Reflexões Biscates

Por Thayz Athayde, Biscate Convidada

Próximo ano serei uma mulher balzaquiana. Sim, farei 30 anos. E não estou reclamando, tô achando bom, curtindo e achando gostoso. E aí que eu fiquei observando minhas sobrinha e irmã, que estão na faixa dos 15 anos. As duas já conhecem o feminismo e isso faz com que elas tenham acesso a debates e reflexões que eu não tive nos meus 15 anos. Então, fiquei pensando como teria feito as coisas se tivesse conhecido a biscatagem e o feminismo antes, se eu teria feito as coisas de uma forma diferente.

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Não se engane: eu aproveitei muito quando era adolescente. Mas, eu não tinha coragem e o empoderamento suficiente para entender que ser biscate é… bom! E então, eu aproveitava a vida, me divertia, mas a noite eu sentia aquela culpa. Aquela culpa chata por não ser uma mulher santa. Não tinha força suficiente para dizer para todos os amigos e amigas que sim, sou biscate e não tô nem aí para o que você pensa.

Se tivesse me assumido como biscate, eu teria feito sexo muito mais gostoso. Teria feito o sexo que faço hoje, o sexo sem culpa. Teria ficado com mais meninos e meninas, que eu não tive coragem por achar que “o que será que vão pensar de mim?”. Não teria ficado ou feito sexo com algumas pessoas, justamente porque ser biscate é saber o que deseja. E seguir seu desejo também passa por dizer não. É também decidir quem pode te tocar e quem não pode.

Teria menos vergonha do meu corpo, me sentiria muito mais bonita. Me sentiria livre muito mais vezes e insegura menos vezes. Teria ficado nua mais vezes. Teria admirado meu corpo e me deixaria ser admirada. Saberia que para ser bonita e gostosa não é preciso estar dentro de um padrão de beleza.

Teria me desculpado menos por quem sou e teria aproveitado as relações de uma forma bonita, intensa e almodovoriana, como a vida deve ser. Teria entendido que uma relação para ser boa não precisa ser necessariamente longa ou monogâmica. E para ser ruim não precisa ser longa e nem monogâmica. Só precisa de duas pessoas. Três. Quatro. O número que sua imaginação quiser.

Entenderia que uma relação é feita muito mais na confiança em si mesma e no olhar bonito ou cruel que você tem sobre si. Ainda viveria todas as dores, choros e noites mal dormidas, afinal, essa é a parte almodovoriana da coisa e eu sou especialista nisso. O sentir passa por viver as sensações, mesmo que seja de tristeza. E por que não chorar? Por que não vivenciar?

Teria ficado com mais mulheres e esquecido toda aquela culpa. Não entendia como poderia sentir atração por homens e mulheres. Sentia-me esquisita por isso. Não é esquisito não. É bom, é gostoso e não há nada de errado nisso. Teria me assumido bissexual muito mais cedo. Teria entendido todos os meus desejos e pensamentos com mulheres como algo tão comum quanto meus pensamentos em relação aos homens.

Talvez o meu relacionamento hoje seja tão gostoso porque eu aprendi todas essas coisas. E quando vejo garotas cada vez mais cedo se assumindo feministas e biscate eu penso: uau! Ela não vai passar pelas mesmas coisas que passei. Então, isso aqui é um recado de uma mulher que aproveitou e se divertiu muito, mas que teria se divertido e aproveitado muito mais se tivesse deixado biscatear. Você não precisa ser santa. Não precisa ser puta. Você não precisa ser nada. Só permitir-se sentir. Não importa com quantos meninos e/ou meninas você fica. Não importa o olhar de rejeição que você recebe. Eu sei que é difícil entender tudo isso, mas se você precisar de apoio tem um monte de biscates aqui pra te dizer que tudo isso é ok, e que vai ficar tudo bem.

euA Thayz é bi: bissexual e biscate. É também feminista, almodovoriana e babadeira, ela quer mesmo é desmontar as ideias montadas

Quem tem medo de Valesca Popozuda?

Por Daiany Dantas*, Biscate Convidada

É possível que hoje ninguém na música popular brasileira seja mais impactante que Valesca Popozuda. Deixando de lado juízos de gosto e valor, quais artistas encontramos por aí com tanta capacidade de provocar reações tão intensas, de revirar olhos e estômagos, desencadear balanços – físicos e mentais – sobre a nossa história cultural? Por trás de suas letras pulsam questões de classe e gênero que escancaram muitas das nossas desigualdades, de nossa pouca aceitação ao gosto das classes populares e ao protagonismo sexual das mulheres destas classes.

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Valesca, com seu corpo biônico, sua mestiçagem loira e lentes de contato azuis é um corpo que propõe muitos trânsitos – da dança de fundo ao microfone e frente do palco, da periferia ao palco midiático, de uma realidade colonizada à colonização dos espaços públicos – é um retrato vivo de nossas ambiguidades e contradições, da nossa NÃO democracia racial, da NÃO igualdade de gênero. É tiro, porrada e bomba na calmaria da burguesia “de bem”, pois para falar ela não usa artifícios. Sua palavra é firme e seu desafinar é autêntico.

Décadas depois de Marta Suplicy ter sido perseguida pelas “Senhoras de Santana”, ela também reclama o direito das mulheres a serem donas do próprio clitóris e terem os orgasmos que quiserem, mas abre mão dos nomes científicos. Prefere os apelidos cotidianos de alcova, pois assim resignifica não só o corpo que ela reclama para si, mas a liberdade desses espaços tão cobiçados a partir do desejo – por isso buceta, cu, grelo, em suas letras, são todos piscantes e desejantes – e isto é, claro, inesperado. Um acinte, uma vergonha!

Sua maior vergonha exposta, no entanto, não é a bunda siliconada (uma entre tantas nessa pátria de paniquetes estáticas, tratadas como samambaias mudas ou marionetes em jogos de humilhação), é um corpo punido por pretender o direito ao prazer, é esse exercício performativo e político que faz de Valesca uma artista tão odiada por uns – e amada por outrxs. Ela é um corpo com voz, não é só mais uma bunda assujeitada? O que ela é, então?  - toda uma mentalidade Casa Grande e Senzala entrando em combustão.

Valesca evidencia os não-me-toques de uma classe média que ama ser retratada como branca e hidratada em seus apartamentos bem decorados e com vista pro mar do Leblon, mas não quer sentar à mesa e banquetear com quem desce do morro para beber vinho da mesma taça. Ela mostra a persistência e atualidade de nossa cultura política que rechaça tudo aquilo que propõe um deboche desde as classes subalternas – estas podem, sim, ser escrachadas, desde que sob o controle vigilante de mídias conservadores, onde funkeira é favelada, nordestina é empregada doméstica e negro é bandido. Valesca não é uma personagem de Zorra Total, sua zorra é outra, seu discurso é transparente, de quem escolhe os próprios termos e não precisa de consentimentos. É um discurso de sobrevivência cujo escudo é justamente não ter escudo algum. Ela quer o poder da buceta porque a buceta é dela. Quer gozar, quer dar, quer te dar. Não porque alguém pede, mas porque ELA quer.

