Do Útero ao Túmulo

Por Fred Caju*, Biscate Convidado

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caju*Fred Caju é nordestino. Poeta. Letras sumarentas que nos escorrem pelo canto da boca e, vez ou outra, deixam um travo, como a fruta que evoca. Editor do Castanha Mecânica. Curador do Cronisias. Pra gente não esquecer que letra é vida. Querendo mais, tem disponível na net o audiolivro do Arremedos de um dado viciado e os livros pro kindle: Arremedos de um dado viciado e Sumo de ranço.

Renata

“Conversamos” com Renata Oliveira (neta de DORA), ex-moradora do bairro do Itaim [ extremo leste de São Paulo ], que usa e abusa de suas poesias no dia a dia da cidade com dimensões superlativas.

Foto: Antonio Miotto

Foto: Antonio Miotto

Balança meus cabelos
Refresca meu cheiro
Bala roubada no beijo
Bálsamo sobre meus medos
Beleza que bane minha tristeza
É você!
Que fala a língua dos meus ouvidos
que faz minar amor
Dos meus dias amargurados
Do pior dia
Só você mesmo
Extrai alegria
Bálsamo da minha vida
Desamarra as cordas do meu peito
E faz brotar notas doces
Num tom assim
Como o da tua voz
Dizendo pra mim.. tranquilo
Bálsamo lindo
Enfeita meu dia com o teu riso
Balança toda minha vida
Com um cheiro de não me deixa…
Que não me deixa
E fica.

LU’Z Ribeiro

É Lu’z, do início ao todo. A poetisa paulista LU'Z RIBEIRO, poetisa com seus 25 anos e moradora do extremo sul da cidade e autora do livro de poesias Eterno Contínuo. Foto: Antonio Miotto

É Lu’z, do início ao todo. A poetisa paulista LU’Z RIBEIRO,  com seus 25 anos e moradora do extremo sul da cidade e autora do livro de poesias Eterno Contínuo. Foto: Antonio Miotto

Desta Manhã – por Lu’z Ribeiro

Nasceu na Luz um carinho, 

bairros antes surgiu um olhar.

Conheci a Cracolândia e vi que ali nada há,

Praça Júlio Prestes e eu prestes a duvidar,

de um querer de outras datas.

A cidade me viu como prova o universo me cedeu à lua, 

que me seguiu e me atingiu a alma. 

Eu estava cheia de luz, 

tão tão tão que se fez

tum tum tum. 

Suspeitei, que todos ouviam essa batida 

estalei os dedos pra disfarçar. 

Passos trôpegos me fizeram brincar com o chão 

(não me pega, não me pega não).

Meu andar acelerado inibiu o [seu] só vislumbrar.

Olhar atento e vago.

meu peito cheio… De ar?

Eu tive asas ontem, inúteis 

eu queria ser parada e sentir a brisa fria.

Curiosidades, curiosas e sabidas.

A inocência se fez, eu vi bonecos nas nuvens, 

essas que nem se faziam.

Eu me fiz feliz por esquecer, 

mas durou só até o metrô onde desconhecidos se (des)conhecem.

Eu queria falar, sorrir e dançar, 

mas temendo o novo, fiz silêncio.

Já em casa as cores da parede geraram cobrança:

– preciso de um herói pra dormir!

Lembrei-me de Pandora, 

ainda há esperança!

Luz Ribeiro Lança livro

Insônia (ou é apenas poesia, amor…)

“(…) A liberdade é uma dura conquista: conquista da matéria que resiste sempre, conquista de técnicas que mudam sem parar, conquista dos nossos pares para o que fazemos, conquista do sistema ou da rede do qual participamos, e assim por diante. A frase da Clarice, “liberdade é pouco o que eu desejo ainda não tem nome” já deixa isso claro. É como se ela tivesse dizendo: a liberdade é sempre relativa, mas o desejo de absoluto – para o qual não tenho nome – é, essa sim, a mais pura liberdade.”
(André Parente)

liberdade

Pintura da série “Clichês Azuis” de Raquel Stanick

Sem lógica. Ou palavras. Copos sujos, a garrafa vazia, o cinzeiro cheio e o livro aberto na última poesia antes do deitar é que ainda gritam seu nome.

