Nem Mais Nem Menos

Essa quinzena, lembramos o dia internacional da mulher do nosso jeitinho biscate: luta, celebração e inquietação, tudo junto, arfante e misturado…

 #nãomedeemflores #diainternacionaldamulher

Nós passamos essa quinzena aproveitando o mote do Dia Internacional da Mulher escrevendo com recortes, olhares e abordagens variadas. E, acho, variadas é um termo importante. Penso que ver o Outro, respeitar sua alteridade e conviver com ele é um bom caminho pra uma sociedade com menos dor.

Na escrita (e na leitura, né, por que não?), com algum esforço, vamos sendo (e não me refiro especificamente, agora, a esse blog, mas as pessoas que militam à esquerda e nas frentes de luta de minorias) um tantinho mais inclusivos. Abandonamos ou tentamos abandonar, as generalizações que tornam invisíveis as pessoas que não correspondem ao padrão que ocupa nosso imaginário. Já não escrevemos: “as mulheres” porque sabemos que esse termo não contempla a variedade de pessoas que assim se identificam. “As mulheres” costuma acolher, de maneira geral, brancas, jovens, cisgêneras, magras, sem deficiência. Não somos todas assim, sabemos e escrevemos: mulheres negras, mulheres trans, mulheres velhas, mulheres gordas, mulheres com deficiência, mulheres pobres.

mulheres

Eita, Luciana, mas pra que tanta picuinha? O tempo que tu leva só pra escrever esse tanto de mulher isso e mulher aquilo já dava pra estar tratando dos temas realmente importantes. Então, pra mim e pra várias mulheres que não se vêem nem são vistas no espectro “as mulheres”, visibilidade, escuta, representação, reconhecimento são realmente importantes. De maneira geral, aliás, as pessoas, as mulheres, que menos se questionam sobre a necessidade de sim, nomear as diferenças, são aquelas que menos diferenças apresentam em relação ao padrão. Penso eu que, talvez, seja porque reconhecer (e a seguir, tentar abrir mão de) nossos  privilégios é difícil, mesmo (ou especialmente?) para quem tem poucos. Por isso muitas vezes, quando se aborda questões específicas, ora de mulheres negras, ora de mulheres com deficiência, muitas vezes ouvimos que é muito drama, exigência demais, demanda de perfeccionismo, etc. Porque não nos sentimos implicados na desumanização que promovemos, como sociedade, quando naturalizamos discursos e comportamentos excludentes, muitas vezes por causa de uma causa principal, necessidades prioritárias, um bem maior (e, como eu já disse, estou fora de Bem Maior).

E digo que não conseguiremos sair dessa espiral de exclusão sem escuta. Porque mesmo as pessoas que tentamos e escrevemos e talz, pisamos na bola. Porque, repito sempre, não é que sejamos (de forma estanque, cristalizada) transfóbicas, capacitistas, racistas, machistas, gordofóbicas, etc. É que nos construímos sujeitos em relação e a sociedade é estruturada de forma racista, capacitista, machista, gordofóbica, transfóbica, etc. E nós internalizamos e reproduzimos. E isso naturaliza e/ou invisibiliza uma série de dores.

Esses dias uma mulher contou como fez para escapar de uma situação de desconforto originada no comportamento machista: o assédio na rua. Narrou  que para deixar de ser assediada simulou uma expressão facial que ela chamou inicialmente de careta e, a seguir, disse que parecia que ela tinha uma doença ou uma deformidade. E aí, segundo a narrativa, os homens passaram a desviar o olhar e ela não se sentiu mais intimidada. Se você não encontrou o erro, se não sentiu o travo na boca, é disso que estou falando: de como somos forjados pra ignorar as dores dos que nos são diferentes. A mulher se sentiu menos ameaçada, menos assediada. Que bom pra ela. Mas não é bom que ela conte isso como uma vitória e, principalmente, acho eu, não é nada bom que pessoas militantes, grupos feministas aplaudam e disseminem o texto e a “estratégia” como válidos. Esse discurso é ofensivo para mulheres com deficiência de várias formas que nem sei dizer (e, aqui, não é um recurso de linguagem, não sei mesmo, reflito e imagino algumas nuances, mas quero mais é ouvir, ler, saber sobre o que elas pensam, por isso perguntei, por isso estou procurando mais). Uma delas é invisibilizar que assédio e suas gradações de violência, incluindo o estupro, não são situações apenas relacionadas à atratividade mas também – e muitas vezes preferencialmente – à vulnerabilidade. Este tipo de discurso esquece que pessoas com deficiência são vítimas também. Faz um eco doloroso, inclusive, com a piada do estupro de mulher feia é praticamente um favor. Não é. Outra coisa que me ocorre é que o pareamento “simulei uma deficiência = não sou mais assediada porque me tornei repulsiva ao olhar” é violento porque nega às pessoas com deficiência o potencial de causador de desejo. Criticar esses discursos não é desqualificar as pessoas que eventualmente os reproduzem, mas questionar porque aceitamos essas distinções, porque não nos inquietamos, porque não amarga na boca. Não estou querendo minimizar o desconforto da mulher que narra sua vivência de assédio, mas questionar de que lado a corda está rebentando.

A nossa sociedade e seus valores estruturantes nos ensinam que existem pessoas que são mais pessoas que outras. Existem pessoas e corpos que são mais. Mais adequados. Mais ajustados. Mais aceitáveis. Mais desejáveis. Mais amáveis. Essas pessoas podem mais. Merecem mais. O quê? Olhar. Proteção. Segurança. Apoio. Desejo. Narrativas complexas. Essa sociedade que faz uma cadeira estreita nos aviões e as pessoas, as mulheres gordas que emagreçam. Essa sociedade que diz “se vista como alguém da sua idade” e as mulheres velhas que se virem pra entender que seus corpos não merecem mais ser vistos. Essa sociedade que patologiza as pessoas transgênero e as mulheres trans que se escondam, se mascarem, se disfarcem para não serem mortas. Essa sociedade que questiona a legitimidade da autonomia e escolha da mulher pobre (olha aí, ganha o bolsa família pra comprar calça jeans de marca). Essa sociedade que dissemina “cabelo duro”, “cabelo ruim”, “cabelo de Bombril” e as mulheres negras que se virem para resgatar sua auto-estima e para protegerem suas filhas desse ataque constante e insidioso.  É essa sociedade, em que estamos e reproduzimos, que se estrutura para marginalizar e, preferencialmente, apagar, as mulheres com deficiência. Elas são menos, aprendemos. Menos potentes (e aí cada história de “superação” nos leva lágrimas aos olhos – porque estava subentendido que não era pra elas conseguirem, claro, sem essa suposição a comoção não se daria). Menos adequadas (aos empregos, ao lazer, ao olhar). Menos ajustadas (como se a sociedade fosse um dado da natureza, como se a escolha de fazer escadas e não rampas, por exemplo, não fosse uma construção social, política e cultural). Menos aptos ao desejo (além da suposição de que as pessoas com deficiência são “repulsivas” como na narrativa mencionada, também temos os discursos que infantilizam ou des-sexualizam suas demandas). Menos amáveis (e pululam suposições que “fulano só pode estar com ela por pena” ouveja essa mulher tão jovem sacrificando-se e casando com o namorado que teve aquele acidente horrível).

