Aborto

Por Marjorie Rodrigues*, Biscate Convidada

aborto

Uma das coisas que mais me envergonham no Brasil é a questão dos direitos reprodutivos. Tenho vontade de cavar um buraco e me esconder para sempre a cada vez que vejo em uma discussão sobre a legalização do aborto — algo que já foi conquistado há tempos em uma série de países (lembremos que o procedimento é legalizado em mais de 70% do mundo), mas que no Brasil ainda é um tabu gigante. O que me envergonha especificamente é que o debate não pode bem ser chamado de debate, dado que a discussão está tomada por uma desinformação generalizada. Muitas pessoas não sabem como é o procedimento, como funciona, o que aconteceu nos países em que o aborto foi legalizado; não sabem sequer a diferença entre um embrião, um feto e uma criança. Falam como se os três fossem a mesma coisa. Essa desinformação é alimentada pela igreja, pela mídia e pelo próprio Estado, dominado por grupos conservadores. E isso não é por acaso: um debate em que as pessoas não sabem do que estão falando não pode ser outra coisa além de raso e circular. Entre na caixa de comentários de qualquer notícia relacionada a aborto e repare que a maioria das postagens não estará discutindo a questão em termos de fatos, dados, estatísticas, problemas e soluções, enfim, argumentos concretos. Pelo contrário: a coisa fica no plano raso da fofoquinha di cumadi, da pedra na Geni. Em vez de reconhecer que o aborto é amplamente praticado de forma ilegal no país (resultando na morte de mulheres ou sequelas seríssimas) e que portanto temos uma lei que não reflete a realidade e gera um problema de saúde pública, as pessoas preferem apenas dizer “não pode porque é errado” e ponto final. Assim, defendem que a lei fique como está. Mas se a lei como está não impede o aborto de ser uma prática amplamente disseminada, e todo mundo sabe disso (senão sequer estaríamos tendo tal discussão), apenas dizer “não pode, tá errado” é como fechar os olhos, tapar os ouvidos e cantar “lalalalá”. E o aborto é “errado” por quê? Aí vem a conversa de comadre. Começa-se um julgamento (ou linchamento mesmo) de uma mulher imaginária que engravidou de forma indesejada. “Por que não se protegeu?”, “Abre as pernas sem responsabilidade e depois quer sair matando?”, “Se não quer, dá pra adoção” ou o que eu acho o pior de todos: “mas maternidade é uma coisa linda, eu sou mãe e super feliz, toda mulher ama ser mãe no fim das contas, como essa monstra pode não querer algo tão belo?”. Repare que não tem nada de racional nesse tipo de argumento. Todos eles são passionais, baseados no julgamento da moral ou índole da mulher que engravidou, e consideram forçá-la a levar a gravidez adiante como uma espécie de punição pela sua suposta falta de responsabilidade.

A pessoa que comenta essas coisas no fundo quer pagar de santo ou a santa, de bonzão ou fodona que sempre faz tudo com responsabilidade, que nunca deu uma escorregada, nunca deu uma trepadinha sem preservativo. Aham, Claudia, senta lá. A discussão sobre o aborto quase sempre descamba para uma sessão coletiva de masturbação de egos: “EU nunca tive uma gravidez indesejada”, “EU nunca faria”, “EU não sou assassino de criancinhas” – portanto, “EU sou melhor do que essas biscates”. Aí é que está: a biscatagem, minha gente, é o cerne da questão. Nego tenta disfarçar dizendo que é preocupação com a vida, com a criança, com deus, quando na verdade o buraco é mais embaixo. Aliás, o problema é o buraco que está lá embaixo: a sexualidade feminina deve ser restringida, reprimida, e se essa repressão falha, a mulher tem de ser punida. Quando a biscate (sempre lembrando que biscates somos todas, afinal o que é promiscuidade? Quem define o que é sexo de menos ou demais?) engravida, o conservador se regozija, porque a gravidez e o bebê restringirão a biscatice dela, que deverá então se ocupar da criança. Como assim essa biscate transa livremente, e depois aborta e pode viver sua vida como se nada tivesse acontecido? Nãããão, ela precisa ser punida por ser uma vadia! (Nevermind que ninguém faz filho sozinho, e o homem quase nunca é mencionado nesse papinho de responsabilidade…)

Recentemente, o horrendo estatuto do nascituro levantou a bola do aborto em caso de estupro. Observar as discussões nos portais de notícias sobre esse tema (sim, eu tenho um bom estômago) é a maior indicação de como a biscatagem é o cerne da questão do aborto. De modo geral, as pessoas são contra o estatuto e sua tentativa de restringir o já adquirido direito de abortar em caso de estupro. A maioria dos comentários acha absurdo uma mulher ser forçada a manter a gravidez nesse caso. Afinal, ela não escolheu isso, foi uma violência. Mas veja só: no caso da mulher que engravida em uma relação consensual, o argumento é “mas é uma vida, é errado matar criancinha, a criança não tem ‘culpa’ da irresponsabilidade de quem a gerou”. Ué, um embrião gerado por estupro também não é uma vida? Também não seria errado matá-la? O embrião fruto de estupro também não tem ‘culpa’ do estupro. Por que o fetinho de estupro pode matar e o de relação consensual não pode? BUSTED: o problema não é a vida em potencial do fetinho, mas se a mulher quis ou não quis transar. Em português claro: se ela é ou não biscate.

