Mundão Biscate

Não, a festa não terminou. É que depois de muito sexo exercício e talz, a gente precisa recuperar o fôlego. Sabe quando você fez muita atividade, toma uma chuveirada e jura que vai só tirar um cochilo mas dorme profundamente e nem sente o tempo passar? Pois, as biscas aqui caíram nessa.

Mas voltamos a acender as luzes de boite, renovamos o estoque de bebidas, aumentamos e som e vamos dar uma passeada nos efeitos do Biscate nesse mundão afora que ora parece nosso quintal ora um território desconhecido e inóspito.

mundo

Do lado de cá da força saímos em posts do Blogueiras Feministas, do Breique Taime, do Pessoa Gente Humana, citadas no blog da Adriana Torres, mencionadas no Female Friendly Songs, e divulgadas no Substantivo Plural e Correio Progressista graças ao post da Srta. Bia no Blogueiras Feministas. E, claro, ganhamos post de aniversário no blog da Charô (se você sabe de mais lugares onde fomos citadas, linkadas, faladas, cotadas e outros adas do gênero, conta pra nós, vai)

É gostoso (ui) ver o vai e vem (ui, ui) blog-descaradamente-biscate e o mundo. Começamos na empolgação e hoje olhamos nossas estatísticas e ficamos rindo à toa com 3.470 comentários, 286.715 acessos, 3.384 pessoas curtindo a página no FB, 1.350 pessoas seguindo no Twitter.

Não temos dúvidas que foi essa empatia, essa repercussão, essa aceitação que trouxe ao BiscateSC os convites que ofereceram mais ressonância das ideias do Clube: a entrevista realizada com as biscas-gerentes Niara e Luciana para essa matéria do Delas (que comentamos aqui além de publicarmos as respostas completinhas) e a participação no programa Encontro da Fátima Bernardes (cuja participação biscate ficou marcada pelo pretinho básico de R$19,90) tratando do tema Periguete.

Se tudo por aí mundou nesse um ano que estamos mundando e biscateando na vibe do orgulho biscate ainda é cedo para avaliar. Mas é certo que ficou bem mais divertido… pelo menos nós, aqui do lado de cá, estamos nos divertindo à vera.

Vem biscatear com a gente, vem?! 😉

p.s.: Estamos todas, todas nos querendo e nos oferecendo para quem der e vier. Ou vier e der.

 

A escolha de Ana

Gato, vim aqui pra esclarecer algumas coisas. Olha só, nessa cidade fria, às vezes uma garrafa de vinho não é suficiente para aquecer o corpo e a mente, então, acontece de a gente querer outro corpo pra, quem sabe, pegar fogo junto. Estava tudo bem, tudo delícia. Eu gostava da facilidade da nossa relação. Ligação, bar, risos, conversas, mão aqui, beijo, tesão, sexo. Mas aí você vem e estraga tudo.

Você tira da sua cabeça que precisa me recompensar por eu ser tão boa e agradável companhia afetiva e sexual. Você acha que eu quero um prêmio. E então, você me surpreende com uma frase meio tacanha do tipo: “ah, minha linda, você tem todos os requisitos pra ser uma mulher com quem eu tenha um relacionamento sério”. Oi?

Mas não satisfeito em achar que eu tenho 5 anos de idade e que leio Branca de Neve todas as noites antes de dormir, você ainda tem a sordidez de me pedir algo em troca da super recompensa que você vai me dar. Afinal, você quer namorar comigo e que mulher no mundo não quer ter um namorado? Hein, me diga? Então, voltando ao assunto, você me pediu uma coisinha em troca. Mas é claro que é pro meu bem, porque você se preocupa comigo, não é mesmo? Para que eu tenha a honra e a sorte de ser a sua namorada, só tenho que emagrecer. Claro.

Bom, eu não sei o que se passa nessa sua cabeça, e depois dessa não estou nem um pouco a fim de descobrir, mas vou mastigar algumas coisas pra você, gato.

Primeiro, que você não é parâmetro para a minha vida. Chegou há poucos meses e quer sentar na janelinha de um bonde que está rodando há mais de 30? Por favor, né? Segundo, my dear, eu sou feliz com esse corpo, que você parece gostar bastante quando estamos sós, mas que por algum motivo parece ter vergonha de aparecer em público ao lado dele.

É esse corpo que diz quem eu sou, qual é a minha história. As minhas cervejas para afogar as mágoas, os chopes para comemorar com os amigos, a minha cicatriz da cirurgia do coração (e isso não é uma metáfora), o biscoito de queijo da mamãe, as manchas de sol da preguiça de passar protetor, meu cabelo camaleônico, minhas unhas vermelhas, minhas bochechas que já receberam tantos beijos amorosos, isso tudo sou eu. Esse é meu corpo que amou, foi amado, sofreu e fez sofrer. Enquanto você tem vergonha dele, eu sinto um orgulho tremendo.

Veja bem, gato, é por isso que não vai dar certo entre a gente, sabe? Eu gosto muito de mim, mas muito mesmo, entende? Eu me respeito demais. Cada estria, cada celulite, cada sardinha, cada pé-de-galinha é parte de uma história que só eu posso contar. E você não tem os requisitos de um cara que mereça participar desse bonde.

Alcova Biscate #00

[Olá, vocês estão sendo convidados a entrar na nossa alcova. Fantasia, realidade, desejos, memória, tudo junto e misturado. Quem traz tudo pra gente é noss@ nov@ colunista: M. Merteuil. Fiquem à vontade. Bem à vontade.]