Se eu tenho uma utopia é essa: que as pessoas não sejam mais nem menos. Que as mulheres não sejam mais nem menos. Que sejam vistas, ouvidas, desejadas, amadas, acolhidas em sua diferença e especificidade. Que nos libertemos do “tem que” e passemos a usar mais o verbo poder como opção e potência. Que o tempo e o espaço que passamos escrevendo, descrevendo, incluindo mulheres negras, mulheres trans, mulheres velhas, mulheres gordas, mulheres com deficiência seja um reflexo da nossa escuta e um aspecto consistente da nossa militância.

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Eu estava escrevendo esse texto e vi a tradução de um discurso da Shonda Rhimes que me comoveu e que trata de assuntos relevantes de uma forma com o qual me identifico. Diz ela, entre tantas lindezas:

“Você deveria poder ligar a TV e ver sua tribo. Sua tribo pode ser qualquer tipo de pessoa, qualquer um com quem você se identifique, qualquer um que sinta como você, que sinta como familiar, que sinta como verdade. Você deveria poder ligar a TV e ver sua tribo, ver sua gente, alguém como você lá fora, existindo. Para que você saiba no seu dia mais escuro que quando você corre (CORRE metafórica ou fisicamente) há um lugar, há alguém para quem correr. Sua tribo está esperando por você.

Você não está só.

O objetivo é que todo mundo possa ligar a TV e ver alguém que se pareça consigo e que ama da mesma forma. E, igualmente importante, todo mundo deveria poder ligar a TV e ver alguém que não se parece consigo e que não ama da mesma forma. Porque assim, talvez, essas pessoas aprenderão com essas personagens.

Assim, talvez, não irão isolá-las.

Marginalizá-las.

Apagá-las.

Talvez elas irão até mesmo se reconhecer nessas pessoas.

Talvez elas até aprendam a amá-las.”

Tenho cá pra mim que esse é um dos caminhos: ver mais, ouvir mais, saber mais. Amar mais.

As guerreiras cansadas do 8 de março

Por Adriana Torres*, Biscate Convidada

Oito de março e lá vamos nós para a enxurrada de ações e “homenagens” a esse ser místico e indecifrável: a mulher.

Quando não se exalta a “feminilidade”, a delicadeza, o encanto, o “toque especial” (esse último eu fico imaginando o menino do dedo verde com a roupa da fada madrinha da Cinderela, me deixa) surgem as declarações sobre a “mulher guerreira”.

Sim, todas e todos já elogiamos alguma mulher assim na vida, principalmente quando ela está passando por uma situação complicada (algo comum em nosso dia a dia, né?)

“Força, você é guerreira, vai dar conta!”

“Orgulho de você, mulher guerreira!”

“É isso aí, vá em frente, guerreira!”

Eu mesma sempre lembrei de minha mãe como uma grande guerreira. Eu mesma já me vi como uma grande guerreira. E quer saber?

CANSEI.

Não quero ser guerreira. Por sinal, odeio guerra. Eu quero paz, se possível com direito ao amor, ao sexo, ao rock (mentira, quero brega).

Lutamos diariamente contra a violência, a tirania, até contra a falta de empatia de outras mulheres (Olar.sororidade.como.vai.você). Não lutamos porque queremos. Lutamos porque não temos outra opção!

Quantos dias sentimos vontade de não sair de casa para não termos o desprazer de ter que conviver com o machismo nosso de cada dia no trabalho, na padaria, na escola ou na casa da sua mãe?

Quantas noites deitamos em nossas camas com os músculos tensionados pelo simples fato de termos andado nas ruas e passado por diversas situações vexatórias e constrangedoras?

Nosso país possui dados alarmantes relacionados à violência contra as mulheres. O mercado de trabalho nos desvaloriza a todo momento, mesmo que sejamos quase 40% das responsáveis por um lar.

Os postos mais valorizados do mercado de trabalho ainda estão concentrados na população masculina e as barreiras de entrada em determinadas profissões parecem intransponíveis para muitas, desde a infância.

Nem falei da desigualdade salarial. Dxs empresárixs que não querem contratar mulher porque ela pode engravidar. Da imensa maioria das mulheres no trabalho informal ou nos serviços domésticos.

Nesse 8 de março,  não quero parabéns, seja pela minha fragilidade ou pela minha força.

Não quero ser homenageada pelas não-opções da minha vida.

Quero ser eu, Adriana Torres, sem qualquer rótulo, padrão ou nomeações.

Será que é pedir muito?

 adriana-torresAdriana Torres é uma mineira generosa que trabalha com marketing no terceiro setor e curte trabalho voluntário, é mãe do Leon, gosta de cachorros e gatos, casa cheia de amigos mas também de sossego e de redes sociais. Você pode lê-la em seu blog ou acompanhá-la pelo Twitter @Adriana_Torres.

Do Que é Humano, Demasiado Humano

Por Daniela Andrade, Biscate Convidada

sexualidade

Toda vez que leio alguém defendendo a homossexualidade dizendo que ela também existe no reino animal (detalhe: seres humanos também são animais), eu me pergunto:

Todas essas espécies animais não humanas transam uns com o outros por conta de afeto e desejo ou só por instinto? Sei que há espécies de primatas e de golfinhos que segundo consta, transam também apenas por prazer, mas não tenho notícia que isso se dê com todas espécies animais.