Penso enquanto: quero mesmo pertencer ao tipo de gente que consegue todo dia fazer café sem se queimar, sair de casa na hora certa, deixar tudo no devido lugar. Pertencer ao tipo de gente que consegue deitar na mesma cama sem suspirar, mas olho o relógio que continua tiquetaqueando: não vai passar, não vai passar, não vai passar.

Resolvo lavar louça ao invés. Porque “seja útil, se ocupe com isso e aquilo” grita aquela. Mais. Olha, que boa menina, agora ele vai te amar. Pronto, acabou a lição de casa, ele vai lhe querer. Espia, não tem um prato na pia, agora ele tem que ceder.

Lembro. Da língua na minha e de palavras que não se ausentam das outras. Como desejo e gozo, naturezas mortas evocando de substantivos abstratos a nomes próprios, adjetivos e verbos para registro das ações e paixões.

Relembro. Que eu amo de verdade é os jeans que uso desde que. São os mesmos daquela vez, me convenço e os arranco. Pensamentos e certezas. Qualquer coisa que não seja.

Azul.

liberdade

Pintura da série “Clichês Azuis” de Raquel Stanick

Passo a procurar correspondências, disfarces na língua-mãe do que é do desejo e da vontade. Palavras. Em papel listrado e prisioneiro recito mais uma maldita: “escrevo sobre ninguém!”. Mas falo querendo um pouco mais. Novamente. Entrelinhas transbordam, além.

Volto a pintar.

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Pintura da série “Clichês Azuis” de Raquel Stanick

Tarsila

Tarsila [ Mercer de Souza] com seus vinte e poucos anos é moradora da cidade de São Paulo/SP [bairro de pinheiros/zona oeste da cidade].

Tarsila [ Mercer de Souza] com seus vinte e poucos anos é moradora da cidade de São Paulo/SP [bairro de pinheiros/zona oeste da cidade].

Tarsila, é uma pessoa que está se esforçando em fazer o que gosta. Escrever é uma delas. Gosta também de outras coisas, como dançar e conversar com árvores.

Tarsila Mercer de Souza. São Paulo, 21/08/2013. foto: Antonio Miotto.

Menstruação

O sangue escuro sobre a pele morena

atesta: é tempo. os ‘quero-queros’ em revoada

fogem, sob o som ardido da dor.

A testa, deitada sobre os joelhos:

sem tempo. Os segundos são espessos.

Os períodos são concretos, a tristeza é agridoce

e física. Na própria lama ela se refaz;

o fluxo do vinho o refluxo dissolve,

cospe sapos e digere leões. Serpentes

escorrem pelas pernas bambas, a beijar os pés

plantados sobre suas próprias terras santas.

….

Sua poesia é uma forma de exercitar e compartilhar um pouco de inspiração.

Você poderá encontrar a Tarsila no facebook.

Tarsila Mercer de Souza. São Paulo, 21/08/2013. foto: Antonio Miotto.

-.-.-.-.-.-

recado da Tarsila

gostaria que você me desse crédito. Porque eu sou vaidosa, sabe? Sei que tenho que repensar isso e tal. Enfim, eu sei como a internet é, e não vou te processar se você usar um texto meu sem os devidos créditos. Pra falar a verdade eu acho que vou ficar bem feliz de ver os meus textos rodando por aí.

Se você mexer no meu texto, eu gostaria que você assumisse a autoria da mudança. É muito legal quando uma ideia nossa cai no mundo,  com o nosso nome ou não. Mas é ruim quando alguém coloca palavras na nossa boca.  Uma sugestão é falar que você se inspirou no meu texto, por exemplo.