O dia estava quente, para um inverno tardio. E ela foi trabalhar, colocando calcinha e sutiã combinando, de renda. Vermelho. Bordeaux, melhor definindo. Já é indicio de má intenção, dirão alguns. É tão clichê, diriam outros. Não se importou, era para ela. Em um dia quente, nada como usar de clichês para se sentir sexy. Sensual. Mas sem perder a elegância, afinal, revistas e sites sempre ressaltam essa linha tênue, entre ser sensual mas não ser vulgar!

Terminou de se vestir. Roupa séria, de propósito, para ressaltar que a lingerie vermelha era só para ela.

Maquiagem suave. Esqueceu o batom vermelho M.A.C., optou por um mais clarinho, quase natural. Natural sim, mas nunca sem maquiagem: base, blush, sombra (sombras: escura na linha dos cílios, iluminadora nos cantos e perto da sobrancelha… ah, os tutoriais de make de hoje em dia…).

Rímel à prova d’água. Delineador. Marrom. Não pode ser muito óbvia, é dia. Lembra-se sempre das dicas!

De uma dica para outra, não foi difícil chegar nas dicas que falam sobre enlouquecer os homens na cama. E daí para lembrar que na véspera, poucas horas antes, recebeu a mensagem.

“Oi. To com sdd.”

Assim, só isso.

Lembrou da amiga, de faculdade, que falava:

“Daí o cara que você não vê há meses aparece. Liga ou manda mensagem dizendo que tá com saudade. Há quanto tempo…, diz ele, as reticências sugestivas. Pois é, a gente responde, deixando também as reticências. (ah, os diálogos de reticências…) E ele: Então, você sumiu, fiquei sabendo que estava namorando… E a gente: nada, terminei (mentira – ou não). E aí ele lança que a gente podia sair para tomar um chopp. E a gente sai e trepa. E ele acha que era só ele que estava “com saudade”. Gargalhada. Biscate.

E isso virou nossa piada interna, nosso código.

Saudade demais.

Suspiro. Tesão. Desejo. Vontade. Necessidade.

Foi trabalhar, mais um dia irritante previsto adiante.

Na hora do almoço, aquele colega que estava de férias aparece.

Ela pensa: nossa, saudade demais…

Ele passa na sala, oferece um café, uma coca-cola. Reticências.

Ela lembra: por que não?

A tensão sexual – adorava essa expressão, indefinível mas palpável – sobrecarrega a sala de partículas cintilantes.

Ela pensa: por que não?

Mas não é hora e nem lugar. Não vai rolar.

Decide então sair para almoçar.

Em casa. Sozinha.

E lá, tira da gaveta o amiguinho.

E pensa: por que não?

Passa a língua pelo céu da boca, e sente um arrepio.

Por que não?

A cama ainda está desfeita, os travesseiros no encosto, o notebook ao lado.

Mas faltava algo. E ela lembra.

Faltava. Não falta mais.

A pesquisa ainda está no histórico, aquele vídeo que a deixou molhada na véspera, que a inspirou, inconscientemente, a usar a lingerie vermelha, combinando.

Very hot natural sex.

http://www.redtube.com.br/124269

Pornografia, livre, na internet.

Um casal, que parece perfeitamente compatível.

Um homem que parece de verdade, normal, e não os tipos tatuados e de cavanhaque, excessivamente musculosos, de cabeça raspada, cara de mau, que costumam aparecer nesses filmes, que ela garimpava pela net.

Ela lembra como foi, quando encontrou. Pornô woman friendly. Que coisa, né? Ter que ter uma categoria “amigável para mulheres”.

E mesmo nessas, era difícil encontrar algum que fosse bom.

Excitante? Sim, vários, mas bom, bom? Raro, muito raro.

Apertou o  play, e começou a assistir, ainda de roupas. Pegou o óleo, tirou a roupa, e começou a sessão. Estava com saudade de si.

E apesar do sexo heteronormativo com um casal caucasiano muito jovem, o padrão na a incomodou nem um pouco, naquela hora.

Lembrou de sexo adolescente, de amassos escondidos, de sarros dentro do carro, de trepar na garagem do prédio, ou de gozar na mão do namoradinho, no sofá da sala, enquanto estavam sozinhos em casa, nos minutos roubados, com medo de alguém aparecer.

Saudade demais.

A língua no céu da boca, o pau de borracha vibrando. E ouvindo os gemidos que soavam verdadeiros, gozou com vontade.

Por que não, ora?

 Olhou as horas, estava atrasada. Banho, retocar a maquiagem, e voltar para o trabalho. Mais um turno. Mais acesa do que antes, mas agora a lingerie era … bege. Vermelho era o batom.

Dando Um Trato

Você, amig@ biscate que costuma vir aqui ler, discutir, divertir-se, discordar, aprender e etecéteras (viva a imaginação!) deve ter reparado que as coisas aqui andam de pernas pro ar (uêpaaaa!)…

É que estamos, por assim, dizer, trabalhando pra melhor servi-l@. Gente que vai, gente que chega, o clube anda sempre de pernas portas abertas. A partir deste sábado, tudo com cheirinho de estréia: nova colunista, horário de postagem mais cedo: 10horas, uma coluna pornô…

Continuamos recebendo sugestões, críticas, convites indecorosos e, inclusive, textos convidados no nosso mail: biscatesocialclub@gmail.com. Chega mais! Os textos podem ser depoimentos, impressões sobre a biscatagem, receitas, posts sobre cinema, música, pinturas e/ou qualquer produto cultural ligado à essa nossa vida Biscate.

