O tesão platônico

Por *Bia Cardoso, Biscate Convidada.

O popularesco colunista reaça que escreve em blogs com bic duas cores criticou uma recente charge da deliciosa Laerte Coutinho. Mas aqui vale a máxima: Laerte é nossa diva e nada nos faltará. E assim foi feito. Laerte declarou publicamente seu tesão platônico em relação ao colunista reaça. E quem aí nunca teve tesão platônico, né minha gente? Quem aí não guarda nos átomos do corpo aquele desejo de desnudar quem deveríamos desprezar, não é mesmo?

Sobre o Reinaldo Azevedo.
Acho que eu não devia dizer o que vou dizer, mas minha advogada opinou que não vai gerar ação na justiça. E minha analista deu força, pra botar pra fora senão somatiza e piora a situação das varizes.
Então lá vai – esse cara me dá um tesão desgraçado.
Não sei o que é – tá, ele não é um ogro -; se é o olhar decidido, o nariz, os lábios, não sei!
Nessas noites de frio que vem fazendo eu fico debaixo das cobertas e, como diria o Henfil, peco demais.
Vou acabar tendo que depilar a mão com cera espanhola.
Acho que eu tenho síndrome de Estocolmo platônica.

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Tesão é desejo. E muitas vezes inexplicável. Aquela sensação de simplesmente encontrar alguém capaz de acender algo diferente, gostoso, um requeijão cremoso a mais na vida. As vezes não dura muito, as vezes dura a vida toda, especialmente quando se é platônico, alimentado com carinho e pão de mel.

Porém, quando falamos de alguém que age e pensa de forma contrária ao que acreditamos, ao que temos como ideal e buscamos ser, surge sempre a dúvida: biscate com princípios ou não? Relevamos em favor do tesão? Esquecemos em favor da revolução? Aquecemos com mãos solitárias no calor do colchão? Infelizmente não há resposta fácil quando o assunto é desejo, tesão ou direito tributário. Todos temos nossas prioridades, sentimentos e taxas pra colocar na mesa. A melhor parte pode ser reconhecê-las. Assim como fez Laerte, também quero botar pra fora o que alimenta meus pensamentos mais proibidos…

foto_bia*Bia Cardoso é feminista e lambateira tropical.

Cansei…

Cansei…

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… do acolhimento do discurso conservador por uma maioria sem memória da história política mais recente, identificada com os piores delírios da direita ultraconservadora.

… das viúvas e viúvos do regime militar, que salivam em imaginar a ditadura de um moralizador Estado mínimo (mas máximo na arrecadação de impostos).

… da ausência de empatia, alteridade e compaixão pelo outro (Um pouco de tudo isso não cai mal não, sabe?).

… do cinismo de nossa classe média, encampando os ideais das elites, que por sua vez, têm verdadeiro asco da vida de classe média. Ou do pobre que vota nelas, nas elites.

… do eterno mimimi dessa gente que não consegue enxergar um palmo além da sua bolha de privilégios – geralmente sem margem de erro pra mais ou pra menos: homem branco, heterossexual, cristão e de classe média.

… do discurso esquizofrênico da “nova política” (eu vejo um museu de grandes novidades – Cazuza já cantava essa pedra).

… dos meios de comunicação que são empresas a serviço de interesses hegemônicos e que dão uma cobertura política tão parcial e escusa que chega a beirar o criminoso.

… de ouvir que o PT implantará a ditadura comunista e patrocinará, além de Cuba, toda a China e a Coréia do Norte (bem que podia começar patrocinando o comunismo aqui no Maranhão, rs).

… do ódio de classe manifestado na ojeriza aos programas sociais de transferência de renda como o Bolsa Família (porque a culpa da pobreza é do pobre, como ensina o capitalismo e a meritocracia, by the way).

… do racismo esboçado por nossa classe médica contra os médicos (negros) cubanos do programa Mais Médicos (essa gente parece empregada doméstica!).

… das defesas apaixonadas por um Estado cada vez mais militarizado, autoritário e genocida da população negra e pobre, através da redução da maioridade penal (bolsonaristas vão ao delírio!).

… do perigoso discurso moralizador em defesa da família, proferido pelos “homens e mulheres de bem”. Vocês estão falando de qual família mesmo? Famílias higienizadas, sem veado, sem sapatão, sem trans, apenas com mulheres que não abortam e cheia de homens honrados?