Acho tão rasas essas comparações. Afinal de contas, parece que só serve para a homossexualidade e a heterossexualidade, como se sexualidade se reduzisse à práticas sexuais, que praticas sexuais definissem orientações sexuais, quando sabemos que isso não é verdade. Um homem que transou com outro homem não se transformou em um homem gay, uma mulher que transou com outra mulher não se transformou em uma mulher lésbica. Pressupõe que para alguém ser gay, para além de fazer sexo com outra pessoa, exista também o afeto; afinal, o cara pode nunca ter transado com alguém e ainda assim ser gay, pois seu afeto está orientado para determinado espectro de gênero: outros homens.

Um homem que é penetrado por uma mulher não é gay automaticamente. Ele pode continuar amando mulheres, ainda que goste de ser penetrado por elas, mas continuar rejeitando homens a qualquer pretexto.

Outra coisa, onde estão os animais não humanos bissexuais, pansexuais, assexuais, arromânticos, biromânticos, heteroromânticos, panromânticos, poliromânticos, gray-românticos, demirromânticos, pomossexuais, e todo o infinito de sexualidades diferentes e inimagináveis?

Fora que, quem define o que é homossexualidade e heterossexualidade são os seres humanos, para os animais não humanos isso não existe. E a definição da homossexualidade e da heterossexualidade foram modificadas ao longo dos tempos, da Grécia antiga até o que temos hoje, nem sempre o que se convenciona-se por homossexualidade e heterossexualidade é o que modernamente se define.

Acho que para dizer que a homossexualidade é mais uma das legítimas formas da sexualidade humana, não é necessário enquadrar todos animais que fazem sexo e/ou trocam afeto com animais de mesmo genital como homossexuais. Inclusive por que isso nem é homossexualidade para humanos, afinal de contas, um homem trans com uma vagina com um homem cis com um pênis, podem ser um casal homossexual; e uma mulher trans com um pênis e uma mulher cis com uma vagina podem ser um casal homossexual.

daniela andrade *Daniela Andrade é uma mulher transexual, membro da Comissão da Diversidade Sexual da OAB/Osasco, diretora do Fórum da Juventude Paulista LGBT, Diretora da Liga Humanista Secular, que luta ansiosamente por um presente e um futuro mais digno às todas as pessoas que ousaram identificar-se tal e qual o são, independente daquilo que a sociedade sacramentou como certo e errado. Não acredito no certo e o errado, há muito mais cores entre o cinza e o branco do que pode supor toda a limitação hétero-cis-normatizante que a sociedade engendrou.

Corpo Magro e Saúde. Saúde?

Por Mariana Vedder, Biscate Convidada

Essa semana, no programa Bem Estar, que passa de manhã na Globo, um especialista convidado falava sobre dieta e as festas de fim de ano. Segundo ele, “estudos apontam que a maior causa de ganho de peso ao longo da vida são as festas de fim de ano”, porque a pessoa engorda 3kg em dezembro, depois ao longo do ano ela emagrece só 2kg e, depois de 5 anos ela já engordou 5kg só com esse quilinho a mais que ela ganhou em dezembro. Zero novidade, né? É TV deixando a galera “neurótica” com peso até nas festas de fim de ano. Só que a gente sempre encara essas “dicas” como conselhos pra melhorar a saúde, a forma física etc. Mas aí logo depois de falar dos PERIGOS de engordar, no intervalo do programa, rola uma propaganda de shake de emagrecimento da Herbalife, além de vários outros produtos light e diet que “auxiliam” nas dietas.

Eu não consigo enxergar isso como coincidência. Há quem diga que essa campanha da mídia “pró emagrecimento” é pela saúde do brasileiro. Mas pra mim isso é sobre o lucro mesmo. É o mesmo capitalismo que incentiva durante horas e horas do dia que a gente coma bastante hambúrguer, sorvete, bolacha e tudo mais, dando um jeitinho de lucrar com os supostos resultados disso. Falo supostos porque há inúmeros estudos que mostram que nem sempre a alimentação determina o formato dos corpos dos indivíduos, e em alguns casos também não determina a saúde. Só sendo muito inocente pra achar que a quase exigência da mídia pelo emagrecimento não tem foco no lucro. A indústria do emagrecimento é uma das que mais cresceram recentemente, como alguns números nessa matéria aqui indicam.

Esse lucro vem de uma estratégia eficaz: baseada no discurso da saúde, não no da estética, a indústria te convence de que você precisa emagrecer uns quilinhos ou quilões, mesmo que você esteja com a saúde perfeita. Os argumentos relacionados à estética são hipocritamente menos valorizados, mas também são utilizados – “veja como fulana ficou mais bonita após perder 12kg”. Digo hipocritamente porque as propagandas exibem corpos magérrimos e que não existem (porque são moldados via photoshop) como ideais de “saúde”. Mas não se pode identificar a saúde dos corpos olhando pelo seu formato. Quando discuto sobre isso no twitter, sempre alguém diz “minha mãe é pele e osso e tem um colesterol altíssimo, e também é cardíaca”. Pois é. Meu irmão sempre foi magro e é o único dos três filhos que tem problemas com colesterol. Eu sou gorda e minha saúde tem estado OK, mesmo com o hipotireodismo que descobri em 2008. Tem aqui uma entrevista razoável sobre o tema.

Então, se o objetivo é exibir o ideal de corpo saudável, por que nas capas constam corpos que não existem, esculpidos em photoshop? Por que não mostrar os corpos “reais” com saúde – em tese – perfeita? É preciso desmascarar esse discurso porque as crianças estão crescendo em um mundo que opera precisamente através dessa lógica nociva para o desenvolvimento psicológico de qualquer pessoa. E é óbvio que não preciso dizer que as que mais sofrem são as meninas. Será que vale à pena, portanto, arriscar a saúde mental das meninas pra alimentar um grande capital em desenvolvimento sem questionar os objetivos disso? Vale a pena expor as crianças a um ambiente que maltrata os corpos porque vivemos sob uma lógica equivocada que diz que magreza é sinônimo de saúde e sobrepeso é sinal de doenças – se não já existentes, futuras?

1465224_660458583974836_1508417344_n*Mariana Vedder é feminista, funkeira, mestranda em cultura e territorialidades, comuna, paulista que mora no Rio, e tem uns afetos: Emicida, Criolo e o São Paulo. Não necessariamente nessa ordem.

