O Pão da Ira

Receita Biscate Por Niara de Oliveira

esse é o pão que fiz nesta madrugada

Pode parecer oba-oba, mas ser biscate não é fácil. Tem o lado divertido, óbvio, decidimos pela rebelião, pela não-conformismo com a opressão e o triste papel que a sociedade machista nos impõe e todos os seus efeitos colaterais. Optamos pela alegria. Mas matar todas as ofensas sutis e veladas no peito (e haja peito), engolir sapos, desfeitas, desaforos e, principalmente, os enganos é dureza.

Não falo dos nossos enganos, mas dos enganos de pessoa (erro fundamental de pessoa), quando o ser que deveria vir junto com sexo, risadas e poesia, mete os pés pela mão e te trata como biscate naquele sentido pejorativo que combatemos aqui – ou seja, acha que a biscate está ali pra saciar o desejo DELE e não porque ela também tem desejos. E se a gente – biscate – aponta este equívoco, ainda cobra a nossa suposta “contradição”.

Geralmente essa tal contradição se refere à facilidade de acesso. Desenhando a razão da raiva: conversando a gente se entende. Pode ser só sexo. Se a gente quiser, pode. Pode ser sexo e amizade? Mesma coisa. Pode ser relacionamento monogâmico fofinho-dormir-de-conchinha-ir-buscar-na-rodoviária? Pode. Pode tudo. O que não pode é sugerir A e, depois, dizer que é só B e que como somos biscates, tá tudo ok. Dá raiva. E, aí (vamocombiná), não tem nada de biscatagi, é o velho e péssimo machismo de sempre que trata mulheres como objetos.

Nessas horas, amiga-biscate-decepcionada-e-cheia-de-raiva, nada como fazer um pão. Tem pratos que se feitos com raiva dão errado. Pão fica melhor com esse ingrediente. Então, vamos à receita.

Tenha em casa os ingredientes para o dia que essa raiva aparecer. São eles: óleo e/ou azeite, sal, açúcar (refinado — não pode ser nem cristal, nem orgânico e muito menos mascavo), ovo (opcional), farinha de trigo e fermento biológico seco (envelopes de 10 gr ou uma colher de sopa) e água.

Numa bacia média coloque pouco mais que meio quilo de farinha e cave um buraco no centro, jogue conteúdo do envelope de fermento, cubra com duas colheres de sopa rasas de açúcar e coloque apenas sobre o fermento com o açúcar um pouco de água morna (mais para quente). Cubra com um pano de prato e deixe o fermento agir (= fermentar) por uns 10 min. Verifique se água continua na temperatura mais para quente e acrescente mais uma colher de sopa de açúcar e outra de sal, de 3 a 4 colheres de sopa de óleo e/ou azeite (pode misturar um pouco de cada) o ovo (temperatura ambiente, ou cave um outro buraco na farinha para abri-lo — se o ovo estiver gelado o deixe entrar em contato com o fermento), vá misturando direto com a mão e colocando a água morna aos poucos. Caso fique mole demais e não desgrude das mãos, coloque um pouco mais de farinha até acertar. Não é difícil achar esse ponto. Massa de pão quando está no ponto desgruda fácil da mão. Tire a massa da bacia e coloque sobre uma superfície onde possas amassá-la.

Vá amassando, intercalando movimentos de juntar (embolar) e abrir (rasgar) a massa. Não é agora ainda a hora de descarregar a raiva. Trabalhe na massa o suficiente para ela ficar homegênea e desgrudando tanto da mão quanto da superfície. Faça uma bola da massa e a coloque de volta na bacia. Cubra com o pano de prato e se possível coloque num lugar morno. (coloque a bacia sobre uma vasilha com água quente, por exemplo). Deixe a massa descansar por no mínimo 20 min.

Antes de juntar toda a sua força e raiva e partir pra cima da massa com tudo, unte a forma com óleo (bem pouquinho e espalhe com os dedos — o calor da mão ajuda e a mão engordurada ajuda na hora de pegar a massa). Retire a massa da bacia e trabalhe-a de novo sobre a superfície, mas agora usando mais força, rasgando e embolando mais agressivamente. Bata a massa sobre a superfície sem dó, soque-a se isso lhe fizer bem. Faça isso por uns 15 min ou até o braço cansar. Quando terminar, ajeite a massa na forma (se a forma for retangular deixe a massa mais ou menos no mesmo formato, menor — claro). Aqueça o forno levemente e desligue. Coloque a forma lá dentro e deixe a massa crescer até triplicar de tamanho. Ligue o forno em temperatura média, pão deve assar lentamente ou doura muito rápido e não dá tempo de assar por dentro.

Opcionais: Pode substituir um terço da farinha de trigo por farinha de milho ou de centeio e ainda acrescentar linhaça, passas, gergelim e outros grãos da sua preferência (com parcimônia).

Para essa receita não usei a raiva de apenas uma situação, juntei várias porque estou numa fase “revolta mode on”. Pelo menos o pão fica macio.

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