E aí vem o maior pecado de Valeska. Colocar o desejo feminino na baila, claro, é pedir para ser linchada. Geni não sai de moda. Ainda mais uma Geni gritando de autoestima, que pede para xs inimigxs “latirem mais alto” que dali, do camarote, ela não xs escuta. Como ousa? Quer subir no palco? Quer gozar e ainda quer divar? Quem ela pensa que é?

Márcia Tiburi, na Edição 188 da Revista Cult diz que Valesca é uma “Robin Hood estética”. Mas ela vai além. É carnavalesca, antropofágica, deglute os castelos inacessíveis do luxo e os transforma em cenário kitsch – haja peles, mármore, coroas, tigres e dentes de sabre, e, assim, seu batidão funk desautoriza a herança aristocrática. Traz a riqueza à sua comunidade e a subverte naquilo que ela tem de mais caricata e reconhecível. Valesca irrita porque é ela quem está parodiando, escolhendo como ser “rycka”, pois os ricos são os engraçados. É ela quem está rindo. E daí a riqueza deixa de ser dos outros e se torna de qualquer, farta e comum. E isto, claro, desagrada. Quem disse que funkeira e “favelada” pode ostentar?

E Valesca é filosofia pura. É o hedonismo bacante e dionisíaco de Nietzsche, deixando os apolíneos ofuscados com sua capacidade de se envaidecer das próprias regras. É o corpo sem órgãos deleuziano, escorrendo das mãos de um projeto coletivo que o segrega, e problematizando o lugar que ocupa ao negar as jurisdições que o controlam, é a reinscrição performativa butleriana, em seus palavrões que clamam para si o desejo (tão negado) das mulheres… é grelo pulsante, é riqueza, é empoderamento, e, claro, sendo tudo isso, só podia ser muito PAVOR, né?

Mas ninguém precisa temer Valesca. Mesmo. Basta ficar calmx, “deixar de recalque” e se dispor a abrir mão de convicções sequer fundamentadas. Em vez de rechaçá-la sem sequer ouvir o que ela tem a dizer, apostando nessas tintas fortes que a emolduram toda vez que ela surge num flash da mídia de massas, podemos aprender com ela sobre quem somos – e quem podemos ser. Em vez de xingá-la, confirmando todos os padrões que ela faz tremer, podemos nos gratificar por viver num mundo onde Valesca existe para confundir público e privado e ser visível e notória em ambos.

E sobre os juízos de gosto… ocorre que minimizamos artistas em função de barreiras que dizem muito mais respeito aos nossos preconceitos políticos e culturais que a valor artístico (as pessoas se vangloriam de que não ouvem e não gostam, mas é Valesca quem é chamada de ignorante… Será?). Costuma-se nivelar os gostos como selo de qualidade e mérito humanístico a partir do lugar social de onde esses gostos emergem… Achamos que não gostamos, mas somos, na verdade, dominados pelas fronteiras que segregam centros e periferias. Se nos deixarmos ilhar, perderemos uma parte importante de nossa história e nossa realidade… E viveremos interditados em nosso conteúdo “autorizado” – geralmente porque produzido por gente branca, vestida, “limpinha” e, claro, a maioria homem. Então, vamos encarar ou ralar?

IMG_20140409_232626Daiany Dantas foi uma jornalista que amava o nariz de cera e é uma professora de Comunicação Social que adora o barulho das teclas. Feminista sem carteirinha. Iconoclasta apaixonada pelas imagens. Filósofa de sala de cinema. Poeta de guardanapo e humana do Pingo, Kiki, Hoshi e Tapioca.

 

Puta

Você não me ofende quando me chama de puta. Não me ofende como não me ofenderia se me chamasse de enfermeira (muitas tocam corpos nus com intimidade), como não me ofenderia se me chamasse de massagista (ela também provoca prazer e relaxamento com seu trabalho) e não me ofenderia se me chamasse de bailarina (ela também usa o corpo de forma direta na execução do trabalho), só pra ficar nos exemplos mais óbvios que me vieram à cabeça. Então, você não me ofende se me chamar de mulher de vida fácil, de rameira, meretriz, se chamar pelo nome completo, prostituta.

Não me ofende ser chamada de biscate. Não me ofende se me chamar de puta.

Isso esclarecido, deixa eu dizer que me preocupa que você ache que chamar de puta é ofensivo. Me preocupa você achar que é xingamento. Me preocupa você achar que é pejorativo. Prostituta é uma mulher que ganha dinheiro oferecendo serviços sexuais. O que tem de pejorativo ou ofensivo nisso? As opções: a) Uma mulher fazer sexo? b) uma mulher ganhar dinheiro? c) uma mulher decidir sobre o corpo dela? d) ser mulher?

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Me preocupa porque você usar puta como xingamento porque está implícito que mulher que faz sexo e/ou mulher que ganha dinheiro e/ou mulher que decide sobre sua vida e/ou simplesmente ser mulher é uma coisa ruim e que merece ser punida. Que merece o que lhe acontecer. Como, por exemplo, ser atacada. Ser alvo de violência, seja física ou psicológica. Que merece ser estuprada, violentada, espancada e tantas outras violências diárias que as mulheres costumam sofrer apenas porque existem. Apenas por serem.

Porque se existe uma escala para ranquear mulheres entre certas e erradas, direitas e erradas, santas e putas, incríveis ou biscates, essa escala é machista. Sempre. Não tem um mas. E quando a gente usa, mesmo com a melhor das intenções, estamos sendo machistas e validando as manifestações cotidianas de violência. Essa escala, arbitrária e conivente com a violência, sempre será prejudicial para as mulheres, por mais que algumas se esforcem pra jogar o jogo direitinho e não usem roupas curtas, não saiam sozinhas a noite, não bebam, não falem muito, não riam alto, não usem rímel. Uma sucessão de apagamentos que nunca serão o bastante.

A gente insiste: a culpa nunca é da vitima. Em qualquer caso, a culpa pela agressão é do agressor. Mas eu quero ir além. A culpa é do agressor, mas a responsabilidade é nossa. A violência contra a mulher não é só aquele murro no olho ou o tiro na rua. A violência contra a mulher é a construção de uma sociedade em que o murro no olho ou o tiro na rua estão implícitos. É a construção de um discurso socialmente válido em que o murro no olho e o tiro na rua são potencialmente justificáveis. Onde se pergunta, primeiro: o que será que ela fez? A violência contra a mulher é a legitimação de um lugar secundário para a mulher na sociedade. A violência contra a mulher se perpetua, entre outras coisas, com a naturalização do termo puta como xingamento. Há uma avaliação moral implícita, mesmo que a gente não perceba.