Somos um povo que acha que transar é errado, sujo, pecaminoso — e mais errado ainda para a mulher. Em pleno 2013, sexo é tabu no Brasil, por mais que falemos dele o tempo todo na mídia, tenhamos carnaval, funk, piada de duplo sentido no Zorra Total e dança na boquinha da garrafa. Aliás, todas essas coisas que eu mencionei são sintomáticas: somos um povo “hipersexualizado” porque o sexo em si é um fetiche. Não o encaramos como algo natural da vida. Sexo é um incômodo, é o elefante branco no meio da sala – aí, ou você tenta escondê-lo ou aponta o dedo na cara de quem faz, ou faz referência a ele o tempo todo. Só nunca fica de boa com a existência do elefante. Não é à toa que todos os nossos palavrões são de cunho sexual. Pode reparar. Enquanto outros povos se ofendem de diversas outras maneiras, a gente quando quer ofender de verdade diz que o outro ou a mãe do outro faz sexo. Porque, secretamente, a gente ainda acha que sexo é algo que prejudica, é reprovável.

Transar é tão errado que nego não tá nem aí se a gravidez indesejada veio porque o método contraceptivo falhou. Não tá nem aí se a mulher não tem condições psicológicas, financeiras, emocionais de criar filho naquele momento. Não tá nem aí se ela for casada e se descuidou um tiquim do contraceptivo porque, né, é casada (situação da maioria dos abortos clandestinos no Brasil). Nada disso importa. Não se pode recusar a “punição” que deus mandou pela fornicação. Tem gente que chega ao cúmulo de dizer “se não quer, dá pra adoção”. Como se isso fosse uma coisa muito fácil de fazer, nada traumatizante. Como se orfanatos fossem lugares super bacanas e todo mundo fosse adotado rapidinho. Mesmo quando a criança não é dada pra adoção, nego que se diz “pró-vida” não tá nem aí se ela vai crescer em um lar disfuncional ou passando necessidade. De novo: o problema não é a criança, é a consensualidade do sexo que a gera.

direito ao aborto

Como promover um debate saudável sobre aborto, então? Acredito que o primeiro e mais importante passo é eliminar o tabu do sexo. Sem isso, não tem como sequer começar a ter um debate legítimo. Enquanto sexo for considerado algo errado, tudo que for relacionado a ele terá esse clima de inquisição. Abracemos, portanto, a nossa biscatice. A importância da Marcha das Vadias, por exemplo, é salutar. Desculpa, mas se você é do tipo que diz “concordo com a causa, mas me choca esse termo vadia, é desrespeitoso, não quero usá-lo”, só lamento, você não entendeu nada. Abrace o elefante, conviva com o elefante. Até que ele seja reconhecido como parte da sala. Enquanto as pessoas estiverem preocupadas demais com o “pecado da carne”, preocupadas demais com o elefante, não conseguirão olhar para os demais móveis. Não conseguirão olhar para os fatos concretos a ser debatidos.

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marjorie*Marjorie Rodrigues é biscate, jornalista e mestre em estudos de gênero pela Central European University e pela Utrecht University.

Qual a relevância de mostrar os peitos num protesto?

Por Robson Sobral*

A liberdade guiando o povo, Eugène Delacroix

É uma pergunta recorrente nesses dias após Marcha das Vadias e após Rio+20. Uma pergunta recorrente e vinda da boca de mulheres ditas modernas, independentes, bem resolvidas. E cá estou eu triste e desapontado com elas, porque ouvir isso da boca de senhoras criadas para serem donas de casa é algo muito mais simples para meus preconceitos aceitarem. E aí que preconceito se mostra, de novo, um obstáculo.

Primeiro, um tantinho de história.

Não, as feministas do anos sessenta não tiraram os sutiãs e queimaram em protesto. Elas levaram sutiãs, sapatos e artigos de beleza e jogaram no lixo no concurso de Miss America. Quiseram pôr fogo, mas foram impedidas. A mídia, essa danadinha, escolheu chamar a ocasião de bra-burning e o fogo que não pegou lá pegou em vários outros protestos feministas pelo mundo. Ainda assim, sem, até onde sei, peitos de fora. Perfeito, não? Um exemplo de protestos sem “desviar do assunto” para os peitos de quem protesta, sem se rebaixar.