… do racismo geográfico contra os nordestinos (essa gente sem estudos que não trabalha e que é um obstáculo para o desenvolvimento do sul maravilha, não é mesmo?).

… do argumento que a alternância de poder é uma marca da democracia, logo, o PSDB teria supostamente todas as credenciais para melhorar a saúde da coisa pública brasileira (Oi? A racionalidade mandou lembranças…).

… do preconceito de gênero em aceitar uma mulher na presidência. Pior ainda pelo passado de esquerda e militância que essa mulher carrega na sua história de vida (porque sim, isso é um demérito pra muitos).

… da arrogância de um playboy desrespeitoso e corrupto (agressor de mulheres?) que se põe como arauto da exemplaridade e dos bons costumes.

Enfim, cansei dos argumentos que não conseguem enxergar que o buraco é mais embaixo. Muito mais.

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Notinha de Rodapé: No BiscateSC todo mundo é livre pra votar ou não em quem quiser…espia aqui.

Da inconveniência de se fazer ouvir

Por Niara de Oliveira

Costumo dizer que nasci comunista, me tornei feminista e me formei jornalista. E o meu jornalismo está a serviço da minha sobrevivência — é preciso — e está a serviço principalmente da comunicação contra-hegemônica e da luta por um mundo melhor. Não tenho nenhuma ilusão de que esse mundo possa ser reformado, será necessário botar esse abaixo e refazê-lo estruturado em outras bases e parâmetros. Tenho em mim indignação suficiente para isso, principalmente para essa primeira tarefa. A construção de um mundo outro, novo, eu sonho seja coletiva, todos aprendendo juntos, com amor e respeito. Ah, as utopias…que me acompanham há muito tempo.

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eu, em 1995

Era primavera de 1995, se não me falha a memória. Eu ainda estava no PT, e tínhamos formado em Pelotas o Coletivo Socialista — que só não era um racha da Democracia Socialista porque essa tinha se desarticulado na cidade, mas todos (com uma ou duas exceções) já tínhamos ‘sido’ DS em algum momento. Esse coletivo, tendência municipal, era radical, excelente e daquele tempo guardo lembranças lindas da militância. Nossas reuniões eram como deveria ser toda reunião de um organismo de esquerda: aprovada a pauta, análise de conjuntura e os demais temas na segunda parte da reunião. Muitas dessas reuniões terminavam em jantares divertidíssimos — sim, troskos se divertem juntos. Mas, nem tudo estava bem. No coletivo, tinha apenas três mulheres que iam em todas as reuniões, pelo menos no início. Eu, Andrea e Sônia. Intervínhamos pouco, e feminismo e questões de gênero nunca eram pauta. E isso começou a me incomodar.

Um dia, conversei com a Andrea e nos articulamos para dizer isso pro CS, para expor que estávamos nos sentindo oprimidas pelo espaço, pela lógica da reunião e por nossa opressão específica nunca estar pautada. Porque espaços com mais homens que mulheres na esquerda inibem/reprimem “naturalmente” as mulheres de falarem, de se exporem. Quem já militou na esquerda sabe como é isso. Escrevemos um texto, fizemos cópia e distribuímos quando pedimos a palavra. Falei. Constrangida. Tremia. Eu, que já tinha feito comício, comandado assembleias de estudantes aos 16 anos, estava insegura de falar diante de pessoas que conhecia e com quem convivia há anos… Como é difícil falar da própria opressão diante do opressor, do ser que ali detém os privilégios e o protagonismo da cena! Foi difícil, mas disse. Dissemos. Abriu a rodada de intervenções sobre o tema e a primeira fala foi de um companheiro (hoje ex, felizmente) com quem militava desde os tempos de movimento secundarista, e que já tinha sido candidato a vereador e falado linda e encantadoramente das demandas das mulheres jovens. Ele pega o nosso texto impresso com um notável desprezo e diz em resumo que estávamos “carregando nas tintas” — nunca vou esquecer — e deu a entender que estávamos perdendo tempo com bobagens enquanto tinha uma luta maior e mais séria a ser enfrentada. Me senti violentada. E, mulher, descompensada e louca, desabei em lágrimas. E eu, que me sentia fraca, frágil quando chorava em público, passei a partir desse dia a respeitar mais minhas lágrimas.

Há uma naturalidade em desconsiderar a opinião e a fala de uma mulher. E os artifícios do discurso da esquerda para desestabilizar, desconstruir, desacreditar, desqualificar uma fala, principalmente quando é uma crítica, são sórdidos, mas eficazes. A gente mesma passa a duvidar do que está dizendo ou da importância de dizer aquilo naquele momento. “Será que era mesmo tão importante?”