Então, a desconstrução dessa escala se faz necessária. E ela passa não pelo apagamento das situações individuais de violência mas, acredito, pela compreensão do contexto em que as situações individuais se inscrevem. Passa, acho eu, pelo reconhecimento de que a “superioridade moral” de apontar o dedo, seja pra vítima, seja pro perpetrador da violência, não explica nem resolve. Passa por entender que o moço que me chama de puta não está sozinho, nem mesmo está restrito ao bando que nos chama de putas. Entender que ele é a regra. Ele é a média. Ele e o moço descolado de esquerda que acha que o funk não é música. Ele e a vozinha que balança a cabeça horrorizada com as mulheres que andam com camisinha na bolsa. Ele e o pessoal que faz mene com o tal quadradinho de 8. Ele e o cara esclarecido que tão rapidamente se dispõe a contestar os métodos da pesquisa sobre assédio (que insistem em chamar de cantada), e ainda mais ligeiro se esquece de refletir sobre o conteúdo. Por mais que se insista na mitificação da violência como uma coisa horrenda cometida por pessoas sem esclarecimento, monstros à parte da sociedade, é preciso que a gente lembre que não é assim. Não é. O estuprador comum, assim como o impetrador de violência doméstica, é a pessoa legal que convive com a gente “de boua” mas que tem incrustado em sua socialização a compreensão de que a mulher é menos. Compreensão essa que aparece, em maior ou menor grau, nas piadinhas cotidianas, nos salários menores, na ausência de divisão de tarefas domésticas.

O que eu quero dizer? Que feminicídio e puta como xingamento (assim como as piadas sexistas) não são fenômenos de uma mesma sociedade à toa (não que um cause o outro, please). E que enquanto a gente não entender que a sociedade somos nós, a luta será sempre mais difícil, lenta e dolorosa. Com baixas acentuadas e constantes do lado das mulheres. Todas putas.

Luciana Nepomuceno

Em terras cariocas.

em 15/02/2014

Lançamento do livro Contos do Poente  de Luciana Nepomuceno e Rita Paschoalin, ilustrado por Joana Faria, na livraria FOLHA SECA [rua do Ouvidor, em prédio construído há mais de cem anos, ao lado da Igreja de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores – centro do RIO DE JANEIRO].

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“quero a risada mais gostosa…”

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Na noite de 13 de fevereiro, na cidade de São Paulo, no Bar e Restaurante Canto Madalena,[em Pinheiros, Zona Oeste], Luciana Nepomuceno [a bisca escritora, cobradora, organizadora e outros predicados] durante o lançamento do livro Contos do Poente, escrito com Rita Paschoalin, ilustrado por Joana Faria no  de São Paulo

a gargalhada da Luciana. foto: Antonio Miotto

a gargalhada da Luciana. foto: Antonio Miotto

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Mais sobre o livro? A Renata Lins escreveu aqui, ó.

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Um livro como uma mulher

Tinha dito à Niara que não ia mais escrever sobre o livro. Afinal, a Fal (a Fal!) já tinha escrito o que precisava, aqui. E eu fico até meio sem graça de escrever depois dela. Mas aí bem tava com vontade. Porque o texto já tava meio andado na cabeça, sabe? Meio escrito. Gestado pela metade. Então vou.

O texto falava do livro da Rita, da Lu, da Joana, Contos do Poente, como uma mulher. Era esse o mote. Um livro como uma mulher. Que é meu jeito de ver o livro.

Uma mulher de cabelos soltos: cabelos livres. Cabelos se espalhando pra todo lado. Cabelos como a imagem da liberdade dessa mulher, talvez mais pra calada, às vezes meio contida: cabelos que desfiam histórias, que desenrolam novelos-vida. Cachos. Debaixo dos caracóis. Ah, Roberto. Tanta história pra contar. Mundos distantes. Soluços. Vontades.

A mulher é pintada em cores fortes, como os textos da Lu. E as cores não vou escolher, deixo pra vocês que estão lendo e imaginando. Cores de olhos, de cabelos, cores de braços, de tornozelos. Só digo uma coisa: o vestido dela era azul. Azul da cor do mar, azul da cor do céu. Azul é a rainha que nós vamos coroar. Contra-mestra. Azul.

No pescoço, um fino colar. Pérolas pequenas, quem sabe. Ou ainda um camafeu, preso com uma tira de veludo. Delicado e precioso como os textos da Rita. Precisas miçangas. Sutilezas. Bordados. Semeaduras. Doçuras. Como só a Rita sabe.

Mulher com brinco de pérola

Mulher com brinco de pérola

Depois tem as mãos, que se movimentam à medida em que ela conta histórias, que ela dança… as mãos que dançam também, que cantam. Os cabelos. Os olhos. Os meandros. Como os desenhos-riachos da Joana. Que acompanham a melodia, que complementam, que fazem parte do contar. Contar de rodas, de cirandas, de cantigas.

Um desenho da Joana, pescado no mar virtual

E essa história da mulher que era um livro, um livro de mulheres que se encontraram nesse mar virtual e que escreveram e desenharam esse livro de histórias de mulheres, acaba com um convite que é o meu. Porque já teve lançamento do livro em Fortaleza, em Floripa, vai ter em Sampa e, logo depois, aqui. No Rio. Na Livraria Folha Seca que é do amigo Rodrigo Ferrari mas é também patrimônio de todo mundo que gosta de livro. Uma livraria de quem gosta de livros: não tem lugar melhor pra lançar esse livro. Eu, pelo menos, acho que não tem. Do alto de toda minha isenção.
A Rita e a Lu vão estar lá, a Niara vai também, eu não perco por nada, e um monte de biscos e biscas tão chegando pra aparecer no lançamento que é festa. O Dodô prometeu aparecer pra contar umas histórias do livro, daquele jeito Dodô de ser que se vocês ainda não viram tem que ver. É lançamento, e encontro, é festa. É sábado que vem. Vai ser bem lindo, eu acho. Vocês, é claro, tão todos convidados. Por mim, que nem sou dona da festa, mas já me sinto. É da Rita, é da Lu, é da Joana que eu nem conheço mas já: é da gente, né? Bora lá?

