Padrão Vadia

Por Helen Taner, Biscate Convidada

Resolvi escrever sobre uma coisa que vem me incomodando e sei que muitas pessoas a minha volta também. Então, como eu já disse aqui, eu tenho 105 quilos e eu sou vadia. MAS NINGUÉM ACREDITA. Eu sei, eu sei, “ninguém tem nada com isso” e também “não precisa provar nada para ninguém”. O negócio é de que o fato delas não acreditarem também está relacionado aqueles números ali em cima. Portanto, esse texto aqui é sobre como existe um certo padrão para tudo, até para ser uma vadia.

Eu sei que as pessoas que vão ler são, em sua maioria, desconstruídas e também sabem que o ideal vadio não corresponde a realidade, mas vamos fingir que não e pensar um pouco como aquelas pessoas que acreditam fielmente nele para responder a algumas questões. Quando você pensa no termo “vadia” qual é a imagem formada na sua cabeça?

Boa parte da população citaria exemplos de alguma personagem de telenovela que provoca homens (exatamente, no sentido heterossexual) com as suas roupas curtas e perfeitamente ajustadas a um corpo escultural (magro ou estilo “panicat”), com cabelos compridos até a altura da bunda (e que bunda né?), super maquiada e incapazes de ter um relacionamento de verdade ou de deixar “em paz” os relacionamentos a sua volta. Quais dessas seriam consideradas vadias, a princípio (porque, né, toda mulher sempre pode ser “xingada” de puta por não se adequar a alguma expectativa social)? A moça da propaganda de absorvente ou amaciante (estereotipada), que tem roupas ‘comportadas’, sem decotes e no comprimento “adequado”, ou a moça da propaganda de cerveja, que está num bar cheio de homens com um shortinho mostrando parte da bunda e com um decote que é maior que o tamanho da blusa (mesmo se elas estiverem dentro da geladeira)? Os exemplos são muitos, sei que quem está lendo consegue entender esta divisão santa X vadia, que a sociedade repete.

Enfim, eu não estou dentro dessa imagem construída de o que é uma vadia. Eu sou gorda, atualmente careca, me visto com roupas largas da sessão masculina (tipo um mano), não tenho belos peitos (ainda) nem o tal corpo escultural – e não me relaciono só com homens.

Eu sou pansexual, na realidade. Essa última característica – que não é evidente na aparência – é a única me “enquadra” neste estereótipo, pois há um grande preconceito com pessoas pans. Na minha observação, a maior parte das pessoas acha que ser pansexual é um código para promiscuidade e para não se controlar diante de qualquer um que esteja próximo. Deixa eu esclarecer: ser pansexual significa apenas que eu sinto atração por pessoas independente do gênero e somente isso.

Aí quando a pessoa que está por perto não sabe da minha pansexualidade e eu falo algo do tipo “fazer o que? Eu sou vadia mesmo!” a reação é de estranhamento (às vezes inconsciente, mas igualmente problemática) ao fato de eu não estar de acordo com o esperado. Isso me incomoda. E não só a mim. Muitas amigas gordas reclamam sobre isso, como se ser biscate dependesse de um determinado corpo e não de como você se sente ou do quanto gosta de ser livre. Como se fosse impossível você “conseguir” ser vadia tendo determinado tamanho/peso. Está implícita a idéia de que nenhum homem (a heteronormatividade impera) ou mais, nenhuma pessoa (no meu caso) vai querer trepar com uma pessoa gorda. Como se não pudéssemos ser desejáveis.

E eu sinto que isso talvez não devesse me incomodar tanto, já que sofremos preconceito em muitos outros setores (como ir a médicos, entrar em academias, conseguir empregos), mas incomoda. E eu vejo muitas manas que lutam contra a opressão e contra os padrões incorporados na nossa sociedade reproduzindo isso. Machismo e gordofobia costumam trabalhar juntos com muita eficiência.

Não devíamos ter que provar que podemos ser amadas ou o quanto nos amamos – até porque nem sempre nós temos certeza disso, neste contexto é sempre uma conquista manter a autoestima. Ser gorda é um processo interno gigantesco de aceitação ao próprio corpo, de negação de valores sociais pré-estabelecidos e mesmo a mais autoconfiante pode acordar com vontade de quebrar o espelho. E sabe o porquê? Porque em todos esses pequenos gestos mostram-nos o contrário do que estamos construindo em nós.

Com tudo isso expulso do meu peito, eu queria deixar dois recados. Você que nunca sentiu essa sensação que eu descrevi pense se você não é a outra pessoa, a que encara, a que quase ri e, se for, eu espero que trabalhe para desconstruir isso em você mesma. Se você é a pessoa que sentiu, a que sabe exatamente do que eu estou falando, CALMA, VOCÊ NÃO ESTÁ SOZINHA, existem outras pessoas que passam por isso (algumas nem estão tão fora do padrão assim e sofrem também) e acima de tudo, continue trabalhando isso dentro de você para que ninguém consiga tirar seu amor próprio nem sua vontade de continuar lutando e sendo a pessoa MARAVILHOSA e VADIA que você é.

Helen Taner de Lima é uma vadia Trans Não Binárie – Agênero, que responde pelos dois pronomes, e Pansexual, graduanda em Filosofia na PUCPR, que estuda gênero e Teoria Queer, escorpiana que não acredita em astrologia e professora quando o governo deixa. Blog pessoal: http://harmonuim.blogspot.com.br/?m=1

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