Bilhete Único

Estava outro dia mesmo no metropolitano de São Paulo. Linha Vermelha. Nem cheia, nem vazia. Em pé. Nas proximidades da Santa Cecília, indo para a República. Tudo em São Paulo, capital, isso aí de grande cidade e tal. A gente tenta, mas muitas e muitas vezes impossível não prestar atenção na conversa alheia. Sei que este hábito é condenável, beira ao deplorável. Mas, confesso, pecados e defeitos me moldam… Pecava.

A conversa seguia aquele tom bom, de amigos. Boa entonação, boa calibragem, sem ânimos exaltados. Até um leve frescor. Até que ela, menor que ele, contava sobre a prova do ENEM. “Você sabe, né, tá todo mundo falando nisso. O tema da redação foi violência contra a mulher. Eu achei ótimo, sabia.”. Ele, bem mais quieto que ela, trajeto todo, respondeu: “Li, sim.”. E houve um estranhamento. Silêncio.

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Torci para o metropolitano se atrasar um cadinho mais, se atrasa sempre…

“Sabe, minha mãe… sofreu com meu pai. Muito.”. Ela se espantou, visivelmente emocionada com o relato do amigo – parecia bem surpresa também. Sim, e teve um abraço, longo, desses que se notam com carinho. Portas se abriram, me fui, tive que ir, a gente sempre tem que ir a algum lugar…. Eles? Não sei se desceram. Ao olhar para trás, vi só a multidão. Muitas mulheres, muitas meninas, muitas e muitos devem ter feito o tal do ENEM. E fico imaginando o quanto de abraços não devem ter resultados daquele tema de redação…

Os cretinos que me desculpem. Mas é neste abraço que devemos nos encontrar, militar, querer, ouvir. Gosto de imaginar que baldearam na Sé, e ouviram a voz da mulher que informa e encanta o metropolitano: “Próxima estação, Liberdade.”.

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50 tons de yin e yang

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Segundo a wiki,

Yin e Yang são dois conceitos básicos do taoismo que expõem a dualidade de tudo que existe no universo. Descrevem as duas forças fundamentais opostas e complementares que se encontram em todas as coisas: o yin é o princípio feminino, a água, a passividade, escuridão e absorção. O yang é o princípio masculino, o fogo, a luz e atividade.

Por isso, muitas vezes, pra simplificar, a gente tende a dizer que yin é o “princípio feminnino” e yang o “princípio masculino”. Simplifica, sem dúvida: mas às vezes também prejudica o entendimento. Pois uma das coisas essencias que se aprende quando se começa a estudar filosofia oriental é o o yin e o yang são sempre relativos. Algo é yin com relação a outra coisa, e pode ser mais yang do que uma terceira. E tudo acontece em uma gradação em que se passa de um pólo a outro atravessando infinitas nuances.

Assim, parece absolutamente natural falar-se de homens yin ou de mulheres yang: entre os homens (a princípio mais yang), entre as mulheres (a princípio mais yin), considera-se que existe também um espectro de gradações infinitas. Outro jeito de olhar para o mundo, outros “óculos de ver”: e enquanto escrevo vejo um rapaz pálido, esguio, flexível, que medita em seu quimono azul e tem uma trança longa de cabelos finos, E uma mulher morena, forte, vestida de vermelho, jogando basquete numa quadra. Pulando, correndo. Rindo alto. Yin-yang. Nada é tão simples, nada é tão puro, nada é absoluto.

Uns “óculos de ver” tão diferentes das rígidas caixinhas do feminino e do masculino, tão pouco apropriadas a gradações. Que, entretanto, existem. Basta andar por aí e ver: o que é considerado “feminino” ou “masculino” em cada lugar? Muda. Varia. É diferente. Para olhos criados no Rio de Janeiro, por exemplo, é como se boa parte dos homens parisienses fossem efeminados: os jeitos, as modas, os cabelos, os trejeitos seriam “decodificados” assim, aqui. Caixinha estreita essa do masculino no Rio de Janeiro (que uso como modelo porque é daqui que escrevo: é provável que seja assim em boa parte do Brasil também). Por outro lado, a “caixinha do feminino” usada pela minha avó era apertada demais para me caber: eu jamais fui aquela moça fina, elegante, de fala pausada, sorridente, flexível que ela parecia achar adequada. Eu era barulhenta, briguenta, de gestos largos e fala alta. Aprendi a nadar quase ao mesmo tempo que aprendi a falar – porque, conta minha mãe, eu me jogava na água então era melhor me ensinar logo. Não era, como diria a Simone de Beauvoir, uma “moça bem-comportada”. Pra minha avó, certamente faria mais sentido eu ser menino.

Caixinhas. Espaços estreitos e pré-definidos. Longe das gradações, das nuances, das sutilezas delicadas e escorregadias. Translúcidas. Vaporosas. Sutileza é, provavemente, yin. Se comparada com a yang certeza. Reta. Seca. Dura. Certeza de ângulos definidos.

Difícil? yang é quente, é vermelho. Como a raiva, mas também como a alegria. Faz barulho.

Yin é molinho, é úmido, é frio. Quieto, silencioso. É bom? É ruim?

