Além do que se pode ver

Nós temos cinco sentidos. Aprendi na escola, cantando uma musiquinha com coreografia sobre nariz, boca, etc. Claro que não lembro mais da musiquinha e muito menos da coreografia. Sei dos sentidos. Cinco. Mas vivemos em uma era da imagem e, a reboque, o domínio da visão. Uma vez passei uns meses sem nenhum espelho (nem no banheiro, nem na bolsa, nenhunzinho mesmo) e as pessoas ficavam muito impressionadas. Como eu conseguia viver sem me ver?

Ser visto faz parte da construção de nossa subjetividade. É importante. Estrutura. Conseguir se ver também é mais que uma metáfora poderosa. Mas ficar limitado ao que pode ser visto costuma imobilizar. Essa situação se agrava, a meu ver, para as mulheres, a quem se imputa o lugar de enfeite, a demanda de beleza e perfeição estética.

Grande parte das mulheres cresce e vive insatisfeita com seu próprio corpo. Não porque ele lhe prive de alguma experiência específica, mas porque ele nunca parece bom e belo o bastante.  Aprende-se a espreitar com lupa as supostas imperfeições: olha lá a celulite; menina, engravidei agora o peito vai ficar cheio de estrias; gente e essa barriga? essa papada?; não posso mais acenar que balança tudo; olha só estou com cara de velha; alguém sabe um creme pra esconder olheiras? Eu poderia continuar indefinidamente, o corpo feminino parece inesgotável na sua capacidade de estar errado, isso porque nem cheguei em coisas como cor das axilas e plástica na vagina.

E é cada vez mais acessível a fixação desses supostos erros. Bem à mão estão cada vez mais máquinas que nos permitem captar e reproduzir imagens e espaços para cristalizar essas imagens. Filmadoras, máquinas fotográficas, câmeras nos celulares, televisão, youtube, outdoor, favorecendo o escrutínio público e a insatisfação particular.

Como resposta a esse desassossego sobre como nosso corpo (a)parece o que surge é a possibilidade de escamoteamento: sutiãs com enchimento, bundas complementares, cremes que disfarçam, cirurgias plásticas, photoshop. Dicas para tirar fotografias: deixa o braço longe do corpo pra afinar, tira foto de cima pra baixo (ou é de baixo pra cima?) pra não evidenciar o queixo, inclina o tronco não sei pra onde, estica a perna sei lá em que direção.

Eu não estou imune a isso e não é com superioridade que escrevo esse texto. Mas por uma série de fatores que nem vale a pena tentar re-conhecer, eu aprendi algumas coisas sobre meu corpo e a relação com ele que me fazem  bem e decidi partilhar.

Meu convite é pra gente de vez em quando fechar os olhos. Literalmente. Não é um convite do tipo “seja seu próprio padrão de beleza” ou “ame seu corpo” nem nada assim. Sei bem demais que viver é relacional. Que a estrutura garante que quem não se enquadra fique à margem. Que não haja roupa nas lojas, cadeiras nos aviões ou catracas que não constranjam. Que os empregos, os romances, os passeios, tudo pareça um pouquinho mais distante e difícil quando o que vêem de nós é algo que não se submete nem se limita ao que foi definido como aceitável.

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Meu convite é um pequeno convite à subversão. Tomar um banho se ensaboando lentamente, longe do espelho, deixando as mãos descobrirem curvas, veredas, permitindo-se sentir o prazer do toque. Cheirar o próprio pulso, o sovaco, a calcinha. Lamber os dedos. Sentir o gosto do próprio suor. Deitar nua na cama e rolar pra lá e pra cá. Sussurrar seu próprio nome muitas e muitas vezes e usufruir da sua própria voz. Gemer. Gente, gemer é ótimo. Massagear o pé. Comprar um daqueles ganchinhos e coçar suas costas. Passar o dia sem calcinha nem sutiã. Dançar pelada, deixar tudo balançar. Usar os outros sentidos e aprender sobre nós mesmos além do que aparentamos.

Meu convite é que a gente se permita ser conhecida também em braile. Que a gente se permita ser ouvida, lambida, tocada, esfregada, cheirada. Que com esse corpo que é sentido, não só visto, só então, com esse corpo fresco, redescoberto pelos outros sentidos, encostar no outro, esfregar-se no outro, entregar-se pro outro, pros sentidos do outro. E aí, quando estivermos em espelhos, vitrines, fotografias, possamos perceber o corpo não apenas no que ele falha, mas no que ele oferece e proporciona. Em todos os sentidos.