Por agora (que a bisca-graúna-borboleta Lu promete post completinho), vamos deitando na cama que a gente fez a fama: o Biscate Social Club tava na televisão o/

Pode apertar aqui que chega lá…

 

Cara de Biscate

Por Clara Gurgel*, Biscate Convidada

A Lu foi me chamar e eu (toda paba) estou aqui, o que é que há?! É bem verdade que já me sinto em casa aqui no Biscate Social Clube. Venho sempre. Desde o começo. Já até escrevi post que me fez virar a “Clara do Biscate”, como disse a amiga de um amigo a quem fui apresentada. Só que, pessoas queridas, tenho um problema (aumentem o som da música incidental ): “NÃO TENHO CARA DE BISCATE!”. Tcharaaam!! Pois é, tenho cara de tudo, “fessôra”, psicóloga (ta vendo, Lu? Taqueospariu, Niara!), até de crente (Ôh, Glória!!), mas de BISCA?! Nã na ni na não! Ou, pelo menos, do que o povo convenciona achar que é Biscate, né?

Daí, que não é raro ver as pessoas que não convivem muito comigo, se surpreenderem quando chego numa festa, por exemplo, e passo longe das rodinhas de mulheres falando sobre seus maridos e seus rebentos fofinhos. Não que os meus não sejam, mas, né…pera aí que “vou ali”e já NÃO volto pra contar. (Hum, a Clara é estranha,né?!) E se tiver música então? Acredita que eu danço, canto junto?! E samba? Sim, requebramos! E se for ao vivo? Sim, batucamos! (nossa, não sabia que a Clara era assim…com essa carinha ninguém diz, hein?!) Pronto! Já lá vai eu virar a “sonsa da Clara!”. E quando eu falo que viajo sozinha sem “Senhor Meu Marido”? Às vezes sem ele e sem filhos? (burburinho geral na pista! Como assim? Como ela consegue? ELA NÃO O AMA! NÃO O AMA! O horror! O horror!) E se eu bebo? E se eu xingo? E se eu saio sozinha? E se eu tenho “um monte de amigos homens”?

E se…(oi?) só uma perguntinha? O QUE QUE TEM?? Sou CASADA mas não CASTRADA! Mas casada e biscate, pode? Pode e é por isso que me identifico muito com esse clube. A Paula Bruk explicou direitinho aqui que pode sim. Concordo essencialmente com o que ela escreveu. E não, meu marido não é um “otário”. Foi aqui também no clube, que vi, na maturidade de um rapaz de dezessete anos, o Lucas Ferreira, uma das melhores definições para BISCATE : “Ser fácil não é dar para todos que a quiserem. Ser fácil é dar para todos que ela quiser.”Portanto, hoje, “ESTOU” biscate de um homem só, por uma questão de opção; minha e dele. E que seja assim eternamente enquanto dure, enquanto ele continue me prendendo única e exclusivamente por me permitir ter a liberdade de ser quem eu sou e vice versa. Não quero ter cara, profissão, condição social e estado civil de biscate, quero apenas ser uma “Biscate Qualquer”.

Sim, sou a Clara do Biscate e o prazer é todo nosso! Ôh, se é…

Clara Gurgel é uma mulher ativa, diversa, atenta e engajada. Bem humorada, vivencia os diversos papéis – amiga, mãe, esposa – com leveza e sensibilidade. Quer conhecer mais? Vai lá e lê o Gaveta Virtual.

Ressignificar a buceta

Segundo o Dicionário Aurélio,

Significado de Boceta

s.f. Pequena caixa redonda ou oval. / Caixa de rapé. / Casta de tangerina. / Variedade de manga. / Bras. Determinado aparelho de pesca. / Pop. Vulva. // Boceta de Pandora, origem de todos os males.

Esse finalzinho aí foi bem assustador, mas condiz com o que muitas religiões pensam das mulheres, do sexo, e, obviamente, do genital feminino.

Outro dia, estávamos conversando, várias biscates, oficiais ou não, sobre o uso das palavras. Caralho! Tivemos a óbvia e etílica descoberta de que a palavra usada para designar o membro viril é muitas vezes usada num contexto não pejorativo ou obsceno, como “Bom pra caralho (ou pra cacete)”, enquanto não conseguimos encontrar um uso coloquial que fosse, no sentido positivo, para a pobre – palavra – boceta – ou buceta?

De acordo com a Wikipédia, bOceta é a tal caixinha, para guardar rapé, ou também, a palavra vulgar usada para designar a vulva, enquanto bUceta é a palavra usada, no português brasileiro popular e chulo, para designar a vagina ou a vulva. Também coloca alguns sinônimos regionais interessantes: bacurinha, buça, buçanha, capô-de-fusca, mijona (oi?) xereca, pastel (de novo: oi?) carne mijada (sério??) perereca, periquita, rachada (que original!), tabaco, tchura, tubia, xana, xavasca, xexeca, xibiu (oi Jorge Amado! Oi Gal! Oi Dorival! Oi Gabriela! ) xota e xoxota. Ufa.

São citados ainda, como “familiar”: bimbinha, griguilha, pipi, xibica, nhonhoca.

E como “popular”: passarinha, perseguida, racha ou rata.

Em Portugal, ora, pois, o nome da buceta seria cona, pachacha ou patareca (caso esteja por terras lusitanas, pesquise ai em que contexto, fora do sexual, elas são usadas, sim – as palavras, não as bucetas, por favor sim).

E tem também um termo que a Wikipédia colocou, que eu juro que não entendi. Sob o título de “social”, colocaram como sinônimo de BUCETA, perseguida.