Eu estou fazendo isso porque não acredito em copyright. Se alguém puder aprender algo com o que escrevo, melhor. Se alguém conseguir produzir algo legal mais facilmente com o que escrevo, melhor. Acho até que são objetivos bem ambiciosos de se alcançar. Além do quê, não tem nenhuma grande empresa por trás de mim, e eu atualmente não ganho pelos meus textos (embora eu gostaria de aprender a fazê-lo).

.-..-.-.-.-.-.-.

Fora que eu acredito no livre compartilhamento da inspiração. Vou me achar uma pessoa de imensa sorte se algum dos textos aqui inspirar alguém, e me sentiria uma pessoa horrível se eu tivesse que restringir meus textos em vez de simplesmente deixar as ideias fluirem, o mais livremente possivel. “Voa, passarinho, voa!” me dizia uma amiga minha. Então voa, textinho, voa.

Dora

Dora [Doralice], aos 92 moradora da cidade de Bananal/SP. Professora aposentada e ainda mantém seus escritos do seu cotidiano.

Dora [Doralice], aos 92 moradora da cidade de Bananal/SP. Professora aposentada e ainda mantém seus escritos do seu cotidiano.

Leia abaixo o poema que escreveu em 2011

Um rio que fala

 Ele vem de mansinho, não se sabe de onde, nem para onde vai.

Quando o sol nasce, é brilhante, parecendo mil estrelinhas douradas piscando, piscando, distribuindo calor e alegria.

Vai indo talvez com receio de perturbar o silêncio da mata que quase sempre está ao seu lado.

Bendito seja Deus que nos concedeu a graça de poder admirar essa natureza tão bela!

Os passarinhos cantam ao seu lado no decorrer do caminhar lento e sereno, muito suave mesmo.

E à noite?

Então tudo se transforma e ele fala, canta, grita, talvez pelo negror do mundo.

Crianças sorrindo ou chorando vão se banhar, ali jovens sedentos de amor suspiram, desesperados animais urram.

E nós, em nossos sonhos, somos perturbados: Meus Deus, esse rio é louco, louco de correr só sem saber onde vai , louco de nunca parar.

Parece que o arco-íris se escondeu dentro dele para ir colorindo-o para o mundo ver quando acordar.

E de manhã ele se cala.

O seu segredo é à noite.

E lá vai ele correndo, correndo…

Nossa vida também é como o rio, tudo passa… alegrias, tristezas e fica a doce felicidade de viver.

Dora, em setembro/2011

Dora

rio Bracuí [ nasce na cidade de Bananal]- O nome vem do tupi-guarani ybyrá-ku’i “farinha de pau”, “serragem”.

Dora

rio Bracuí [ nasce na cidade de Bananal]- O nome vem do tupi-guarani ybyrá-ku’i “farinha de pau”, “serragem”.

Dora

 

 

 

Poesia e Rap contra a menoridade penal

Por Antonio Miotto*, Biscate Convidado

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Volta e meia a discussão da redução da maioridade penal aparece como a solução para a violência. Mais do que uma solução mágica que não existe, essa discussão traz em si o preconceito social e o racismo estruturais da nossa sociedade embutidos. Recomendamos um excelente texto publicado ano passado no Blogueiras Feministas. Lá, diz a jornalista Cecilia Olliveira:

De 60 milhões de crianças e adolescentes, 60 mil cometem algum tipo de delito, que pode ser desde um furto de um vidro de xampu a um homicídio. Ou seja: 0,1%! O maior número de crimes cometidos é em relação ao patrimônio. No país há NO TOTAL, 1600 homicidas.
Redução da maioridade penal não faz nenhum sentido. É apenas mais uma vertente do “vamos tirar o sofá da sala”. Em média, para cada dez mil adolescentes, entre 12 e 17 anos, há 8,8 cumprindo medida de privação e restrição de liberdade, o que representa 0,09% deste universo. Ou seja, 0,9% do total de adolescentes do país comete delitos e as pessoas querem alterar a vida de 99,1% deles.

