irmãs mais velhas, as primas? Bom, uma coisa ou outra pode ser. Mas acredito que no geral, pra valer, você esteja por sua conta. “You’re on your own”, como dizem os gringos. Seu prazer é seu e ninguém vai te ensinar esse caminho. É da sua conta e de sua responsabilidade.

E aqui você me para: não faltou mencionar o outro? O parceiro? Pois é. Não entrou na história ainda o parceiro. Porque nessa hora, o homem muitas vezes está mais perdido do que cego em tiroteio. O homem brasileiro, digo. Importante especificar agora. O homem brasileiro, país latino, onde para o hetero ser 100% macho ainda é uma questão 24 horas por dia. Onde sempre foi fundamental comer a mulher, matar a cobra e mostrar o pau — e, hoje em dia, fazê-la desmaiar de prazer.

Só que a ele também não ensinam como se faz.

Talvez se ensine menos ainda: porque nas revistas femininas, apesar de tantas vezes o foco estar no “como tornar-se uma deusa do sexo e proporcionar uma experiência super-mega-hiperclimática ao seu homem”, (tão aí as “Sextas de Nova” da Srta.Bia que não me deixam mentir), há de vez em quando um texto que fala de prazer feminino. Como. Onde. O quê. Um que ensina vibradores. Outro que mostra toques aqui ou ali. Pouca coisa ainda. Mas tem.

E os homens? Quem diz a eles como dar prazer às mulheres? Só as próprias mulheres mesmo. A experiência. A prática. A paciência. A humildade, até porque gozar no sexo a dois se aprende junto e a cada vez.  Mas na primeira, nas primeiras, e às vezes até nas nem-tão- primeiras-assim, há aquele pânico atávico nos homens. O de não dar conta. O de não conseguir. E, muitas vezes, as mulheres fingem. Fingem pra acabar logo. Fingem pra não deixar o cara mal. Fingem porque é melhor deixar pra outro dia, porque tiveram prazer no sexo mas estão cansadas e sabem que o gozo feminino precisa ser cuidado, cultivado, e que ali não vai rolar. Fingem por educação, porque pegaram o cara na noite e a partir de certo momento viram que não ia dar em nada mesmo. Fingem por generosidade e preocupação com o outro. Fingem porque estão de saco cheio e na verdade nem estavam tão a fim daquilo naquele dia.

Como também no começo: às vezes, a gente finge quando a gente ainda está aprendendo o caminho do orgasmo: uma forma de deixar o homem tranquilo, enquanto a gente se dá um tempo para conhecer melhor o próprio corpo, os ritmos, jeitos e intensidades de toque.

O problema é que enquanto a gente finge, eles continuam não sabendo. Continuam — os que se interessam, claro — achando que estão no caminho certo. Que é aquilo mesmo. Lembrem: ninguém mostrou ou ensinou a eles. Corpo de mulher continua sendo mistério, território inexplorado, em pleno século XXI. No Brasil do século XXI. E não é porque tantas vezes se dizem donos, não é porque se vangloriam de terem derrubado tal ou qual fêmea, não é porque posam de garanhões que eles necessariamente têm a tranquilidade ou a segurança de reconhecer que precisam aprender. De pedir ajuda. De tentar escutar o corpo das mulheres. De aceitar que sexo é caminho, é trajetória, é parceria. E às vezes eles até querem: só não sabem como. E, se a gente continuar fingindo, eles vão achar que tá bom assim.

Então, quem sabe, talvez seja melhor parar com o faz-de conta, com o fingimento que perpetua a ignorância masculina e a mediocridade das trepadas.  Vamos mostrar a eles como, onde, quando. Toques, jeitos, gostos, posições. E pra mostrar, é claro, a gente tem que aprender. Se aprender, se conhecer. Se tocar. Encontrar o caminho do gozo. Para, então, conduzir, inclinar. E ensinar. Porque do prazer da gente, a gente é que sabe. Do prazer da gente, a gente é que é dona. Quando a gente topa ir pra cama ou rede ou escada ou pro banho ou balcão da cozinha, a gente tem, sim, a expectativa do prazer ou do gozo – então, porque não ir atrás? Aos homens sempre coube o papel de ser o “bom de cama”. O que não pode “falhar” nunca, e com a obrigação de levar a mulher à lua. Muita pressão pra pouco resultado. Bobagem, né?

Vamos nos permitir passear sem pressa ou ânsia por esse caminho de descoberta. Abrindo o jogo, com tranquilidade. E se não rolar dessa vez, há diálogos ou alternativas para apimentar a brincadeira. Para mais gargalhadas. Até porque às vezes, a gente pensa com as nossas saias: orgasmo é, também, um pouco aquela campainha da escola que toca avisando que terminou o recreio. É bom? Claro que sim, mas, poxa, antes tem tanta coisa que ajuda esse bom a ficar ótimo. Preliminares, que não são só preliminares: já fazem parte do todo. E, paradoxalmente: tudo pode ser bom se não precisar dar certo. Se a gente se permitir estar presentes, testar, dizer, reclamar (é, às vezes reclamar também, porque não?). Experimentar, desse, de outro jeito. Ensaiar tempos, movimentos, toques, intensidades. Com muita presença, sem fazer de conta. Vamos brincar de sexo, que brincar é o que há de mais sério. Brincar e se divertir pelo caminho do orgasmo à vera. Vai que dá.