Depende. Tudo depende.

A mão que toca o violão se for preciso faz a guerra.

E caixinhas que parecem tão sólidas, tantas vezes, são de papelão. Que tal abrir, transformar, fazer origami de flor? Fazer um barquinho e soltar pra que flutue, e encontre seu próprio caminho? Seus próprios tons e nuances? Seus espaços e frestas? Que tal?

O unicórnio de Blade Runner

O unicórnio de Blade Runner

Por trás de uma piada tem alguém descascando as batatas

Não acho a menor graça em piadas que mostram a mulher como a única pessoa que sabe o que se deve fazer na casa, e o marido como aquele bobalhão que precisa de instruções detalhadas e ainda se engana.

Isso me ocorreu por conta de uma imagem supostamente “engraçadinha”, que tratava do tema e circulou pelo meu feicebuque há um tempinho:

Cara, que cansaço me deu isso. A mulher pede para o sujeito descascar as batatas e colocar no fogo “para mim”. Claro, né. Ela é que faz a comida, sempre. Naquele dia, pede um favor para o marido. Algo que não faz parte das suas tarefas habituais: afinal, quem faz a comida é ela. Mesmo assim, o cara não tem ideia do que está fazendo, como fica óbvio pela imagem.

Qual é a graça mesmo? Um homem adulto, com as faculdades mentais perfeitas, não ter ideia do que faz quando entra na cozinha é engraçado? Cês juram? A mim me dá uma certa pena. Não ter ideia do que fazer na cozinha significa que você jamais precisou fazer comida para si mesmo. OK, você pode comprar comida pronta. Sempre. Se (pequeno “se”) tiver dinheiro para isso. Mas fica parecendo “bonito” um homem que não sabe nem por onde começar. Reafirma espaços: à rainha do lar – que tantas vezes só faz dar ordens para outra que não é rainha daquele lar ali -, o saber da cozinha; ao homem da casa, o provedor, o cuidador, o espaço lá fora. O trabalho duro, o dinheiro que traz para casa.

Não importa que a mulher trabalhe fora de casa também, que ela volte para a segunda jornada enquanto o homem-supostamente-provedor vai se sentar na frente da TV, tomar a merecida cervejinha, descansar das agruras do dia de serviço.  Não importa que, no Brasil, o percentual de mulheres chefes de família já chegue a quase 40%: entre a verdade e a lenda, publique-se a lenda. Mantenha-se a piada. Junto com o que está nos bastidores da piada: quem cuida da casa é a mulher, quem provê para a casa é o homem, segundo a regra desse jogo. No  caso raro em que o homem vai se atrever a fazer tarefas domésticas, mete os pés pelas mãos. Fica tudo como está, pois. Tadinho, ele nem sabe fazer, ou ele faz errado, ou faz devagar, ou não faz do meu jeito. Deixa que eu cuido disso: de arrumar as crianças, de preparar a comida da família. O jogo tá mantido, assim como o futebol aos domingos. Às mulheres, as batatas.

A quem pertence a história

Aí o moço olhou pra mim meio de lado e disse: “eu estou me sentindo responsável por você ter terminado com ele”.

Eu tomei um susto. Como assim “responsável”?

Amigo, isso não tá na sua conta. Isso não tem nada a ver com você. Você, por acaso, passou por ali na hora em que isso estava acontecendo. “Isso”: aquela história, minha e do outro cara, estar acabando. A história era minha e do cara, não sua. Onde é que você podia ter alguma responsabilidade nela?

Ah, porque eu olhei pra você, porque me interessei por você? Mas isso é outra história, não vê? Essa é – ou seria – a minha com você. Que nem é história, vai: é um encanto. Como é que algo assim tão aleatório poderia me fazer terminar uma relação de anos? Claro que não. Sinto informar, seu ego talvez sofra um baque: você não é tão importante assim.

Ninguém é tão importante assim. As histórias acabam porque acabam, e às vezes a gente acha mais confortável responsabilizar um terceiro pelo fim delas. Mas nunca é verdade: no máximo, é coincidência.

As histórias pertencem única e exclusivamente aos envolvidos na história: e se há histórias com mais de duas pessoas, é que há relações que envolvem mais de duas pessoas. Caso contrário, ora, não. A história é das duas pessoas que nela estão. E, se acabar, é por motivos que dizem respeito exclusivamente a elas.

Ou você acha mesmo que foi a sua aparição loira-de-olhos-azuis que virou minha vida pelo avesso? Isso aí se chama catalisador, não vê? Apenas algo que acelera a velocidade de uma reação. A reação, ela, já iria acontecer de qualquer forma. Tava previsto. Tava contado. Tava escrito na própria história. E nem é que “não tenha dado certo” a história: deu, ué. Deu certo pelo tempo que deu. Esse era o tempinho dela. Encontro-coreografia-afastamento: no compasso. Ao som da cuíca.

Você? Ah, gostei de te encontrar também. Até porque me ajudou a ver algumas coisas mais claro. Até porque me mostrou que eu já devia ter pegado a mochila e seguido caminho. Mas “responsável”? Sinceramente, não mesmo. Pode ficar tranquilo. Relaxado. Aliviado. Não teve nada a ver com você. Era minha a história. Minha e do cara lá. Era e continua sendo, até seu final.