Entre soslaios e mais

Há sempre um desejo. Ali a espreita, observando. Podem ser pedaços de axila a mostra, com ou sem pelos. Um sorriso maroto, um sorriso farto, ou, ainda, um sorriso farto e maroto. Uma roupa vermelha, uma boca vermelha, uma unha vermelha. Pé descalço, pé sujo, dorso do pé. O desejo está – talvez – nas pequenas cousas que nos saltam às sinapses, aos olhos, ao olfato, ao sexo. Molha, incandesce, ruboresce. Um cheiro, de perfume a suor, quem sabe?

Transavam, sabiam caminhos já. Apesar de tudo, de todas as conquistas deste amor livre, do dar e receber quando as telhas – duas ou mais – resolvem se encaixar em vontades e libido, era bonito e obscenamente interessante aquela insistência. Da segunda vez já descobriram que existia uma pinta, sim, uma pinta, que quando tocada ligava um circuito todo de pele, falo, grelo, grelos, falos, peles. Usaram a língua e foi como se a linguística sempre estivesse a serviço dos corpos, para instinto e fome. Ou de saciar ou de crescer. Cacete, vulva, xoxota, pau, buceta, bigulinho. Já na terceira vez tinham ruelas com esses nomes em plena planície do umbigo. Ah… os umbigos…..

E o desejo, ali. Na espreita. Espreitando. Se esfregando. Se tocando. Se fodendo, todo. Teve um comentário sobre filme do Scola, despretensioso, nus, num intervalo qualquer, que entre a ternura e a delicadeza, deu ao desejo mais tempero, mais esfrega, mais toque, mais foda. Uma mão na bunda, um dedo no cu, uma saudade aqui e alhures, uma louca febre de andar pelados pela sala. Os sexos ali, esfolados, salgados, lúbricos e com gosto de hálito quente umedecido por lábios tenros.

O desejo ali, a espreita. Uma hora ele se levanta e vai embora, sabemos. Mas naqueles átimos universais, fragmentos da história, de civilizações, de escambos necessários: Gozo.

Feliz 2016. Este desejo também.

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Toca Sebastiana!

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Na semana passada li um artigo publicado na BBC Brasil sobre masturbação feminina e no quanto isso ainda é tabu na sociedade. Na Suécia até lançaram, em junho, uma campanha para inventar um novo nome para a “autoestimulação genital feminina” (ufa!). O escolhido foi “Klittra”, fusão das palavras “clitóris” e “glitter”, escolhido entre 200 sugestões recebidas pela Associação Sueca para a Educação Sexual.

A ideia da campanha é estimular a igualdade de gêneros. “Segundo um relatório da educadora sexual americana Debby Herbenick, 44% dos homens se masturbavam duas ou três vezes por semana. Entre as mulheres, essa proporção era de apenas 13%. Já um estudo espanhol, realizado em 2009, indicou que era muito maior a parcela dos homens que dizia ter se masturbado no mês anterior à pesquisa do que a de mulheres (46,9% deles contra 4% delas).”

O texto ainda destaca a influência da religião na busca do prazer feminino: “Nascemos com o corpo organizado para sentir, há funções específicas que são ativadas no momento de receber um estímulo agradável (…), mas as normas culturais e religiosas não permitem que as mulheres desfrutem de sua sexualidade na plenitude.”

A matéria não fala especificamente do Brasil, mas sabemos que não é muito diferente. Com a diferença que lá estão lançando campanha. Aqui, a gente continua sem nem falar muito sobre o assunto. Mesmo em grupos de discussão e rodas de conversa, masturbação feminina não costuma ser tema dos mais corriqueiros. Falamos pouco disso, inclusive com nossas melhores amigas.

Pois dialoguemos aqui. E minha maneira de falar sobre o assunto é começando por revelar que, sim, minha gente, eu me masturbo! Antes, preciso dizer que glitter na xoxota não é exatamente meu ideal de estimulação genital. Embora, sei lá, seja até bonitinho. Mas, tô mais é pruma licka licka, mesmo.

Ilustração de "Garota Sirirca"

Ilustração de “Garota Siririca”

E isso não tem nada a ver com insatisfação sexual. Tem a ver comigo e comigo mesma. E não sou muito dos brinquedinhos, não. Me regalo mesmo é com minhas mãos. E com os meus dedos. Principalmente de manhã.

Estímulos eróticos, como contos, me excitam bastante. Em geral, basta um tiquinho de putaria na web pra me deixar ligada. E, não, não tenho 15 anos. Tenho bem mais. Mas, é isso. Continuo facinha, facinha pra me excitar com bobagem sacana da internet. Ai, se meu google falasse! Estamos aí, tocando campainha desde a mais tenra idade. Poderia dizer que me masturbar me acalma, e é verdade. Me desestressa. Também é. Mas, faço é porque é gostoso mesmo. E dá-lhe tocar sanfona de manhã!