Até o ministro da Justiça reconhece que não é solução. José Eduardo Cardozo disse nessa segunda-feira passada, 13 de maio, que reduzir a maioridade penal é “inconstitucional” e só poderia ser feito com uma nova Constituição. Disse ainda que somente mudar a lei “não resolve” o problema de segurança pública e apenas “maquia” a realidade.

E já que a discussão é cíclica e sentimos os Direitos Humanos e garantias individuais em risco nesse momento no país, se iniciou um movimento social para combater a ideia da redução da maioridade penal. Uma campanha está rolando há quase um mês para que rappers e poetas/poetisas gravem vídeos com rap ou rima de protesto sobre o tema. A essa campanha se somaram poetisas e rappers mulheres.

Carol Peixoto, poetiza de rua -- Foto Antonio Miotto

Carol Peixoto, poetiza de rua — Foto Antonio Miotto

Tati Botelho cantando seu rap -- Foto Antonio Miotto

Tati Botelho cantando seu rap — Foto Antonio Miotto

Rap da Luisa Valente:

Rap da Lurdes da Luz:

Rap da Tati Botelho:

E a poesia da Carol Peixoto:

Se você sabe fazer rap e ficou interessado em dar sua contribuição, faça sua rima. Os vídeos podem ser gravados com webcam ou celular, à capela — a ideia é focar na mensagem — e enviar para o email contramaioridadepenal@gmail.com

Redução da maioridade penal é assunto hoje também no Blogueiras Negras. Vai lá conferir o excelente texto da historiadora Letícia Maria, ela até “desenha” e apresenta uma lista de dez motivos para sermos contra a menoridade penal.

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Toni*Antonio Miotto (Toni) é um paulistano que há 47 anos transita quase que por toda a cidade, historiador por formação, e abraçado profissionalmente a uma lente como giz. Um atento observador social caminhando e pedalando na megacidade com uma câmera na mão, que acredita na integração do sujeito com o seu contexto social.

A Moça Feia da Ponte

Cora Coralina é goiana conhecida em muitos rincões do país. A sua poesia que retrata os costumes goianos de certa época, que desenha a cidade patrimônio, que enaltece os doces nos tachos nem sempre foi literatura de moça direita. Aliás, desconfio que Cora nunca foi o ue se convencionou chamar moça direita.

Escrever poesia é mister de homem. Pensar, sonhar, desejar, amar também são verbos que só os senhores masculinos podem conjugar. Quem disse? Muita gente disse, mas Coralina não ouviu. A moça feia da ponte só conseguiu escutar o que sua alma lhe dizia: não se subalterne, seja feliz.

Ela foi Aninha e Cora. Ana de batismo, Cora de guerra. Aninha estava sob o jugo do pai e da sociedade conservadora vilaboense. Cora publicava poemas em jornais e montava seu próprio. Foi Cora quem fugiu com o homem divorciado da cidade. E depois voltou para ser aclamada a “maior poetisa de Goiás”.

Rimando as dores de uma sociedade hierarquizada, em que as mulheres estavam invisíveis debaixo de tantos panos e trancadas em suas casas; Ana ou Cora, ou ambas, sabia que não era daquele tempo.

Alguém me retrucou.

Você nasceria sempre

antes do seu tempo.

Não entendi e disse Amém”.