Na madrugada de sábado revendo A Troca, um filme excelente do Clint Eastwood (qual não é?), me deparei e choquei de novo com a cena da personagem da Angelina Jolie com outra paciente no hospício em que falavam sobre a credibilidade da mulher ante um policial. Assistam:

Carol Dexter (Amy Ryan), 2:41:
“Todo mundo sabe que as mulheres são frágeis. Quero dizer, elas são instáveis emocionalmente, não são lógicas, (…). Sendo loucas, ninguém terá que nos ouvir. Quero dizer, em quem vão acreditar, numa mulher louca tentando destruir a integridade da corporação, ou num policial?” (tradução livre, minha)

Nesse final de semana, entre algumas conversas e essa cena do filme, me veio a dor daquela reunião do Coletivo Socialista lá de 1995, direto do túnel do tempo para o amargo na minha boca, só para me lembrar que nenhuma das bandeiras do feminismo foram superadas. Rosa Luxemburgo e Alexandra Kollontai teriam ainda mais trabalho com essa esquerda muÓderna de agora.

PRESTENÇÃO, PESSOAS! Quando uma mulher (ou outra minoria) falar de si num espaço político ela não está apenas falando, ela está rasgando o papel que lhe foi designado, está rompendo com suas amarras e com o status quo. Mais respeito, porque esse é um movimento político da maior importância: é um oprimido enfrentando sua opressão.

E da minha libertação me encarrego eu.

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Essa tal Democracia: o que é e para que(m) serve???

“A ditadura perfeita terá as aparências da democracia, uma prisão sem muros na qual os prisioneiros não sonharão com a fuga.
Um sistema de escravatura onde, graças ao consumo e ao divertimento, os escravos terão amor à sua escravidão”

(Aldous Huxley)

democracia

Estou com 24 anos de idade. Três desses anos, dedicados à militância e ao ativismo nas ruas e na internet em defesa de bandeiras que acredito (igualdade entre gêneros, combate à homofobia e ao racismo e democratização da comunicação, por exemplo). E é com perplexidade que afirmo: jamais imaginei que presenciaria, em pleno ano de 2013, eventos como as manifestações que ocorreram em nosso país.

Para elucidar a reflexão que pretendo propor, farei um breve resumo do que vivenciei e senti, particularmente, em 17 de junho, dia do 5º grande ato contra o aumento das tarifas do transporte público na cidade de São Paulo, organizado pelo Movimento Passe Livre. O desenrolar dos fatos, as mobilizações em nível nacional e a repercussão no mundo, creio eu, muitxs de vocês já sabem.

Assim como boa parte das pessoas do meu convívio, fiquei profundamente indignada com a truculência da Polícia Militar ao reprimir as manifestações. Eu não pude comparecer aos outros quatro atos porque era final de semestre na faculdade e tinha muitas coisas para terminar. No entanto, a causa que o MPL defende me representava ( e representa) demais para que eu deixasse de apoiar. Me organizei e fui para o Largo da Batata, acompanhada do meu namorado e de mais alguns amigos.

Era de encher os olhos. Um mar de gente. A Avenida Faria Lima completamente tomada pelos manifestantes. A multidão era tão grande, que quem ali estava ficava entorpecido. Eu mesma, confesso: me deslumbrei. Quase não tinha polícia. Tudo bem pacífico, como as emissoras TV adoram reforçar em seus noticiários. Acompanhamos o grupo que fez o trajeto Berrini-Ponte Estaiada ( previamente “desocupado” para a manifestação) e após a dispersão, voltamos para casa. E soube depois que o pessoal do MPL seguiu para a Avenida Paulista e que um pequeno grupo foi rumo ao Palácio dos Bandeirantes. Achei estranho isso, somado a um nacionalismo vazio que estava começando a dar as caras ali. Mas aquilo ainda não tinha sido o suficiente para tirar meu sono ou confundir a minha cabeça.