Aliás, concordemos que os suecos pensando que inventaram um neologismo com essa “Klittra” e a gente nem precisou de campanha pra criar a siririca! Até fui atrás da origem do nome. Vasculhei por aí e descobri no primeiro blog recomendado que “siririca” poderia ser, na verdade, “um termo técnico usado inicialmente por médicos pesquisadores do assunto, no qual siririca é sigla para Sistema Individual de Recreação Íntima ao Rostir o Indicador no Clitóris e Adjacências.”

Curioso. Mas, né. Rostir. Sei nem como conjugar na primeira pessoa.

Segundo esse mesmo blog, outra explicação é que siririca seria uma onomatopeia, já que o clitóris é conhecido por alguns como “grilo ou grilinho”. “Algumas pessoas acreditam que o som que o grilo (inseto) faz é resultado de um esfregar de patas. Logo, a siririca seria então uma onomatopéia ao som do grilo esfregando.”

Vai ver é por isso que curto tanto. Vivo atrás do cri-cri-cri da roçadinha!

Me dei por satisfeita com essas explicações e nem segui com a busca. Preferi fazer outras coisas com a inspiração. E dá-lhe lapidar a safira! Só discordo do blog quando fala que a palavra siririca é vulgar prum ato que não é. Mas, gente. Não acho uma coisa nem outra. Antes pelo contrário. É até fofa. E, puxa. Que mal tem se a siririca é vulgar? Será que aqui também teremos que criar um neologismo chique pra boa e velha masturbação?

Tem mesmo que chipar duas palavras pras pessoas se livrarem de seus tabus? Qual seria, no caso, usando a sugestão dos suecos? Glitóris?

:-/

Até a siririca precisa ser sexy?! Pois defendo a ideia de deixá-la o mais natural possível. Isso posto, que não seja extraordinária. Que seja mesmo ordinária. Cotidiana. Feliz. Livre.

Porque aqui, nesse blog, a siririca é a verdadeira sororidade!

Conheça mais de Garota Siririca

Todas Essas Coisas Sem Nome – 2o Capítulo

Esse é o segundo capítulo do livro de Raquel Stanick intitulado Todas Essas Coisas sem Nome. Sua primeira, única e artesanal edição encontra-se esgotada.

Os capítulos seguintes serão publicados quinzenalmente aqui no Biscate Social Club. As ilustrações utilizadas nos posts serão da mesma autora, vindas da série Ceci n’est pas un blog.

Boa leitura!

17

Entrei no chuveiro gelado. Esfreguei com força a boceta. Penteei os cabelos com raiva. Nunca pensei que no inferno era tão frio.

A estação continua. Ainda não choveu o suficiente.

Enquanto eu observo os galhos secos das árvores lá fora, lembro-me das veias nas mãos da minha avó. Eu fumo enquanto penso na minha avó. Se ela gostaria de você…

Olho minhas mãos com extrema atenção enquanto levo o vinho aos lábios e acendo um cigarro no outro.

Tenho andado aterrorizada com mãos que tremem e esfregam.

Sou apenas mais uma boceta no mundo. Num corpo que sente, pensa, e acha tudo tão ridículo. Meu coração está entre as pernas, você me contou e eu só queria o desejo de me tocar e enfiar-me dedos, mas é inverno, querido, é inverno.

Só consigo lembrar é da minha avó que já morreu.

E tornar a encher o cálice de mais vinho.

(link pro prefácio e primeiro capítulo)

Não faça e tenha sexo explosivo!

Beijo-Grego-Allison-Williams-Marnie-Michaels-

Amiga leitora Biscate,

da buceta peluda ao “que não fazer na frente do bofe”, a receita de sucesso de um relacionamento prazeroso parece não ter mudado muita coisa. Continuamos recebendo as boas e ~ infalíveis ~ receitas do bem viver, baseadas nos princípios do “não pode. Não deve. Não faça.”

Até dá pra fazer de conta que as dicas são democráticas, pra elas e pra eles. Mas, no fim do dia, as regras, amiga leitora, parecem existir só pra gente mesmo.  Pensemos aqui nas revistas, sites e colunas, na perspectiva da heteronormatividade.

Não deixe ele perceber suas dobrinhas.
Não deixe ele notar suas celulites.
Não deixe a depilação vencer.
Não seja tímida.
Mas, não desinibida demais. Deixe pro mistério.
Não seja muda. Fale palavrão, mas não muitos.
Seja lady. Seja puta. Mas, não muito.
Se solte. Mas, não seja mandona.
Assuma o comando, mas não deixe ele perceber.
Deixe ele perceber, mas finja.
Finja, mas goze.
Não seja tímida, mas não fale demais.
Fale palavrão, mas não deixe ele por baixo.
Seja bem resolvida com seu corpo, mas não deixe ele notar suas celulites.
Tenha orgulho das suas dobrinhas, mas não fique por cima.
Seja sexy. Não seja vulgar.