Lançamento Rio

A vida em abraços apertados

Quem de dentro de si não sai, vai morrer sem amar ninguém…
Berimbau,
Vinícius de Moraes e Baden Powell

Em tempos frenéticos de rapidez, de pós-tudo, de infinita celebração do eu, do egoísmo individual que nem ao menos sabe pôr pra fora sentimentos, eu quero mais é me doar pra quem eu gosto. Dar abraços apertados. Fazer comida. Oferecer um café e uma prosa afinada. Ouvir. Rir de tosquices. Chamar para o reggae. Olhar nos olhos dos meus e dizer que amo, que os desejo tanto, que me sinto bem em tê-los aqui comigo. Prefiro ir de mãos dadas, juntos, no afeto, na saudade, na hemorragia dos sentimentos, aqui e agora. E me sentir cheia de amor, fértil, plena, solidária. E feliz por isso, por essas belezas todas de quem celebra junto comigo as felicidades e agruras da existência. Irmanada num abraço apertado e generoso da vida. Das bonitezas do cotidiano, das flores brotadas em horas ingratas, há vida pulsando nesse aperreio e corre-corre. Ali, vida de esgueira, preguiçosa, que pede redes, pomar, bolo de fubá, hortinha de fundo de quintal, toalhinha de crochê, bossa nova, lerdeza, calma, sossego e histórias… E de uma coisa, eu sei, do alto da minha sabedoria de boteco bom, bonito e barato: a vida se esvai e não há tempo para ingratidão. Ah, corajoso é falar o que pensa, é se drenar emocionalmente, é praticar a desimportância, é pôr uma saia colorida de chita sob o sol de meio dia e viver um glamour. Perceber que de tão anônimos, podemos ser felizes juntos. Notando as pequenas grandezas no ínfimo. Voando fora da asa. Imitando Manoel de Barros. Desafinando sambas e choros. Segurando a mão de gente querida que sofre perdas. Perdoando passados. Comendo torresmo e bebendo cerveja. Vivendo a honestidade de um amor curtinho. Abraçando a vida num golpe só e que ela venha, imensa e fecunda, a nos ensinar desconstruções e a dessacralizar importâncias (inúteis).

Masturbação também é coisa de mulher

Onze anos. “Você ficou mocinha!” Não entendi bem. Ainda era uma moleca completa, que se preocupava mais em subir em árvores do que em paquerar ou aprender maquilagem, e não via muito sentido nessa história. Então a parte que registrei foi: a partir de agora é isso todo mês, incluindo as cólicas, e você já pode engravidar (socorro!!!).

Quinze anos. Adeus virgindade. Conclusão: sexo é um troço que dói pra caralho, e tirando isso, não entendi porque falavam tanto nele. Mas estava apaixonada…

Dezoito anos. Sozinha no quarto, resolvi insistir na tal da história de mexer no grelo, que já tinha tentado antes sem ver nenhuma graça. Surpresa! Insistindo, ficava bom. Primeiro orgasmo.

Quarenta anos. Caminhos todos descobertos.

Será?

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Garotos brincam de corrida de submarino. Garotas brincam de casinha.

Homem vê pornô pra bater punheta. Todo mundo sabe, todo mundo brinca com a coisa, todo mundo aceita. Aí você vai perguntar sobre o assunto para uma mulher, constrangimento imediato.

 Passo no sex shop, depois vou tomar um café com uma amiga, mostro a nova aquisição. O olhar dela é de criança fazendo arte escondida. Digo que, para mim, o único problema de um pau industrializado é que não vem com ombro… E ela acaba me confessando que também tem um. Mas quando a conversa surge tempos depois, com outra amiga do lado, ela finge que não sabe de que se trata. Eeeeuu? Imagina.

Mas gente… qual o problema? Mulheres se masturbam. Ponto. E têm vergonha de assumir que usam brinquedinhos? Ou mesmo sem eles, que mulher conta para outra de que forma se masturba? Pouquíssimas.

 Um amigo me descreve em detalhes como masturba as namoradas. E eu fico pensando que a forma dele parece infinitamente mais poderosa que a minha…

Aí entro em um site e abro a categoria de mulheres se masturbando. Coisa que nunca tinha pensado em ver. “Ah, isso é pra excitar homem, pra que eu quero ver outra mulher se masturbando?” E não é que a coisa é educativa? Há vários modos. Não só o meu. E alguns são bem interessantes…

 Por que a gente não conversa sobre essas coisas? Por que tem de ser um caminho trilhado sozinha, às cegas – às apalpadelas… Por que quase não trocamos dicas e informações? Cadê a confraria feminina do bem? Por que ela não atua em prol do nosso prazer? Quem disse que se ele não envolver um parceiro é coisa para ser escondida? Vamos democratizar as informações, minha gente. Eu tenho várias dúvidas, vocês não tem? Por exemplo, será que as diferenças na “anatomia íntima” influenciam no tipo/intensidade de estímulo de que uma mulher precisa para gozar? O Ponto G, esse desconhecido… sei muito bem onde o meu está, mas tenho problemas em descobrir o que/como fazer com ele… Por que algumas mulheres gozam tão facilmente com sexo oral, e outras nem a pau, Juvenal? Verdade que tem mulher que goza pelo rabo, sem nenhum estímulo no grelo?

 Já ouvi relatos de mulheres que foram ter o primeiro orgasmo aos 40, com a duchinha do banheiro. É uma forma. Vibradores? Já descobri que a intensidade da vibração nem sempre basta para gozar… se for baixinha, acaba só sensibilizando, e se tornando desconfortável. Filmes, livros? Ajudam, abrem o apetite. Quanto a filmes, odeio os americanos, onde tudo parece plastificado. Tenho um critério básico pra gostar de um filme: a mulher tem de estar se divertindo também. Pragmaticamente: a buceta tem de estar molhada. Só isso não garante, é claro, pode ser um gel qualquer, mas nada me incomoda mais do que ver um filminho onde um homem com um caralho gigante fode sem parar uma mulher seca. Tudo o que consigo pensar é em incômodo.

Mas há filminhos amadores bem interessantes e excitantes. Há fetiches para todos os gostos. E hoje já é fácil encontrar a categoria “Orgasmo” (feminino) em vários sites. Em geral são de squirting, porque sabe como é, filmes feitos por homens, eles acham que se não esguichar alguma coisa não vale como happy end. Mas mesmo assim alguns são ótimas inspirações para auto-punhetagens.

Aí vem a coisa em si. Percebi que tenho um ritual meio fixo de punhetagem. Sentada ou deitada de barriga pra cima. Primeiro mamilos, até dar um grau, depois grelo, movimentos laterais-circulares. Às vezes penetração, com dedos ou vibrador. (Nessas os orgasmos são muito mais intensos. Não me perguntem por que não faço sempre assim então, porque eu também não entendo…)

Mas vendo os tais filmes de masturbação, confirmei a minha impressão de que havia muitas outras formas. Mulheres que cavalgam travesseiros até gozar. Mulheres que enfiam dois dedos na buceta enquanto estimulam o grelo um pouco mais pra cima do que eu. Mulheres para quem um ovinho vibratório encostado no lugar certo é suficiente para orgasmos intensos. E por aí vai.

