Por que Universidades ocupadas incomodam tanto?

Por Rafael Siqueira de Guimarães*, Biscate Convidado

Tantas Universidades públicas ocupadas, já perdi até a conta! E a onda tende a aumentar nos próximos dias. A pauta principal, que une tantas e tantos estudantes, é a PEC 241, que congela (sim, é congelamento) os investimentos em Saúde e Educação por vinte anos, coibindo, inclusive, concursos públicos e gastos “extras”, exigindo cortes.

Talvez estas ocupações, sozinhas, como a pauta da educação pública em geral, não tenha, até o momento, incomodado tanto a oligarquia do poder estabelecido, por conta de diversas estratégias que este grupo utiliza, disseminando apenas informações positivas e a “necessidade” de “refrear os gastos públicos” na mídia, ainda o próprio fato de a Universidade ser um espaço de passagem, pouco relacionada com o seu próprio entorno e também porque as pessoas já se acostumaram a greves nas Universidades Públicas, por motivos de redução de direitos de docentes e servidores.

De toda forma, o que me chama a atenção, desta vez, é que as ocupações, com a paralisação das atividades na Universidade, incomoda uma quantidade enorme de docentes. Nós, que perdemos direitos trabalhistas nas últimas décadas, que sempre tivemos dificuldade de adesão a greves e paralisações, e que, quase sempre, saímos perdendo na luta pela manutenção de nossas pautas. As últimas greves têm sido terríveis! Um cansaço tremendo e resultados ínfimos, nos obrigando a repor aulas, cancelar períodos, muitas vezes recebendo questionamentos (justos!) de estudantes pelos desdobramentos destes processos.

Tenho, infelizmente, que admitir que estas ocupações incomodam tanto a uma quantidade razoável de docentes porque a Universidade sempre foi ocupada por pessoas mais favorecidas da sociedade e a maioria de nós, professoras e professores delas, tivemos nossas boas formações em Universidades públicas, devidamente elitizadas. Somos pessoas brancas. Pudemos fazer a proficiência em Inglês para o Mestrado e para o Doutorado, usufruímos talvez não da melhor estrutura, mas de uma estrutura pública.

As pessoas mais pobres, as pessoas pretas, as pessoas indígenas, as pessoas travestis, as pessoas trans*, as pessoas com deficiência que não puderam sequer chegar às aulas do Cursinho de Inglês, estas há muito pouco tempo estão na Universidade pública. Isto aconteceu por conta das ações afirmativas, por esforços coletivos, por esforços pessoais e  pelo aumento de vagas nas universidades, especialmente no interior do país. É óbvio que este processo foi complicado, pois há problemas sérios de estrutura, mas, este mesmo processo, também empregou muitas e muitos de nós, estudantes de uma Pós Graduação que também se expandiu. Mas, sabemos, a maioria de nós, docentes, não veio de lares vulneráveis economicamente.

Muitas pessoas estão, agora, sendo as primeiras de suas famílias a chegarem ao Ensino Superior. E público. E só podem permanecer nele porque há políticas de assistência que, na minha época de graduação, nem existiam direito. Ouvi de uma colega, há uns dois anos, num curso, que “depois das cotas, o curso de Medicina perdeu muito a qualidade”. Há diversos estudos que dão conta exatamente do contrário, mas, infelizmente, acho a fala da colega emblemática para entender o que se passa agora.

Tenho assistido, presencialmente e nas redes, ou por meio de relatos de pessoas que presenciaram, a situações de desqualificação, por parte de colegas professores e professoras, do movimento de ocupação das Universidades. Estas desqualificações são as piores possíveis: chamam estudantes de “pobres vagabundos que vivem de bolsas”, “analfabetos funcionais”, “delinquentes vândalos” e “massa de manobra”. Não se dão conta que, elas e eles, docentes, realizaram seu Estágio de Pós Doutorado no Exterior com financiamento público, por exemplo. Mas, óbvio, é melhor pensar que foi a sua genialidade que o levou a esta “conquista”.

Sim, a “conquista” é individual e não coletiva. Nós, imbuídos de nossos Currículos bem recheados, disputamos Bolsas de Produtividade, formamos “equipes vencedoras”, reproduzimos em nossos Congressos de Associações Científicas as Menções Honrosas pelos melhores trabalhos, personalizamos o processo, reiteramos a meritocracia. E publicamos papers em grupo, obviamente! Por isso as ocupações incomodam tanto. Sim, estas pessoas que menosprezamos no cotidiano da Universidade se organizam coletivamente, trocam saberes, constroem estratégias de luta e, mais, de aprendizagem mútua e colaborativa.

São movidas pelo desejo de instituírem um fazer coletivo. Nessas sociabilidades colocam em xeque as nossas formas de ver o mundo. Sabe o que somos? Somos pessoas mesquinhas, vivemos em gabinetes, em torres de marfim, não entendemos nada mesmo de luta, de resistência, de sociedade. Sim, a Universidade vem sendo ocupada por pessoas que se integram mais num processo coletivo, e mais, que não precisam de nós, pessoas donas do conhecimento, para pautar sua luta, isso mexe com o nosso brio, porque não faremos o cronograma e nem diremos qual a leitura obrigatória. No máximo, faríamos uma mesa de discussão ou escreveríamos um manifesto!

Sim, a Universidade precisa destas ocupações porque também é preciso mostrar a nós, professoras e professores, que muitas vezes não passamos de reprodutores da colonização do saber, porque somos atravessadas por ela. Isso não quer dizer que não haja espaços maravilhosos na Universidade, e é por isso mesmo que estas pessoas estudantes a querem ocupar! Isso não quer dizer que não há professoras e professores que tiveram e têm dias difíceis. E que não há também gente que está na Universidade descolonizando (e muito!). O problema todo é que uma boa parte de nós, docentes, não vai mesmo se solidarizar.

Que esta primavera tenha o tempo que for e, para além de espantar todo o mal que essas medidas de austeridade trazem, nos ensine a pensar outras Universidades possíveis. Que nos junte a elas e eles contra projetos encaixotados de Educação, que nos ajude a lutar contra a “Universidade Operacional”, como denomina Marilena Chauí a Universidade da gestão racionalizada que muitas de nossas Universidades públicas estão paulatinamente se tornando, exatamente a serviço deste sistema elitista que se construiu no status universitário.

foto-biscate*Rafael Siqueira de Guimarães é cozinheiro performático de rua, pisciano e viajante inveterado.

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