Agora, se você está pensando que só tem regra pra cama, amiga leitora Biscate, devo te informar que você é uma ingênua. Ouvimos rumores que tem pro chuveiro também. E se você quer a extensão da trepada lá no quadradinho do box, prestenção no índex. Mesmo que seja só pro banho mesmo.

Não pode fazer xixi.
Não pode soltar pum.
Não pode olhar pra ele.
Não pode deixar o sabonete entrar na buceta.
E o mais intrigante de todos: “água não é lubrificante. Portanto, nem tente.”

Aqui, suspeito que tem o mistério do inominável. Do sexo que não se pode dizer o nome. Mas, pelo que entendi, é sobre anal, né? É disso que se trata.

Não pode sabonete na buceta. Não pode água no cu.

Portanto, amiga, leitora Biscate, nem tente. Nem tente a buceta peluda. Nem tente dar pum. Nem tente não depilar. Nem tente fazer xixi! Nem tente olhar pro cara. Nem tente não olhar. Nem tente o chuveirinho. Nem tente querer transar. Nem tente dar o cu à secas. Ou à molhadas. Que agora fiquei confusa.

E viva a constipação e a colite! Que se dane. Apenas, finja que a ducha é uma cachoeira e sensualize enquanto lava o cabelo. É o que te cabe. É o que se espera. Deixe a mangueirinha pra ele. Fique no canto. Não seja espaçosa.

Esteja. Mas, não seja

E que tal nos anteciparmos, querida leitora Biscate, e irmos pra cozinha, então? Saiu do chuveiro, pensou em fazer uma boquinha e aproveitar pra dividir com seu boy esse pecado da madrugada. Obviamente, nada é tão simples quanto parece.

Listemos, pois, as regras pra cozinha.

Não pode objetos cortantes.
Não pode pepino gelado.
Não pode lavar a louça e trepar.
Não pode sujar a mesa.
Não se suje.
Não roube o sanduiche dele.
Não coma demais.
Não arrote.
Melhor nem coma.
Não beba água.
Não faça xixi (lembra?).

Geleia não é lubrificante.

Na próxima semana, querida leitora Biscate, falemos da lavanderia. Por via das dúvidas, já sabe. Ao contrário do que dizem, não pode na máquina de lavar. Ah, mas nem pense.

Tem dia que é pra assim…

Ok. Dispara o despertador. E tem dia que a gente quer pensar na vida, escrever, tecer. Refletir. Mudar de opinião. Olhar, perceber, escutar. E tristeza, alegria, dúvida, incerteza, amor, dor, calcanhar, joanete ou cefaleia e colesterol. Ou música, fossa, cinema, filme, bêbado, novela, livro, cabelo, rede, internetes e isso aí tudo que tudo é.

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Mas tem dia… ô se tem… que a gente só quer é sorrir.

Não queria ficar aqui com mais delongas. Mas o fato é que tua língua nos meus seios me leva longe, numa trilha fantástica que vai acabar explodindo o pinto, naquele jorrar porra – e a deselegância discreta ou não da ejaculação fora de hora. Sim, seios. Homem tem seios.

E não é só o pinto que fica duro. Tem o grelo também, aquela cousa que decifrada com a língua desmancha você toda, em uma pele arrepiada, um cheiro de sexo que tem um quê de suor, mas tem perfume outro que exala e aumenta volumes, eretos. Mulheres tem sexo ereto.

E tem a bunda ou o cu. Que sabemos, molha, umedece, enriquece e aquiesce. E agora, o que é que vamos fazer com todos esses conceitos caixinhas e tal e qual de seios, peitos, duro, molhado, papai mamãe? Não queria ficar aqui com mais delongas, mesmo. Vamos?

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Estopim. Estupor. Entro. Saio. Entras, sai. Coloca, enfoca, maneja, mistura, chupa, engole, gole, matreira, eira, beira, sacode. Entende. Estoura. Espoca. Enforca, descabela. Ejacula, ejaculas, ejaculo. Sorri.

Sorri… “ser feliz é bem possível“.

O sorriso é gozo, desconfio.