Mesmo que pra alguém seja mais confortável acreditar que tudo teve a ver com uma aparição loira e um encantamento.

 FimdeCaso

Algumas ideias soltas sobre tudo isso que está aí

– Eu não sei para que o meu corpo foi feito. E, sinceramente, não me interessa. O que gosto e sei (ou vou descobrindo) não é para que ele foi feito (sai de mim, determinismo biológico, esse corpo não te pertence) mas o que faço com ele, o que ele pode fazer, o que gosto de fazer, o que gosto que façam com ele, o que não preciso fazer, o que não quero fazer e por aí ladeira abaixo e cama acima. Blá blá blá corpo feminino feito pra procriar/gestar/alimentar… Samuel tem 18 anos e já não mama, me mato agora? Meu corpo é e eu sou meu corpo e no meu corpo, mas não é apenas ele que me determina, nem a minha identidade, nem meu desejo ou possibilidades.

– Liberdade sexual é ser livre pra fazer sexo quando quiser, como quiser, com quem quiser – se a (s) outra (s) pessoa (s) envolvida (s) também quiserem. Primeiro, o óbvio: o “quando quiser” também comporta o nunca, o vez em quando, o só essa vez e todas as demais variáveis temporais… o quando não quer dizer sempre #ficadica. O “como quiser” não implica em dar de quatro ou não dar de quatro, nem se deu de quatro tem que dar sempre de quatro, etc, etc, etc… como as pessoas envolvidas quiserem não precisa ser pautado em regras externas de movimentos sociais, sejam eles legais como forem. O “com quem” compreende o dou pra todo mundo mas não pra qualquer um #leiladinizfeelings, o com quem quiser não significa com quem me quiser, embora eu possa usar isso como critério, se eu assim o desejar. Isso posto (eu que julgava desnecessário, mas parece que não é), acrescento que acredito que liberdade não é (apenas) um fenômeno individual. É um processo de construção coletiva. Liberdade não é uma condição estanque, é um processo relacional e dialético. Manifesta-se na individualidade mas se inscreve no contexto.

Sexo é busca de conexão emocional e não é suficiente sermos tocados por quem nos deseja, a gente quer ser amado blá blá blá não fomos feitos para transar a toda hora com qualquer um.  Olha, eu não sei quem é essa gente aí, mas me inclua fora dessa. Meus relacionamentos (e, suspeito, o de todos, mas nem vou meter o bedelho nos alheios) são únicos. Particulares. E dinâmicos. Sei lá eu o que vai ser. Sei o que está sendo e mal e mal. Sinto. E não, não espero o depois. Que, eventualmente, acontece. Porque a vida, a minha vida, é isso, dias que vão sendo e pessoas que vão estando nesses dias que são. E, vez em quando, olho pra estrada e vejo pegadas juntas que vem de longe. Outras, desvios, abraços de despedidas ou mudanças de rumo quase sem notar. Uma estrada hora mais movimentada, hora percorrida sozinha. Chato isso de pegar a sua demanda emocional e generalizar pro mundo e ainda rotular de superficial quem não sente como quem escreve sente. ZZZZzzzzz. E tem essa insistência no “não fomos feitos”, como se o ser humano fosse peça dessas de fazer casa pré-fabricada.

Sexo é melhor quando feito com sentimento. Não fomos feitos para relações vazias. – Ué, eu faço sexo casual com sentimento e o tempo não é nada vazio, ocupamos de maneiras bem divertidas e criativas… Mas, claro, respondo isso de zueira. Porque sei que quando se fala de sentimento, nesse contexto aí, está implícito o “duradouro”. E, quase sempre, vem junto a ideia de que isso “é coisa de mulher”, “qualidade (ou defeito, depende de onde o machismo fala) feminina”. Encontrar alguém na balada, em um aplicativo, na casa de um amigo, ter interesse mútuo e se jogar no rala e rola, onde mesmo que está o impedimento pras pessoas envolvidas nesse processo sentirem respeito, consideração, carinho pelo outro? Se eu respeito, considero e estou aberta ao contato com outras pessoas por elas serem gente, apenas, e não pelo que elas podem ou não me oferecer, não está suposto que também sentirei assim por alguém no vuco-vuco comigo? O que tem o sexo de tão degradante que alguém perderia automaticamente o carinho, respeito, consideração alguém só por ter trocado fluidos, se esfregado, chupado, lambido, sei lá o que mais o corpo da outra? E lá vem a dogmatização do “foi feito pra isso” novamente.

O “fomos feitos para” supõe uma intencionalidade externa a nós. Implica em uma passividade que não me atrai. Tem um deus ali disfarçado nas entrelinhas desse discurso, dá pra ver de relance. Um deus que, não nomeado nem definido, acaba se parecendo com a versão mais propagada e enlinhada na nossa sociedade. Esse mesmo, o que – pelo que dizem em nome dele – não curte que a gente goze. Não curte que a mulher trepe sem ser pra parir com dor. Esse mesmo no qual não acredito nem assino o conversê.