(Detalhe: tirando os filmes de fetiches, não vi nenhuma se masturbando com vibradores em tamanho ator pornô, o que confirmou minha teoria de que a geral prefere o standard plus, e essa coisa de enormidades é só fixação masculina mesmo.)

 Achei também esses dois vídeos, super explicativos. Meio toscos, mas, na falta de melhores, já ajudam.

 

E você, qual o seu estilo? O que já aprendeu que vale a pena compartilhar? Que tal quebrar esse contraproducente pacto de silêncio? ;-)

 

As desvantagens de ser invisível – malcriações translésbicas

Por Fernanda Monteiro**, Biscate Convidada

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Esse texto faz parte da 1ª Semana de Blogagem Coletiva pelo Dia da Visibilidade Lésbica e Bissexual, convocada pelo True Love

Sabe, adiei muito a confecção deste texto, que me fora encomendado com carinho pela minha eterna @deb_em140gotas, essa bárbara (permito-me o trocadilho). Adiei por me sentir inapta a expressar a dimensão do tema, quanto mais de forma competente como retratados aqui, aqui e aqui, textos que condensam tanto do que disse que até servem como glossário para este (e tantos outros aquis e tantas outras vozes, que me senti encarregada de, antes de escrever, expressar minha pouca voz com outras pessoas transfeministas na intenção de fazer algo um pouco mais colaborativo – não deu em muito, razão abaixo, mas vai do meu jeito mesmo, ainda assim).

Adiei porque não sou qualquer voz de respeito neste meio, ao contrário, venho cavando afonia e me sinto cada dia menos trans, menos negra, menos feminista, menos escritora. Sinto-me à vontade para dizer que sou uma futura stealth* (futura? já ajo como tal se não me solicitam, não fossem os perjúrios com documentação e todo o processo legal que persiste em nos tornar inviáveis, além do mais), sou um paradoxo ao escrever este texto por ser quase invisível o bastante para torná-lo absurdo.

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E por fim ao dizer isso já conheço os adjetivos todos a seguir: dramática, vitimista, histriônica. A cada palavra me convido a ser uma voz a menos em um universo em que eu, predominantemente lésbica (contudo melhor adequada sob o chapéu da pansexualidade), longe dos nichos translésbicos, me sinto convidada a possuir outro genital para exercer qualquer direito à minha sexualidade. Exagero? Não em um mundo cuja ótica genitalizadora te relega a certa sorte ao invés de ciência, à chance de ser “aceita”, mesmo que a diferença que tal “apetrecho” faça seja nenhuma – há poucas semanas, poderia dizer que nunca foi sequer utilizado, agora não mais; o que, embora não devesse ser um relato digno de culpa ou crime, e sim libertário, serve a muito como uma prova irrefutável da sua “virilidade” (sic). A sensação, para mim, é a de dildo de carne. Mas assim como não importa como seu cérebro te faz sentir pertencente a um determinado gênero e identificar-se com seus padrões (e suas quebras, especialmente), muito menos como seu corpo se comporta. Mais uma vez, desnecessária.

E assim, soando cada vez mais vocífera e dolosa. Meu discurso segue invisibilizando, e aos poucos vou fazendo questão do papelzinho incutido pela segregação nada soror de “pessoas normais”, machistas, radicais feministas. Pessoas. É um texto sobre como se jogar na cumplicidade. Sobre como não ser considerada audível. Sobre como continuar sendo considerada perigosa, violenta, ameaça a algo que você continua buscando a preços absurdos caso escolha tal discurso, a feminilidade. Aquela de caixinha e com um rótulo bem grande: contém padrões barrocos, euro-centristas e masculinos. Ou sobre como continuar taxada e demonizada, jogada na outra caixa, de vítima, que como tal pode ser culpabilizada por suas “más escolhas”.

Enfim, é um texto sobre como ser invisível. E ao contrário do personagem do best-seller de Stephen Chbosky devidamente referenciado, enxergar que não há nenhuma vantagem em sê-lo. Conforme-se, viva uma vidinha normativa e goste de homens “como qualquer mulher faria” (sic). Aí, eventualmente, seja reconhecida como tal. A outra opção sequer se critica. Existe gente bem melhor para falar das venturas da liberdade sexual, da liberdade amorosa, de como é interessante ser visível em um nicho que se pratica, que veste intersecionalidade.

Eu existo. Mas provavelmente estas são as primeiras e últimas palavras menos tímidas que me disponho a escrever. Fiquem aqui pelas pessoas trans* lésbicas, pansexuais, demisexuais, assexuais, e demais transcrições da expressão afetiva e sexual cuja definição parte da identidade de gênero e não do modelo genético, e cuja forma de expressão é irrestrita e criativa como a quase totalidade da expressão humana. Fique por quem importa e tem ou precisa de uma voz. Eu existo, mas por mim, um sumiço a menos já não faz a menor diferença.

* Stealth: significa “disfarce”, “camuflagem” ou até “invisibildade”

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**Fernanda Monteiro, nascida em um dia (gerado por computador) de 85, faz um pouco de tudo e um muito de nada, música pra ter voz, escrita pra ter discurso. Pode até parecer que não tem orgulho de ser uma mulher transexual, mas na verdade não tem orgulho é de ser humana.

Resumão Biscate

E se hoje é domingo, é dia de biscatagi relembrada, nosso resumão semanal… E, olha, espiando os posts de agosto do ano passado devo dizer que foi uma semana muito, muito inspirada, com as biscates afiadas ao percorrer um caminho que vai da desconstrução da traição até uma inesperada biscatagem cinematográfica com Bond, James Bond.

resumão

A semana começou, em 2013, com a Fome da Raquel e nós salivamos juntos. E o que estávamos degustando nesse dia em 2012 (eu sei, eu sei, piadinha tosca)? Uma conversa boa com a Liliane Gusmão sobre o filme Bonequinha de Luxo: “o filme está cheio de mulheres biscate, que bebem, que fumam, que tem casos extraconjugais, que sustentam seus amantes. Mulheres que não se encaixam no padrão ‘boa moça’, ou ‘mulher de respeito’ de 2012 quem dirá dos anos 60. Essas mulheres estão protagonizando suas vidas e suas escolhas. Buscando a satisfação sexual que a vida dentro dos padrões não lhes proporcionou. O que pode ser mais biscate do que o inconformismo, do que a busca, do que o questionamento, do que a incerteza?”

No dia 13 de agosto de 2013 tivemos o Flerte da Sílvia Badim. E no ano passado a biscatagi também era lírica e poética, com os Impasses da Raquel: “Há muito tempo resolvi dizer o que penso. Não me calo diante do desejo. Então quando hoje verbalizei o “morra!” foi uma forma de dizer que eu desejo que você morra para mim. Dentro de mim. Não para o resto do mundo. Ou materialmente.”