Perseguida… lembrei do mito da vagina dentada.

E tem gente que tem medo mesmo. Medo da buceta perseguidora. Da buceta que faz o homem chorar, que faz o homem matar… Enlouquecer.

E enquanto PORRA e CARALHO e CACETE são vulgares, mas são populares (em certas regiões, o povo não tira da boca – ops!) e usadas para reforçar o quanto algo é bom ou serve como superlativo, acho que BUCETA só uso (como expressão) quando dou uma topada com o dedo mindinho do pé no pé da cama.

E aí é como xingamento, mesmo, né…

E enquanto um “puta que pariu, caralho, que porra é essa! É do caralho!” tem efeito elogioso, quando eu ouço um “puta que pariu, caralho, que buceta é essa!?!” boa coisa não se deve esperar.

Que medo é esse da buceta? Que medo é esse de falar, conhecer, tocar, deixar ter o cheiro ou os pelos que ela tem?

Não, não podemos. Tem que depilar tudo, usar desodorante “íntimo” para disfarçar o cheiro… da buceta (calma lá, ninguém tá falando da vibe Napoleão e Josefina, certo? Eu, ao menos, curto a coisa limpinha, né, mas sem neuras!), usar “protetores de calcinha”, sério, gente, a calcinha não pode ter contato com a nojeira da buceta, é isso?

Buceta não é coisa de mulher pra casar? Ah, então tá.

Buceta não é coisa de “mãe de família”? Ok.

E pra finalizar, deixo do desafio: vamos ressignificar a buceta!

Não precisamos ter vergonha das nossas “partes”, das nossas pobres “perseguidas”.

A buceta é nossa, cada uma tem a sua, com seu cheiro, sua cor, seu hair style.

Eu adorei essa montagem, as imagens usadas, de cantoras estrangeiras badaladas, ainda, fazem pensar no quanto de preconceito de classe existe contra o funk, quanto às mulheres do funk e contra mulheres falando de sexo em geral…

Eu dou pra quem quiser que porra da buceta é minha!! é apenas uma outra forma de dizer:

Não dá pra mudar o significado das palavras assim, de um dia para o outro, mas dá prá começar a pensar, né?

Então, vamos parar de ter vergonha até de falar?

Repete comigo: BU-CE-TA!

Na Temperatura Certa

temperatura

A calçada ouvia seus passos. Ela sorria. Já nem tentava evitar, ela sorria. Não era boa, sempre tivera uma intuição. Toc-toc, o salto cantava, ela sorria e já findava a tarde. Sentia a brisa no corpo como a carícia de uma amante. Conteve-se pra não gargalhar. Girou o corpo, um misto de elegância e falta de jeito, despedindo-se da rua e entrou em casa. Bolsa na mesa, roupa no chão, cigarro, sofá. Manteve o sapato, claro, o salto fino lhe ajudava a lembrar. Pensou em vasculhar a geladeira, mas estava saciada. Não tinha fome a não ser de lembranças. Irônica, já forjava sua frase de efeito: quem disse que a vingança é um prato que se come frio não entende de culinária ou estava com tanta fome que comeu umas palavrinhas. Ela sabe, já provou: a vingança é um prato que se come de cabeça fria.

Foi em um restaurante que se conheceram, a fumaça do cigarro em espirais refaz a decoração simples e o cheiro bom de gordura e animação. Chegou afobada e com fome, mal reparou nas apresentações que a amiga fez, mergulhou o nariz no cardápio. O corpo todo pedia comida. Depois da animada interação com o garçom a respeito de carne de sol e suas formas de preparo, sentiu o olhar. Ele sabia olhar, ah, sabia, e a fome expandiu-se no corpo. Um vazio ansioso de saber-se vista por dentro. Devorada. O ditado não podia ser mais exato: juntou-se a fome com a vontade de comer.

As espirais de fumaça demancham-se, repara que o cigarro acabou. Decide que um vinho, um tinto, seria bom acompanhamento para o ruminar de memórias. Sôfrega, ela vê o vermelho escorrer da boca e decorar em arabescos o colo. Descarta o lenço assim como desfaz-se de todas as lembranças intermediárias. Uma casa construída na areia, hoje está para metáforas. Prefere correr para a recordação de hoje. Preparou com esmero. Aprendeu cedo que, na boa cozinha, planejamento e bons ingredientes são mais da metade do caminho. E fez assim: um quarto em rubro, boa música, velas, ela, ele. Manteve a temperatura: não brinque com fogo, não deixe talhar, acenda primeiro o forno, lembra os dizeres da mãe, enquanto sua e mexe, firme, a panela do desejo, sempre enorme a seus olhos de sempre menina. Primeiro temperou, deixou pegar gosto, depois manteve em banho maria por um bom tempo até que a química se fez e permitiu que os ingredientes se fizessem um, em alta temperatura.

Deixou que ele tudo provasse, que se regalasse, que se lambuzasse e exigisse, que se fartasse e só não abriu mão do salto. Barriga cheia? Então serviu, quente, o seu adeus. Gostou demais do olhar passando de satisfeito a interrogativo, daí a inquieto, depois ansioso, a seguir assustado e, por fim, desejoso. Gostou de ouvir todos os inúteis argumentos e acompanhar as ineficazes artimanhas. Gostou de menear a cabeça, sacudir os ombros, dizer não. Gostou de apreciar a hora exata em que ele tudo compreendeu e logo negou-se o entendimento e fixou-se numa ligação futura que não existirá. Gostou, gostou, gostou. Gostou especialmente de sair sem banhar-se, o cheiro no corpo, como alho e cebola quando se cozinha, os temperos todos presentes, sentindo o desespero dele como o último e morno pedaço aquecendo a língua. Gostou de ir embora de salto 15, do som do sapato na calçada, do novo balanço no corpo, mais leve, gostou da sensação de saciedade, gostou do prato inteiro, foi bom em preparo, execução e apresentação. Comida de butequim, ele lhe disse que ela era. Nunca, nunca defina um prato pela sua apresentação. Pois sim, quem disse que vingança é um prato que se come frio?