Por mais respeito aos peitos e histórias de cada uma

Foto da minha história. única. que não cabe a outra mulher.

Foto da minha história. única. que não cabe a outra mulher.

Estamos na semana mundial da amamentação. Uma semana política importante, que nos lembra da importância do Aleitamento Materno como política para reduzir a mortalidade infantil. Que nos lembra que a indústria do leite, Nestlés e Danones da vida, impuseram uma lógica, lá nos idos dos anos 70-80, que fizeram pressão e lobby junto aos médicxs e fizeram tantas e tantas mulheres acreditarem que não podiam amamentar ou que não precisavam amamentar, para que comprassem produtos e substituíssem o leite materno por leite artificial. Lógica esperta. Movimento feminista, liberdade às mulheres: leite artificial e mamadeira. Lucro garantido.

O que se colheu foi um aumento muito expressivo na mortalidade infantil e em tantas doenças alérgicas, gastro-intestinais, dos bebês. Se a gente fizer uma breve pesquisa em “a verdade sobre a indústria do leite”, no google, leremos coisas impressionantes. Comprovado cientificamente: o leite de vaca não é bem digerido por nós, humanos. Sim, existe um lobby absurdo das indústrias junto aos pediatras e neonatologistas para tirar o leite materno da jogada e vender produtos, coisas que enfraquecem as mulheres, que as oprimem e entristecem. Então, não, nem sempre, não precisamos.

Existem alternativas ao leite de vaca, e as fórmulas prontas. Muitas vezes o pediatra pode ser contestado: “A criança não está ganhando peso, seu leite não é suficiente”; “o bebê precisa do complemento”; “você não consegue amamentar”. Frases que nem sempre acolhem a mulher. As políticas públicas de saúde hoje reconhecem e buscam reverter esse quadro, pelo fato de: promoção à saúde de mães e bebês. Redução da mortalidade infantil. E é por isso, e da mesma forma, que defendo a amamentação: como política de saúde, e nunca como julgamento ou imposição individual. Porque onde o calo aperta, como cada uma consegue apoio e, o mais importante, como cada uma DECIDE sua vida e sua experiência de amamentar ou não amamentar é uma jornada individual e não coletiva.

Minha experiência em grupos de apoio à amamentação foi muito importante pra mim. Participei deles, onde vi tantas e tantas mulheres sendo acolhidas, voltando a amamentar, desmistificando imposições e amamentando livremente, com os peitos de fora e contestando o “não pode”. Eu fui dessas. Amamentei meu filho até os 3 anos, peitão de fora, leite pra todo lado, seja em casa, seja na rua. Ouvi comentários absurdos, críticas, falas atravessadas, “esse menino desse tamanho, credo”. “dá uma mamadeira”. “enfia uma chupeta”. “esconde esse peito”. Não. O peito é meu e ele ficará onde está e como está.

Eu escolhi amamentar por 3 anos: essa foi a melhor escolha para nós e enfiem seus comentários e julgamentos onde eles couberem, não em mim. Meu filho teve o leite materno como um alimento, aumento de imunidade, afago, aconchego e assim serviu para nós. Língua e mais peito de fora. E essa foi a minha história, minha e de mais ninguém. Ainda é muito difícil chegar aos apoios e cada uma tem sua história, seus limites, suas necessidades, seus desejos e seu jeito único, e insubstituível, de maternar. E, não, amamentar não faz ninguém mais mãe, menos mãe, melhor ou pior: vamos abandonar isso aí. Filhxs adotados, alimentados com mamadeira, com chupeta na boca podem ser tão amados quanto, tão cuidados quanto, nem mais nem menos e isso que queria eliminar dessa conversa: comparações e julgamentos individuais.

E é aqui que está minha ressalva e o meu limite para esses grupos todos e de tantas coisas que vi e vivi: o julgamento ao diferente. A condenação individual a mulheres e suas histórias. Uma coisa é brigar politicamente e oferecer apoio, militar, tentar reverter situações coletivas e condutas políticas. Outra é julgar individualmente.

Apontar+seus+defeitos...

Cada uma de nós tem a sua história. E respeitar a história de cada uma é respeitar e defender as mulheres. Se a mãe dá Danoninho para o filho, se ela amamenta até os 5 anos, se ela faz cama compartilhada até os 10, se ela coloca no berço e deixa chorar, se ela dá o complemento, se ela coloca chupeta, se ela isso, se ela aquilo, apenas: não cabe a ninguém julgar. Ninguém está na pele dessa mulher. Ninguém vive a sua história. E a ninguém é dado o direito de julgá-la.

Quando temos filhxs parece que viramos um ser coletivo. Todo mundo pode palpitar “pelo bem da criança”. Todo mundo pode interferir, pode dar dicas que você não quer ouvir, pode te condenar pelo que você não faz. Todo mundo tem uma receita mágica infalível que a criança vai adorar e, claro, viver melhor. De um lado e de outro: “ai, coitada dessa criança que não é amamentada”. “ai coitada dessa criança pendurada no peito da mãe com 4 anos, vai virar um ser humano dependente”. “nossa, esse menino dorme agarrado com a mãe aos 8 anos”. “ai, coitado desse menino que a mãe deixa chorando para dormir sozinho, o que será dessa criança”?