Dia 14 de agosto foi dia de pergunta no nosso clube, a bisca-borboleta indagou: Você Não Acredita No Amor? e foi logo adiantando que ela não acredita não e disse porquê. Em 2012 outra das idealizações românticas estava sendo desconstruída no texto da Sílvia Badim sobre a Fidelidade Biscate: “Porque quando a gente escolhe e – de repente – a gente escolhe, a gente escolhe pelo desejo mais profundo de poder ser. A gente não escolhe porque precisa, porque quer modelo, porque quer segurança. A gente escolhe porque quer ser feliz pelo que vem de dentro. Talvez essa seja a grande vantagem de se relacionar com uma biscate: a gente tá porque quer. Porque a gente sabe que pode não querer, e tudo bem.”

E teve estréia de biscate-escrevente-fixa essa semana, Jeane Melo chegou no dia 15 de agosto com sua declaração de desejo: Você, meu koi no yokan. E em 2012 também rolava solto o desejo, com a intermediação da tela grande, enorme, imensa (ui). Nossa bisca-convidada de além-mar, Teresa declarou: A Girl é Dele! Porque “ao contrário da opinião corrente, James Bond não é um mulherengo nem um D. Juan. É  um homem que gosta de mulheres. Que gosta muito de mulheres.  Não é um abusador, não é  um agressor. Não é violento no contexto de uma relação  amorosa. É um sedutor, mas a sua conduta  nunca é cruel, nunca humilha ou diminui as mulheres. Nunca as rotula.”

Dia 16 de agosto foi dia da Sara falar das suas Perdas. E em 2012, pelo visto, quem tava perdendo era o moço que recebeu recadinho do coração da bisca-borboleta Luciana em sua Carta Aberta (ou melhor, arreganhada): “é assim que partilho minha vida, minha cama, meu corpo: com quem fica feliz por estar justo ali, no meu querer, entre as pernas, no meu riso. Eu nunca andei com balança pro afeto e não me pergunto se você gosta mais de mim. Meu espelho de madrasta da branca de neve já quebrou e deixei os cacos na estrada, refletindo o sol. Não me importo se alguém gosta mais ou menos. O que me interessa é se gosta. Se quer. Se sabe chegar. E, ainda mais precioso, se sabe partir. Se sabe seguir com o coração em festa. Se sabe deixar o meu assim, mesmo que um pouco vazio por uns dias”.

E o nosso clube tem biscate valente, sabida e crítica, ontem a bisca Renata Lins colocou o dedo na ferida da polêmica da Capricho e reafirmou nossos princípios: Biscate é pra tudo. E no ano passado, o que se estava aprontando? A Lis Lemos fazia um mea culpa lembrando os preconceitos que machucam, especialmente as adolescentes com ar biscate ao recordar a Estela: “Os desprezados a xingavam. Para eles, Estela era puta, galinha, vagabunda. Despeito e machismo exalando de poros tão jovens. Os preferidos também teciam comentários terríveis sobre a menina. Machismo daquele tipo que separa mulher pra casar e mulher pra transar. Ninguém nunca quis namorar Estela.”

E já finalizando a semana, enquanto estamos aqui nesse revival interessante e divertido, em 2012, no dia 18 de agosto, a Traição voltava a ser pauta, com Renata Lins e O Nome do Jogo: “Ninguém quer ser “traidor”. Mesmo que o que se chama de traição seja um tipo de honestidade. Com nossos próprios desejos. Com nossa própria integridade, nossa própria liberdade. Que tenha como arcabouço uma ética que não inclua a hipocrisia amorosa. Até porque, né. Nada é assim preto no branco. Tem zonas cinzentas, tantas gradações. Tem os que são, é certo; mas também tem aqueles que talvez. Aqueles que quem sabe. Aqueles que às vezes. Aqueles que não era pra ser, mas. Aqueles que quando viu, já foi. Aqueles que a gente nem viu quando foi. Aqueles que um dia. Amanhã ou depois. E aí, como fica?”

Então amigo/amiga biscate, aproveita esse domingão e mergulha de cabeça nesse baú de biscatagem que, eu garanto, a sua resposta vai ser sim quando, acendendo um cigarro e virando de lado a gente perguntar: e aí, foi bom pra você?

Re-Invenção Biscate

Re-invenção: E o nosso clube, vira e mexe, mexe e remexe, tá sempre se transformando. Vem chegando uma ou outra mudança e a gente já fica na maior excitação (hohoho). Por exemplo? Tem bisca-escrevente-fixa nova no pedaço. Fiquem de olho, na próxima quinta, dia 15 de agosto, é a estréia dela. Qué dizê, novata, inexperiente, virgem – no nosso clube – ela não é. Mas tem um glamour em passar a fazer parte das hordas constantes da biscatagem, né? Invenção de letras, trabalhamos.

E mais? Agora, aos domingos, teremos um resgate da semana [a imediatamente passada - porque xs biscxs do nosso clube vez em quando gostam de holofote; e uma visita aos posts da semana correspondente no (s) ano (s) passado (s) do biscate porque águas passadas não movem moinho, mas biscatagis passadas podem mover corações, corpos e mentes]. Invenção de memória? trabalhamos.

Também aos domingos, vez ou outra, pintarão entrevistas bem biscates, porque biscate (se) questiona, duvida, biscate quer gozar e quer saber, né? Se você tem sugestão de pessoas bem biscas, que você gostaria de ver entrevistadxs aqui e pelo clube, mande suas sugestões pro biscatesocialclub@gmail.com. Invenção de perguntas? trabalhamos.

E a última novidade antes do resumão é que estamos pensando em resgatar as semanas temáticas (cês lembram, num lembram, do #AlmaBiscate, #BrasileirãodaBiscatagem e do #ErotismoEmNós que começou com este post da Renata Lins?). tem sugestão de tema? De novo: usa nosso email, tamos aê pra isso, né.

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 Então, vamos à(s) semanas…

04 de agosto - Começamos a semana com o post-convidado da Camila Pavanelli: Imagine e sua pergunta inquietante e necessária: “já imaginou as pessoa tudo vivendo em um país onde os presos são tratados como cidadãos com direitos e não como bichos a serem enjaulados?” Um ano atrás, lá estava a Sara dizendo, enfática: Só Fico Com Quem Eu Quero! “Ser mulher livre não é sinônimo de ser objeto de alguém, muito pelo contrário! Somos donas de nossas vontades, de nossos corpos, não quero ter que me policiar de usar uma calça comprida no calor, quero poder escolher a roupa que eu uso, na verdade, quero viver minha vida sem ter medo de ser assediada na rua, na família, no trabalho ou entre amig@s de minh@s amig@s!”