M.I.A e o dedo do meio guerrilheiro

Por Fabiana Nascimento*, nossa Biscate Convidada

Live fast, die Young/ 
Bad girls do it well
(Viva rapidamente, morra jovem
/As garotas más fazem direito)

Olá, Status Quo, aqui pra você!

No dia 05 de fevereiro de 2012, no intervalo do evento esportivo mais assistido dos Estados Unidos, o Superbowl (ironicamente chamado de campeonato mundial de futebol, o americano, um esporte idolatrado em massa apenas por uma nação do mundo) no show da Madonna, um ícone da música pop estadunidense, da liberdade e da biscatinagem feminina,  M.I.A (lê-se eme ai ei) rouba a cena apontando o dedo do meio para a câmera e falando um palavrão “I don´t give a shit”, algo como, eu não ligo a mínima, com o palavrão shit, merda soa ofensivo para os padrões da TV aberta americana. A mensagem foi clara: toda essa parafernália, toda essa infra estrutura estrambótica não valem mais nada. O mundo se sentiu representado por ela, porque uma grande parcela do planeta está andando e cagando pro que pensam ou fazem os estadounidenses.

Não se trata aqui de antiamericanismo besta, infantil, de ser contra por birra – afinal M.I.A aceitou o convite de ser cheerleader da Madonna – e qual biscate do mundo não aceitaria? Não é um desprezo à cultura que nos deu o pop e outras manifestações que fornecem meios e armas de expressão artística para os jovens, não tem como negar que hoje o hip-hop é uma arma política de ação efetiva, assim como foi, e ainda é, o punk. Ambas criações anglo-saxãs que se tornaram expressões mundiais.

Estamos falando de um ato de guerrilha, pontual, de se infiltrar no território e agir de forma a implodir com os pilares do conformismo. Duvida que o dedo do meio tenha provocado um falatório, ao menos no mundo restrito da internet? É só dar uma volta pelos comentários dos vídeos da M.I.A no youtube e ler o tamanho da indignação dos americanos com tal gesto e quanto os comentaristas do resto do mundo falam que ela foi certeira. Um artigo do Guardian, fala mais ou menos o que penso, os fãs dela não se espantaram com o gesto, mas com o fato de ela estar nessa apresentação (clique aqui e leia mais).

M.I.A caminha pra ser um ícone da música pop, por usar a sua música como manifestação política de denúncia, por trazer visibilidade para as populações esquecidas do mundo, refugiados, guerrilheiros.  Você que leu até aqui deve estar se perguntando: o que isso tem a ver com biscatagem? Tudo, quem disse que biscatear não é um ato político? M.I.A leva isso as últimas consequências, botando todo mundo pra rebolar. Porque a revolução virá, também, do rebolado.

Essas idéias combativas surgiram de uma história de vida digna de um roteiro de um filme de Hollywood, cheio de reviravoltas e superação. Nascida na Inglaterra, Mathangi Arulpragasam, chamada de “Maya” em 1975, filha de um engenheiro ativista cingalês da etnia tâmil, que brigava pela independência no Sirilanka e de uma costureira.  Quando Maya tinha 6 meses,  sua família voltou para o Siri Lanka, e seu pai tornou-se um guerrilheiro, eles se tornaram refugiados. E, de acampamento em acampamento, a mãe de Maya conseguiu levar a família novamente para Londres. Crescendo assim em meio a uma guerra civil, sob os escombros das injustiças, criança no meio de bombas, desenvolveu uma sensibilidade artística que capta sempre a visão do oprimido em seus trabalhos.

Entrou na escola de  Cinema do famoso Central Saint Martins College of Art and Design, em Londres, transformou-se numa conceituada artista plástica tendo por companheira Justine Fishman  (ícone feminino Brith Pop, isso é tema para um outro texto), que incentivou Maya a entrar no mundo da música.

capa do single The Bitch Dont Work, concebido por M.I.A

Adotou o codinome artístico de M.I.A, uma sigla que significa  Missing in Action, desaparecida em combate, acentuando as características combativas de sua obra. Seu primeiro trabalho buscou na cultura de rua dos imigrantes de Londres inspiração para fazer uma música dançante e de conteúdo social para o mundo contemporâneo. Antes mesmo do lançamento do primeiro álbum trouxe novas perspectivas para a dance music londrina. Seu primeiro álbum, Arular (nomeado em homenagem ao pai guerrilheiro) de 2004, traz referência às batidas do funk carioca.

(Bucky Done Gun, M.I.A descendo até o chão na batida do funk carioca)

No álbum posterior, Kala (o nome de sua mãe), M.I.A recolheu histórias de conflitos ao redor do mundo e falou de maneira crua do terrorismo, por isso o álbum foi censurado nos EUA. E como o álbum anterior, foi mundialmente reconhecido pelo público e pela crítica especializada.  Ganhando indicações para o Grammy com a música Paper Planes, um libelo de denúncia ao tratamento dado aos imigrantes ilegais. E para o Oscar com “O. .. Saya” uma canção composta para o filme Quem quer ser um milhonário?

