Pelo direito à vulgaridade

Estou muito cansada de ver as mulheres que exercem sua liberdade vistas, tratadas como vilãs. Basta estar diante de uma mulher mais atirada e que tome iniciativas para o homem se tornar vítima indefesa. Socorro, hein… É nessa representação de papéis que se afirmam e perpetuam preconceitos e discriminações. E é de papéis, representações, personagens e atrizes que quero falar.

Faz um tempo que observo e comento que em algum momento entre os anos 80 e hoje encaretamos. Não que a passagem do tempo seja garantia de evolução, não é. A história é cíclica e encadeada, determinado fato teve outro(s) fato(s) como causa e provocará consequências e talvez, momentos de maior liberdade que ansiavam ou caminhavam para um determinado ápice, quando frustrados geram traumas que mudam a ordem das coisas, tiram da sequência. Não sou historiadora, mas arrisco dizer que o ano de 1989 tenha sido esse divisor de águas. E não foi para o bem.

Do ponto de vista cultural e comportamental, a simples existência de Leila Diniz, Elis Regina, Dina Sfat não nos garantiram por si só que tivéssemos depois delas atrizes e cantoras enfrentando a hipocrisia dessa época e/ou simplesmente tendo coragem de assumirem o que pensam. Talvez elas tenham chocado demais e produzido gerações covardes, caretas, babacas… Talvez a quebra após 1989 e a ascensão do neoliberalismo nos anos 90 explique… Mas, são apenas conjecturas de como chegamos aqui.

Sei que, daqui, do ponto de vista do nosso clubinho, acho que estamos muito mal representadas, principalmente nas novelas. Ou porque as periguetes das novelas são personagens que ousam pouco além da arte de seduzir e a conquista de objetivos imediatos ou porque as atrizes que as representam são moralistas, caretas e preconceituosas. Isso sem esquecer o fato de que periguete é SÓ a menina que manifesta seu desejo.

eu quero ser a puta! o/

eu quero ser a puta! o/

Não que Leila, Elis e Dina fossem biscates ou periguetes. Não? Não. Do ponto de vista do senso comum e de como esse perfil é visto e representado, não. Do ponto de vista de serem visionárias, revolucionárias, feministas e bem resolvidas com seu corpo e sexualidade, SIM!

E o que elas têm em comum com suas correspondentes* atuais? Vejamos. Ísis Valverde que interpretou recentemente uma periguete em Avenida Brasil numa entrevista na tevê — no mesmo programa que a Graúna-Lu-Borboleta estava — disse, textualmente: “Não deixem seus namorados perto de uma periguete. Ela vai tentar seduzi-lo”. Sério mesmo que o namorado é propriedade, que a relação é nesses termos e basta ser periguete para seduzir todo mundo? Aí… lembrando Leila Diniz: “Eu posso dar para todo mundo, mas não dou para qualquer um“. Foco no direito de escolha da mulher. Não é porque é periguete que vai seduzir todo mundo. Além do que, para duas (ou mais) pessoas se enroscarem-envolverem é preciso a vontade de ambas. A contradição: a personagem batia no peito e assumia que usava o corpo para conseguir o que queria e não se envergonhava disso. Não deixou lição nenhuma para a atriz.

A cantora Sandy virou polêmica nacional uns dois anos atrás por ter declarado numa entrevista à Playboy que “é possível ter prazer anal. Após a repercussão e repressão que se seguiu, voltou atrás e declarou que não foi bem aquela a sua resposta, dizendo: “nunca falei e não falo detalhes sobre minha vida sexual“. Aí… lembrando Elis Regina, sobre Fábio Jr.: “Ele foi como um sorvete, gostoso e rápido, mas brigamos quando eu disse que ele estava com saudade do plim-plim da Globo” e arrematou “ninguém vai fazer da minha vida uma novela” respondendo sobre os boatos do namoro. A contradição: A pessoa construiu uma imagem de pudica, de diva adolescente eternamente infantilizada/assexuada, aí resolve dar entrevista para uma revista masculina pra quê? Trocar receita de bolo? Mas, nada disso justifica o linchamento moralista e hipócrita sofrido por Sandy nas redes sociais por conta da tal declaração.

