Não Tem Graça

Esse texto é sobre todas aquelas coisas que não tem graça e só deixam o amargo na boca.

Sabe o que você nunca vai ver saindo da minha boca (ou dedos)? “Você é machista.” “Fulano é machista” “Sicrana é machista”. Eu sempre procuro dizer: esse pensamento é machista, esse posicionamento, esse discurso, esse comportamento…é machista. Firulas? Talvez. Mas eu, apesar de pensar que nós somos o que fazemos – e, dialeticamente, fazemos o que somos – não me sinto confortável em reduzir toda a subjetividade e complexidade de uma pessoa a uma informação/designação.

Tenho cá pra mim que somos forjados e nos construímos em uma sociedade cujos valores e práticas são machistas e, assim, eventualmente, por mais engajad@, militante, atent@ e preocupad@ com o feminismo que formos, vez em quando a gente enfia o pé na jaca, pisa no tomate, escorrega na berinjela e, pluft, repete um padrão, um dito, propaga uma idéia machista. E daí?

Daí nada. Sabe a canção: levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima? Eu acho que devia ser bem assim. Quando alguém me faz a gentileza, o favor, a delicadeza de me apontar um comportamento machista (ou racista ou que revela preconceito de classe) eu procuro dizer: putz! Vacilei. E refletir como e porque aquilo aconteceu. E, quando é o caso, se houver alguém diretamente envolvido, pedir desculpas.

É a propósito disso esse post: porque é tão difícil para nós e, especialmente, pelo meu levantamento empírico não-científico, para os homens, admitirem que apresentaram um comportamento machista e repensarem  a situação?

Eu me considero – e não estou sozinha nisso, tem um monte de gente que concorda comigo o que faz com que, caso seja loucura, seja partilhada – uma pessoa bem tranquila e bem-humorada, com um lado Pollyanna que chega a ser irritante. Mas tem uma coisa que me tira do sério fácil, fácil. Quer ver? Coisas como essa:

não tem graça

Outro dia estava eu, passeando despreocupada na TL e pensando nas várias formas como iria me divertir no feriado, quando me deparo com um tuíte mais ou menos assim: “Se a sua namorada disse que não quer ganhar NADA de Páscoa compre mesmo assim. Ela vai ficar indignada se você aparecer de mãos vazias”.

Eu não vou nem comentar a idéia assimétrica de que os homens precisam comprar coisas para as mulheres, sempre e irrestritamente. Vou me focar na idéia que mais me irrita e que converge com a imagem aí em cima. Uma das formas mais insidiosas da cultura de manter o machismo à toda é deslegitimar o discurso feminino. Essas inocentes “brincadeiras” parecem (pelo menos a mim parecem, vocês não concordam?) indicar que uma mulher não sabe o que diz. E quem não sabe o que diz, não sabe o que quer e precisa de…(exato!) tutela.

Uma mulher, uma pessoa, tem que se responsabilizar pelo que diz. Se ela diz que não quer ganhar nada na Páscoa, mas intimamente deseja muito um ovo enorme e cheio de penduricalhos…azar. Se disse que não quer nada, é isso que deve ganhar: nada. Todo o conjunto de traduções “ela disse…” mas “quis dizer…” é preocupante porque questiona a autonomia da mulher e se inscreve em uma tradição paternalista de ignorar o que uma pessoa adulta explicitamente enuncia.

Não me importa que “na prática” seja assim. As práticas são transformadas por ações intencionais, não por favores divinos ou abstrações metafísicas. Se “na prática” as mulheres continuam dizendo o que não querem pra ganhar o que querem e os homens continuam se aproveitando disso pra manter a hierarquia de privilégios, tá na hora da gente, gente que faz (rá!), sair do círculo e marcar posição. Não é não, e não só no sexo.

Ouvir o que é dito é pedagógico. Para o homem que escuta e passa a respeitar a palavra d@ outr@ pessoa e para a mulher que enuncia e tem a estrita fala reconhecida. É tempo de sairmos da explicação rasa: mas é só uma piada. Uma piada nunca é só, ela reflete padrões e pensamentos cristalizados na cultura.

Se você ri disso, tá na hora de rever os seus conceitos…

Toda e qualquer insinuação de: “ela não sabe o que diz”, “ela não sabe o que quer”, “ela diz uma coisa, mas está querendo outra” deve acionar imediatamente nosso alerta vermelho. É perigoso.

E, por favor, não me venham à caixa de comentários colocar uma imagem qualquer com um dicionário do homem onde tem alguma coisa do tipo “quando ele diz pra ela: você cozinha muito bem, quer dizer que ele não tem dinheiro pra pizza”. Primeiro porque não precisa ser nenhum gênio pra ver onde o calo continua apertando (não é ele que vai cozinhar – isso é papel da mulher, e não passa pela cabeça que ela possa pagar a pizza – afinal mulher é tudo dependente e só come porque o homem, generoso, bota comida na mesa). Mas, especialmente, porque se trata de um pareamento artificial. O discurso do homem não é contestado, questionando e tutelado usualmente na nossa sociedade.

Então, pra retomar o papo do início do post, se você, por um momento, achou engraçado esse tipo de situação em que o dito de uma mulher é tratado com leviandade e questionado em sua essência, não argumente dizendo que foi só uma piada, que na prática é assim mesmo ou que você é gente boa e nunca poderia ser considerada machista porque, veja bem, tem mãe e a considera digna de admiração porque ela é uma lutadora. Pare. Pense. Se não doer muito, até diga: obrigada por me alertar. Tente não reproduzir mais o mesmo tipo de idéia. E relaxe: nós vamos continuar errando. O que nos diferencia é continuar tentando não errar.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...