(Na música Boyz de 2007 M.I.A requebra com a dança do kuduro de Angola)

No álbum ///Y/  de 2009, continuou combativa falando de sexo, e bombas, Lovealot. No entanto foi criticada por banalizar a violência e o terrorismo e por supostamente ser ingênua e politicamente vazia. Comprou briga com uma jornalista do NY Times, que em um perfil retratou a cantora como uma rica fútil, que só fala de política para aparecer nos meios de comunicação. Nessa briga M.I.A conseguiu que o jornal publicasse uma retratação, pois o texto da entrevista descontextualizava suas declarações, invertendo a ordem de suas falas, construindo uma imagem imprecisa da cantora.

Desse álbum M.I.A lançou um dos mais impressionantes videoclipes de todos os tempos – isso não é apenas opinião de uma fã, heim. O vídeo para o single Born Free traz uma mensagem simples; o fascismo ainda existe, a repressão a grupos dissidentes, de qualquer parte do mundo, é violenta e sangrenta.

(Born Free, nascer livre, uma verdade esquecida no mundo contemporâneo.)

Esperamos mais ataques à caretice do mundo, que os combates dessa biscate ganhem cada vez mais as mentes das multidões de conformados. Porque, como ela diz no último lançamento, mais uma vez com um vídeo de perder o fôlego, filmado nas areias do Marrocos: Live fast, die Young/  Bad girls do it well (Viva rapidamente, morra jovem /As garotas más fazem direito).

Bad Girl das causas certas.

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* Fabiana Nascimento é nossa convidada que confirma a diversidade: biscate-tímida. Historiadora, feminista, indignada e preocupada com o mundo, ativa militante virtual. Inteligente e articulada, vai com a gente, sambando na cara da sociedade que anseia pela padronização.

Caixas

Era uma vez uma caixa. Uma não, um depósito. Um armazém gigantesco com o pé direito muito alto (e sabe que o tamanho do pé… né?), repleto de caixas. Todas iguaizinhas, sem cor, sem cheiro, inertes. As caixas. Umas letras vermelhas estampavam os lados todos. Ela caminhava por entre as caixas. Divertia-se imaginando o que eram alguns dos nomes esquisitos ali. No canto, uma caixinha bem pequenina com a palavra “coliforme”. Uma outra um pouco maior indicava: “caramujo”.

Havia tantas, tantas caixas.

Uma caixa grandalhona dizia “animais” e ao lado dela uma outra maior ainda com o rótulo “sensações”. Delícia, pensou. Sensações. Era ali que entraria? Estava nas regras, ela releu em voz alta feito Alice – exceto que não havia ali maravilha alguma – uma a uma:

“Número um: entrar no armazém. Parágrafo único: o início do processo implica imediata aceitação das regras. Bom, já entrei, não posso mais voltar agora. Número dois: escolher muito bem uma caixa e entrar nela. Parágrafo primeiro: Antes de tomar uma decisão observe bem os requisitos afixados em cada caixa. O não-cumprimento dos requisitos obrigatórios impedirá sua entrada e você será retirada da missão. Parágrafo segundo: Caso a missão seja cancelada por motivo de não-entramento na caixa você será realocada de volta onde estava, sem a possibilidade de condicional.”

Duas regras. Não podia ser difícil. Sonhara com aquela chance, com aquele momento. Era preciso escolher bem a caixa. Continuou a incursão.

Uma enorme caixa quase encostava no teto do armazém. Que seria? pensou ela. Correu pra lá.

“MULHER”, dizia a caixa. “Mulher…”, pensou ela. “Por que não?”

Encontrou os requisitos obrigatórios da caixa “mulher”. Apenas um. Devia ser moleza, pensou.

“Ter nascido com uma vagina.”

Vagina. Olhava incansavelmente para o papel. Não tinha nascido com uma vagina. Quase desistiu. Chorou. Soluçou. A mesma dor de sempre. Reclamou, contou suas histórias às partículas que pairavam no ar.

E então, o silêncio.

A caixa estava errada. Ela sabia que era mulher.

Caminhava mais. Já nem lia os rótulos, tampouco reparava nos tamanhos das caixas. Repassava sua vida. As escolhas. O sexo bom e o ruim. Violência e amor. Pensava, pensava, pensava. Quase nem notou a pequena caixa de vidro junto à parede. Um rótulo vermelho em cima: EMERGÊNCIA. Ela não sabia mais o que fazer. Dentro da caixa um machado. Ela não sabia o que fazer. Ela não podia escolher caixa alguma.

Afastou-se como um boi (o que era uma emergência se não aquilo) e lançou-se ao vidro que espatifou-se cortando a superfície lisa e negra de sua delicada tez. O machado caiu. Ela agachou-se e pegou-o em suas mãos. O cabo rijo, o desejo. Tesão acumulou-se, o sexo pegava fogo. Um fogo descabido, desproporcional.

Ela segurou o roliço cabo do machado com firmeza. O tesão a fez crescer. Cresceu, cresceu, cresceu. Olhou de cima a “caixa-mulher”, tão pequena. Ínfima.

Já não cabia em caixa alguma.

Do ponto de vista do alto ela percebia a bobagem que eram as tais caixas. Que engano, a vida toda querendo uma chance de escolher. Que bobagem. Largou o machado e ficou com o tesão. O tesão da vida, da beira, da ausência de limites. Liberdade.

Caminhou pra fora do galpão quebrando as paredes e tudo mais que lá havia.

Nunca mais a biscate quis entrar numa caixa dessas.