 

Uma cena de amor quase anódina

Era uma pessoa muito próxima. Querida. Muitos amigos ela tinha. Já de certa idade. Generosa, alegre, casa aberta, sempre pronta a ajudar os outros. Presente, cuidadosa, preocupada. Afetiva.

Não lhe sabia de amores. Nunca a tinha visto com ninguém. Não se falava disso, e pra mim estava bem assim: afinal, podia ser escolha. Ninguém é obrigado a ter alguém. Ninguém é obrigado a pavonear suas histórias, suas paixões, seus rolos na frente dos outros. Ainda mais na geração dela, em que isso não era assunto tão conversado.

Até que um dia, passeando na cidade, encontrei-a. E nem teria notado nada, caso ela não tivesse estremecido e soltado a mão da outra, antes de me cumprimentar. Mas estremeceu. E soltou.

Saí dali com isso na cabeça. Que passear de mãos dadas, uma atividade tão anódina, virava, por conta de restrições sociais, de “certos” e “errados”, algo com que se preocupar. Até comigo, imaginem. Até comigo. Imaginem não poder abraçar, beijar, dizer que ama. Dizer “minha namorada”, dizer “minha mulher”. Logo ela, tão querida, tão afetuosa, tão generosa.

Uma nuvem passou diante do sol.

Droga de mundo em que não se pode andar de mão dada com quem se quiser. Que pede contas de amores de uns e de outros, atestados, carimbos, definições. Droga de mundo que fica regulando amores e mãos alheias. Em que uns podem, mas outros não. Em que os outros se incomodam com os amores e as mãos dos uns. Com os corpos, com os afetos, com os jeitos e trejeitos. Com os gostos, com as escolhas.

Droga de mundo.

Reflexões Biscates

Por Thayz Athayde, Biscate Convidada

Próximo ano serei uma mulher balzaquiana. Sim, farei 30 anos. E não estou reclamando, tô achando bom, curtindo e achando gostoso. E aí que eu fiquei observando minhas sobrinha e irmã, que estão na faixa dos 15 anos. As duas já conhecem o feminismo e isso faz com que elas tenham acesso a debates e reflexões que eu não tive nos meus 15 anos. Então, fiquei pensando como teria feito as coisas se tivesse conhecido a biscatagem e o feminismo antes, se eu teria feito as coisas de uma forma diferente.

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Não se engane: eu aproveitei muito quando era adolescente. Mas, eu não tinha coragem e o empoderamento suficiente para entender que ser biscate é… bom! E então, eu aproveitava a vida, me divertia, mas a noite eu sentia aquela culpa. Aquela culpa chata por não ser uma mulher santa. Não tinha força suficiente para dizer para todos os amigos e amigas que sim, sou biscate e não tô nem aí para o que você pensa.

Se tivesse me assumido como biscate, eu teria feito sexo muito mais gostoso. Teria feito o sexo que faço hoje, o sexo sem culpa. Teria ficado com mais meninos e meninas, que eu não tive coragem por achar que “o que será que vão pensar de mim?”. Não teria ficado ou feito sexo com algumas pessoas, justamente porque ser biscate é saber o que deseja. E seguir seu desejo também passa por dizer não. É também decidir quem pode te tocar e quem não pode.

Teria menos vergonha do meu corpo, me sentiria muito mais bonita. Me sentiria livre muito mais vezes e insegura menos vezes. Teria ficado nua mais vezes. Teria admirado meu corpo e me deixaria ser admirada. Saberia que para ser bonita e gostosa não é preciso estar dentro de um padrão de beleza.

Teria me desculpado menos por quem sou e teria aproveitado as relações de uma forma bonita, intensa e almodovoriana, como a vida deve ser. Teria entendido que uma relação para ser boa não precisa ser necessariamente longa ou monogâmica. E para ser ruim não precisa ser longa e nem monogâmica. Só precisa de duas pessoas. Três. Quatro. O número que sua imaginação quiser.

Entenderia que uma relação é feita muito mais na confiança em si mesma e no olhar bonito ou cruel que você tem sobre si. Ainda viveria todas as dores, choros e noites mal dormidas, afinal, essa é a parte almodovoriana da coisa e eu sou especialista nisso. O sentir passa por viver as sensações, mesmo que seja de tristeza. E por que não chorar? Por que não vivenciar?

Teria ficado com mais mulheres e esquecido toda aquela culpa. Não entendia como poderia sentir atração por homens e mulheres. Sentia-me esquisita por isso. Não é esquisito não. É bom, é gostoso e não há nada de errado nisso. Teria me assumido bissexual muito mais cedo. Teria entendido todos os meus desejos e pensamentos com mulheres como algo tão comum quanto meus pensamentos em relação aos homens.

Talvez o meu relacionamento hoje seja tão gostoso porque eu aprendi todas essas coisas. E quando vejo garotas cada vez mais cedo se assumindo feministas e biscate eu penso: uau! Ela não vai passar pelas mesmas coisas que passei. Então, isso aqui é um recado de uma mulher que aproveitou e se divertiu muito, mas que teria se divertido e aproveitado muito mais se tivesse deixado biscatear. Você não precisa ser santa. Não precisa ser puta. Você não precisa ser nada. Só permitir-se sentir. Não importa com quantos meninos e/ou meninas você fica. Não importa o olhar de rejeição que você recebe. Eu sei que é difícil entender tudo isso, mas se você precisar de apoio tem um monte de biscates aqui pra te dizer que tudo isso é ok, e que vai ficar tudo bem.

euA Thayz é bi: bissexual e biscate. É também feminista, almodovoriana e babadeira, ela quer mesmo é desmontar as ideias montadas

Quanto ao desafio da maquiagem

Por Daniela Andrade*

Apoio todas as mulheres que podem, que querem, que decidiram fazê-lo. Apoio a luta contra a manutenção de padrões de gênero que punem as mulheres, as diferentes mulheres, em diferentes aspectos.

Apoio a luta contra a camisa de força de gênero que decide, que dita de que forma se faz uma mulher. E uma mulher precisa estar sempre adequada aos padrões da indústria da beleza – decidiu a sociedade patriarcal.