Como a revogação do aumento ainda não tinha acontecido, o 6º ato foi convocado para o dia seguinte, 18 de junho. E lá fui eu novamente, com namorado, amiga da facul e duas conhecidas, na Praça da Sé. Mas o clima estava mais pesado do que no dia anterior. Era muito ufanismo, nacionalismo exacerbado, pessoas bradando contra a corrupção ou a PEC 37 ( que já caiu antes mesmo de eu formular minha opinião a respeito), gente pedindo impeachment para a Dilma, galera contra a Coca-Cola Zero ou defendendo a volta do regime militar. Mas nada, absolutamente nada relacionado à tarifa. Tava mais para uma final de Copa do Mundo. E os manifestantes que carregavam bandeiras de partidos já estavam sendo rechaçados. Voltei para casa triste, confusa e com a sensação de ter feito papel de idiota por ter “endossado” pautas que não tinham foco. Ou até tinham, só que divergiam demais do que sempre acreditei.

Após a revogação do aumento em São Paulo, os atos continuaram e eu soube através de amigos, das redes sociais e de alguns blogs que tudo o que eu tinha visto no dia do 6º ato se intensificou de tal modo, que muita gente ( eu inclusa) temia que um golpe de estado pudesse ser articulado (porque o golpe midiático já estava em andamento, tendo em vista a forma “mágica” como a mídia tradicional passou a achar manifestções populares fofas, e a chamada massa de manobra ficando cada vez mais em evidência). E foi aí que confundi minhas bielas e parei de dormir direito à noite.

Hoje estou mais calma, mas não menos confusa. E tal confusão despertou em mim a necessidade de parar um pouco para pensar. Ainda que existam oportunistas de toda espécie tentando se apropriar e cooptar uma luta legítima para promover o caos em nome de interesses que não contemplam o povo, tenho consciência de que a maioria das pessoas que “acordaram” agora nunca tinha ido para a rua antes. Que a educação propositalmente defasada que receberam,  reforçada por (mais uma vez ela) uma mídia poderosa fez com que elas acreditassem que: política não se discute, que político é tudo igual e que nenhum partido deve ser capaz de representá-las.

periferiaPor isso, penso que meu papel, assim como o de quem se considera politizadx, esclarecidx e bem informadx seja, a partir deste momento, o de fazer um trabalho de formiguinha: tentar, aos poucos, conscientizar as pessoas de que vivemos em uma democracia sim, mas que só será plena quando um negro for tratado da mesma forma que um branco em qualquer lugar que vá; quando homens e mulheres tiverem EFETIVAMENTE direitos iguais; quando gays, lésbicas, bissexuais e transsexuais puderem viver livres de preconceitos; quando aprendermos a diferenciar liberdade de expessão de liberdade de ofensa; quando o pessoal que mora lá na periferia conseguir usufruir da mobilidade urbana e do próprio espaço público da mesma forma que quem tem carro; que reforma política se faz nas urnas, de preferência lembrando bem quem foi que ajudamos a eleger… Etc. (muitas eteceteras aí)

Eu mesma, sou bisca aprendente.

A Babi Lopes tem um excelente texto falando sobre isso. A Maíra Kubik também.

 

O jogo político

Por Niara de Oliveirajogo político

Mesmo o mais alienado dos cidadãos desse país percebe que vivemos momentos turvos e complexos no que se refere a direitos humanos e liberdades, coletivas ou individuais. Não é pior ou igual ao período da ditadura militar. Óbvio que não. Toda a luta da esquerda até aqui impulsionou — não tenho dúvida ou medo de atribuir isso à esquerda — melhorias na qualidade de vida para os mais pobres, desde a diminuição da taxa de mortalidade infantil e jornada de trabalho até o acesso a serviços públicos. Mas está longe, muito longe, de podermos relaxar, sob qualquer aspecto.

Apesar da propalada democracia, temos um Estado altamente repressor e coercitivo. Não há uma única manifestação nesse país, além das religiosas (e talvez isso não seja apenas coincidência), que não seja reprimida. Sempre as mesmas cenas: polícia batendo, jogando gás de pimenta, um aparato sempre desproporcional ao tamanho da manifestação e a “criação” do clima do terror, com policiais à paisana em meio aos manifestantes fazendo fotos, helicópteros sobrevoando, armas sendo exibidas, provocações, policiais sem identificação na farda. Não é de hoje que denunciamos. Não é de hoje que observamos.

Sempre que há uma “direitização” na política fica a impressão de um perigo iminente oferecido pela esquerda — ou pelo menos é isso que sempre tentam nos fazer acreditar. Foi essa a justificativa para o golpe militar de 1964: “o perigo comunista”. Reforçavam os golpistas e seus apoiadores o boato que os comunistas eram capazes de atrocidades e “nossos salvadores da pátria”, “honrados”, nos livraram dos “terroristas comedores de criançinhas” COMETENDO ATROCIDADES. Mas como isso ficou nos porões e os porões foram fechados, o boato ainda persiste.