Quando Uma Biscate Sofre…Maysa

E a vida de biscate é só de risos e prazer e se dar bem com seu corpo? E nunca o vazio, uma lágrima, um querer que não cabe em si? Uma biscate sofre. E quando se dói, é coisa bonita de se ver. Ou de ouvir. Uma biscate se entrega, se mostra, se rasga. Uma biscate pulsa. Canta. A biscate de hoje é puro encanto em uma voz que ainda lateja em mim. Em dores de um amor que nunca éPolêmica. Bonita. Bêbada. Solitária. Desejada. Talentosa. Desnuda. Emocional. Atrevida. Dionisíaca. Avançada. Forte. Agressiva. Indescritível. Incontornável. Insaciável. Uma biscate com olhos de abismo. Maysa cantou o que é, na minha opinião, a maior música-tema da biscatagem, Resposta:

Ninguém pode calar dentro em mim
Esta chama que não vai passar
É mais forte que eu
E não quero dela me afastar

Eu não posso explicar quando foi
E nem quando ela veio
E só digo o que penso, só faço o que gosto
E aquilo que creio

Se alguém não quiser entender
E falar, pois que fale
Eu não vou me importar com a maldade
De quem nada sabe
E se alguém interessa saber
Sou bem feliz assim
Muito mais do que quem já falou
Ou vai falar de mim

“Tenho medo apenas do que não depende de mim: amar e não ser amada, por exemplo.”

Eu cresci sabendo Maysa. Lembro do brilho no olho do meu pai quando ele falava dela. Ele era um apaixonado. Ele é. Não sozinho, claro. Manuel Bandeira escreveu: “Os olhos de Maysa são dois não sei quê dois não sei como diga dois Oceanos Não-Pacíficos”. São muitos os fãs de Maysa, sempre foram. Em 1958, por exemplo, não houve um só dia do ano em que pelo menos um órgão de imprensa do Rio de Janeiro ou São Paulo não trouxessem uma notícia sobre ela e, quando a televisão quase nem era ainda, ela comandava 2 programas semanais: um no Rio, outro em São Paulo (e não sou eu que digo, mas Lira Neto na espetacular biografia “Maysa – só numa multidão de amores”).

“Eu era uma assanhadinha dessas que não tem explicação”

Mas amor e devoção não era tudo que Maysa provocava. Porque ela não era bem comportada. Na verdade, sequer comportada, quanto mais bem. Menina, organizava e apostava em corridas de porcos, segundo ela, os únicos que não precisavam ser bem-comportados no internato religioso que frequentava – e do qual logo pediu aos pais pra ser retirada. Jogava futebol na rua com os meninos, neles batia e deles apanhava. Muito jovem, insistia pra aprender violão quando o instrumento ainda era relacionado com marginalidade, vagabundagem. Fumava e usava calças, sem pudor, desde a adolescência, em uma época que até mulheres adultas temiam o severo julgamento social sobre este assunto.  Nas férias escolares viajava pra casa dos tios em Vitória. Pelo seu comportamento considerado ousado- tocar violão nas festas, tomar banho de mar sozinha e namorar todos e qualquer um que lhe interessasse – era considerada “má companhia” e sua prima era proibida de sair com ela. Fora de todos os tipos de padrão, com 14 anos media 1,60 e pesava 66 quilos. Era considerada gorda – ou “cheinha”, como diziam os mais delicados – mas isso não a impedia de conquistar quem lhe interessava. Casou-se com um homem acintosamente mais velho e, quando quis, desquitou-se (sim, não era divórcio e sim desquite nessa época). Divorciou-se do cara “bom partido” pra dedicar-se ao que gostava de fazer: cantar. E ganhar dinheiro com isso.  Rompeu com os padrões e foi mal vista, mal interpretada, mal falada em uma rica sociedade que só acolhe transgressões fora das vistas do público. Trepava. Muito e com quem lhe apetecia. Colecionava frases ferinas. No meio do show de Eliseth Cardoso, sua amiga e namorada de um dos homens com quem Maysa se relacionou também (e, dizem, concomitantemente), Maysa levanta e diz: “meu maior desejo era ser homem, negro, pianista e bêbado. Como vocês sabem, não consegui ser homem nem negro nem pianista. Agora pretendo ser a Eliseth Cardoso”.

“Não gosto de nada pela metade, nada que é pouco me satisfaz.”

 Esse comportamento próximo ao seu desejo, a honestidade de reconhecer-se frágil, aberta, perdida, rendeu comentários desfavoráveis e manchetes escandalosas. Investia intuitivamente contra os preconceitos: tomava banho nua em cachoeiras, brigava na rua com os homens com que se relacionava (as disputas com Bôscoli são famosas), bebia. Era depreciada pelos cabelos despenteados. Forte, ignorava displicentemente as críticas e continuava linda com seus cabelos contestadores já que na época as mulheres gastavam muito com perucas e laquês que limitavam suas atuações. Maysa era absolutamente contra as amarras. Maysa arriscava-se, entregava-se, intensamente fazia suas escolhas para a seguir repudiá-las.