Respeitados os limites legais, claro – não estou falando de abusou ou abandono às crianças, Conselho Tutelar neles -, que tal olharmos para o coletivo, e respeitarmos cada mãe, cada história e cada jeito de ser, ou de não ser, mãe? Cada história é única. Julgar é achar que sabemos o que é melhor para uma história que não é a nossa. Vamos nos organizar politicamente, tentar chegar, informar e ajudar quem quer ser ajudada. No mais, não nos cabe adentrar a vida individual alheia. Mais acolhimento, e menos julgamento as mulheres!

Nossa história única

Começo esse texto ouvindo a Chimamanda falar dos perigos da história única. Ouvindo na minha cabeça, porque eu já assisti ao video uma, duas, várias vezes. E me encanta sempre. Essa história da “imagem da africana” em que a prendiam, e que não era ela, da qual ela tinha tanta dificuldade de se desvencilhar de tanto que estava grudada na cabeça das pessoas.

Curiosamente, já vivi uma coisa assim ao reverso. A “história única” na qual me prenderam era uma história de Suíça. Morei na Suíça quando criança, até os 12 anos de idade. Em Genebra: uma cidade conhecida, não um vilarejo perdido nos confins das montanhas. Pois bem, cheguei ao Brasil e fui instantaneamente oprimida com uma imagem de Suíça. Que não era a minha. Era uma imagem de colégios privados exclusivíssimos à beira do lago – dos quais só descobri a existência depois que voltei -, de vida de luxo e opulência. E ainda tinha a famigerada pergunta sobre “a moda”. A pergunta era “qual é a moda na Suíça agora?” E eu, sinceramente, não tinha ideia do que era pra ser respondido. Não sabia o que era “a moda”. A gente comprava roupa em lojas de departamentos ou nos brechós. E a “moda” era a gente que fazia, pré-adolas, usando a calça jeans (a mesma, velha, gasta) dobrada de tal jeito, a camisa por dentro ou por fora… “A moda”, a outra, era coisa de alta costura. O que isso teria a ver com a minha vidinha? Mistério. Escola? A pública na esquina de casa. Como, aliás, praticamente todo mundo que eu conhecia. Só não digo que era todo mundo porque tinha o Zuza que estudava na Escola Internacional. A dos filhos de diplomatas e dos organismos sediados em Genebra (OIT, Comitê da Cruz Vermelha, OMS etc.). O resto da galera era todo de escola pública, e encapava os livros emprestados no começo do ano para devolvê-los no final. Essa, definitivamente, não era a Suíça pela qual me perguntavam meus novos colegas de escola.

Essas divagações todas têm (é, têm) um ponto que me interessa trazer pra cá: uma narrativa sobre mulheres que tem me parecido mais e mais comum por aí. A das mulheres oprimidas pelos “machos” opressores. É mentira? Não, claro que não. Como, aliás, a Suíça de quem me perguntava não era de mentira: era apenas outro olhar e outra narrativa.  Mas não pode ser a única. Digo mais: não deveria ser única. Sob pena de despossuir essas pessoas todas que vivem e lutam e avançam e mudam o mundo todo dia. De tirar-lhes tudo o que têm de coragem, de dignidade. Tanta gente que é senhora da própria história. Tem um meme conhecido que circula por aí que diz algo como “não sou descendente de escravos: sou descendente de seres humanos que foram escravizados”. Mudança de enfoque. De maneira de contar a história.

Tem ainda outra coisa: a narrativa única dos “machos opressores”. Esses, como a gente, não vieram de Marte. Foram criados aqui, nessa sociedade, com esses valores, com essa cultura. Nela estão imersos desde que nasceram. Como não haveriam de reproduzir tal ou qual hábito, forma de fazer, um jeito que viram o pai  fazer e que lhes foi ensinada, tantas vezes, pela mãe…? A mudança do mundo tem que levar isso em conta, e dialogar com eles sempre. Sob pena de criar uma utopia-mundo de que os homens estariam, por definição, excluídos. E aí não, né. Esse não é o mundo em que quero viver. Ninguém nasce sabendo: vamos abrir espaço para escutas e para novas narrativas. Outras. Outras formas de olhar, de escutar, que possam levar a outros modos de fazer.

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Sete Vidas e o estreito lugar do masculino

Acabou ontem uma das melhores novelas dos últimos tempos: Sete Vidas, que contava a história de sete irmãos biológicos e do seu pai, o doador anônimo que acabou sendo descoberto e vendo ser construída, em torno de sim, uma improvável família.

Na esteira do final da novela, Nilson Xavier publicou um comentário elogioso, falando da produção, dos temas delicados abordados, dos personagens bem construídos. Mas fez a seguinte ressalva:

Aqui cabe apenas uma crítica à autora, algo já percebido em “A Vida da Gente”. Seus dramas são universais e acometem todos os gêneros, mas percebe-se um maior afinco de Lícia ao retratar personagens femininas em detrimento aos masculinos, em sua maioria reconhecidos como fracos, emocionalmente imaturos e/ou dependentes, ou mesmo “bananas”.