Templo

Por Maíra A., Biscate Convidada

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Primeiro, os olhos se arregalam com o choque tantos corpos de mulheres que circulavam completamente nus e à vontade. 15, 20 mulheres muçulmanas deitadas e sendo ensaboadas por outras mulheres. Depois, a diversão de me juntar a elas e me deitar numa pedra morninha, que imediatamente aliviou as costas e quase me fez adormecer. Os olhos fechados aguardavam o desconhecido do próximo momento. De repente, duas mãos fortes e vigorosas começam a esfoliar o corpo espumante e quentinho. Depois, os cabelos são ensaboados, os olhos meio cegos são direcionados a uma bica e a água quente é fartamente jogada na cabeça. Enxáguo o restante do corpo e os olhos, atentos e relaxados, aguardam numa sala de espera. E então, um momento de redenção: uma mulher espalha um óleo natural de laranja no corpo completamente entregue. Os olhos se rendem fechados, enquanto cada recanto do corpo é massageado e os ouvidos são embalados por canções em turco, cantadas quase que num sussurro agudo e afinado. O tempo cartesiano se perde completamente: 30, 60, 90 minutos? Só é possível perceber-me em transe, quase que como num ritual religioso. O corpo é templo num tempo perdido. A lógica é suplantada por momentos tão introspectivos e profundos do corpo, que a mente se revigora na atenção em suspensão, proporcionada pela ausência da palavra. Onde a palavra falha, o corpo se manifesta e é acolhido generosamente em atitudes de afeto gratuito, vindo de pessoas que não falam a minha língua, mas massageiam e embalam a minha alma. O hamam suspende as burcas, o fluxo do pensamento e me faz reavaliar a minha suposta liberdade ocidental. Simplesmente não consigo pensar em lugares coletivos em que o corpo seja não apenas exposto, mas acolhido e cuidado por pessoas desconhecidas, com quem estabeleço laços de de gratidão. Logo depois, brindo a oportunidade de ter experienciado este momento lindo, olhando pra vocês e muitas emoções sentindo. Obrigada, mulheres! Ou melhor: Teşekkürler, kızlar!

11655554_962417763789402_1559661885_nMaíra A. é linguista por profissão, feminista por atrevimento e alegre por esporte. Adora se reinventar e reinventar a maneira de ver as pessoas e o mundo.

Mesa Pra Quantos

Acordar é em lentamente. Não abre o olho, não primeiro. Antes, deixa a ideia se espalhar. Alonga as pernas, faz pontinha nos dedos do pé. Um suspiro de bom lhe afasta os lábios. Sente o pegajoso entre as coxas. O dolorido gostoso no corpo. Gosto de vinho amanhecendo na língua. O cheiro de cigarro em quarto de janelas fechadas. Na sala, um cd em repeat murmura, cansado. Estica os braços e esbarra em lembranças. Move o corpo para a esquerda, tateia lençóis, um corpo. Como um filme antigo mal restaurado, os flashes. Roupas empilhadas. Um pé que esbarra na garrafa de vinho. Língua na orelha. Língua no pescoço. Um corpo que se estende no sofá. Uma boca que chupa um dedo do pé. Uma mão que se encaixa entre coxas. Morder uma bunda. Ser lambida. Tesão. Peles que se roçam. Pernas que tropeçam. Uma boca, um pau, uma bunda, outro pau, um peito, uma axila, um cotovelo, um pescoço, uma barriga, um pau, uma buceta, um joelho, um pescoço, um ombro, uma buceta, um pau. Bocas. Línguas se entrelaçando. Línguas invadindo orelhas, umbigo, cu. Uma mão em um pau, um pau em uma buceta, um pau esfregando em outro pau, uma boca chupando ombros, chupando seios, os seus, os outros, uma mão na nuca, uma mão em outra mão. Dentes. Dedos. Saliva. Um corpo sobre. Um corpo entre. Um corpo fora. Um entra e sai, um aqui dentro, agora, vem, vem. Mais. Um gemido seu em outra boca. Uma mordida quase sangue no lábio. Uma mordida na barriga. Uns olhos abertos, uns olhos fechados, umas pernas abertas, uns braços abertos, uma língua em mamilos, um saco, chupar, sugar, lamber e um dedo lhe tocando firme, rápido, leve, seios roçando em suas costas. O gosto dela em um pau, em um dedo, o suor na sua língua indo pra língua outra. Roça. Penetra. Volta. Ruídos. Risos. Gemidos. Sente um corpo que se estende em suas costas, seios e pau duro, mãos nos seus peitos, um pau que vai e vem na sua boca, mordidas na bunda, nas bundas, mãos viajantes, saliva, suor, o gosto de pele, de pêlo, seu coração batendo no peito alheio, seu sangue latejando no ouvido outrem, unhas cravadas nas costas já não se sabe de quem. Em cima, em baixo, ao lado. Fora. Olha. Uma água? Quero. Vai. Volta. Mergulha entre. Um corpo na frente, um corpo atrás, uma alegria em volta.