A atual periguete “em cartaz” na novela Amor À Vida só é periguete nos xingamentos da vizinhança. Porque, vamo combiná, ela não tem atitude nenhuma. Trepar e ir a motel todo mundo trepa e vai, o que faz uma periguete é a atitude, principalmente se assumir como tal. Mas, tá… Vamos considerar que ela seja periguete, além de não ter nenhuma fala no sentido de exercer sua liberdade sexual, a atriz Tatá Werneck declarou em entrevista na cobertura de sua participação no especial do Dia da Criança do programa Altas Horas (explicando o sucesso da personagem com a criançada) que “a Valdirene não é uma periguete vulgar“. Então não é periguete, né? Porque se ser liberada sexualmente para a mulher é ser vulgar, não existe periguete que não seja vulgar. A contradição: a Valdirene é vulgar. O que ela não é, é periguete.

Pasmem. Diz o Dicionário Aurélio, VULGAR: adj. Relativo ao vulgo. / Comum, trivial, corriqueiro: fato vulgar. / Baixo, reles, desprezível: sentimento vulgar. // Latim vulgar, latim que se falava no Império romano (por opos. a latim clássico). / &151; S.m. O que é vulgar. / Língua vernácula. Nada, nadica, nenhuma referência à mulher ou comportamento, apenas com a condição social. Ser vulgar, na raíz da expressão, é ser reles, do povo. Tomemos a expressão ao pé da letra e sejamos vulgares. Sem ser sexy.

Retomando. Liberdade é exercício, então deixe a pessoa com quem te relacionas livre para ir, voltar, ficar, ser, estar. Se importe menos com xs outrxs periguetes e seja mais periguete você. É possível ter prazer de várias formas, se permita, e principalmente assuma o seu prazer. Além de libertador pode ajudar a libertar outras pessoas. E por fim, PELO DIREITO DE SER VULGAR!

Não, não esqueci da Dina Sfat. Deixei sua imagem para encerrar o assunto, porque biscate-periguete-puta pode até estar na vida só pela diversão, mas a gente aprecia muito as que são de luta.

dina sfat

*essa correspondência não tem caráter comparativo de talento, importância ou grandiosidade.

Sambando e estripando…

Por Niara de Oliveira

Niemeyer morreu. Madonna no Brasil, de novo. Periguetes em alta. Dedos em riste… Não, pera… Que diabos tudo isso tem em comum? Vou explicar por partes, como faria Jack.

Tripa 1 — Niemeyer morreu. O cara tinha 104 anos, se dizia comunista, ateu, falava umas coisas bacanas sobre liberdade, oportunidades e sonhar, e trabalhou até praticamente o último instante de vida. Amava o que fazia. Críticas? Muitas. Tinha paixão pelo concreto e desconhecia o que era ecossiocialismo (para saber mais). Para dar visibilidade às suas obras era capaz de mandar destruir lugares onde a natureza foi muito generosa, como o local do Museu de Arte Contemporânea em Niterói que, como disse o Chico Capeta, é “o melhor mirante do Rio do Janeiro”. Era assumidamente stalinista (sinto arrepios só de pensar que alguém pode escolher ser stalinista, escolher simpatizar com essa corrente), mas era inegavelmente um GÊNIO da arquitetura, de traço incomparável, respeitado e ovacionado no mundo inteiro (e só a besta do Reinaldo Azevedo para não reconhecer isso). A morte de alguém muito grande como Niemeyer provoca reações díspares, como díspares são as pessoas. Há aquela velha corrente da santificação, insuflada pela grande imprensa que tenta lucrar com audiência através dos feitos do morto e tentando apresentar a melhor cobertura do funeral ou o melhor portifólio da obra. Mais recentemente surgiu a corrente da demonização, que tentando ir na direção contrária da santificação acaba sendo muito deselegante e rude com quem acabou de partir. Porra, será que não dá para ter um pouco de respeito nem na hora da morte da criatura? Dá, sim. E acho que respeitar é ser justo, é dizer a verdade e deselegante mesmo é puxar o saco, principalmente depois que o saco do cidadão já até gelou. Então, ao pensar na sede do Partido Comunista Francês, em Brasília, na igreja da Pampulha (ó, que interessante… um ateu projetando igreja, e lindamente… sim, nós humanos somos feitos de contradições), no Memorial da América Latina, lembre-se também do que representa construir blocos de concretos no meio de grandes cidades superaquecidas, sem arborização e, principalmente, lembre-se dos CIEPs no Rio de Janeiro. Tá, poderíamos falar só do que é boniteza e tals… Mas, ainda tem mais um detalhe, o comunista Niemeyer apoiou Eduardo Paes nessa última eleição — atual prefeito da cidade do Rio de Janeiro — que promove na contramão da história do humanismo e cuspindo nos Direitos Humanos obras que desalojam pessoas, implodem a memória da cidade em nome de grandes investimentos, eventos, enfim… Em nome do progresso! Só as atrocidades cometidas em nome de Deus foram piores e/ou maiores do que as cometidas em nome do progresso. Ou seja… Se Niemeyer era comunista, Kátia (a cega) é jazz*!

