Não Mereço Ser Estuprada

Eu sempre fui assim, meio soltinha, sempre gostei de ser amiga de homens, sempre gostei de andar de roupas confortáveis e sempre gostei de sexo. Mas, uma coisa que posso dizer, nunca fui capaz de fazer mal a ninguém, fazer qualquer tipo de violência com ninguém, sempre me chamaram de trouxa pois não sabia tratar ninguém mal, mesmo que me tratassem mal.

Mas o que você quer dizer com isso? Bem, o que desejo dizer é que usar roupas curtas, ser livre não é desvio de caráter, não me faz uma pessoa ruim, então porque eu ou qualquer mulher que usa uma roupa curta mereceria ser estuprada? Na verdade, minha pergunta é mais séria ainda: O que faz com que qualquer ( boa ou ruim, independente do caráter! ) mulher mereça sofrer uma violência dessas? Queria entender O porquê de uma mulher que decide ficar confortável, não morrer de calor ou, até mesmo, se sentir sexy e bonita (ela tem o direito sim de usar qualquer roupa por qualquer motivo!) faz com que ela mereça passar por qualquer violência,?  Além disso, que tipo de castigo é esse? Desde quando violência é uma forma de punir alguém? Para mim é machismo sim essa visão.

Não sei ver diferença entre uma mulher e outra por sua vestimenta ou atitudes, não vejo diferença entre nenhuma pessoa por nenhum motivo assim. Sei que rotular pessoas é um costume muito comum no nosso dia a dia, mesmo sem querer, precisamos nos policiar todos os dias para não o fazer e não acho justo apontarmos pessoas ou colocarmos em caixinhas, mulheres que merecem violência e mulheres que não merecem. É muito parecido com a tão irritante história da “mulher de malandro”, não existe quem goste de sofrer violência doméstica, existem pessoas que dependem financeira ou psicologicamente de alguém ou que estão num relacionamento por medo de como serão vistas se pedirem divórcio. É muito difícil rotular uma pessoa por suas atitudes.

Me sinto todos os dias, acuada ao sair na rua, a noite ou não, de roupas curtas, quando bebo ou quando respondo um homem que me canta. Mas, se eu não tomar uma postura, quem sou eu? Preciso lutar contra o preconceito. Viver em cárcere, sendo que sou eu a vítima, é afirmar que a sociedade deve continuar como está! É colocando a boca no mundo que faço minha parte: é saindo para beber, é rindo alto e escancarado e é também brigando de forma justa pelos meus direitos e de outras mulheres.

Não Mereço Ser Estuprada

Não Mereço Ser Estuprada

Eu sou as minhas lutas, eu sou quem mostro no dia a dia, eu sou mulher e indivíduo com vontades e voz. Não posso me calar, já existem muitas outras mulheres caladas por aí, sofrendo escondidas. Tomamos a iniciativa para puxar outras a fazer o mesmo. A reação é em cadeia, sempre!

A culpa é sua sim!

A culpa é sua sim! Quem mandou nascer, crescer, ser alfabetizado em uma sociedade patriarcal e que reproduz na educação doméstica e formal esse patriarcado, começar a trabalhar, ser independente, casar, ter filhos e, depois disso tudo, sair por aí, do jeito que quer, cacarejando acriticamente o que aprendeu a vida toda? Sim, a culpa é sua!

Na semana em que o Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas – IPEA – divulga uma pesquisa que retrata a opinião favorável de 65,1% dos entrevistados de que a mulher vítima de abuso sexual contribui, de alguma forma, para a agressão, não é a sensação de “pare o mundo que eu quero descer” a mais apropriada. Tampouco, a sensação de “isso é um absurdo” é válida! Sabemos com certeza matemática, pelo menos isso o dizem pesquisas como essa e dados produzidos por agentes públicos, que a violência contra a mulher, principalmente de cunho sexual, no Brasil é monstruosa.

Retratos de um Brasil Agressor

Retratos de um Brasil Agressor

E o porquê de “a culpa é sua”? Simples! Porque você é capaz de achar isso normal, de concordar com o resultado da pesquisa e de dizer: “Mas é claro! Mas se ela não fizesse/tivesse/vestisse/dissesse ‘isso’, não seria abusada”. Se você tem domínio desse discurso, parabéns, este post é para você. Esse post é para te conceder um pouco de compaixão. Compaixão por entender que você não foi capaz, por algum motivo que não vem ao caso, de pensar criticamente o contexto social em que cresceu.

Além disso, é um post para te permitir um pouco mais de amplitude a respeito das causas do estupro, como mostra o gráfico abaixo:

Causas do Estupro

Causas do Estupro

Ou ainda, é um post pra te conscientizar a partir de exemplos correlatos e que levam para uma realidade paralela a essa sua forma de pensar, como na imagem abaixo:

estupro 1

Como os agressores pensam

Parece absurdo, não é? Pois é! E não entender isso só quer dizer uma coisa: você falhou em entender seu processo de socialização. Você pode ser uma “pessoa de bem”, pagar seu impostos, trabalhar dignamente, contribuir para o futuro do seu país. Tudo isso é ótimo. Contudo, se você não conseguiu entender que o corpo de cada pessoa pertence apenas a ela e que nada, leia novamente NADA, justifica qualquer tipo de agressão contra ela. Foi nisso que você conseguiu falhar. Você falhou em reconhecer o outro como um ser humano livre e capaz, dotado de direitos e deveres tal qual você é! E pior, ao dizer “mas se ela não”, você acabou de justificar e legitimar o agressor. Você acabou de ser conivente com a agressão. Você acabou de ser cúmplice. A culpa é sua sim!

Ps. Não é a primeira vez que falamos sobre o tema, alguns posts podem ser encontrados clicando aqui.

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