Posto isso, digo que nada disso deve significar impor que quem não pode, não quer, não se sente à vontade sem maquiagem deve ter sua identidade invalidada, deve ser apontada e ridicularizada, deve ser instada como se aqui estivéssemos falando de alguém inferior.

A mulher que usa maquiagem, seja por qual motivo for, deve ser tão respeitada quanto a que não usa, seja por qual motivo for.

É triste ver uma guerra instalada em situações em que se as partes estivessem dispostas ao diálogo, sem ver a outra como inimiga, as coisas se ajustariam. É triste ver como há pessoas que precisam inferir que a violência que sofre é muito maior para invalidar a violência que a outra sofre, como se houvesse realmente esse termômetro que diz qual sofrimento deve ser considerado mais sofrimento que os outros.

Eu posso fazer a minha manifestação contra opressões sem agredir nenhum grupo historicamente discriminado e sequestrado em seus direitos primários.

PS. Sobre esse desafio já publicamos aqui no Biscate “A Loucura da Beleza” de Karen Polaz e tem post no Blogueiras Feministas: Desafio sem make: desafio para quem? e no Lugar de Mulher:  Por que eu não participei do Desafio Sem Make

daniela andrade*Daniela Andrade é uma mulher transexual, membro da Comissão da Diversidade Sexual da OAB/Osasco, diretora do Fórum da Juventude Paulista LGBT, Diretora da Liga Humanista Secular, que luta ansiosamente por um presente e um futuro mais digno às todas as pessoas que ousaram identificar-se tal e qual o são, independente daquilo que a sociedade sacramentou como certo e errado. Não acredito no certo e o errado, há muito mais cores entre o cinza e o branco do que pode supor toda a limitação hétero-cis-normatizante que a sociedade engendrou.

Como se o pecado alheio fosse nosso…

Um pecado tudo isso.

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É um pecado, mesmo, a gente usar nossos deuses e crenças para fazer picuinhas. Porque aquilo que é nosso, dentro da gente, nossa crença mesmo, é, essencialmente, a gente mesmo. Cada um tem seu deus – ou deusa, o meu é uma deusa – interno. Ele mora em mim, como na poesia de Caeiro, Pessoa.

É um pecado, mesmo, porque quase nunca a gente está feliz. Porque a culpa e eu não bebo mais, não fumo mais, não como mais, não faço mais, não dou a bunda mais, não gozo mais na cara mais, porque ou é feio, ou é pecado, ou é feio e pecado. Porque a fé caminhando como um exercício diário da culpa só nos leva ao paraíso. E o paraíso, sabemos todos, é aquele lugar que pode ser. Não é, ainda não é.

Não. Não quero dizer aqui e ali que não é para crer, temer, respeitar. Se isso tudo faz bem, como a rotina para a criança, como o amor quando é  substantivo, não posso e nem quero julgar, ter, negar. O problema é outro. É esta mania de querer levar todo mundo junto, como se o pecado alheio fosse nosso e a redenção dependesse essencialmente da alma a ser credulizada. Os bárbaros precisam ser vencidos para que todos tenhamos o reino prometido. Porque não deixamos, ora pelotas, que os bárbaros queimem na chama do juízo eterno, se o tal do livre arbítrio é isso mesmo? Não, eu não entendo este “fiscalismo” do rabo alheio, essa jardinagem no quintal do outro.

“Ah…. mas e se as ervas daninhas estiverem a destruir o meu jardim?” Então, vamos lá, neste caso extremado, vamos lá convidar o vizinho para um chá, tosar ou queimar umas pontas que insistem em invadir o acolá. Mas só, porque o respeito é essencialmente isso.

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É um pecado, isso sim. Que novamente e novamente sejamos todos moedas de troca nesta engrenagem estapafúrdia que funciona na base do medo e de pecado, da culpa. E em nome de sei lá qual deus, esse um que não é meu, nem seu e que acaba sendo de ninguém.

“Mas não ia ser legal se ao invés de um jardim para cada um a gente tivesse um parque, para todo mundo?” Seria, mas neste caso só há sentido e razão, da prática e da outra, quando todo mundo pelado, pelada. De outro jeito qualquer, o tal do parque ia ser só um resort: um empreendimento imobiliário pretensamente divino.

Nós Resistimos! Negra Soy!

Por Lia Siqueira*, Biscate Convidada

“Sim, dá trabalho. O preconceito bate na gente, mas nós resistimos.” Foi o que respondi quando uma senhora no ônibus perguntou: “dá trabalho deixar o cabelo assim?” Compreendi o que ela queria saber. Mas o que me sufocava naquele momento precisava ser dito. Não queria trocar segredos para dar viço e volume ao cabelo. Não queria mais falar de babosa, bepantol ou do potencial de um bom cronograma de hidratação. Até então, vinha dando as respostas estéticas àquele tipo de indagação. Essas respostas eram as esperadas por quem tinha a curiosidade despertada pelos meus cabelos “petulantes”. Contudo, chega um momento que todas nós precisamos transcender a questão estética da resistência – comunicar a subversão da nossa negritude e assumir, responsavelmente, nosso lugar – mostrar o que de mais valioso nasce das raízes, sobre nossas cabeças. A intimidade de olhar nossas raízes sem relaxantes que infestam e festejam nossas cabeças, nossas ideias.

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Cultivar a relação de amor com nossos cabelos negros e retirar de nós mesmas os mais poderosos nós. Não me refiro a alguns emaradinhos naturais, provocados pela textura dos cachos. Falo dos nós difíceis, dos amarrados dos olhares, do escárnio, dos julgamentos,do racismo. Isso precisava ser comunicado! Quantas vezes eu transcendi em frente ao espelho… Minhas mãos e olhares perseguiam as espirais sobre a minha cabeça – o encantamento, o prazer, o amor e a autoconsciência que daquele ato nascia fazia valer qualquer dor e desaprovação. A descoberta agridoce das minhas raízes era simplesmente o melhor sabor que passara pelos meus sentidos. Isso precisava ser comunicado! No breve momento, entre a pergunta e minha resposta, levei minha mente dos meus momentos da negação/frustração até à luta quotidiana pelo empoderamento em negritude.