madonna periguete

tatuagem fake que Madonna fez para o momento do strip-tease de seu no Rio na última segunda-feira (3) onde em outros lugares também exibiu “Peace”, “Obama” e “Pussy Riot”

Tripa 2 — Madonna no Brasil. Super estrela pop vindo fazer show no nosso quintalzão, de novo. UAU! Não, pera… Em tempos de Lady Gaga, Madonna virou a tia velha e ganhou a pecha de ridícula. Já não se lembram mais de sua bela voz e que ela canta de verdade, compõe, dança (e interprata mal, isso é fato) e que está no topo do mundo pop desde os anos 80 e que envelheceu, sim, mas e daí? Desde quando envelhecer é ruim? (tem um exto bacana aqui sobre envelhecer) Madonna sobreviveu sem forçar a barra, sem parecer mudar de estilo ou ficar decadente. Então, porque afinal ela é acusada de ser decadente? Simples. É mulher, passou dos 50 anos dando coice na cola como dizem lá no pampa e está pouco se importando com as opiniões a seu respeito. Madonna incomoda demais. Ela é independente, dona do seu nariz, vida, corpo e carreira. Quando (dizem) apanhava de Sean Penn pagava pau pro marido e fez para ele um disco falando em quase todas as músicas de amor verdadeiro. As feministas odiaram. Ela seguiu. Nessa passada pelo Brasil, Madonna resolveu se assumir perigueti. Como assim, brazew? Mas perigueti não é só um estereótipo do qual “todas” fogem porque não são “respeitadas”? Não, pera… Alguém sabe me dizer qual mulher é respeitada sem se impor e sem se esgualepar inteira? NENHUMA! E Madonna sabe disso. Sua homenagem às periguetes é uma campanha de visibilidade tipo, “olhem pra mim, bem sucedida, dona de mim e PE-RI-GUE-TE!”

Tripas 1 e 2, sambadas — Se Madonna sambou na cara do moralismo do mundo inteiro a partir do nosso moralismo tupiniquinim, Niemeyer sambou na cara da morte e deu-lhe tanto trabalho, mas tanto trabalho, que só por isso eu já sei que ele não era comunista de verdade (risos). Mas… Rótulos servem para quê, mesmo? No que chamar Madonna de velha, decadente e acabada tira seu brilho? No que chamar Niemeyer de comunista-stalinista-gênio-calhorda tira seu mérito? Eu pergunto, eu mesma respondo: Tira muito do nosso brilho como pessoas e desgasta muito da nossa capacidade como humanidade. Dedos em riste só servem se for para se fazer respeitar e em nome da verdade. Se forem para julgar moralmente dizem mais a respeito de nós, do vergonhoso nós, do que de quem estamos julgando.

Achou contraditório? É, ué. A contradição é condição humana e essencialmente biscate. E se for para se valer dela para lembrar de quem samba na cara do moralismo, tô nem aí, uso mesmo! 😛.

p.s.: Não sou fã nem do trabalho da Madonna e nem do Niemeyer, mas isso não tem nada (ou tudo) a ver com respeito ou com os meus moralismos e contradições.

*Kátia é jazz” é uma expressão que surgiu nos comentários de um post da Suzana Dornelles aqui,  e foi criada pela Deb. ou deborahpetri (alter ego de uma querida que prefere o anonimato e essa vida dupla), para me contrariar quando afirmei que Magal não é brega. Disse Deb.: “Se Magal não é brega, Kátia é jazz!” — Levamos pra vida.

Ser periguete ou parecer periguete?