05 de agosto - O Augusto falando Das Noites Que Encarei Sem Deus, lembrando que “enquanto nós, biscates, estamos por aí borboletando na experiência divina (as que querem, porque pode não querer, não entender, não gostar, ignorar… sei lá…) as religiões, ao contrário, cagam tudo ao querer institucionalizar isso!”.

06 de agosto - Na terça tivemos as Perdas da Silvia Badim, “porque biscate também é ter coragem de mergulhar nesses buracos da gente”. Nesse mesmo dia, em 2012, o Augusto nos trazia a Bisca Millet, pra gente conhecer e se deleitar: “eu fico só imaginando a cara de todos aqueles artistas novinhos, alvos da caneta ferina de Catherine Millet que, talvez tarde demais, descobriram que todos aqueles “va te faire foutre” e “va te faire encouler” dispensados à nossa biscatona foram, na verdade, muito bem recebidos… elogiosos, inclusive. O “mon cul” coletivo deve ter sido impagável! O ahazo daquelas poucas páginas, pelo que li das resenhas à época, serviram para mostrar que o ambiente moderninho da arte francesa do início do novo milênio não era capaz de digerir uma respeitável profissional de meia idade expondo aventuras sexuais que iam da suruba a escatologias ao ar livre em ambientes parnasianos”.

07 de agosto - Na quarta, mais bisca convidada. Dessa vez foi Liliane Gusmão e a memória de um tempo sem Inverno. O que ficou na sua memória? Na memória da bisca, “ficaram as músicas que cantamos e o cheiro da maresia que hoje se misturam em uma sensação de felicidade intrínseca que acho que vem dessa época e talvez até dessa noite em particular”.

08 de agosto - A Niara trouxe mais um capítulo da deliciosa Gramática Biscate, dessa vez se debruçando sobre verbos e conjugações verbais. Como ela lembra bem: “QUERER, na minha opinião, é o verbo preferido das biscates. Bueno, porque sem ele, conjugado na primeira pessoa do presente em alto e bom som, nenhuma mulher é biscate.” E um ano antes? Laralilá, pra comprovar nossa vocação pra transformação, estávamos anunciando outra, Dando Um Trato: ”é que estamos, por assim, dizer, trabalhando pra melhor servi-l@. Gente que vai, gente que chega, o clube anda sempre de pernas portas abertas. A partir deste sábado, tudo com cheirinho de estréia: nova colunista, horário de postagem mais cedo: 10horas, uma coluna pornô…”

09 de agosto - E clube biscate se alegra em dias de suruba, nem que seja literária. Delícia de texto de Renata Penna e Sílvia Badim: Latejada: “Volto para dizer que aprendi a deixar doer, e que as dores são adubo para os novos tempos. E esses novos tempos nascem do que eu fui nas noites brancas de lua que dividimos arrepiadas. Assim, sem mais, eles nascem, e você nasce de novo, a cada dia, latejada. E eu não tenho mais medo”.

10 de agosto - Terminamos a semana conhecendo, pelos olhos e lentes de Toni Miotto, a valente Maria Medalha. E no ano passado? Não lembramos, mas temos a intuição de que estávamos biscateando por aí, hohoho…

Não é Elogio

Por Isabela Casalotti*, Biscate Convidada

Tem homem que acredita mesmo que assédio é elogio. Antes eu achava que era só desculpa esfarrapada para permitir-se continuar. Mas, não. Tem homem que acha que é gentil ao dizer qualquer coisa para uma mulher, com a intenção e o tom que desejar. Pois bem, homens, assédio não é elogio. E as mulheres, na maior parte das vezes, sabem diferenciar isso bem.

Quem é mulher sabe como é temer usar um determinado tipo de roupa por causa dos assédios. Ah, semana inteira usando calça comprida, sábado de verão, encontrar as amigas para almoçar, escolher aquele vestidinho leve, fresco e confortável, lembrar que vai usar transporte público, frustrar-se, desistir do vestido. Algum homem já passou por isso? Muitas mulheres já. Eu já.

assédio não é elogio

assédio não é elogio

Nós sabemos reconhecer um elogio. Ah, eu sei como é estar numa festa, flertando, trocando olhares e sorrisos e a pessoa dizer que você é linda. Como é boa a sensação de estar num bate-papo legal com alguém que conhece há não muito tempo e ela/ele dizer que reparou, naquele momento, que seus olhos são bonitos. É ótimo chegar a um ambiente em que as pessoas dizem que você está maravilhosa, seja porque não te viam há algum tempo, seja porque você caprichou no look, ou simplesmente porque você está se sentindo assim. E que delícia é ouvir “gostosa” durante um beijo, um amasso, um sexo casual ou sexo com a pessoa que você ama, da pessoa que você deseja naquele momento.

Nós sabemos o quão ruim, constrangedor e até assustador pode ser um assédio. Um assédio é uma agressão, fica difícil se defender. “Ai se eu te pego”, “vem cá, delícia”, “nossa, que bundão, hein?”, num contexto em que não há realmente minha demonstração de interesse em ouvir isso daquele homem, chegam a me amedrontar, me fazer olhar para os lados preocupada e considerar a hipótese de que algo pior pode acontecer. E os tão ingênuos “fiu-fiu”, “princesa” ou qualquer adjetivo, usados também nesse contexto, não são tão ingênuos assim. Admirar a beleza de uma pessoa é uma coisa, impor o que você pensa é outra. Você não está andando por uma galeria de arte falando sobre objetos, nem no açougue escolhendo a picanha do seu churrasco. Você está falando sobre o corpo de uma pessoa, que pertence somente a ela. Desconsiderar isso é mais do que desrespeito. É violência. É opressão.

Nós sabemos como é ruim sentir-se acuada. Se reage, pode ser vítima de mais violência, se não reage sente-se impotente. E ainda tem que engolir os outros olhares, os inquisidores, que julgam que você provocou a situação, seja pela roupa, por estar sozinha, ou pelo simples fato de ser mulher e as coisas serem “assim mesmo”. Há ainda quem nos chame de recalcadas por não gostarmos. Que saída temos? Daí você pode me dizer: tem mulher que gosta. E eu contraponho: pode ser, mas se tem gente que não gosta, o mais respeitoso é considerar isso. Veja bem, tem gente que não come carne, gente que não bebe leite, gente que não consome álcool. E aí? Alguém enfia essas coisas goela abaixo só porque tem gente que gosta? Não. Pois é, a diferença é que eu não consigo escolher não ouvir suas palavras.

PS BiscateSC: Reconhecemos que, nessa relação de assédio, as mulheres negras e as mulheres trans podem ocupar uma posição ainda mais vulnerável e apontar a violência cotidiana não pretende invisibilizar essa situação.

eu*Isabela Casalotti é feminista e psicóloga nas horas ocupadas. Pecadora nas horas vagas (e sempre que possível). Biscate o tempo todo.