Nessa história de desviar do assunto, o exemplo mais usado é o do FEMEN, principalmente por quem não associa o nome aos peitos. FEMEN é o grupo de ativistas ucranianas que geralmente usa o topless como ferramenta. “Ninguém sabe pelo que elas protestam, mas vão lá ver os peitos”, diz a menina moderna e descolada (e algumas mulheres mais adultas também). Da última vez em que li a respeito, protestavam contra o preço do gás russo vendido para a Ucrânia. Confesso que o que me chamou atenção para ler a respeito foram os peitos. Invalidou seu protesto? Primeiro, de que a minha opinião vale em relação ao gás na Ucrânia? Eu nem sei achar com precisão a Ucrânia no mapa. Está ali, naquele quebra-cabeça chamado um dia de URSS, em algum lugar. Mas elas falaram e falam cada vez mais e os seus peitos de fora fizeram-nas serem ouvidas. Não ligo para onde será sediada a EuroCopa, mas, por causa de seus protestos, agora sei o quão sério é o problema do turismo sexual na Ucrânia. Novamente, minha opinião não vale de nada lá, mas vale sobre o que acontece aqui, ali na Paulista, na Rio+20, na rua e da minha porta pra dentro: posso pensar sobre o assunto.

Ó, meu Deus! Isso é tão apelativo, Guillem March

No que tange a se rebaixar, a p ergunta óbvia é: segundo o juízo de valor de quem? Dos homens? Da moda? Do opressor? Das mulheres? Só porque o homens gostam de vê-las despidas, elas não podem se despir? Qual a liberdade em deixar de fazer o que se gosta só porque quem te oprime também gosta? Por que não decidir o seu próprio juízo de valor? Por que não ter direito de ser recatada ou periguete? Freira ou profissional do sexo? Elas só querem ser o que quiserem, inclusive ferramenta de protesto. A postura delas é criticada, sim, até por pessoas inteligentes e a quem respeito, mas, independente da eficiência ou não da ferramenta, e eu a considero eficiente, visto estarmos aqui discutindo-a; quem somos nos para rebaixá-las por isso? Independente do protesto, temos o direito de avaliar alguém pelo que ela faz com seu corpo?

É agora que minha opinião vale: quando aceito cada um como livre para se valorizar como quiser. O valor de quem se deita com todos ou nenhum, de quem adora se sentir desejada só importa para si. Porque quando eu olho para uma mulher e me acho no direito de estimar quanto ela vale, sou eu a me rebaixar, a me mostrar incapaz de viver bem com a liberdade dela de fazer o que quiser de si; sou eu a me mostrar limitado e esquecer que apenas a minha vida está sob a regência do meu juízo de valor. O conceito fica mais óbvio quando pensamos na Marcha das Vadias, já que lá a reivindicação básica é a soberania sobre o próprio corpo, não apenas em relação ao aborto ou contra o estupro, mas pelo direito de usá-lo como quiser, até para protestar; pelo direito de se ver como quiser e não ser vítima disso; de se sentir satisfeita consigo mesma seja pelas suas próteses nos seios ou sua circunferência tatuada do lado da cabeça raspada; de mostrar seu corpo em nú artístico ou filme pornô.

Uma mulher já valeu tanto quanto era obediente ao marido, tanto quanto trazia de dote, quanto casava-se virgem ou por quantos divórcios não passou. Hoje, apesar de ainda haver quem a avalie por esse valores, geralmente uma mulher vale tanto quanto o uso que faz de seu corpo. Usá-lo é coisa de piranha, de quem não tem senso do ridículo nem se valoriza, de quem não tem capacidade para usar outra coisa. Nossas novas feministas querem que se dane a cotação, querem ser apenas mulheres. Para isso usam uma ideia que não é nova, lembremos das camisetas “100% preto”: mais do que se rebelar contra o opressor, seja ele o homem, a mídia ou a sociedade, tomam dele suas ferramentas. Tomam o significado de vadia, biscate ou o que for e desarmam quem as ofende com “no seu conceito ou no meu?” ou “sou, sim, mas por minha escolha”. Tomam de volta seus corpos, tão usados pelo opressor, para dizer o que o opressor não quer ouvir. Não importa qual a ferramenta, a ideia, o conceito usado contra elas, o tomam e se orgulham disso. É a coragem de quem responde ao opressor: isso é meu e quero de volta!

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Robson Sobral* não liga se sua esposa sai por aí vestida de biscate. Além disso, é designer profissional, ser humano amador e apreciador da mulher. O resto é consequência. Você pode conhecê-lo melhor no twitter @robsonsobral ou no seu site.