café

Sorri, agora já é dia no olho aberto, levanta, veste uma camiseta que não lembra de quem, chuta sapatos no caminho, abre janelas, muda do cd para o rádio, acende o fogo, espreguiça, a primeira xícara fumegante é só dela, gosta dessa solidão matinal, um tempo pra ir se ajustando a ela mesma, dança um pouco, ri um pouco, coloca a mesa pra três, xícara, pão, queijo, manteiga, esse gosta de açúcar, a outra fala baixo e toma café pingado meio encabulada, fé cega, faca amolada, ovos mexidos? ovos mexidos. Na bandeja as frutinhas que só ela come de manhã. Já desperta, repara que ainda cabe pelo menos mais um na mesa do café. Gargalha com a sintonia, é pensar e, no rádio, Roberto Carlos se equivocar na conta:

Além da piscadela…

Tem uma música do Caetano que diz em um de seus versos algo como “eu retribuo a piscadela do garoto de frete do Trianon, eu sei o que é bom.”. Durante os anos de colégio, colégio classe média mas bem na média de São Paulo, era comum os meninos caçoarem Caetano: “é gay.” Aliás, a ofensa comum era a associada ao gostar de alguém do mesmo sexo: gay, sapata, bichona, marica. Demorou muitos anos para que eu entendesse o “eu sei o que é bom” e que retribuir a piscadela do garoto do frete pode ter pouca cousa, mas bem pouca mesmo, a dizer sobre gostar de transar com homens ou mulheres. Tem a ver é com prazer, com empatia, com desejo e do reconhecer que o sexo deve ser gostoso, ainda que a gente não tenha a experiência ali na hora, no instante, no momento seguinte ou que nunca venha a ter, ou querer, nada além da piscadela.

Menino aprende desde cedinho a reprimir. Menino não acha menino bonito. Homem não acha homem bonito. Homem não beija homem. Retribuir a piscadela do garoto de frete, então, é atestado.  É um mundo obviamente equivocado aquele que consegue admitir que uma criança possa jogar um jogo eletrônico com o objetivo final de cortar a garganta do “inimigo”, com o sangue jorrando pela tela, mas não possa olhar outro menino e achá-lo… bonito.

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Este tipo perverso de repressão é que todo olhar passa a ser expressão da libido, de um desejo sexual. Um beijo nunca mais será só um beijo, uma expressão de se gostar, de prazer, de carinho. Perdemos a capacidade de sentir prazer, de gostar, e do carinho pelo que os outros sentem – o que importa é nossa percepção e só ela. Ali na piscadela, sabemos, há um convite, mas há sobretudo a possibilidade de prazer do outro. Um prazer que sabemos que deve ser bom, mesmo que não seja a expressão do meu desejo, do meu querer, do meu tesão.

Toda a repressão, desconfio, tem uma intenção egoísta, que nos afasta do coletivo. Tenho uma triste intuição que estamos naufragando numa sociedade onde o coletivo está sendo é formado por egoístas, um medonho paradoxo que resulta nisso que vemos todos os dias: o bullying sistemático com quem está fora da ordem.

Devíamos ouvir mais Caetano. Como cesta básica.

NOTA DA GERÊNCIA: E ler este texto de outra biscate que tá por aí, por aqui, falando de cuidar de meninos.

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Umbigada e sal grosso

 

Dois mil e quinze anda a merecer carinhos. Sim, o ano. O ano todo, repleto dele. Disse uma de nós que estamos a carecer de sal grosso neste ano ímpar. O tal banho de: Para espantar agouros, olhados ruins, presságios, adágios de costumes e tralhas que carregamos, mesmo sem querer, ombros e ombros. Talvez seja verdade. Talvez…

Mas há carinhos ali nas esquinas, saudades e desejos. Num texto recente aqui no clube lembramos de nossa história e das bonitezas dela. Sim, tem lá uns percalços, uns escorregas. Mas tem muito mais esfrega, banho, amor, saliva, massagem, abraço, conforto, pertencer. Talvez o sal grosso todo.

Porque não tem sido razoável o mau humor lá fora. Como gente mimada e birrenta, o tal século vinte e uno se transformou numa ode aos próprios umbigos, estamos num mundo onde a regra é o do “não brinco mais” dos parquinhos infantis: as batalhas por aí tem sido travadas como fúrias sem fim, pontes são destroçadas como quem pisa em baratas – sim, baratas, sabe nojo de barata que faz até o budista mais zen sair para matar as feiosas? – e há um distanciamento cínico da elegância no trato. A rede social, tão bela pra algumas cousas, é um portal para o inferno do dane-se o que o outro pensa.