Não estou dizendo que a esquerda é santa e boazinha. Eu faço parte da esquerda que nasceu criticando as atrocidades do chamado socialismo real (experiências socialistas que foram endurecendo e cerceando a liberdade e se burocratizando e, por consequência, se perdendo, deixando de serem socialistas). Somos todos humanos, vivemos numa sociedade estruturada sobre preconceitos e a cultura da violência. Sempre lembro que o único animal capaz de articular, planejar, elaborar e executar a maldade é o ser humano. Mas também que a única chance de nós, humanos, termos uma vida com o mínimo de justiça e paz é num sistema que tenha o humano como parâmetro, e não o dinheiro ou coisas.

“O liberalismo pensa estar defendendo o indivíduo quando nega a primazia do social, ou diz que uma sociedade é apenas um conjunto de ambições autônomas. O culto ao individualismo seria um culto à liberdade se não elegesse como seu paradigma supremo a liberdade de lucrar, e como referência moral a moral do mercado. Se não fosse apenas a última das muitas tentativas de substituir o Ser Humano como a medida de tudo, e seu direito à vida e à dignidade como o único direito a ser cultuado. Já tentaram rebaixar o homem a mero servo de uma ordem divina, a autômato descartável de engrenagens industriais, a estatística sem identidade de regimes totalitários, e agora a uma comodidade entre outras comodidades, com nenhuma liberdade para escolher seu destino individual e o mundo em que quer viver. Mas o indivíduo só é realmente um indivíduo numa sociedade igualitária, como só existirá liberdade real onde os valores neoliberais não prevalecerem.” — Luis Fernando Veríssimo, trecho de O Parâmetro Humano (crônica publicada em Zero Hora ao final dos cinco dias do primeiro Fórum Social Mundial, em janeiro de 2001, em Porto Alegre-RS).

O golpe militar não foi para conter a ameaça comunista ou para manter a ordem. Ele fez parte de uma articulação internacional que beneficiou os EUA na dita guerra fria. Nós éramos/somos o quintal estadunidense. Não acredite em mim, assista a essa entrevista do professor Enrique Serra Padrós falando sobre a América Latina, com foco na Doutrina de Segurança Nacional e Operação Condor nos vídeos 1, 2, 3 e 4. Ou seja, não estamos falando de política como discussão/decisão coletiva sobre a vida das pessoas, mas sobre interesses políticos que geram lucro e poder. As pessoas no meio disso? Danem-se! Aí, sim, os comunistas (na verdade qualquer um que ousasse questionar o processo) viraram ameaça. Não era só a luta quase ingênua e romântica contra a truculência e por liberdade. Era a percepção de todo esse processo e a organização (mesmo que sujeita a cometer erros) para tentar de alguma forma barrá-lo.

Se com liberdade de expressão e organização é difícil explicar isso para as pessoas — uma vez que no pouco e raso de educação que temos não privilegiamos a formação de cidadãos, porque ao capital interessa formar mão de obra obediente –, imaginem sem!

Não é que a luta por Direitos Humanos seja maior ou menor que qualquer luta. É que não deveríamos lutar por direitos humanos. A vida deveria ter valor universal em qualquer sociedade, e o zelo por sua manutenção obrigação de qualquer Estado e ideologia. As disputas e discussões políticas deveriam se dar a partir dessa garantia.

Os sinais do processo de direitização que estamos vivendo são evidentes. O que já era ruim em termos de direitos humanos, só faz piorar. Há uma ameaça comunista? Queria que houvesse, mas não. Há sim, interesses maiores em bens públicos nacionais. Enquanto nos debatemos contra pastores evangélicos que decidiram se aventurar na política para aumentarem seu poder e lucros pessoais e que refletem e evidenciam todos os preconceitos estruturais dessa sociedade, grupos muito mais organizados que a dita bancada evangélica aumentam a passos largos o seu poder de influência em todos os poderes (executivo, legislativo e judiciário) da República. O moralismo religioso é apenas cortina de fumaça para esconder um jogo de interesses bem maior. Tal e qual durante a ditadura.