Ou qual papel a sociedade de consumo escolheu para você hoje e o que isso tem a ver com o Dia dos Namorados

Já está um pouco cansativo essa coisa de ficar afirmando o que é ser biscate. Porque não há definição, ou não há UMA definição e é aí que todo mundo se atrapalha, já sabemos. Estamos acostumados com esse mundo encaixotadinho, fácil, onde cada um representa apenas um papel. Ops! Esse é o mundo das representações, né? Porque no mundo real pessoas são complexas, inteiras e são várias numa só e é muito bom que seja assim. Maluquice, né? Sabemos o quanto somos complexos quando olhamos para nós, mas quando nos refletimos ou nos vemos inseridos na sociedade temos essa necessidade insana de classificar, reduzir, enquadrar… E cabe a pergunta: Temos mesmo essa necessidade ou ela nos é imposta diariamente por esse modelo de sociedade que visa nos transformar em coisas, em apenas consumidores?

Já questionamos uma reportagem sobre o comportamento sexual da periguete e de novo lá afirmamos o nosso entendimento (do BiscateSC). Felizmente saiu na última semana uma outra matéria no mesmo site um pouco melhor, com um entendimento/perfil bem menos preconceituoso sobre o que é uma periguete. Será que fez diferença o fato de agora ser uma mulher escrevendo? Não necessariamente, mas talvez porque sendo mulher e já tendo sido em algum momento classificada e em não gostando disso esteja mais atenta a essa forma nem tão sutil assim de opressão… Mesmo assim essa nova matéria escorrega, e a principal escorregada esteja talvez no tal “Raio-X da periguete” que imediatamente se choca com o perfil da periguete mais comentada do momento, a personagem Suelen da novela Avenida Brasil.

Diz a matéria, de Julia Baptista no Delas (portal IG):

“Mulheres que exibem sua sexualidade e a usam para conseguir coisas são tradicionalmente alvo de todo tipo de piadinha e expressões pejorativas. As periguetes não fogem da regra. “Essa mulher livre e que ousa fazer suas próprias escolhas ocupa um espaço tão importante nas fantasias masculinas que dá para se perguntar se a mulher que faz esse gênero está de fato ‘vivendo a sua sexualidade plenamente’ ou apenas desempenha, sem sequer se dar conta, mais um papel que a sociedade delega”, explica a historiadora e escritora especialista em questões femininas, Nikelen Witter.
A fantasia nasce justamente porque “nossa cultura ainda tem dificuldades de conceber uma mulher numa posição igual a do homem em termos sexuais, profissionais e sociais”, acrescenta Nikelen. Mulheres assim representam uma ameaça, um perigo, e, por isso mesmo, são fascinantes.

É mais ou menos o caso da tal Suelen de Avenida Brasil, que mesmo sendo considerada “mau caráter” (e talvez seja esse o problema no perfil da personagem, colocá-la como mau caráter) e usando seus “atributos pessoais” para obter vantagens ela é dona de si e faz do seu corpo o que quer. Talvez isso explique — me apossando aqui e usando o comentário da Nina Lemos — o sucesso dela entre os homens na trama, a simpatia pela personagem tanto de homens quanto mulheres e a maluquice que é viver encaixotado dessa forma que vivemos. E quando digo “vivemos” me refiro à sociedade como um todo, porque eu (acho!) já me livrei das caixinhas tem tempo e não impunemente, assim como a Suelen que paga sua conta por viver do seu jeito.

Querem um exemplo de como precisamos ser encaixotados para virarmos azeite nessa sociedade de consumo? Alexandre Herchcovitch, um dos maiores nomes da moda atualmente no mundo, revelou ontem na Folha de São Paulo sua estratégia diante da novas classes C e D — a tal “nova classe média”, que não é exatamente classe média e que foi elevada não à categoria de cidadã mas de consumidora pelo atual governo (mas essa é uma outra discussão que não cabe aqui): “Hoje, quem quiser sobreviver no Brasil, e competir, vai ter de fazer produto para a classe C e D”. Ao mesmo tempo que diz não saber fazer roupas para “o perfil da brasileira“. Diz ele: “Já tentei fazer essa coisa de ‘estilo da brasileira’, um certo padrão, mas não tenho mão para isso. Começo a fazer e sai outra coisa. Poucas marcas sabem desse gosto geral do Brasil. Isso não é um problema, pois o país é grande e há variedade de gostos. Minha marca conquistou seu espaço. Se minha roupa fosse periguete, teria mais clientes, mas não sei fazer. O lance é saber ajustar expectativas.” — Não, Herchcovitch não conceitua o que é ser periguete, apenas diz que não faz roupa para elas. Mas isso não é de certa forma dizer, classificar (inclusive no sentido de classe social), conceituar?