Dois mil e quinze é um pouco a adolescência chata deste século vinte e um. Repleta de neuroses, problemas mal cuidados, debates encalhados, a graninha firme no despropósito dos futuros incertos. Nós, as biscates – e não tenho problema algum em me definir assim, com artigo feminino – estamos aqui a convidar as pessoas para dançarmos, em bailinhos, rostos e corpos grudados, pois entendemos que cada vez mais são esses chameguinhos que podem tirar este século da modorra. Porque se a marca marcada deste dois mil e quinze é o umbigo, a resistência só pode ser expressar desejos, em gotas, suores, labaredas, gozos infindos. Um umbiguinho bem trabalhado, com língua, óleo para besunte, porra ou só um carinho é capaz de devaneios muito mais bonitos. Sal grosso, do bom pra churrascos…

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Vem com a gente, vem.

Música de molhar a calcinha

Ensaio "Beleza Real". Foto de Bárbara Heckler.

Ensaio “Beleza Real”. Foto de Bárbara Heckler.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

E nessa polêmica toda de “50 Tons de Cinza” estava era me lembrando que os livros têm trilha sonora. Se não me engano, fãs compilaram tudo, numa seleção clichê que inclui até “I’m on fire”, do Bruce Springsteen. Claro!

Mas, ó, nem critico, não. Provavelmente, é a menor das questões da trilogia. Sem falar que, né, este texto aqui também está beeem provido de lugar-comum. Inclusive, minha dúvida no momento é: tem como música de molhar a calcinha fugir tanto assim do obvio? Mesmo que você me apresente aquela canção delicinha de uma banda indie norueguesa, pode mesmo ser melhor que “Lets get it on”?

Ouquei. Admito que estou falando de trilha sonora de motel, que já provoca formigamentos pelas obvias ilações que sugere. Bota aí as de Sade, Nina Simone, Marvin Gaye, Al Jarreau, Billy Paul, que molho a calcinha com todas as versões algo meio cafonas de “Your song“. E seguindo o fluxo, há quem molhe com Astor Piazzolla e Gerry Mulligan e outros com Bryan Ferry, por quê, não?

E há quem alucine com “Besame Mucho“. Adoro demais “Samba para ti“, do Santana, mas, piro mesmo é com “Fogueira“, de Rô Rô. E o que dizer de “Tatuagem“, especificamente com Elis? Ou “Ne me quitte pas“, com Maysa, que é de fossa, mas pra mim de sexo?

Cartas de amor são ridículas. Será o tesão igual?

Eu tinha muito siricutico sublimado quando dançava música lenta nos bailinhos da turma do colégio. E aquele negócio de o menino passar a mão nas costas, a dança inteira, só no alise, e a gente ir se chegando, esbarrando os quadris e a parte de baixo de quando em quando?

E quando a dança deixava de ser dança e virava mesmo um abraço e uma carícia entre o cabelo e o pescoço, ainda mais com salão escuro, segundos antes do beijo, que nem sempre vinha, as vezes era só o sarrinho acanhando e um cheiro no cangote? E era bom. Bom mesmo.

Duvidar, sou capaz de sorrir safada até hoje se ouvir “We’ve got tonight“, que fez parte da trilha sonora da novela mais bafo do meu comecinho de adolescência. E a vozinha atrevida que soltava aos 11, 12 anos, quando cantarolava, me fazendo de distraída, sussurrando no ouvido do coleguinha “wo-ho, let me see…”, que só anos mais tarde descobri que era mesmo “from all that we see”?

Porque, né. A gente entende o que dá conta de entender. E fala o que convém na ocasião, fazendo o maior virundum malicioso dentro daquela ingenuidade toda. Eu nem sabia direito o que queria “see”, mas o “let me” saia assim, com sorrisinho nervoso de canto de boca, num pedido espertinho escondido no verso equivocado da música. Sim, amigues, sou das antigas. Já molhava a calcinha antes mesmo de vocês terem nascido.

Enfim, a maioria disso tem um cenário, uma lembrança, uma pessoa no meio ou várias. Mas, também tem aquela música que a gente se arrepia só de ouvir, do nada, não porque lembre alguém ou alguma situação, mas pela canção em si. Não tem?

Tem uma que me enlouquece, pela música mesmo, por essa interpretação maravilhosa. Tesão absoluto. Nem tenho memória específica de nada com ela, de primeiro namorado ou transa épica. É que acho a música fodástica (ui!) de verdade. Bom, se bem que tem esses dois juntos, lindos, tesudos, cúmplices, se querendo. É. Tem isso.