Ser biscate é ser polêmica

Ser biscate não só é ser polêmica como é estar constantemente no centro de alguma polêmica. A mais recente envolve o chocolate Bis, da Lacta. E não estou fazendo nenhuma propaganda gratuita, mas para explicar e entender o motivo da polêmica é preciso citá-lo.

Na estratégia de divulgação do referido chocolate em sua fan page no Facebook foi criado um álbum chamado #TiposDeBis e lá estão várias fotos bem divertidas com o chocolate fantasiado ou caracterizado com brincadeiras feitas a partir do nome do chocolate. Tem o “SamBISta“, “CuBISta“, “BISbilhoteiro“, “LoBISomen“, o espetacular “LiBISdinosa” e tinha (já foi retirada do álbum depois da polêmica) o “BIScate”.

Claro que não podemos ser chatas e perdermos o humor diante de tudo na vida, mas é certo que é nossa obrigação (não à toa tanta gente nos enviou o link da matéria da Cris Simon da Exame.Com) pelo menos nos posicionar diante dessas polêmicas, falsas ou reais. Afinal, pregamos o orgulho biscate, a inversão total do termo que é usado pejorativamente para desqualificar as mulheres, e as pessoas que curtem essa postura nossa e do BSC esperam por essa nossa tomada de posição. Então, voilá.

Não vou nem entrar no mérito da caracterização do chocolate como biscate com cabelo loiro liso, as argolas, a saia justa e a bolsa rosa porque não está definido em lugar nenhum que se vestir assim é ser biscate, e encaixotar esse perfil, esse jeito de vestir e esse cabelo no modelinho biscate já é um preconceito. Vou me ater ao chocolate, sua publicidade e, principalmente, à resposta oficial da Lacta.

Não sei se essas caracterizações são oficiais ou sugestões do fãs do chocolate, mas uma vez assumidas na fan page oficial do chocolate passam a fazer parte da estratégica publicitária do produto e da empresa. Um chocolate que se chama “bis” e que surgiu com a lógica do “é impossível comer um só” associado à mulher classificada como biscate não é nada muito diferente do entendimento machista e misógino da sociedade com relação às mulheres que não admitem ter sua sexualidade determinada por outros que não ela mesma — mesmo que conscientemente muitas dessas mulheres nem saibam disso, mas precisamos considerar sua atitude, o enfrentamento.

A resposta oficial da Lacta, que só veio depois de alguns comentários do tipo (reproduzidos na matéria da Exame): “Criativo, ousado, mas certeza não foi o marketing da lacta que criou“, “Tão estranho a Lacta fazendo isto“, “Invadiram o perfil do Bis, certeza” ou “Ainda bem que o Conar não chegou com força no facebook“. Infelizmente o Conar nada faria ou poderia fazer porque não há uma pessoa nominalmente ofendida e nem crime algum cometido. É apenas reprodução de preconceito. Mas isso, vamos combinar, a publicidade brasileira é campeã e diariamente vemos absurdos ainda maiores.

A resposta oficial, na íntegra: “A campanha de Bis no Facebook, entitulada “Tipos de Bis”, tem a intenção de ser irreverente e bem-humorada, alinhada com o público-alvo da marca, formado por jovens de 18 a 24 anos. Pedimos desculpas caso algum de nossos posts tenha soado ofensivo.” Sério, Lacta? Cê jura que classificar mulheres como biscate nessa velha e carcomida lógica de mulher “para comer” e mulher “direita” é irreverente e bem-humorado? O que mais me preocupa ainda é salientar a faixa etária do público-alvo como justificativa. Aí, depois vemos jovens com ideias mais velhas que nossos avós e ficamos nos perguntando em que ano ou século estamos… Não é pra menos.

Cabe a pergunta: Em que século estão os publicitários brasileiros? Dentro da lógica de venda e consumo até consigo entender que para “acessar” o senso comum “se fale” a linguagem do senso comum, mas isso não justifica reproduzir preconceito. É perfeitamente possível aliar a venda de produtos à venda de conceito de forma inteligente e sem precisar pagar atestado de racista, machista ou homofóbico. Falta a publicidade brasileira descobrir isso.

Por fim, comentando o que de fato achei complicado nisso tudo… A frase que acompanha a imagem destacada acima: “Taí um #TipoDeBis que você vê em toda parte… Se você viu uma hoje, COMPARTILHE!” — Oi? De fato biscate se vê em toda parte, mas não necessariamente caracterizada assim. Somos todas biscate, Lacta! Um exército de biscates que infelizmente não deixarão de consumir seus chocolates. Mas vai que um dia os brasileiros e brasileiras adquirem consciência como consumidores e cidadãos e começam a boicotar os produtos que se valem de propaganda ofensiva e/ou preconceituosa? Hein?!?

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