Relembrando o tal Raio-X da periguete e o comentário da Nina Lemos sobre a Suelen fica bem desenhadinho que é preciso não apenas classificar o comportamento dessa mulher (e não é que a imprensa seja responsável por isso, é a sociedade como um todo que o faz), da periguete, mas definir o seu jeito, definir o seu gosto. Quer ser periguete? Dê para quem quiser — isso é bom e eu recomendo –, não precisa nem anunciar que está dando, o julgamento e o “título” vêm mais cedo ou mais tarde. Quer parecer periguete? Vista-se assim, maquie-se assado, tenha o cabelo Y e tenha a atitude X. Se isso não é pasteurizar as pessoas e massificar cultura eu não sei o que mais pode ser.

Mas o que tudo isso tem a ver com o Dia dos Namorados, cáspita? Vou facilitar.

O dicionário diz:

periguete
(origem duvidosa, talvez de perigo)
s. f.
[Brasil, Informal]  Mulher considerada desavergonhada ou demasiado liberal. = PIRIGUETE

Na matéria do Delas, do portal IG, da semana passada a definição é essa:

A gíria, surgida na periferia da Bahia no início da década de 2000, virou apelido de cerveja e entrou para o dicionário Aurélio como sendo uma justaposição de ‘perigo’ + ‘ete’, “moça ou mulher namoradeira, mas sem namorado”.

Periguetes e biscates na teoria não namoram, elas flertam com os namorados alheios (ui!). Tudo vadia. Né? ERRADO. Já desfilaram por aqui dezenas de excelentes posts sobre biscates casadas, de um homem só, apaixonadas, mães e até de “quase” não-biscates. E não é que estejamos subvertendo o conceito ou a definição de biscate e periguete, é que ele não existe mesmo, por mais que tentem enquadrar, classificar, encaixotar. E se for para dedicar um dia ao seu amor-caso-peguete-enrosco-amante que cada um/uma escolha a sua data. Acho que ficaria bem menos normativo, massificado e impositivo. Mas, quem quiser cumprir o ritual-combo consumista de presente-jantar-motel hoje, fique à vontade. Sou da opinião que somos livres inclusive para escolher esse modelo consumista, mesmo que o ache bem meia-boca e sirva apenas para dar satisfação à sociedade que estamos tuteladas e estamos momentaneamente “menos perigosas”, mesmo que não seja nada disso. 😉

Amar é ser assexuado como esses bonequinhos? Deve ser por isso que as biscates e periguetes são definidas como quem não namora… Né?

O Estado contra as Biscates

Era tarde quente, eu buscava exercer a quase impossível tarefa da locomoção em São Paulo. Ah, São Paulo, este “point” de gente conservadora, de governo e prefeitura ainda piores do que o povo. É fogo. Fogo estava aquela tarde.

Na tentativa de distrair – e disciplinar – a população, agora há televisões nos ônibus também, além de nos metrôs. Claro que a programação é vendida para uma das poucas emissoras grandes que continuam controlando a informação. Mas o ponto não é esse.

O ponto é o cúmulo. O extremo. O abuso.

Eis que na televisão do ônibus começam longos três minutos dedicados exclusivamente a mostrar às mulheres como não se vestir. De repente, sem contexto nenhum, uma tela amarela mostra desenhos de corpos femininos com roupas de periguetes e grandes “X” vermelhos sobre as peças de roupa, acompanhados de uma legenda, caso as periguetes não tenham entendido que estão erradas: “não use saias ou shorts curtos ou justos”. Assim. Pá-pum.

O show de horrores segue. Uma outra imagem mostra uma mulher com uma calça jeans que deixa a barriga de fora e uma blusa curta. Outros “X” vermelhos e a legenda: “não use calças justas” e “não mostre o umbigo”.

Minha sensação era de querer tirar a roupa inteira, e nisso estou com o Femen. A corporalidade. O corpo. Nossos corpos. NOSSOS. Se absolutamente todas as pessoas são vítimas de um controle disciplinar promovido por alguns grupos que dominam o Estado (viva Foucault!), é fácil perceber que as mulheres são especialmente atacadas.

As leis de controle do corpo e tutela da autonomia sobre ele são dedicadas especialmente a nós – homem não aborta, né? Nosso corpo é um grande objeto de disputa pública, é preciso estar consciente.

É preciso notar o corpo.

É preciso amá-lo.

É preciso jogar uma pedra em cada um dos discursos que sustentam esse controle absurdo, abusivo. Por parte do Estado ou de outras pessoas.

Quero um mundo de periguetes livres.

 

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