Como não gosto de complicar e posso ser bem evidente nas historias, e esse texto aqui é sobre obviedades, afinal de contas, minha melhor música de molhar a calcinha é esta! A de sempre. A de muitxs. Porque nessa vida, minha gente, tudo o que é gostoso começa mesmo é com Chico Buarque de Hollanda.

Segura essa, Christian Grey!

Não Perde Por Esperar

Por Ana Paula Medeiros, Biscate Convidada*

Uma hipersensibilidade. Um resto de TPM. Um tesão descontrolado. Precisa justificativa pra acesso de tesão? Não.

A mente inquieta, o corpo ardendo, se remexendo suspeito na cadeira do escritório, o fim do expediente ainda longe. Como o amante: longe. Outra cidade, alheio ao cio que me consome.

Um email do chefe. Respondido. A boca entreaberta, a respiração um pouco mais arfante do que devia, os olhos fitam o vazio. Longe. Outra cidade. Será que dá pra notar? Dois telefonemas para resolver assuntos institucionais. Uma reunião em meia hora. Os bicos dos seios duros por baixo do vestido de verão, a boca seca, as coxas úmidas, o pensamento longe. O amante, longe.

A tensão é insuportável e há um prazer sádico em deixá-la crescer, indomável, queimando as entranhas, ocupando as frestas do dia. O riso malvado e dolorido, por dentro, fala da fúria que exige satisfação. Mas não há carícia possível para aplacá-la. Só tapa, marca, dente, unha. Grito, fogo, gozo, alívio.  O amante, longe.

Ótimo pretexto para ir à academia (sim, ir à academia demanda pretextos, é uma obrigação). Mas nesse dia vai ser bom despejar o ímpeto todo nos aparelhos, queimar o tesão junto com as calorias na aeróbica.

Exercícios de braço, halteres, a imagem no espelho. Os ombros, o colo, as veias se mexendo no pescoço ao levantar o peso. E se eu estivesse nua? É assim que ele me vê, em músculos e movimento? Pisca, sacode a cabeça, espanta o pensamento vadio, sorri. Próximo aparelho, cadeira adutora. Regula o peso nas placas. Senta. Pernas bem abertas. Respira, faz força contra as almofadas e hastes, para fechar, bem devagar. Concentra no fortalecimento dos músculos internos das coxas. Inspira. Abre de novo. Abre mais. Cada vez que eu abro, ele mete os dedos em mim, rindo com os olhos. Me provocando, o sacana. Eu mordo o canto da boca. Sinto a cabeça girar, solto o ar devagar, num gemido quase inaudível, e fecho os joelhos com força, prendendo o corpo dele entre as pernas. Abro outra vez e é um convite. Sou eu que rio agora. Vem, mete mais. Três séries de quinze repetições.

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Chega. Melhor correr, cansar, prostrar o corpo em outra fadiga. A música alta no fone de ouvido marcando o ritmo acelerado das passadas na esteira, quase com raiva. Sem pensar, sem pensar, sem pensar, longe. Muito longe. Fora de alcance. Eu queria tanto. Hoje. Agora. Já. Não pensa, corre. Os dentes cerrados, no limite do esforço. Calor. O top encharcado, a camiseta colada por cima. O suor escorre entre os seios, pelas costas, um fio escorregando até o meio da bunda. O rosto vermelho, afogueado, o cabelo grudado na testa, na nuca. Aumenta a velocidade.

Exausta, as pernas bambas, os olhos esgazeados miram cenas de trepadas épicas, noites viradas, corpos melados, misturados, quentes, feitos do avesso. Bocas, línguas, pernas, mãos. Em séries. Muitas repetições. O coração bombeia o sangue com a força e o ritmo com que ele enfia em mim, eu aperto o apoio da esteira com força, fecho os olhos por um momento, epa, assim eu perco o equilíbrio. Respira, acorda, diminui a velocidade, os batimentos, aos poucos. Que merda. A ideia toda do exercício era gastar o fogo no rabo, sublimar o desejo. Não parece ter funcionado.

Início da noite. Está abafado e troveja. Podia cair uma chuva daquelas, grossa e quente, e eu caminharia feliz, a pele chicoteada pelos pingos, antecipando o prazer do chuveiro que me espera em casa, com algum alívio finalmente, solitário, sob a ducha. O amante, longe. Ele não perde por esperar.

AnaPaulaPBiscate

*Ana Paula Medeiros é mais amante do que esportista, mais flamenguista do que arquiteta, mais feminista do que parece, mais inquieta do que seria sensato. Se deixa doer quando dói a saudade, se deixa chorar quando as lágrimas pedem para sair, ri de si e do mundo e do estado das coisas no mais das vezes. Perguntada tarde da noite, quem sabe depois de muitas cervejas, ela ousaria dizer que talvez seja feliz.

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