“Nasci com essa marca. De não ser convencional. De quebrar as regras. De não seguir as leis”

Eu cresci sabendo Maysa. Sabendo que era possível ser forte e admirável mesmo quando se é incompleta. Cresci sabendo Maysa, sabendo sua falta. Sabendo seus misteriosos e doloridos olhos. Sabendo que ela amara demais e que morrera na pressa de se alcançar. Sabendo sua melancolia, seu timbre particular, sua vida peculiar. Cresci hipnotizada pelo risco. Pela velocidade que quase nos deixa na esquina de nossa própria vida. Cresci sabendo Maysa: sabendo que somos responsáveis pelas escolhas e que elas nos determinam tanto quanto nós a elas. Sabendo a coragem. A ousadia. Cresci sabendo que se podia deixar os cabelos despenteados e viver sem prestar contas aos padrões alheios. Cresci sabendo que dizer: “é porque meu amor por você é enorme demais” não impede de seguir adiante. Cresci sabendo que é preciso fazer o que se gosta e que mesmo isso não é o suficiente. Cresci sabendo Maysa: sua beleza, sua voz, suas músicas, mas, principalmente, sua liberdade. E sua dor. Porque não é fácil ser.

Eu cresci sabendo Maysa e, embora desconhecesse o termo, cresci sabendo-a biscate. Biscate! Dizia o jornal ao divulgar sua intensa vida amorosa. Biscate! Sussurravam quando deixou o filho aos cuidados do ex-marido. Biscate! Alardeavam noticiando com ênfase as bebedeiras, situações extremas e problemas pessoais. Biscate! Debochando do cabelo. Biscate, biscate, biscate por amar quem queria, por ficar sozinha, por beber muito em público, por dirigir sua própria carreira. Brilhantemente Biscate, digo eu, lendo sua auto-entrevista na Revista Manchete(1961):

“Mas você não bebe somente antes de entrar em cena, não é? Por que você bebe de modo geral?”

“Primeiro porque quero. Depois porque trabalho para pagar o que eu bebo. Finalmente, porque tenho senso de autocrítica. Muitas vezes reconheço-me insuportável e eu só suporto os insuportáveis bebendo.”

Uma Biscate sabe onde guarda sua dor…

Sexta-Feira 13, dia oficial da Biscate

Elvira, a biscate-sexta-13 (imagem de jlobo.com)

Primeiro porque é Sexta. Sexta é dia de folia. Sexta é a baladinha, o happy hour, a libertação do trabalho e tem muita biscate  bem vagabunda. Depois porque é 13. Só sexta, sem 13, é dia de uma porção de biscate. Mas Sexta-Feira 13 é Dia Oficial da Biscate. Claro.

Sexta-Feira 13 é bruxaria.

É queima na fogueira lenta. É punição por desacato. É atentado ao pudor. Ser quem não devia. Fazer o que não se fazia. Biscate é mesmo mal comportada, notaram?

Sexta-Feira 13 é GildaJosephineBeauvoir no Cross Fox a toda velocidade; É trepada das boas. Autêntica.

Revolta. Sexta 13 é recusar o padrão. Chupar as coxas do peru. É trepar. Nesse dia somos (ainda mais) fáceis. Facinhas. Todinhas nossas, somos corpo e alma.

Sexta-Feira 13 é dia de rolê. Dia de olhar. De comer. De orgulhar-se, Biscate. Você é incrível. Mesmo loser.

Hoje é dia de ervas-daninhas, biscates nascendoDando. Amando. Casando.
Emperuando se quiserem – por que não?
E se emperua pode galinhar, que a canja é das boas.

Biscate não procura. Oferece. Assim, “for free”.

PS.: Eu, se fosse você, dava uma passeada nos links, aposto que vai gostar.

Biscate Não Sente Frio

Por Sara Siqueira*, nossa Biscate Convidada

Biscate não sente frio, disse o autor do texto Mulher agora usa uniforme de biscate. Mal sabe ele qual é o nosso real uniforme. Também não tem nem ideia que não é toda biscate que usa roupas curtas…

Ele até entende uma mulher que receba pra se vestir com roupas curtas e decotadas o faça. Não entende que as demais mulheres se vistam assim sem receber nenhum cachê por isso. Mas Biscate que é Biscate não usa roupa pra receber cachê. Usa por vontade própria. Biscate usa a roupa que quer, é libidinosa, sensual, sexy ou não é nada disso. Biscate às vezes nem curte roupas curtas, às vezes quer não estar sexualmente disponível e quando está, não é pra qualquer um não. Faz valer seus desejos por um@ ou vári@s homens e/ou mulheres. Afinal nós só fazemos o que desejamos.

Biscate usa roupas minúsculas e se sente muito feliz da vida em se olhar no espelho e ver suas curvas, retas, gorduras e ossos a mostra! Biscate também usa roupas que cobrem todo o corpo, se veste com roupas consideradas masculinas ao olhar de muit@s por aí, usa cor de rosa, nude, branco ou azul. Feliz é a Biscate que se sente livre pra usar a roupa que deseja! Se você se sente incomodad@ com a roupa que está vendo, não a use e pronto.

Eu sempre fui meio de veneta! Tem dias que uso roupas mínimas, em outros dias, saio vestida dos pés a cabeça, sem parte alguma da minha pele aparecendo além do meu rosto e mãos. Cabe a cada indivíduo, seja Biscate ou não, escolher qual roupa vai usar. E é coisa de Biscate respeitar a vestimenta alheia, seja ela curta, comprida, colorida, preta ou branca!  O uniforme da Biscate só tem duas peças: Respeito e Liberdade.

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Sara Siqueira é uma mulher criativa, aberta, voraz em relação à vida. Ela se pergunta, se inquieta e aprende. É lindo de se ver. Sara escreve no Blogueiras Feministas, Feministas na Cozinha e no Arlequina. Múltipla, é artista visual, quadrinista, atriz e cantora. Ainda arrumou tempo para formar-se: Licenciatura e Bacharelado em Artes Visuais, Pós-Graduação em Psicanálise. E, claro, Biscate por natureza e opção. Você pode seguir no twitter: @sarajoker.

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