Tá Todo Mundo Nu…Ou Quase.

Strip-Tease Biscate: Cada um tira o que quer, mostra o que quer…

Somos Biscates. Somos o Biscate. Somos em ideias, as nossas ideias de liberdade, ausência de julgamento moral, equidade, gozo. Somos em valores, os que insistimos em afirmar teimosa e cotidianamente onde quer que estejamos. Somos em comportamentos: nos nossos amores, nas amizades, na escolha do ofício, nas redes sociais.

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Agora fecha os olhos e imagina o que quiser. Pode ser o que for, cabe tudo aqui. Nudez de corpo e alma, liberdade de soltar a imaginação em busca de. De qualquer coisa que se queira.

Somos o Biscate nas letras que trazemos, todos os dias, aqui, pra vestir as brancas páginas. Cobrimos a página de letras e nos desnudamos. Aqui, escrevemos.

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Deixe os livros de lado, as falas prontas, a pretensa intelectualidade de explicar os porquês das relações e da sexualidade. Agora é só sentir, e sentir assim, nu, sem subterfúgios, sem fugas, sem desvios, deixe as falas saírem despidas, sem pensar, só querendo o prazer intenso e profundo da pele e dos sentidos.

Escrevemos porque não podemos evitar, para ser lido, para tentar dizer, para não morrer. Escrevemos para passar o tempo, para parar o tempo, para mudar a história.

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Pegue um copo, embriague-se. Beba o que quiser, expanda os sentidos, com água ou cerveja, suco ou vodka boa, grandes goles, grandes sensações, deletei-se!

Escrevemos para tecer em palavras um véu que esconda o horror deste vazio que nos ocupa. Escrevemos porque somos humanxs e o mais humano é dizer-se. Só o íntimo, o gozo, a morte, a dor, o riso, o pensamento íntimo e próprio é que sabe se tornar letra biscate.

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Deixe-se gozar. Experimente-se. Permita-se.

Escrever é reconhecer toda falta: de tempo, de corpo, de ser. E é negar, em cada traço, o vazio. Escrever é reconhecer todo excesso: de tempo, de corpo, de ser. E negar os extremos com as entrelinhas, as vírgulas, os intervalos.

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Explore os detalhes, que afloram quando a gente menos percebe. Exale o sexo que está escondido nas curvas dos quadris, atrás da nuca, no canto do pescoço, no que ninguém percebe mas que está ali, latente, e pronto para ser degustado.

Escrevemos porque sabemos que o mundo com o qual sonhamos precisa ser construído também em discurso. A um mundo não basta ser percebido, ele precisa, essencialmente – e é a única essência que reconhecemos – ser dito.

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Decifre o outro. Os outros. Você mesmo na cama. Decifre seu prazer, sem controle moral. Desafie-se a ir além.

Escrevemos o mundo que fazemos e o mundo que queremos. Escrevemos o mundo que habitamos e o que transformamos. Escrevemos sonhos. Daqueles que se sonha com os pés plantados no céu e a cabeça no asfalto. Sonhos que são estrada.

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Os pés, as raízes. Ficam-se ao solo e captam vibrações terrenas, prazeres mundanos. Zonas erógenas bem expostas no dia-a-dia, que estão aqui prontas para serem reinventadas.

Escrever é ir despindo a alma. Escrever é ir desnudando as vontades. Escrever é uma coragem. E um gozo. Escrever aqui é celebrar a possibilidade. De Ser. De ser o que se pode e se quer ser. Se fazer.

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Desenhe no corpo. Com giz, tinta, com os dedos, com a língua, com caneta permanente. Desenhe seus mapas e labirintos. Seja.

Somos o que fazemos, sabemos. E fazemos o que somos. Fazemos o Biscate. Somos o Biscate. Em dito. E em pele. Em corpo. Matéria.

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E, claro, fantasie. O que seria da realidade sem a fantasia? Fantasie-se, fantasie a vida, viva a fantasia, viva a possibilidade de se reinventar a cada dia.

Por isso, nessa nossa festa, nessa celebração do que somos, dizemos, fazemos, nos trouxemos em corpo pra partilhar com vocês. Invertendo a lógica, o nosso corpo é uma metáfora. Do que, diariamente, revelamos Expomos. Mostramos.

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Olhe com calma. Profundo. O sexo pode começar no olhar. Olhe bem. Trepe com os olhos, janelas da alma. Olhe para além do que a vista alcança.

Reafirmamos o nosso Editorial: Acreditamos, convictamente, que todos e cada um deve ser livre para fazer o que bem entender com quem escolher e onde bem quiser – inclusive tirar a roupa no seu próprio blog nos festejos de aniversário. E persistimos na busca de Gentileza, Beleza, Leveza.

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E depois de tudo, ainda há mais. Recomece. Tire tudo de novo. Vá por outros caminhos. Nudez desgarrada. A gente não quer mais as mesmas roupas. A gente quer as roupas que se reinventam, que se perdem, que se acomodam diferentes no corpo a cada dia.

O nosso strip é porque a gente quer se mostrar? Claro. E não temos vergonha nem de mostrar nem de saber disso. Mas não é só (embora isso só já o justificasse). O nosso strip é um convite. Estamos dizendo: Vejam. Olhem. Leiam. Descubram. O que se põe à mostra. O que se põe à prova.

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O riso. Grande e farto. O gozo, livre. Alegria. Viver é alegre, ou pelo menos deveria. O sexo liberta, ou pelo menos deveria. Aqui a gente ri, grande e farto, e a gente pode. Ui ui ui! paraterminar, dá uma reboladinha com a gente, mexe os quadris em busca de leveza, solta tudo por dentro, deixa vir a vontade!

O nosso strip é um convite. Pra você se desnudar com a gente. Pode tirar os anos de inquietação. Os preconceitos. Pode despir a vergonha. O medo de não ser aceito. Pode se livrar do mito da beleza perfeita, do corpo perfeito, da pessoa perfeita: somos, todos, imperfeitos em livre construção aqui. Vem se mostrar. Se desvelar. Se re-velar, se quiser. Porque quando nos damos a ver é uma forma de indicar o que ainda não foi visto. É sexy, acredite. Vem se ver. Se dizer. Se saber. Se saborear. Biscatear.

E não tem festa boa sem convidado, né?

Segue fotinha de bisca-não-escrevente mas que se saboreia, se sabe, se diz, se vê. Pra festejar com a gente. #VemNiNós. Então, já sabe: hoje a festa é sua, hoje a festa é nossa, é de quem quiser, de quem vier. 

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Seios arrepiados. Vamos tirar tudo. Sentir todos os calafrios de se estar desabrigado de defesas.

E se você quer saber mais, ver mais, ousar mais, passeia pelo blog, vai, tateia, inspira, toca e se toca. Quer trilha sonora? Vai nessa:

 

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