Uma mulher que ousou dizer não e sim, tudo ao mesmo tempo. Amou, fez doce e poesia e encantou o poeta Drummond:

“Minha querida amiga Cora Coralina Seu “Vintém de Cobre” é, para mim, moeda de ouro, e de um ouro que não sofre as oscilações do mercado. É poesia das mais diretas e comunicativas que já tenho lido e amado. Que riqueza de experiência humana, que sensibilidade especial e que lirismo identificado com as fontes da vida! Aninha hoje não nos pertence. É patrimônio de nós todos, que nascemos no Brasil e amamos a poesia …”

Vinte e sete anos desde que Cora não percorre mais os becos de Goiás. Mas, ainda hoje, é possível encontrar quem a trate como uma pecadora.  Biscatagem não tem época, assim como os julgamentos morais e o discurso conservador sobre as mulheres que se desejam livres. Quem não (re)conhece sua poesia, se limita a perpetuar um machismo rançoso que quer fazer de sua liberdade algo de que se envergonhar.

A poesia de Cora Coralina é de orgulhar os brasileiros e brasileiras, revelando o que há de mais profundo nas relações pessoais no interior desse país.  Além disso, me orgulho de ver em Cora uma biscate em seu tempo.

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* Lis Lemos é nascida no cerrado, escolheu viver perto do mar. De múltiplas palavras: jornalista, feminista, mestranda, mas nada disso é importante. O que importa mesmo é a paixão por pamonha à moda, torresmo e cerveja. Ah, e seu amor incondicional pelas pessoas. Todas elas. — A Lis escreve sexta-feira sim, sexta-feira não aqui no BiscateSC.

Fumar sem tragar, nem pensar!

* Não, isso não é uma apologia ao fumo. Mas ao aspirar profundamente a vida.

No dia seguinte, bem no dia seguinte ou alguns dias depois, tanto faz, a ordem não importa, é sempre uma cronologia acelerada de quem tem muito, a gente manda para o outro uma piração qualquer. Os dedos coçam, as unhas se agitam, a tela do computador brilha, ah, a tela brilhante e os quadradinhos em branco, e a gente escreve algo sobre estar do avesso, sobre sentir as águas fartas, sobre amor de escamas ou sobre estar nua no gelo do ártico, qualquer intensidade assim, daquelas bem biscateiras, de quem mergulha no rio que corre.

Coisas assim que saem meio sem querer, vomitadas lá das entranhas, vômito bom e quente de quem comeu muito até doer, degustou banquetes cheios de prazeres, de boca aberta e dentes afiados, com a língua desperta sentindo todos os sabores.

A coisa sai assim, viva na tela, e quando a gente percebe já apertou o “enviar”, botão maldito que não tem volta, aquele botão que não retrocede, que vai e não volta nunca mais, malditas eras tecnológicas sem correio – porque a gente já foi capaz de perseguir a rota dos carteiros para impedir o destino da carta enviada, acredite, mas no fim das contas. As letras saem com seus destinos traçados, e ainda somos bobas o suficiente para acreditar no destino, a gente confia com alguma lucidez e uma fé teimosa, sim, porque sem confiança a gente morreria mais um bocado sem nascer por completo.

Mas é bom o impulso e o botão que não volta porque a gente manda. Manda e no minuto seguinte…alerto: é possível se arrepender loucamente, arrancar os cabelos ou os cortar mal em frente ao espelho, fios e fios despedaçados sem qualquer lógica. Mas no fim do dia, ah! ainda conseguimos ficar um tanto felizes, apesar das possíveis madeixas picotadas, porque as falas foram, e seguiram o seu curso de rio. A gente olha com orgulho aquele avesso todo, aquele avesso tão verdadeiro de quem viu e fez, e relê duzentas vezes o conto, a prosa interminável escrita em itálico, o poema ou a histeria repleta de vida vermelha – aquela vida que pulsa por dentro e muita gente não têm coragem de colocar a mão porque ela é densa, ela se esparrama sem controle, ela é visco, ela é matéria-prima.

E que orgulho desaprumado desse avesso que é tão nosso, que é tão bonito e tão triste, e também feio de doer a vista, sim, a gente gosta dos feios da gente. E, de repente, pensamos com algum pesar em como adoraríamos receber uma piração dessas no meio do dia, receber letras tortas que nos contassem sobre águas fartas, gelo, entranhas, tesão desvairado, feiúra e ressaca, qualquer desvario desses que faz a gente revirar um bocado por dentro.