Sou filha de uma branca e um negro. Nasci da mistura tão hipocritamente festejada para os gringos nessa nossa pseudo-democracia racial. Vim ao mundo assim: embaralhada nesse ser-não-ser negra. De pele “morena”, nesse Brasil em que todas as gatas são “pardas”, “moreninhas”, “torradinhas”, “mulatas”, “marrons”, mas não “negras”. No meu lar, não aprendi a rechaçar a negritude ou me embranquecer. Era amada nos meus cabelos crespos, pela minha mãe branca – ali, era eu e estava segura. Mas a socialização chega, ela é inevitável. Com ela, somos atropeladas pelos filtros dos preconceitos. A incompreensão dxs coleguinhas na escola rapidamente transformou-se em racismo. Como no início do poema de Victoria Eugenia Santa Cruz Gamarra, “Me gritaron negra”, eu recuei perante as risadas por causa do meu cabelo crespo. Antes dos treze anos já usava alisantes e relaxantes.

““¿Soy acaso negra?” – me dije ¡SÍ! “¿Qué cosa es ser negra?” ¡Negra! Y yo no sabía la triste verdad que aquello escondía. Negra! Y me sentí negra, ¡Negra! Como ellos decían ¡Negra! Y retrocedí ¡Negra! Como ellos querían ¡Negra! Y odié mis cabellos y mis labios gruesos y miré apenada mi carne tostada Y retrocedí ¡Negra! Y retrocedí…”

Com o tempo, sufoquei todos os verdadeiros motivos que me levavam a alisar os cabelos. Dizia alisar por uma suposta questão de praticidade. Reproduzia de maneira vazia “cabelo crespo não combina com o meu estilo e assim liso é mais fácil de cuidar”. As doses periódicas de guanidina me faziam postergar o conflito – ficava ali escamoteada. Habitei meu cárcere por 10 anos. O abandonei aos poucos, tive o amor da mãe e da irmã, o apoio das amigas e companheiras e a admiração do namorado por quebrar as correntes, preconceitos que introjetei. Minha raiz crescia e as perguntas também. E eu, que nascera embaralhada na aparência (pele cá, quadril e nariz acolá). Iniciava o caminho da autoconsciência, primeiramente desconstruindo, questionando. “A me perguntar: Eu sou neguinha? Era uma mensagem lia uma mensagem Parece bobagem mas não era não Eu não decifrava, eu não conseguia Mas aquilo ia e eu ia e eu ia e eu ia e eu ia e eu ia” “A gente nasce preta, mulata, parda, marrom, roxinha dentre outras, mas tornar-se negra é uma conquista”, disse Lélia González – a consciência de ser negra é uma conquista em um meio que pregoa o branqueamento. Avançando contra uma “normatividade racial”, onde antes eu tinha um pé, firmei os dois e construí minha identidade. “Nasci” mulher negra aos 23 anos, me descobri bela na luta, meu lugar! E hoje penso que, na verdade, é temor isso de evitar chamarem-nos (e nos chamarmos) de NEGRAS. Afinal, uma vez sabendo o lugar de onde falamos, saberemos como e ao que resistir. Compartilho esse lugar – vejo companheiras libertarem-se e empoderarem-se pelos seus fios, pela sua pele, pelo seu nariz, pelos seus quadris, pelo seu sorriso. Sei que a luta de tantas delas é ainda mais árdua por encontrarem resistência, inclusive, entre xs que amam. Mas sorrimos umas para as outras, admirando reciprocamente nossos “black’s” -nossos propósitos iniciam-se sendo cultivados em nosso corpo, nosso cabelo, NOSSOS territórios, mas transbordam-nos e transbordam a estética – resistem em forma de consciência negra. Isso, eu precisava comunicar àquela senhora. Isso, nós precisamos comunicar todos os dias! Como fazemos para nosso cabelo ficar assim? Nós resistimos! Negras somos!

“¡Negra! Sí ¡Negra! Soy ¡Negra! Negra ¡Negra! Negra soy De hoy en adelante no quiero laciar mi cabello No quiero[…] ¡Negra soy!”

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*Lia Manso é advogada, mestranda em direito s humanos e inovação. Faz parte do MNU e é Suplente da Coordenação Nacional de Mulheres no movimento. Milita e estuda pelo direito de minorias. Ama 30 Seconds to Mars e Johnny Depp, o filme Matrix e as séries How I Met Your Mother e Friends

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Conversas sobre o feminino e outros bichos

Ontem, almoço com amiga querida. E conversas sobre o feminino. O não-feminino. Ela, como eu, cresceu naquela terra distante de relógios e vacas (que permitem os queijos e os chocolates). Chegou aqui, como eu, no início da adolescência. E teve que se deparar com o que era ser mulher, aqui.

Talvez por isso a conversa tenha sido na base de tanta concordância: a gente se entende, por ter tido um primeiro olhar sobre isso lá na Europa. Por ter crescido ouvindo conversas de feministas da década de 70, por lá. Por ter as mães que a gente teve, que, embora não se dissessem feministas, faziam parte dessa época pós-queima de sutiãs, em que as mulheres ocupavam os espaços, tratavam dos seus assuntos. Reivindicavam. Era o mundo pós-pílula, e, na Europa, era um mundo ainda marcado pelas duas grandes guerras – quando os homens foram para as frentes de combate e as mulheres ficaram para tocar a vida civil, as fábricas, os campos… quando acabou a guerra, como fazer as mulheres voltarem para dentro de casa?

Não que não houvesse contradições nesse mundo aí: eu, menina de classe média que crescia no Rio de Janeiro, fui pela primeira vez apresentada às noções de que meninas são “mais arrumadas”, “têm cadernos mais limpinhos” lá, em Genebra. Nunca tinha ouvido falar disso…. na escola, a gente tinha aula de costura e culinária, enquanto os meninos tinham “trabalhos manuais” variados. Coisa que me parecia bizarra. A gente reclamava muito disso, aliás. A gente, todas as meninas. E, na década de oitenta, isso mudou, como me contou minha professora de primário, Mlle. Guelpa: todo mundo passou a ter aula de tudo. Juntos e misturados, como deve ser.

Divaguei, mas esse parágrafo me trouxe de volta ao assunto: o que é “feminino” e “masculino”, onde se dá a linha de demarcação. Quem sempre morou no mesmo lugar, acho, pode ter mais dificuldade de perceber o quanto esses conceitos são construídos. A mim, na volta, no começo da adolescência, foi necessário um longo período de adaptação: como “ser menina” no Rio de Janeiro? Não era igual ao que eu conhecia; ralei para entender. Tanta coisa que, pra mim, era só um jeito de ser sem maiores consequências, aqui me encaixava em categorias bizarras como “hippie”, “fora do padrão”, “moderna” (Rá. Moderna, eu, aos treze anos? Passe de novo.).