Ameaçar direitos humanos conquistados nada mais é do que nos desviar de outra luta para voltar atrás numa luta já vencida. A isso se chama estratégia. Talvez no nosso caso seja um chacoalhão para acordar todo mundo que estava parado, alheio a banda que estava passando. O que me parece é que a banda estava passando descarada demais, alegórica demais, e antes que alguém mais percebesse…

O que temos a ver com isso? Eu, tu, o BiscateSC? Somos a moeda de troco/troca na barganha do jogo político. É a nossa vida, nossos direitos que são rifados nas negociações da macro-política. Se negar a pensar sobre política é abrir mão do direito de pensar e decidir sobre nossas vidas. Não adianta se reafirmar biscate com orgulho se permitirmos que as decisões políticas que definem nossas vidas sejam tomadas por moralistas retrógrados.

O triângulo aponta o caminho

Aviso aos Navegantes:a Renata Lins publicou este post (Meus 50 tons de…) que incendiou a imaginação d@s bisc@s deste nosso querido Club. Decidimos, pois, cada um@ tratar do erotismo como lhe apetece. Inclusos @s convidad@s. Será uma quinzena caliente não lhes parece? 

#Erotismo em Nós
O Triângulo Aponta o Caminho, Niara de Oliveira

Tenho mais facilidade de escrever sobre erotismo ou do erotismo em mim (acho que é a mesma coisa) quando estou solteira (ôpa! spoiler 1). Eu fantasio mais, digo muito mais besteira ao invés de fazer e é assim mesmo, fica muito mais na boca que no sexo em si, é mais pensamento e é mais verbal. Mas o fato de não estar solteira (ôpa! minha alma é da solteirice para sempre, então…) agora não me impede de fantasiar, erotisar e panz… Só diminuiu o ritmo do pensamento e a frequência, enquanto aumentou o ritmo e a frequência da ação. Ainda bem, né? Ui.

Além de andar mais ocupada na cama, ando mais ocupada no trabalho. Peguei um frila na campanha eleitoral (spoiler 2 – meio spoiler, né? mas ninguém precisa saber nomes ou partidos aqui) e passo meus dias com a cabeça ocupada com política e quase todas as noites com o corpo ocupado ou ocupando outro corpo. Enfim… Mas, para alguém que já confessou usar estratégia e ser troska na biscatagem isso não é ruim. Digamos que apenas mudei um pouco o foco, desviei o olhar, a atenção. A sem-vergonhice continua aqui, habitando este corpo e esta mente. Rá!!!

Foi no desenrolar desse trabalho que redescobri a alegria de biscatear no meio da política. Tá, não é biscatagem pra valer, no duro (ai, como eu gostaria de saber de perto da consistência do… bem, deixa pra lá)… É meio que platônico apenas. Atenção, bisc@s: Acabo de inventar a biscatagem platônica! Não sei vocês, mas pra mim erotismo (sem entrar no mérito se é erotismo ou pornografia) precisa de um objeto, de um ser objeto para erotisar.

E o objeto do meu erotismo nesse momento é um candidato, esquerdista e barbudão com uma largura de ombros, amigues, de fazer suspirar. O moço levanta da cadeira quando vai discursar e me leva junto pras alturas. Sabe comé? Ele termina suas intervenções incendiárias dizendo “vamos juntos” e eu sinto vontade de sair correndo na direção dele. Ai, ai… E a bunda? Melhor nem comentar. Já fiz até foto dele de costas. Sabem discurso inflamado? Então… Ele discursa e eu inflamo, molho a calcinha. (spoiler 3)

Dia desses uma colega lá do trabalho (eu trabalho na campanha de outro candidato — spoiler 4) mandou uma foto do barbudão sem camisa. Sério, só penso bobagem desde então. E toda vez que olho a foto imagino um triângulo, com a base explicitando aquela largura toda de ombros e a ponta indicando o caminho da felicidade, que eu imagino deva ser assim… mais inspiradora que todo o resto.

Dá até vontade de perder de vez os limites e lascar um “J’ai envie de toi” (“Tenho vontade de você. Te desejo. Como uma fruta. Pra morder. Pra beliscar. Pra pegar.” — Valeu, Renata!) pro moço.

p.s.1: Qualquer associação da figura do triângulo com o falo não é mera coincidência.

p.s.2: Com tantos spoilers no texto, achei melhor deixar a foto do barbudão esquerdista seminu só no link para não comprometer ninguém. hahahahahahahahahaha

Outros textos da série #Erotismo Em Nós:

Erótico Pornográfico, Bete Davis

Águas Femininas, Sílvia

Espera, Raquel

Inverno, Perséfone

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