Mas parece que ninguém revira mais, só a gente, essa confraria biscateada que são nossos pares, essa gente nossa que revira e manda, que aperta o botão que não tem volta, que se suicida e mergulha para nunca mais, que roe o osso até doer, que vai lá e diz e conta para o outro sobre essa vida submersa, que tenta acordar o outro para o lado de dentro que pode ser partilhado. A gente se fode um bocado, é fato, mas a gente tenta.

E então esperamos ávidas por uma resposta pulsante, tá bom, a gente espera ávida por uma resposta qualquer, nem que seja um beijo xoxo, algo dizendo que não entendeu nada mas gostou da lembrança, quem sabe, algo dizendo que também lambeu um pouco as feridas, algo com um pouquinho de vermelho ou um tom mais bordô, talvez algo colorido, mas que nada. Passam-se semanas e nada aterriza, e quando você vê está bloqueada do facebook da criatura, excluída da rede de amigos, todos aqueles amigos sorridentes que falam coisas divertidas, que tecem comentários sobre roupas e cabelos ou convidam para festas de ver e ser visto, aquela rede de amigos que parecem de plástico, plástico-bolha que estoura quando recebe um avesso desconjuntado.

Não, eu não quero essa rede nem fazer parte dela, eu já tenho as minhas biscates nuas e fumantes que nem eu, e graças aos astros elas se proliferam no escuro, aquelas de verdade,  que me acolhem na madrugada de ataque de riso, bêbada às três da manhã chorando de soluçar, ou quando o vazio se ergue enorme pelos dias, é lá que eu moro e eu não quero outro lugar.

Queria apenas sentir esse você-e-eu ou qualquer coisa pulsante como aquelas noites de sexo, estender o toque por baixo da pele, conhecer o escondido que faz todo o sentido, era isso. As pessoas têm medo da morte e a gente vicia no abismo, no outro nu de ponta cabeça, nesse sentimento de adentrar o que não se mostra – e isso é uma burrice sem fim, pode-se dizer, mas é tão bom que a gente vicia.

Olha, é importante dizer, porque a gente parece querer engolir tudo, mas a gente sempre devolve o outro para si, a gente devolve o outro inteiro, talvez um pouco desconjuntado e revirado, mas a gente devolve, porque só assim podemos ser inteiras. A gente quer, é claro que a gente quer, mas a gente quer a coisa solta, quer andar fluída, a gente chega penetra toca o fundo e devolve, garanto, devolver é o nosso prêmio de conquista, é o nosso porto de chegada.

A gente só quer viver a liberdade de qualquer coisa que não tem nome. As pessoas desconfiam, nos olham arregaladas e alarmadas, mas pode acreditar, a gente não faz mal nenhum, desses de arrepiar ou ferir ou arrancar cascas. Ademais, é bom que se diga, a gente não quer café da manhã de comercial de margarina, faz tempo que a gente perdeu os modelos, é, faz tempo, a gente não quer nada que tenha esse lastro, a gente quer a vida-vivida pelo que vem de dentro, com essa liberdade toda que não cabe em lugar nenhum. A gente só quer amar assim dilaceradamente que é como tem graça.

É, a gente só quer gozar profundamente o momento em que se respira, fumar e tragar bem fundo até sair fumaça pelo nariz, até engasgar de tanto tossir e acordar com a garganta arranhada, com a cara amassada no espelho e duas olheiras fundas que parecem azeitonas pretas. É só, é essa profundeza que não se revela, é esse último minuto que não volta, é essa descoberta de si que vicia e nunca mais se pode voltar para o conforto do mundo dos shoppings e mulheres de papel dado, nunca mais se pode pegar o caminho de volta e fumar sem tragar, tocar o outro sem sentir o suor e o cheiro de vem de dentro, sem percorrer desesperadamente o caminho secreto.