A contraface disso, é claro, estava no que é “masculino”. Na estreita definição de “masculino”: tudo era considerado “efeminado”, no Rio de Janeiro, ou assim me parecia. Como sentar, como mover-se, como falar… regras tão rígidas. Sob pena de ser achacado pelo resto do mundo, sob pena de ser chamado de tantos nomes depreciativos. Sob pena de não ser amado e aceito, que é o que a gente sempre quer, no final das contas. Sobretudo quando é criança, quando é adolescente.

Olhando hoje, tanto tempo depois, a sensação que tenho é que isso aí só piorou. Afinal, na década de oitenta, ainda havia eflúvios de Hair, de amor livre, de flores nos cabelos. No meu portal, dizem-me. Certamente, no meu portal. Mas é dele que continuo olhando o mundo, e mesmo aqui, as definições me parecem hoje, tanto tempo e tanta luta depois, mais estreitas. Continuamos no mundo do “homem não chora”, e a ele adicionamos brinquedos ainda mais definidos por gênero: o mundo das meninas, antes bem colorido, virou um insuportável universo cor-de-rosa. Até ovo Kinder hoje tem “de menino” e “de menina”, pelamor. Caixinhas apertadas. Tão difícil se encaixar. Corresponder às expectativas. Saltar a barra cada vez mais alta da aceitação sem questionamentos. Mas aí, se for pra ser aceito assim, não pode tanta coisa. Não pode camiseta rosa, não pode brincar de boneca, não pode gostar de glitter ou de maquiagem, não pode usar cabelo assim ou assado… não pode. Meninas também não podem, e são suavemente empurradas para o universo fofo e cor-de-rosa, inexoravelmente. Um universo em que importante é ser bonita e fazer pose, biquinho, charme.

Que difícil.

Aí, claro, cada vez fica mais gente de fora: que não consegue se encaixar nem em uma, nem em outra. E que quer ser ouvido. Que quer estar, ser, poder. Como todo mundo. E agora? O que fazer?

Talvez, quem sabe, uma dica, pra começar a conversa.

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Esse texto, que vai ficar assim mesmo, meio aberto e sem certezas, cheio de angústias arranhadas e de dúvidas implícitas, mas com muita vontade que esse panorama mude, tem a ver com o almoço de ontem (obrigada, Claudinha!), mas tem também a ver com a nota tão estranha que circulou em jornal carioca essa semana. Nota que me ficou entalada na garganta. Porque era “engraçadinha”. Porque vinha de coluna “descolada”. E porque encerra, em tão poucas linhas, uma quantidade tão absurda de preconceitos… e penso na minha escola primária, que na década de oitenta aboliu essas diferenças. E lembro que estamos em 2014. E me dá uma tristeza. Um cansaço.
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Abrir o olhar

Les Demoiselles d’Avignon. Picasso. <3

Abrir o olhar, era disso que falávamos. E de que continuei falando. Abrir o olhar. Dar-se conta de que beleza, feiúra, são conceitos construídos. Dar-se conta é o primeiro passo. Livrar-se dos padrões que não são nossos, voltar àquela fase, bebê, em que a gente não sabia ainda que existiam padrões e se encantava diferente: com cores, com texturas — uma pele macia, um colo confortável e aconchegante, morninho, um sorriso aberto, uns brilhos –, com jeitos, se encantava diferente e verdadeiramente, se encantava do nosso jeito. Antes. Antes de ouvir dizer que tal ou qual é bonito, que tal ou qual é feio. Antes de entender isso, de acreditar talvez. De incorporar no olhar.

Nu Descendant L’Escalier. Duchamp

Tem uns sofrimentos que percebo virem daí. E agora não estou falando de aceitação de nosso próprio jeito, de nosso próprio corpo (embora sempre também): estou falando do outro. Da aceitação do outro. De fulano que gosta de sicrana, gosta mesmo (e eu não ponho isso nem um segundo em dúvida), mas tem vergonha de apresentá-la aos amigos e conhecidos: fulana é “fora do padrão”. Do padrão de quem? Não dele, claro, que dela gosta; do padrão dos outros, daquela camisa-de-força que impingem a todo mundo que é o que se considera “a beleza certa”, e seu anverso, a não-beleza. Já ouvi histórias assim, de um fulano que saía com sicrana, que trepava com sicrana  (trepava: o desejo fazia-se presente, não é mesmo? desejo, essa prova dos nove), mas não saía em público. E a dor envolvida. E a aceitação por parte de sicrana. Que também acolho, que também acredito que faz parte. Ela, com ele, sentia-se bem. E aceita. Embora quisesse mais, sentisse falta da exposição, da “saída do armário”. Ele digladiava-se com seus próprios preconceitos, com sua própria necessidade de aceitação por parte dos pares. Ela-espelho. Ela-consciência. Ele-dogmas. Ele-insegurança. Ele-dificuldade.

Mulher tuaregue.

Tenho vontade de botar os dois no colo. De dizer “pronto, passou” e soprar o dodói. O dodói que é dos dois, que veio na forma do xarope amargo e intenso das normas e regras da estética social. Essa mesma que gera aquilo que chamo de “corpo-troféu”. O conquistado, através de muitas dores e dificuldades (o que aumenta, inclusive, seu valor): e pode ser exibido em capa de revista. O corpo domado para entrar nos padrões. Tem aquelas pessoas que, por circunstâncias meio genéticas, meio de criação, enquadram-se sem nenhum esforço nesses padrões: será a vida fácil para essas? Esse texto da Adriana Torres fala disso com muita propriedade, acho. Nem assim.

As possibilidades de agora, do século XXI, tecnologia, abundância de informações e de acessos, poderiam ser usadas para isso: para, a partir da ampliação do olhar, quebrar preconceitos, eliminar pré-julgamentos, acabar com padrões estéticos. Olho pra dentro, e tento buscar alguma vantagem nesses padrões: não encontro nenhuma, sinceramente. Só desvantagens. Só aprisionamentos. Só dores construídas. Só desencontros e impossibilidades.