Bem, para quem não viu a novela, a primeira observação é que não é da falta de personagens masculinos que ele está falando. Dos sete personagens que acreditavam ser filhos de Miguel  – uma, Julia, depois descobre que na verdade não era -, cinco são homens. Some-se a isso o próprio Miguel, Lauro, seu melhor amigo, Vicente, namorado de Lígia, e seu irmão Arthur, Eriberto e, agora perto do final, Renan. Uma profusão de personagens homens. Do que será que estaria falando Nilson então?

Ele menciona um “afinco” em retratar personagens femininas, “em detrimento” dos masculinos – para afinal chegar no ponto: os personagens masculinos seriam “fracos, (…) imaturos, dependentes (…), ‘bananas’.”

E foi isso que me fez parar e pensar. Porque, na verdade, a crítica é sobre os próprios personagens masculinos, generalizados em termos que sugerem fragilidade e insegurança. Sem discutir a verdade ou não dessa caracterização, o que incomoda é a afirmação subjacente a essa: fragilidade, insegurança não são qualidades “de homem”. Não são o que se espera de um homem. Se os homens retratados na novela são assim, bem… eles não são homens-homens, não é mesmo? O personagem de Eriberto ainda vai, porque afinal se debate com a própria ideia de masculinidade tradicional, e, a partir de conversas e reflexões sobre si próprio,  acaba se declarando a Renan, mas os outros?

Aliás, assistindo a novela e antes de me deixar encantar completamente pelo Eriberto, me incomodei foi com esse clichezão mais uma vez repetido: se o homem é frágil, sensível, gosta de música clássica, de arte, bem… não é um homem-masculino. E há de ter uma orientação sexual compatível com esses gostos tão pouco de “homem-homem”. (É verdade que à luz desse critério poucos parisienses passariam no teste de homem-homem, mas fazer o quê, é outra cultura. Eles são diferentes, lá pode. E lá vai clichezão. Mas isso é outra conversa ainda. Voltemos).

Nilson Xavier ainda complementa:

Entende-se que a audiência da novela das seis é – em teoria – predominantemente feminina. Mas já que o estilo da autora é naturalista, uma melhor dosagem caberia bem, sem desmerecer nenhum gênero.

Atenção para o termo usado: sem “desmerecer” nenhum gênero, diz o autor. Quer dizer, novamente: personagens masculinos sensíveis, confusos, complexos seriam uma forma de “desmerecer” o gênero, que, afinal, deve ser merecedor de respeito.

Parece um comentário tão pequeno, quase à toa. Mas enganchou na minha cabeça, de tanto que reflete bem a estreita caixinha onde se guarda o que é considerado masculino. Em outro texto, já falei disso. Como é difícil se manter dentro desses limites do que é aceito como masculino. Como  características de homem-homem. O texto era sobre o feminino, mas lá pelo meio tem esse parágrafo:

A contraface disso, é claro, estava no que é “masculino”. Na estreita definição de “masculino”: tudo era considerado “efeminado”, no Rio de Janeiro, ou assim me parecia. Como sentar, como mover-se, como falar… regras tão rígidas. Sob pena de ser achacado pelo resto do mundo, sob pena de ser chamado de tantos nomes depreciativos. Sob pena de não ser amado e aceito, que é o que a gente sempre quer, no final das contas. Sobretudo quando é criança, quando é adolescente.

 Em outro canto ainda, falando de ter filhos meninos, e das dificuldades com que me deparava, escrevi sobre a construção dessa imagem do masculino ainda na infância, da preparação dos meninos para serem homens-homens e do que isso implicava:

Porque é aí que começa tudo: as meninas sonham com vestidos de princesas e com o beijo do príncipe. Os meninos…tadinhos. Dão pra eles bolas, armas, carros. Carros. Caraca. Que coisa mais sem graça. Eu acho. Armas. Aqui em casa era vetado. Mas é comum, né. Bolas. Ok. Mas porque não cordas de pular, elásticos? Porque não bonecas? Tantos meninos gostam de bonecas. É tão legal brincar disso. Cuidar. Botar no colo. Fazer carinho. Isso sim é educar um menino pra ele não ser machista. Pra ser um pai bacana. Pra ser feliz como ele quiser ser.

Por que não? Por que não a gente pensar em educar meninos diferente, em abrir espaços novos, em deixá-los ser, e brincar de boneca, de panelinha, do que quiserem? Por que não entender que personagens masculinos angustiados, sofridos, confusos, inseguros são, sim, homens-homens, não precisam ser uma desvalorização dos homens e talvez sejam, ao contrário, uma revalorização? Um mostrar que é possível ser homem e sair um pouco daquele molde futebol-cerveja-coçar o saco, é possível ser homem e artista, ser homem e usar saia, ser homem e gostar de se arrumar, de se enfeitar, ser homem e preferir cuidar dos filhos, ser homem e botar no colo, e – mais difícil ainda – ser botado no colo… relaxar, chorar, dançar solto, rir desbragadamente, ser homem e sair do molde em que prenderam os homens, em que os próprios homens se prenderam há tanto tempo atrás que não sabem mais o caminho de volta e se obrigam a, permanentemente, vigiar outros homens. Porque todos têm que estar lá, dentro da caixinha. A estreita caixinha dos homens-homens. Tão apertadinha. Gestos, entonações, jeito de corpo: coreografia permanente dos homens-homens. Certos, fortes, musculosos, ousados, corajosos: aí, sim. Aí, talvez, o Nilson Xavier ficasse satisfeito e não considerasse que a novela tinha “desmerecido” os personagens homens.