É que às vezes a gente acerta, acredita em mim, a gente acerta e conhece o que é a plenitude de ser quem se é, e qualquer plenitude de se dividir o que não se divide. E é por isso que a gente arrisca, é por isso que a gente se arrebenta e continua e grita a plenos pulmões:

– fumar sem tragar, nem pensar!

WTC Babel S.A. , I

GUEST POST por Leo Gonçalves*

americanos cantam o corpo elétrico

e quem cantará o corpo eletrônico bytes bits pixels?

qual ciborgue tomará a palavra no terceiro milênio?

já existem as máquinas de pensar

e quem fabricará a máquina de fazer poemas?

eu canto o corpo orgânico com ou sem órgãos

eu canto as palavras velhas

não digo nada de novo

minhas palavras são mais velhas que o fogo

a língua que se falava antes de babel

o que já foi dito um milhão de vezes por todos

o que já foi dito por você

o que já foi dito por ele por ela por mim

palavras de um autômato rimas casuais

verdades múltiplas repetidas pela milionésima vez

a você a ele a ela a mim

eu canto os corpos desnudos e suados

uns sobre os outros ávidos movendo-se como um

corpo sem órgãos ou um corpo com órgãos demais

a perda do pudor

o êxtase público

sou o porta voz de todos os orgasmos

orgasmos de todas as espécies orgasmos das

esposas mudas em seu medo de amar

orgasmos dos punheteiros orgasmos das crianças

dos garotinhos de dez anos e das menininhas

virgens dos prisioneiros dos sádicos dos loucos

as ejaculações precoces as ejaculações pós-coito

os gritos pagos das prostitutas nos filmes pornográficos

orgasmos pretensiosos

que almejam alcançar o céu

numa deliciosa confusão de línguas

wtc babel orgasmos múltiplos exibidos na tv

o maior show da terra

cena: adolescente filho único nu se masturba loucamente com o pau na mão e um dedo no cu é flagrado pela mãe que grita me segura qu’eu vou dar um troço desmaio porra voando em direção à parede do banheiro

no fundo no fundo todos querem alcançar o céu

nada de asas nada de propulsão

concreto armado até os dentes

fundo falso na paixão bíblica fabricado em nagasaki por um indiano

islamita especializado em segredos de fechadura

eu canto o fundo falso

eu sou o fundo falso

eu sou a fechadura

e a chave do mistério divino

eu sou o mistério divino

por isso canto o corpo histérico

o rebolado das groupies desvairadas

enlouquecidas pela minha saliva

que espalho sobre o chão do terreiro

e inauguro com elas

o meu próprio mistério

pois é mister cantar

.

* Leo Gonçalves é mineiro, da boa safra de 75, poeta e tradutor. Autor de WTC Babel S. A. (Barbárie, 2008) e das infimidades (in vento, 2004). Para as biscates, tão importante quanto isso: foi finalista dos #BonitoesdaTL, versão 2011, arranha o violão com carinho e tem uma coleção de palavras boas que sabem fazer parar ou passar o tempo em conversas que adormecem a lua. Encontra-se o poeta aqui e ali e a esquina mais certa é essa: Salamalandro.

Em Como Dar

Disseram que ela não podia dar.
Não era pra dar.
Coisa horrível isso de “dar”.
Que coisa passiva, vulgar
esse negócio de “dar”.

Disseram que ela não podia amar.
Não era pra amar.
Coisa mais besta essa de “amar”.
Que coisa mais antiga, familiar
Esse negócio de amar.

Mas ela dava e sorria
Amava e fazia
Quando era só fantasia
Gozo jorrar
Pelos cantos das bocas
Virilhas roucas
Lamber e molhar

Ela era contrária
revolucionária
A biscate vinha provar
Que coisa mais passiva,
Antiga,
Vulgar

Esse negócio de incomodar.

Kiki de Montparnasse, uma biscate que dava e amava. (do fanpix.net)

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