E no entanto, nosso sistema de padronização acachapante parece fazer justo o inverso: a partir de certos centros muito bem estruturados de poder, disseminam caixinhas estreitas e exigem que todo mundo nelas se esprema. Leitos de Procusto. Pra caber, há que se cortar pés, há que se esticar pernas. Há que se alisar cabelos, que se perder quilos, que se afinar narizes, apagar rugas, definir abdômen, pernas, glúteos. Duro leito de Procusto onde tão poucos cabem por obra e graça da natureza, que tem mais o que fazer do que cuidar de leitos alheios.

Abrir o olhar, dizia eu. Alargar. Mudar a postura. Não precisa mexer nada, não precisa nem sair do lugar. É uma mudança bem interna, uma decisão de não deixarem dizer, de fora, o que é feio, o que é belo.
A pergunta, acho, é: o que te emociona?
A resposta, suspeito, é algo como: ainda não sei, mas quem sabe…? 😉

E isso é um convite.
(caso não tenha ficado claro.)

P.S.
Só depois de ter escrito o post é que vi essa história, uma história que fala tão bem disso de que tentei falar aqui. Veredas possíveis. Novos olhares.

Ainda corpo: a necessária desnaturalização de padrões estéticos

Renoir. Outros padrões.

Escrevi, junto com a Lu Nepomuceno, um post-entrevista conjunta sobre corpo, sobre percepções e padrões, que tá aqui. E a repercussão deste, junto com minhas próprias inquietações, me fazem voltar ao tema hoje – acho, aliás, que esse tema merecia uma série dele, a galera toda do Biscate escrevendo sobre corpo, contando histórias, desmontando preconceitos. Seria lindo, acho que dava muito pé. Mão. Peito. Bunda. Enfim. Dava. A gente já é dada mesmo…

Voltando: o que mais me impressiona, e isso não é de hoje, é a naturalização dos padrões. A substituição do “eu acho bonito” por “é bonito”. Me lembro de uma conversa muito antiga, de quando eu era adolescente, em que eu dizia que achava determinado cantor negro bonito. E minha interlocutora dizia “você não pode achar isso, ele tem nariz chato, ele tem cabelo pixaim…”

Cabelo pixaim. Nariz chato. Pronto. A pessoa não pode mais ser bonita, com essas características. Como se houvesse alguma ordem prévia que ditasse as regras de beleza, em que entrariam “nariz afilado” (que é um pernambuquês para “nariz fino”) e “cabelos lisos”. Agora, mais recentemente, alguns episódios me trouxeram essa conversa à memória.

O primeiro foi o da jornalista que disse que as médicas cubanas tinham “cara de empregada doméstica”. Como se as pessoas nascessem com “cara de médica” ou “cara de empregada doméstica”. Certamente ela não foi a única a pensar isso: afinal, no Brasil das desigualdades enormes e  persistentes, a incidência de gente loira (não é “branca”, atenção: é loira mesmo) entre os médicos que protestavam contra a vinda dos médicos cubanos (aqui, um exemplo) deveria causar vergonha a todos os brasileiros, pelo que isso demonstra sobre o fracasso do país que dizia que ia pra frente (uôuôuôuôuô). Isso, é claro, cria naturalizações. Mas essa jornalista não só pensou: ela pensou e escreveu em rede social, como se fosse uma “gracinha”. O que assusta tanto.

Uma vez, uma amiga querida – negra – me disse: “Renata, o racismo é sempre estético em primeiro lugar”. Nunca esqueci. Porque é mesmo, né. Não é sobre “alma”: é sobre pele. Sobre nariz. Sobre cabelos. Sobre corpo. Sobre o que se chama de belo, o que se chama de feio. E aí, puxando o fio da meada, a gente chega no outro episódio que eu queria destacar aqui: a eleição de Lupita Nyong’o pela revista americana People como a mulher mais bonita do mundo.

(pausa para Lupita. respiro.)

Pareceu-me uma eleição absolutamente razoável,  por qualquer critério que se use (isso, evidentemente, aceitando que eleger “a mulher mais bonita do mundo” seja razoável; mas aí já é outro assunto.). Jogando com “as peças do inimigo”, ela foi escolhida, no começo do ano. E foi um frisson no mundo. Por aqui, ouviram-se muitas vozes protestando. Não vou reproduzir essas falas, mas o tom era basicamente o mesmo do da jornalista. Como pode uma pessoa com “cara de empregada” (racismo e classismo andam juntos como gêmeos univitelinos) ser a mulher mais bonita do mundo? Para uma revista americana, ainda mais? Por trás disso, tem, certamente, a idéia de que cabelo liso, loiro, olhos azuis, são, por necessidade, “mais bonitos.” Naturalmente. Por desígnio divino. “É” assim.

Nada melhor para esse tipo de idéia do que viajar. Não precisa nem ser pra outro país: a gente tem vários num só, aqui. Amazônia. Sul. Nordeste. Tantas caras. Tantas misturas. Altos e baixos. Cores variadas. Rostos árabes, rostos negros, rostos rosas, rostos morenos. Traços indígenas. Asiáticos. Temos gentes de todos os jeitos. Alargar o olhar. Aprender e apreender belezas, como diz a Lu na nossa conversa já mencionada, assim:

“O que eu quero dizer é que eu procuro exercitar um olhar generoso. Um jeito generoso de ver os outros, procurar suas belezas.”

Dar-se conta de que o que você chama de bonito (você, eu, qualquer um) tem a ver com o que disseram a você na infância que era bonito. E seu reverso: o que disseram que era feio. Explicitamente ou insidiosamente, sub-repticiamente. Jeitos de olhar, de tratar, de falar a respeito. Isso deixa marcas de que a gente nem se dá conta. Até ser jogado em lugares onde os padrões são diversos. Aí é jogo de rebobinar a fita (ok, não se rebobina mais fita, mas cês entenderam), começar de novo, do zero. Começar de novo? Olhar de novo, procurando belezuras. Que las hay. Sempre. Entender as belezuras que os outros acham. E quanto mais a gente andar nesse caminho, que é um caminho que se escolhe andar, mais a gente vai se dar conta de que “beleza” é algo que se cultiva no olhar. No perceber. “Beleza” é desconstrução de padrões. É desmonte de regras. Beleza pode deixar de ser prisão. Se a gente deixar acontecer. Se a gente escolher.

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