E, como lembra o lindo Caetano…

Mas bem que nós
Fomos muito felizes
Só durante o prelúdio
Gargalhadas e lágrimas
Até irmos pro estúdio
Mas na hora da cama
Nada pintou direito
É minha cara falar
Não sou proveito
Sou pura fama….

Não me queixo
Eu não soube te amar
Mas não deixo
De querer conquistar
Uma coisa
Qualquer em você
O que será?

Nada tem que dar certo
Nosso amor é bonito
Só não disse ao que veio
Atrasado e aflito
E paramos no meio
Sem saber os desejos
Aonde é que iam dar”

.

*Renata Lins é uma carioca tranquila e bem humorada, economista e tradutora, que já esteve exilada, socialista e de uma sensibilidade ímpar, apaixonada por livros, filmes e música e que, acima de coisas, gosta de pessoas. Saiba mais dela no seu blog Chopinho Feminino ou a acompanhe no tuíter @repimlins.

* Sílvia Sales é jornalista, botafoguense, generosa e expansiva que  não tem papas na língua e nem amarras, não gosta de meias verdades, papo-meia-boca ou vida-mais-ou-menos. Uma paraense pai d’égua na luta desde sempre, bordando na areia,  bebendo do rio. Feliz. Uma pessoa como as outras, que você pode conhecer melhor no  Facebook ou seguir no Twitter @silviarsales.

Tem sempre que gozar?

Por Sueli*, nossa Biscate Convidada

Sobre dicas para enlouquecer seu homem no sexo, o mito de ser uma mulher “boa de cama” e obrigatoriedade do orgasmo.

Sexo é um assunto que sempre me interessou desde que eu soube (teoricamente) do que se tratava. E apesar de só saber do que se tratava na prática bem mais tarde (por ter sido criada na religião que prega o sexo só depois do casamento, aliás, minha relação com a Igreja Católica vale um outro post), sempre li as famigeradas publicações femininas de grande circulação. Até pouco tempo atrás, era leitora assídua de colunas femininas em grandes portais, que sempre dão essas dicas de “como agradar um homem na cama”. Por muito tempo, tive esse senso comum de que eu deveria ser “boa de cama”, pois se não fosse, o meu homem me deixaria por outra que hipoteticamente seria melhor do que eu porque se submeteria às coisas que não aceito.

Então fui apresentada ao verdadeiro feminismo (sim, pois eu pensava que saber agradar um homem na cama era coisa de mulher moderna), e que a minha maior preocupação deveria ser com o meu prazer.

Apesar de eu não ter a vida sexual que gostaria de ter (invejo as biscates que levam quem querem para cama – ainda não domino essa sábia arte da biscatagi), a pouca experiência que tenho já me mostrou o que eu gosto e o que eu não gosto durante o sexo. Aí é que entra a minha grande descoberta (Ui, ela descobriu a roda!) , sobre o mito de ser “boa de cama”. Não existe ninguém bom de cama. O que existe são as nossas preferências nessa área, que precisam coincidir com as preferências d@ parceir@s. Tive poucos parceiros sexuais (com alguma vergonha que assumo isso rsrs), mas qual não foi minha surpresa ao descobri que… ahá! Nem todo homem quer uma mulher com perfil mais selvagem (não consegui encontrar uma palavra sem entrar no campo das classificações, sorry!). Existem aqueles que curtem um sexo mais novela, que não gostam de dizer palavrões, que não gostam de tapinhas e arranhões, e que mesmo que com seu consentimento, não te xingam. E ainda mais: Homem que não faz questão de sexo anal!

E daí, como um leitora dessas publicações femininas, que acredita piamente que só se conquista um homem na cama se trepar com ele no lustre lidaria com um homem que só quer fazer “amorzinho”? Daí é o cara que “não é bom de cama”? Não. Apenas tem preferências diferentes.

E para finalizar, as mil e duzentas dicas para alcançar o orgasmo. Fique bem claro, é o meu ponto de vista sobre ele e não estou negando o direito da mulher ao orgasmo. A maioria das publicações sobre sexo pregam que ele só será bem sucedido com o orgasmo. Eu vejo o orgasmo como consequência. Como o gran finale. E caso ele não aconteça via penetração, pode vir com um belíssimo sexo oral. Ou manual. Ou não vir. E não significa que não tive prazer. Afinal, o corpo é uma fonte inesgotável de maravilhosas sensações que deve ser explorado de todas as formas.

.

* Sueli Alves Cruz, biscate professora de Língua Portuguesa, sempre foi feminista e não sabia. Nunca teve paciência para esperar a iniciativa dos meninos. Depois de muito tempo, assumiu seus cabelos crespos, e quer morrer ao ouvir falar em tinturas e alisamentos. Enfim, hoje está em paz com seu corpo, depois de tanto tempo de cobrança… 

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