Eu, aqui do meu cantinho, gostei foi muito. Que venham mais. Tá pouco ainda.

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Roteiros Biscates: “Play it again, Sam!”

Sempre divago, devaneio, sonho. E é naquele boteco da distante Tatooine, quando Luke e Obi-Wan buscam uma nave espacial para seguir viagem e dar origem à saga “Guerra nas Estrelas”. No meu sonho o boteco é do Rick Blaine e ele ajuda Obi-Wan, mesmo fingindo indiferença, a encontrar Hans Solo – que conversava com Ugarte. E que dias depois, longe das telas, alguma cantora de cabaré de três cabeças cantará algo parecido com a “Marseillaise” enquanto o bar é invadido por clones vestidos de branco e senhores representantes do Império. A cena toda já fiz e repeti, gravei, filmei, escrevi.

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Mas não só. Quando li – e, depois, assisti – Harry Potter nunca as cousas se esgotam ali no triângulo Harry, Rony, Hermione. Sempre imagino os corredores de Hogwarts e as conversas sobre “você sabe quem” longe do menino eleito, dos olhares de Dumbledore. Das conversas na sala comunal da Sonserina entre aqueles que não seguem Voldemort e por isso são perseguidos, calados, ofendidos. E de como estes ajudam – anônimos – na batalha final. E segue a cabeça girando a imaginar enredos, numa gostosa promiscuidade de ideias, de versões, de desvios dos textos originais. Ah…. aquele duelo final de Três homens e um conflito”….

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Quando me perguntam por que escrevo aqui ou do como me descobri biscate, gosto de imaginar ainda mais assim e assim. Porque aqui estamos buscando construir novas histórias, novos paradigmas, sair das caixinhas, mudar roteiros prontos e desvirtuando o que se considera dogma, regra, padrão. Sim, aqui cabe o Marrocos em Guerra nas Estrelas – até porque as imagens do filme foram filmadas na África Mediterrânea, Cabe, porque temos sonhos de outros mundos, outras possibilidades, outros roteiros. Na neblina, na tabacaria, na “Internacional” que toca na torre. Neste mundo cada vez mais árido é cada vez mais amplamente necessário um afago.

Sim, óbvio solar, nesses nossos roteiros teriam muito mais beijos, sexo, sacanagens. E como seria lindo o filme do dia em que o Batman sai do armário. Ele conta para a Mulher Maravilha e os dois saem para um mambo numa rua de Havana Velha.

E a gente sorri gargalhadas.

Mães dançando, filhos envergonhados

Alguém (que eu não conheço, é amiga de amigos) postou no feicebuque uma foto de mulheres dançando, com a legenda: “mães dançando, filhos envergonhados”.
E isso apenas deu o mote para um texto que já tava se escrevendo por aqui há um tempo. Porque tanta gente reconhece essa legenda. Tanta gente se identifica com ela. E acho que pouca gente para pra pensar no que está por trás.

“Filhos envergonhados” de quê? Mulheres dançando. Ué, os filhos dessas mulheres não dançam, será isso? Não gostam de dança? São contra a dança? Só gostam de contradanças?

Será?

Pois bem, até pode ser. Quem sabe. Até pode ser, às vezes. Mas não me parece que seja isso na maioria das vezes. Para a maioria dos “envergonhados”. Eles dançam, sim. Eles balançam seus corpos jovens, esguios, elegantes, modernos na pista de dança. Nas ruas durante o carnaval.
Eles dançam. Dançam porque podem.

Podem porque são jovens. Basicamente isso: porque são jovens. Aos jovens, tudo. Aos jovens, holofotes. Brilhos, fotografias, legendas aprovando. Jovens: corpos com selo de aprovação.

As “mães” da história: erradas. Erradas, já que não tão jovens. Motivo de vergonha para os filhos.

Sim, sim, claro que sei: era uma mezzo brincadeira. Os filhos só ficam meio com vergonha, nem reprimem, de fato. Mas não queria, mesmo, deixar passar. Não queria, mesmo, deixar pra lá. Queria fazer aquele papel de insuportável grilo falante, a enfiar dedos em feridas que se preferiria ignorar. Adiante.

E então. Essa sociedade, a nossa, tem uma hipervalorização da carne fresca. Carne jovem. Linda, elegante e sincera. De começo de era. E isso, como tantas vezes, subentende o lado B. O desprezo pelos não-jovens. Mulheres, então…. tão melhor quando se comportam de forma compatível com a idade. Tão sem-noção isso de se exibir assim, na pista de dança. De usar saia curta. Decote. Não se enxerga não? Será que tá faltando espelho em casa? Quem pensa que é, a sair por aí expondo-se aos olhares dos outros como se isso fosse aceitável? Um xale, talvez. A saia um pouco mais baixa, certamente. Um pouco mais de compostura, sem dúvida. É de senhoras que estamos falando. Onde está o comportamento compatível com a idade?
Coitados dos filhos delas. Todo mundo olhando. Na frente dos colegas todos. O que será que vão pensar.
Aff.

Cristina Hoyos, a maravilhosa

Cristina Hoyos, a maravilhosa

Você poderia ser mãe dele

“Você poderia ser mãe dele” – disse. E, já enquanto dizia, soube que nada estava mais longe da verdade.

Bastava prestar atenção no rosto dela.

O rosto dela. Os olhos cintilantes dela.  Aquele brilho. Aquele ar de que apenas segurava o sorriso pronto. Por pura bondade, por generosidade: não escancarar a felicidade na frente dele. Não o deixar mais no chão do que já estava.

O olhar que ela lhe lançava era assim, piedoso.

E permanecia sem dizer nada.

Pra quê?

Estava tudo tão claro.

Ofuscante.

Ele fechou os olhos com força: tentativa de apagar a imagem que rodava na sua cabeça como carrossel. Os dois abraçados. Fundidos. Derretendo-se um no outro. Exatos.
Precisos como um soco no estômago.

Quando os abriu de novo, ela já não estava mais ali.

Ouviu, ao longe, a porta da sala bater.

 

Sobre ser gorda e ser livre

Por Bruna Giorjiani de Arruda*, Biscate Convidada

Durante grande parte de minha vida, acreditei que chegaria o dia em que eu, finalmente responsável e esforçada, abandonaria minha “falta de vergonha na cara” e emagreceria. Achei que haveria de chegar o dia em que, de fato, eu mostraria meu valor para a sociedade e conseguiria atingir o ponto máximo da vitória, a conquista de um corpo esbelto.

Lembro-me, de maneira clara, as inúmeras vezes que, frustrada com a imagem do espelho, convencia-me de que aquilo acabaria e, na próxima segunda, eu começaria o caminho de uma vida melhor. A crença no amanhã perfeito me roubou risos, me roubou a autoestima e manteve-me presa na esperança de que, se somente os magros são felizes, em breve, eu seria também.

Acreditava que todos os meus problemas eram fruto direto de minha gordura e que, quando triunfasse, nunca mais teria motivos para chorar. Relacionamentos, roupas, espelhos, comidas, sorrisos, amor próprio confinados em algum canto obscuro dentro de minha mente, enquanto o que assumia o controle de meus pensamentos era a minha constante falha enquanto ser humano, a de ser gorda.

Demorou muito tempo para que eu, de fato, sentisse a libertação de todo estigma social que rondou a minha existência desde sempre. Nasci e cresci gorda. Em algumas épocas mais; outras, menos, mas sempre gorda. Descartada do conceito de “normalidade” corporal, demorou muito para que eu encaixasse o tamanho do meu corpo no tamanho da delícia de viver.

Meu processo de libertação teve início quando entrei em contato profundo com o feminismo. Foi difícil compreender que os padrões estéticos, estes que meus próprios olhos diziam ser perfeitos, eram, na realidade, uma manipulação da escolha sobre o “ser belo”. Entender a trajetória do corpo feminino e como, em tempos distintos, fomos tratadas apenas como adorno, enfeite, objeto de deleite masculino, fez grande diferença na compreensão do fato de que os padrões nada mais são do que grades que condicionam as mulheres em um viver passivo, sem ação e sem sentido. Enquanto nos preocupamos em sermos lindas e desejáveis (dentro dos moldes escolhidos pelos homens), perdemos nossa capacidade de entender o que nos é desejável e o que achamos realmente lindo na vida.

O corpo que eu, durante tanto tempo, neguei é o corpo que entendo hoje como meu templo de prazeres. Ele é gordo, mas sente; ele é gordo, mas goza. O sabor da liberdade, de ser sem prestar contas, de mostrar sem se constranger e de sentir sem medo de ser ridicularizada é palatável. É com base na liberdade que alcancei que me nego a viver em dietas ou fazendo exercícios intermináveis. É dessa liberdade, também, que emana minha ânsia pela vida e o desejo da saúde. Meu corpo é minha escolha. Ele não foi feito para o prazer do outro, ele foi feito para a minha satisfação. Não sou produto, não sou objeto e o sucesso que tanto desejava foi alcançado. Amo minha profissão, meu companheiro, minha família. Amo minhas gatas e, acima de tudo, amo meu corpo. Em mim, a sociedade, de fato, falhou. Falhou no projeto de me fazer infeliz e frustrada, falhou no projeto de submeter mais uma mulher aos anseios masculinos. Sou de fato, um erro, uma falha e, por isso, sigo feliz.

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11156222_10200533571418304_7454700366930713511_n* Bruna Giorjiani de Arruda é formada em ciências sociais, pós graduada em sociologia política e ensino de sociologia. Residente em São José do Rio Preto, professora da rede pública e privado e do ensino superior. Militante feminista e comunista, destaca dentro de sua militância a luta anti-gordofobia.

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